Festival com bandas e local secretos acontece em São Paulo em julho

SOFAR SOUNDS (abreviação de Songs From a Room – nome do segundo disco do lendário cantor/compositor Leonard Cohen) é um projeto inglês que começou em 2009 e consiste em realizar shows intimistas de bandas e artistas para um pequeno público de convidados. A iniciativa, que teve origem em Londres, já aconteceu em 120 cidades pelo mundo, incluindo Nova York, Berlim e Paris, e já teve shows de artistas como Bastille, Karen O. e até do ator Robert Pattinson. O projeto está no Brasil desde 2012 e já aconteceu em 12 capitais, realizando de 8 a 10 shows por mês de artistas como Tiê, O Terno, Holger e outros.

E é essa mesma galera que vai ser responsável pelo SOFAR+ SECRETS no dia 12 de julho, das 15h às 23h, em São Paulo. O festival, que já vai pra terceira edição, acontece em um local secreto – anunciado apenas dois dias antes – e terá de 8 a 10 bandas na sua escalação, incluindo um grupo internacional. Entretanto, diferentemente do SOFAR SOUNDS feito para convidados que podem se cadastrar por uma chance de assistir às apresentações pelo site do projeto (aqui), o SOFAR+ SECRETS é um evento aberto ao público, com ingressos no valor de R$70 a meia-entrada com apresentação de carteirinha de estudante ou doação de um livro e que podem ser adquiridos nesse link aqui.

Além das bandas e o mistério, o festival ainda rola com food trucks, drinks, secret talks e DJs. E nessa edição a gente vai estar lá fazendo uma cobertura de tudo que rolar em tempo real.

 

SOFAR+ SECRET FESTIVAL @ São Paulo

Data: 12 de julho de 2015

Horário: 15h

Local: Secreto – revelado com 48h de antecedência

Line up: Revelado na hora

Ingressos: 1º lote: R$ 70 (antecipado) – meia-entrada mediante apresentação de carteirinha de

estudante ou doação de um livro / R$ 110 (porta)

Link: http://bit.ly/sofar_catarticos 

Censura: 18 anos

Informações: sofarplusbrasil@gmail.com

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ENTREVISTA – Björk: “O underground é a minha casa”

Björk dispensa apresentações. A islandesa apareceu pro mundo ainda nos anos 80, à frente do grupo Sugarcubes, mas foi em carreira solo que se transformou em uma entidade. Sua música, muitas vezes complexa e de vanguarda, chamou a atenção do grande público pela originalidade e beleza, duas características presentes até hoje em seu trabalho.

Em 2015, Björk teve um ano cheio. Além de lançar mais um novo disco, o dolorido Vulnicura, a artista teve a obra homenageada em exposição no conceituado MoMA de Nova York. Ali figurinos, esculturas e, obviamente, a música da cantora foram celebrados em quatro instalações artísticas no museu.

E para falar dessas e outras coisas, conversei, por telefone, com uma doce e simpática Björk, à época de férias em Porto Rico.

O MoMA preparou uma exposição sobre o seu trabalho e você também vai lançar um livro sobre a sua carreira. Pra mim, seu trabalho sempre foi sobre olhar pra frente, pro futuro. Essas iniciativas são um jeito de também celebrar o passado?

Pediram pra que eu fizesse a exposição antes e na primeira vez eu disse “não”. Tinha razões pra isso, é claro. Eu recebi mais pedidos ao longo dos anos e no fim eu decidi fazê-la. Eu acho que foi o meu amigo Antony Hegarty (Antony and the Johnsons), um cantor inglês, ele me disse que eu deveria fazer isso pelo som e eu deveria fazer isso pelas mulheres. Então foi por essas razões. Eles também me perguntaram se eu podia fazer uma nova instalação e eu tinha uma nova música com vídeo que eu poderia aproveitar.

E por que você disse “não” no passado? 

Por duas razões: eu não queria olhar muito para trás e também porque é complicado mostrar música em um museu visual. É complicado retratar minha música nesse ambiente, mas eu acho que nós tentamos oferecer uma série de soluções para isso. A exposição acontece em quatro locais diferentes e de alguma maneira são quatro formas diferentes de tentar se tornar “sônico” ou ter áudio em um museu. Basicamente esse tem sido o trabalho nos últimos dois anos, desde que estamos preparando isso. Trabalhamos com engenheiros em alto-falantes, em fones de ouvido, em como você poderia resolver. Mas então eu tinha que decidir dois anos atrás: “será que esse é um problema que eu estou disposta a resolver ou não?” e então eu decidi resolvê-lo. E também porque eu tenho um novo disco inteiro e ambas as coisas poderiam coexistir de alguma forma. Então eu acho que em um nível emocional isso meio que faz sentido.

Sobre o disco novo, o que você pode dizer sobre o título?

“Vulnicura” é latim e significa “aquele que carrega um ferimento” ou “alguém que carrega um ferimento”.

E eu penso que cada um dos seus discos tem uma história. Qual a história desse disco?

A história desse disco é principalmente sobre o fim de um relacionamento e de alguma maneira é um álbum de coração partido e o processo de cura depois disso. As seis primeiras músicas do disco estão em ordem cronológica. Não foi planejado, mas elas são a documentação de uma relação desmoronando. Então a primeira música é como se fosse oito meses antes, a segunda é cinco meses antes, a terceira é sobre um mês antes, a quarta é um mês depois, cinco meses depois e então dez meses depois. E então existem outras canções no disco após essa que são sobre outras coisas, mas as seis primeiras são um pouco sobre essa saga do coração partido.

E isso também tem a ver com a quantidade de teorias apocalípticas que temos ouvido ultimamente?

De que maneira?

Numa conversa com o filósofo Timothy Morton eu percebi que você menciona mensagens sobre apocalipse  e que você também fala disso em algumas partes do disco, isso influenciou de alguma forma?

