Mac DeMarco em São Paulo – A juventude é a plateia no show de um músico canadense

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“Eu não sabia que Mac DeMarco tinha tantos fãs” – foram minhas palavras a minha namorada quando ao sinal do primeiro verso de The Stars Keep On Calling My Name, segunda música da apresentação que o canadense fez com sua banda ontem no SESC Belenzinho, em São Paulo, o coro foi engrossado com uma alegria furiosa pela plateia. E quem já foi a qualquer show, sabe que isso faz toda a diferença.

Obviamente, os preços cobrados pelo SESC, muito abaixo do mercado, tratam de otimizar todo esse processo. Os ingressos mais caros para as duas apresentações de DeMarco custavam R$ 35,00 e evaporaram em horas. Mas eu já fui a vários shows no SESC e havia ali algo diferente. Noventa por cento da cerca de 500 pessoas que se prostravam a frente do palco não deviam ter mais que 25 anos. Uma geração que quase não viveu em um mundo sem internet e quase não sai dela. E a internet, mesmo com todas as suas desvantagens, é maravilhosa. O canadense sabe disso e ao anunciar uma música do novo disco, Salad Days, que já vazou, avisou que não dá a mínima se as pessoas fizerem o download ilegal – “sério, eu não ligo, baixem”. Queridinho de blogs pelo mundo, ele sabe que não teria chegado até aqui sem a rede mundial

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Com o jeitão caipira, vestido com um macacão de jardineiro bege e um boné que se fosse brasileiro com certeza teria estampado o nome de algum candidato a vereador obscuro, Mac e sua banda tornaram muito mais poderosas as composições de disco. Em um quarteto clássico, com duas guitarras (às vezes substituídas por sintetizadores), baixo e bateria, cantaram cheios de desdém sobre cigarros, drogas e paixões passageiras. Tudo isso fazendo uma série de piadas nos intervalos das músicas, sempre dirigindo-se diretamente ao público, que não perdia a oportunidade de reforçar o poder do carisma dos músicos . A estranha sensação era de descobrir que o palhaço da turma estranhamente mandava muito bem com uma guitarra na mão.

As canções mais famosas estavam todas ali: Cooking Up Something Good, Ode to Viceroy e até Robson Girl, atendendo a um pedido. Até aí tudo normal. Adjetivo que contudo não se aplica aos covers executados de maneira caricata: Tears in Heaven de Eric Clapton, Blackbird dos Beatles em uma versão pesada e até Wicked Games de Chris Isaak ganharam interpretações bizarras, muito mais cômicas que musicais e que nunca entrariam em um show de alguém sério. E não se levar a sério parece uma das grandes virtudes do canadense, que completamente de surpresa se jogou no público que o carregou e o levou de volta ao palco já na parte final da apresentação.

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Eles ainda voltariam pra um bis com Rock and Roll Night Club, mas o jogo já estava ganho desde os primeiros minutos. Não que isso importasse. Perder ou ganhar, tanto fazia. Desde os anos 60, quando os adolescentes e jovens viraram uma classe à parte de consumidores, ganhando atenção especial da indústria, tudo o que a juventude quer é se divertir, antes de encarar a maçante vida adulta. E ontem eles conseguiram. É o suficiente. Quem não quer ser jovem ?

Hoje tem MacDeMarco novamente no SESC Belenzinho, às 21:30. Os ingressos já estão esgotados, mas se puder, não perca.

Setlist (via setlist.fm):

  1. Salad Days
  2. The Stars Keep On Calling My Name
  3. Blue Boy
  4. Treat Her Better
  5. Cooking Up Something Good
  6. Let Her Go
  7. Brother
  8. I’m a Man
  9. Passing Out Pieces
  10. Let My Baby Stay
  11. Ode to Viceroy
  12. Tears in Heaven
    (Eric Clapton cover)
  13. Freaking Out the Neighborhood
  14. Robson Girl
    (Requested by the audience)
  15. Wicked Game
    (Chris Isaak cover)
  16. Chamber of Reflection
  17. She’s Really All I Need
  18. Take Five
    (The Dave Brubeck Quartet cover)
  19. Takin’ Care of Business
    (Bachman-Turner Overdrive cover)
  20. Blackbird
    (The Beatles cover)
  21. Only You
    (Makeout Videotape cover)
  22. Still Together
  23. Encore:
  24. Rock and Roll Night Club