Não são atos isolados – gaslighting: por que eles querem que você acredite que está louca

A melhor coisa que existe são amigas feministas, com quem aprendo diariamente não só sobre teoria e política, mas também – e talvez principalmente – sobre a vida. Hoje, cedo meu cantinho pra uma dessas mulheres maravilhosas que escreveu um texto daqueles que todo mundo precisa ler sobre uma das formas mais cruéis de tortura naturalizada da nossa sociedade da supremacia masculina: o gaslighting, abuso psicológico. Pra ficar ainda melhor, ela ainda nos faz um panorama da origem do patriarcado. É pra ler, mandar pras amigas, compartilhar nas redes sociais, enfim, vocês sabem o esquema. Sem mais delongas, com vocês, Camila Souza. LEIA MAIS.

 

O fim da Secretaria de Políticas para Mulheres no Rio Grande do Sul e o retrocesso que isso representa

O governador Sartori alega que redução de custos é a razão pela extinção da secretaria: “A decisão de cortar as secretarias não foi uma decisão administrativa, foi uma decisão política de um governo que não dialoga com a questão da garantia de direitos. Nossa secretaria era muito barata”, rebate Ariane Leitão. Segundo o Portal da Transparência do Rio Grande do Sul, em 2014 a Secretaria de Políticas para Mulheres gastou 4 milhões de reais. A Secretaria da Cultura, no mesmo período, gastou 36 milhões. A Secretaria de Desenvolvimento Rural, Pesca e Cooperativismo gastou quase 400 milhões. As secretarias da Educação, Saúde e Segurança, consideradas as mais importantes socialmente, gastaram em torno de 3 bilhões.

Ainda dentro da questão econômica, no dia 17 de dezembro de 2014 foi aprovado o aumento salarial do governador, vice-governador, deputados estaduais e secretários. Apenas levando em conta o salário dos secretários, que vai de 11,5 mil reais para 18,9 mil reais, em um ano serão gastos 4,3 milhões. Com o salário antigo e os 27 secretários do governo Tarso, esse gasto anual seria de 3,7 milhões. Vale também apontar que nenhum Cargo de Comissão ou FG foi extinto com o fim das secretarias.

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O protesto da Chanel e a apropriação do feminismo

O mundo da moda é carregado de unanimidades, o que já está implícito no conceito de “tendência” que movimenta o mercado lucrativo que esse tipo de expressão artística se tornou. Mesmo assim, a reação que Karl Lagerfeld suscita entre os profissionais do meio é assombrosa. A marca sob sua direção, Chanel, é reconhecida mundialmente com facilidade até por não iniciados no assunto, que foram atingidos pelo nome de uma forma ou de outra ao longo do último século – seja pela Marilyn Monroe falando que dormia com apenas algumas gostas do Chanel nº 5 ou pelo atemporal corte de cabelo inspirado na estilista que criou a marca. Por isso, a responsabilidade de renovar o estilo e criar tendências respeitando a essência da casa é imensa, mas Lagerfeld parece sempre responder à altura e o mundo da moda aplaude cada coleção que ele apresenta em produções espetaculares no Grand Palais, na semana de moda de Paris. LEIA MAIS.

 

Please, Disturb!

Com um nome auto-explicativo, a proposta do Please Disturb é bem clara: Causar polêmica. Porque aqui é só tiro, porrada e bomba mesmo. Okay, referêcias batidas a ‘beijinho no ombro’ a parte, eu estou aqui pra isso mesmo, acabar com o comodismo querido nosso de cada dia que Deus realmente nos dá hoje e sempre. Quando eu digo nosso, eu realmente quero dizer NOSSO, e eu tenho a intenção de usar esse blog como uma arma de não conformação em massa, para lutar também contra o meu comodismo. LEIA MAIS.