Sim, eu acho que pra mim é difícil entender porque a maioria dos filmes de Hollywood agora é sobre apocalipse. E eu acho isso muito chato. Para mim a consciência, a alma da civilização ocidental, é muito patriarcal, isso existe, e sinto que ela está paralisada com culpa sobre todo o dano feito ao meio ambiente, mas ao invés de começar a trabalhar nisso e fazer algo a respeito, a forma como tratam é muito narcisista e cheia de pena de si mesmo. O que eu acho que é muito estranho porque foi a própria civilização ocidental que causou todos esses danos ecológicos. Então eu acho que é muito importante começar AGORA a definir que tecnologia vai funcionar com a natureza no século XXI no qual nós possamos salvar o máximo, e que ainda dê e transformamos isso em uma coisa otimista e criativa, sabe? E eu acho isso um pouco complicado… eu vi um filme chamado “Interstellar”, que gostei muito, mas ele também é assim, especialmente a cena na biblioteca, realmente tem essa coisa na qual o subconsciente do filme está paralisado com culpa e eles simplesmente decidem pegar uma nave muito, muito boa e ir para a próxima galáxia! (risos) Então eles não vão limpar a bagunça que eles mesmo fizeram. Eles só dizem “Ok, vejo vocês mais tarde!” (risos). Então eu acho que é importante… é perigosa essa onda apocalíptica porque ela é muito narcisista com um dose de pena de si mesmo dentro, o que não faz nenhum sentido, mas eu acho que é jeito humano natural de reagir. 

Você acha que é um jeito de abrir mão da própria responsabilidade?

Sim, eu acho que sim. Eu acho que você meio que torna isso uma coisa romântica que o mundo está morrendo e pobre de nós. É uma situação importante e nós não temos tempo pra ter pena de nós mesmo ou ter vaidade. É muito importante começar agora!

Nesse disco você trabalhou com o Arca e o Haxan Cloak. Teve mais gente envolvida?

Não. Na verdade na maioria do tempo eu trabalhei com o Arca, Haxan Cloak chegou mais no final como responsável pela mixagem. E foi muito mágico. Ele me contatou mais ou menos um mês e meio atrás.

Haxan Cloak ou Arca?

O Arca. E ele queria trabalhar comigo e era a hora perfeita pra mim. Ele veio até a Islândia e algo muito mágico aconteceu. E ele viria de novo e de novo e muitas vezes pra Islândia. E antes que a gente pudesse perceber, tínhamos o disco inteiro ali, foi muito rápido. Então tem sido muito mágico, uma das melhores colaborações que eu tive.

E você escutou o trabalho dele com o Kanye West? O que você achou?

Eu não escutei muito, não. Quando ele me contactou foi antes de eu ouvir a FKA Twigs, porque foi antes do disco dela sair. Então o que eu conhecia era na maioria música dele mesmo, que ele havia colocado online. E dessas eu gosto. Pra ser honesta, tinha tanta gente no disco do Kanye que era realmente difícil dizer quem fez o que, entende? Então não teve nada a ver com isso. Essa não foi a razão que eu quis trabalhar com ele, foi mais pela música dele. 

E eu acho que você é uma artista bastante colaborativa que está sempre trabalhando com gente nova e interessante. Essa troca parece ser importante pra sua música, por quê?

Eu não sei. Eu acho que eu tenho muito extremos, eu acho que eu também sou muito solitária. Tipo, eu escrevo a maioria das minhas músicas sozinha e a minha relação com a minha voz também é muito solitária. Então geralmente eu já escrevi a maioria das músicas sozinha e editei eu mesma no meu computador… nesse disco eu mesma fiz todos os arranjos de cordas, isso eu fiz tudo sozinha e exigiu bastante tempo e foi muito divertido. Mas há também um estágio em cada álbum em que estou pronta para colaborar e é mais pro final que chamo todos os convidados pra minha festa e a minha casa que eu preparei por muito tempo! Mas esse disco eu acho que até foi diferente. Alejandro, esse é o nome do Arca, chegou bem cedo e esteve presente em muito do processo. 

E quais são os seus pensamentos sobre a música pop mainstream atual, gente como Taylor Swift, Lady Gaga, Miley Cyrus?

Olha, eu não escuto muito, sabe? (risos) Eu sempre adorei gente tipoa  Beyoncé e a Rihanna e eu fico muito animada quando gente como Kelela e outras pessoas que eu realmente gosto se tornam mainstream. Mas eu não escuto muito ao rádio, pra ser honesta. Mas eu sigo sim o que tá acontecendo, só que na maioria das vezes eu to mais interessada nas coisas que acontecem às margens. 


Essa na verdade a minha próxima pergunta: você é uma artista grande hoje, mas você está sempre olhando pra música underground e eu acho que posso dizer que o underground sempre está olhando de volta pra você. Como você vê essa relação?

Eu acho que é muito natural, acho que o underground é a minha casa. Desde que eu era uma adolescente na Islândia, no nascimento do primeiro selo indie da Islândia… Tinha um selo grande na Islândia que estava sempre colocando música comercial no mercado e não havia nenhuma alternativa e nós pensamos “a gente precisa resolver isso” e sinto que tenho feito a mesma coisa desde então. (risos) De alguma maneira, não mudou muita coisa, sabe? Eu ainda tenho contato com esses amigos da Islândia com os quais eu comecei o selo, porque o selo ainda está na ativa e ainda assinamos bandas e coisas assim e e ainda é uma situação bastante semelhante hoje em dia, sabe, não mudou muita coisa. É sempre difícil pro underground sobreviver financeiramente, é muito raro que as pessoas queiram apoiá-los, mas por outro lado eu acho que é um ambiente muito mais seguro. Eu gosto muito do conforto disso, também, porque a maioria das pessoas no undergroung está fazendo isso pelo amor à música – eu não estou dizendo que as pessoas que são grandes não estão, porque um monte deles também está – mas eu acho muito romântico ir à uma loja de discos e conversar com as pessoas que trabalham lá. Nós podemos conversar por uma eternidade sobre as músicas que estão saindo e não importa realmente qual é a sua idade, porque pessoas de 95 anos ainda estarão muito animadas quando sair o que quer que seja…Então, no fim do dia é sobre amor à música, sabe? Eu acho que de uma maneira é muito confortável estar próximo às raízes. 

Você acha que a internet mudou muito a relação com a música?

