ENTREVISTA: Belle & Sebastian – “A música que você faz é um produto da pessoa que você é e nós não somos as mesmas pessoas dos anos 90″

Na década de 90 talvez seja Belle & Sebastian a banda que mais se aproxime de simbolizar o que poderíamos chamar de espírito de banda independente, posto que os anos 80 é, indiscutivelmente, dos ingleses do The Smiths. Contudo, diferentemente da trupe liderada pelo excêntrico Morrissey – ativa apenas por um período de 5 anos – os escoceses estão prestes a completar duas décadas tocando juntos, mesmo que ainda sejam, em grande parte do tempo, definidos pelos primeiros trabalhos.

Isso, contudo, não é algo que incomode a banda. Pra falar sobre isso, o disco mais recente e até política, bati um papo com o tecladista boa praça Chris Geddes por telefone, o qual está na íntegra abaixo:

Sobre o novo disco do Belle & Sebastian [Girls in Peacetime Want to Dance], experimentar com música eletrônica não é algo novo pra vocês, mas nesse disco algumas canções foram talhadas especialmente pra pista de dança. Foi uma coisa natural ou foi algo calculado?

 Não, acho que foi uma coisa bem natural. Nós usamos a música eletrônica antes, eu acho que voltando bastante no tempo, até no Tigermilk já tinham indícios de música eletrônica e no [The Boy With An] Arab Strap nós adicionamos muitos sintetizadores e baterias eletrônicas. No último disco nós também usamos bastante sintetizadores e baterias eletrônicas, mas, com o jeito que o disco foi feito, talvez não tenhamos dado tanta ênfase a esse tipo de coisa. Senti que foi muito natural, que foi guiado pela própria composição das músicas, a canção simplesmente sugeria aquele tipo de abordagem. Mas também as pessoas na banda, nós  temos feito mais coisas por nós mesmos, eu tenho tocado mais sintetizadores do que piano, por exemplo.

Uma das canções do disco, “Enter Sylvia Plath”, é bem diferente de tudo que vocês já fizeram. Pode me falar como foi compor e gravar essa faixa?

 Sim… Foi uma música escrita pelo Stuart [Murdoch]. Em termos do estilo, ele veio até nós com a canção e a primeira coisa que fizemos foi programar as linhas de baixo, então esse talvez tenha sido um jeito diferente de começar. Uma vez que tínhamos isso, só fomos tocando por cima, do jeito que normalmente fazemos. Eu acho que isso veio diretamente do Stuart na concepção mesmo da música, ele queria esse estilo, essa produção, então nós naturalmente fomos nessa direção.

 É na linha eurodance, certo?

 Sim, sim, tem um pouco de George Moroder, um pouco de ABBA e coisas assim, mas isso não foi feito conscientemente. Uma vez que nós começamos a tocar a música, as coisas foram caminhando. Foi como que se eu estivesse no órgão Hammond ou no piano buscando o som certo.

Esse disco traz coisas bastante pessoais sobre o Stuart, como o resto da banda se sentiu sobre isso?

 Acho que tiveram músicas do passado que me atingiram mais do que as que estão nesse disco. Nós fizemos uma música chamada “I’m Waking Up To Us”, em 2001 ou por aí, e se tornou bem óbvio na época que era uma música que o Stuart tinha escrito sobre a Isobel [Campbell, que deixou a banda em 2002], e ela ainda estava na banda na época e foi engraçado estar lá assistindo a isso tudo enquanto ela não estava dizendo nada e nós não sabíamos se era a hora ou lugar pra falar algo. Mas nesse último disco, em “Nobody’s Empire” [faixa que abre o disco], mesmo sabendo que é uma coisa muito pessoal do Stuart e sobre o que ele passou com a Síndrome da Fadiga Crônica, acho que ela foi escrita de um jeito tão não-óbvio que eu não percebi sobre o que ele estava cantando no momento em que gravamos.

 Então você não se sentiu um intruso ali?

Não, eu acho que não. Eu acho que o jeito que a banda geralmente trabalha é: alguém traz uma música, o cantor escreve as letras e adianta como vão ser as mudanças de acordes e tão logo nós começamos a tocar a música, você pode perguntar como a pessoa quer que você toque ou qual o contexto daquilo, mas raramente você pergunta à pessoa sobre o que ela está cantando ali.

Vocês tiveram no ano passado o Referendo sobre Independência da Escócia. Isso influenciou de alguma maneira a produção do disco?

Nós já tínhamos terminado o disco na época que o referendo aconteceu. Claro que a campanha do referendo não foi curta, foi uma campanha de 8 meses até a eleição. Eu acho que fez com que as pessoas em geral na Escócia ficassem mais interessadas em política e passassem a se importar mais com assuntos políticos, e talvez isso tenha entrado no álbum de uma maneira indireta. Eu não acho que tenha algo diretamente destinada ao referendo, mas era algo que a gente estava conversando entre nós, dentro da banda, e obviamente na comunidade de artistas a gente perguntava o que os outros estavam pensando, então obviamente era algo em que a gente pensava bastante.

E o que você achou do resultado do referendo?

Eu fiquei surpreso porque todo mundo que eu conversava, no meu bairro ou no Twitter, todo mundo pensou que o voto seria “Sim” (a favor da independência). No bairro que eu moro parecia que todo edfiício e janela tinha um cartaz de “Sim”, você não via nenhum poster pro “Não”, não conversava com muitas pessoas que expressassem vocalmente sua preferência pelo “Não”.

Você ficou desapontado?

Sim, eu fiquei. Eu fiquei desapontado pelo resultado e por ter feito com que eu percebesse que o grupo de pessoas em que eu vivo não é o reflexo da sociedade como um todo. Isso me choca um pouco.

Às vezes a democracia é dura, certo? (risos)

(risos) Sim, mas têm sido um processo bom. Quero dizer, o número de pessoas que votaram no referendo foi muito maior que o número que vota nas eleições gerais. Então serviu pra mostrar que as pessoas não necessariamente vão deixar a política de lado se você der a elas algo em que elas sintam que o voto delas faz diferença, e isso é importante. O movimento pelo “sim” também teve vitórias e assistir a esse grande movimento político acontecer foi realmente animador.

Ano que vem vocês vão completar 20 anos de banda, mas muitas vezes vocês ainda são definidos pela sua sonoridade dos anos 90. Isso te incomoda?

Não, de maneira nenhuma. Eu acho que nos consideramos tão sortudos por poder viver de música que enquanto tivermos isso… Quero dizer, o que a gente fez nos anos 90 não é algo para o que possamos deliberadamente voltar, porque você simplesmente não consegue, a música que você faz é um produto da pessoa que você é e nós não somos as mesmas pessoas que éramos nos anos 90. Significa muito pra gente que a música que a gente fez ainda se conecta com as pessoas e a gente ainda toca essas músicas ao vivo, essas músicas ainda se conectam com a gente quando estamos no palco. Eu ainda gosto de “Like Dylan In The Movies”, ainda parece fresca pra gente e eu não sinto que fazemos isso só pelo dever de fazê-lo. Então nos sentimos felizes com a nossa produção, ter gente do mundo inteiro escutando a nossa música e se conectando com ela. Nos sentimos muito sortudos com isso.

E nesses 20 anos que vocês estão juntos, vocês alguma vez consideraram acabar com a banda?

Eu acho que quase deixei a banda depois dos dois primeiros discos. Eu ainda era um estudante na época e eu sentia que eu estava sofrendo pra estar na banda e eu não tinha certeza que a banda estava indo numa direção com a qual gostaria de estar comprometido.

Quando foi exatamente isso?

Bem no começo, pelo final de 1997, começo de 1998, nessa época. E houve uma época que eu era bem próxima da Isobel e do Stuart David [baixista que ficou na banda até 2000] e houve um tempo que eu continuar na banda sem um dois seria impensável. Você chega a um ponto que você percebe que estar na banda e fazer música é tudo que você quer fazer e se tem uma pessoa que não quer mais fazer isso, tudo bem, é um direito dela, mas você não precisa acabar com a banda por isso. Então eu não acho que não teve um ponto em que todos ao mesmo tempo estivessem pensando: “talvez nós devessemos parar, acabou”. Eu não acho que nós alguma vez tenhamos atingido esse ponto, eu acho que sempre teve um grupo de pessoas comprometido em continuar.

E vocês viram de perto essa grande mudança na indústria musical com a internet e todo esse processo. Como você vê a relação das bandas e da internet?

 É complicado, não é? Eu entendo que quando você está criando música você está criando uma experiência e, com sorte, está criando uma conexão emocional com as pessoas que estão ouvindo seu trabalho. Nós viemos de um tempo em que o único jeito de obter essa conexão era por meio de um objeto físico, fosse um CD ou um LP. Então eu acho que para nossa geração talvez seja um pouco difícil se adaptar ao fato de que não é sobre o item físico mais. E quando você tira o item físico, é mais difícil ganhar dinheiro fazendo música porque o objeto é pelo que as pessoas pagam. Ao mesmo tempo, eu acho que todo mundo na banda está dos dois lados disso, todos nós usamos streaming e Youtube para escutar música e o fato de que toda música está disponível para nós escutarmos é fantástico, porque nós também somos fãs de música. Eu não sei se você viu isso, mas o Caribou fez uma playlist de 1000 músicas no Youtube, sabe? E eu tenho escutado isso pelos últimos dias… Até mesmo os discos que eu tenho nas minhas prateleiras, é complicado tirá-los de lá e colocar pra tocar, às vezes eu só os coloco no Youtube porque está muito mais à mão.

E tirando o Caribou, você escuta outras artistas “novos”?

Sim, sim, eu escuto um monte de bandas novas. Tem um disco de uma cantora chamada Jane Weaver que eu achei muito bom. Também uma cantora e compositora chamada Kate LeBon fez discos que eu gosto. Gruff Rhys do Super Furry Animal lançou um disco solo chamado American Interior que eu achei bem bom.

Eu gostei desse também.

Sim, sim! Ele chegou a tocar no Brasil ao vivo?

Não, depois desse disco ainda não.

Se ele for você deve ir vê-lo ao vivo porque é fantástico. E tem algumas bandas em Glasgow que eu acho que são muito boas também. Tem uma banda chamada Casual Sex meio pós-punk, meio disco, tem uma banda Gold Teeth que são muito bons também, tem um componente africano no som deles, um monte de ideias interessantes por ali. Então sim, eu escuto a um monte de coisas novas. Mas também passo muito tempo ouvindo discos antigos de som e de reggae.

E vocês tão vindo tocar no Brasil em outubro [dentro do Popload Festival], você se lembra de alguma história que tenha acontecido das outras vezes que vocês estiveram aqui?

Sim, vividamente! A primeira vez que fomos ao Brasil foi muito surpreendente, tocar pra um público que sabia todas nossas músicas e cantavam junto conosco enquanto tocávamos. Obviamente, você sabe, nós gostamos muito da música brasileira, das coisas da Tropicália e nós fizemos algumas versões enquanto estávamos aí. Estávamos no Jô Soares, o programa de TV, mostrando nossas tentativas de tocar música brasileira. Foi muito bom, mesmo.

Vocês tocaram Mutantes, certo?

Isso e nós tocamos a versão da Gal Costa de “Baby” do Caetano também.

Festival com bandas e local secretos acontece em São Paulo em julho

SOFAR SOUNDS (abreviação de Songs From a Room – nome do segundo disco do lendário cantor/compositor Leonard Cohen) é um projeto inglês que começou em 2009 e consiste em realizar shows intimistas de bandas e artistas para um pequeno público de convidados. A iniciativa, que teve origem em Londres, já aconteceu em 120 cidades pelo mundo, incluindo Nova York, Berlim e Paris, e já teve shows de artistas como Bastille, Karen O. e até do ator Robert Pattinson. O projeto está no Brasil desde 2012 e já aconteceu em 12 capitais, realizando de 8 a 10 shows por mês de artistas como Tiê, O Terno, Holger e outros.

E é essa mesma galera que vai ser responsável pelo SOFAR+ SECRETS no dia 12 de julho, das 15h às 23h, em São Paulo. O festival, que já vai pra terceira edição, acontece em um local secreto – anunciado apenas dois dias antes – e terá de 8 a 10 bandas na sua escalação, incluindo um grupo internacional. Entretanto, diferentemente do SOFAR SOUNDS feito para convidados que podem se cadastrar por uma chance de assistir às apresentações pelo site do projeto (aqui), o SOFAR+ SECRETS é um evento aberto ao público, com ingressos no valor de R$70 a meia-entrada com apresentação de carteirinha de estudante ou doação de um livro e que podem ser adquiridos nesse link aqui.

Além das bandas e o mistério, o festival ainda rola com food trucks, drinks, secret talks e DJs. E nessa edição a gente vai estar lá fazendo uma cobertura de tudo que rolar em tempo real.

 

SOFAR+ SECRET FESTIVAL @ São Paulo

Data: 12 de julho de 2015

Horário: 15h

Local: Secreto – revelado com 48h de antecedência

Line up: Revelado na hora

Ingressos: 1º lote: R$ 70 (antecipado) – meia-entrada mediante apresentação de carteirinha de

estudante ou doação de um livro / R$ 110 (porta)

Link: http://bit.ly/sofar_catarticos 

Censura: 18 anos

Informações: sofarplusbrasil@gmail.com

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ENTREVISTA – Björk: “O underground é a minha casa”

Björk dispensa apresentações. A islandesa apareceu pro mundo ainda nos anos 80, à frente do grupo Sugarcubes, mas foi em carreira solo que se transformou em uma entidade. Sua música, muitas vezes complexa e de vanguarda, chamou a atenção do grande público pela originalidade e beleza, duas características presentes até hoje em seu trabalho.

Em 2015, Björk teve um ano cheio. Além de lançar mais um novo disco, o dolorido Vulnicura, a artista teve a obra homenageada em exposição no conceituado MoMA de Nova York. Ali figurinos, esculturas e, obviamente, a música da cantora foram celebrados em quatro instalações artísticas no museu.

E para falar dessas e outras coisas, conversei, por telefone, com uma doce e simpática Björk, à época de férias em Porto Rico.

O MoMA preparou uma exposição sobre o seu trabalho e você também vai lançar um livro sobre a sua carreira. Pra mim, seu trabalho sempre foi sobre olhar pra frente, pro futuro. Essas iniciativas são um jeito de também celebrar o passado?

Pediram pra que eu fizesse a exposição antes e na primeira vez eu disse “não”. Tinha razões pra isso, é claro. Eu recebi mais pedidos ao longo dos anos e no fim eu decidi fazê-la. Eu acho que foi o meu amigo Antony Hegarty (Antony and the Johnsons), um cantor inglês, ele me disse que eu deveria fazer isso pelo som e eu deveria fazer isso pelas mulheres. Então foi por essas razões. Eles também me perguntaram se eu podia fazer uma nova instalação e eu tinha uma nova música com vídeo que eu poderia aproveitar.

E por que você disse “não” no passado? 

Por duas razões: eu não queria olhar muito para trás e também porque é complicado mostrar música em um museu visual. É complicado retratar minha música nesse ambiente, mas eu acho que nós tentamos oferecer uma série de soluções para isso. A exposição acontece em quatro locais diferentes e de alguma maneira são quatro formas diferentes de tentar se tornar “sônico” ou ter áudio em um museu. Basicamente esse tem sido o trabalho nos últimos dois anos, desde que estamos preparando isso. Trabalhamos com engenheiros em alto-falantes, em fones de ouvido, em como você poderia resolver. Mas então eu tinha que decidir dois anos atrás: “será que esse é um problema que eu estou disposta a resolver ou não?” e então eu decidi resolvê-lo. E também porque eu tenho um novo disco inteiro e ambas as coisas poderiam coexistir de alguma forma. Então eu acho que em um nível emocional isso meio que faz sentido.

Sobre o disco novo, o que você pode dizer sobre o título?

“Vulnicura” é latim e significa “aquele que carrega um ferimento” ou “alguém que carrega um ferimento”.

E eu penso que cada um dos seus discos tem uma história. Qual a história desse disco?

A história desse disco é principalmente sobre o fim de um relacionamento e de alguma maneira é um álbum de coração partido e o processo de cura depois disso. As seis primeiras músicas do disco estão em ordem cronológica. Não foi planejado, mas elas são a documentação de uma relação desmoronando. Então a primeira música é como se fosse oito meses antes, a segunda é cinco meses antes, a terceira é sobre um mês antes, a quarta é um mês depois, cinco meses depois e então dez meses depois. E então existem outras canções no disco após essa que são sobre outras coisas, mas as seis primeiras são um pouco sobre essa saga do coração partido.

E isso também tem a ver com a quantidade de teorias apocalípticas que temos ouvido ultimamente?

De que maneira?

Numa conversa com o filósofo Timothy Morton eu percebi que você menciona mensagens sobre apocalipse  e que você também fala disso em algumas partes do disco, isso influenciou de alguma forma?

Sim, eu acho que pra mim é difícil entender porque a maioria dos filmes de Hollywood agora é sobre apocalipse. E eu acho isso muito chato. Para mim a consciência, a alma da civilização ocidental, é muito patriarcal, isso existe, e sinto que ela está paralisada com culpa sobre todo o dano feito ao meio ambiente, mas ao invés de começar a trabalhar nisso e fazer algo a respeito, a forma como tratam é muito narcisista e cheia de pena de si mesmo. O que eu acho que é muito estranho porque foi a própria civilização ocidental que causou todos esses danos ecológicos. Então eu acho que é muito importante começar AGORA a definir que tecnologia vai funcionar com a natureza no século XXI no qual nós possamos salvar o máximo, e que ainda dê e transformamos isso em uma coisa otimista e criativa, sabe? E eu acho isso um pouco complicado… eu vi um filme chamado “Interstellar”, que gostei muito, mas ele também é assim, especialmente a cena na biblioteca, realmente tem essa coisa na qual o subconsciente do filme está paralisado com culpa e eles simplesmente decidem pegar uma nave muito, muito boa e ir para a próxima galáxia! (risos) Então eles não vão limpar a bagunça que eles mesmo fizeram. Eles só dizem “Ok, vejo vocês mais tarde!” (risos). Então eu acho que é importante… é perigosa essa onda apocalíptica porque ela é muito narcisista com um dose de pena de si mesmo dentro, o que não faz nenhum sentido, mas eu acho que é jeito humano natural de reagir. 

Você acha que é um jeito de abrir mão da própria responsabilidade?

Sim, eu acho que sim. Eu acho que você meio que torna isso uma coisa romântica que o mundo está morrendo e pobre de nós. É uma situação importante e nós não temos tempo pra ter pena de nós mesmo ou ter vaidade. É muito importante começar agora!

Nesse disco você trabalhou com o Arca e o Haxan Cloak. Teve mais gente envolvida?

Não. Na verdade na maioria do tempo eu trabalhei com o Arca, Haxan Cloak chegou mais no final como responsável pela mixagem. E foi muito mágico. Ele me contatou mais ou menos um mês e meio atrás.

Haxan Cloak ou Arca?

O Arca. E ele queria trabalhar comigo e era a hora perfeita pra mim. Ele veio até a Islândia e algo muito mágico aconteceu. E ele viria de novo e de novo e muitas vezes pra Islândia. E antes que a gente pudesse perceber, tínhamos o disco inteiro ali, foi muito rápido. Então tem sido muito mágico, uma das melhores colaborações que eu tive.

E você escutou o trabalho dele com o Kanye West? O que você achou?

Eu não escutei muito, não. Quando ele me contactou foi antes de eu ouvir a FKA Twigs, porque foi antes do disco dela sair. Então o que eu conhecia era na maioria música dele mesmo, que ele havia colocado online. E dessas eu gosto. Pra ser honesta, tinha tanta gente no disco do Kanye que era realmente difícil dizer quem fez o que, entende? Então não teve nada a ver com isso. Essa não foi a razão que eu quis trabalhar com ele, foi mais pela música dele. 

E eu acho que você é uma artista bastante colaborativa que está sempre trabalhando com gente nova e interessante. Essa troca parece ser importante pra sua música, por quê?

Eu não sei. Eu acho que eu tenho muito extremos, eu acho que eu também sou muito solitária. Tipo, eu escrevo a maioria das minhas músicas sozinha e a minha relação com a minha voz também é muito solitária. Então geralmente eu já escrevi a maioria das músicas sozinha e editei eu mesma no meu computador… nesse disco eu mesma fiz todos os arranjos de cordas, isso eu fiz tudo sozinha e exigiu bastante tempo e foi muito divertido. Mas há também um estágio em cada álbum em que estou pronta para colaborar e é mais pro final que chamo todos os convidados pra minha festa e a minha casa que eu preparei por muito tempo! Mas esse disco eu acho que até foi diferente. Alejandro, esse é o nome do Arca, chegou bem cedo e esteve presente em muito do processo. 

E quais são os seus pensamentos sobre a música pop mainstream atual, gente como Taylor Swift, Lady Gaga, Miley Cyrus?

Olha, eu não escuto muito, sabe? (risos) Eu sempre adorei gente tipoa  Beyoncé e a Rihanna e eu fico muito animada quando gente como Kelela e outras pessoas que eu realmente gosto se tornam mainstream. Mas eu não escuto muito ao rádio, pra ser honesta. Mas eu sigo sim o que tá acontecendo, só que na maioria das vezes eu to mais interessada nas coisas que acontecem às margens. 


Essa na verdade a minha próxima pergunta: você é uma artista grande hoje, mas você está sempre olhando pra música underground e eu acho que posso dizer que o underground sempre está olhando de volta pra você. Como você vê essa relação?

Eu acho que é muito natural, acho que o underground é a minha casa. Desde que eu era uma adolescente na Islândia, no nascimento do primeiro selo indie da Islândia… Tinha um selo grande na Islândia que estava sempre colocando música comercial no mercado e não havia nenhuma alternativa e nós pensamos “a gente precisa resolver isso” e sinto que tenho feito a mesma coisa desde então. (risos) De alguma maneira, não mudou muita coisa, sabe? Eu ainda tenho contato com esses amigos da Islândia com os quais eu comecei o selo, porque o selo ainda está na ativa e ainda assinamos bandas e coisas assim e e ainda é uma situação bastante semelhante hoje em dia, sabe, não mudou muita coisa. É sempre difícil pro underground sobreviver financeiramente, é muito raro que as pessoas queiram apoiá-los, mas por outro lado eu acho que é um ambiente muito mais seguro. Eu gosto muito do conforto disso, também, porque a maioria das pessoas no undergroung está fazendo isso pelo amor à música – eu não estou dizendo que as pessoas que são grandes não estão, porque um monte deles também está – mas eu acho muito romântico ir à uma loja de discos e conversar com as pessoas que trabalham lá. Nós podemos conversar por uma eternidade sobre as músicas que estão saindo e não importa realmente qual é a sua idade, porque pessoas de 95 anos ainda estarão muito animadas quando sair o que quer que seja…Então, no fim do dia é sobre amor à música, sabe? Eu acho que de uma maneira é muito confortável estar próximo às raízes. 

Você acha que a internet mudou muito a relação com a música?

Sim, claro.

Você acha que foi uma mudança pra melhor ou pra pior?

Eu acho que os dois. Eu acho que como em toda mudança é os dois. Eu quero dizer, era bom e ruim antes e é também bom e ruim depois e sempre vai ser assim. É só um meio diferente. Eu acho que todo mundo ainda está tentando entender como ele funciona e há alguma injustiça e falta de equilíbiro nisso e onde as pessoas vão querer se safar das coisas, ir o mais forte que conseguirem e ninguém vai pará-los e daí algum sistema vai ser implantado e com alguma sorte não vai ser inviável, então eu acho que é o mesmo tipo de história de novo e de novo. Você tem um período novo no começo em que tudo é excitante porque não há regras (risos) e alguns anos depois você tem que definir isso. E eu acho que esse é o caso com a internet.

E qual você acha que é o papel da arte nesse mundo pós-internet?

Eu acho que é o mesmo, sabe? Eu acho que não é possível sobreviver sem arte. Eu acho que é muito importante, mas eu acho que também era muito importante antes. O que acontece, eu acho que é da natureza humana, em todo sistema, foi o mesmo quando você tinha o mundo da arte, a indústria fonogáfica ou qualquer negócio, é sobre poder e hierarquia. E o que é meio mágica sobre a internet é que ela destroi a hierarquia, mas agora essa hierarquia está meio que sendo reestabelecida, então é interessante observar que papel cada pessoa vai desempenhar. Mas no fim do dia, arte, música – vou falar sobre música já que sou musicista – sempre vai ser um dos elementos vitais para os humanos. Não há como viver sem isso. E não é sobre hierarquia, sabe?

Um das suas novas canções, NotGet pra ser específico, fala sobre a morte. Você teme a morte?