Lulu e Tubby: mais ferramentas a favor do machismo

Existem muitas outras coisas a gente deveria discutir. Não é só sobre o Lulu ser uma manifestação (disfarçada, claro) dos valores machistas, ou sobre o fato de que os homens ainda não fazem ideia do que nós passamos. Ainda é importante falar sobre a mercantilização das relações, sobre o fato de que o aplicativo é regido por princípios heteronormativos, sobre o fato de que as reviews anônimas permitem vinganças e dão vazão ao recalque na forma mais patética. Ou, como disse sabiamente a Monique Prada, “o Lulu não é um app para mulheres. É um aplicativo para lustrar os egos masculinos.” LEIA MAIS.

 

Masters of War ou “O Que Aprendi Na Semana Em Que O Brasil Parou”

Originalmente esse texto seria chamado de Masters of War porque no primeiro dia do Ato (e da violência), eu estava imersa em Bob Dylan e achei que a letra da música se encaixava perfeitamente com a situação que São Paulo vivia, com a ação da PM, que coordenada pelo governador Geraldo Alckmin, fez o que fez. Dia vem, dia vai, ordem vem, ordem vai, a situação em São Paulo muda, a violência troca de horário. Agora acontece durante o intervalo da novela das 21h. LEIA MAIS.

#PROTESTOSBR

O Brasil nunca dormiu e, por consequência, nunca acordou. Mas ele parou, isso é inegável. Nessas últimas semanas (pelo menos gosto de acreditar) nenhum cidadão ficou alheio à onda de protestos que começou nas ruas de São Paulo e se alastrou pelo resto do território. Esse é um coletivo que fala de muitos assuntos, essencialmente culturais, mas não podíamos nos ausentar desse importante momento histórico nacional. Fomos também às ruas e, com a contribuição de outras pessoas, tentamos entender e relatar o que vimos nesses dias de luta, mobilização e, por que não, confusão.

Mas, antes de tudo, os textos Catárticos:

Masters of War ou “O que aprendi na semana em que o Brasil parou”.

A revolução não pode acabar aqui.

# Roupas também são feitas para protestar.

# Mixtape: A rua é a maior arquibancada do Brasil.

Sangue nos olhos – músicas para dias de protesto.

Os relatos começam agora, mas continuaremos recebendo e atualizando essa página. Acompanhe aqui.

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Débora Fogliatto tem 21 anos, cursa Jornalismo na PUCRS e trabalha no jornal Sul21. Em Porto Alegre, ela acompanhou os protestos desde os começos da mobilização, no início do ano.

PORTO ALEGRE, 24 de JUNHO DE 2013

O primeiro protesto contra o aumento das passagens de ônibus do qual eu participei foi no dia 28 de março. Sete dias após o reajuste da tarifa ser aprovado, esse já era o segundo ato – o primeiro havia sido na frente da PUCRS, três dias antes. Saí do trabalho no centro às 19h e fui encontrar a manifestação. Me deparei com uma multidão marchando pela avenida Borges de Medeiros, no centro da cidade, cantando e trancando as esquinas por onde passavam. Segui eles, emocionada e impressionada. Eu nunca tinha visto nada com essa dimensão antes. Quando as pessoas começaram a sair nas janelas de seus apartamentos e aplaudir o movimento, meus olhos se encheram de lágrimas. Essa causa é importante, percebi imediatamente.

Quase três meses se passaram e minha sensação continua sendo a mesma. Desde então, eu fui ainda nos dois atos que aconteceram logo depois, no dia 2 de abril e no dia 5 de abril. O primeiro deles foi provavelmente o maior até então. E uma das coisas mais lindas que eu já presenciei na minha vida. O seguinte, debaixo de chuva, foi quase uma festa após a revogação do aumento ser anunciada.

O movimento se acalmou após a liminar que determinou a volta do valor de R$ 3,05 para o antigo preço de R$ 2,85. Poucas semanas atrás, com o anúncio de que as marchas seriam realizadas em outras cidades onde as tarifas aumentaram e com a ameaça de que a liminar caísse, a cidade começou a se organizar para voltar às ruas. No dia 13 de junho, um novo protesto aconteceu. Dessa vez, depois das manifestações em São Paulo. O ato fez parte de uma mobilização nacional e, como os outros, foi articulado pelo Bloco de Luta pelo Transporte Público aqui em Porto Alegre.