Sim, claro.

Você acha que foi uma mudança pra melhor ou pra pior?

Eu acho que os dois. Eu acho que como em toda mudança é os dois. Eu quero dizer, era bom e ruim antes e é também bom e ruim depois e sempre vai ser assim. É só um meio diferente. Eu acho que todo mundo ainda está tentando entender como ele funciona e há alguma injustiça e falta de equilíbiro nisso e onde as pessoas vão querer se safar das coisas, ir o mais forte que conseguirem e ninguém vai pará-los e daí algum sistema vai ser implantado e com alguma sorte não vai ser inviável, então eu acho que é o mesmo tipo de história de novo e de novo. Você tem um período novo no começo em que tudo é excitante porque não há regras (risos) e alguns anos depois você tem que definir isso. E eu acho que esse é o caso com a internet.

E qual você acha que é o papel da arte nesse mundo pós-internet?

Eu acho que é o mesmo, sabe? Eu acho que não é possível sobreviver sem arte. Eu acho que é muito importante, mas eu acho que também era muito importante antes. O que acontece, eu acho que é da natureza humana, em todo sistema, foi o mesmo quando você tinha o mundo da arte, a indústria fonogáfica ou qualquer negócio, é sobre poder e hierarquia. E o que é meio mágica sobre a internet é que ela destroi a hierarquia, mas agora essa hierarquia está meio que sendo reestabelecida, então é interessante observar que papel cada pessoa vai desempenhar. Mas no fim do dia, arte, música – vou falar sobre música já que sou musicista – sempre vai ser um dos elementos vitais para os humanos. Não há como viver sem isso. E não é sobre hierarquia, sabe?

Um das suas novas canções, NotGet pra ser específico, fala sobre a morte. Você teme a morte?

Eu não temo muito. Eu acho que talvez seja uma coisa de mulher, eu acho que as mulheres não têm tanto medo da morte quanto os homens. Claro que eu estou generalizando aqui porque existem um monte de pessoas diferentes. Mas eu acho que mulheres, porque elas dão a luz e são mais emocionais, precisam mais se conectar com o resto do universo, é diferente. Eu acho que para os homens é mais complicado, sabe? Porque eles tem um relação muito diferente com nascimento e morte, é mais como uma ideia pra eles, não é tão físico, é mais como um conceito e a partir daí se torna mais assustador. Mas acho que nessa canção em especial eu estou falando sobre o medo da morte de um homem e talvez uma mulher entenda isso ao final de um relacionamento. Isso é pra ela, porque eu acho que pra um monte de mulheres as emoções são tudo. Eu acho que é mais sobre o fim de algo emocional e é mais dramático pra uma mulher do que algo físico que os homens temem. Então eu acho que é disso que eu estou falando naquela canção. 

E você disse no passado que você não se considera uma feminista. Isso ainda é verdade?

Eu acho que eu gostaria de fazer parte do feminismo do século XXI, eu ficaria muito feliz de ser incluída nesse movimento. Eu não me vejo como uma feminista do século XX, mas eu acho que elas lidavam com uma porção de problemas que foram resolvidos, sabe? Os quais eu acho que pessoas como eu nos beneficiamos muito. Pessoas como a minha mãe lutaram muitas batalhas que eu não tive que lutar, sabe? E eu aprecio isso, mas eu acho que é muito importante que, se você realmente respeita o trabalho feito no século XX, você deve continuá-lo e levá-lo a algum outro lugar e não repetir o século XX. Eu acho que isso é importante.

E a última vez que você esteve no Brasil foi em 2007. Você tem algum plano de voltar aqui no futuro próximo? 

Eu não sei ao certo, mas essa exposição vai a algum lugar na América do Sul*.

*Questionado sobre a possibilidade da exposição sobre a carreira de Björk vir ao Brasil, o staff da cantora respondeu que há negociações para que isso aconteça no segundo semestre de 2016.

Os meus discos preferidos de 2014

Listas sempre dividem opiniões. Para mim, elas servem, principalmente, para descobrir discos que possam ter passado despercebidos pela enormidade de lançamentos ou mesmo relembrar outros que, por algum motivo, se perderam na memória. Entretanto, eu considero que discuti-las é sempre divertido, ao passo que tentar questionar ou invalidá-las é perda de tempo. Elas sempre refletem, puramente, uma opinião – de uma pessoa ou publicação.

Por isso, diferentemente do ano passado, não batizarei essa lista de fim de ano como os melhores e sim como meus preferidos. Porque música está longe de ser uma ciência exata e, mesmo que crítica e argumentação tenham o mais profundo valor, no fim das contas a opinião definitiva sobre o valor de um álbum ou artista é suaSe alguma música te toca, te deixa feliz, te faz sentir menos sozinho ou de alguma forma torna o fardo do dia a dia mais leve, já é motivo mais que suficiente pra ter carinho por aquilo, afinal, para a grande maioria das pessoas música é apenas uma maneira de desaguar as preocupações cotidianas. E nenhuma crítica tem – ou deveria ter – o poder de desconstruir esse sentimento.

Em se tratando de preferências pessoais-musicais, 2014 foi um ano bastante generoso comigo. Foram tantos bons lançamentos que não foi incomum, ao repassar o que havia saído,  ficar com a estranha sensação de que determinado álbum não era desse ano, tão soterrado por outros (bons) discos estava a lembrança. No fim, apesar de sempre divertida, a tarefa de escolher só 20 álbuns foi dura. Poderiam facilmente ser 50. Então, se alguma banda esperada por você não estiver na lista, não necessariamente significa que eu não tenha gostado. Aproveite e faça também a sua lista.

Sem mais blá blá blá, esses são meus 20 discos preferidos de 2014, em ordem decrescente. No final, há uma playlist com uma música de cada um deles (exceto dois):

20. Cloud Nothings – Here and Nowhere Else

Cover

Como eu já havia escrito antes sobre o disco: “Raiva. Se tem uma palavra que pode definir o disco do Cloud Nothings, Here and Nowhere Else, é essa. Rápido, agressivo e deliciosamente construído sobre guitarras distorcidas, é um bom lembrete do porquê o rock sempre foi capaz de atrair jovens. O próprio título traduz bem a sensação de urgência cortante que dá o tom do álbum. Mesmo as faixas que começam calmamente, como Psychic Trauma, logo são tomadas por um emaranhado de distorções, tons de bateria e gritos. Com 8 faixas quase sempre curtas (todas tem menos de 4 minutos, à exceção das duas últimas), é ainda melhor que o disco anterior do grupo, o bom Attack on Memory, produzido por Steve Albini (Pixies, Nirvana).”

