APRESENTANDO: Palace Hotel – a melancolia desenhada para pessoas comuns

front

Eu nunca escondi meu fraco por qualquer tipo de manifestação que possua um tom melancólico. Inclusive, no texto mais pessoal que escrevi nesse blog, falei um pouco sobre isso. Elas me atingem em cheio e me absorvem de uma forma que é tão surpreendente e ao mesmo tempo tão óbvia que o resultado é um pout-porri de sentimentos daqueles que por si só justificam a existência das artes. E entre todas as artes a música sempre foi a menina dos meus olhos. Não é nada incomum então que eu me encontre frequentemente fisgado por algum disco ou canção que penda para o lado mais triste.

Tendo dito isso eu tenho que confessar que ando apaixonado por uma banda. Seria só mais um tópico no grupo da Sinewave no Facebook se eu não tivesse ouvido o Palace Hotel e seu Carnival Nights e ele tivesse despertado em mim, no mais alto grau de intensidade, todos as sensações que eu abordei no primeiro parágrafo desse texto. Como um amigo que me conhece mais do que o suficiente, a melancolia me abraçava, cada vez mais apertado, a medida que as canções iam acontecendo. As referências ao Sparklehorse, um dos meus grupos preferidos de todos os tempos, a atmosfera lo-fi das composições e as letras proferidas cadenciadamente faziam com que “às vezes eu sentisse meu coração desacelerando”, como proferem os versos de Slowing Down.

Minha reação automática foi varrer a internet atrás de informações sobre o grupo, no que não tive muito sucesso. Resolvi então perguntar diretamente à pessoa que havia criado o tópico e descobri que o Palace Hotel é na verdade um homem só: André ZP. Sim, ele é brasileiro e me contou um pouco sobre as origens do projeto e suas outras empreitadas, que incluem a fundação de um coletivo voltado a chipmusic, o Chippanze.orge um projeto de música eletrônica feito basicamente com Game Boys (sim, aquele console da Nintendo), o Pulselooper. Tudo isso será explorado em outro post no qual pretendo entrevistá-lo.

André tocou na banda que acompanhou Daniel Johnston ao país nesse ano. Entregou também que esse é o único disco do Palace Hotel, gravado em 2007, mas que pretende lançar material novo em breve. Por favor.

Abaixo você pode ouvir o disco na íntegra e decidir por você mesmo. Se preferir pode fazer o download gratuito aqui utilizando um dos códigos. Diferente do multi-colorido carnaval referido no título, você vai encontrar aqui a vida em suas cores mais abundantes: o branco, o preto e, principalmente, o cinza.

back

APRESENTANDO: Bored Nothing – a importância do tédio

Bored Nothing foto

Eu sou um ferrenho defensor do tédio. Acho que ele é um belo propulsor da arte. Aquela conversa toda de ócio criativo e que as pessoas precisam constantemente estarem fazendo nada para que tenham ideias interessantes. Não que esse tipo de ideia não possa surgir de um outro tipo de abordagem, contudo, as que surgem nesses momentos são simplesmente diferentes. É disso que se aproveita a banda- de-um-cara-só de hoje, o Bored Nothing.

O som é da Austrália, terra bastante prolífica no cenário musical e que já nos agraciou com grupos que vão do clássico AC/DC ao hype Cut Copy. Recentemente tem surgido uma série de bons artistas de lá, apostando em um som com influências gritantes de psicodelia, sendo o mais conhecido o Tame Impala (pra quem gosta, indico também o Pond, banda irmã do Impala). O Bored Nothing tem influências também relacionadas ao estilo, mas desprende-se com facilidade do solo sessentista ao caminhar por outros estilos e desaguar em um resultado que pode ser classificado como Dream Pop.

O disco homônimo, e único até agora, foi composto quando Fergus Miller, mente por trás do projeto, passava por uma temporada quase sem teto em Melbourne e as letras refletem muito da situação: deseperança, tristeza e, surpresa, tédio. Algumas delas são de cortar o coração. O timbre e maneira como canta fazem com que em certos pontos suas músicas lembrem pelo vocal o grande Elliott Smith. As guitarras e distorções usadas envolvem tudo numa atmosfera que, no conjunto, transmite exatamente a sensação de alguém que está perdido e vive por inércia. Vale cada segundo de audição e as minhas preferidas deixo disponíveis aqui mesmo no post. O disco completo pode facilmente ser achado nos inúmeros sites de compartilhamento de arquivos por torrent que existem na rede. Fique entediado, mas não agora.

 

 

APRESENTANDO: Savages – o mundo (do rock) é das mulheres

Savages

O hype inglês, comandado sobretudo pelo semanário NME, vive tentando nos empurrar uma imensidão de bandas como se fossem enviados divinos, responsáveis por uma suposta nova direção do cenário musical. O termo “salvação do rock” hoje é sinônimo de piada. E o famigerado hype erra muito: bandas que desaparecem do mapa em meses, músicas que são apagadas da memória em horas. Mas ele também acerta, como é o caso com as Savages.

Banda formada por quatro mulheres, tem feito barulho com seu som baseado no post-punk da década de 80. Aqui não há nada de novo. Nem precisa. Cheio de energia, com bons riffs de guitarra e músicas com uma atmosfera sombria, o disco “Silence Yourself”, lançado no começo da semana, tem recebido uma avalanche de críticas positivas. Em estúdio, lembra a banda oitentista Siouxsie & the Banshees. No palco, os trejeitos desajeitados e introspectivos da vocalista Jehnny Beeth tornam a comparação com Ian Curtis, líder do Joy Division, inevitável.

Elas já tocaram em festivais como o Coachella desse ano e tem turnê cheia de datas por EUA, Canadá e Europa. Tocaram também em sessão especial na Rough Trade, loja de discos mais famosa da capital inglesa, e em sessões de rádios americanas importantes. São hoje a nova banda mais comentada do mundo. Tire suas próprias conclusões.

O vídeo do primeiro single de Silence Yourself, Shut Up:

Ao vivo no programa de TV do Jools Holland, ainda em 2012: