Banda boa é banda que acaba

thom-yorke

Vou dispensar as apresentações e ir direto ao assunto. Esse é o primeiro texto desse blog, o que inevitavelmente me levou a pensar por onde começar. Garanto a vocês que meus colegas de coletivo foram mais criativos e deram início ao seus blogs de uma maneira melhor. Eu resolvi começar pelo fim.

Recentemente Thom Yorke, vocalista e líder do Radiohead, afirmou em uma entrevista que com frequência pensa em acabar com a banda. Vi muitos fãs se lamentarem e, em alguns casos, se desesperarem com a notícia. Eu não acho que seja o caso. Tenho que ressaltar que o Radiohead é das bandas que mais gosto. Mas banda boa é banda que acaba.

Música é manifestação artística e tem a ver com expressão de sentimentos. É feita, com menor ou maior precisão, para traduzir emoções como alegria, medo, dor, preocupação, etc. Por isso, música é também contexto. Contexto de quem escuta e contexto histórico. Você não teria se apaixonado por aquela banda se não tivesse escutado algumas de suas canções em momentos chave e grandes bandas não teriam atingido esse status não fossem uma série de fatores que propiciassem uma maior identificação com a mensagem que elas estavam passando.

beatles abbey road

Os Beatles não seriam os Beatles se tivessem surgido em outra ocasião. Os Smiths provavelmente não seriam mais tão interessantes se tivessem estendido a curta carreira. E não quer dizer que a produção dessas bandas não possa ser apreciada atualmente, longe disso, elas apenas não atingiriam tantas pessoas e da mesma forma. Ambas terminaram no auge e muito da aura que permeia seus trabalhos se dá devido à época em que foram produzidos. Terminaram inteiras.

Por outro lado, é comum ver bandas com muitos anos de estrada irem, aos poucos, perdendo a relevância e qualidade. Eu acredito que seja fácil identificar o motivo disso: música é feita por pessoas. E bandas são feitas de pessoas que evoluem, se constroem e caminham pra lugares diferentes. E quem permanece estagnado está fadado à irrelevância. É preciso reinventar-se de tempos em tempos, porque o mundo se reinventa. O caso dos Beatles é emblemático, porque cada membro buscava uma sonoridade diferente, que ajudasse a desaguar as emoções exatamente onde queria. A banda não era mais suficiente porque o interseção do impulso artístico de cada um era cada vez menor. Fizeram o certo.

Óbvio que essa análise é feita de forma fria. Turnês de grupos clássicos e revivals tem seu valor por dar a oportunidade de fãs mais recentes verem em ação artistas que admiram, mas não puderam desfrutar por questões de tempo e espaço. Porém são tributos ao passado, nada mais que isso. Devem existir exceções, mas são poucas. O Radiohead mudou e se adaptou uma série de vezes ao longo da carreira, mas todos tem um limite. O último trabalho, King of Limbs de 2011, não é ruim, mas abaixo da média da banda. Yorke já deu sinais claros que quer se dedicar a outras coisas e o seu disco solo de 2006 e seu Atoms for Peace não deixam dúvidas quanto a isso. Se ele realmente decidir o fim do Radiohead, que assim seja. Merece também aplausos quem sabe a hora de partir.