Link para o disco completo: http://bit.ly/1rsT7s7

19. Dean Blunt – Black Metal

Dean Blunt Dean Blunt faz música estranha. É a definição mais próxima que eu encontro para o som do inglês que foi chamado pelo Guardian de “o elo perdido entre Ariel Pink e Aphex Twin”. Ex-metade do duo de música eletrônica Hype Williams (nada a ver com o famoso diretor de vídeo clipes), Blunt chamou a atenção com seu excelente disco do ano passado, The Redeemer. Black Metal é diferente do antecessor, mas ainda bastante digno de nota, com uma pegada lo-fi e guitarreira que pode interessar especialmente aos fãs do indie rock dos anos 90. Embora musicalmente pouco tenha a ver com sub-gênero homônimo, a impressão que fica após ouvir o álbum é de que o senso de humor ali só poderia vir de alguém tão problemático e introspectivo quanto metaleiros nórdicos que queimam igrejas.

Link para o disco completo: http://bit.ly/1pDAlgy

18. Electric Wizard – Time to Die

Electric WizardSe você fizer uma pesquisa rápida sobre o Electric Wizard, as chances de encontrar alguma comparação com o Black Sabbath é imensa. Obviamente, não por acaso. A banda inglesa da década de 90 é expert em riffs lentos, mas poderosos e faz cada nota soar com um suspense que não desapontaria Alfred Hitchcock. O nome e a capa entregam que esse não é o melhor dos discos pra se ouvir em um dia ensolarado enquanto cantarola pelas ruas da sua cidade, mas é perfeito se você estiver no clima de imergir na escuridão que todo mundo carrega em si. Escute alto. Você vai achar bons motivos para sorrir.

Link para o disco completo: http://bit.ly/1pDIGko

17. Fumaça Preta – Fumaça Preta

Fumaça PretaExistem poucas chances de você já ter ouvido falar no Fumaça Preta, mas como eu sou completamente contra a baboseira hipster de guardar bandas para si, espero fazer o que estiver ao meu alcance para que no futuro isso seja um pouquinho menos realidade. É, com absoluta certeza, a banda mais brasileira criada por um luso-venezuelano que mora em Amsterdã. Pra completar a globalização, o disco homônimo ainda saiu pelo selo londrino Soundway Records. O cara em questão é Alex Figueira e, em uma época que a psicodelia voltou aos holofotes, um disco desse ser praticamente ignorado por aqui é uma pena, no mínimo. Os sons tropicalistas e os vocais em português deixam tudo ainda mais em casa. Uma das melhores descobertas desse ano.

Link para o disco completo:  http://bit.ly/1z6zSUf

16. Mirel Wagner – When the Cellar Children See The Light Of The Day

Mirel WagnerMirel Wagner é uma cantora nascida na Etiópia e criada Finlândia. A ligação íntima com dois lugares tão distintos só teria como resultar em um trabalho que é marcado por colisões. A bela e melódica voz, que honra a tradição das melhores cantoras do soul, ecoa sobre melodias cortantes e, muitas vezes, cruas. Não há como se enganar: a estrela aqui são as palavras. Lançado pela lendária Sub Pop, When The Cellar Children See The Light Of The Day é pra rasgar corações e de cara me chamou a atenção pela mistura que deságua numa doce, ácida e irresistível melancolia. Felizmente, aos 23 anos, Wagner está apenas começando.

Link para o disco completo: http://bit.ly/1z6DoxR

15. Mourn – Mourn

MournNão há muito pra dizer sobre a estreia do Mourn. É, simplesmente, um rock de garagem direto ao ponto. E isso é mais do que suficiente. Com 11 canções rápidas – apenas uma tem mais de 3 minutos – a clássica formação guitarra, baixo e bateria unida a bons riffs e vocais femininos em tons de cinza, fez com que o resultado tenha ficado marcado na minha memória. É mais um filho da, tantas vezes explorada, combinação entre punk e indie rock noventista. E, se você ainda gosta de rock, um dos bons.

Link para o disco completo: http://bit.ly/15NYatp

14. Sharon Van Etten – Are We There

Sharon Van Etten

 Sharon Van Etten parece ser daqueles artistas fadados a sempre estarem ali pela terceira ou quarta linha da escalação de um festival. E isso não é necessariamente ruim. Tendo lançado quatro bons discos em cinco anos, Are We There (Chegamos lá?, em tradução livresoa como um questionamento de Van Etten a si mesma. Talvez ela tenha se sentido suficientemente confiante pra fazer a pergunta porque, de fato, é seu melhor trabalho até aqui. Estabelecida como musicista e sem qualquer pressão para ir além de onde já chegou, ela pôde ousar mais e criar um álbum que é dilacerante e empolgante ao mesmo tempo, assim como meu estilo preferido de música. É dela, inclusive, a música que considero a melhor desse ano: Your Love Is Killing Me.  Se me é permitido responder ao questionamento de Sharon, eu diria que sim, ela chegou lá.

Link para o disco completo: http://bit.ly/1vUe22F

13. Angel Olsen – Burn Your Fire For no Witness

jag246.11183Sobre o disco da Angel Olsen, eu já tinha escrito por aqui e reproduzo: “Poucas coisas são mais democráticas que um coração partido. E talvez por isso seja o assunto preferido dos artistas ao longo dos tempos. A forma que cada um lida com a dor, porém, é o que diferencia um trabalho do outro. Em Burn Your Fire For No Witness, segundo disco de Olsen, a compositora viaja entre melodias suaves e versos melancólicos que despertam uma sensação de nostalgia a qualquer um que lhes prestar um pouco de atenção: todo mundo se identifica em algum nível com aquela sensação. Um disco denso que pode ser resumido no verso que abre a terceira música, Hi-Five: I feel so lonesome I could cry, uma clara referência à clássica canção de 1949 de Hank Willians. Mas não chore. Ao invés, escute esse belíssimo álbum. É uma das melhores coisas que eu ouvi nesse ano. E, provavelmente, você também.”

