ENTREVISTA EXCLUSIVA: Bryce Dessner, do The National, fala sobre música clássica, parceria com guitarrista do Radiohead e futuro da banda

Quando se fala em Bryce Dessner, é impossível não pensar automaticamente em The National. Contudo, o membro fundador, guitarrista e compositor da banda norte-americana tem muito mais a oferecer do que “apenas” as excelentes melodias e energia que  transbordam da sua guitarra e compõe o som característico e único do quinteto de Ohio. Bryce é, também, um dos expoentes de uma nova geração de compositores de música clássica e acaba de lançar no último mês seu segundo trabalho solo, St. Carolyn By The Sea, em um disco dividido com outro músico que transita entre o rock e o clássico: Jonny Greenwood, guitarrista do Radiohead.

Composto de três peças, cada uma com cerca de 15 minutos de duração, St. Carolyn dá continuidade ao primeiro trabalho do músico, Aheym, lançado no ano passado e feito em parceria com o Kronos Quartet. É um registro sensível, mas pouco provável apenas para os mais desatentos. Dessner estuda música clássica desde a adolescência, tem um mestrado na área pela Universidade de Yale, fundou seu próprio festival de compositores contemporâneos e hoje é residente em Eindhoven na Holanda.

Por telefone, de Chicago, ele conversou comigo na semana passada sobre seu novo lançamento, como é viver entre dois mundos, seus planos para o futuro e claro, The National.

Confira:

St. Carolyn By the Sea é um split (disco que contém canções de dois artistas diferentes gravadas de maneira individual) com Suit From “There Will Be Blood” (título original do filme Sangue Negro) do Jonny Greenwood, guitarrista do Radiohead. Como isso aconteceu? Como você conhece o Jonny?

Na verdade foi por meio do Andre De Ridder, um maestro alemão. Ele trabalha bastante comigo e com o Jonny, então daí a conexão.

Jonny tem trabalhado bastante fazendo a trilha dos filmes do diretor norte-americano Paul Thomas Anderson ultimamente. Você gostaria de trabalhar com um diretor de cinema? Quem?

Na verdade, eu já compus algumas trilhas pra cinema, e é maravilhoso o que o Jonny faz, porque ali ele tem uma relação maravilhosa na qual ele pode escrever o tipo de música que ele preferir. Então sim, eu adoraria trabalhar em um filme maior, trabalhar com alguém como o (cineasta alemão) Werner Herzog, seria um sonho fazer a trilha de algum documentário dele.

Lembro-me de ter lido algo sobre a relação entre The National e Herzog, ele trabalhou com a banda ou é só um fã?

Sim, ele é um fã, vai a um monte de shows nossos, mas ainda não trabalhamos juntos.

Você toca em uma banda de rock e também compõe música clássica. Como isso funciona pra você? Eu sei que você se considera um compositor clássico antes de um guitarrista de rock, certo?

Eu toco música clássica desde o ensino médio, minha bagagem musical é mais clássica, mas eu toco em bandas de rock desde que eu era um moleque com meu irmão, então é como se fosse minha família, é essencial também. Em uma banda eu sou, na maioria da vezes, um guitarrista, e, quando se trata de música clássica, eu componho todos os instrumentos. De alguma forma são apenas lados diferentes de mim, mas não importa, eu sou sempre a mesma pessoa e não penso neles (música clássica e rock) de forma separada, são só partes de quem eu sou.

As composições clássicas e de rock vêm do mesmo lugar? Como é o processo pra cada uma delas? Porque no Mistaken for Strangers (documentário desse ano sobre o The National), você diz que a parte mais difícil de compor uma música pra banda é ter uma ideia. Funciona assim também com as composições clássicas?

Sim, eu diria que é mais difícil ainda com as composições clássicas, porque é difícil pra mim escrever música instrumental que não tenha uma inspiração por trás, ou mesmo uma ideia, especialmente sendo pra uma orquestra grande, em um trabalho que terá 15 ou 20 minutos de duração. Ajuda muito ter inspiração, as duas, musical e não musical. Pra mim, eu costumo frequentemente tirar inspiração da literatura, St. Carolyn By The Sea, por exemplo, foi inspirada em um romance homônimo do Jack Kerouac, e a segunda composição do split, Lachrimae, é baseada em uma peça musical do período renascentista. Mas falando sobre de onde a música vem, eu costumo fazer uma comparação com um escritor que escreve poesia e também romance. Você é a mesma pessoa, mas a forma é diferente e o jeito que você desenvolve ideias e o jeito que você executa ideias também são, e é desse jeito que funciona pra mim.