Eu não temo muito. Eu acho que talvez seja uma coisa de mulher, eu acho que as mulheres não têm tanto medo da morte quanto os homens. Claro que eu estou generalizando aqui porque existem um monte de pessoas diferentes. Mas eu acho que mulheres, porque elas dão a luz e são mais emocionais, precisam mais se conectar com o resto do universo, é diferente. Eu acho que para os homens é mais complicado, sabe? Porque eles tem um relação muito diferente com nascimento e morte, é mais como uma ideia pra eles, não é tão físico, é mais como um conceito e a partir daí se torna mais assustador. Mas acho que nessa canção em especial eu estou falando sobre o medo da morte de um homem e talvez uma mulher entenda isso ao final de um relacionamento. Isso é pra ela, porque eu acho que pra um monte de mulheres as emoções são tudo. Eu acho que é mais sobre o fim de algo emocional e é mais dramático pra uma mulher do que algo físico que os homens temem. Então eu acho que é disso que eu estou falando naquela canção. 

E você disse no passado que você não se considera uma feminista. Isso ainda é verdade?

Eu acho que eu gostaria de fazer parte do feminismo do século XXI, eu ficaria muito feliz de ser incluída nesse movimento. Eu não me vejo como uma feminista do século XX, mas eu acho que elas lidavam com uma porção de problemas que foram resolvidos, sabe? Os quais eu acho que pessoas como eu nos beneficiamos muito. Pessoas como a minha mãe lutaram muitas batalhas que eu não tive que lutar, sabe? E eu aprecio isso, mas eu acho que é muito importante que, se você realmente respeita o trabalho feito no século XX, você deve continuá-lo e levá-lo a algum outro lugar e não repetir o século XX. Eu acho que isso é importante.

E a última vez que você esteve no Brasil foi em 2007. Você tem algum plano de voltar aqui no futuro próximo? 

Eu não sei ao certo, mas essa exposição vai a algum lugar na América do Sul*.

*Questionado sobre a possibilidade da exposição sobre a carreira de Björk vir ao Brasil, o staff da cantora respondeu que há negociações para que isso aconteça no segundo semestre de 2016.

ENTREVISTA: Thurston Moore – “Ser um rockstar é uma das últimas coisas que eu tenho interesse”

Thurston Moore teve um 2014 agitado. Depois de declarações de Kim Gordon – sua ex-esposa e companheira de banda – sobre o fim do casamento de 27 anos explodirem na imprensa, o músico americano resolveu lidar com o assunto da única forma que sabe: fazendo música e caindo na estrada. Foi assim que lançou o quarto álbum solo da carreira, o excelente The Best Day (meu segundo disco preferido do ano), o qual foi a base de uma turnê mundial que passou pelo Brasil no último dia 04 de dezembro fazendo o que foi, na minha opinião, o melhor show internacional no país nesse último ano.

À época eu tive a oportunidade de conversar com o guitarrista por Skype por quase uma hora para escrever uma matéria para o UOL (aqui). Obviamente, pela limitação de espaço, acabaram sendo publicadas apenas as partes mais importantes. Por isso, abaixo você pode conferir como foi o papo completo em que o músico fala sobre a vida pessoal, possível volta ao Brasil com outro projeto, black metal, internet e claro, Sonic Youth.

Eu acho que The Best Day é um disco muito bom. Você ficou satisfeito com o resultado?

Sim, sim. Um segundo. […] Desculpa.

Não, tudo bem.

Eu estou muito feliz com o disco. Foi uma coisa realmente mágica pra mim, de repente, ter uma banda como essa no meu mundo e gravar essas músicas que eu tinha composto. Foi muito agradável pra mim.

Você tocou o Steve Shelley (Sonic Youth) e Debbie Googe (My Bloody Valentine), eles também estão tocando contigo ao vivo agora…

Sim, é a mesma banda que está no disco! Steve Shelley, Debbie Googe e James Sedwards.

Como tem funcionado isso? Vocês se dão bem?

Sim, nós nos damos muito bem, nós meio que nos conhecemos através de amizades, eu certamente conheço o Steve do Sonic Youth (risos). Eu encontrei o Steve quando eu estava começando a escrever essas músicas e eu estava tocando um duo de guitarras com o James Sedwards e ele escutou as músicas e disse que tocaria bateria nelas se eu estivesse interessado e eu estava muito interessado! Steve foi quem teve que voar, porque agora eu moro em Londres, então ele foi quem pegou um vôo até aqui. E James e eu decidimos chamar a Debbie Googe…Bem, James e Debbie são amigos e eu conheço ela há anos porque o Sonic Youth e o My Bloody Valentine tocaram juntos desde o começo, nos anos 80. Então, nós ligamos pra Debbie pra ver se ela queria tocar, se ela estava livre. Eu sabia que o My Bloody Valentine tinha terminado a turnê de reunião deles e então ela disse que estava livre. Ela veio até minha casa, nós tomamos algum vinho, escutamos a música e, quando eu vi, os quatro estavam no estúdio juntos. E a primeira vez que todo mundo tocou junto foi no estúdio, com a fita rolando.

Por que você decidiu se mudar pra Londres?

Oh, por muitas razões. Muitas razões pessoais, principalmente. A mulher por quem eu estava…estou apaixonado mora em Londres e isso é o principal, eu queria estar com ela. Também eu senti que a minha vida estava passando por mudanças radicais, eu gostaria de ir a algum lugar que fosse novo, mas foi principalmente porque ela estava lá.

O texto de lançamento do The Best Day diz que o disco é baseado em “amor positivo e radical”, tem a ver com isso que você está dizendo?

Sim, definitivamente. Mas ao mesmo tempo, eu sempre tive paixão por escrever sobre amor radical, de qualquer jeito (risos). Só que dessa vez foi muito pessoal porque eu passava por uma mudança muito grande na minha vida e eu realmente queria celebrar esse sentimento, em oposição a escrever sobre perturbações que acontecem nas vidas das pessoas, mas ainda tendo respeito pela realidade disso, sabe? E é por isso que que tenho essa foto da minha mãe na capa do disco, quando ela era uma mulher jovem. Não sei se você viu a capa…

Sim, sim…

Então, aquela é a minha mãe. Ela estava no começo dos seus 20 anos, na água, com o melhor amigo dela, seu cachorro. E ela está olhando para a câmera do meu pai e ela está nesse lugar de serenidade e amor e, isso é durante a Segunda Guerra Mundial. Não é como se fosse uma utopia, mas ele está nesse lugar utopicamente seguro. E eu admirei isso e queria expressar isso, ao invés de qualquer sentimento de chateação. Eu acho que todo mundo tem o suficiente disso no seu próprio mundo, nós todos temos isso no nosso mundo real e não é como se eu quisesse fugir e fantasiar qualquer vida de felicidade fingida e posar como se tudo tivesse bem. Eu sei que as coisas nunca estão bem, mas, ao mesmo tempo, tudo pode ficar bem, não há razão pra que as coisas não possam ficar bem. Então eu queria focar nisso.

Não é exagerado dizer que seu último disco solo, Demolished Thoughts (2012), é um dos meus discos favoritos de todos os tempos. Foi o primeiro disco que eu dei à minha esposa quando começamos a namorar…

Que amor!

É um disco muito especial pra mim. E The Best Day é bom, mas muito diferente. Essa diferença está diretamente ligada ao seu momento e todas essas mudanças pelas quais você vem passando?

Tem que estar. Eu sinto que, pra mim, quando eu começo a escrever música é como um experimento, usando a linguagem e o som e eu não penso em nada a não ser o momento em que estou agora na minha consciência. Eu não gostaria que fosse apenas uma ego trip, também. Eu gosto que seja uma coisa aberta, que a música convide as pessoas a mergulhar e que elas também possam tomar aquilo que elas quiserem. Então eu não escrevo letras com um objetivo definido sobre o que eu quero expressar, eu gosto que as palavras simplesmente saiam, como uma expressão pura. Aguenta aí um pouquinho, tenho que pegar um negócio…

Eu estava pegando chá, nós tivemos um show bastante tarde ontem em Santa Cruz, Califórnia, estou me recompondo agora e eu pedi um chá, perdão.

Então, sim, esse disco é completamente diferente do Demolished Thoughts, que eram basicamente canções de amor que tentavam lidar, de várias formas, com essa ideia de como o amor muda de forma. E eu devia lidar com isso, porque era muito importante pra mim, mas eu não tinha certeza com o que exatamente eu estava lidando, sabe? De repente, eu não tinha palavras exatas pra dizer o que eu queria.

Você sempre esteve muito envolvido com ativismo social e The Best Day fala bastante disso, também. Como você vê o ativismo na era da internet? Você acha que ela mais ajuda ou atrapalha?

Eu acho que a internet é maravilhosa e importante pra conectar as pessoas com consciência sobre o que está acontecendo ao redor do mundo e em situações que há um desequilíbrio de poder, pra que nós possamos ver imediatamente o que acontece, como as pessoas indo às ruas em Hong Kong  e possamos imediatamente ver o que as pessoas tem a dizer, porque elas usam a internet pra se expressar sobre o que está acontecendo nas ruas. Isso é muito importante. E agora nós vemos o que acontece em situações de privilégios onde há abuso, de repente nós vemos situações como a polícia se aproveitando da situação de poder deles. E você pode estar muito nervoso, mas ao mesmo tempo você precisa ter um certo nível de maturidade, um nível de sensibilidade adulta porque nós sabemos que nem todas as pessoas em lugares de autoridade, nem na polícia, estão tentando abusar da posição deles. São só algumas pessoas, mas agora nós podemos monitorar essa situação como público com a internet, então eu acho que a internet é ótima.

Mas é também horrível, porque qualquer lunático pode usar a internet (risos). Então acaba se tornando uma batalha entre um monte de vozes diferentes. Mas você tem que entender que essa é a dinâmica do mundo de qualquer forma. Eu lido com isso o tempo todo, porque as pessoas escrevem coisas realmente horríveis nas minhas páginas de mídias sociais. E é como: por que você sequer pensaria em fazer algo assim? Eu nunca faço algo assim, eu jamais coloco um comentário horrível na página de alguém que eu não conheço. Mas nem todo mundo está dizendo coisas ruins.

Quando as pessoas pegam e escrevem essas coisas horríveis, você acha que é quem eles realmente são ou estão vestindo um personagem ali?

Eu não tenho ideia. Eu acho que é uma projeção das inseguranças das próprias pessoas. Não é nem mesmo uma questão pessoal porque você nem sabe quem são essas pessoas. A internet tem toda essa atividade de comunicação, boa, ruim, diferente, tanto faz…e é um verdadeiro tumulto, mas quando você sai de casa e vai pra rua, você não vê isso. Ninguém chega em você e tem esse tipo de conversa, ninguém fala contigo ou se expressa dessa maneira. Simplesmente não existe lá. De vez em quando alguém diz “ei, você viu o que falaram na internet?” e você ri e pensa “uau, a internet é tão fodida” (risos). Mas vivemos numa situação dupla, temos a vida online e a vida real e essa é uma força muito nova na humanidade, termos esse mundo online e o mundo físico e a relação é muito estranha. É uma relação muito estranha entre os dois mundos. Acho que é mais efetiva no ativismo, em que você pode juntar as pessoas e formar uma coalisão, como foi por exemplo com o Occupy Wall Street, que foi basicamente todo desenhado pela internet. E daí você tem políticos que tem grande sucesso usando a internet pra fazer campanha – certamente Barack Obama usou muito eficientemente a internet pra campanha à presidência, essa foi a primeira vez. Então é uma coisa incrível atualmente perceber essa transição maçante da vida online pra física.

E como você vê o papel da música nessa cultura da internet? Você acha que continua relevante ou agora é apenas algo reduzido? Como você enxerga o lugar da música hoje?