Link para o disco completo: http://bit.ly/1vUhASv

12. Sun Kil Moon – Benji

Sun Kil MoonMark Kozelek, o homem por trás do Sun Kil Moon (e do finado Red House Painters), é um idiota. Mal educado, arrogante e egocêntrico, apareceu esse ano menos pelo excelente disco que compôs e mais pela patética briga (quase totalmente ignorada pelo outro lado) com o War on Drugs. Eu já havia lido em publicações da Europa sobre o péssimo comportamento do compositor com público e produtores em turnês por lá e automaticamente tudo fez sentido. Sentido que sempre me falta ao comparar esse perfil de cidadão exemplar com a doçura e angústia que encharca cada verso de Benji. Com acordes e dedilhados no violão ele discursa sobre a vida e, principalmente, a morte com a autoridade de alguém que  parece frequentemente envolto pelos tentáculos gélidos do nosso ponto final nesse mundo. É um estilo de folk denso e pesado, que precisa de um tempo pra ser digerido, mas que vale a pena, mesmo com alguma dor de estômago. É preciso separar a pessoa do artista e Kozelek prova mais uma vez que os idiotas também podem ser geniais.

Link para o disco completo: http://bit.ly/1vUqJdU

11. Run The Jewels – Run The Jewels 2

Run The Jewels Pesado, moderno e cheio de energia. O segundo filho da parceria entre El-P e Killer Mike não só não decepciona como é ainda melhor que o disco de estreia. Não tem muito o que dizer, é simplesmente o melhor disco de hip-hop que eu ouvi esse ano. Eu o escutei tanto no período de Natal e ano novo que eu quase subi a posição dele nesse lista. Se é o tipo de som que você gosta, não perde tempo.

Link para o disco completo: http://bit.ly/1vUv5l5

10. Juçara Marçal – Encarnado

Juçara MarçalO primeiro disco nacional da lista. Juçara Marçal é companheira de Kiko Dinucci em projetos como Padê e o também excepcional Metá Metá. Na estreia solo da cantora, eles se juntaram ao saxofonista Thiago França pra lançar um dos mais potentes registros do ano e do cenário nacional nos últimos tempos. A voz mpbística de Juçara se junta às guitarras tortas de Dinucci fazendo o casamento perfeito entre MPB e MTB (Música Torta Brasileira).  Há sim lugar pra música experimental na conservadora MPB e é muito bom ver artistas explorando esse território. Ouça o disco, vá no show e mergulhe nessa mistura de distorção e grandiosidade vocal.

Link para o disco completo: http://bit.ly/1vUDPHY

9. Leonard Cohen – Popular Problems

Leonard CohenNão sei deixe enganar pela capa horrorosa de Popular Problems: Leonard Cohen continua sendo o maior ser humano vivo. Meu músico preferido de todos os tempos, seus três primeiros discos estão entre os melhores e mais importantes na minha vida. Com 80 anos completos, é difícil imaginar um artista que continua compondo em tão alto nível como é o caso de Old Ideas (2012) e do próprio Popular Problems. Cohen tinha se retirado da vida artística, mas teve todo o seu dinheiro surrupiado pela antiga empresária, fazendo com que ele deixasse o monastério em que vivia e voltasse aos palcos e estúdios. Com a sagacidade e sensibilidade do poeta que é, Cohen e sua voz marcante destilam versos cheios de emoção e ironia, em músicas marcadas por uma produção que poderia soar ultrapassada, mas casa perfeitamente com a lenda viva. Ele não deve gostar muito da sua ex-agente, mas nós só temos a agradecê-la.

Link para o disco completo: http://bit.ly/1vUJWfq 

8. Aphex Twin – Syro

FINAL MASTER SYRO DIGIPAK.inddMais de uma década após o seu último lançamento oficial, Richard D. James, ou Aphex Twin, continua provando que ainda é o melhor em fazer música eletrônica complexa pra um bando de gente estranha. O que é suficiente pra você saber onde está se metendo.

Link para o disco completo: http://bit.ly/1vUMeuY

7. ruído/mm – Rasura

Rasura

O meu disco nacional preferido de 2014. Lançado gratuitamente pelo selo brasileiro independente Sinewave, Rasura é como um exercício de respiração. Passeia entre o calmo e o violento de uma forma tão suave que se você, na correria do dia a dia, conseguir parar pra dar total atenção ao disco, vai se sentir como parte essencial dele. Com vocais quase inexistentes, chama a atenção a construção cuidadosa das melodias e o diálogo eloquente entre piano e guitarra em algumas faixas. No final da audição é quase impossível resistir a ouvi-lo novamente já na sequência. Não resista. O clichê aqui funciona: ouça de olhos fechados.

Link para o disco completo: http://bit.ly/1DtpaJS

6. Ty Segall – Manipulator

Ty Segall

Ty Segall é considerado por muitos um garoto prodígio. Com 27 anos de idade e sete álbuns lançados nos últimos oito, ele transborda algo que têm faltado em muitos discos de rock: energia. Mas como energia sozinha não significa nada, Manipulator é um disco sem maiores pretensões, cheio de bons riffs, guitarras garageiras e cozinha afiada. Feel deve ter sido a música que mais escutei em 2014. O rock definitivamente não precisa ser salvo e quantos mais artistas assim aparecerem, melhor.

Link para o disco completo: http://bit.ly/1DttlW4

5. Flying Lotus – You’re Dead!

Flying LotusO americano Flying Lotus já se consolidou como um dos maiores expoentes da música eletrônica nessa geração, mas aparentemente ainda tem muito combustível pra queimar. Em You’re Dead! a mistura de hip-hop, jazz, rock e música eletrônica se torna uma viagem cheia de desvios, saltos e quebras de ritmo. A parceria com o rapper Kendrick Lamar rendeu uma ótima faixa, mas a força do disco reside mesmo é no resultado da mistureba deliciosa de estilos. Um disco pra ouvir fora de casa e se descobrir fora de si.

