ENTREVISTA: Belle & Sebastian – “A música que você faz é um produto da pessoa que você é e nós não somos as mesmas pessoas dos anos 90″

Na década de 90 talvez seja Belle & Sebastian a banda que mais se aproxime de simbolizar o que poderíamos chamar de espírito de banda independente, posto que os anos 80 é, indiscutivelmente, dos ingleses do The Smiths. Contudo, diferentemente da trupe liderada pelo excêntrico Morrissey – ativa apenas por um período de 5 anos – os escoceses estão prestes a completar duas décadas tocando juntos, mesmo que ainda sejam, em grande parte do tempo, definidos pelos primeiros trabalhos.

Isso, contudo, não é algo que incomode a banda. Pra falar sobre isso, o disco mais recente e até política, bati um papo com o tecladista boa praça Chris Geddes por telefone, o qual está na íntegra abaixo:

Sobre o novo disco do Belle & Sebastian [Girls in Peacetime Want to Dance], experimentar com música eletrônica não é algo novo pra vocês, mas nesse disco algumas canções foram talhadas especialmente pra pista de dança. Foi uma coisa natural ou foi algo calculado?

 Não, acho que foi uma coisa bem natural. Nós usamos a música eletrônica antes, eu acho que voltando bastante no tempo, até no Tigermilk já tinham indícios de música eletrônica e no [The Boy With An] Arab Strap nós adicionamos muitos sintetizadores e baterias eletrônicas. No último disco nós também usamos bastante sintetizadores e baterias eletrônicas, mas, com o jeito que o disco foi feito, talvez não tenhamos dado tanta ênfase a esse tipo de coisa. Senti que foi muito natural, que foi guiado pela própria composição das músicas, a canção simplesmente sugeria aquele tipo de abordagem. Mas também as pessoas na banda, nós  temos feito mais coisas por nós mesmos, eu tenho tocado mais sintetizadores do que piano, por exemplo.

Uma das canções do disco, “Enter Sylvia Plath”, é bem diferente de tudo que vocês já fizeram. Pode me falar como foi compor e gravar essa faixa?

 Sim… Foi uma música escrita pelo Stuart [Murdoch]. Em termos do estilo, ele veio até nós com a canção e a primeira coisa que fizemos foi programar as linhas de baixo, então esse talvez tenha sido um jeito diferente de começar. Uma vez que tínhamos isso, só fomos tocando por cima, do jeito que normalmente fazemos. Eu acho que isso veio diretamente do Stuart na concepção mesmo da música, ele queria esse estilo, essa produção, então nós naturalmente fomos nessa direção.

 É na linha eurodance, certo?

 Sim, sim, tem um pouco de George Moroder, um pouco de ABBA e coisas assim, mas isso não foi feito conscientemente. Uma vez que nós começamos a tocar a música, as coisas foram caminhando. Foi como que se eu estivesse no órgão Hammond ou no piano buscando o som certo.

Esse disco traz coisas bastante pessoais sobre o Stuart, como o resto da banda se sentiu sobre isso?

 Acho que tiveram músicas do passado que me atingiram mais do que as que estão nesse disco. Nós fizemos uma música chamada “I’m Waking Up To Us”, em 2001 ou por aí, e se tornou bem óbvio na época que era uma música que o Stuart tinha escrito sobre a Isobel [Campbell, que deixou a banda em 2002], e ela ainda estava na banda na época e foi engraçado estar lá assistindo a isso tudo enquanto ela não estava dizendo nada e nós não sabíamos se era a hora ou lugar pra falar algo. Mas nesse último disco, em “Nobody’s Empire” [faixa que abre o disco], mesmo sabendo que é uma coisa muito pessoal do Stuart e sobre o que ele passou com a Síndrome da Fadiga Crônica, acho que ela foi escrita de um jeito tão não-óbvio que eu não percebi sobre o que ele estava cantando no momento em que gravamos.

 Então você não se sentiu um intruso ali?

Não, eu acho que não. Eu acho que o jeito que a banda geralmente trabalha é: alguém traz uma música, o cantor escreve as letras e adianta como vão ser as mudanças de acordes e tão logo nós começamos a tocar a música, você pode perguntar como a pessoa quer que você toque ou qual o contexto daquilo, mas raramente você pergunta à pessoa sobre o que ela está cantando ali.

Vocês tiveram no ano passado o Referendo sobre Independência da Escócia. Isso influenciou de alguma maneira a produção do disco?

Nós já tínhamos terminado o disco na época que o referendo aconteceu. Claro que a campanha do referendo não foi curta, foi uma campanha de 8 meses até a eleição. Eu acho que fez com que as pessoas em geral na Escócia ficassem mais interessadas em política e passassem a se importar mais com assuntos políticos, e talvez isso tenha entrado no álbum de uma maneira indireta. Eu não acho que tenha algo diretamente destinada ao referendo, mas era algo que a gente estava conversando entre nós, dentro da banda, e obviamente na comunidade de artistas a gente perguntava o que os outros estavam pensando, então obviamente era algo em que a gente pensava bastante.

E o que você achou do resultado do referendo?

Eu fiquei surpreso porque todo mundo que eu conversava, no meu bairro ou no Twitter, todo mundo pensou que o voto seria “Sim” (a favor da independência). No bairro que eu moro parecia que todo edfiício e janela tinha um cartaz de “Sim”, você não via nenhum poster pro “Não”, não conversava com muitas pessoas que expressassem vocalmente sua preferência pelo “Não”.

Você ficou desapontado?

Sim, eu fiquei. Eu fiquei desapontado pelo resultado e por ter feito com que eu percebesse que o grupo de pessoas em que eu vivo não é o reflexo da sociedade como um todo. Isso me choca um pouco.

Às vezes a democracia é dura, certo? (risos)

(risos) Sim, mas têm sido um processo bom. Quero dizer, o número de pessoas que votaram no referendo foi muito maior que o número que vota nas eleições gerais. Então serviu pra mostrar que as pessoas não necessariamente vão deixar a política de lado se você der a elas algo em que elas sintam que o voto delas faz diferença, e isso é importante. O movimento pelo “sim” também teve vitórias e assistir a esse grande movimento político acontecer foi realmente animador.

Ano que vem vocês vão completar 20 anos de banda, mas muitas vezes vocês ainda são definidos pela sua sonoridade dos anos 90. Isso te incomoda?

Não, de maneira nenhuma. Eu acho que nos consideramos tão sortudos por poder viver de música que enquanto tivermos isso… Quero dizer, o que a gente fez nos anos 90 não é algo para o que possamos deliberadamente voltar, porque você simplesmente não consegue, a música que você faz é um produto da pessoa que você é e nós não somos as mesmas pessoas que éramos nos anos 90. Significa muito pra gente que a música que a gente fez ainda se conecta com as pessoas e a gente ainda toca essas músicas ao vivo, essas músicas ainda se conectam com a gente quando estamos no palco. Eu ainda gosto de “Like Dylan In The Movies”, ainda parece fresca pra gente e eu não sinto que fazemos isso só pelo dever de fazê-lo. Então nos sentimos felizes com a nossa produção, ter gente do mundo inteiro escutando a nossa música e se conectando com ela. Nos sentimos muito sortudos com isso.

E nesses 20 anos que vocês estão juntos, vocês alguma vez consideraram acabar com a banda?

Eu acho que quase deixei a banda depois dos dois primeiros discos. Eu ainda era um estudante na época e eu sentia que eu estava sofrendo pra estar na banda e eu não tinha certeza que a banda estava indo numa direção com a qual gostaria de estar comprometido.

Quando foi exatamente isso?

Bem no começo, pelo final de 1997, começo de 1998, nessa época. E houve uma época que eu era bem próxima da Isobel e do Stuart David [baixista que ficou na banda até 2000] e houve um tempo que eu continuar na banda sem um dois seria impensável. Você chega a um ponto que você percebe que estar na banda e fazer música é tudo que você quer fazer e se tem uma pessoa que não quer mais fazer isso, tudo bem, é um direito dela, mas você não precisa acabar com a banda por isso. Então eu não acho que não teve um ponto em que todos ao mesmo tempo estivessem pensando: “talvez nós devessemos parar, acabou”. Eu não acho que nós alguma vez tenhamos atingido esse ponto, eu acho que sempre teve um grupo de pessoas comprometido em continuar.

E vocês viram de perto essa grande mudança na indústria musical com a internet e todo esse processo. Como você vê a relação das bandas e da internet?

 É complicado, não é? Eu entendo que quando você está criando música você está criando uma experiência e, com sorte, está criando uma conexão emocional com as pessoas que estão ouvindo seu trabalho. Nós viemos de um tempo em que o único jeito de obter essa conexão era por meio de um objeto físico, fosse um CD ou um LP. Então eu acho que para nossa geração talvez seja um pouco difícil se adaptar ao fato de que não é sobre o item físico mais. E quando você tira o item físico, é mais difícil ganhar dinheiro fazendo música porque o objeto é pelo que as pessoas pagam. Ao mesmo tempo, eu acho que todo mundo na banda está dos dois lados disso, todos nós usamos streaming e Youtube para escutar música e o fato de que toda música está disponível para nós escutarmos é fantástico, porque nós também somos fãs de música. Eu não sei se você viu isso, mas o Caribou fez uma playlist de 1000 músicas no Youtube, sabe? E eu tenho escutado isso pelos últimos dias… Até mesmo os discos que eu tenho nas minhas prateleiras, é complicado tirá-los de lá e colocar pra tocar, às vezes eu só os coloco no Youtube porque está muito mais à mão.

E tirando o Caribou, você escuta outras artistas “novos”?

Sim, sim, eu escuto um monte de bandas novas. Tem um disco de uma cantora chamada Jane Weaver que eu achei muito bom. Também uma cantora e compositora chamada Kate LeBon fez discos que eu gosto. Gruff Rhys do Super Furry Animal lançou um disco solo chamado American Interior que eu achei bem bom.

Eu gostei desse também.

Sim, sim! Ele chegou a tocar no Brasil ao vivo?

Não, depois desse disco ainda não.

Se ele for você deve ir vê-lo ao vivo porque é fantástico. E tem algumas bandas em Glasgow que eu acho que são muito boas também. Tem uma banda chamada Casual Sex meio pós-punk, meio disco, tem uma banda Gold Teeth que são muito bons também, tem um componente africano no som deles, um monte de ideias interessantes por ali. Então sim, eu escuto a um monte de coisas novas. Mas também passo muito tempo ouvindo discos antigos de som e de reggae.

E vocês tão vindo tocar no Brasil em outubro [dentro do Popload Festival], você se lembra de alguma história que tenha acontecido das outras vezes que vocês estiveram aqui?

Sim, vividamente! A primeira vez que fomos ao Brasil foi muito surpreendente, tocar pra um público que sabia todas nossas músicas e cantavam junto conosco enquanto tocávamos. Obviamente, você sabe, nós gostamos muito da música brasileira, das coisas da Tropicália e nós fizemos algumas versões enquanto estávamos aí. Estávamos no Jô Soares, o programa de TV, mostrando nossas tentativas de tocar música brasileira. Foi muito bom, mesmo.

