CONEXÃO EUROPA: Vida Festival, na Catalunha, têm shows de Lana Del Rey, Yo La Tengo e M. Ward.

palcoPor Mar Herrando

Viver sem música seria terrível

A palavra “vida” têm muitos conceitos dentro dela, tantos que não podemos nem resumir o seu significado num só. Estado, alimento, ser, a longevidade das coisas… a vida têm tantas emoções como uma linda palavra existente somente em português: saudade.  E é isso mesmo o que deixou essa primeira edição do festival: muita saudade. O Vida Festival foi demais, superou expectativas e ainda bem que já prometeu voltar no ano que vem. Um(a)  VIDA que alimenta as pessoas com música boa e com a magia da sua localização no coração da costa catalã.

vida

Foi um belo acerto dos organizadores do já histórico festival Faraday e que começaram com o pé direito com este novo projeto, que já é uma realidade. A programação esteve repartida entre duas localizações, nas quais se respirava o mais puro ambiente do Mar Mediterrâneo, o que a equipe artística cuidou até o ultimo detalhe.

A opção de montanha, Mas d’en Cabanyes, albergou as atuações principais: a Masia (casa tradicional da Catalunha) rodeada de campos de uva e com vistas a Vilanova i la Geltrú, convidava aos assistentes a seguir o caminho e encontrar com uma feira artesanal e os dois palcos principais nos quais não se sobrepôs nenhum show. Assim que chegamos até o inicio do bosque marcado com letras grandes de luzes com a palavra VIDA, encontramos o palco de El Vaixell, uma autêntica barca de pescador para fazer-nos recordar a longa tradição de pesca da localidade catalã. Por último, o palco mais acolhedor, La Cabana, um refúgio para a música e no que tiveram lugar atuações como as do Joan Colomo. Tão acolhedor quanto El Niu (O Ninho), o espaço dedicado aos mais pequenos, ainda que no espaço tudo fosse perfeito para qualquer pessoa, independentemente da sua idade.

yo la tengo

As atrações que mais gostamos da jornada da sexta-feira foram as do Sr. Chinarro (artista da Sevilla), simpático e com letras extraordinárias cantadas desde a barca, mas infelizemente com um público ainda dormido da siesta. O artista declarou-se fã de M. Ward, o que se confirmou quando na atuação do nova-iorquino, vimos a Chinarro mais duma vez  nos ecrãs do palco curtindo o show.

A atuação teve um formato bem mais elétrico do que em outras oportunidades, e M. Ward deixou de lado a técnica do finger-picking própria de ver nos seus concertos acústicos e mais íntimos. Ward tem avôs mexicanos, é músico e produtor de outros artistas, toda uma figura da indústria da música e com duas baterias sobre o palco, a precisão da percussão marcou uma autenticidade em canções como Primitive Girl. O show foi programado numa hora intermediária, envolvida pelo entardecer e pela chegada de mais público.

galera

Acabamos na sexta-feira com Rufus Wainwright, que comentou sobre não ter a voz muito boa, mas nós não percebemos nada estranho em nenhum instante. Ele só ao piano e à guitarra, dedicou o último tema a capella a sua mãe, que foi professora de canto e com quem sempre foi muito próximo. Rufus nos prometeu que na sua próxima visita vai cantar a canção Barcelona, de Freddie Mercurie e Montserrat Caballé.

Regressamos no sábado, a voz de Silvia Pérez Cruz e a guitarra de Raül Fernández, nos deixaram com a boca aberta. Com muito mais público do que na sexta, o espaço da barca foi um mar de silêncio e admiração para o dueto que está enchendo as salas da Espanha toda. A cantora nos explicou que os estados da pena, raiva e resignação convivem nesta vida e o recompilatório de canções reflete as vivências de diferentes autores, desde Albert Pla até a chilena Violeta Parra.

Ao mesmo, oficinas de Yoga, Ipads para brincar com a app Toc and Roll (criação de Minimúsica do selo Sones) e muitas outras coisas aconteceram no palco dedicado às crianças. Pudemos escutar o cover de Blister in the Sun dos ViolentFemmes da mão dos jovens de Mataró, The Free Fall Band. As crianças ficaram de boca aberta!

Nas atividades paralelas ao festival, nesse mesmo dia tinha haveria uma apresentação sobre o livro Big Day Coming. Yo La Tengo e o auge do indie-rock de Jesse Jarnow, mas infelizmente a mesma teve que ser cancelada devido a atrasos com os vôos. Não por isso, os fãs deixaram de curtir o show da banda-tema do livro, os quais fizeram uma belíssima apresentação e  não esqueceram de músicas como Sugarcube ou Today is the day.