Link para o disco completo: http://bit.ly/1DeUPS2

4. Ought – More Than Any Other Day

Ought

A Constellation Records, selo canadense, dificilmente erra. Casa de artistas como o Goodspeed You! Black Emperor, Matana Roberts e Silver Mt. Zion, foram os responsáveis por lançar o LP de estreia do Ought. Visceral, urgente, cheio de força, é um post-punk torto, com várias quebras de ritmo e repleto de interlúdios, como uma percussão que chama a atenção entre os instrumentos. A minha estreia favorita do ano e uma banda pra definitivamente se ficar de olho. Ainda lançaram outro bom EP em 2014.

Link para o disco completo: http://bit.ly/1DeWIy2

3. Swans – To Be Kind

Swans

Ser gentil é uma tarefa sempre complicada. Por isso, não poderia haver nome melhor para o sombrio, denso, carregado, soturno e por vezes melancólico disco do Swans. Uma obra-prima teatral que deu origem a um LP triplo com mais de 2 horas de duração, não é um álbum fácil de ser mastigado ou digerido. Demanda tempo, demanda atenção e demanda paciência, coisas que nem sempre são de fácil acesso no cotidiano. Na minha opinião, é ainda melhor que a também obra-prima The Seer, disco anterior da trupe comandada pro Michael Gira e vale cada segundo dispensado. Essencial.

Link para o disco completo: http://bit.ly/1DeWIy2

2. Thurston Moore – The Best Day

Thurston Moore

A dissolução do Sonic Youth ao menos nos brindou com três bons projetos: Kim Gordon e seu Body/Head, Lee Ranaldo e sua banda The Dust e a carreira solo de Thurston Moore. Esse último, ainda bastante afetado pelo fim do casamento de 27 com a ex-companheira de banda que teve direito a exposição pública, fez um disco em que se concentrou em uma única coisa: ter paz. Ele falou mais sobre isso e outros assuntos na entrevista que fiz com ele para o UOL (leia aqui) e que em breve devo colocar aqui no blog na íntegra.  Sobre o disco, basta dizer que poderia ser um disco do Sonic Youth com louvor. Medalha de prata.

Link para o disco completo: http://bit.ly/1Df9SuO

1. Grouper – Ruins

Grouper Qual a importância do silêncio pra música? O músico e teórico John Cage já defendia o seu fator decisivo na sua obra mais famosa, a extrema 4’33” (veja aqui). E é nas pausas e silêncios que as maiores mensagens são transmitidas em Ruins, disco do Grouper, projeto solo da musicista americana Liz Harris. Aqui ela abandona o violão de álbuns anteriores e se traz o piano e o silêncio como únicos aportes pra sua melancólica e doce voz. É um disco de contemplação e que urge calma. As melodias são delicadas e muitas vezes os vocais são sussurrados e de difícil compreensão, até para quem domina o inglês. Nem sempre é preciso falar alto pra gritar e às vezes uma pausa representa mais que qualquer palavra. É disco emocionalmente muito pesado e o mais belo trabalho que eu ouvi esse ano. Porque os dias chuvosos são os mais bonitos.

Link para o disco completo: http://bit.ly/1DfglpP

Abaixo, uma playlist da Deezer com uma faixa de cada um dos álbuns citados nessa lista, com exceção de Juçara Marçal e Ty Segall, não presentes no serviço. No caso de ambos, sugiro as faixas Ciranda do Aborto (ouça aqui) e Feel (ouça aqui).

Exclusivo: Escute e baixe EP solo de Francesca Belmonte, cantora do Tricky

Francesca Belmonte é uma cantora inglesa que apareceu no cenário internacional pelas colaborações com rapper e produtor Tricky, também inglês. Com uma voz ao mesmo tempo doce e forte, ela empenhou seus vocais no disco de 2013 do músico, chamado False Idols, e em janeiro lançará um álbum completo, marcando sua transição para a carreira solo.

Porém, antes do disco cheio, Belmonte liberou um EP exclusivo que você pode escutar no link abaixo ou baixar gratuitamente AQUI.

São três faixas cheios de batidas e elementos eletrônicos, incluindo  o single Stole e um cover de It Ain’t Me Babe de Bob Dylan. As faixas são minimalistas e destacam a voz de Belmonte, cantando sobre temas sombrios, como vulnerabilidade e sobrevivência.

Vale ficar de olho nela.

Se você gostou, pode acompanhar novidades pelos canais:

ENTREVISTA – Real Estate: “Provavelmente a música baseada em guitarras está morrendo”

No último ano o mundo foi pequeno para o Real Estate. Projetados pelo terceiro e elogiado disco, Atlas, a banda de New Jersey viajou e tocou em praticamente todos os festivais e centros mais importantes do globo. Oriundos da pequena cidade de Ridgewood, hoje eles aparecem com um dos maiores expoentes do rock alternativo americano e vivem no musicalmente efervescente Brooklyn de Nova York.

Atlas foi tão bem recebido em solo americano que chegou a ocupar a posição de número 34 nas paradas estadunidenses, um grande feito para uma banda independente de médio porte, cercada por todos os lados por oceanos de projetos milionários. Assim como na produção, não há nada de extravagante na música do grupo. Nas canções da banda, melodias sutis são tecidas sob vocais tranquilos, sempre guiadas por acordes ou riffs de guitarra. A sensação é a de deitar-se em uma rede e de repente não ser mais refém do tempo.

E é com esse poder em mãos que eles desembarcam essa semana em São Paulo (20/11) e Porto Alegre (21/11) – ambos os shows acontecerão no Beco 203 – para pela primeira vez se apresentarem nos palcos da América do Sul. Conversei por telefone com o vocalista Martin Courtney para a edição de novembro da versão brasileira da Revista Rolling Stone e a íntegra da conversa você confere abaixo.

Por que vocês escolheram o nome Atlas pro disco?

