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ENTREVISTA – Real Estate: “Provavelmente a música baseada em guitarras está morrendo”

No último ano o mundo foi pequeno para o Real Estate. Projetados pelo terceiro e elogiado disco, Atlas, a banda de New Jersey viajou e tocou em praticamente todos os festivais e centros mais importantes do globo. Oriundos da pequena cidade de Ridgewood, hoje eles aparecem com um dos maiores expoentes do rock alternativo americano e vivem no musicalmente efervescente Brooklyn de Nova York.

Atlas foi tão bem recebido em solo americano que chegou a ocupar a posição de número 34 nas paradas estadunidenses, um grande feito para uma banda independente de médio porte, cercada por todos os lados por oceanos de projetos milionários. Assim como na produção, não há nada de extravagante na música do grupo. Nas canções da banda, melodias sutis são tecidas sob vocais tranquilos, sempre guiadas por acordes ou riffs de guitarra. A sensação é a de deitar-se em uma rede e de repente não ser mais refém do tempo.

E é com esse poder em mãos que eles desembarcam essa semana em São Paulo (20/11) e Porto Alegre (21/11) – ambos os shows acontecerão no Beco 203 – para pela primeira vez se apresentarem nos palcos da América do Sul. Conversei por telefone com o vocalista Martin Courtney para a edição de novembro da versão brasileira da Revista Rolling Stone e a íntegra da conversa você confere abaixo.

Por que vocês escolheram o nome Atlas pro disco?

Eu acho que, lá atrás, quando estávamos acabando de montar as peças, nós tínhamos muitas músicas extras que acabaram não entrando no disco, mas as que acabamos mantendo, aleatoriamente, eu percebi que elas tinham coisas em comum, tinham a ver com certos lugares e nós temos viajado bastante. Desculpa, eu tô um pouco atordoado, acabei de acordar, fizemos um show até tarde ontem (risos). Mas basicamente tem a ver com um monte de coisas que estão no disco e como você se encontra em algum lugar do mundo. Muitas coisas no disco são sobre o futuro, como onde eu me vejo estando em 5 anos, 10 anos ou alguns meses e eu acho que quando eu olho pro disco é como se fosse um mapa, as músicas que eu escrevi me ajudam a descobrir onde eu quero terminar, como se fossem um guia pessoal pro futuro.

E você acha que Atlas é o seu melhor trabalho até hoje?

Eu acho. Como compositor, como a pessoa que escreveu a maioria das canções do disco, eu acho que são mais… acho que são canções bem trabalhadas e eu gastei bastante tempo nelas. À medida que você vai crescendo, e nós já temos essa banda há 6 anos, eu venho escrevendo músicas há mais tempo que isso, eu acho que se você fizer algo de novo e de novo você fica melhor nisso. Eu sinto que nós estamos melhores como banda, escrevendo músicas, arranjando ou mesmo tocando nossos instrumentos, sabe, eu era bem ruim como guitarrista quando nós começamos, eu ainda não sou muito bom, mas eu melhorei excursionando, tocando todo dia e tal… Então, sim, eu realmente penso que é melhor que nossos discos anteriores.

Nos seus trabalhos anteriores muitas músicas falavam do passado ou soavam nostálgicas, enquanto em Atlas o foco é o presente e o futuro. Por que essa mudança?

Eu meio que queria fazer isso como um desafio pra mim mesmo porque eu acho fácil escrever sobre o passado. Escrever as letras é a parte mais complicada do processo, eu não quero que elas sejam ruins (risos), então vai bastante pensamento e esforço. Então, basicamente, é muito trabalhoso pra mim escrever as letras, ou pelos menos aquelas que com as quais eu fico satisfeito. Muita gente diz que as músicas que eu escrevi anteriormente eram sobre o passado, olhar pra trás, nostalgicamente ou não…

E eu sei que você se casou recentemente, certo?

Sim, exatamente, então eu decidi que eu ia tentar não fazer isso dessa forma, ia explorar algo novo pra banda e também veio meio que naturalmente, houve muitas mudanças, coisas grandes estão acontecendo agora na minha vida pessoal, então também aconteceu naturalmente.

Você teve algum tipo de inspiração especial pra compor o disco?

Eu compus grande parte das músicas no meu apartamento, as guitarras e tal, e fomos aperfeiçoando quando estávamos no Brooklyn, gravando demos. Eu escrevi grande parte das letras enquanto eu estava caminhando pela cidade ou meu bairro no Brooklyn, estava meio que me forçando a sair e fazer longas caminhadas e então eu ficava tocando a música na minha cabeça e começava a escrever. O lugar que eu provavelmente mais escrevi era esse parque em Greenpoint, eu me sentava muito lá, tinha esse caderninho, ficava lá só olhando o céu. Então não foi uma inspiração direta, mas certamente influenciou no fim.

Alguns dizem que suas músicas e discos soam todos iguais, o que você pensa disso? Te incomoda?

Não me incomoda, mas me faz pensar… porque especialmente na produção, são discos muito diferentes. O primeiro foi feito em casa e o segundo nós fizemos em estúdios muito diferentes. Acho que especialmente o terceiro disco foi o mais afiado em termos de produção, nós tínhamos bastante consciência do que queríamos, mas sabe, nós definitivamente somos uma banda, temos um som e um estilo e eu acho que funciona pra nós. Nós somos uma banda baseada em guitarras e nós temos um certo som pra nossas guitarras e se as pessoas não gostam do jeito como nós soamos, provavelmente não vão gostar da maior parte das nossas músicas porque, não estou dizendo que tem uma fórmula, porque não tem, mas… Sabe, eu acho que eu só posso discordar disso (risos). Eu penso que cada canção é muito diferente, sabe? Eu acho que existe sutileza na nossa música, especialmente no último álbum. Eu sinto que cada álbum fica mais e mais sutil e se você não vai passar tempo com eles pode não se perceber o que estamos fazendo, então é uma pena pra essa pessoa, eu acho.