Seguindo a linha dos protestos no resto do país, esse foi mais violento do que os anteriores. A manifestação andava pela Avenida João Pessoa, um pouco depois do Parque da Redenção, quando foi surpreendida por bombas de gás lacrimogêneo jogadas pela Brigada Militar. Corri da polícia como nunca tinha feito antes. Apesar de alguns focos de tensão no protesto em abril, na Avenida Ipiranga, eu nunca havia estado tão perto da repressão policial.

A partir daí, parece que os protestos mudaram. Na segunda-feira (17), o início ainda foi bonito e tranquilo. Mesmo assim, já dava para notar que algo estranho estava acontecendo. Cartazes com reivindicações diferentes começaram a surgir, defendendo o fim da corrupção e da impunidade, causas que nunca tinham sido levantadas nos protestos anteriores. Parece que estava começando a sair da proposta inicial, que era pelo transporte 100% público e de qualidade. E estava mesmo.

Mais uma vez, a marcha foi reprimida pela polícia, dessa vez quando os manifestantes tentaram chegar na Avenida Ipiranga, perto do prédio do jornal Zero Hora. Eu ainda estava na rua perpendicular, a João Pessoa, quando comecei a ouvir as bombas jogadas pela polícia nos que estavam mais perto. Fiquei para trás, observando de longe. Então a maioria das pessoas começou a recuar e voltar em direção ao bairro Cidade Baixa, para o largo Zumbi dos Palmares, ponto para onde protestos e passeatas em geral costumam rumar. Segui junto, mas lá uma confusão começou a ocorrer. Ouvi falar de ônibus sendo queimados pelos manifestantes que permaneceram na João Pessoa, e alguns que estavam no largo voltaram para lá, só para depois retornar.

Na Avenida Loureiro da Silva, perto do Zumbi dos Palmares, eu vi uma das cenas mais absurdas de todos esses protestos. Uma taxista, uma senhora de mais de 60 anos, ficou assustada quando as pessoas começaram a trancar as ruas e acabou acelerando, furando o bloqueio dos manifestantes. Ela foi perseguida e, chutando o carro, os manifestantes fizeram ela parar. Com o táxi estacionado e um senhor que aparentava ter mais de 80 anos como passageiro, ela foi cercada por um grupo que a ameaçava e xingava de todas as formas mais machistas e ofensivas possíveis. Outras pessoas se aproximaram e começaram a brigar com os que estavam hostilizando ela. Todo esse tempo, a senhora permaneceu dentro do carro, de vidros fechados, chorando. Por sorte, os que chegaram depois conseguiram fazer com que os outros se afastassem e ela pudesse seguir.

No dia seguinte, deu para perceber que realmente as coisas estavam diferentes. Em São Paulo, os grandes jornais que antes tinham pedido pela violência policial agora defendiam os protestos. Em todos os lugares, pessoas que nunca tinham se manifestado antes agora queriam ir para as ruas reclamar de um milhão de coisas, muitas delas sem nem saber do que se tratavam – como a famosa PEC 37, que muita gente protesta contra só por ter ouvido falar que é a “PEC da impunidade”.

De qualquer forma, voltamos às ruas na quinta-feira (20) e foi aí que a situação ficou ainda mais estranha. Além da desorganização inicial, quando ninguém sabia para que lado ir, a marcha seguiu como se fosse uma passeata pela cidade. Poucos gritos e reivindicações eram ouvidos. A chuva também colaborou para que fosse ainda mais deprimente.