Eu acho que a música pode usar a internet tão bem quanto qualquer outra coisa pode usar bem a internet. Eu não acho que a música precise de nada, música simplesmente existe como a voz das pessoas. Eu não equaciono música e dinheiro, apesar de quando a música se equaciona com dinheiro isso se torna um problema, porque de repente você tem essas milhões de venda digitais pelo iTunes, Youtube, dando milhares de discos gratuitos por pessoas que não os pediram (risos). E isso é muito interessante, mas eu sempre achei que a música deveria ser gratuita, de qualquer maneira. O jeito de fazer dinheiro como músico é que você precisa sair e subir no palco ou ir tocar num canto da rua ou vender seu disco em uma barraquinha de merchandise. Ninguém disse que músicos precisam ser rockstars ricos, isso é besteira, quem inventou isso? É maravilhoso se você conseguir ganhar milhões e milhões de dólares, de euros, de libras, de batatas ou qualquer coisa (risos), seria divertido, mas eu não vejo isso como um objetivo ou uma ambição, isso é tipo ganhar na loteria, quantas pessoas conseguem isso com música? Eu me dedico à música em tempo integral e eu dependo da música pra ganhar meu sustento, então eu faço tours o tempo todo e eu aproveito as oportunidades quando elas aparecem. Se alguém diz “você pode fazer uma residência aqui nesse país por duas semanas e você pode pegar tanto dinheiro?” e geralmente não é muito dinheiro, mas você consegue pelo menos pagar o aluguel e estou bem com isso.  Pagar o aluguel, comer e gastar um pouco em lojas de discos e livrarias, eu tô ok com isso.

E o Sonic Youth nunca ganhou tanto dinheiro assim. Eu acho que quando nós assinamos com a Geffen pela primeira vez nós conseguimos ter acesso a um estilo de vida mais confortável, uma boa casa, Kim e eu pudemos ter uma filha, o que foi algo maravilhoso e nós pudemos ser responsáveis o suficiente pra alimentar essa criança e isso foi ótimo, porque não é todo mundo que pode fazer isso.

Eu costumo dizer que o rock não morreu, só o rockstar. E tá tudo bem.

Sim e ser um rockstar é uma das últimas coisas que eu tenho interesse e algumas vezes eu sou apresentado dessa maneira pela carreira do Sonic Youth ou qualquer coisa e eu entendo, é ok. Mas nessa altura do campeonato é bobo isso tudo, ser um rockstar. Se você vende muitos discos, se você ganha milhões, você é um rockstar. Se você vende muitos discos, eu te apoio, está tudo bem, é maravilhoso, você é muito sortudo (risos).

E você mencionou sua filha, sei que ela tem uma banda, chama Big Nils. Você gosta do som deles?

Sim, Big Nils! Eles eram fantásticos, mas acho eles não têm tocado mais. Era uma banda de quando eles estavam no Ensino Médio e agora eles todos estão em lugares diferentes. Minha filha está na Universidade e os outros estão em outras escolas ao redor do país. Então não, Big Nils teve uma rápida existência. Mas era uma ótima banda, eu vi eles ao vivo algumas vezes e mesmo que ela não fosse minha filha, eu teria amado a banda.

Falando de bandas que tiveram uma curta existência, o que aconteceu com o Chelsea Light Moving? Porque recentemente você lançou um clipe pra Heavenmetal sob o seu próprio nome.

Ah, sim, eu estava fazendo uma transição do Chelsea Light Moving pra minha carreira solo. E foi um projeto de transição pra mim, foi quando eu estava me mudando pra Londres, mas ainda em Nova York e eu queria continuar tocando música. Chelsea Light Moving foi a banda que estava excursionando em apoio ao Demolished Thoughts e no final da turnê e eu queria voltar a tocar mais guitarra, porque o Demolished Thoughts tinha a ver com violões e violinos e coisa e tal, e foi maravilhoso, mas eu comecei a ficar muito interessado em tocar guitarra novamente. E eu comecei a fazer isso, tocar músicas antigas do Psychic Hearts (primeiro disco solo de 2005), e me juntei com todo mundo e nós simplesmente expelimos um álbum inteiro em dois dias, foi muito rápido. Eu pensei que seria um bom projeto a se fazer, só lançar o disco, não fazer nenhuma entrevista, não ter o meu nome na capa e pegar uma van e partir pra tocarmos em qualquer lanchonete por aí e foi o que eu fiz por quase um ano e meio, enquanto eu estava tentando me mudar pra Londres. (risos) Foi louco, porque nós tocávamos em todo lugar como Chelsea Light Moving e eu estava tentando ser só um dos membro dessa banda. Foi um pouquinho difícil porque as pessoas sabiam que era eu e elas vinham até esses lugares bem pequenos e queriam escutar músicas do Sonic Youth (risos). Eu realmente amei tocar no Chelse Light Moving, foi um grupo muito rock’n’roll desde o início.

E você continua tocando músicas do Chelsea Light Moving ao vivo?

Nesse momento não. Tem uma música chamada “Alighted” que eu gostaria de tocar e eu acho que também podemos tocar “Heavenmetal”. Mas nesse momento só estamos tocando as músicas que estão no The Best Day e algumas do Psychic Hearts…

Nada do Sonic Youth?

Bom, Sonic Youth não está tocando agora. E ninguém assinou os papéis dizendo que nós estamos oficialmente terminados. A banda pode voltar depois que Kim e eu passemos por esse período e é um período muito sensível e Steve e Lee e todo mundo que trabalha conosco entende e respeita totalmente isso. Então nós só precisamos deixar o tempo definir o que o Sonic Youth vai ser. E o Sonic Youth pra mim sempre vai existir, porque Sonic Youth foi um nome que eu inventei e eu tenho Sonic Life tatuado no meu corpo e Sonic Youth sempre vai ser algo muito real no meu coração e na minha alma. Pra mim, Sonic Youth nunca vai se separar. Sonic Youth vai comigo pro túmulo.

Eu não vou perguntar nada muito pessoal, porque eu sei que é uma situação delicada, mas você acha que a imprensa te tratou de forma injusta no meio de toda a situação?

(Risos) A imprensa trata todo mundo injustamente. Poderia ter sido melhor, poderia ter sido pior. Eu não espero ser tratado diferentemente de ninguém que tenha algum tipo de perfil público e está envolvido com uma situação que é um pouco chocante para as pessoas. Eu esperava isso e algumas vezes as pessoas escrevem sobre as coisas sem realmente saberem da verdade íntima. Porque existe apenas uma verdade e essa verdade é muito íntima e pessoal entre as pessoas que estão envolvidas na situação. E todo o resto, todas as outras pessoas – a menos que eles estejam na minha família -, eles não sabem. Eles não tem ideia do que seja a história. E essa história é muito pessoal. E independentemente do que eu digo ou outras pessoas dizem ou alguém na minha família diria publicamente pra imprensa, não importa, porque ninguém nunca irá saber, tirando nós. Eu tive que levar de forma muito leve porque eu sei que ia se desfazer, como areia numa pedra, porque não significa nada pra ninguém. Quando eu vejo a imprensa tratar as pessoas que estão passando por situações similares à minha, não é algo que eu leve comigo pra fora do meu quarto. Tipo o Neil Young, o que ele está passando na vida pessoal dele, eu to cagando pra isso. É curioso, suculento, escandaloso, mas quando eu saio não tem nenhum impacto na minha vida, na minha consciência e no que eu faço ou como lido com as pessoas. Isso que importa.

O último show que o Sonic Youth fez foi aqui no Brasil. Você tem alguma memória daquele dia?

Era um festival imenso (SWU) e estava chovendo em algum nível. E eu me lembro que eu realmente não pensei como se fosse nosso último show, não era uma coisa grande pra mim. Eu pensei “ok, esse é o último show que nós temos marcado. E só Deus sabe o que vai acontecer depois disso”. Mas eu não pensei “esse é o último show do Sonic Youth pra sempre, tchau, adeus, Sonic Youth está terminado”. Isso não estava na minha cabeça de jeito nenhum. Era só o último show que tínhamos até algum aviso futuro, tipo “ok, vamos dar um tempinho agora” (risos). E eu ainda me sinto dessa forma, sabe? Sonic Youth foi a coisa mais importante da minha vida porque foi a minha vida. Eu tenho muito orgulho do trabalho que a gente fez, porque a gente gravou tanta música que, de um jeito, talvez seja bom dar uma parada e, se as pessoas quiserem, elas podem mergulhar um pouco mais nas nossas músicas, sem que a gente jogue nelas mais 20, 30 outras por ano (risos).

Vocês tem algum plano de lançar gravações raras ou que ainda não viram a luz?

Tem muita música existente e nós temos algumas ideias do que lançar. Eu sei que uma vez nós fizemos uma sessão em Paris, na França, com Brigitte Fontaine que é uma lenda francesa surrealista, feminista e avant-garde da música teatral dos anos 60 e ela fez um disco maravilhoso de improvisação livre com a Art Ensemble of Chicago no final dos anos 60 e nós trabalhamos com ela. Anos atrás nós fizemos essa sessão ótima com ela, quando o Jim O’Rourke estava na banda, e nunca foi lançada. E tem também uma ótima gravação em vídeo. Mas isso tem um monte a ver com gravadoras na França (risos), elas são proprietárias e coisas assim. Tem muita coisa ao vivo, também. Então tem muita coisa do Sonic Youth nos cofres, de uma certa forma.

Você lançou nos últimos anos sessões de improviso livre com gente como o John Zorn e Matt Gustafson, você tem trabalhado em algo desse tipo? Deveria fazer uma dessas no Brasil.

Matt Gustafson quer fazer uma turnê no Brasil comigo. Uma turnê na América do Sul comigo. Então, estamos pensando em fazer isso. Pra mim é uma música de muita entrega e eu acho ela muito espiritual, um tipo de meditação e seguir a musa totalmente. A ideia de composição torna-se muito espontânea, então é como uma composição espontânea. Nós estamos compondo ao vivo. Eu adoraria tocar essa música na América do Sul. E esperemos que isso aconteça logo.

Recentemente você fez alguns comentários sobre black metal que pareceram chatear alguns fãs. O que você achou da reação deles?

(risos) Eu achei surpreendente porque eu sou tipo um grande devoto e maluco por black metal. Eu venho colecionando e arquivando black metal underground em fitas cassete por anos, então eu acho que black metal tem um senso de perversidade nele que deveria permitir a alguém como eu dizer que black metal é música sem colhões, sabe? Mas muita gente levou isso pro lado errado. Eu achei engraçado porque ouvir e ser devotado ao black metal deixam você muito pouco sensível, você não tem o sentimento que pessoas comuns teriam (risos). Mas quando as pessoas ficaram chateadas eu me dei conta que existem muitos fãs sensíveis do gênero. E você não se desculpa com fãs de black metal porque a ideia de pedir desculpas não existe no mundo do black metal. Você só destrói (risos). Então é tudo que eu posso dizer sobre isso.

2014 marcou 20 anos da morte do Kurt Cobain. Como foi essa data pra você?

Eu realmente não sei o que dizer, exceto que eu me sinto muito sortudo de ter sido alguém que o conheceu. Eu não saía tanto com o Kurt, mas nós fizemos turnê juntos, duas vezes. Excursionamos os EUA e a Europa, que foi o que Dave Markey capturou naquele filme 1991: The Year Punk Broke e eu permaneci amigo do Kurt, ligava pra ele às vezes e conversávamos sobre gravar e tal. E eu fiquei de coração partido quando o Kurt tirou a própria vida. Foi devastador. Isso não é aceitável pra mim. Eu não tenho nada além de amor pelo trabalho dele e a pessoa que ele era. Ele era uma pessoa maravilhosa, muito doce, mas era também só um garoto normal, sabe? E aconteceu dele ser abençoado com uma voz de um anjo dourado. Eles eram uma grande banda, mas acho que se houvesse outro cantor naquela banda, não estaríamos aqui falando deles agora. A voz dele era mel vindo do paraíso. Ele veio até a Terra, fez esse grande trabalho e partiu imediatamente. Pessoas como ele, Jimi Hendrix, John Coltrane, Janis Joplin, pessoas que vem até aqui, criam esse fogo tão bonito e desaparecem. E isso acontece às vezes. Pra mim, eu me sinto muito grato de ter conhecidos essas pessoas.

E algumas pessoas que você conhece, à medida que você vai envelhecendo, morrem. É uma coisa natural. Isso te afeta? Você costuma pensar sobre a morte?

Não, eu nunca penso sobre a morte. As pessoas que eu conhecia e que se foram, no mundo das artes, eu penso sobre isso, como é gratificante ter conhecido pessoas assim e pessoas da minha família, que eu amo, mas essa é a realidade. Eu não penso muito nisso, porque eu tenho uma opinião muito budista, eu vejo como um estado de permanência, uma constante transição e eu não temo isso. Tem o mistério e eu não me importo, eu gosto de mistério e, pra mim, eu não tenho nada além de respeito, porque é a única coisa além do nascimento que todos partilhamos, então eu realmente não penso sobre. Eu adoro ler e cantar sobre isso, sobre rituais, sobre celebração disso, como no Dia dos Mortos que acontece no México que é maravilhoso, e eu acho que é algo que deveria acontecer em um processo de amor e paz. Eu não gosto da ideia de morte acontecendo de forma violenta e acho que essa deveria ser uma ideia que todos se opusessem, então, isso é importante pra mim.