Sobre referências você cita Bela Bartók, Steve Reich, Glenn Branca, Philip Glass e outros que inspiram seu trabalho. Mas dentro da sua geração de compositores, quem são suas inspirações?

Por “minha geração” você quer dizer músicas que tenham a minha idade?

Isso.

Eu sou parte de um grupo de músicos que colaboram bastante entre si. Meu irmão (Aaron Dessner, também do The National) e eu trabalhamos bastante juntos. Nico Muhly é um amigo com quem que trabalho muito e também é um compositor, nós nos inspiramos mutuamente… eu acho que existem alguns aspectos da orquestração… ele é muito bom escrevendo pra grandes orquestras, aprendi demais com ele. Sufjan Stevens é um dos meus amigos mais próximos e ele é compositor brilhante, inacreditavelmente criativo, ótimo pra se ter perto e trabalhar junto. Na maioria do tempo são meus amigos que me inspiram. Richard Reed Parry é como eu e Jonny, está em uma banda de rock, ele faz parte do Arcade Fire e compõe bastante música conceitual.

E tirando seu irmão, Jonny e Richard, quais guitarrista de bandas de rock você admira?

Stephen Malkmus do Pavement sempre foi um dos meus favoritos. Ira (Kaplan) do Yo La Tengo também, Lee Ranaldo do Sonic Youth. Adoro alguns violonistas também, tipo o John Fahey, ninguém conseguia tocar como ele e foi um dos grandes motivos de eu começar na música clássica.                                                                                            bryce national

Seu primeiro trabalho solo, Aheym (2013), significa “aquele que se dirige pra casa” em ídiche. Pra você, a música clássica é como sua casa?

Eu realmente sinto como se fosse minha casa… é verdade, faz sentido isso. É meio que onde eu cresci, mas aquela música específica (que dá nome ao disco) foi inspirada nas histórias que minha avó, uma imigrante judia russa, contava. Foi escrita baseada nessa ideia de jornada pra casa, uma jornada musical pra ela. 

Você fundou seu próprio festival, o MusicNOW, na sua terra natal (Cincinnati, Ohio). Como a experiência tem sido pra você?

Eu amo. Ele foi concebido como um festival bastante íntimo e orgânico, bem ao contrário dos grandes festivais de rock. É tudo voluntário e são pequenas plateias, não chegam a 3000 pessoas, com muita música clássica contemporânea. Aparecem compositores, muitos amigos. É um ponto maravilhosamente alto do meu ano e ano que vem vai ser a décima edição, tem sido uma jornada ótima. Um grande lugar pra tentar coisas novas, na cidade pequena onde eu cresci, e, de alguma maneira, só funcionaria ali. Não funcionaria em uma cidade grande como Nova York, onde coisas desse tipo não são especiais, acontecem toda noite. Aqui é um elemento muito especial.

Você e seu irmão (Aaron Dessner, também do The National) parecem bons amigos. Provavelmente já te perguntaram sobre isso um milhão de vezes, mas como é trabalhar com ele? Eu sinto que tem uma energia muito legal entre vocês e ele também participou em St. Carolyn By The Sea.

É ótimo, nós somos gêmeos e pra irmãos trabalhando o tempo todo juntos nós nos damos muito bem. Ele não é um músico com treinamento clássico, ele não tem o interesse artístico que eu tenho nesse tipo de música, mas ele é muito talentoso, então ele consegue levar bem, basicamente ensino ele de ouvido. A faixa que ele toca comigo, eu escrevi especificamente pro estilo que ele toca, então é interessante porque aquilo foi feito já pensando nele. Ele é um grande compositor e produtor e é muito bom em estúdio. Nós temos habilidades diferentes, ele costuma ficar bastante envolvido com a produção do disco, enquanto eu faço a orquestração. Nós sempre brincamos que individualmente nós não somos tão bons, mas juntos somos impressionantes.