Quando vi manifestantes tentando pichar prédios, vaias e gritos de “SEM VANDALISMO!” tomaram conta do protesto. O estranho era que quem gritava isso parecia mais preocupado com o bem-estar do prédio do que da pessoa que estava pichando, que era hostilizada pela multidão. Ouvi relatos de pessoas que, ao depredarem lojas, apanharam de manifestantes que bradavam “sem violência!”. Em certo momento, eu vi um grupo de jovens com uma faixa do PSOL ser xingados por manifestantes que gritavam enlouquecidamente: “SEM PARTIDO! SEM PARTIDO!”, logo do meu lado. Fiquei preocupada: eu não queria marchar com essa gente.

Após mais repressão da polícia, novamente quando os manifestantes tentaram se aproximar da sede do jornal Zero Hora, a maioria decidiu voltar ao centro da cidade. Eu ainda permaneci observando os que resistiam, que construíram barricadas improvisadas com tapumes, antes de retornar para a praça Montevidéu, em frente à Prefeitura – exatamente onde a manifestação havia começado. Ali, vivi alguns instantes assustadores. A polícia sitiou o centro de Porto Alegre e cercou as pessoas na praça. Quando um grupo desceu a Avenida Borges de Medeiros, aparentemente depredando as lojas no caminho, a Brigada Militar desceu atrás e se iniciou mais um embate. Nesse momento, tomei a sensata decisão de ir embora pela única saída possível. Soube depois que a cavalaria chegou e alguns manifestantes responderam às balas de borracha jogando coisas nos brigadianos.

Cheguei em casa decepcionada. Da polícia, eu não esperava diferente. Mas do protesto, sim. Após ter presenciado os lindos atos que foram decisivos para a diminuição do preço da tarifa de transporte público, só pude sentir tristeza e medo ao ver a manifestação sendo raptada por causas completamente vazias, como o “fim da corrupção e da impunidade”. Na sexta-feira, começaram a surgir teorias conspiratórias, absurdas ou não, a respeito dos interesses dos grupos que haviam aderido aos protestos. Cada vez mais eu tinha a sensação de que no dia anterior havia marchado ao lado de algumas pessoas que não tinham interesses minimamente semelhantes aos meus.

Nesta segunda-feira, um novo ato está marcado na cidade de Porto Alegre. Eu ainda não sei exatamente como agir e nem a melhor maneira de me manifestar a respeito disso, mas tenho medo dos rumos perigosos que tudo isso possa estar tomando. Não gosto de ser precipitada, mas tenho a sensação de que cada vez mais essa causa tão importante que é o transporte 100% público está sendo engolida por grupos que se apropriaram do movimento. Infelizmente, o que está acontecendo agora parece cada vez mais distante daqueles protestos que fizeram a diferença na cidade de Porto Alegre três meses atrás.

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Jane Wolff é médica de Porto Alegre, militante do movimento sindical e foi envolvida com política por muitos anos. Ajudou a fundar o PT e esteve presente em diversos protestos e passeatas, inclusive no Diretas Já. Atualmente, é uma referência em assédio moral no trabalho no sul do país.

PORTO ALEGRE, 16 DE JUNHO DE 2013: Que país é este e que país queremos?

Diante de tantas expressões de protesto no país inteiro, vendo a juventude se manifestar contrariada com a passagem de ônibus, com a corrupção, com os gastos com a Copa do Mundo, e daí a luta por educação e saúde de qualidade, vida digna para todos e todas, “um outro mundo possível”, fico esperançosa. O que se ouve é que o Brasil acordou.

A brutalidade da polícia que perde o controle e comete abomináveis crimes por abuso de força bruta me estarrece. Nos idos anos da ditadura militar, de nossa longínqua história (nem tão longínqua assim), as manifestações tinham essa cara. E o abuso seguia ainda pior, pois levavam esses jovens a locais escusos e os torturavam, muitas vezes até a morte!

A situação nos obriga a negar a superficialidade dos fatos e buscar de uma forma mais reflexiva compreender o que está acontecendo.