E você vai tocar aqui em Dezembro. Animado? O que podemos esperar?

Vocês vão ver uma banda muito boa. Sou eu, Steve, Debbie e James e estamos matando a pau nesse momento – falando em morte… (risos) E vocês verão um post-punk-death-rock bastante pesado. Eu to muito animado em ir ao Brasil, eu sempre amo ir aí. São Paulo, Rio, duas cidades extremamente diferentes. Eu não tenho nada além de amor pelo Brasil. Pra mim, alguns dos melhores trabalhos musicais de todos os tempos saíram do Brasil. Toda a Tropicália, algumas das músicas mais importantes que já foram gravadas, eu amo toda a tropicália clássica, Caetano, Nara. Gal Costa é genial. Eu acho que muito disso teve a ver com os anos 90 e 2000, quando as pessoas tiveram condições de redescobrir as gravações online ou em reedições em CD. Então de repente, todo mundo podia ouvir essa música. Mas eu tive contato com ela pela primeira vez através do Arto Lindsay e ele estava numa banda chamada DNA e ele falava da música brasileira e o jeito que ele cantava no DNA e no Golden Palominos, ele tinha essa bela voz-em-samba e eu sempre fiquei muito curioso sobre isso e ele contava da beleza da brasiliana e tropicália. E tão logo nós achamos as gravações, nós nos deliciamos com aquilo, engolimos, bebemos e foi lindo, lindo. Nós íamos a São Paulo, íamos nas lojas de discos e voltávamos com quaisquer discos que nos intrigasse e escutávamos essa música o tempo todo. É também um estilo bem diferente, não é algo que empregue na minha música constantemente, então o que eu mais tiro dessas músicas é a poesia que há no balanço de música e ativismo que eu escuto em muitas das músicas da Tropicália. E eu acho isso maravilhoso, essa carga que a música tem. Eu acho muito importante as pessoas terem esse tipo de música em seu mundo.

Os meus discos preferidos de 2014

Listas sempre dividem opiniões. Para mim, elas servem, principalmente, para descobrir discos que possam ter passado despercebidos pela enormidade de lançamentos ou mesmo relembrar outros que, por algum motivo, se perderam na memória. Entretanto, eu considero que discuti-las é sempre divertido, ao passo que tentar questionar ou invalidá-las é perda de tempo. Elas sempre refletem, puramente, uma opinião – de uma pessoa ou publicação.

Por isso, diferentemente do ano passado, não batizarei essa lista de fim de ano como os melhores e sim como meus preferidos. Porque música está longe de ser uma ciência exata e, mesmo que crítica e argumentação tenham o mais profundo valor, no fim das contas a opinião definitiva sobre o valor de um álbum ou artista é suaSe alguma música te toca, te deixa feliz, te faz sentir menos sozinho ou de alguma forma torna o fardo do dia a dia mais leve, já é motivo mais que suficiente pra ter carinho por aquilo, afinal, para a grande maioria das pessoas música é apenas uma maneira de desaguar as preocupações cotidianas. E nenhuma crítica tem – ou deveria ter – o poder de desconstruir esse sentimento.

Em se tratando de preferências pessoais-musicais, 2014 foi um ano bastante generoso comigo. Foram tantos bons lançamentos que não foi incomum, ao repassar o que havia saído,  ficar com a estranha sensação de que determinado álbum não era desse ano, tão soterrado por outros (bons) discos estava a lembrança. No fim, apesar de sempre divertida, a tarefa de escolher só 20 álbuns foi dura. Poderiam facilmente ser 50. Então, se alguma banda esperada por você não estiver na lista, não necessariamente significa que eu não tenha gostado. Aproveite e faça também a sua lista.

Sem mais blá blá blá, esses são meus 20 discos preferidos de 2014, em ordem decrescente. No final, há uma playlist com uma música de cada um deles (exceto dois):

20. Cloud Nothings – Here and Nowhere Else

Cover

Como eu já havia escrito antes sobre o disco: “Raiva. Se tem uma palavra que pode definir o disco do Cloud Nothings, Here and Nowhere Else, é essa. Rápido, agressivo e deliciosamente construído sobre guitarras distorcidas, é um bom lembrete do porquê o rock sempre foi capaz de atrair jovens. O próprio título traduz bem a sensação de urgência cortante que dá o tom do álbum. Mesmo as faixas que começam calmamente, como Psychic Trauma, logo são tomadas por um emaranhado de distorções, tons de bateria e gritos. Com 8 faixas quase sempre curtas (todas tem menos de 4 minutos, à exceção das duas últimas), é ainda melhor que o disco anterior do grupo, o bom Attack on Memory, produzido por Steve Albini (Pixies, Nirvana).”

Link para o disco completo: http://bit.ly/1rsT7s7

19. Dean Blunt – Black Metal

Dean Blunt Dean Blunt faz música estranha. É a definição mais próxima que eu encontro para o som do inglês que foi chamado pelo Guardian de “o elo perdido entre Ariel Pink e Aphex Twin”. Ex-metade do duo de música eletrônica Hype Williams (nada a ver com o famoso diretor de vídeo clipes), Blunt chamou a atenção com seu excelente disco do ano passado, The Redeemer. Black Metal é diferente do antecessor, mas ainda bastante digno de nota, com uma pegada lo-fi e guitarreira que pode interessar especialmente aos fãs do indie rock dos anos 90. Embora musicalmente pouco tenha a ver com sub-gênero homônimo, a impressão que fica após ouvir o álbum é de que o senso de humor ali só poderia vir de alguém tão problemático e introspectivo quanto metaleiros nórdicos que queimam igrejas.

Link para o disco completo: http://bit.ly/1pDAlgy

18. Electric Wizard – Time to Die

Electric WizardSe você fizer uma pesquisa rápida sobre o Electric Wizard, as chances de encontrar alguma comparação com o Black Sabbath é imensa. Obviamente, não por acaso. A banda inglesa da década de 90 é expert em riffs lentos, mas poderosos e faz cada nota soar com um suspense que não desapontaria Alfred Hitchcock. O nome e a capa entregam que esse não é o melhor dos discos pra se ouvir em um dia ensolarado enquanto cantarola pelas ruas da sua cidade, mas é perfeito se você estiver no clima de imergir na escuridão que todo mundo carrega em si. Escute alto. Você vai achar bons motivos para sorrir.

Link para o disco completo: http://bit.ly/1pDIGko

17. Fumaça Preta – Fumaça Preta

Fumaça PretaExistem poucas chances de você já ter ouvido falar no Fumaça Preta, mas como eu sou completamente contra a baboseira hipster de guardar bandas para si, espero fazer o que estiver ao meu alcance para que no futuro isso seja um pouquinho menos realidade. É, com absoluta certeza, a banda mais brasileira criada por um luso-venezuelano que mora em Amsterdã. Pra completar a globalização, o disco homônimo ainda saiu pelo selo londrino Soundway Records. O cara em questão é Alex Figueira e, em uma época que a psicodelia voltou aos holofotes, um disco desse ser praticamente ignorado por aqui é uma pena, no mínimo. Os sons tropicalistas e os vocais em português deixam tudo ainda mais em casa. Uma das melhores descobertas desse ano.

Link para o disco completo:  http://bit.ly/1z6zSUf

16. Mirel Wagner – When the Cellar Children See The Light Of The Day

Mirel WagnerMirel Wagner é uma cantora nascida na Etiópia e criada Finlândia. A ligação íntima com dois lugares tão distintos só teria como resultar em um trabalho que é marcado por colisões. A bela e melódica voz, que honra a tradição das melhores cantoras do soul, ecoa sobre melodias cortantes e, muitas vezes, cruas. Não há como se enganar: a estrela aqui são as palavras. Lançado pela lendária Sub Pop, When The Cellar Children See The Light Of The Day é pra rasgar corações e de cara me chamou a atenção pela mistura que deságua numa doce, ácida e irresistível melancolia. Felizmente, aos 23 anos, Wagner está apenas começando.

Link para o disco completo: http://bit.ly/1z6DoxR

15. Mourn – Mourn

MournNão há muito pra dizer sobre a estreia do Mourn. É, simplesmente, um rock de garagem direto ao ponto. E isso é mais do que suficiente. Com 11 canções rápidas – apenas uma tem mais de 3 minutos – a clássica formação guitarra, baixo e bateria unida a bons riffs e vocais femininos em tons de cinza, fez com que o resultado tenha ficado marcado na minha memória. É mais um filho da, tantas vezes explorada, combinação entre punk e indie rock noventista. E, se você ainda gosta de rock, um dos bons.

Link para o disco completo: http://bit.ly/15NYatp

14. Sharon Van Etten – Are We There

Sharon Van Etten

 Sharon Van Etten parece ser daqueles artistas fadados a sempre estarem ali pela terceira ou quarta linha da escalação de um festival. E isso não é necessariamente ruim. Tendo lançado quatro bons discos em cinco anos, Are We There (Chegamos lá?, em tradução livresoa como um questionamento de Van Etten a si mesma. Talvez ela tenha se sentido suficientemente confiante pra fazer a pergunta porque, de fato, é seu melhor trabalho até aqui. Estabelecida como musicista e sem qualquer pressão para ir além de onde já chegou, ela pôde ousar mais e criar um álbum que é dilacerante e empolgante ao mesmo tempo, assim como meu estilo preferido de música. É dela, inclusive, a música que considero a melhor desse ano: Your Love Is Killing Me.  Se me é permitido responder ao questionamento de Sharon, eu diria que sim, ela chegou lá.

Link para o disco completo: http://bit.ly/1vUe22F

13. Angel Olsen – Burn Your Fire For no Witness

jag246.11183Sobre o disco da Angel Olsen, eu já tinha escrito por aqui e reproduzo: “Poucas coisas são mais democráticas que um coração partido. E talvez por isso seja o assunto preferido dos artistas ao longo dos tempos. A forma que cada um lida com a dor, porém, é o que diferencia um trabalho do outro. Em Burn Your Fire For No Witness, segundo disco de Olsen, a compositora viaja entre melodias suaves e versos melancólicos que despertam uma sensação de nostalgia a qualquer um que lhes prestar um pouco de atenção: todo mundo se identifica em algum nível com aquela sensação. Um disco denso que pode ser resumido no verso que abre a terceira música, Hi-Five: I feel so lonesome I could cry, uma clara referência à clássica canção de 1949 de Hank Willians. Mas não chore. Ao invés, escute esse belíssimo álbum. É uma das melhores coisas que eu ouvi nesse ano. E, provavelmente, você também.”

Link para o disco completo: http://bit.ly/1vUhASv

12. Sun Kil Moon – Benji

Sun Kil MoonMark Kozelek, o homem por trás do Sun Kil Moon (e do finado Red House Painters), é um idiota. Mal educado, arrogante e egocêntrico, apareceu esse ano menos pelo excelente disco que compôs e mais pela patética briga (quase totalmente ignorada pelo outro lado) com o War on Drugs. Eu já havia lido em publicações da Europa sobre o péssimo comportamento do compositor com público e produtores em turnês por lá e automaticamente tudo fez sentido. Sentido que sempre me falta ao comparar esse perfil de cidadão exemplar com a doçura e angústia que encharca cada verso de Benji. Com acordes e dedilhados no violão ele discursa sobre a vida e, principalmente, a morte com a autoridade de alguém que  parece frequentemente envolto pelos tentáculos gélidos do nosso ponto final nesse mundo. É um estilo de folk denso e pesado, que precisa de um tempo pra ser digerido, mas que vale a pena, mesmo com alguma dor de estômago. É preciso separar a pessoa do artista e Kozelek prova mais uma vez que os idiotas também podem ser geniais.

Link para o disco completo: http://bit.ly/1vUqJdU

11. Run The Jewels – Run The Jewels 2

Run The Jewels Pesado, moderno e cheio de energia. O segundo filho da parceria entre El-P e Killer Mike não só não decepciona como é ainda melhor que o disco de estreia. Não tem muito o que dizer, é simplesmente o melhor disco de hip-hop que eu ouvi esse ano. Eu o escutei tanto no período de Natal e ano novo que eu quase subi a posição dele nesse lista. Se é o tipo de som que você gosta, não perde tempo.