Você ainda está trabalhando com o Clogs (banda instrumental formada no começo dos anos 2000 e que lançou cinco discos)? Algum plano pro futuro?

Não temos trabalhado muito porque estamos vivendo em cidades diferentes agora. Nós trabalhamos juntos por dez anos e lançamos cinco discos, mas é bom ver que cada um seguiu seu caminho e foi um belo projeto, mas agora eu estou mais interessado em escrever minha própria música e no trabalho com o National.

Algumas bandas, como o Godspeed You! Black Emperor, misturam música clássica e rock. Você poderia fazer algo assim no futuro?

Eu acho que não, porque eu já toco em uma banda de rock e não sinto a necessidade de misturar as coisas desse jeito. Mas eles são uma banda interessante, tem algo muito bom acontecendo com eles, algo meio punk, com uma mensagem política. Mas eu acho que no meu caso é muito saudável o que eu tenho. Acho que existem muitos músicos clássicos que são roqueiros frustrados, mas eu não preciso disso, deixo a música clássica seguir sua própria trilha.

Trouble Will Find Me (2013) foi o sexto disco de estúdio com National e vocês foram uma banda média por um bom tempo, mas agora finalmente são headliners em grandes festivais pelo mundo. Qual a sensação?

É maravilhosa. Levou um bom tempo pra chegar onde estamos, mas também aprendemos a ser melhor como banda ao vivo, então até chegarmos nesse nível, tivemos bastante tempo pra crescer. Com algumas bandas tudo acontece muito rápido, enquanto são jovens. Nós meio que sabemos o que estamos fazemos, sabemos como fazer um show e tudo isso chegou na hora certa. Agora vamos tocar em vários festivais, como o Primavera Sound, que é ótimo, e é realmente divertido pra gente.

Você parece tão animado com seus trabalhos recentes e o The National está tocando junto já há mais de 15 anos. Você acha que o final está próximo?

Você nunca sabe, uma banda é algo frágil. Eu acho que a razão pela qual as bandas acabam é porque é difícil manter a química e todas as boas bandas de rock são sobre química. Então, no nosso caso, eu não sei, eu acho que provavelmente vamos fazer mais um disco, e nós queremos que o próximo disco seja bastante diferente, então vai ter um elemento de despedida, mas vamos continuar fazendo isso enquanto nos dermos bem e a música for boa. Quando a música estiver ficando ruim, com certeza vamos parar.

Li que você gosta de futebol, devia aparecer pra Copa!

Sim, a gente adora, eu e meu irmão crescemos jogando, ele está mais por dentro que eu, mas gostamos muito.

Você pretende apresentar suas composições clássica fora dos EUA e Europa? Alguma chance de rolar no Brasil?

Eu adoraria, não fui convidado, mas estou indo pro México esse ano. Se acontecer, eu vou adorar, mas ainda não aconteceu nenhum convite.

E podemos esperar o The National no Brasil nessa turnê? Você sabe algo sobre isso?

Talvez. Não temos certeza ainda. Tiveram algumas conversas sobre isso no outono (do hemisfério norte, primavera aqui), mas não tenho certeza se resolveram isso, se acertarem as datas, mas espero que aconteça. Adoraríamos ir ao Brasil, é tão divertido.

 

Assista ao making of de St. Carolyn By The Sea:

Os horários e programação para assistir o Coachella pela internet nesse fim de semana

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Nessa semana rola um dos maiores e talvez o mais famoso festival de música do mundo, o Coachella. Atraindo as atenções de qualquer pessoa que minimamente se interessa por música, o evento rola no deserto de Índio na Califórnia e tem como headliners nesse ano o Muse, Arcade Fire e Outkast.

E pra quem não tem condições de  curtir isso tudo pessoalmente, como nos outros anos, vai rolar uma cobertura e transmissão dos shows completa pelo Youtube nesse link.

Apesar de não ser o melhor line-up do festival americano, ainda tem muita coisa que vale a pena ser conferida. Abaixo, a hora e canal dos shows no horário de Brasília em uma tabela organizada pelo chapa Robson Rocha. É importante notar que algumas apresentações não serão transmitidas, por opção ou porque algumas bandas não cederam direitos de imagem como Motorhead e Neutral Milk Hotel.horários do Coachella

 

Festival Planeta Terra não deve acontecer em 2014

Com o final dessa edição do Lollapalooza Brasil, os olhos se viraram para o calendário de festivais do segundo semestre e ao que parece o país esse ano perderá um evento de peso. Criado em 2007 e acontecendo todos os anos ininterruptamente desde lá, o Planeta Terra Festival não deve ocorrer em 2014. Foi o que eu apurei em conversas com diversas fontes ligadas à organização.

Embora a decisão ainda não esteja 100% tomada, é infelizmente o mais provável. No ano passado a possibilidade foi levantada, mas em cima da hora a empresa espanhola firmou uma parceria com a Time For Fun, gigante do entretenimento na América do Sul, e  tivemos shows de Blur, Lana Del Rey, Beck, Travis e outros artistas no Campo de Marte.

Um dos principais eventos do circuito alternativo, o Planeta Terra perdeu um pouco de sua força em 2012 e 2013, quando outros eventos do estilo, como o Lollapalooza, chegaram ao Brasil e acirraram a disputa por público e atrações. Entre alguns outros prováveis motivos para a não realização, estão o alto investimento na reformulação total do portal que aconteceu recentemente e o foco em outras áreas em ano de eleições e Copa do Mundo.

A minha torcida é que mesmo não acontecendo esse ano, o festival não morra. Que passe a  um formato menor ou tenha intervalos de tempo maiores entre suas realizações, mas que continue existindo. Quem gosta de música, agradeceria.

Procurada, a assessoria do Terra não se pronunciou oficialmente até o momento.

No fim, é tudo sobre música ou como foi o 2º dia do Lollapalooza Brasil

Foto por João Vitor Medeiros/Catárticos
Foto por João Vitor Medeiros/Catárticos

O segundo dia do Lollapalooza Brasil de 2014 começou em ritmo bem mais tranquilo que o anterior. Se no sábado tinham ocorrido muitos problemas, a resposta pra maioria deles estava ali na segunda etapa do festival: menos gente. Bem menos concorrido, era fácil se locomover entre os palcos, ir aos banheiros e comprar o que quer que você precisasse (com um pequeno porém que comentarei mais à frente). Filas e espera são inevitáveis em eventos desse porte, mas no domingo parecia tudo funcionar bem. E no começo da tarde os problemas se resumiam às dores nas pernas e ao sol escaldante.

Aí fica fácil se concentrar no que realmente importa: a música. Eu resolvi que assistiria a quatro shows naquele dia: Johnny Marr, Savages, Pixies e Arcade Fire. Gostaria de ter visto Soundgarden, Vampire Weekend e New Order, mas festival é escolha e em todos os lugares do mundo funciona assim. Imagine ir ao Glastonbury ou ao Coachella e tentar assistir a todos os shows? Perguntei a um amigo que já foi a vários eventos do tipo no exterior se ele havia ido a algum que fosse maior em área e caminhadas que o Lolla de 2014 e ele me contou que o Reading, um dos mais famosos do planeta, era ainda mais extenso. Não estamos totalmente acostumados a esse formato, mas nesse fim de semana um passo importante com relação a isso foi dado.

E eu não poderia ter sido mais feliz nas minhas escolhas. Nenhum show me decepcionou e alguns me surpreenderam. Fui em todos os dias de todas as edições do Lollapalooza Brasil até hoje e certamente esse foi o meu preferido de sempre.

Foto por Clarissa Wolff/Catárticos
Foto por Clarissa Wolff/Catárticos

Às duas da tarde e sob um calor de rachar a cuca, Johnny Marr era os Smiths no palco Ônix. E que show, amigos. A apresentação do inglês quase foi cancelada por ele ter fraturado a mão há duas semanas, mas isso parecia ter ficado em um passado longínquo. As canções do seu recente primeiro disco solo, The Messenger, ao vivo ficaram muito melhores, e a banda que o acompanhava deu conta do recado. Ainda teve espaço pra uma cover de I Fought the Law, que ficou famosa com o Clash, uma música do Electronic e quatro músicas da banda mais famosa do guitarrista. Destaque pra How Soon Is Now? com a participação de Andy Rourke e ½ Smiths no palco. O encerramento com There Is A Light That Never Goes Out cantada em uníssono não deixou dúvidas de que foi um dos grandes shows do evento e, provavelmente, do ano inteiro por aqui.