Vocês tocaram Mutantes, certo?

Isso e nós tocamos a versão da Gal Costa de “Baby” do Caetano também.

ENTREVISTA: Thurston Moore – “Ser um rockstar é uma das últimas coisas que eu tenho interesse”

Thurston Moore teve um 2014 agitado. Depois de declarações de Kim Gordon – sua ex-esposa e companheira de banda – sobre o fim do casamento de 27 anos explodirem na imprensa, o músico americano resolveu lidar com o assunto da única forma que sabe: fazendo música e caindo na estrada. Foi assim que lançou o quarto álbum solo da carreira, o excelente The Best Day (meu segundo disco preferido do ano), o qual foi a base de uma turnê mundial que passou pelo Brasil no último dia 04 de dezembro fazendo o que foi, na minha opinião, o melhor show internacional no país nesse último ano.

À época eu tive a oportunidade de conversar com o guitarrista por Skype por quase uma hora para escrever uma matéria para o UOL (aqui). Obviamente, pela limitação de espaço, acabaram sendo publicadas apenas as partes mais importantes. Por isso, abaixo você pode conferir como foi o papo completo em que o músico fala sobre a vida pessoal, possível volta ao Brasil com outro projeto, black metal, internet e claro, Sonic Youth.

Eu acho que The Best Day é um disco muito bom. Você ficou satisfeito com o resultado?

Sim, sim. Um segundo. […] Desculpa.

Não, tudo bem.

Eu estou muito feliz com o disco. Foi uma coisa realmente mágica pra mim, de repente, ter uma banda como essa no meu mundo e gravar essas músicas que eu tinha composto. Foi muito agradável pra mim.

Você tocou o Steve Shelley (Sonic Youth) e Debbie Googe (My Bloody Valentine), eles também estão tocando contigo ao vivo agora…

Sim, é a mesma banda que está no disco! Steve Shelley, Debbie Googe e James Sedwards.

Como tem funcionado isso? Vocês se dão bem?

Sim, nós nos damos muito bem, nós meio que nos conhecemos através de amizades, eu certamente conheço o Steve do Sonic Youth (risos). Eu encontrei o Steve quando eu estava começando a escrever essas músicas e eu estava tocando um duo de guitarras com o James Sedwards e ele escutou as músicas e disse que tocaria bateria nelas se eu estivesse interessado e eu estava muito interessado! Steve foi quem teve que voar, porque agora eu moro em Londres, então ele foi quem pegou um vôo até aqui. E James e eu decidimos chamar a Debbie Googe…Bem, James e Debbie são amigos e eu conheço ela há anos porque o Sonic Youth e o My Bloody Valentine tocaram juntos desde o começo, nos anos 80. Então, nós ligamos pra Debbie pra ver se ela queria tocar, se ela estava livre. Eu sabia que o My Bloody Valentine tinha terminado a turnê de reunião deles e então ela disse que estava livre. Ela veio até minha casa, nós tomamos algum vinho, escutamos a música e, quando eu vi, os quatro estavam no estúdio juntos. E a primeira vez que todo mundo tocou junto foi no estúdio, com a fita rolando.

Por que você decidiu se mudar pra Londres?

Oh, por muitas razões. Muitas razões pessoais, principalmente. A mulher por quem eu estava…estou apaixonado mora em Londres e isso é o principal, eu queria estar com ela. Também eu senti que a minha vida estava passando por mudanças radicais, eu gostaria de ir a algum lugar que fosse novo, mas foi principalmente porque ela estava lá.

O texto de lançamento do The Best Day diz que o disco é baseado em “amor positivo e radical”, tem a ver com isso que você está dizendo?

Sim, definitivamente. Mas ao mesmo tempo, eu sempre tive paixão por escrever sobre amor radical, de qualquer jeito (risos). Só que dessa vez foi muito pessoal porque eu passava por uma mudança muito grande na minha vida e eu realmente queria celebrar esse sentimento, em oposição a escrever sobre perturbações que acontecem nas vidas das pessoas, mas ainda tendo respeito pela realidade disso, sabe? E é por isso que que tenho essa foto da minha mãe na capa do disco, quando ela era uma mulher jovem. Não sei se você viu a capa…

Sim, sim…

Então, aquela é a minha mãe. Ela estava no começo dos seus 20 anos, na água, com o melhor amigo dela, seu cachorro. E ela está olhando para a câmera do meu pai e ela está nesse lugar de serenidade e amor e, isso é durante a Segunda Guerra Mundial. Não é como se fosse uma utopia, mas ele está nesse lugar utopicamente seguro. E eu admirei isso e queria expressar isso, ao invés de qualquer sentimento de chateação. Eu acho que todo mundo tem o suficiente disso no seu próprio mundo, nós todos temos isso no nosso mundo real e não é como se eu quisesse fugir e fantasiar qualquer vida de felicidade fingida e posar como se tudo tivesse bem. Eu sei que as coisas nunca estão bem, mas, ao mesmo tempo, tudo pode ficar bem, não há razão pra que as coisas não possam ficar bem. Então eu queria focar nisso.

Não é exagerado dizer que seu último disco solo, Demolished Thoughts (2012), é um dos meus discos favoritos de todos os tempos. Foi o primeiro disco que eu dei à minha esposa quando começamos a namorar…

Que amor!

É um disco muito especial pra mim. E The Best Day é bom, mas muito diferente. Essa diferença está diretamente ligada ao seu momento e todas essas mudanças pelas quais você vem passando?

Tem que estar. Eu sinto que, pra mim, quando eu começo a escrever música é como um experimento, usando a linguagem e o som e eu não penso em nada a não ser o momento em que estou agora na minha consciência. Eu não gostaria que fosse apenas uma ego trip, também. Eu gosto que seja uma coisa aberta, que a música convide as pessoas a mergulhar e que elas também possam tomar aquilo que elas quiserem. Então eu não escrevo letras com um objetivo definido sobre o que eu quero expressar, eu gosto que as palavras simplesmente saiam, como uma expressão pura. Aguenta aí um pouquinho, tenho que pegar um negócio…

Eu estava pegando chá, nós tivemos um show bastante tarde ontem em Santa Cruz, Califórnia, estou me recompondo agora e eu pedi um chá, perdão.

Então, sim, esse disco é completamente diferente do Demolished Thoughts, que eram basicamente canções de amor que tentavam lidar, de várias formas, com essa ideia de como o amor muda de forma. E eu devia lidar com isso, porque era muito importante pra mim, mas eu não tinha certeza com o que exatamente eu estava lidando, sabe? De repente, eu não tinha palavras exatas pra dizer o que eu queria.

Você sempre esteve muito envolvido com ativismo social e The Best Day fala bastante disso, também. Como você vê o ativismo na era da internet? Você acha que ela mais ajuda ou atrapalha?

Eu acho que a internet é maravilhosa e importante pra conectar as pessoas com consciência sobre o que está acontecendo ao redor do mundo e em situações que há um desequilíbrio de poder, pra que nós possamos ver imediatamente o que acontece, como as pessoas indo às ruas em Hong Kong  e possamos imediatamente ver o que as pessoas tem a dizer, porque elas usam a internet pra se expressar sobre o que está acontecendo nas ruas. Isso é muito importante. E agora nós vemos o que acontece em situações de privilégios onde há abuso, de repente nós vemos situações como a polícia se aproveitando da situação de poder deles. E você pode estar muito nervoso, mas ao mesmo tempo você precisa ter um certo nível de maturidade, um nível de sensibilidade adulta porque nós sabemos que nem todas as pessoas em lugares de autoridade, nem na polícia, estão tentando abusar da posição deles. São só algumas pessoas, mas agora nós podemos monitorar essa situação como público com a internet, então eu acho que a internet é ótima.

Mas é também horrível, porque qualquer lunático pode usar a internet (risos). Então acaba se tornando uma batalha entre um monte de vozes diferentes. Mas você tem que entender que essa é a dinâmica do mundo de qualquer forma. Eu lido com isso o tempo todo, porque as pessoas escrevem coisas realmente horríveis nas minhas páginas de mídias sociais. E é como: por que você sequer pensaria em fazer algo assim? Eu nunca faço algo assim, eu jamais coloco um comentário horrível na página de alguém que eu não conheço. Mas nem todo mundo está dizendo coisas ruins.

Quando as pessoas pegam e escrevem essas coisas horríveis, você acha que é quem eles realmente são ou estão vestindo um personagem ali?

Eu não tenho ideia. Eu acho que é uma projeção das inseguranças das próprias pessoas. Não é nem mesmo uma questão pessoal porque você nem sabe quem são essas pessoas. A internet tem toda essa atividade de comunicação, boa, ruim, diferente, tanto faz…e é um verdadeiro tumulto, mas quando você sai de casa e vai pra rua, você não vê isso. Ninguém chega em você e tem esse tipo de conversa, ninguém fala contigo ou se expressa dessa maneira. Simplesmente não existe lá. De vez em quando alguém diz “ei, você viu o que falaram na internet?” e você ri e pensa “uau, a internet é tão fodida” (risos). Mas vivemos numa situação dupla, temos a vida online e a vida real e essa é uma força muito nova na humanidade, termos esse mundo online e o mundo físico e a relação é muito estranha. É uma relação muito estranha entre os dois mundos. Acho que é mais efetiva no ativismo, em que você pode juntar as pessoas e formar uma coalisão, como foi por exemplo com o Occupy Wall Street, que foi basicamente todo desenhado pela internet. E daí você tem políticos que tem grande sucesso usando a internet pra fazer campanha – certamente Barack Obama usou muito eficientemente a internet pra campanha à presidência, essa foi a primeira vez. Então é uma coisa incrível atualmente perceber essa transição maçante da vida online pra física.

E como você vê o papel da música nessa cultura da internet? Você acha que continua relevante ou agora é apenas algo reduzido? Como você enxerga o lugar da música hoje?

Eu acho que a música pode usar a internet tão bem quanto qualquer outra coisa pode usar bem a internet. Eu não acho que a música precise de nada, música simplesmente existe como a voz das pessoas. Eu não equaciono música e dinheiro, apesar de quando a música se equaciona com dinheiro isso se torna um problema, porque de repente você tem essas milhões de venda digitais pelo iTunes, Youtube, dando milhares de discos gratuitos por pessoas que não os pediram (risos). E isso é muito interessante, mas eu sempre achei que a música deveria ser gratuita, de qualquer maneira. O jeito de fazer dinheiro como músico é que você precisa sair e subir no palco ou ir tocar num canto da rua ou vender seu disco em uma barraquinha de merchandise. Ninguém disse que músicos precisam ser rockstars ricos, isso é besteira, quem inventou isso? É maravilhoso se você conseguir ganhar milhões e milhões de dólares, de euros, de libras, de batatas ou qualquer coisa (risos), seria divertido, mas eu não vejo isso como um objetivo ou uma ambição, isso é tipo ganhar na loteria, quantas pessoas conseguem isso com música? Eu me dedico à música em tempo integral e eu dependo da música pra ganhar meu sustento, então eu faço tours o tempo todo e eu aproveito as oportunidades quando elas aparecem. Se alguém diz “você pode fazer uma residência aqui nesse país por duas semanas e você pode pegar tanto dinheiro?” e geralmente não é muito dinheiro, mas você consegue pelo menos pagar o aluguel e estou bem com isso.  Pagar o aluguel, comer e gastar um pouco em lojas de discos e livrarias, eu tô ok com isso.