Vivi a abertura política, as manifestações por Diretas Já que reuniu no mesmo palanque bandeiras de diferentes tonalidades, os comícios da esquerda. E, pouco a pouco, o nosso sonho de um mundo sem fome, com casa-comida-saúde-educação pra todas/os, começava a se materializar. Aqui em Porto Alegre o transporte público era um caos: ônibus estragando diariamente, lotados, precários e sucateados. Vence Olivio Dutra nas eleições municipais e ocorre a intervenção no transporte público em 1989 e dura até 1991! Nossa, que disputa com o poder econômico, mas após essa ação Porto Alegre conheceu um transporte de qualidade. Até nos esquecemos disso! Então desfraldar a bandeira do Partido dos Trabalhadores e cantar “nós não temos rabo preso e nem histórias pra esconder…” era um ato de amor a pátria! Pois sabíamos que existia corrupção, mensalão, mas que era chamado por outro nome e que a direita sabia e a imprensa também, mas guardava pra si… Por isso cantávamos com orgulho!

A eleição de Lula nunca foi aceita pela elite que sempre se beneficiara dos privilégios do poder. Agora uma ex-guerrilheira do VAR Palmares se elege presidente do Brasil! E parece a grosso modo que ela está perdendo suas convicções e abrindo mão dos seus e dos nossos sonhos. Mas… Temos críticas muito grandes a esse governo que não é mais de esquerda, mas de centro. Ainda bem que não de direita. Não nos deixemos confundir.

A disputa que está colocada nesse cenário, pelo menos pra mim, parece ser a disputa do CAPITAL. A disputa de dois projetos: um neoliberal com suas propostas vestidas com outras roupagens pra não escancarar que está a serviço de alguns e do LUCRO. E de outro a construção do “welfare state” que busca um estado de bem estar social de forma democrática, com políticas públicas efetivas que impactam sobre a vida da população.

Com a quebradeira econômica, alguns países europeus estão destruindo o estado de bem estar social de seus países pois precisam colocar em prática a política de austeridade econômica pra poder sobreviver. E nós no Brasil? Sentimos uma marolinha. Alguém já se perguntou como seria esse impacto sobre nossas vidas se tivesse vencido a proposta neoliberal? Seríamos terra arrasada!

A concentração de riqueza diminuiu sensivelmente, as cotas colocaram dentro das universidades pobres e negros que antes eram domésticas, jardineiros, porteiros etc. Todas profissões de muita dignidade, mas com pouco ganho de poder econômico! Impactos na vida das gentes. Não temos o SUS que idealizamos, estamos em construção! Não temos uma mansão, mas temos uma política habitacional séria. Sim, mesmo com mensalão, superfaturamento de obras, sucateamento dos transportes públicos.

Mas por que lutamos? Que mundo queremos? Precisamos estar atentos e garantir um estado DEMOCRÁTICO. Que uso a direita pode fazer com tudo o que está acontecendo e capitalizar para as próximas eleições? Precisamos estar atentos. Essa juventude que não tem filiação partidária, que se sensibiliza com a dor dos outros, que vai às ruas mostrar seu descontentamento precisa clarear afinal que país é esse que queremos. O pacato cidadão teve sua atenção provocada e não foi à toa não. Mas a direita conservadora está a postos pra transfigurar o movimento e traduzi-lo em benefício próprio.

André Gorz em seu livro “O Imaterial” faz um profundo debate, de forma simples, sobre conhecimento, valor e capital. A juventude está vivendo na carne a discussão que Gorz fez. Vamos retomar sua obra e nos questionar sobre a produção do conhecimento e da riqueza. As práticas alternativas são a negação do sistema, e se espalha pelo mundo inteiro. “Uma autêntica economia do saber seria uma economia comunitária na qual as categorias fundamentais da economia política perderiam seu valor e a força produtiva mais importante estaria disponível a uma tarifa zero. (…) A riqueza social é um bem coletivo (…)”.

Bem, a resposta ainda não sei: que país é esse e que país queremos. Pelo menos o que não queremos está sendo dito!