Abri mão de ver o Vampire Weekend e fui pro Palco Interlagos aguardar pelas meninas do Savages. Era o menor público entre todas as apresentações que acompanhei no autódromo. Novatas e com só um disco na bagagem – Silence Yourself, do ano passado – as europeias não ficaram devendo pra nenhum veterano. Boas músicas, banda afiada e vocalista sisuda vestida toda de preto, exceto pelo salto alto rosa, foi o mais próximo que já cheguei de um show do Joy Division – e eu já vi o New Order. Excelentes instrumentistas, era impossível não se deixar levar pelo clima obscuro que era construído a cada música executada com pulsação do baixo como fio condutor. Matador.

Foto por Clarissa Wolff/Catárticos
Foto por Clarissa Wolff/Catárticos

Com um sorriso no rosto, fui até o Palco Skol esperar pelo próximo show, do Pixies, banda que adoro e que passou por muitas mudanças nos últimos tempos. Mês passado conversei com o baterista por telefone sobre isso tudo e se você não leu, pode fazê-lo AQUI.

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Foto por Clarissa Wolff/Catárticos

Aqui cabe um parêntesis: os vendedores ambulantes que eu tanto tinha elogiado no dia anterior, dessa vez deixaram a desejar. Não pela presença deles, que costumava bastante satisfatória, mas pela falta de controle e organização. Abordei no entorno do palco mais de cinco deles e nenhum queria vender água pelo valor estipulado de 3 reais, mesmo usando vestimentas que deixavam explícito o preço. Me neguei a comprar e só consegui fazê-lo pelo valor justo mais de uma hora e meia depois. Além disso, muita gente reclamou que quase nenhum dos ambulantes aceitava fichas, o que tornava a utilização delas uma dor de cabeça. A organização precisa se atentar a isso nas próximas edições, porque no meio de tantos shows e longas caminhadas, é inadmissível ser extorquido para se hidratar.

Frank Black e companhia então entraram no palco e desfilaram seu repertório extenso. O show do Pixies é basicamente isso: repertório. E é o suficiente. Na sua simpatia de sempre, a banda não trocou uma só palavra com a plateia ao longo de toda a apresentação. Foram 23 músicas e muitos sucessos. As músicas novas não empolgaram, mas não comprometeram. A nova baixista, a argentina Paz Lechantin, não é nenhuma Kim Deal, mas deu conta do recado e parecia a mais animada dos quatro no palco. A história do rock passa obrigatoriamente pelo Pixies e foi uma satisfação poder vê-los ao vivo pela primeira vez.

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Foto por João Vitor Medeiros/Catárticos

Finalmente então era hora de esperar pelo último show da noite, o Arcade Fire. Muita gente optou pelo New Order, na mesma hora, de forma que o o Pixies pareceu ter sido assistido por mais pessoas. Nada que interferisse no resultado final. O que aconteceu ali foi uma das maiores surpresas que já tive com relação à música. Gosto bastante da banda canadense em disco, mas nunca foi das minhas preferidas. Cheguei diversas vezes a me perguntar o porquê de todo o oba-oba em volta deles. Tive então a minha resposta.

Tenho certeza que você já ouviu gente de mais comentar sobre o show e vamos simplesmente dizer que foi o melhor do festival. Aqui é permitido se entregar ao clichê do “show catártico” nas resenhas. Foi a missa mais hipster do mundo. A plateia ajudou e a banda parecia muito feliz. Poucas coisas impedem uma banda feliz de fazer um grande show e nenhuma delas impediu o Arcade Fire ontem. Desde os primeiros acordes de Reflektor, passando por danças, referências ao Brasil e antigas canções, até desembocar no final com Wake Up com direito a chuva de papel picado e fogos de artifício, tudo deu maravilhosamente certo. Destaque para terem tocado Laika, canção de Funeral, pela primeira vez nessa turnê nos shows do Rio e em São Paulo. A música foi requisitada à banda por meio do fã clube deles por aqui, o pessoal gente finíssima do Arcade Fire Brasil.

