Jesus & Mary Chain no 18º Festival da Cultura Inglesa

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Aconteceu ontem, pela segunda vez consecutiva no Memorial da América Latina, o já clássico Cultura Inglesa Festival que trouxe ao Brasil bandas como Franz Ferdinand, The Horrors, Gang of Four, Blood Red Shoes, Kate Nash e outras. Esse ano, o Jesus & Mary Chain encabeçava a programação, acompanhado pelo Los Campesinos! Infelizmente, não pude estar no festival pessoalmente, pois estou viajando para fazer a cobertura do espanhol Primavera Sound (em breve por aqui), mas mandei um enviado para falar do que interessa: o encontro com Jesus.

TEXTO POR RAUL RAMONE

Você já deve ter lido por aí sobre o show “nostálgico” do Jesus and Mary Chain, ontem, no encerramento do 18º Cultura Inglesa Festival. Após três décadas de carreira (contando a pausa entre 1999 e 2007), a banda dos irmãos Reid se tornou sim, especialista em turnês regadas a hits, sem vergonha alguma de parecer caça-níquel.

Mas, ao contrário do que aconteceria em outros casos, o público parece não se importar em ouvir novamente as boas e velhas canções que consagraram um dos pioneiros do Shoegaze.

A postura dos músicos continua exatamente a mesma de antes, ou seja, completamente alheia ao que acontece do palco pra lá (apesar do esforço apresentado pelo vocalista em interagir com a plateia).

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Dois fatores acabaram comprometendo o desempenho do grupo ao longo do show. O primeiro (talvez não tão perceptível para algumas pessoas), foi a qualidade do som, instável, variando entre excessivos graves e agudos estridentes. O segundo problema (muito mais nítido para o público), foi o desentrosamento entre os integrantes, que gerou interrupções e atravessadas cometidas principalmente pela guitarra do veterano William Reid (“Sidewalking”, “Halfway to Crazy” e “Just Like Honey” precisaram ser reiniciadas) e por seu irmão mais novo Jim.

Compreensível, uma vez que a banda permaneceu seis meses sem tocar.

No total, foram 16 músicas no set list, com destaque para “Head On”, “Between Planets”, “Just Like Honey” e “Happy When It Rains” (que coincidiu com o retorno da forte garoa que caiu durante todo o domingo em São Paulo).

No bis, uma sequência de faixas do álbum clássico Pychocandy (1985), levando os fãs ao delírio. Pra encerrar, tocaram Reverence, faixa que abre Honey’s Dead (1992).

Apesar dos pesares, o show do Jesus and Mary Chain no 18º Cultura Inglesa Festival merece figurar na lista de melhores do ano. E se por alguma razão você não estava lá, fique com o show completo logo abaixo.

Fotos: Rodrigo Capote/UOL

SETLIST:

Snakedriver
Head On
Far Gone and Out
Between Planets
Blues From a Gun
Teenage Lust
Sidewalking (Stopped at the beggining and restarted)
Cracking Up
All Things Must Pass
Some Candy Talking
Happy When It Rains (Stopped at the beggining and restarted)
Halfway to Crazy
Just Like Honey (Stopped at the beggining and restarted)

Encore:
The Hardest Walk
Taste of Cindy
Reverence

Afghan Whigs em São Paulo: quando pais e mães de família voltaram a ser adolescentes

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Foto por Amanda Mont’Alvão

Em uma semana em que voltou a chover e, contra todas as probabilidades da natureza, as ruas se encheram de gelo em São Paulo, o evento mais improvável de todos aconteceu no Audio Club no bairro da barra Barra Funda. A mais nova casa de shows da cidade recebeu em seu palco o Afghan Whigs, veterana banda americana de rock alternativo que embalou 10 entre 10 baladas do gênero no final dos anos 90 e começo dos 2000, mas nunca havia pisado no país nos seus quase 30 anos de carreira.

Além da apresentação em solo paulistano, a banda passaria por Porto Alegre, mas esta última foi cancelada devido à baixa procura de ingressos. Fato que, aparentemente, não esteve nem perto de acontecer quando o show de ontem começou com casa lotada às 23 horas, exatamente. Aqui é novamente necessário se questionar o porquê de uma casa que conta com um trunfo tão grande quanto a proximidade com o metrô, abrir mão de utilizá-lo. Isso inviabiliza que muita gente vá até o evento e complica a vida daqueles que vão de qualquer maneira. Não há motivo racional, econômico ou logístico, que pareça justificar essa sandice. Ainda assim, os apelos do público continuam a serem ignorados.

Sorte da produção que quando as luzes se acenderam e a banda entrou no palco, toda vestida de preto e capitaneada pelo sisudo Greg Dulli, a plateia só parecia interessada em tirar todo o atraso de anos entalado na garganta. Com um repertório baseado no recente novo disco Do to the Beast (2014), mas passeando por toda a carreira, a banda desfilou o seu som potente e cirurgicamente martelado com uma pedrada atrás da outra. Os presentes cantavam os hits alternativos a pleno pulmões e receberam muito bem as novas canções. O destaque foi a interpretação de Gentlemen, do disco homônimo de 1993, com o Audio quase vindo abaixo. A qualquer momento era possível passar os olhos pelo recinto e apanhar um marmanjo qualquer displicentemente tocando air guitar para reforçar as três guitarras do palco. Ninguém ali parecia ter menos de 25 anos e ninguém ali parecia agir como se tivesse mais de 16

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Foto por Amanda Mont’Alvão

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A banda estava afiada e o sistema de som – que ainda pode melhorar – também não comprometeu. A voz de Dulli parece intacta e não decepcionou quando mais exigida. No palco, a banda pareceu se divertir sempre que possível, só dando uma pausa nas poucas canções mais tranquilas, nas quais o nível de silêncio sempre funciona com fator catalisador. O resultado foi um show em que ninguém se arrependeu de ter voltado pra casa em uma madrugada chuvosa de quinta-feira.