Lana
Lana Del Rey

Nesse mesmo palco teve lugar a atuação da polifacética Lana del Rey, headliner e cabeça de campanhas de publicidade, a modelo e cantora é um ícone das nova gerações, o que muitos, tentam, mas poucas o conseguem.

Tendo em vista tudo isso, aprovamos o VIDA e esperamos que venham muitas outras edições. Longa vida ao festival!

Nos Primavera Sound em Portugal: grandes festivais europeus também falam português

A versão portuguesa do Primavera Sound em Portugal também vale a pena (foto por Mar H. Salvador)
A versão portuguesa do Primavera Sound em Portugal também vale a pena (foto por Mar H. Salvador)

Acabei de voltar de uma temporada pela Europa onde acompanhei de perto o Primavera Sound em Barcelona, como contei no último post, e mais alguns shows em Paris, incluindo uma entrevista com o Slowdive, dos quais falarei por aqui em breve. Mas pra quem quer uma outra (boa) opção de festival europeu a Mar Herrando conta no texto abaixo como é a experiência do festival português irmão da versão catalã.

TEXTO POR MAR HERRANDO

Nos Primavera Sound: Mais do que uma linguagem musical.

Ontem começou a Copa do Mundo e já escutamos falar muitas vezes que em tempos de Copa o Brasil está aberto ao mundo. Mas, para nós, o Brasil não é só futebol. É muito mais e sua língua ganha cada vez mais terreno entre diferentes festivais musicais europeus.

A versão lusa do Primavera Sound foi há uma semana, exatamente nos dias 5, 6 e 7 de junho, no Parque da Cidade do Porto. O evento contou com mais de 70.000 participantes de 40 nacionalidades diferentes, mas sem perder o seu selo português.

(foto por Mar H. Salvador)
(foto por Mar H. Salvador)

Não vamos cair em comparações, porque estas são odiosas, mas se alguém quer um festival maciço mas acolhedor, internacional mas local, lotado mas varejista, o seu festival é o Nos Primavera Sound. Organizado pela Pic-Nic Produções, o evento fez sua primeira edição em 2012 e mais uma vez  cuidou dos seus fãs com pequenas lembranças gratuitas: flores, nuvens de cores, capas de chuva e, como não poderia faltar, o saco oficial que se transforma numa toalha de mesa quadriculada perfeita para um pic-nic. A galera pode curtir os concertos de forma descontraída, deitando no gramado. O Nos Primavera Sound é um festival para os amantes da música, onde todos podem criar a sua própria experiência musical e a diversidade é garantida, de jovens até familias – que tem a opção do Miniprimavera, espaço dedicado às crianças.

Além disso, como fica dentro do Parque da Cidade, os participantes encontram de um lado uma feira promovendo a cultura local e do outro as Tasquinhas, com pratos tradicionais portugueses. Além de todos estes detalhes, a prefeitura de Porto aumentou  a freqüência de ônibus para facilitar o retorno aos diferentes pontos de cidade e evitar avalanches de pessoas.

(foto por Mar H. Salvador)
(foto por Mar H. Salvador)

Quinta-feira, 5 de junho: primeiro dia em que reinou a língua portuguesa.

 Na quinta-feira, 5 de junho, os participantes puderam desfrutar de todos os shows, sem stress, sem deslocamentos entre palcos e sem sacrificar qualquer show por outro, porque felizmente eles não se sobrepõem. Os concertos foram alternados entre os dois palcos principais, localizados num lindo vale do Parque da Cidade. A banda portuguesa “Os da Cidade”abriu o festival no palco Nos, patrocinador principal do festival. O carioca Rodrigo Amarante, no palco Super Bock – ao lado – foi o seguinte. A lusofonia reinou na primavera e o sucesso foi dividido entre artistas do Portugal e Brasil.

Caetano Veloso (foto por Mar H. Salvador)
Caetano Veloso (foto por Mar H. Salvador)

O dia continuou com a banda americana Spoon, que abriu com o tema Don’t You Evah e fechou com Black like me. Os garotos de Austin sabem fazer bem as coisas e ninguém melhor do que eles sabem se portar em um festival e se aproximar de um público que ainda estava esquentando na primeira tarde do evento. Então chegou a multifacetada Sky Ferreira, que depois de sua performance no dia gratuito do festival irmão de Barcelona, retornou ao line-up do Primavera Sound em Portugal.  A jovem da Califórnia fechou a tarde e abriu o caminho à noite, para dar espaço a uma das principais lendas da Música Popular Brasileira: Caetano Veloso. O baiano não esqueceu canções como Estou Triste, tão conhecida no Brasil quanto em Portugal, país no qual muitos artistas brasileiros foram capazes de desenvolver também sua carreira profissional. Depois seguiu o trio Haim, o good boy Kendrick Lamar e fecharam a noite os australianos Jagwar Ma que, para muitos, ajudam a matar a saudade que temos do Primal Scream, mas com o seu toque pessoal e inconfundível.

Sexta-feira, 6 de junho: as ofertas musicais duplicaram.

A gente voltou para o parque e não foi difícil ficar à vontade, mas fazer escolhas foi mais complicado do que na quinta, com o dobro de shows e, portanto, o dobro de cenários. Tivemos que selecionar e o roteiro ficou assim: Follakzoid, Midlake, Television, Warpaint, Slowdive, Pixies e John Wizards até ver fechar o palco Pitchfork.

(foto por Mar H. Salvador)
Franck Black abrindo a boca pra cantar, claro.(foto por Mar H. Salvador)

Aqui fizemos sacrifícios, mas a acessibilidade do Parque da Cidade e a sua boa distribuição fez com que nos sentíssemos satisfeitos com a otimização do tempo e com a qualidade do festival. Nossa primeira parada foi no palco ATP e começamos com a chilena Follakzoid. Ficamos impressionados com a energia do baterista e as canções de pelo menos 10 minutos de duração. Estivemos decididos a sacrificar o fim do show deles para apreciar o folk-rock psicodélico do Midlake no Super Bock e voltamos ao ATP para ver o Television que começou com uma pequena demora, com eles ainda passando o som e  Tom Verlaine pedindo a galera por cinco minutos. Felizmente o responsável por Marquee Moon conseguiu confirmar o ditado que diz que  “o bom é esperado”.

Depois chegaram as Warpaint, talento e carisma é o que essas quatro garotas de Los Angeles tem. Seu som hipnotizou na atmosfera pós chuva  e os espectadores se entregaram completamente no equador do festival. Mais tarde chegou uma das reuniões que sempre caracterizam a programação do Primavera Sound, o Slowdive , que após uma inatividade de duas décadas se mostraram em sua melhor forma. Mais um exemplo de estar em forma, chegava o show mais esperado da sexta-feira e o momento dos Pixies. Tocaram uma música após a outra, sem esperas, e Frank Black ofereceu os seus melhores jogos de voz, Joey Santiago quebrou um buquê de primavera contra seu violão e a cumplicidade profissional entre a novo baixista Paz Lenchantin e o baterista David Lovering tornou-se clara. Terminaram com Where is my mind? e após isso grande parte do público decidiu deixar o local.

(foto por Mar H. Salvador)
Slowdive (foto por Mar H. Salvador)

Sábado, 7 de junho de: mais dilemas, roteiro ainda mais difícil.

Se Primavera Sound em Barcelona recebeu aos portugueses Paus de El Segell, o Nos Primavera Sound congratulou aos catalãos Refree, também do mesmo selo. A banda de Raül Fernández abriu o sábado no palco Super Bock, seguido dos norte-americanos Lee Renaldo e John Grant. “Azulejos azulejos…I can’t get enough of them” falava um simpático Grant, que é caracterizado pelo seu interesse na cultura local das cidades que visita (o seu facebook oficial fala por ele mesmo).  Acompanhado da sua banda islandesa, país onde editou seu último álbum, Pale Green Ghosts, o artista ofereceu um show de uma hora, uma viagem com sua mistura de acústica e eletrônica. Com certeza cantou GMF, Black Belt e fechou  com a excelente “Queen of Denmark”,  acompanhado dos seus habituais jogos de luzes. Apenas no palco do lado e dez minutos mais tarde, começamos a ouvir um hino: Don’t Swallow the Cap e com certeza estamos falando de The National. Eles continuaram com I Should Live In SaltMistaken for Strangers e o quarto tema tornou-se a surpresa, St Vincent entrou em cena e um ofereceu um dos melhores momentos do festival. Depois disso, a banda também fez uma longa lista de sucessos como Fake Empire, Sea of Love e Troubles Will Find Me.  Mas chegou o drama, tivemos que deixar o show porque ao mesmo tempo Charles Bradley estava agindo no ATP, funk e soul de categoria contra a banda liderada por Matt Berninger, separados por poucos metros de distância. Foi difícil de assimilar e tive que lidar da melhor maneira possível  com a sobreposição de concertos, mas curtimos demais o show de Bradley e de um genuíno palco ATP, super lotado, apesar de ter uma das melhores bandas do festival tocando ao mesmo tempo.

Em breve uma entrevista com José Barreiros, coordenador do evento, acompanhada de mais imagens.

 

National
The National (foto por Mar H. Salvador)
John Grant
John Grant (foto por Mar H. Salvador)
(foto por Mar H. Salvador)
(foto por Mar H. Salvador)