Eu acho que, lá atrás, quando estávamos acabando de montar as peças, nós tínhamos muitas músicas extras que acabaram não entrando no disco, mas as que acabamos mantendo, aleatoriamente, eu percebi que elas tinham coisas em comum, tinham a ver com certos lugares e nós temos viajado bastante. Desculpa, eu tô um pouco atordoado, acabei de acordar, fizemos um show até tarde ontem (risos). Mas basicamente tem a ver com um monte de coisas que estão no disco e como você se encontra em algum lugar do mundo. Muitas coisas no disco são sobre o futuro, como onde eu me vejo estando em 5 anos, 10 anos ou alguns meses e eu acho que quando eu olho pro disco é como se fosse um mapa, as músicas que eu escrevi me ajudam a descobrir onde eu quero terminar, como se fossem um guia pessoal pro futuro.

E você acha que Atlas é o seu melhor trabalho até hoje?

Eu acho. Como compositor, como a pessoa que escreveu a maioria das canções do disco, eu acho que são mais… acho que são canções bem trabalhadas e eu gastei bastante tempo nelas. À medida que você vai crescendo, e nós já temos essa banda há 6 anos, eu venho escrevendo músicas há mais tempo que isso, eu acho que se você fizer algo de novo e de novo você fica melhor nisso. Eu sinto que nós estamos melhores como banda, escrevendo músicas, arranjando ou mesmo tocando nossos instrumentos, sabe, eu era bem ruim como guitarrista quando nós começamos, eu ainda não sou muito bom, mas eu melhorei excursionando, tocando todo dia e tal… Então, sim, eu realmente penso que é melhor que nossos discos anteriores.

Nos seus trabalhos anteriores muitas músicas falavam do passado ou soavam nostálgicas, enquanto em Atlas o foco é o presente e o futuro. Por que essa mudança?

Eu meio que queria fazer isso como um desafio pra mim mesmo porque eu acho fácil escrever sobre o passado. Escrever as letras é a parte mais complicada do processo, eu não quero que elas sejam ruins (risos), então vai bastante pensamento e esforço. Então, basicamente, é muito trabalhoso pra mim escrever as letras, ou pelos menos aquelas que com as quais eu fico satisfeito. Muita gente diz que as músicas que eu escrevi anteriormente eram sobre o passado, olhar pra trás, nostalgicamente ou não…

E eu sei que você se casou recentemente, certo?

Sim, exatamente, então eu decidi que eu ia tentar não fazer isso dessa forma, ia explorar algo novo pra banda e também veio meio que naturalmente, houve muitas mudanças, coisas grandes estão acontecendo agora na minha vida pessoal, então também aconteceu naturalmente.

Você teve algum tipo de inspiração especial pra compor o disco?

Eu compus grande parte das músicas no meu apartamento, as guitarras e tal, e fomos aperfeiçoando quando estávamos no Brooklyn, gravando demos. Eu escrevi grande parte das letras enquanto eu estava caminhando pela cidade ou meu bairro no Brooklyn, estava meio que me forçando a sair e fazer longas caminhadas e então eu ficava tocando a música na minha cabeça e começava a escrever. O lugar que eu provavelmente mais escrevi era esse parque em Greenpoint, eu me sentava muito lá, tinha esse caderninho, ficava lá só olhando o céu. Então não foi uma inspiração direta, mas certamente influenciou no fim.

Alguns dizem que suas músicas e discos soam todos iguais, o que você pensa disso? Te incomoda?

Não me incomoda, mas me faz pensar… porque especialmente na produção, são discos muito diferentes. O primeiro foi feito em casa e o segundo nós fizemos em estúdios muito diferentes. Acho que especialmente o terceiro disco foi o mais afiado em termos de produção, nós tínhamos bastante consciência do que queríamos, mas sabe, nós definitivamente somos uma banda, temos um som e um estilo e eu acho que funciona pra nós. Nós somos uma banda baseada em guitarras e nós temos um certo som pra nossas guitarras e se as pessoas não gostam do jeito como nós soamos, provavelmente não vão gostar da maior parte das nossas músicas porque, não estou dizendo que tem uma fórmula, porque não tem, mas… Sabe, eu acho que eu só posso discordar disso (risos). Eu penso que cada canção é muito diferente, sabe? Eu acho que existe sutileza na nossa música, especialmente no último álbum. Eu sinto que cada álbum fica mais e mais sutil e se você não vai passar tempo com eles pode não se perceber o que estamos fazendo, então é uma pena pra essa pessoa, eu acho.

Você acha que música baseada em guitarras está morrendo?

Não sei, definitivamente é o menos popular que já foi desde os anos 50 ou 40, quando o rock’n’roll se tornou notável, mas eu não sei… sim, eu acho que provavelmente a música baseada em guitarras está morrendo, em 20 anos será completamente antiquado, mas eu não posso afirmar com certeza. Eu realmente amo guitarras e toda a músicas que fazemos.

Eu acho que nós vamos sempre ter alguns garotos tocando, só não vai ser mais tão popular…

Eu acho que existem maneiras de fazer isso e fazer com que soe novo. Nós como banda gostamos de escutar muita coisa antiga…

Tipo o que?

Tipo rock clássico ou indie rock dos anos 80 e 90, coisas como essa, até Krautrock, música alemã dos anos 70, mas eu sinto que as nossas melodias são, esperançosamente, novas. Eu acho que se você for só reproduzir todo esse rock já feito, talvez não tenha espaço pra você, mas se você tentar achar um jeito de fazer isso de uma forma nova, então, eu não me sinto preso, há pra onde crescer. Então pode estar morrendo com relação à popularidade, as pessoas podem estar menos interessada em músicas com guitarras do que costumavam, mas eu não acho que é nada menos vital do que já foi, porque ainda existem pessoas interessadas em fazer isso. Eu acho que é um jeito muito bom de sintetizar ideias diferentes. Existe muito o que você pode fazer com duas guitarras, baixo, bateria e teclado, tem muito o que você pode fazer com isso. Pra nós, eu gosto do fato que tudo que a gente faz em estúdio, nós podemos fazer ao vivo, nós não usamos nenhum sequenciador ou computador ou nada que não possamos reproduzir no palco, pra mim isso é uma coisa boa.