Vamos lá, quem sabe faz a hora não espera acontecer!

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Dos diversos amigos e conhecidos que participaram dos protestos nos últimos dias, Caio Nicolas Siqueira Cruz, aluno da FFLCH-USP que compareceu a 3 atos até agora, topou dar um depoimento sobre o que ele viu em 17/06/2013 na cidade de São Paulo.

SÃO PAULO, 18 DE JUNHO DE 2013

Fui pra casa de um amigo por volta das 14h. Lá nos preparamos para o pior, visto o que tínhamos passado na quinta-feira anterior: o massacre da polícia que rebanhava a galera para onde queriam que fôssemos e, de preferência, em grupos pequenos, e quem ousasse mover a multidão pra outro lugar era surpreendido pelo som das bombas de efeito moral e de gás lacrimogêneo.

Dessa vez a gente levou duas garrafas de vinagre por precaução e fomos à concentração com a galera no Terminal Butantã às 16h30, passando primeiro pela FFLCH-USP, num grupo grande o suficiente para fechar uma rua. Caminhamos ao Butantã cantando gritos de protesto, chamando o pessoal na rua para participar do Ato. Continuamos caminhando e fechamos somente um lado da avenida, enquanto os próprios manifestantes faziam questão de facilitar a viagem dos motoristas que passavam por nós, fazendo um cordão de contenção no fim da multidão, enquanto outros tentavam guiar os motoristas para outras ruas onde pudessem fazer o contorno.

Seguimos a Vital Brasil até a Ponte Eusébio Matoso e de lá fomos em direção ao Largo da Batata, onde foi possível notar que o grupo que havia saído conosco da FFLCH-USP havia aumentado o número em pelo menos dez vezes, e este número foi multiplicado por centenas quando chegamos ao Largo da Batata. Acreditamos que havia certa de 100 a 150 mil pessoas reunidas lá.

Ficamos no Largo da Batata esperando o horário combinado, 18h, para começarmos a nos movimentar. Nesse meio tempo os manifestantes não se acalmaram: A maioria do grupo era composta por pessoas entre 20 e 30 anos, que não cansava de gritar e balançar suas bandeiras. Você olhava em volta e não via fim na multidão. Foi bonito de se ver.

Nos prédios ao redor, pessoas com câmeras e panos brancos na janela, acenando para nós. Diferente do boato espalhado pela televisão, os panos brancos não simbolizavam paz e sim a participação dos que não desceram até a rua para caminhar conosco. Até mesmo um Drone – pequeno avião ou helicóptero não tripulado – foi usado para filmar a gente.

Li algo que me chamou a atenção e ficou na minha cabeça “A classe média sentiu nas manifestações o que a periferia sentia todos os dias” E isso sim é revoltante

Depois da experiência de quinta, eu me assustava com qualquer barulho, explosão e sirene. Ao ver a viatura da policia, percebi que não tinha mais aquela sensação de segurança, a impressão de que eles estavam ali só fazendo o trabalho deles de proteger os civis. Mesmo depois de ter visto na internet o depoimento de alguns policiais, alguns deles falando que queriam se juntar a nós, queriam ter a coragem que a polícia na Alemanha teve, mas há o medo de represálias por parte dos superiores, medo de não ter emprego no dia seguinte ou ser preso por desacato. Passo a acreditar na polícia como uma forma de fantasia, onde alguns entram com a esperança de proteger o povo, fazer da cidade um lugar seguro, um lugar melhor e acabam por ter de acatar a ordem de superiores que mantêm sua ideologia alinhada à época da ditadura, sendo a ordem geral: “Dispersa, custe o que custar”.

Enfim, caminhando do Largo da Batata a Faria Lima, andamos e cantamos durante horas. A única treta que rolou foi o pessoal exigindo que abaixassem as bandeiras de partido. Minha opinião sobre política, depois de tudo que eu vi, é a de que política e futebol são a mesma coisa: ninguém joga sozinha, jogam pelo time, e uma vez ou outra, um é escolhido para ser destaque.