Link para o disco completo: http://bit.ly/1vUv5l5

10. Juçara Marçal – Encarnado

Juçara MarçalO primeiro disco nacional da lista. Juçara Marçal é companheira de Kiko Dinucci em projetos como Padê e o também excepcional Metá Metá. Na estreia solo da cantora, eles se juntaram ao saxofonista Thiago França pra lançar um dos mais potentes registros do ano e do cenário nacional nos últimos tempos. A voz mpbística de Juçara se junta às guitarras tortas de Dinucci fazendo o casamento perfeito entre MPB e MTB (Música Torta Brasileira).  Há sim lugar pra música experimental na conservadora MPB e é muito bom ver artistas explorando esse território. Ouça o disco, vá no show e mergulhe nessa mistura de distorção e grandiosidade vocal.

Link para o disco completo: http://bit.ly/1vUDPHY

9. Leonard Cohen – Popular Problems

Leonard CohenNão sei deixe enganar pela capa horrorosa de Popular Problems: Leonard Cohen continua sendo o maior ser humano vivo. Meu músico preferido de todos os tempos, seus três primeiros discos estão entre os melhores e mais importantes na minha vida. Com 80 anos completos, é difícil imaginar um artista que continua compondo em tão alto nível como é o caso de Old Ideas (2012) e do próprio Popular Problems. Cohen tinha se retirado da vida artística, mas teve todo o seu dinheiro surrupiado pela antiga empresária, fazendo com que ele deixasse o monastério em que vivia e voltasse aos palcos e estúdios. Com a sagacidade e sensibilidade do poeta que é, Cohen e sua voz marcante destilam versos cheios de emoção e ironia, em músicas marcadas por uma produção que poderia soar ultrapassada, mas casa perfeitamente com a lenda viva. Ele não deve gostar muito da sua ex-agente, mas nós só temos a agradecê-la.

Link para o disco completo: http://bit.ly/1vUJWfq 

8. Aphex Twin – Syro

FINAL MASTER SYRO DIGIPAK.inddMais de uma década após o seu último lançamento oficial, Richard D. James, ou Aphex Twin, continua provando que ainda é o melhor em fazer música eletrônica complexa pra um bando de gente estranha. O que é suficiente pra você saber onde está se metendo.

Link para o disco completo: http://bit.ly/1vUMeuY

7. ruído/mm – Rasura

Rasura

O meu disco nacional preferido de 2014. Lançado gratuitamente pelo selo brasileiro independente Sinewave, Rasura é como um exercício de respiração. Passeia entre o calmo e o violento de uma forma tão suave que se você, na correria do dia a dia, conseguir parar pra dar total atenção ao disco, vai se sentir como parte essencial dele. Com vocais quase inexistentes, chama a atenção a construção cuidadosa das melodias e o diálogo eloquente entre piano e guitarra em algumas faixas. No final da audição é quase impossível resistir a ouvi-lo novamente já na sequência. Não resista. O clichê aqui funciona: ouça de olhos fechados.

Link para o disco completo: http://bit.ly/1DtpaJS

6. Ty Segall – Manipulator

Ty Segall

Ty Segall é considerado por muitos um garoto prodígio. Com 27 anos de idade e sete álbuns lançados nos últimos oito, ele transborda algo que têm faltado em muitos discos de rock: energia. Mas como energia sozinha não significa nada, Manipulator é um disco sem maiores pretensões, cheio de bons riffs, guitarras garageiras e cozinha afiada. Feel deve ter sido a música que mais escutei em 2014. O rock definitivamente não precisa ser salvo e quantos mais artistas assim aparecerem, melhor.

Link para o disco completo: http://bit.ly/1DttlW4

5. Flying Lotus – You’re Dead!

Flying LotusO americano Flying Lotus já se consolidou como um dos maiores expoentes da música eletrônica nessa geração, mas aparentemente ainda tem muito combustível pra queimar. Em You’re Dead! a mistura de hip-hop, jazz, rock e música eletrônica se torna uma viagem cheia de desvios, saltos e quebras de ritmo. A parceria com o rapper Kendrick Lamar rendeu uma ótima faixa, mas a força do disco reside mesmo é no resultado da mistureba deliciosa de estilos. Um disco pra ouvir fora de casa e se descobrir fora de si.

Link para o disco completo: http://bit.ly/1DeUPS2

4. Ought – More Than Any Other Day

Ought

A Constellation Records, selo canadense, dificilmente erra. Casa de artistas como o Goodspeed You! Black Emperor, Matana Roberts e Silver Mt. Zion, foram os responsáveis por lançar o LP de estreia do Ought. Visceral, urgente, cheio de força, é um post-punk torto, com várias quebras de ritmo e repleto de interlúdios, como uma percussão que chama a atenção entre os instrumentos. A minha estreia favorita do ano e uma banda pra definitivamente se ficar de olho. Ainda lançaram outro bom EP em 2014.

Link para o disco completo: http://bit.ly/1DeWIy2

3. Swans – To Be Kind

Swans

Ser gentil é uma tarefa sempre complicada. Por isso, não poderia haver nome melhor para o sombrio, denso, carregado, soturno e por vezes melancólico disco do Swans. Uma obra-prima teatral que deu origem a um LP triplo com mais de 2 horas de duração, não é um álbum fácil de ser mastigado ou digerido. Demanda tempo, demanda atenção e demanda paciência, coisas que nem sempre são de fácil acesso no cotidiano. Na minha opinião, é ainda melhor que a também obra-prima The Seer, disco anterior da trupe comandada pro Michael Gira e vale cada segundo dispensado. Essencial.

Link para o disco completo: http://bit.ly/1DeWIy2

2. Thurston Moore – The Best Day

Thurston Moore

A dissolução do Sonic Youth ao menos nos brindou com três bons projetos: Kim Gordon e seu Body/Head, Lee Ranaldo e sua banda The Dust e a carreira solo de Thurston Moore. Esse último, ainda bastante afetado pelo fim do casamento de 27 com a ex-companheira de banda que teve direito a exposição pública, fez um disco em que se concentrou em uma única coisa: ter paz. Ele falou mais sobre isso e outros assuntos na entrevista que fiz com ele para o UOL (leia aqui) e que em breve devo colocar aqui no blog na íntegra.  Sobre o disco, basta dizer que poderia ser um disco do Sonic Youth com louvor. Medalha de prata.

Link para o disco completo: http://bit.ly/1Df9SuO

1. Grouper – Ruins

Grouper Qual a importância do silêncio pra música? O músico e teórico John Cage já defendia o seu fator decisivo na sua obra mais famosa, a extrema 4’33” (veja aqui). E é nas pausas e silêncios que as maiores mensagens são transmitidas em Ruins, disco do Grouper, projeto solo da musicista americana Liz Harris. Aqui ela abandona o violão de álbuns anteriores e se traz o piano e o silêncio como únicos aportes pra sua melancólica e doce voz. É um disco de contemplação e que urge calma. As melodias são delicadas e muitas vezes os vocais são sussurrados e de difícil compreensão, até para quem domina o inglês. Nem sempre é preciso falar alto pra gritar e às vezes uma pausa representa mais que qualquer palavra. É disco emocionalmente muito pesado e o mais belo trabalho que eu ouvi esse ano. Porque os dias chuvosos são os mais bonitos.

Link para o disco completo: http://bit.ly/1DfglpP

Abaixo, uma playlist da Deezer com uma faixa de cada um dos álbuns citados nessa lista, com exceção de Juçara Marçal e Ty Segall, não presentes no serviço. No caso de ambos, sugiro as faixas Ciranda do Aborto (ouça aqui) e Feel (ouça aqui).

Exclusivo: Escute e baixe EP solo de Francesca Belmonte, cantora do Tricky

Francesca Belmonte é uma cantora inglesa que apareceu no cenário internacional pelas colaborações com rapper e produtor Tricky, também inglês. Com uma voz ao mesmo tempo doce e forte, ela empenhou seus vocais no disco de 2013 do músico, chamado False Idols, e em janeiro lançará um álbum completo, marcando sua transição para a carreira solo.

Porém, antes do disco cheio, Belmonte liberou um EP exclusivo que você pode escutar no link abaixo ou baixar gratuitamente AQUI.

São três faixas cheios de batidas e elementos eletrônicos, incluindo  o single Stole e um cover de It Ain’t Me Babe de Bob Dylan. As faixas são minimalistas e destacam a voz de Belmonte, cantando sobre temas sombrios, como vulnerabilidade e sobrevivência.

Vale ficar de olho nela.

Se você gostou, pode acompanhar novidades pelos canais:

Thurston Moore Band em São Paulo – Aos 45 do segundo tempo, o melhor show do ano no Brasil

Eu adoro o Sonic Youth, mas talvez tenha uma relação ainda mais próxima com o trabalho solo do seu guitarrista, Thurston Moore. Seu disco de 2011, Demolished Thoughts, figura entre os meus favoritos de todos os tempos e o último, The Best Day (lançado em outubro), é dos que mais gostei nesse ano que já se encaminha para o fim. Juntando tudo isso à uma banda de craques e uma performance explosiva, não haveria como dizer que a apresentação que a denominada Thurston Moore Band fez na noite de ontem para um Cine Joia cheio, mas confortável, – dentro da série Popload Gig – não tenha sido o melhor show que vi no Brasil em 2014.

Primeiro é preciso elogiar a produção, que fez com que a apresentação começasse às 22h15 e assim tornou possível que, ao final, o público utilizasse o metrô e o sistema de transporte público para retornar para casa. É muito bom ver o Cine Joia finalmente se aproveitando da sua excelente localização e torço para que isso se torne uma constante daqui para frente. Em um mercado tão competitivo e com tantas ofertas, esse é um diferencial que sempre conta muito.

No palco, Moore se juntou ao guitarrista inglês James Sedwards, Deb Googe (My Bloody Valentine) e Thiago Babalu, baterista brasileiro que toca na banda de Jair Naves e teve que substituir às pressas, o também Sonic Youth, Steve Shelley. Este último, já em São Paulo, constatou um problema relacionado à visão que poderia se tornar algo mais grave e, sob orientações médicas, teve que abandonar a turnê e voltará para casa para se submeter a uma cirurgia e descansar. Shelley é um dos grandes bateristas do rock e foi uma pena não poder vê-lo com o grupo, mas, orientado pelo americano na tarde inteira pré-show, Babalu deu conta do recado.

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Foto por Clarissa Wolff/ Catárticos

Sem muitas palavras, os quatro se posicionaram em seus instrumentos e executaram as belas e longas Forevermore e Speak to the Wild, faixas que também abrem The Best Day. Ali os ruídos e distorções ainda eram tímidos e o que se sobressaía era a beleza melódica e a paz que Moore explicou que prentendia passar com o álbum, em entrevista recente que fiz com ele (aqui). Juntas consumiram cerca de 25 minutos  e foram acompanhadas de calmas projeções do oceano ao fundo, preparando os presentes para a chuva de distorções que se seguiria.

Thurston é mestre de uma escola de guitarristas barulhentos na qual às vezes o mais importante é destruir. Derrubar, demolir, tornar escombros notas, arranjos e dogmas. Essa talvez tenha sido a maior virtude do Sonic Youth, ao tornar popular algo que fugisse aos padrões da própria música popular, influenciando toda uma geração e garantindo a eles o lugar que ocupam no panteão de artistas dos últimos 50 anos. E algo assim não se apaga da noite pro dia. Felizmente.

Os ruídos e distorções então começaram a florescer quando o quarteto tocou, em seguida, Germs Burn, Detonation e The Best Day, todas do disco mais recente, para desembocar numa versão arrasadora de 15 minutos da instrumental Grace Lake. Se a apresentação tivesse sido apenas a música, já seria suficiente para destaque. Eu posso dizer, sem sobra de dúvidas, que foi um dos momentos musicais mais poderosos que presenciei na vida. As guitarras de Sedwards e Moore conversavam em texturas quase palpáveis sobre a firme cama preparada por Babalu e Googe, e caminhavam por dentro da melodia de maneira hipnótica, sugando a todos os presentes. As projeções espaciais na parede do Cine Joia funcionaram como extra e criaram uma atmosfera psicodélica que fez com o que o Tame Impala – que eu adoro – parecesse uma banda de adolescentes inexperientes. A medida que eles aceleravam o ritmo, uma avalanche de som enterrava uma casa em transe. Fantástico.