Foi a primeira vez que fui ao Audio e a casa não decepcionou, a não ser pelo que já citado. É bonita, confortável e de fácil acesso. Com ajustes, é muito promissora. Quanto à banda, a espera valeu a pena e, se ela não é mais tão relevante quanto nos anos 90, não deixa de ser especial e competente. Se relembrar é viver, quem esteve no Audio ontem não teve dúvidas de que a música faz a vida muito melhor.

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Foto por Amanda Mont’Alvão

 

Setlist :

Parked Outside
Matamoros
Fountain and Fairfax
The Lottery
Debonair
When We Two Parted/Over My Dead Body
Turn On the Water
Uptown Again
Algiers
Royal Cream
I Am Fire/Tusk (Fleetwood Mac cover)
Gentlemen
It Kills
Going to Town
John the Baptist
Heaven On Their Minds /Somethin’ Hot (Andrew Lloyd Webber cover)
My Enemy

Encore:
Bulletproof
Summer’s Kiss
People Get Ready (intro)/Faded

Breadcrumb Trail: The Story of Slint ou o mito do homem comum na música

O que faz de um disco um clássico? Música incrível é obviamente a chave, mas como se chega lá? Uma dose de boas histórias ajudam, com certeza. E boas histórias não faltam a Breadcrumb Trail: The Story of Slint (2014), documentário que busca recontar as origens e transformações que fizeram com que quatro garotos de uma cidade do interior dos Estados Unidos compusessem, gravassem e se separassem antes mesmo de lançar um dos discos mais estranhos e sensacionais que a música alternativa americana já teve o prazer de parir: Spirderland, de 1991.

“Tenha em mente pelos próximos dias que nós estamos em Louisville, Kentucky. Não é Londres. Não é nem Nova York. Esse é um lugar estranho”. Essa citação do famoso jornalista Hunter S. Thompson introduz o clima quase bucólico, beirando o tédio e que, ao mesmo tempo, parece ser o combustível de uma geração que não conseguia se conectar com as manifestações artísticas que ocorriam no mainstream no começo dos anos 80 e aos poucos foi achando a sua própria voz. Ali, uma recém surgida cena musical toda baseada no mantra punk do it yourself era movida a hardcore e pessoas comuns. E foi nesse contexto que os amigos de infância Britt Walford e Brian McMahan começaram cedo, por volta dos 10 anos de idade, a tocar juntos e formar bandas pra se apresentar em espeluncas e quermesses de igreja.

Encarregado da bateria, Walford é o centro e fio condutor da narrativa, que conta com depoimento de diversos personagens importantes para a história do Slint: desde os membros da banda e amigos da cena, passando pelos pais do baterista que sempre abrigaram e apoiaram os ensaios do filho, até rostos conhecidos, como o produtor Steve Albini, James Murphy (LCD Soundsystem, DFA), Ian MacKaye (Minor Threat, Fugazi) e David Yow (Jesus Lizard). A impressão que fica em meio a tantas anedotas é de que toda a mística que envolve a banda e sua obra-prima é muito mais em razão do boca-a-boca no qual o disco se espalhou do que a alguma característica extraordinária ou suposta genialidade dos músicos. Tudo ali foi feito a partir de boas ideias e à base de muitos ensaios.Breadcrumb-Trail_Poster-for-Will-Oldham-approval

Sem querer entrar em muitos detalhes, nas entrevistas conduzidas pelo diretor Lance Bangs (que já fez vídeos de inúmeras bandas do rock alternativo, do Sonic Youth ao Arcade Fire, passando pelo Green Day e o Pavement) fica claro que mesmo sendo bons músicos, todos ali eram moleques, muitas vezes infantis. Em determinado momento, Ian MacKaye conta sobre uma vez em que eles estavam juntos e que, ao ouvirem um som flatulento, todos correram em busca da porta mais próxima. MacKaye ficou imóvel, perdido com a reação, quando foi avisado que o último a chegar a alguma maçaneta era punido com socos dos outros. Em outra parte, David Yow conta que a música Mouth Breather (“idiota”, em tradução livre) do Jesus Lizard foi baseada na vez em que Steve Albini pediu que Walford tomasse conta da sua casa durante uma viagem e o garoto quase destruiu o lugar.

Pouco focado nas gravações e processo de composição de Spiderland propriamente ditos, o maior triunfo do documentário é mostrar como boa arte não é privilégio de seres atormentados ou messias que vieram ao mundo apenas com o propósito de nos iluminar. Stress excessivo e colapsos nervosos ganham tom de eventos que podem acontecer com qualquer um e não fardos carregados por gênios. Como o nome mesmo sugere, o filme segue uma trilha em que cada migalha parece ao mesmo tempo ser pouco importante, mas imprescindível ao resultado final. É interessante notar que na cena musical de Louisville, todos eram amigos e acabaram contribuindo uns com os projetos dos outros, sem brigas de egos ou ataques de estrelismo. Assim, o que salta aos olhos (e ouvidos) é a música.

Breadcrumb Trail: The Story of Slint (2014) será lançado em DVD e fará parte da versão deluxe de Spiderland que será lançada em breve pelo selo Touch & Go. Apesar disso, é fácil encontra-lo em diversos sites de compartilhamento por aí.

Após se separar em 1991, o Slint se reúne esporadicamente para algumas turnês desde 2005. A última reunião foi em 2013 e ainda está em andamento.

Escute Spiderland na íntegra: