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ENTREVISTA: Belle & Sebastian – “A música que você faz é um produto da pessoa que você é e nós não somos as mesmas pessoas dos anos 90″

Na década de 90 talvez seja Belle & Sebastian a banda que mais se aproxime de simbolizar o que poderíamos chamar de espírito de banda independente, posto que os anos 80 é, indiscutivelmente, dos ingleses do The Smiths. Contudo, diferentemente da trupe liderada pelo excêntrico Morrissey – ativa apenas por um período de 5 anos – os escoceses estão prestes a completar duas décadas tocando juntos, mesmo que ainda sejam, em grande parte do tempo, definidos pelos primeiros trabalhos.

Isso, contudo, não é algo que incomode a banda. Pra falar sobre isso, o disco mais recente e até política, bati um papo com o tecladista boa praça Chris Geddes por telefone, o qual está na íntegra abaixo:

Sobre o novo disco do Belle & Sebastian [Girls in Peacetime Want to Dance], experimentar com música eletrônica não é algo novo pra vocês, mas nesse disco algumas canções foram talhadas especialmente pra pista de dança. Foi uma coisa natural ou foi algo calculado?

 Não, acho que foi uma coisa bem natural. Nós usamos a música eletrônica antes, eu acho que voltando bastante no tempo, até no Tigermilk já tinham indícios de música eletrônica e no [The Boy With An] Arab Strap nós adicionamos muitos sintetizadores e baterias eletrônicas. No último disco nós também usamos bastante sintetizadores e baterias eletrônicas, mas, com o jeito que o disco foi feito, talvez não tenhamos dado tanta ênfase a esse tipo de coisa. Senti que foi muito natural, que foi guiado pela própria composição das músicas, a canção simplesmente sugeria aquele tipo de abordagem. Mas também as pessoas na banda, nós  temos feito mais coisas por nós mesmos, eu tenho tocado mais sintetizadores do que piano, por exemplo.

Uma das canções do disco, “Enter Sylvia Plath”, é bem diferente de tudo que vocês já fizeram. Pode me falar como foi compor e gravar essa faixa?

 Sim… Foi uma música escrita pelo Stuart [Murdoch]. Em termos do estilo, ele veio até nós com a canção e a primeira coisa que fizemos foi programar as linhas de baixo, então esse talvez tenha sido um jeito diferente de começar. Uma vez que tínhamos isso, só fomos tocando por cima, do jeito que normalmente fazemos. Eu acho que isso veio diretamente do Stuart na concepção mesmo da música, ele queria esse estilo, essa produção, então nós naturalmente fomos nessa direção.

 É na linha eurodance, certo?

 Sim, sim, tem um pouco de George Moroder, um pouco de ABBA e coisas assim, mas isso não foi feito conscientemente. Uma vez que nós começamos a tocar a música, as coisas foram caminhando. Foi como que se eu estivesse no órgão Hammond ou no piano buscando o som certo.

Esse disco traz coisas bastante pessoais sobre o Stuart, como o resto da banda se sentiu sobre isso?

 Acho que tiveram músicas do passado que me atingiram mais do que as que estão nesse disco. Nós fizemos uma música chamada “I’m Waking Up To Us”, em 2001 ou por aí, e se tornou bem óbvio na época que era uma música que o Stuart tinha escrito sobre a Isobel [Campbell, que deixou a banda em 2002], e ela ainda estava na banda na época e foi engraçado estar lá assistindo a isso tudo enquanto ela não estava dizendo nada e nós não sabíamos se era a hora ou lugar pra falar algo. Mas nesse último disco, em “Nobody’s Empire” [faixa que abre o disco], mesmo sabendo que é uma coisa muito pessoal do Stuart e sobre o que ele passou com a Síndrome da Fadiga Crônica, acho que ela foi escrita de um jeito tão não-óbvio que eu não percebi sobre o que ele estava cantando no momento em que gravamos.

 Então você não se sentiu um intruso ali?

Não, eu acho que não. Eu acho que o jeito que a banda geralmente trabalha é: alguém traz uma música, o cantor escreve as letras e adianta como vão ser as mudanças de acordes e tão logo nós começamos a tocar a música, você pode perguntar como a pessoa quer que você toque ou qual o contexto daquilo, mas raramente você pergunta à pessoa sobre o que ela está cantando ali.

Vocês tiveram no ano passado o Referendo sobre Independência da Escócia. Isso influenciou de alguma maneira a produção do disco?

Nós já tínhamos terminado o disco na época que o referendo aconteceu. Claro que a campanha do referendo não foi curta, foi uma campanha de 8 meses até a eleição. Eu acho que fez com que as pessoas em geral na Escócia ficassem mais interessadas em política e passassem a se importar mais com assuntos políticos, e talvez isso tenha entrado no álbum de uma maneira indireta. Eu não acho que tenha algo diretamente destinada ao referendo, mas era algo que a gente estava conversando entre nós, dentro da banda, e obviamente na comunidade de artistas a gente perguntava o que os outros estavam pensando, então obviamente era algo em que a gente pensava bastante.

E o que você achou do resultado do referendo?

Eu fiquei surpreso porque todo mundo que eu conversava, no meu bairro ou no Twitter, todo mundo pensou que o voto seria “Sim” (a favor da independência). No bairro que eu moro parecia que todo edfiício e janela tinha um cartaz de “Sim”, você não via nenhum poster pro “Não”, não conversava com muitas pessoas que expressassem vocalmente sua preferência pelo “Não”.

Você ficou desapontado?

Sim, eu fiquei. Eu fiquei desapontado pelo resultado e por ter feito com que eu percebesse que o grupo de pessoas em que eu vivo não é o reflexo da sociedade como um todo. Isso me choca um pouco.

Às vezes a democracia é dura, certo? (risos)

(risos) Sim, mas têm sido um processo bom. Quero dizer, o número de pessoas que votaram no referendo foi muito maior que o número que vota nas eleições gerais. Então serviu pra mostrar que as pessoas não necessariamente vão deixar a política de lado se você der a elas algo em que elas sintam que o voto delas faz diferença, e isso é importante. O movimento pelo “sim” também teve vitórias e assistir a esse grande movimento político acontecer foi realmente animador.

Ano que vem vocês vão completar 20 anos de banda, mas muitas vezes vocês ainda são definidos pela sua sonoridade dos anos 90. Isso te incomoda?

Não, de maneira nenhuma. Eu acho que nos consideramos tão sortudos por poder viver de música que enquanto tivermos isso… Quero dizer, o que a gente fez nos anos 90 não é algo para o que possamos deliberadamente voltar, porque você simplesmente não consegue, a música que você faz é um produto da pessoa que você é e nós não somos as mesmas pessoas que éramos nos anos 90. Significa muito pra gente que a música que a gente fez ainda se conecta com as pessoas e a gente ainda toca essas músicas ao vivo, essas músicas ainda se conectam com a gente quando estamos no palco. Eu ainda gosto de “Like Dylan In The Movies”, ainda parece fresca pra gente e eu não sinto que fazemos isso só pelo dever de fazê-lo. Então nos sentimos felizes com a nossa produção, ter gente do mundo inteiro escutando a nossa música e se conectando com ela. Nos sentimos muito sortudos com isso.

E nesses 20 anos que vocês estão juntos, vocês alguma vez consideraram acabar com a banda?

Eu acho que quase deixei a banda depois dos dois primeiros discos. Eu ainda era um estudante na época e eu sentia que eu estava sofrendo pra estar na banda e eu não tinha certeza que a banda estava indo numa direção com a qual gostaria de estar comprometido.

Quando foi exatamente isso?

Bem no começo, pelo final de 1997, começo de 1998, nessa época. E houve uma época que eu era bem próxima da Isobel e do Stuart David [baixista que ficou na banda até 2000] e houve um tempo que eu continuar na banda sem um dois seria impensável. Você chega a um ponto que você percebe que estar na banda e fazer música é tudo que você quer fazer e se tem uma pessoa que não quer mais fazer isso, tudo bem, é um direito dela, mas você não precisa acabar com a banda por isso. Então eu não acho que não teve um ponto em que todos ao mesmo tempo estivessem pensando: “talvez nós devessemos parar, acabou”. Eu não acho que nós alguma vez tenhamos atingido esse ponto, eu acho que sempre teve um grupo de pessoas comprometido em continuar.

E vocês viram de perto essa grande mudança na indústria musical com a internet e todo esse processo. Como você vê a relação das bandas e da internet?

 É complicado, não é? Eu entendo que quando você está criando música você está criando uma experiência e, com sorte, está criando uma conexão emocional com as pessoas que estão ouvindo seu trabalho. Nós viemos de um tempo em que o único jeito de obter essa conexão era por meio de um objeto físico, fosse um CD ou um LP. Então eu acho que para nossa geração talvez seja um pouco difícil se adaptar ao fato de que não é sobre o item físico mais. E quando você tira o item físico, é mais difícil ganhar dinheiro fazendo música porque o objeto é pelo que as pessoas pagam. Ao mesmo tempo, eu acho que todo mundo na banda está dos dois lados disso, todos nós usamos streaming e Youtube para escutar música e o fato de que toda música está disponível para nós escutarmos é fantástico, porque nós também somos fãs de música. Eu não sei se você viu isso, mas o Caribou fez uma playlist de 1000 músicas no Youtube, sabe? E eu tenho escutado isso pelos últimos dias… Até mesmo os discos que eu tenho nas minhas prateleiras, é complicado tirá-los de lá e colocar pra tocar, às vezes eu só os coloco no Youtube porque está muito mais à mão.

E tirando o Caribou, você escuta outras artistas “novos”?

Sim, sim, eu escuto um monte de bandas novas. Tem um disco de uma cantora chamada Jane Weaver que eu achei muito bom. Também uma cantora e compositora chamada Kate LeBon fez discos que eu gosto. Gruff Rhys do Super Furry Animal lançou um disco solo chamado American Interior que eu achei bem bom.

Eu gostei desse também.

Sim, sim! Ele chegou a tocar no Brasil ao vivo?

Não, depois desse disco ainda não.

Se ele for você deve ir vê-lo ao vivo porque é fantástico. E tem algumas bandas em Glasgow que eu acho que são muito boas também. Tem uma banda chamada Casual Sex meio pós-punk, meio disco, tem uma banda Gold Teeth que são muito bons também, tem um componente africano no som deles, um monte de ideias interessantes por ali. Então sim, eu escuto a um monte de coisas novas. Mas também passo muito tempo ouvindo discos antigos de som e de reggae.

E vocês tão vindo tocar no Brasil em outubro [dentro do Popload Festival], você se lembra de alguma história que tenha acontecido das outras vezes que vocês estiveram aqui?

Sim, vividamente! A primeira vez que fomos ao Brasil foi muito surpreendente, tocar pra um público que sabia todas nossas músicas e cantavam junto conosco enquanto tocávamos. Obviamente, você sabe, nós gostamos muito da música brasileira, das coisas da Tropicália e nós fizemos algumas versões enquanto estávamos aí. Estávamos no Jô Soares, o programa de TV, mostrando nossas tentativas de tocar música brasileira. Foi muito bom, mesmo.

Vocês tocaram Mutantes, certo?

Isso e nós tocamos a versão da Gal Costa de “Baby” do Caetano também.