Depois disso não havia muito o que fazer, senão sair do palco. Mas diante de uma plateia ainda petrificada, voltaram e tocaram maravilhosa e – surpresa- barulhenta Pretty Bad, do primeiro disco solo de Moore, Psychic Heart (1995), pra voltar e encerrar – após terem saído novamente do palco – com Ono Soul, também do álbum solo de estreia do americano. Um show pra ficar guardado para sempre e que fez jus à tradição das criações mais famosas do guitarrista, mesmo sem uma única canção do Sonic Youth. Na noite de ontem, escreveu-se certo por notas tortas.

Setlist:

Forevermore
Speak to the Wild
Germs Burn
Detonation
The Best Day
Grace Lake

Encore:
Pretty Bad

Encore 2:
Ono Soul

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Foto por Clarissa Wolff/ Catárticos
Foto por Clarissa Wolff/ Catárticos
Foto por Clarissa Wolff/ Catárticos

ENTREVISTA – Real Estate: “Provavelmente a música baseada em guitarras está morrendo”

No último ano o mundo foi pequeno para o Real Estate. Projetados pelo terceiro e elogiado disco, Atlas, a banda de New Jersey viajou e tocou em praticamente todos os festivais e centros mais importantes do globo. Oriundos da pequena cidade de Ridgewood, hoje eles aparecem com um dos maiores expoentes do rock alternativo americano e vivem no musicalmente efervescente Brooklyn de Nova York.

Atlas foi tão bem recebido em solo americano que chegou a ocupar a posição de número 34 nas paradas estadunidenses, um grande feito para uma banda independente de médio porte, cercada por todos os lados por oceanos de projetos milionários. Assim como na produção, não há nada de extravagante na música do grupo. Nas canções da banda, melodias sutis são tecidas sob vocais tranquilos, sempre guiadas por acordes ou riffs de guitarra. A sensação é a de deitar-se em uma rede e de repente não ser mais refém do tempo.

E é com esse poder em mãos que eles desembarcam essa semana em São Paulo (20/11) e Porto Alegre (21/11) – ambos os shows acontecerão no Beco 203 – para pela primeira vez se apresentarem nos palcos da América do Sul. Conversei por telefone com o vocalista Martin Courtney para a edição de novembro da versão brasileira da Revista Rolling Stone e a íntegra da conversa você confere abaixo.

Por que vocês escolheram o nome Atlas pro disco?

Eu acho que, lá atrás, quando estávamos acabando de montar as peças, nós tínhamos muitas músicas extras que acabaram não entrando no disco, mas as que acabamos mantendo, aleatoriamente, eu percebi que elas tinham coisas em comum, tinham a ver com certos lugares e nós temos viajado bastante. Desculpa, eu tô um pouco atordoado, acabei de acordar, fizemos um show até tarde ontem (risos). Mas basicamente tem a ver com um monte de coisas que estão no disco e como você se encontra em algum lugar do mundo. Muitas coisas no disco são sobre o futuro, como onde eu me vejo estando em 5 anos, 10 anos ou alguns meses e eu acho que quando eu olho pro disco é como se fosse um mapa, as músicas que eu escrevi me ajudam a descobrir onde eu quero terminar, como se fossem um guia pessoal pro futuro.

E você acha que Atlas é o seu melhor trabalho até hoje?

Eu acho. Como compositor, como a pessoa que escreveu a maioria das canções do disco, eu acho que são mais… acho que são canções bem trabalhadas e eu gastei bastante tempo nelas. À medida que você vai crescendo, e nós já temos essa banda há 6 anos, eu venho escrevendo músicas há mais tempo que isso, eu acho que se você fizer algo de novo e de novo você fica melhor nisso. Eu sinto que nós estamos melhores como banda, escrevendo músicas, arranjando ou mesmo tocando nossos instrumentos, sabe, eu era bem ruim como guitarrista quando nós começamos, eu ainda não sou muito bom, mas eu melhorei excursionando, tocando todo dia e tal… Então, sim, eu realmente penso que é melhor que nossos discos anteriores.

Nos seus trabalhos anteriores muitas músicas falavam do passado ou soavam nostálgicas, enquanto em Atlas o foco é o presente e o futuro. Por que essa mudança?

Eu meio que queria fazer isso como um desafio pra mim mesmo porque eu acho fácil escrever sobre o passado. Escrever as letras é a parte mais complicada do processo, eu não quero que elas sejam ruins (risos), então vai bastante pensamento e esforço. Então, basicamente, é muito trabalhoso pra mim escrever as letras, ou pelos menos aquelas que com as quais eu fico satisfeito. Muita gente diz que as músicas que eu escrevi anteriormente eram sobre o passado, olhar pra trás, nostalgicamente ou não…

E eu sei que você se casou recentemente, certo?

Sim, exatamente, então eu decidi que eu ia tentar não fazer isso dessa forma, ia explorar algo novo pra banda e também veio meio que naturalmente, houve muitas mudanças, coisas grandes estão acontecendo agora na minha vida pessoal, então também aconteceu naturalmente.

Você teve algum tipo de inspiração especial pra compor o disco?

Eu compus grande parte das músicas no meu apartamento, as guitarras e tal, e fomos aperfeiçoando quando estávamos no Brooklyn, gravando demos. Eu escrevi grande parte das letras enquanto eu estava caminhando pela cidade ou meu bairro no Brooklyn, estava meio que me forçando a sair e fazer longas caminhadas e então eu ficava tocando a música na minha cabeça e começava a escrever. O lugar que eu provavelmente mais escrevi era esse parque em Greenpoint, eu me sentava muito lá, tinha esse caderninho, ficava lá só olhando o céu. Então não foi uma inspiração direta, mas certamente influenciou no fim.

Alguns dizem que suas músicas e discos soam todos iguais, o que você pensa disso? Te incomoda?

Não me incomoda, mas me faz pensar… porque especialmente na produção, são discos muito diferentes. O primeiro foi feito em casa e o segundo nós fizemos em estúdios muito diferentes. Acho que especialmente o terceiro disco foi o mais afiado em termos de produção, nós tínhamos bastante consciência do que queríamos, mas sabe, nós definitivamente somos uma banda, temos um som e um estilo e eu acho que funciona pra nós. Nós somos uma banda baseada em guitarras e nós temos um certo som pra nossas guitarras e se as pessoas não gostam do jeito como nós soamos, provavelmente não vão gostar da maior parte das nossas músicas porque, não estou dizendo que tem uma fórmula, porque não tem, mas… Sabe, eu acho que eu só posso discordar disso (risos). Eu penso que cada canção é muito diferente, sabe? Eu acho que existe sutileza na nossa música, especialmente no último álbum. Eu sinto que cada álbum fica mais e mais sutil e se você não vai passar tempo com eles pode não se perceber o que estamos fazendo, então é uma pena pra essa pessoa, eu acho.

Você acha que música baseada em guitarras está morrendo?

Não sei, definitivamente é o menos popular que já foi desde os anos 50 ou 40, quando o rock’n’roll se tornou notável, mas eu não sei… sim, eu acho que provavelmente a música baseada em guitarras está morrendo, em 20 anos será completamente antiquado, mas eu não posso afirmar com certeza. Eu realmente amo guitarras e toda a músicas que fazemos.

Eu acho que nós vamos sempre ter alguns garotos tocando, só não vai ser mais tão popular…

Eu acho que existem maneiras de fazer isso e fazer com que soe novo. Nós como banda gostamos de escutar muita coisa antiga…

Tipo o que?

Tipo rock clássico ou indie rock dos anos 80 e 90, coisas como essa, até Krautrock, música alemã dos anos 70, mas eu sinto que as nossas melodias são, esperançosamente, novas. Eu acho que se você for só reproduzir todo esse rock já feito, talvez não tenha espaço pra você, mas se você tentar achar um jeito de fazer isso de uma forma nova, então, eu não me sinto preso, há pra onde crescer. Então pode estar morrendo com relação à popularidade, as pessoas podem estar menos interessada em músicas com guitarras do que costumavam, mas eu não acho que é nada menos vital do que já foi, porque ainda existem pessoas interessadas em fazer isso. Eu acho que é um jeito muito bom de sintetizar ideias diferentes. Existe muito o que você pode fazer com duas guitarras, baixo, bateria e teclado, tem muito o que você pode fazer com isso. Pra nós, eu gosto do fato que tudo que a gente faz em estúdio, nós podemos fazer ao vivo, nós não usamos nenhum sequenciador ou computador ou nada que não possamos reproduzir no palco, pra mim isso é uma coisa boa.

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Qual a sua opinião sobre a música pop que atualmente domina as paradas?

Eu não sei muito sobre isso, eu acho (risos). Eu conheço o que eu escuto por aí. Existem músicas boas e ruins, eu posso me interessar por algumas delas. Eu nem sei quem são, mas se eu escutar e gostar de algo eu não vou negar isso, mas tem muito lixo, claro. Mas é sempre assim, música pop é sempre uma mistura, há sempre coisas horrendas e pavorosas e há sempre coisas no limite, como Madonna, sabe? Músicas que são realmente muito, muito boas e de alguma maneira conseguem emplacar em um Top 40 e tal, então, eu realmente não posso apontar nada nesse momento que seja muito bom, mas tenho certeza que existe (risos). Eu só não escuto muito rádio, então não sei.

O vinil começa a se tornar popular novamente. O que você pensa sobre isso? Você gosta do som do vinil, você ainda compra?

Sim, eu compro discos, definitivamente. Eu acho legal que as pessoas estejam se interessando mais pelos discos agora, sabe, eu gosto de discos faz tempo, muito antes de começar essa banda. Eu com certeza acho que eles soam bem, mas eu não sou um grande audiófilo, então eu não consigo perceber muito a diferença nisso. Eu sei que soa muito bem e eu gosto da ideia de pegar o disco, é mais sobre a experiência tátil, ir até a prateleira, escolher um disco, ficar olhando pros detalhes da arte, fazer disso um ritual, que é diferente de você pegar algo e colocar no seu telefone. Eu gosto disso também, mas discos são diferentes, você está sentado na sua sala, tem todo o processo, uma coisa diferente. Mas eu estou especialmente alegre que as pessoas estão comprando vinil agora porque nós podemos fazer discos, sabe, como uma banda, e sabe, é muito divertido montar tudo, escolher a arte e ir decidindo o que vai dentro, como vai se parecer e tal eu sinto que, se nós estivéssemos fazendo isso há 10 ou 15 anos atrás, não seria possível pra gente porque seria menos popular.

 Você tem alguma colaboração dos sonhos? Algum artista que você realmente queira trabalhar junto…

Tem muitos, mas nós meio que já fizemos um. A banda The Feelies, nós sempre fomos muitos fãs deles e alguns anos atrás nós os conhecemos e nos tornamos amigos deles e pudemos tocar alguns shows com eles. Até tocamos com Glenn Mercer, o vocalista deles, algumas músicas. Eu consegui me juntar a eles no palco, também e fizemos covers de Television e Beatles e foi sensacional. Eu sinto que conseguimos colaborar com as pessoas que admiramos, nós conhecemos o Yo La Tengo, que é uma das minhas bandas preferidas e eu toquei uma música com eles no palco, então, sim, foi legal. Eu acho que como banda nós adoraríamos andar com o Neil Young e trabalhar juntos, isso seria demais (risos). Tem bastante gente que admiramos.

O que está esperando dos shows do Brasil?

Eu to muito, muito animado. Eu nunca estive na América do Sul, no Brasil, eu mal posso esperar.

Você conhece música brasileira?

Sim, um pouco. Não muito. Mas eu gosto muito da ideia do Brasil, sabe? Eu assisti alguns filmes que se passam aí tipo Orfeu Negro (1959, do diretor Marcel Camus)… Eu não sei, eu estou muito animado pra ir a praia, mal posso esperar.

Franz Ferdinand em São Paulo ou porque amo tanto música ao vivo

Ao anunciar a sua terceira vinda ao Brasil em três anos (sua sexta no total), o Franz Ferdinand virou, em alguns círculos, motivo de piada. A mentalidade brasileira, ainda pouco acostumada à recente nova dinâmica de shows internacionais no país – que passou a ser rota quase obrigatória na agenda dos artistas e aumentou a oferta ao público – parece considerar algum tipo de desonra que bandas voltem com frequência, como se fosse sinal de desespero, explicitando uma espécie de complexo de vira-latas cultural. Poucos entendem que esse é um passo fundamental para a consolidação do ainda tímido mercado musical nacional. E se esse pensamento ultrapassado representa uma incômoda parede a ser demolida, o grupo escocês contribuiu para derrubar alguns tijolos com a potente marretada que foi sua apresentação de ontem, no Espaço das Américas, em São Paulo.