Você acha que música baseada em guitarras está morrendo?

Não sei, definitivamente é o menos popular que já foi desde os anos 50 ou 40, quando o rock’n’roll se tornou notável, mas eu não sei… sim, eu acho que provavelmente a música baseada em guitarras está morrendo, em 20 anos será completamente antiquado, mas eu não posso afirmar com certeza. Eu realmente amo guitarras e toda a músicas que fazemos.

Eu acho que nós vamos sempre ter alguns garotos tocando, só não vai ser mais tão popular…

Eu acho que existem maneiras de fazer isso e fazer com que soe novo. Nós como banda gostamos de escutar muita coisa antiga…

Tipo o que?

Tipo rock clássico ou indie rock dos anos 80 e 90, coisas como essa, até Krautrock, música alemã dos anos 70, mas eu sinto que as nossas melodias são, esperançosamente, novas. Eu acho que se você for só reproduzir todo esse rock já feito, talvez não tenha espaço pra você, mas se você tentar achar um jeito de fazer isso de uma forma nova, então, eu não me sinto preso, há pra onde crescer. Então pode estar morrendo com relação à popularidade, as pessoas podem estar menos interessada em músicas com guitarras do que costumavam, mas eu não acho que é nada menos vital do que já foi, porque ainda existem pessoas interessadas em fazer isso. Eu acho que é um jeito muito bom de sintetizar ideias diferentes. Existe muito o que você pode fazer com duas guitarras, baixo, bateria e teclado, tem muito o que você pode fazer com isso. Pra nós, eu gosto do fato que tudo que a gente faz em estúdio, nós podemos fazer ao vivo, nós não usamos nenhum sequenciador ou computador ou nada que não possamos reproduzir no palco, pra mim isso é uma coisa boa.

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Qual a sua opinião sobre a música pop que atualmente domina as paradas?

Eu não sei muito sobre isso, eu acho (risos). Eu conheço o que eu escuto por aí. Existem músicas boas e ruins, eu posso me interessar por algumas delas. Eu nem sei quem são, mas se eu escutar e gostar de algo eu não vou negar isso, mas tem muito lixo, claro. Mas é sempre assim, música pop é sempre uma mistura, há sempre coisas horrendas e pavorosas e há sempre coisas no limite, como Madonna, sabe? Músicas que são realmente muito, muito boas e de alguma maneira conseguem emplacar em um Top 40 e tal, então, eu realmente não posso apontar nada nesse momento que seja muito bom, mas tenho certeza que existe (risos). Eu só não escuto muito rádio, então não sei.

O vinil começa a se tornar popular novamente. O que você pensa sobre isso? Você gosta do som do vinil, você ainda compra?

Sim, eu compro discos, definitivamente. Eu acho legal que as pessoas estejam se interessando mais pelos discos agora, sabe, eu gosto de discos faz tempo, muito antes de começar essa banda. Eu com certeza acho que eles soam bem, mas eu não sou um grande audiófilo, então eu não consigo perceber muito a diferença nisso. Eu sei que soa muito bem e eu gosto da ideia de pegar o disco, é mais sobre a experiência tátil, ir até a prateleira, escolher um disco, ficar olhando pros detalhes da arte, fazer disso um ritual, que é diferente de você pegar algo e colocar no seu telefone. Eu gosto disso também, mas discos são diferentes, você está sentado na sua sala, tem todo o processo, uma coisa diferente. Mas eu estou especialmente alegre que as pessoas estão comprando vinil agora porque nós podemos fazer discos, sabe, como uma banda, e sabe, é muito divertido montar tudo, escolher a arte e ir decidindo o que vai dentro, como vai se parecer e tal eu sinto que, se nós estivéssemos fazendo isso há 10 ou 15 anos atrás, não seria possível pra gente porque seria menos popular.

 Você tem alguma colaboração dos sonhos? Algum artista que você realmente queira trabalhar junto…

Tem muitos, mas nós meio que já fizemos um. A banda The Feelies, nós sempre fomos muitos fãs deles e alguns anos atrás nós os conhecemos e nos tornamos amigos deles e pudemos tocar alguns shows com eles. Até tocamos com Glenn Mercer, o vocalista deles, algumas músicas. Eu consegui me juntar a eles no palco, também e fizemos covers de Television e Beatles e foi sensacional. Eu sinto que conseguimos colaborar com as pessoas que admiramos, nós conhecemos o Yo La Tengo, que é uma das minhas bandas preferidas e eu toquei uma música com eles no palco, então, sim, foi legal. Eu acho que como banda nós adoraríamos andar com o Neil Young e trabalhar juntos, isso seria demais (risos). Tem bastante gente que admiramos.

O que está esperando dos shows do Brasil?

Eu to muito, muito animado. Eu nunca estive na América do Sul, no Brasil, eu mal posso esperar.

Você conhece música brasileira?

Sim, um pouco. Não muito. Mas eu gosto muito da ideia do Brasil, sabe? Eu assisti alguns filmes que se passam aí tipo Orfeu Negro (1959, do diretor Marcel Camus)… Eu não sei, eu estou muito animado pra ir a praia, mal posso esperar.