E o Sonic Youth nunca ganhou tanto dinheiro assim. Eu acho que quando nós assinamos com a Geffen pela primeira vez nós conseguimos ter acesso a um estilo de vida mais confortável, uma boa casa, Kim e eu pudemos ter uma filha, o que foi algo maravilhoso e nós pudemos ser responsáveis o suficiente pra alimentar essa criança e isso foi ótimo, porque não é todo mundo que pode fazer isso.

Eu costumo dizer que o rock não morreu, só o rockstar. E tá tudo bem.

Sim e ser um rockstar é uma das últimas coisas que eu tenho interesse e algumas vezes eu sou apresentado dessa maneira pela carreira do Sonic Youth ou qualquer coisa e eu entendo, é ok. Mas nessa altura do campeonato é bobo isso tudo, ser um rockstar. Se você vende muitos discos, se você ganha milhões, você é um rockstar. Se você vende muitos discos, eu te apoio, está tudo bem, é maravilhoso, você é muito sortudo (risos).

E você mencionou sua filha, sei que ela tem uma banda, chama Big Nils. Você gosta do som deles?

Sim, Big Nils! Eles eram fantásticos, mas acho eles não têm tocado mais. Era uma banda de quando eles estavam no Ensino Médio e agora eles todos estão em lugares diferentes. Minha filha está na Universidade e os outros estão em outras escolas ao redor do país. Então não, Big Nils teve uma rápida existência. Mas era uma ótima banda, eu vi eles ao vivo algumas vezes e mesmo que ela não fosse minha filha, eu teria amado a banda.

Falando de bandas que tiveram uma curta existência, o que aconteceu com o Chelsea Light Moving? Porque recentemente você lançou um clipe pra Heavenmetal sob o seu próprio nome.

Ah, sim, eu estava fazendo uma transição do Chelsea Light Moving pra minha carreira solo. E foi um projeto de transição pra mim, foi quando eu estava me mudando pra Londres, mas ainda em Nova York e eu queria continuar tocando música. Chelsea Light Moving foi a banda que estava excursionando em apoio ao Demolished Thoughts e no final da turnê e eu queria voltar a tocar mais guitarra, porque o Demolished Thoughts tinha a ver com violões e violinos e coisa e tal, e foi maravilhoso, mas eu comecei a ficar muito interessado em tocar guitarra novamente. E eu comecei a fazer isso, tocar músicas antigas do Psychic Hearts (primeiro disco solo de 2005), e me juntei com todo mundo e nós simplesmente expelimos um álbum inteiro em dois dias, foi muito rápido. Eu pensei que seria um bom projeto a se fazer, só lançar o disco, não fazer nenhuma entrevista, não ter o meu nome na capa e pegar uma van e partir pra tocarmos em qualquer lanchonete por aí e foi o que eu fiz por quase um ano e meio, enquanto eu estava tentando me mudar pra Londres. (risos) Foi louco, porque nós tocávamos em todo lugar como Chelsea Light Moving e eu estava tentando ser só um dos membro dessa banda. Foi um pouquinho difícil porque as pessoas sabiam que era eu e elas vinham até esses lugares bem pequenos e queriam escutar músicas do Sonic Youth (risos). Eu realmente amei tocar no Chelse Light Moving, foi um grupo muito rock’n’roll desde o início.

E você continua tocando músicas do Chelsea Light Moving ao vivo?

Nesse momento não. Tem uma música chamada “Alighted” que eu gostaria de tocar e eu acho que também podemos tocar “Heavenmetal”. Mas nesse momento só estamos tocando as músicas que estão no The Best Day e algumas do Psychic Hearts…

Nada do Sonic Youth?

Bom, Sonic Youth não está tocando agora. E ninguém assinou os papéis dizendo que nós estamos oficialmente terminados. A banda pode voltar depois que Kim e eu passemos por esse período e é um período muito sensível e Steve e Lee e todo mundo que trabalha conosco entende e respeita totalmente isso. Então nós só precisamos deixar o tempo definir o que o Sonic Youth vai ser. E o Sonic Youth pra mim sempre vai existir, porque Sonic Youth foi um nome que eu inventei e eu tenho Sonic Life tatuado no meu corpo e Sonic Youth sempre vai ser algo muito real no meu coração e na minha alma. Pra mim, Sonic Youth nunca vai se separar. Sonic Youth vai comigo pro túmulo.

Eu não vou perguntar nada muito pessoal, porque eu sei que é uma situação delicada, mas você acha que a imprensa te tratou de forma injusta no meio de toda a situação?

(Risos) A imprensa trata todo mundo injustamente. Poderia ter sido melhor, poderia ter sido pior. Eu não espero ser tratado diferentemente de ninguém que tenha algum tipo de perfil público e está envolvido com uma situação que é um pouco chocante para as pessoas. Eu esperava isso e algumas vezes as pessoas escrevem sobre as coisas sem realmente saberem da verdade íntima. Porque existe apenas uma verdade e essa verdade é muito íntima e pessoal entre as pessoas que estão envolvidas na situação. E todo o resto, todas as outras pessoas – a menos que eles estejam na minha família -, eles não sabem. Eles não tem ideia do que seja a história. E essa história é muito pessoal. E independentemente do que eu digo ou outras pessoas dizem ou alguém na minha família diria publicamente pra imprensa, não importa, porque ninguém nunca irá saber, tirando nós. Eu tive que levar de forma muito leve porque eu sei que ia se desfazer, como areia numa pedra, porque não significa nada pra ninguém. Quando eu vejo a imprensa tratar as pessoas que estão passando por situações similares à minha, não é algo que eu leve comigo pra fora do meu quarto. Tipo o Neil Young, o que ele está passando na vida pessoal dele, eu to cagando pra isso. É curioso, suculento, escandaloso, mas quando eu saio não tem nenhum impacto na minha vida, na minha consciência e no que eu faço ou como lido com as pessoas. Isso que importa.

O último show que o Sonic Youth fez foi aqui no Brasil. Você tem alguma memória daquele dia?

Era um festival imenso (SWU) e estava chovendo em algum nível. E eu me lembro que eu realmente não pensei como se fosse nosso último show, não era uma coisa grande pra mim. Eu pensei “ok, esse é o último show que nós temos marcado. E só Deus sabe o que vai acontecer depois disso”. Mas eu não pensei “esse é o último show do Sonic Youth pra sempre, tchau, adeus, Sonic Youth está terminado”. Isso não estava na minha cabeça de jeito nenhum. Era só o último show que tínhamos até algum aviso futuro, tipo “ok, vamos dar um tempinho agora” (risos). E eu ainda me sinto dessa forma, sabe? Sonic Youth foi a coisa mais importante da minha vida porque foi a minha vida. Eu tenho muito orgulho do trabalho que a gente fez, porque a gente gravou tanta música que, de um jeito, talvez seja bom dar uma parada e, se as pessoas quiserem, elas podem mergulhar um pouco mais nas nossas músicas, sem que a gente jogue nelas mais 20, 30 outras por ano (risos).

Vocês tem algum plano de lançar gravações raras ou que ainda não viram a luz?

Tem muita música existente e nós temos algumas ideias do que lançar. Eu sei que uma vez nós fizemos uma sessão em Paris, na França, com Brigitte Fontaine que é uma lenda francesa surrealista, feminista e avant-garde da música teatral dos anos 60 e ela fez um disco maravilhoso de improvisação livre com a Art Ensemble of Chicago no final dos anos 60 e nós trabalhamos com ela. Anos atrás nós fizemos essa sessão ótima com ela, quando o Jim O’Rourke estava na banda, e nunca foi lançada. E tem também uma ótima gravação em vídeo. Mas isso tem um monte a ver com gravadoras na França (risos), elas são proprietárias e coisas assim. Tem muita coisa ao vivo, também. Então tem muita coisa do Sonic Youth nos cofres, de uma certa forma.

Você lançou nos últimos anos sessões de improviso livre com gente como o John Zorn e Matt Gustafson, você tem trabalhado em algo desse tipo? Deveria fazer uma dessas no Brasil.

Matt Gustafson quer fazer uma turnê no Brasil comigo. Uma turnê na América do Sul comigo. Então, estamos pensando em fazer isso. Pra mim é uma música de muita entrega e eu acho ela muito espiritual, um tipo de meditação e seguir a musa totalmente. A ideia de composição torna-se muito espontânea, então é como uma composição espontânea. Nós estamos compondo ao vivo. Eu adoraria tocar essa música na América do Sul. E esperemos que isso aconteça logo.

Recentemente você fez alguns comentários sobre black metal que pareceram chatear alguns fãs. O que você achou da reação deles?

(risos) Eu achei surpreendente porque eu sou tipo um grande devoto e maluco por black metal. Eu venho colecionando e arquivando black metal underground em fitas cassete por anos, então eu acho que black metal tem um senso de perversidade nele que deveria permitir a alguém como eu dizer que black metal é música sem colhões, sabe? Mas muita gente levou isso pro lado errado. Eu achei engraçado porque ouvir e ser devotado ao black metal deixam você muito pouco sensível, você não tem o sentimento que pessoas comuns teriam (risos). Mas quando as pessoas ficaram chateadas eu me dei conta que existem muitos fãs sensíveis do gênero. E você não se desculpa com fãs de black metal porque a ideia de pedir desculpas não existe no mundo do black metal. Você só destrói (risos). Então é tudo que eu posso dizer sobre isso.

2014 marcou 20 anos da morte do Kurt Cobain. Como foi essa data pra você?

Eu realmente não sei o que dizer, exceto que eu me sinto muito sortudo de ter sido alguém que o conheceu. Eu não saía tanto com o Kurt, mas nós fizemos turnê juntos, duas vezes. Excursionamos os EUA e a Europa, que foi o que Dave Markey capturou naquele filme 1991: The Year Punk Broke e eu permaneci amigo do Kurt, ligava pra ele às vezes e conversávamos sobre gravar e tal. E eu fiquei de coração partido quando o Kurt tirou a própria vida. Foi devastador. Isso não é aceitável pra mim. Eu não tenho nada além de amor pelo trabalho dele e a pessoa que ele era. Ele era uma pessoa maravilhosa, muito doce, mas era também só um garoto normal, sabe? E aconteceu dele ser abençoado com uma voz de um anjo dourado. Eles eram uma grande banda, mas acho que se houvesse outro cantor naquela banda, não estaríamos aqui falando deles agora. A voz dele era mel vindo do paraíso. Ele veio até a Terra, fez esse grande trabalho e partiu imediatamente. Pessoas como ele, Jimi Hendrix, John Coltrane, Janis Joplin, pessoas que vem até aqui, criam esse fogo tão bonito e desaparecem. E isso acontece às vezes. Pra mim, eu me sinto muito grato de ter conhecidos essas pessoas.

E algumas pessoas que você conhece, à medida que você vai envelhecendo, morrem. É uma coisa natural. Isso te afeta? Você costuma pensar sobre a morte?

Não, eu nunca penso sobre a morte. As pessoas que eu conhecia e que se foram, no mundo das artes, eu penso sobre isso, como é gratificante ter conhecido pessoas assim e pessoas da minha família, que eu amo, mas essa é a realidade. Eu não penso muito nisso, porque eu tenho uma opinião muito budista, eu vejo como um estado de permanência, uma constante transição e eu não temo isso. Tem o mistério e eu não me importo, eu gosto de mistério e, pra mim, eu não tenho nada além de respeito, porque é a única coisa além do nascimento que todos partilhamos, então eu realmente não penso sobre. Eu adoro ler e cantar sobre isso, sobre rituais, sobre celebração disso, como no Dia dos Mortos que acontece no México que é maravilhoso, e eu acho que é algo que deveria acontecer em um processo de amor e paz. Eu não gosto da ideia de morte acontecendo de forma violenta e acho que essa deveria ser uma ideia que todos se opusessem, então, isso é importante pra mim.

E você vai tocar aqui em Dezembro. Animado? O que podemos esperar?

Vocês vão ver uma banda muito boa. Sou eu, Steve, Debbie e James e estamos matando a pau nesse momento – falando em morte… (risos) E vocês verão um post-punk-death-rock bastante pesado. Eu to muito animado em ir ao Brasil, eu sempre amo ir aí. São Paulo, Rio, duas cidades extremamente diferentes. Eu não tenho nada além de amor pelo Brasil. Pra mim, alguns dos melhores trabalhos musicais de todos os tempos saíram do Brasil. Toda a Tropicália, algumas das músicas mais importantes que já foram gravadas, eu amo toda a tropicália clássica, Caetano, Nara. Gal Costa é genial. Eu acho que muito disso teve a ver com os anos 90 e 2000, quando as pessoas tiveram condições de redescobrir as gravações online ou em reedições em CD. Então de repente, todo mundo podia ouvir essa música. Mas eu tive contato com ela pela primeira vez através do Arto Lindsay e ele estava numa banda chamada DNA e ele falava da música brasileira e o jeito que ele cantava no DNA e no Golden Palominos, ele tinha essa bela voz-em-samba e eu sempre fiquei muito curioso sobre isso e ele contava da beleza da brasiliana e tropicália. E tão logo nós achamos as gravações, nós nos deliciamos com aquilo, engolimos, bebemos e foi lindo, lindo. Nós íamos a São Paulo, íamos nas lojas de discos e voltávamos com quaisquer discos que nos intrigasse e escutávamos essa música o tempo todo. É também um estilo bem diferente, não é algo que empregue na minha música constantemente, então o que eu mais tiro dessas músicas é a poesia que há no balanço de música e ativismo que eu escuto em muitas das músicas da Tropicália. E eu acho isso maravilhoso, essa carga que a música tem. Eu acho muito importante as pessoas terem esse tipo de música em seu mundo.

ENTREVISTA EXCLUSIVA : Violent Femmes – “Nossa música foi desenhada para ser atemporal”

Por Mar Herrando, de Barcelona

O Violent Femmes, banda clássica dos anos 80 e 90, voltou, mas não só para tocar nos Estados Unidos. Também viajaram à Europa para fazer uma pequena turnê de quatro shows, acabando na cidade de Vitoria, no norte da Espanha. O motivo foi retornar ao Azkena Rock Festival, que nos dias 20 e 21 de junho completou sua 13ª edição, e no qual a banda já tinha sido escalada há exatamente dez anos.

O show foi excelente e começou com três sucessos do seu primeiro álbum, auto-intitulado, de 1982: “Blister in the Sun”, “Kiss Off” e “Please Do Not Go”. Também cantaram “Add It Up”, “Good Feeling” e “Confessions” e deixaram tempo para a melhor performance percussiva do novo baterista, Brian Viglione, acompanhado de um cajón flamenco (instrumento espanhol). Para finalizar, como não poderia ser diferente, mandaram “American Music”.

Além de realizar o sonho de ver uma das minhas bandas preferidas ao vivo, tive a oportunidade de falar rapidamente, por e-mail, com o baixista Brian Ritchie, único membro remanescente da formação original do grupo. Abaixo, você confere as respostas:

O show no Azkena Rock Festival foi a última parada de vocês na Europa e também o primeiro na Espanha desde novembro 2006. Que memórias vocês tem daquela tour?

Brian: A gente sempre curte tocar na Espanha. É muito cômodo para nós. Nós tocamos em Azkena há 10 anos e alguns dos outros artistas, eu lembro que eram MC5 e Roger McGuinn. Foi fantástico. Um dos nossos sidemen, Jarrod Oldman gostou tanto que ele casou com uma menina de Vitoria e começou uma família. Ele ainda mora aqui. Não lembro muito porque na época bebi absinto demais (risos). Cidade boa e comida boa.

outro

A confirmação da escalação de vocês pro line-up foi uma surpresa para os fãs da banda na Espanha. Ainda assim, há outras gerações que foram festival além de quem nasceu no começo dos ano 80- e seu primeiro LP foi lançado em 1982. Eles quiseram escutar canções de diferentes períodos da banda? Por que você acha que estas gerações continuaram a ser influenciadas pela a fusão de punk e folk que vocês fazem, independentemente do período musical da banda?

Brian: Nossa música foi desenhada para ser atemporal. Quando fizemos o primeiro álbum, evitamos intencionalmente qualquer ferramenta de produção que teria feito com que o álbum ficasse preso num período de tempo específico.  Nós quisemos soar como algo que poderia ter sido gravado nas décadas de 1950, 1960, 1980 ou no futuro.

Agora estamos no futuro e o pessoal ainda gosta, assim acho que nossa estratégia deve ter funcionado. Nós somos parte da continuidade da música americana, iniciada com o  folk, blues e early jazz, através do rockabilly e punk. Estamos seguros de tocar para qualquer pessoa de qualquer parte, idade e pensamento. Porque nossa música é simples e direta. 

Ainda sobre a volta, a qual começou em Londres, e terminou no sábado passado no Azkena Rock Festival em Vitoria. Este último show foi o único dos quatro em Europa que foi num festival. Como vocês se sentiram num evento internacional com um line-up puramente de bandas rock?

Brian: Nós não nos importamos. Tocamos em festivais de jazz, folk, blues, e inclusive de metal. Não acreditamos em fronteiras musicais. Estive num festival na Tasmânia chamado MONA FOMA (www.mofo.net.au) no qual existem zero fronteiras musicais e essa é nossa filosofia.

“Out the window”, “Good Feeling” e “Used to be” falam sobre uma felicidade que foi embora, mas nunca vai voltar. Mas ainda assim, por outro lado, a galera pode ganhar um pouco de esperança e fé em canções como “Rejoice and be happy” ou “This Island Life”. Nos poderia dizer se você acha que esta compensação, esse equilíbrio, é o paradigma eterno do comportamento humano e também se poderia ser uma das razões do seu sucesso contínuo?

Brian: Se você parar pra pensar, em muitas música que as pessoas desfrutam, há algo introvertido e deprimido nas letras, enquanto a música por si mesma é algo alegre. Por exemplo, o blues é uma porção de queixas, mas a galera gosta de dança-lo e jogarfora da sua mente as preocupações. Nossa música é uma expressão da humanidade real, não tenta ser cool ou criada. As pessoas podem se ver nela e é por isso que se relacionam com ela.

batera

Qual é a melhor e a pior versão da “Kiss off” que você já escutou ?

Brian: Se você procurar no Youtube, tem uma versão de Kiss Off que os Dresden Dolls fizeram e que é impactante, e foi aí que pensei em colocar o Brian Viglione na banda, quando precisávamos de um novo baterista. Eu também escutei outras bandas fazendo covers boas, mas não lembro dos seus nomes agora. Nunca escutei uma versão má, porque a canção em si mesma é boa.

Por fim, você descobriu alguma banda que faz essa mistura de punk e folk com a mesma sutileza e qualidade com o que vocês fazem?  E se você nos poderia fazer uma recomendação de alguns dos seus artistas favoritos.

Brian: Obrigado pelo elogio. Imagino que poderia dizer que Bob Dylan e Jonathan Richman tem feito isso há50 anos mais ou menos. Há muitas bandas novinhas que estão influenciadas por nós como os The Lumineers e Ben Kweller. Com certeza eu acho que os Femmes são a melhor em folk-punk, mas eu estou fortemente inclinado! Enquanto há jovens com atitudes ruins e ideias boas, vamos ver o estilo de música que está surgindo aqui e ali.

ENTREVISTA: 4 perguntas para José Barreiros, diretor do NOS Primavera Sound.

O Primavera Sound cada vez mais chama a atenção dos apaixonados por música contemporânea. O festival, que nasceu em Barcelona e vai para sua 15ª edição em 2015, ganhou os olhos do mundo apostando na diversidade de estilos e no melhor do que ocorre no vasto cenário musical pós-internet, sem esquecer de homenagear o passado. Fez tanto sucesso que ganhou irmão na cidade do Porto, em Portugal: o Nos Primavera Sound, o qual nós tivemos o prazer de cobrir a edição de 2014 aqui.
E para entender melhor toda a diversidade do intercâmbio entre as edições espanhola e portuguesa e também a importância para as bandas brasileiras e lusitanas de um festival tão comentado no calendário internacional falar a nossa língua materna, a Mar Herrando, amiga e colaboradora do blog fez quatro perguntas para José Barreiros, diretor da versão portuguesa do festival.

Por Mar Herrando

Que consequências para a música cantada em português você acha que tem gerado essa união entre os festivais de Barcelona e Porto?

José: Num festival em Portugal é normal que tenha a presença de grupos que cantam em português. No entanto, nos últimos anos temos confirmado que a música brasileira e os grandes clássicos como Gilberto Gil, Caetano Veloso e Chico Buarque, também têm a companhia de artistas que têm ousado a criar uma nova música e Europa conhecia muito pouco. Antigamente era mais um fenômeno português, mas penso que artistas como Rodrigo Amarante ou como Marcelo Camelo deram à música brasileira um novo enfoque que fez a Europa apreciar muito esse estilo. E é normal que eles agora comecem a tocar em festivais na Europa, não só em Portugal por suposto. E estas são as diferenças de por exemplo estar em Barcelona, que teve uma presença muito grande de bandas brasileiras e também apostam no mercado brasileiro que confirmam o que estava falando anteriormente.

 familias

Você acha que há uma maior exportação de música portuguesa ao Brasil ou uma maior importação de música brasileira a Portugal?

José: Importa bem mais do que se exporta. É muito difícil para um artista português ter uma carreira em Brasil. Há poucos que se movem do lado da World Music como o fado ou nos últimos tempos, por exemplo, Antonio Zambujo e que conseguem ter uma carreira em Brasil, mas artistas brasileiros em Portugal o conseguem.

Estamos bem mais abertos à cultura brasileira do que o Brasil está à cultura portuguesa. Por tanto, é normal que artistas grandes de Brasil sejam também grandes em Portugal. Nós temos uma influência muito grande da cultura brasileira já das novelas brasileiras até a música, são quase 40 anos de importação de cultura brasileira. E Portugal em Brasil ainda é visto como um país com pouca dinâmica cultural, mas opino que nos próximos anos isso vai ter tendência a desaparecer e a que a relação seja mais equilibrada.

Como você já sabe o festival Primavera Sound em Barcelona é um festival totalmente internacional com uma presença superior de 40% de público estrangeiros. . Qual é vosso truque para conseguir respirar o ambiente de Porto num festival tão internacional como é Nos Primavera Sound e que seja tão local ao mesmo tempo?

José: Primeiro que temos um local completamente diferente que o de Barcelona, é uma mordomia muito grande poder fazer um festival num espaço tão bonito. Isso implica o cuidar, isso é um espaço verde que de nenhuma forma queremos estragar do Parque da Cidade no Porto.

Por outro lado, a presença de estrangeiros em Porto está acima de 30% dos espectadores do festival, ou seja, não é só um festival para portugueses, temos mais de 30 nacionalidades aqui representadas também. Isto aumenta a marca Primavera Sound, que é uma marca muito forte em todo mundo, é considerado o melhor  festival de música da Europa e faz que todo aquilo que Primavera Sound faça tenha repercussão internacional. Em Porto nós elaboramos uma matriz mais local precisamente para o distinguir de Barcelona, é um festival mais intimista. Queremos que seja especial, que as pessoas se sintam bem, e também é um festival que atrai a muitas pessoas acima dos 40 anos, sendo o único festival em Portugal que tem mais pessoas com mais de 40 anos que com menos de 18. E toda essa interação entre a cidade e o festival faz que pareça mais local, quando no fundo não deixa de ser um festival internacional. Mas ao mesmo tempo queremos que o festival também seja um evento da cidade do Porto, por isso convidamos aos restaurantes tradicionais: as tasquinhas da cidade, que vem aqui a apresentar seus produtos. Apresentamos no mercadilho muitos artistas locais, criadores de moda, de mobiliário, de calçado, para que estejam presentes para mostrar seus produtos porque queremos que as pessoas conheçam Porto. Além disso, Porto ainda é desconhecida para a maioria dos europeus e a nível mundial, e também queremos que o festival seja uma aposta turística e daí essa aposta pelo local e pelo que é nosso.

 

Para acabar, acontece como em Barcelona que o festival já está tão enraizado entre o público que faz com que se esgotem os primeiros 1000 ingressos – lote máximo –  após apenas duas semanas do fim do festival?

José: Sim, completamente. No ano passado, após quinze dias que o festival acabou, começamos a vender o primeiro lote de mil bilhetes e se esgotaram em duas horas. Por tanto, acho que quando as pessoas saem daqui, querem que isto não acabe, querem perpetuar em suas memórias o festival,  e tão cedo têm a oportunidade, o compram para o próximo ano. Isto é sinal que temos uma relação muito próxima com nosso público que reconhece que estamos a realizar um bom trabalho.

Mar Herrando é jornalista e acha que as melhores parcerias são sempre feitas de música. Nascida e estabelecida em Barcelona, morou por um ano em Fortaleza com o fim de estudar Comunicação Social e conhecer de perto a cultura brasileira. Voltou, mas a a saudade ainda não tem ido embora, assim que em tempos de Copa, decidiu matá-la escrevendo em português para um blog musical do Brasil que só sabe falar de coisas legais.

(foto por Mar H. Salvador)
(foto por Mar H. Salvador)
Caetano Veloso (foto por Mar H. Salvador)
Caetano Veloso (foto por Mar H. Salvador)
Foto por Mar Herrando
Foto por Mar Herrando
Foto por Mar Herrando
Foto por Mar Herrando

 

ENTREVISTA EXCLUSIVA: Bryce Dessner, do The National, fala sobre música clássica, parceria com guitarrista do Radiohead e futuro da banda

Quando se fala em Bryce Dessner, é impossível não pensar automaticamente em The National. Contudo, o membro fundador, guitarrista e compositor da banda norte-americana tem muito mais a oferecer do que “apenas” as excelentes melodias e energia que  transbordam da sua guitarra e compõe o som característico e único do quinteto de Ohio. Bryce é, também, um dos expoentes de uma nova geração de compositores de música clássica e acaba de lançar no último mês seu segundo trabalho solo, St. Carolyn By The Sea, em um disco dividido com outro músico que transita entre o rock e o clássico: Jonny Greenwood, guitarrista do Radiohead.

Composto de três peças, cada uma com cerca de 15 minutos de duração, St. Carolyn dá continuidade ao primeiro trabalho do músico, Aheym, lançado no ano passado e feito em parceria com o Kronos Quartet. É um registro sensível, mas pouco provável apenas para os mais desatentos. Dessner estuda música clássica desde a adolescência, tem um mestrado na área pela Universidade de Yale, fundou seu próprio festival de compositores contemporâneos e hoje é residente em Eindhoven na Holanda.

Por telefone, de Chicago, ele conversou comigo na semana passada sobre seu novo lançamento, como é viver entre dois mundos, seus planos para o futuro e claro, The National.

Confira:

St. Carolyn By the Sea é um split (disco que contém canções de dois artistas diferentes gravadas de maneira individual) com Suit From “There Will Be Blood” (título original do filme Sangue Negro) do Jonny Greenwood, guitarrista do Radiohead. Como isso aconteceu? Como você conhece o Jonny?

Na verdade foi por meio do Andre De Ridder, um maestro alemão. Ele trabalha bastante comigo e com o Jonny, então daí a conexão.

Jonny tem trabalhado bastante fazendo a trilha dos filmes do diretor norte-americano Paul Thomas Anderson ultimamente. Você gostaria de trabalhar com um diretor de cinema? Quem?

Na verdade, eu já compus algumas trilhas pra cinema, e é maravilhoso o que o Jonny faz, porque ali ele tem uma relação maravilhosa na qual ele pode escrever o tipo de música que ele preferir. Então sim, eu adoraria trabalhar em um filme maior, trabalhar com alguém como o (cineasta alemão) Werner Herzog, seria um sonho fazer a trilha de algum documentário dele.

Lembro-me de ter lido algo sobre a relação entre The National e Herzog, ele trabalhou com a banda ou é só um fã?

Sim, ele é um fã, vai a um monte de shows nossos, mas ainda não trabalhamos juntos.

Você toca em uma banda de rock e também compõe música clássica. Como isso funciona pra você? Eu sei que você se considera um compositor clássico antes de um guitarrista de rock, certo?

Eu toco música clássica desde o ensino médio, minha bagagem musical é mais clássica, mas eu toco em bandas de rock desde que eu era um moleque com meu irmão, então é como se fosse minha família, é essencial também. Em uma banda eu sou, na maioria da vezes, um guitarrista, e, quando se trata de música clássica, eu componho todos os instrumentos. De alguma forma são apenas lados diferentes de mim, mas não importa, eu sou sempre a mesma pessoa e não penso neles (música clássica e rock) de forma separada, são só partes de quem eu sou.

As composições clássicas e de rock vêm do mesmo lugar? Como é o processo pra cada uma delas? Porque no Mistaken for Strangers (documentário desse ano sobre o The National), você diz que a parte mais difícil de compor uma música pra banda é ter uma ideia. Funciona assim também com as composições clássicas?

Sim, eu diria que é mais difícil ainda com as composições clássicas, porque é difícil pra mim escrever música instrumental que não tenha uma inspiração por trás, ou mesmo uma ideia, especialmente sendo pra uma orquestra grande, em um trabalho que terá 15 ou 20 minutos de duração. Ajuda muito ter inspiração, as duas, musical e não musical. Pra mim, eu costumo frequentemente tirar inspiração da literatura, St. Carolyn By The Sea, por exemplo, foi inspirada em um romance homônimo do Jack Kerouac, e a segunda composição do split, Lachrimae, é baseada em uma peça musical do período renascentista. Mas falando sobre de onde a música vem, eu costumo fazer uma comparação com um escritor que escreve poesia e também romance. Você é a mesma pessoa, mas a forma é diferente e o jeito que você desenvolve ideias e o jeito que você executa ideias também são, e é desse jeito que funciona pra mim.

Sobre referências você cita Bela Bartók, Steve Reich, Glenn Branca, Philip Glass e outros que inspiram seu trabalho. Mas dentro da sua geração de compositores, quem são suas inspirações?

Por “minha geração” você quer dizer músicas que tenham a minha idade?

Isso.

Eu sou parte de um grupo de músicos que colaboram bastante entre si. Meu irmão (Aaron Dessner, também do The National) e eu trabalhamos bastante juntos. Nico Muhly é um amigo com quem que trabalho muito e também é um compositor, nós nos inspiramos mutuamente… eu acho que existem alguns aspectos da orquestração… ele é muito bom escrevendo pra grandes orquestras, aprendi demais com ele. Sufjan Stevens é um dos meus amigos mais próximos e ele é compositor brilhante, inacreditavelmente criativo, ótimo pra se ter perto e trabalhar junto. Na maioria do tempo são meus amigos que me inspiram. Richard Reed Parry é como eu e Jonny, está em uma banda de rock, ele faz parte do Arcade Fire e compõe bastante música conceitual.

E tirando seu irmão, Jonny e Richard, quais guitarrista de bandas de rock você admira?

Stephen Malkmus do Pavement sempre foi um dos meus favoritos. Ira (Kaplan) do Yo La Tengo também, Lee Ranaldo do Sonic Youth. Adoro alguns violonistas também, tipo o John Fahey, ninguém conseguia tocar como ele e foi um dos grandes motivos de eu começar na música clássica.                                                                                            bryce national

Seu primeiro trabalho solo, Aheym (2013), significa “aquele que se dirige pra casa” em ídiche. Pra você, a música clássica é como sua casa?

Eu realmente sinto como se fosse minha casa… é verdade, faz sentido isso. É meio que onde eu cresci, mas aquela música específica (que dá nome ao disco) foi inspirada nas histórias que minha avó, uma imigrante judia russa, contava. Foi escrita baseada nessa ideia de jornada pra casa, uma jornada musical pra ela. 

Você fundou seu próprio festival, o MusicNOW, na sua terra natal (Cincinnati, Ohio). Como a experiência tem sido pra você?

Eu amo. Ele foi concebido como um festival bastante íntimo e orgânico, bem ao contrário dos grandes festivais de rock. É tudo voluntário e são pequenas plateias, não chegam a 3000 pessoas, com muita música clássica contemporânea. Aparecem compositores, muitos amigos. É um ponto maravilhosamente alto do meu ano e ano que vem vai ser a décima edição, tem sido uma jornada ótima. Um grande lugar pra tentar coisas novas, na cidade pequena onde eu cresci, e, de alguma maneira, só funcionaria ali. Não funcionaria em uma cidade grande como Nova York, onde coisas desse tipo não são especiais, acontecem toda noite. Aqui é um elemento muito especial.

Você e seu irmão (Aaron Dessner, também do The National) parecem bons amigos. Provavelmente já te perguntaram sobre isso um milhão de vezes, mas como é trabalhar com ele? Eu sinto que tem uma energia muito legal entre vocês e ele também participou em St. Carolyn By The Sea.

É ótimo, nós somos gêmeos e pra irmãos trabalhando o tempo todo juntos nós nos damos muito bem. Ele não é um músico com treinamento clássico, ele não tem o interesse artístico que eu tenho nesse tipo de música, mas ele é muito talentoso, então ele consegue levar bem, basicamente ensino ele de ouvido. A faixa que ele toca comigo, eu escrevi especificamente pro estilo que ele toca, então é interessante porque aquilo foi feito já pensando nele. Ele é um grande compositor e produtor e é muito bom em estúdio. Nós temos habilidades diferentes, ele costuma ficar bastante envolvido com a produção do disco, enquanto eu faço a orquestração. Nós sempre brincamos que individualmente nós não somos tão bons, mas juntos somos impressionantes.

Você ainda está trabalhando com o Clogs (banda instrumental formada no começo dos anos 2000 e que lançou cinco discos)? Algum plano pro futuro?

Não temos trabalhado muito porque estamos vivendo em cidades diferentes agora. Nós trabalhamos juntos por dez anos e lançamos cinco discos, mas é bom ver que cada um seguiu seu caminho e foi um belo projeto, mas agora eu estou mais interessado em escrever minha própria música e no trabalho com o National.

Algumas bandas, como o Godspeed You! Black Emperor, misturam música clássica e rock. Você poderia fazer algo assim no futuro?

Eu acho que não, porque eu já toco em uma banda de rock e não sinto a necessidade de misturar as coisas desse jeito. Mas eles são uma banda interessante, tem algo muito bom acontecendo com eles, algo meio punk, com uma mensagem política. Mas eu acho que no meu caso é muito saudável o que eu tenho. Acho que existem muitos músicos clássicos que são roqueiros frustrados, mas eu não preciso disso, deixo a música clássica seguir sua própria trilha.

Trouble Will Find Me (2013) foi o sexto disco de estúdio com National e vocês foram uma banda média por um bom tempo, mas agora finalmente são headliners em grandes festivais pelo mundo. Qual a sensação?

É maravilhosa. Levou um bom tempo pra chegar onde estamos, mas também aprendemos a ser melhor como banda ao vivo, então até chegarmos nesse nível, tivemos bastante tempo pra crescer. Com algumas bandas tudo acontece muito rápido, enquanto são jovens. Nós meio que sabemos o que estamos fazemos, sabemos como fazer um show e tudo isso chegou na hora certa. Agora vamos tocar em vários festivais, como o Primavera Sound, que é ótimo, e é realmente divertido pra gente.

Você parece tão animado com seus trabalhos recentes e o The National está tocando junto já há mais de 15 anos. Você acha que o final está próximo?

Você nunca sabe, uma banda é algo frágil. Eu acho que a razão pela qual as bandas acabam é porque é difícil manter a química e todas as boas bandas de rock são sobre química. Então, no nosso caso, eu não sei, eu acho que provavelmente vamos fazer mais um disco, e nós queremos que o próximo disco seja bastante diferente, então vai ter um elemento de despedida, mas vamos continuar fazendo isso enquanto nos dermos bem e a música for boa. Quando a música estiver ficando ruim, com certeza vamos parar.

Li que você gosta de futebol, devia aparecer pra Copa!

Sim, a gente adora, eu e meu irmão crescemos jogando, ele está mais por dentro que eu, mas gostamos muito.

Você pretende apresentar suas composições clássica fora dos EUA e Europa? Alguma chance de rolar no Brasil?

Eu adoraria, não fui convidado, mas estou indo pro México esse ano. Se acontecer, eu vou adorar, mas ainda não aconteceu nenhum convite.

E podemos esperar o The National no Brasil nessa turnê? Você sabe algo sobre isso?

Talvez. Não temos certeza ainda. Tiveram algumas conversas sobre isso no outono (do hemisfério norte, primavera aqui), mas não tenho certeza se resolveram isso, se acertarem as datas, mas espero que aconteça. Adoraríamos ir ao Brasil, é tão divertido.

 

Assista ao making of de St. Carolyn By The Sea:

ENTREVISTA EXCLUSIVA: Pixies – “Depois que a Kim Deal saiu, rolou uma união maior que fez o Pixies seguir”

Quando a escalação do Lollapalooza 2014 foi anunciada, depois da mudança de comando da GEO para a Time For Fun, eu fiz questão de deixar claro que achava esse o melhor line-up do festival americano em solo brasileiro. Talvez não comercialmente, mas certamente em termos de qualidade: talento e sucesso comercial nem sempre andam lado a lado, como bem sabemos. E se a princípio as bandas não são tão populares quanto as de outros anos, com certeza existem mais grupos que eu faço questão de assistir em 2014 do que em edições anteriores.

O Pixies é um desses grupos e dispensa grandes apresentações. Formado em 1986 na cidade estadunidense de Boston, a banda se dissipou em 1993, depois de ter lançado quatro LP’s e influenciado quase todo mundo no rock alternativo, gente como o Nirvana e o Weezer.

Em 2004, a reunião. Com direito a turnê mundial e show no Brasil, os membros originais se juntaram novamente e desde então vêm fazendo shows com maior ou menor frequência, mas de forma ininterrupta. Contudo, até o ano passado, apenas uma nova música havia sido gravada e lançada, no mesmo ano da volta ao palcos: Bam Thwok, cantada e composta pela baixista Kim Deal.

O conjunto, que sempre foi avesso a grandes badalações, viu-se bastante assediado pela mídia em 2013 quando anunciaram pelo site oficial a saída de Deal, um de seus símbolos. Em um comunicado curto, sem muitas explicações, agradeciam e desejavam sorte a Kim. Alguns dias depois, mais uma surpresa: lançaram Bagboy, primeira música em 9 anos, com direito a clipe. O Pixies certamente está na ativa.

Depois vieram dois EP’s chamados de EP1 e EP2, em setembro de 2013 e janeiro de 2014, respectivamente, e o lançamento de uma nova turnê mundial que começou em Paris e passará por uma série de cidades e festivais, entre eles o Lollapalooza Brasil.

Tendo em vista tudo isso, o baterista David Lovering, na banda desde o início, gentilmente conversou comigo em nome do grupo, por telefone, durante 30 minutos na última sexta-feira. Essa é a primeira entrevista do Pixies pra um veículo brasileiro desde 2010, quando tocaram no SWU. E você pode conferir a conversa abaixo:

DAVID LOVERING: É o David falando.

JOÃO VITOR MEDEIROS: Ei, David, é o João, como você está?

DL: Bem e você?

JVM: Bem também. Estou ligando do Brasil pela entrevista.

DL: Maravilhoso!

JVM: Você parece estar de bom-humor.

DL: (risos) Ontem ficamos de folga, consegui descansar um pouco.

JVM: Isso é ótimo! Podemos começar? Vou fazer algumas perguntas e espero que você não fique bravo comigo (risos).

DL: (risos) Ok, claro.

JVM: Então, Bagboy e o EP1 foram as primeiras gravações do Pixies em nove anos. Como isso aconteceu? Como vocês decidiram que era hora de gravar material novo?

DL: Demorou muito tempo. Nós estamos excursionando desde a reunião, em 2004, sem parar. Foi uma tour e então a próxima, a próxima, a próxima… E daí nós começamos a turnê do Doolittle, que era tocando o disco do começo ao fim, e isso levou dois anos. Naquele momento, logo quando a turnê acabou, nós estávamos discutindo: “Ei, nós ainda somos uma banda viável, acho que deveríamos fazer algo, lançar algo”. Lançar, essa foi a palavra exata. Mas demorou muito tempo, demorou quatro anos da época em que discutimos até o EP1 nascer, até termos demos e finalmente decidir ir ao estúdio gravar. Então foi muito tempo, quatro anos até chegar nesse ponto. Mas chegamos lá e aí está.

JVM: Foi ideia do Charles (Thompson IV, também conhecido como Frank Black)?

DL: Sim, eu acho, porque ele tinha várias músicas. Charles é definitivamente um compositor, então ele tinha músicas e algumas ideias em mente, então eu diria que foi ideia dele sim.

JVM: Eu li algumas críticas bem ruins sobre o EP1 e EP2. Isso incomodou vocês?

DL: Não, de jeito nenhum. É engraçado, nós somos uma banda, nós…o chato é que, deus, nós nunca tínhamos tido uma crítica ruim, nunca. E dessa vez chegaram as notícias e tinham algumas, acontece. Mas não demos ouvidos, elas não nos machucaram de jeito nenhum. Só deixamos rolar.

JVM: E como tem sido a resposta do público às novas músicas?

DL: É boa. Estamos fazendo um show de mais ou menos uma hora e meia, dá quase umas 30 músicas e no set tem músicas antigas e daí colocamos umas novas, entre 8 e 5, e é bem legal. Já que estou na bateria, eu consigo ter uma visão um pouco mais privilegiada do fundo e eu consigo ver se tem alguém indo embora ou ao banheiro durante nossas músicas, então tenho uma boa indicação. Nesse momento está bem bom.

JVM: Isso é ótimo. E na sua opinião, qual o papel da crítica musical hoje em dia, nos tempos de internet, pra uma banda como vocês? Já que vocês estão na estrada há quase trinta anos e pegaram períodos diferentes.

DL: Ahn, eu acho que a banda ainda está na mesma posição. Eu acho que se você é uma boa banda, se você tem boas músicas, as pessoas vão te notar. Então de alguma forma você pode ir lá e fazer isso, com a internet, mp3 e coisas desse tipo, é o mesmo de antes: se você é bom, se você é diferente, as pessoas vão prestar atenção em você. E eu acho que sair, fazer shows, tocar ao vivo, é a coisa mais importante pra uma banda, ainda é o que faz a diferença. Eu acho que o tabuleiro ainda é o mesmo que antes. Mas nós temos sorte de ser o Pixies, ter uma base de fãs grandes que recebe nossos e-mails pelo nosso website, e então nós podemos nos aproveitar disso e distribuir por ali. Nós não temos uma gravadora e podemos fazer isso do jeito que quisermos, chegamos no nível de sermos suficientemente grandes pra isso. Nisso talvez as bandas menores não tenham tantas oportunidades hoje em dia sem alguma ajuda externa, mas certamente é possível.

JVM: E agora o que vocês estão preparando com a banda? Podemos esperar um LP inteiro?

DL: Como um músico, eu não posso revelar a maioria dos segredos, mas nós lançamos esses dois EP’s e pode haver mais um terceiro e ao final deles, um LP completo. Mas como músico tenho que guardar o resto.

JVM: Ah, mas pode me contar, prometo que não vou contar pra ninguém! (risos)

DL: (risos) Ok, pode deixar.

JVM: A Kim Deal deixou o Pixies ano passado. Como foi esse momento pra você?

DL: Foi bem difícil. Quando ela disse que estava indo foi bastante emocionante. Claro que não queríamos que ela fosse, mas desejamos a ela o melhor. Foi um momento complicado, não sabíamos o que fazer, estávamos gravando, literalmente na metade e, nós três, Joe, Charles e eu decidimos ir em frente e terminamos. Foi bom, nós tivemos uma bom método de trabalho e foi legal, rolou uma união maior entre nós naquele momento que fez o Pixies continuar.

JVM: E você sabe por que ela fez isso? Ela disse?

DL: Não, ela só disse que pra ela já tinha dado com o Pixies e foi isso. E sabe, eu entendo ela, de verdade. Desejamos a ela o melhor e ela pode voltar a hora que quiser.

JVM: Oh, e essa é a minha próxima pergunta: você sente falta dela?

DL: Sim, claro. Por um tanto de anos, ahn, talvez um total de 18 anos – nos primeiros anos, na reunião – ela foi a única baixista que esteve à minha esquerda. Então fez uma diferença quando ela foi embora, ela não estando lá: “oh, a Kim se foi”. É uma grande diferença.

JVM: E você gosta da outra banda dela, o Breeders?

DL: Sim, sim, gosto sim.

JVM:  Daí a Kim Shattuck entrou no lugar da Kim Deal e o que aconteceu? Ela (Shattuck) diz que foi jogada fora da banda por ser muito extrovertida, social. Isso é verdade?

DL: Ahn, não. Nós nunca comentamos sobre isso porque…basicamente ela foi contratada pra ser a baixista do Pixies pra turnê europeia e só essa. Só vou dizer que ela foi muito pouco profissional no que ela disse. (risos) Mas foi bom naquela tour, a Kim Deal tinha saído e estávamos com pressa e colocamos a Shattuck, mas logo depois a substituímos pela Paz Lenchantin e ela é ótima. Excelente baixista, ela é fantástica, é maravilhoso tocar. Ela é muito boa e tá fazendo com que EU toque melhor.

JVM: Eu vi o documentário loudQUIETloud (2006) e eu acho que foi a Kelley Deal que disse que vocês são “os piores comunicadores de todos os tempos”, que você não conversam muito. É verdade?

DL: Não. Naquele filme aquela empresa seguiu a gente por dois anos e gravaram um monte de coisas e no fim eles acharam que a gente era uma banda muito chata. Sem drama ou nada do tipo. Então, as coisas que eles deram destaque quando editaram fizeram nós parecermos muito antissociais, mas nós não somos. Nós passamos tempo juntos, nós somos uma banda, passamos um tempão na estrada, tocando juntos, dentro do ônibus, claro que precisamos de um tempo a sós, como qualquer pessoa, entende? Mas não somos antissociais um com os outros não. Além disso, a coisa das drogas e a linha do tempo no filme, as coisas aconteceram, mas não foi escalando ao longo de dois anos como eles fizeram parecer. Então eles colocaram um drama lá. (risos)

JVM: Vocês são normais demais! (risos)

DL: É, obrigado. Eu me lembro de ver a primeira vez e só ia afundando, afundando e afundando cada vez mais na minha poltrona. (risos)

JVM: E como tá a turnê agora?

DL: Ah, estamos nos EUA e tá sendo ótimo. Estou gostando muito e temos uma grande plateia, dos mais novos aos mais velhos, de pessoas que nem tinham nascido quando o Pixies começou até gente da minha idade, estamos tocando em uma série de lugares.

JVM: Eu não tinha nascido quando os Pixies começaram! Nasci em 1990 e sou um grande fã.

DL: Oh, obrigado, você tem bom gosto! (risos)

JVM: Então, vocês vão tocar no Lollapalooza Brasil em abril. É a terceira vez que vocês vêm ao país. Certo?

DL: Isso! Acho que é isso mesmo.

JVM:  Como foi das outras vezes?

DL: Eu tenho que dizer que quando viajamos até aí tem sido ótimo. Tanta gente nos vendo e a gente realmente se divertindo, a gente vê isso em algumas partes do mundo, mas é diferente por aí. Isso te deixa muito animado, você quer tocar melhor ainda.

JVM: E alguma experiência marcante aqui? Vocês provaram algo típico?

DL: Comida! Quando eu não estou tocando, estou comendo e a comida daí era muito boa.

JVM:  E o que vocês tão esperando pra próxima vez em abril?

DL: Ah, eu to muito animado. Vai ser a primeira vez com a Paz e ela meio que transformou a gente, de alguma forma, numa versão 2.0 e a parte rítmica está muito boa e acho que vocês vão curtir.

JVM: Vai ser o meu primeiro show do Pixies, então tem que ser bom, ok? (risos)

DL: (risos) Ok, vamos fazer mais especial ainda.

JVM: Vocês são headliners de grandes festivais esse ano. Você prefere shows em festivais ou em casas fechadas?

DL: Oh, é difícil, porque…hmm, se eu tivesse que escolher um, acho que seria em casas fechadas, algo que não seja um festival, algo não muito grande. Mas festivais são bons, é legal, é divertido, é algo diferente pra gente, mas eu prefiro casas fechadas. Eu diria que você tem mais controle, arruma as coisas do jeito que quer e em um festival você não tem nenhum controle, porque tudo já é provido pra você e é um ambiente totalmente diferente pelo tamanho, você só chega lá e faz seu show. É diferente. Cinquenta, setenta mil pessoas fazem a coisa bem diferente.

JVM: E qual sua memória favorita do Pixies?

DL: Meu deus, essa é difícil. A única coisa que eu poderia dizer nesse caso, realmente, seria sobre o primeiro show que nós fizemos. Eu me lembro disso. Foi numa noite em Boston e acho que foi algo grande. Porque a partir dali a gente só foi crescendo e crescendo.

JVM: E como foi a separação no começo dos anos 90? Como você se sentiu?

DL: Ah, nós éramos uma banda tocando juntos por sete ou oito anos e era tudo que a gente sabia, viajar e tocar e essas coisas. E claro, sempre existem personalidades e atritos em qualquer grupo de pessoas e simplesmente chegou no ponto em que não tinha mais clima e nos separamos. Foi um choque, eu não sabia o que fazer quando a banda acabou e eventualmente eu parei de tocar bateria. Mas olhando pra trás e pensando “e se a banda não tivesse se separado naquela época?”, a turnê de reunião nunca teria rolado em 2004. Nós teríamos continuado e teria ficado pior, e pior, e pior e eu fico feliz que a gente tenha se separado e tenhamos chegado no ponto que eu estou falando contigo agora no telefone!

JVM: (risos) E como foi a reunião em 2004?

DL: Ah, foi louco! Era a primeira vez que, tocando com o Pixies, dava pra ver a diferença de idade na plateia. Sabe, quando a gente tocava nos anos 80 e 90 era só gente jovem, jovens adultos, que ia assistir a gente. E agora é completamente diferente. A primeira vez que a gente tocou no Coachella, em 2004, era um mar de adolescentes e jovens cantando cada letra de cada música e foi surreal. Foi a primeira vez que a gente via algo daquele tipo. Foi maravilhoso.

JVM: E você se vê tocando daqui a 20 anos com uma turnê de 50 anos como os Rolling Stones?

DL: Ah, eu não ligaria, mas eu já tenho uma certa idade, se minha resistência me deixar, eu tocaria sem problemas, porque eu amo tocar bateria, é um trabalho divertido e vou continuar enquanto eu puder.

JVM: Ah, que legal. E o Kurt Cobain disse numa entrevista que estava praticamente tentando roubar vocês quando fez Smells Like Teen Spirit. Você lembra de escutar sobre isso? O que você pensa?

DL: Foi interessante. Eu escutei a música e eu acho que eu entendo o que ele disse. É muito difícil eu conseguir falar exatamente, mas pra mim é estranho quando as pessoas dizem que a gente influenciou elas. Pra mim, eu sou só o David, eu toco bateria e essa é a minha banda. Então é muito difícil perceber que eu fiz algo especial ou… eu não sei, é uma coisa muita estranha ouvir alguém falar isso. Mas eu gosto de Smells Like Teen Spirit, acho que é uma boa música. Eu, pelo menos. (risos)

 JVM: Mas vocês são uma das bandas mais influentes de todos os tempos. Você escuta alguma banda que diz ser influenciada por vocês? Você tem alguma preferida?

DL: Eu tenho algumas no meu iPod que mencionaram algo. Ahn, eu não consigo escolher uma favorita, elas são todas boas (risos). Todas são minhas favoritas!

JVM: E quais bandas você escuta? Você pode amar elas igualmente.

DL: Ah, eu tenho de tudo. Bowie, Nirvana, Radiohead, Weezer.

JVM: Sei que você é um grande fã do Rush.

DL: Sim, sim, adoro eles. E Steely Dan também!

JVM: Mas alguma banda nova que você curta e tenha visto?

DL: Não, acho que não. Eu não tenho a oportunidade estando tanto tempo na estrada. O único momento que realmente escuto música é no meu carro, quando estou em casa. Mas tiveram algumas boas bandas que abriram pra gente e eu gosto muito. FIDLAR é uma, eles tocaram com a gente e são bons. Tem uns clipes engraçados. São caras ótimos e gosto da música deles.

 JVM: E algo que você ainda queira fazer com a banda?

DL: Não. Agora só estamos nos concentrando nos shows e nos EP’s e acho que esse vai ser o espírito de 2015.

JVM: E a última pergunta: você quer dizer algo pros fãs brasileiros de Pixies?

DL: Ahn, assim, de bate-pronto só queria dizer que todo mundo curta a mistura das músicas novas e velhas e não fiquem chateados se a gente não conversar, nós só queremos fazer música.

ENTREVISTA: Yuck – “Faço o tipo de música que quero e não vou me sentir mal por ter influências”

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O Popload Festival acontece nesse sábado, 26 de outubro, no HSBC Brasil em São Paulo e trata-se de uma investida mais ambiciosa dos responsáveis pelo conhecido Popload Gig, que já trouxe ao Brasil bandas como LCD Soundsystem, Tame Impala, Primal Scream, Feist, Breeders, entre outras. A atração principal são os ingleses do XX, que irão passar por Rio e SP pela primeira vez, terminando a turnê do segundo disco do grupo, Coexist.