Um público de pouco mais de 4 mil pessoas – segundo informações da organização – se deslocou até a casa da Barra Funda para conferir o show dos britânicos, que teve abertura dos goianos do Boogarins, recentemente regressos de uma extensa turnê nos Estados Unidos. A opção pela psicodelia do cerrado se mostrou acertada e levantou parte do público em diversos momentos. O vocalista Dinho Almeida parecia habitar confortavelmente uma dimensão própria, muitas vezes tirando sua guitarra para dançar no palco e sem vergonha de fechar os olhos para entornar sua voz em falsete sobre as melodias cheias de efeito do conjunto. Em 45 minutos, o Boogarins tocou uma música nova e mostrou que tem potencial para crescer ainda mais. As jams distorcidas dos quatro instrumentistas foram o ponto alto do curto concerto. Finalizado, era então o momento de esperar pela atração principal da noite, marcada para entrar em meia hora.

Dinho Almeida, vocalista do Boogarins (Foto por Clarissa Wolff/ Catárticos)
Dinho Almeida, vocalista do Boogarins (Foto por Clarissa Wolff/ Catárticos)

Às 22:15, pontualmente, as luzes se apagaram e os telões se acenderam. Os mesmo telões que permaneceram desligados seis dias antes, no show dos californianos do Queens of the Stone Ages e prejudicaram a visão do público que estava nas partes mais afastadas do palco. Felizmente, o Franz Ferdinand não teve o mesmo ataque de estrelismo da trupe de Josh Homme e a transmissão pode funcionar em harmonia perfeita com as projeções simples no fundo do palco e o figurino em preto e branco dos músicos.

A primeira canção a ser executada foi “Right Action”, faixa que cede parte da sua letra para dar nome ao quarto e último disco do Franz, Right Thoughts, Right Words, Right Action, de 2013 e que, em tese, seria a base da atual turnê. Em tese porque Alex Kapranos e companhia destilaram um repertório que contemplou toda a carreira do conjunto, que surgiu no começo dos anos 2000 como um dos principais expoentes do então novo rock. Mais de uma década depois e sem chamar a mesma atenção dos primeiros anos, o grupo mostrou que, ao menos ao vivo, ainda é relevante, com uma energia descomunal para fim de turnê e presença de palco fantástica.

Do começo ao fim a intensidade foi a tônica e foi impossível conter a memória do eu adolescente, aos 14 anos, descobrindo em 2004 sua primeira banda indie e vendo repetidamente o clipe de The Dark of The Matinee, baixado pelo pré-histórico programa de compartilhamento Kazaa. As palhetadas furiosas do guitarrista Nick McCarthy ditavam a velocidade e a química com o vocalista Kapranos escorria junto ao suor de ambos. O Franz Ferdinand nunca foi a minha banda preferida, nem perto, mas eu estava absolutamente feliz de presenciar aquele momento. É fácil – felizmente – gostar do show de uma banda que você adora, mas é nas surpresas, como ontem, que me lembro do porquê amo tanto música ao vivo.

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Foto por Clarissa Wolff/ Catárticos

E o público pareceu aprovar cada momento tanto quanto eu. Cantou junto e foi parte importante na construção da excelente atmosfera. Assim como foi essencial o perfeito sistema de som do Espaço das Américas, alto e claro, como sempre deveria ser, aliás. Eu poderia detalhar como foi a reação a cada canção do quarteto, mas eu penso ser desnecessário. Basta dizer que de Evil Eye, boa faixa do último disco, ao hit Take Me Out (veja no vídeo abaixo), já desgastado pela o excesso de vezes que foi tocado por aí, quase todas as músicas foram tocadas como se fosse a última vez que os escoceses teriam de subir em um palco e recebidas com fervor. Os destaques negativos ficaram para as apagadas Erdbeer Mund e Stand on The Horizon. O encerramento, antes do bis, com Outsiders, com todos os membros se juntando ao baterista Paul Thomson para uma jam percussiva, funcionou como um resumo de uma palavra da noite: poderoso.

O Franz ainda voltou ao palco para tocar três músicas, Jacqueline, Goodbye Lovers & Friends e This Fire, como cortesia aos presentes. Nem precisava.  Essa foi a terceira vez que eu assisti a um show da banda e foi, disparada, a melhor. Que eles voltem no ano que vem. Eu irei.

Importante frisar que a apresentação terminou antes do horário de encerramento do funcionamento do metrô, o que deveria ser a regra, mas não é.

Ao final você confere um vídeo exclusivo dos companheiros de Catárticos do Discophenia, com três músicas.

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Foto por Clarissa Wolff/ Catárticos
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Foto por Clarissa Wolff/ Catárticos
essa nao sei se vale postar
Foto por Clarissa Wolff/ Catárticos

Setlist Bogarins:

Avalanche
Lucifernandis
Infinu
Tempo
Erre
Despreocupar
Doce

Setlist Franz Ferdinand:

Right Actio
No You Girls
Tell Her Tonight
Evil Eye
The Dark of the Matinée
Do You Want To
The Fallen
Lucid Dreams
Erdbeer Mund
Michael
Walk Away
Stand on the Horizon
Can’t Stop Feeling / Auf Achse
Brief Encounters
Take Me Out
Ulysses
Love Illumination
Outsiders

Encore:
Jacqueline
Goodbye Lovers & Friends
This Fire

ENTREVISTA: Labirinto – “Infelizmente não podemos dizer que existam muitas bandas de post rock no Brasil”

O post-rock não é um gênero musical para que tem pressa. Com paciência, as músicas costumam ser longas e construídas aos poucos, camada sobre camada, incrustadas sob distorções e pedais e que progressivamente passam da calmaria à raiva em instantes. É um estilo de catarse e na maioria do tempo, instrumental. Não é nenhuma surpresa, então, que não figure em paradas de sucesso ou  toque em rádios FM. Contudo, cada vez mais angaria fãs pelo mundo. Bandas como Mogwai, Sigur Rós, Godspeed You! Black Emperor e Explosions in the Sky são exemplos de grupos de post-rock que conquistaram espaço no cenário mundial, viajando o planeta, tocando em grandes festivais e chamando a atenção da imprensa.

No Brasil, a cena do estilo também vem ganhando espaço. Selos como a Sinewave e a Dissenso ajudam na propagação de artistas nacionais e estrangeiros por aqui e bandas longevas como a Herod – abertura dos últimos shows do The Cure em SP e RJ – e a Labirinto – turnês na Europa, Estados Unidos e Canadá – mostram que a crescente onda de  post-rock não é efêmera.

A Labirinto, por exemplo, está prestes a completar dez anos de existência. E está, até aqui, no seu auge artístico. No próximo sábado, os setes membros da banda subirão ao palco do Via Marquês em São Paulo para se apresentar no Overload Music Fest ao lado de nomes conhecidos como Alcest e God Is An Astronaut. O festival é, também, mais uma prova de que cada vez mais o país abraça o gênero. Mas ainda há bastante coisa a se fazer.

E sobre isso conversei com Erick Cruxen – Labirinto e Dissenso -, falando da banda, do selo, do festival e do post-rock no Brasil na entrevista que você pode ler abaixo:

Vocês já tocaram algumas vezes no exterior. Quais as principais diferenças entre tocar lá fora e aqui no Brasil?

As principais diferenças que vemos são relacionadas à infra estrutura que as casas de shows e produtores oferecem às bandas e ao público. Quase todos os lugares que tocamos (Europa, USA e Canadá) contamos com uma excelente qualidade de som e grande receptividade. No Brasil, ainda existe um pensamento (em sua maioria) de que os espaços de shows fazem “um favor” aos artistas, ao deixarem se apresentar em suas dependências. Não se preocupam, adequadamente, com as necessidades das bandas e dos ouvintes. Quanto ao público, a atenção que recebemos é muito parecida entre aqui e o exterior.

O post-rock ainda é um estilo pouco conhecido por aqui, mas eu acho que isso vem mudando. Vocês concordam? Por que vocês acham que o estilo vem ganhando mais fãs? Vocês recentemente participaram do festival Música Muda no SESC, como foi isso?

Certamente mudou bastante desde que criamos o Labirinto há quase 10. Não somente em relação ao post rock, mas também à música instrumental e/ou experimental. O estranhamento diminuiu, e o tipo de som tornou-se mais acessível. Tal processo se intensificou, principalmente, devido à internet, que possibilitou o maior contato das pessoas com bandas, selos e festivais gringos de post rock/metal. No Brasil surgiram mais bandas com referências no estilo.

O festival foi muito significativo para esse processo de “naturalização” do rock instrumental. Bandas de quatro países, com diversas formas de produzir música sem vocal, se apresentaram, despertando o interesse do público, que lotou o SESC Pompeia, quase todos os dias.

Grandes bandas estrangeiras de post-rock como Mogwai e Sigur Rós influenciam o trabalho de vocês, servem como inspiração?

Desde que começamos com o Labirinto, possuímos diversas referências que vão além do Post Rock. Música progressiva, erudita, minimalista, eletrônica, metal; ouvimos muitas coisas, entre elas, as bandas de post rock/metal, como as citadas.

Vocês tem um selo e um estúdio, além da banda. Como isso funciona pra vocês? Vocês conseguem se sustentar apenas com atividades relacionadas à música?

Além do Labirinto, e de outros projetos musicais que possuímos, todos possuem trabalhos remunerados e convencionais, fora da banda. Eu e a Muriel trabalhamos no selo Dissenso Records, e no Dissenso Studio, onde conseguimos viver indiretamente de música. As atividades extra-banda ocupam grande parte de nosso tempo, mas ainda assim, como todos os integrantes do Labirinto, conseguimos organizar nossas agendas para podermos nos dedicar a todas as atividades.

Vocês vão tocar no próximo sábado no Overload Music Fest junto a bandas como o Alcest e o God Is An Astronaut. Vocês acham que o país tem demanda para abrigar mais festivais desse tipo? Qual a expectativa pro show?

Certamente, hoje existe um público ávido por esse tipo de festival, por tais estilos musicais. O Overload Music Fest será um marco nesse sentido, com bandas emblemáticas. Esperamos que seja o primeiro de muitos há ocorrer no Brasil!

Vocês recentemente lançaram um clipe de 25 minutos. Como está a agenda de lançamentos da banda, algum plano pra esse ano e pro próximo?

Lançamos um vídeo recentemente, com 3 músicas ao vivo, Masao (2014) e mais duas músicas inéditas (Avernus e Alamut) . Nossa intenção era mostrar como o Labirinto é ao vivo; muitas pessoas não conseguem ir às nossas apresentações devido a distância, ou mesmo, pela pouca frequência de shows que fazemos por ano.

Estamos trabalhando em nosso próximo disco “full” que será lançado no segundo semestre de 2015, organizando as próximas turnês para o exterior no ano que vem, além de shows, ainda esse ano, em outros estados como Rio de Janeiro e Belo Horizonte. Em breve, anunciaremos algumas novidades no site. (http://labirinto.mus.br/site/).

Quais são as melhores bandas de post-rock do Brasil pra vocês hoje – tirando a Labirinto, obviamente?

Infelizmente, não podemos dizer que existam muitas bandas de post rock em terras brasileiras, gostaríamos que houvesse mais projetos que conseguissem desenvolver uma identidade própria, nesse estilo, através de sua música. Mas, podemos mencionar bandas que não são estritamente de post rock; algumas mais pesadas, mesclando o post metal, outras mais shoegaze, outras mais trip hop…. Enfim, gostamos bastante dos curitibanos do Black Sea e do Ruido/mm, que está lançando disco novo em alguns dias; o Orchestre Noir e os sons experimentais e abstratos do National e do Muep Etmo. Tem também o Leaving the Planet e o Tesla Orquestra do nordeste. O Infraaudio e o Loveless em São Paulo. São somente alguns nomes que nos vieram à mente agora, tem muita gente boa fazendo música no Brasil, não necessariamente dentro do rótulo de post rock.

Por que fazer música instrumental?

Sempre nos interessamos por fazer música instrumental, foi um processo natural no Labirinto. Muitas vezes, utilizamos as vozes como mais um instrumento, processando-as com efeitos, através de sintetizadores e pedais. Buscamos engendrar diversas sonoridades, timbres e texturas, onde não exista um instrumento preponderante, como pode acontecer nas composições com a presença da voz.

Você pode ouvir e baixar gratuitamente quase toda a discografia da banda no site oficial: http://labirinto.mus.br/site/