ENTREVISTA: Labirinto – “Infelizmente não podemos dizer que existam muitas bandas de post rock no Brasil”

O post-rock não é um gênero musical para que tem pressa. Com paciência, as músicas costumam ser longas e construídas aos poucos, camada sobre camada, incrustadas sob distorções e pedais e que progressivamente passam da calmaria à raiva em instantes. É um estilo de catarse e na maioria do tempo, instrumental. Não é nenhuma surpresa, então, que não figure em paradas de sucesso ou  toque em rádios FM. Contudo, cada vez mais angaria fãs pelo mundo. Bandas como Mogwai, Sigur Rós, Godspeed You! Black Emperor e Explosions in the Sky são exemplos de grupos de post-rock que conquistaram espaço no cenário mundial, viajando o planeta, tocando em grandes festivais e chamando a atenção da imprensa.

No Brasil, a cena do estilo também vem ganhando espaço. Selos como a Sinewave e a Dissenso ajudam na propagação de artistas nacionais e estrangeiros por aqui e bandas longevas como a Herod – abertura dos últimos shows do The Cure em SP e RJ – e a Labirinto – turnês na Europa, Estados Unidos e Canadá – mostram que a crescente onda de  post-rock não é efêmera.

A Labirinto, por exemplo, está prestes a completar dez anos de existência. E está, até aqui, no seu auge artístico. No próximo sábado, os setes membros da banda subirão ao palco do Via Marquês em São Paulo para se apresentar no Overload Music Fest ao lado de nomes conhecidos como Alcest e God Is An Astronaut. O festival é, também, mais uma prova de que cada vez mais o país abraça o gênero. Mas ainda há bastante coisa a se fazer.

E sobre isso conversei com Erick Cruxen – Labirinto e Dissenso -, falando da banda, do selo, do festival e do post-rock no Brasil na entrevista que você pode ler abaixo:

Vocês já tocaram algumas vezes no exterior. Quais as principais diferenças entre tocar lá fora e aqui no Brasil?

As principais diferenças que vemos são relacionadas à infra estrutura que as casas de shows e produtores oferecem às bandas e ao público. Quase todos os lugares que tocamos (Europa, USA e Canadá) contamos com uma excelente qualidade de som e grande receptividade. No Brasil, ainda existe um pensamento (em sua maioria) de que os espaços de shows fazem “um favor” aos artistas, ao deixarem se apresentar em suas dependências. Não se preocupam, adequadamente, com as necessidades das bandas e dos ouvintes. Quanto ao público, a atenção que recebemos é muito parecida entre aqui e o exterior.

O post-rock ainda é um estilo pouco conhecido por aqui, mas eu acho que isso vem mudando. Vocês concordam? Por que vocês acham que o estilo vem ganhando mais fãs? Vocês recentemente participaram do festival Música Muda no SESC, como foi isso?

Certamente mudou bastante desde que criamos o Labirinto há quase 10. Não somente em relação ao post rock, mas também à música instrumental e/ou experimental. O estranhamento diminuiu, e o tipo de som tornou-se mais acessível. Tal processo se intensificou, principalmente, devido à internet, que possibilitou o maior contato das pessoas com bandas, selos e festivais gringos de post rock/metal. No Brasil surgiram mais bandas com referências no estilo.

O festival foi muito significativo para esse processo de “naturalização” do rock instrumental. Bandas de quatro países, com diversas formas de produzir música sem vocal, se apresentaram, despertando o interesse do público, que lotou o SESC Pompeia, quase todos os dias.

Grandes bandas estrangeiras de post-rock como Mogwai e Sigur Rós influenciam o trabalho de vocês, servem como inspiração?

Desde que começamos com o Labirinto, possuímos diversas referências que vão além do Post Rock. Música progressiva, erudita, minimalista, eletrônica, metal; ouvimos muitas coisas, entre elas, as bandas de post rock/metal, como as citadas.

Vocês tem um selo e um estúdio, além da banda. Como isso funciona pra vocês? Vocês conseguem se sustentar apenas com atividades relacionadas à música?

Além do Labirinto, e de outros projetos musicais que possuímos, todos possuem trabalhos remunerados e convencionais, fora da banda. Eu e a Muriel trabalhamos no selo Dissenso Records, e no Dissenso Studio, onde conseguimos viver indiretamente de música. As atividades extra-banda ocupam grande parte de nosso tempo, mas ainda assim, como todos os integrantes do Labirinto, conseguimos organizar nossas agendas para podermos nos dedicar a todas as atividades.

Vocês vão tocar no próximo sábado no Overload Music Fest junto a bandas como o Alcest e o God Is An Astronaut. Vocês acham que o país tem demanda para abrigar mais festivais desse tipo? Qual a expectativa pro show?

Certamente, hoje existe um público ávido por esse tipo de festival, por tais estilos musicais. O Overload Music Fest será um marco nesse sentido, com bandas emblemáticas. Esperamos que seja o primeiro de muitos há ocorrer no Brasil!

Vocês recentemente lançaram um clipe de 25 minutos. Como está a agenda de lançamentos da banda, algum plano pra esse ano e pro próximo?

Lançamos um vídeo recentemente, com 3 músicas ao vivo, Masao (2014) e mais duas músicas inéditas (Avernus e Alamut) . Nossa intenção era mostrar como o Labirinto é ao vivo; muitas pessoas não conseguem ir às nossas apresentações devido a distância, ou mesmo, pela pouca frequência de shows que fazemos por ano.

Estamos trabalhando em nosso próximo disco “full” que será lançado no segundo semestre de 2015, organizando as próximas turnês para o exterior no ano que vem, além de shows, ainda esse ano, em outros estados como Rio de Janeiro e Belo Horizonte. Em breve, anunciaremos algumas novidades no site. (http://labirinto.mus.br/site/).

Quais são as melhores bandas de post-rock do Brasil pra vocês hoje – tirando a Labirinto, obviamente?

Infelizmente, não podemos dizer que existam muitas bandas de post rock em terras brasileiras, gostaríamos que houvesse mais projetos que conseguissem desenvolver uma identidade própria, nesse estilo, através de sua música. Mas, podemos mencionar bandas que não são estritamente de post rock; algumas mais pesadas, mesclando o post metal, outras mais shoegaze, outras mais trip hop…. Enfim, gostamos bastante dos curitibanos do Black Sea e do Ruido/mm, que está lançando disco novo em alguns dias; o Orchestre Noir e os sons experimentais e abstratos do National e do Muep Etmo. Tem também o Leaving the Planet e o Tesla Orquestra do nordeste. O Infraaudio e o Loveless em São Paulo. São somente alguns nomes que nos vieram à mente agora, tem muita gente boa fazendo música no Brasil, não necessariamente dentro do rótulo de post rock.

Por que fazer música instrumental?

Sempre nos interessamos por fazer música instrumental, foi um processo natural no Labirinto. Muitas vezes, utilizamos as vozes como mais um instrumento, processando-as com efeitos, através de sintetizadores e pedais. Buscamos engendrar diversas sonoridades, timbres e texturas, onde não exista um instrumento preponderante, como pode acontecer nas composições com a presença da voz.

Você pode ouvir e baixar gratuitamente quase toda a discografia da banda no site oficial: http://labirinto.mus.br/site/