Fiz parte do grupo que foi em direção a Berrini. No caminho quase não vimos viaturas ou policiais e quando apareciam, eles assistiam sem demonstrar nenhum indício de repressão. Acho até que vi um policial sorrindo pra multidão, como quem gosta do que estava vê. Já na Berrini a galera começou a cantar: “Que coincidência, sem policia, não teve violência”, seguindo para o ponto máximo do ato do dia 17, a Ponte Estaiada.

Neste ponto já havíamos andando de 4 a 5h, sem parar, a multidão não acabava, era muita gente, mesmo nós sendo apenas UM dos quatro grupos espalhados por São Paulo naquela noite. São Paulo que finalmente foi totalmente dos paulistas, fossem quem fossem ou de onde tivessem vindo.

Alguém gritou “TOMARAM O CONGRESSO NACIONAL EM BRASILIA!” e foi muita felicidade, foi muito simbólico pros políticos não esquecerem que não somos nós que servimos a eles. ELES QUE SERVEM A GENTE.

A galera dizia na multidão: “O movimento de hoje já entrou pra história” e “E eu fiz parte dela”. Quando todos têm um objetivo em comum, a galera se une pra valer.

Só que agora não podemos perder o foco, não podemos deixar as coisas acontecerem como se fosse carnaval, a galera tem que continuar pressionando para que haja mudança. Hoje teve um ato, minhas pernas doem até agora, estou sem voz, minhas costas doem, mas se houver um sétimo ato estarei lá, certeza, CERTEZA mesmo.

O maior movimento em 20 anos.

Provavelmente você esta se perguntado, o que aconteceu no Palacio dos Bandeirantes? Pois bem. Tinha uma multidão muito grande lá e eu que fiquei revoltado na quinta com a ação policial. Devo confessar que eles estavam mais tranquilos ontem, a galera subiu na faixada do Palácio para por uma Bandeira, eles deixaram. Utilizaram a conversa antes da repressão. Quando chegamos ao Palácio teve muita gritaria, muita cantoria, todos queriam acabar logo com isso queriam deixar sua marca na história de São Paulo. Então começaram a forçar os portões do Palácio enquanto alguns tentavam derrubar estes outros gritavam: “SEM VANDALISMO”. Mas confesso que também queria derrubar aquele portão pra servir como símbolo, pra chama a atenção do Brasil, queria que os policias lá dentro os abrisse normalmente, mas não aconteceu.

Era nítido que em SP a ordem era NÃO INTERVIR, não reprimir. Pois parece que meu discurso sobre a ação policial ser contraditório, mas se o que a policia faz na periferia é o que aconteceu na quinta feira passada, realmente a PM deveria deixar de existir ou ter um treinamento mais humano, ao invés de mais violento. Pois na minha cabeça ontem foi uma exceção em relação aos outros dias de manifestação.

Fui 3 vezes, duas delas senti o gás lacrimogêneo, 3 na verdade, mas já chego lá. Ouvi o som das bombas de efeito moral, vi as pessoas correndo desnorteadas sem ter pra onde ir, com medo, apavoradas, enquanto policias atacavam de cassetete, tiros de bala de borracha. Conheço ao menos 2 pessoas atingidas por essas balas, os dois levaram tiro do pescoço pra cima. Tenho a imagem nítida de terça passada, 11/06, de bombas em frente ao MASP subindo ao céus e descendo em nossa direção. Ou seja: ta difícil definir de que lado ta a polícia.

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# Caio foi convidado por Amanda, do No Soap. Você pode saber mais sobre ele através do seu perfil no Facebook.

# Jane e Débora foram convidadas por Clarissa, do Doce. Você pode ler mais impressões de Débora sobre o protesto em seu perfil do Facebook.

Créditos das fotos: Miguel Soll, Rodolfo Yuzo e Lost Art.