Aos 45′ do segundo tempo, porém, o evento ganhou um reforço considerável com a adição do, agora, também trio londrino Yuck. Depois de uma estreia barulhenta musical e jornalisticamente em 2011, o grupo passou por problemas internos, saída do frontman Daniel Blumberg e gravação e lançamento do segundo álbum, Glow & Behold.

Prontos para desembarcar em São Paulo, o grupo, por telefone, concedeu uma entrevista a mim. Inicialmente designado para responder minhas perguntas, logo ao atender o celular com uma voz cansada, o baterista Jonny Rogoff me pergunta se eu me importaria que Max Bloom, guitarrista e atual vocalista ficasse encarregado da conversa. Obviamente, aceitei. Max é o líder e principal compositor e certamente estaria mais apto a me contar coisas sobre o processo de gravação do segundo disco e como o Yuck lidou com as recentes turbulências.

“Ele deixou a banda porque ele queria se dedicar a outros projetos, eu acho”, me diz gentilmente depois de um longo suspiro, quando eu não resisto à tentação de abrir a entrevista perguntando porque Blumberg tinha saído da banda. “Ele não queria ficar preso a apenas uma coisa, ele queria fazer várias e não conseguia estar mais realmente comprometido conosco”. Quando questionei como o desinteresse dele influenciava no processo de composição ele foi assertivo: “Ele não queria mais escrever músicas pra banda, eu estava compondo o novo álbum e ele simplesmente não queria mais fazer parte”.

Na sua estreia o Yuck foi amplamente comparado a grupos de rock alternativo dos anos 90, como Dinosaur Jr. e Superchunk. O primeiro single de Glow & Behold, Rebirth (uma clara menção, mesmo que indireta, aos novos tempos do conjunto), contudo traz uma sonoridade diferente, que ainda remete à década de 90, mas dessa vez se aproxima mais de outro expoente da época: o My Bloody Valentine e seu Loveless. “Não, não foi. Eu posso ver porque as pessoas pensam isso, mas não era o que eu estava escutando na época” nega, quando pergunto se Kevin Shields tinha sido uma grande influência no disco: “Eu estava escutando eles mais na época do último disco. Desse, não”.

Sobre ser acusado de copiar bandas da época ele disse não se importar: “Inclusive depende do contexto, muitos dizem isso como elogio, de forma amável. Outros podem dizer de uma forma preguiçosa, sem realmente terem escutado a nossa música, mas no fim não me incomoda, não. Faço o tipo de música que quero fazer e não vou me sentir mal por ter influências”.

O mais recente trabalho do Yuck me soa melancólico e pergunto a Bloom se isso foi pensado: “Aconteceu naturalmente. Eu estava tomando muita porrada na época e eu só men sentia assim, sabe? Muita gente diz isso sobre o disco, sobre ele ser melancólico, porém não foi realmente planejado. Mas faz sentido, porque era como eu estava me sentindo no momento e talvez no próximo disco eu esteja em um estado mental completamente diferente e isso vai influenciar a sonoridade”.

Em 2011 eles tiveram uma rápida passagem por São Paulo ao tocar em evento fechado da Puma para convidados. “Foi uma grande surpresa pra gente. Foi muito rápido porque a gente chegou e logo em seguida tínhamos que voar para o Reino Unido pra tocar em outro festival, mas estar ali com 700 pessoas querendo ouvir a nossa música foi muito surpreendente. Não sabíamos que haviam tantas pessoas no Brasil que conheciam a gente. ”

Quando menciono o show de sábado e inquiro se ele gosta do XX, headliner da noite, ele diz nunca tê-los encontrado pessoalmente, mas que acha a banda muito boa. No que compete ao Yuck ele parece animado: “Eu acho que vai ser muito bom. Novamente não sei o que esperar, o que vai acontecer. Qualquer que seja o cenário, vamos subir e fazer nosso show e acho que vai ser muito divertido”. Ele finaliza prometendo um setlist com músicas de ambos os trabalhos do grupo.

Agradeço a entrevista e me despeço. “Te vejo no sábado”, Bloom diz por educação. Até lá, então.

Escute o Glow & Behold do Yuck na íntegra aqui.

POPLOAD FESTIVAL com THE XX – SÃO PAULO

ATRAÇÕES:

PALCO CAMPARI
20h30 SILVA
00h30 ALDO
01h30 Joe Goddard (HOT CHIP)

PALCO DESPERADOS
21h30 YUCK
23h00 The XX

DIA: 26 de outubro de 2013
HORÁRIO PORTAS: 19h
LOCAL: HSBC Brasil
R. Bragança Paulista, 1281
Chácara Santo Antonio, São Paulo – SP
Telefone: (11) 5646-2120
INGRESSOS:
Pista: R$ 200,00 (meia), R$ 400 (inteira)
Camarote: R$ 300,00 (meia), R$ 500 (inteira)
*VIP (open bar): R$ 400,00 (meia), R$ 800 (inteira)
(*VIP open bar não fica em frente ao palco. É pista, mas é atrás, numa área reservada, mais elevada.)
PONTO DE VENDA:
site HSBC Brasil

ENTREVISTA: Aldo, nascidos e criados na noite paulistana

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Foto por Paulo Bega

Uma banda com a cara da noite paulistana. Esse poderia facilmente ser o slogan do Aldo, projeto dos irmãos Murilo e André Faria, figurinhas carimbadas das pick-ups da cidade. Com o lançamento do disco “Is Love” (escute na íntrega no fim do post) em abril desse ano, rapidamente caíram nas graças de alguns blogs e devem ser nomes muito presentes na cena daqui pra frente.

O nome vem de uma homenagem a um tio da dupla: boêmio de marca maior em outras épocas, desbravador ávido dos prazeres da Rua Augusta e responsável por apresentar os garotos a todo tipo de programa que a noite da região oferecesse. Aldo, o tio, resolveu se dedicar à religião, mas os caras resolveram imortalizar aquela lenda pessoal, criando o próprio altar em forma de banda e o culto em forma de música.

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Foto por Bruno Porte

Com tudo isso, André Faria concedeu a nós uma entrevista por e-mail sobre as influências, planos e rumos do grupo daqui pra frente.

JVM – O nome da banda vem do tio de vocês, que os introduziu no, digamos, mundo adulto. Pelo que vocês falam, a atitude dele era rock’n’roll e punk, mas o que ele curtia em termos de música? Mostraram o som da banda pra ele? Se sim, o que ele achou?

AF – Apesar de ser o cara mais rock’n roll que conhecemos, o tio Aldo era do samba. Samba enredo, para ser bem específico. Inclusive, uma vez, fomos ao Rio de Janeiro com ele pois ele resolveu desfilar pela Beija Flor. Obviamente ficamos no hotel, mas lembro que esse Carnaval foi bem divertido. Além de aficionado por samba, ele também adorava Gipsy Kings. Era fã de carteirinha. Toda festa de família os discos rolavam soltos na vitrola. Há umas 3 semanas, quando o disco ficou 100% pronto, mandamos alguns para o Tio Aldo. Ele já havia escutado as demos, mas nada definitivo. Não estávamos lá, mas nossa tia Huguete, mulher dele, disse que ele quase chorou de emoção. Mas também disse que “Hoje em dia ele também chora até com novela…

JVM – A banda é composta por irmãos. Como isso altera a dinâmica de vocês? Rola muita briga?

AF – Um pouco antes de terminar o disco, ficamos 3 meses sem nos falar. Brigamos bastante, sabe como são os irmãos… As vezes rola até empurra-empurra, mas depois passa. De qualquer jeito, o lado bom compensa tudo. No processo de criação de um disco você apresenta muita ideia ruim, frágil ou boba, por isso é sempre bom ter ao lado alguém intimo, que você admira e confia, para não ter medo de falar ou tocar nada.

JVM – Como funciona o processo de composição, tem algum ritual ou fórmula? É sempre interessante saber de onde nascem as músicas.

AF – Não existe necessariamente uma fórmula, mas o que é bem comum é meu irmão aparecer com algum experimento nos synths, alguma textura que ele acha bacana e estranha e, a partir disso, criarmos algumas linhas de baixo e bateria juntos, vendo o que funciona e o que não.

JVM – A opção pela língua inglesa pode ser uma faca de dois gumes. Ao mesmo tempo que facilita uma projeção internacional, pode dificultar um apelo maior aqui no Brasil. Como funcionou a opção de vocês pelo inglês? Ela é definitiva ou podem eventualmente surgir composições em português, também?

AF – O projeto nasceu bem descompromissado, por diversão – justamente por isso nunca paramos para pensar no assunto, fomos fazendo o que dava na cabeça. Como queríamos um som para tocar nas pistas, principalmente nas festas que meu irmão dava em casa, resolvemos fazer em inglês e ver se as pessoas dançavam. De qualquer jeito nada impede que façamos coisas em português também nos próximos trabalhos – na verdade, ia ser bem legal.

JVM – Na Popload Session (veja vídeo abaixo) que vocês gravaram, vocês escolheram fazer um cover do Pixies. Por que? Quais outras bandas influenciam o som de vocês?

AF – Adoramos Pixies! Somos fãs. Fizemos uma música, inclusive, que ficou tão parecida com Hey! que resolvemos desencanar e partir logo para um cover. Meu irmão, por ser DJ desde garoto, tem uma pegada eletrônica mais forte, o que influencia bastante o som. Escutamos de Underwolrd, Prince e Mr. Oizo até Pavement, Yo La Tengo e Sebadoh.

JVM – Em Reverse vocês usam um sample da trilha sonora do Chaves. Algo completamente inusitado e que me chamou a atenção de cara, claro. De onde saiu essa ideia?

AF – Foi ideia do Mura. Todo dia depois da escola, chegávamos em casa, fazíamos um lanche e corríamos para a TV para ver Chaves e Chapolim Colorado. Era a vida boa. A música da introdução ficou tanto na cabeça , que ele resolveu samplear uma pequena parte.

JVM – Vazou ontem (02/07, terça-feira) um link que entregava que vocês e John Talabot seriam outras duas atrações confirmadas no Popload Festival. Vocês confirmam essa história? E vocês conhecem o som desses outros artistas? O que acham deles?

AF – Curtimos muito John Talabot! The XX também, inclusive vimos ontem que eles já confirmaram. Quanto ao ALDO a única coisa que podemos confirmar, por enquanto, é que amaríamos tocar também. :)

JVM – O nome do disco é “Is Love”. Existe amor em SP?

AF – Se existe, é bem magrinho.

JVM – Concluindo, quais os próximos passos do Aldo?

AF – Nosso plano agora é tocar e nos divertir com a banda, que também conta com o Erico Theobaldo, cabeça do Thelepatiques e do Embolex, na bateria e o Isidoro Cobra, ex Jumbo Elektro, no baixo.