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Foto por João Vitor Medeiros/Catárticos

O saldo final foi positivo. Ouso dizer que foi o melhor entre todas as três edições, mesmo com todo os seus problemas. Dessa vez fiquei até o final e a volta de trem ocorreu tranquilamente. Há bastante coisa a ser repensada, como a capacidade máxima e o acesso aos palcos, mas há muita coisa a ser mantida. No Jockey, talvez fosse mais cômodo pra maioria das pessoas, mas era em um espaço apertado e como som vazando entre palcos, algo péssimo em um festival de música. E no final, não é a música que importa mais?

Confira um resumo do festival em 30 fotos AQUI.
Confira nossa cobertura completa AQUI.

O teste de Interlagos ou como foi o 1º dia do Lollapalooza Brasil

Foto por Clarissa Wolff/Catárticos
Foto por Clarissa Wolff/Catárticos

O primeiro dia do Lollapalooza Brasil era um teste importante: agora sob o comando da Time For Fun, o festival tinha a missão de provar que poderia fazer do Autódromo de Interlagos sua nova e definitiva casa no país. Os ingressos, esgotados na véspera, mostravam que o público tinha dado um voto de confiança à organização e superado a desconfiança inicial com a escolha do local.

Fui de metrô/trem até a estação Autódromo e o percurso todo funcionou de forma satisfatória na ida, dentro das suas limitações. O único problema foi mesmo a superlotação e o aperto, o que não chega a ser nenhuma novidade pra quem vive em São Paulo. Aliás, foi uma “boa” oportunidade para quem não mora na cidade conferir uma pequena parte de como é o dia a dia de quem depende de transporte público por aqui, porque é dali pra pior.

Chegando a Interlagos logo ficou claro qual seria o maior vilão do festival: a distância. Entrei próximo ao palco que leva o nome do autódromo e para chegar até o show do Cage the Elephant (banda que foi a primeira que assisti em um Lollapalooza, em 2011), no palco Ônix, foi um belo pedaço de chão. Consegui ver algumas músicas de longe, aproveitando os morrinhos que permitiam enxergar com clareza a banda mesmo estando afastado. Esse fator foi um belo acerto e funcionou bastante bem naquele palco. Contudo, preferi me adiantar e ir até o palco Skol conferir em pessoa o tão (mal) falado novo projeto de Julian Casablancas.

Foto por Clarissa Wolff/Catárticos
Foto por Clarissa Wolff/Catárticos

Eu gosto de Strokes. Gosto bastante. Vi a apresentação deles por aqui no Festival Planeta Terra de 2011 e mesmo com todos os problemas achei que foi um belíssimo show, principalmente por causa do público, que cantou todas as músicas o tempo todo. Do projeto solo do vocalista nunca fui dos maiores fãs, mas era preciso confirmar com meus próprios olhos (e ouvidos) o que o nova-iorquino aprontaria acompanhado da sua nova banda, The Voidz. Aí deu tudo errado. Sem versões de estúdio pra comparar (o disco deve ser lançado ainda esse mês), a estranheza com as novas canções era enorme. Era quase impossível distinguir a voz no bolo sonoro que se formou em meio a duas guitarras Flying-V com timbres de hard rock e uma bateria raivosa. Todas as músicas novas eram versões dessa combinação. E mesmo com a referência à bandas punks da Inglaterra do final dos anos 70 (Julian usava patchs do GBH e Discharge em sua jaqueta), tudo ali parecia soar como a primeira banda de um adolescente que acabara de descobrir o metal. Julian parecia animado, mas inseguro. Brincou com plateia dizendo: “Novas músicas, pessoal! Estamos aprendendo, estamos aprendendo”. O show melhorou sensivelmente na parte final quando foram tocadas 11th Dimension do seu primeiro disco solo e Take It or Leave It dos Strokes, mas aí já era tarde. O músico andou dizendo em entrevistas que seu novo disco iria explorar uma combinação pouco utilizada na música até agora. Se for parecido com o que apresentou, o pouco uso da tal combinação não é coincidência.

Foto por Clarissa Wolff/Catárticos
Foto por Clarissa Wolff/Catárticos

Em mais uma etapa da meia-maratona, voltei ao palco Interlagos pra conferir os shows de Portugal. The Man e Lorde. O primeiro, que faz um pop bem legal em disco, não comprometeu. Fez o arroz com feijão e agradou aos fãs. Foi legal ouvir ao vivo boas canções como Modern Jesus, mas pra quem não é louco pelo grupo, não foi um show memorável. Ainda assim, foi divertido.

Era a vez então de Lorde, o mais recente fenômeno da música pop. Eu inclusive ouso dizer que os ingressos esgotados do dia talvez tivessem mais a ver com a neozelandesa (e o Imagine Dragons, outro fenômeno recente) do que com os headliners do dia. E ela não decepcionou. Com uma banda enxuta, formada apenas por um baterista e um tecladista, a adolescente parecia genuinamente emocionada e não cansava de elogiar o Brasil e dizer como estava feliz de estar ali. Lorde não faz meu estilo de música preferido e não coloco pra rodar um disco da cantora quando que quero relaxar, mas em meio a um pop radiofônico cada vez mais saturado, produzido em série e superproduzido em estúdio com batidas eletrônicas pasteurizadas, ver algo bem mais orgânico sendo feito é um alívio. A garota parece bem distante do personagem de diva pop e eu acho que ela tem um belo futuro pela frente. Não seria a primeira vez (e espero que não seja a última) que um adolescente daria um sopro de frescor ao pop de FM. O público pareceu não ter reclamações.

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Foto por Clarissa Wolff/Catárticos

Na saída, empurra-empurra e aperto. Não sei se a produção subestimou o público que gostaria de ver o show da Lorde, mas foi extremamente difícil e doloroso mudar de palco após a apresentação. E olha que eu saí faltando duas ou três músicas pro fim. Mais um ponto fraco do festival: os acessos aos palcos não comportaram bem o número de pessoas e por vezes, principalmente à noite, foi complicado se deslocar, mesmo para os palcos menos concorridos. A produção precisa encontrar uma maneira melhor de fazer isso funcionar com tanta gente (em rota de colisão) por ali.

Dei um tchauzinho de longe para o palco abarrotado onde o Phoenix tocava e fui esperar Trent Reznor e companhia no show do Nine Inch Nails. E daí foi só alegria. Ou melhor, foi só melancolia, raiva e violência. A banda entrou a mil com Wish e me fez esquecer o cansaço e a dor nos pés que naquela hora já estavam bastante grandes. Com a cara de que saiu de uma instituição mental direto para o palco de sempre e se comunicando com o público apenas por meio de seus “hey”, o americano não deixou a peteca cair nem quando a apresentação entrou numa parte mais calma. Mesmo com uma formação reduzida de oito pra quatro integrantes e sem a parafernália de iluminação completa, a banda fez o show do dia do festival. Pesado. A galera era intensa em algumas partes, mas em geral assistiu ao show com atenção e em silêncio. E mesmo que não dê pra esperar uma plateia feliz e saltitante em um show do Nine Inch Nails, até o mais sisudo dos presentes saiu com um sorriso no rosto. Ouvir Hurt ao vivo encerrando tudo foi a cereja do bolo.

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Foto por Clarissa Wolff/Catárticos

Vi algumas músicas do Muse de longe, mas não quis arriscar sair ao mesmo tempo daquele mundaréu de gente e fui embora ainda no começo do show. Na saída, passei pelo palco do Disclosure, que tinha bom público pra quem concorria com um headliner. Na volta, o transporte novamente funcionou de forma ok.

Mais organizado que os Lollapalooza do Jockey, não enfrentei fila pra comprar água ou alimentos em nenhum momento. Os vendedores ambulantes aceitando fichas e dinheiro funcionaram maravilhosamente bem. As ativações das marcas não ficaram cansativas e contribuíram pra experiência de quem estava ali querendo mais do que música. Não fui ao Chef Stage, mas só ouvi elogios à comida e ao serviço. O 3G, como sempre, foi impossível de acessar e os palcos às vezes pareciam apertados. E andar aquela distância toda foi bastante estafante. Contudo, jogando isso na balança, o saldo foi positivo. Longe de estar ainda perfeito, o #NovoLollaBR, como foi divulgado o tempo todo, tem potencial pra mudar o jeito como o público brasileiro se relaciona com festivais e Interlagos (sem chuvas) funcionou bem no todo. Como tudo que tem relação com essa edição, ainda há um longo caminho a ser percorrido (hehe), mas é possível chegar lá.

Vejamos como será o segundo dia de festival, que deve ter um público bem menor.