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Qual a sua opinião sobre a música pop que atualmente domina as paradas?

Eu não sei muito sobre isso, eu acho (risos). Eu conheço o que eu escuto por aí. Existem músicas boas e ruins, eu posso me interessar por algumas delas. Eu nem sei quem são, mas se eu escutar e gostar de algo eu não vou negar isso, mas tem muito lixo, claro. Mas é sempre assim, música pop é sempre uma mistura, há sempre coisas horrendas e pavorosas e há sempre coisas no limite, como Madonna, sabe? Músicas que são realmente muito, muito boas e de alguma maneira conseguem emplacar em um Top 40 e tal, então, eu realmente não posso apontar nada nesse momento que seja muito bom, mas tenho certeza que existe (risos). Eu só não escuto muito rádio, então não sei.

O vinil começa a se tornar popular novamente. O que você pensa sobre isso? Você gosta do som do vinil, você ainda compra?

Sim, eu compro discos, definitivamente. Eu acho legal que as pessoas estejam se interessando mais pelos discos agora, sabe, eu gosto de discos faz tempo, muito antes de começar essa banda. Eu com certeza acho que eles soam bem, mas eu não sou um grande audiófilo, então eu não consigo perceber muito a diferença nisso. Eu sei que soa muito bem e eu gosto da ideia de pegar o disco, é mais sobre a experiência tátil, ir até a prateleira, escolher um disco, ficar olhando pros detalhes da arte, fazer disso um ritual, que é diferente de você pegar algo e colocar no seu telefone. Eu gosto disso também, mas discos são diferentes, você está sentado na sua sala, tem todo o processo, uma coisa diferente. Mas eu estou especialmente alegre que as pessoas estão comprando vinil agora porque nós podemos fazer discos, sabe, como uma banda, e sabe, é muito divertido montar tudo, escolher a arte e ir decidindo o que vai dentro, como vai se parecer e tal eu sinto que, se nós estivéssemos fazendo isso há 10 ou 15 anos atrás, não seria possível pra gente porque seria menos popular.

 Você tem alguma colaboração dos sonhos? Algum artista que você realmente queira trabalhar junto…

Tem muitos, mas nós meio que já fizemos um. A banda The Feelies, nós sempre fomos muitos fãs deles e alguns anos atrás nós os conhecemos e nos tornamos amigos deles e pudemos tocar alguns shows com eles. Até tocamos com Glenn Mercer, o vocalista deles, algumas músicas. Eu consegui me juntar a eles no palco, também e fizemos covers de Television e Beatles e foi sensacional. Eu sinto que conseguimos colaborar com as pessoas que admiramos, nós conhecemos o Yo La Tengo, que é uma das minhas bandas preferidas e eu toquei uma música com eles no palco, então, sim, foi legal. Eu acho que como banda nós adoraríamos andar com o Neil Young e trabalhar juntos, isso seria demais (risos). Tem bastante gente que admiramos.

O que está esperando dos shows do Brasil?

Eu to muito, muito animado. Eu nunca estive na América do Sul, no Brasil, eu mal posso esperar.

Você conhece música brasileira?

Sim, um pouco. Não muito. Mas eu gosto muito da ideia do Brasil, sabe? Eu assisti alguns filmes que se passam aí tipo Orfeu Negro (1959, do diretor Marcel Camus)… Eu não sei, eu estou muito animado pra ir a praia, mal posso esperar.

ENTREVISTA: Labirinto – “Infelizmente não podemos dizer que existam muitas bandas de post rock no Brasil”

O post-rock não é um gênero musical para que tem pressa. Com paciência, as músicas costumam ser longas e construídas aos poucos, camada sobre camada, incrustadas sob distorções e pedais e que progressivamente passam da calmaria à raiva em instantes. É um estilo de catarse e na maioria do tempo, instrumental. Não é nenhuma surpresa, então, que não figure em paradas de sucesso ou  toque em rádios FM. Contudo, cada vez mais angaria fãs pelo mundo. Bandas como Mogwai, Sigur Rós, Godspeed You! Black Emperor e Explosions in the Sky são exemplos de grupos de post-rock que conquistaram espaço no cenário mundial, viajando o planeta, tocando em grandes festivais e chamando a atenção da imprensa.

No Brasil, a cena do estilo também vem ganhando espaço. Selos como a Sinewave e a Dissenso ajudam na propagação de artistas nacionais e estrangeiros por aqui e bandas longevas como a Herod – abertura dos últimos shows do The Cure em SP e RJ – e a Labirinto – turnês na Europa, Estados Unidos e Canadá – mostram que a crescente onda de  post-rock não é efêmera.

A Labirinto, por exemplo, está prestes a completar dez anos de existência. E está, até aqui, no seu auge artístico. No próximo sábado, os setes membros da banda subirão ao palco do Via Marquês em São Paulo para se apresentar no Overload Music Fest ao lado de nomes conhecidos como Alcest e God Is An Astronaut. O festival é, também, mais uma prova de que cada vez mais o país abraça o gênero. Mas ainda há bastante coisa a se fazer.

E sobre isso conversei com Erick Cruxen – Labirinto e Dissenso -, falando da banda, do selo, do festival e do post-rock no Brasil na entrevista que você pode ler abaixo:

Vocês já tocaram algumas vezes no exterior. Quais as principais diferenças entre tocar lá fora e aqui no Brasil?

As principais diferenças que vemos são relacionadas à infra estrutura que as casas de shows e produtores oferecem às bandas e ao público. Quase todos os lugares que tocamos (Europa, USA e Canadá) contamos com uma excelente qualidade de som e grande receptividade. No Brasil, ainda existe um pensamento (em sua maioria) de que os espaços de shows fazem “um favor” aos artistas, ao deixarem se apresentar em suas dependências. Não se preocupam, adequadamente, com as necessidades das bandas e dos ouvintes. Quanto ao público, a atenção que recebemos é muito parecida entre aqui e o exterior.

O post-rock ainda é um estilo pouco conhecido por aqui, mas eu acho que isso vem mudando. Vocês concordam? Por que vocês acham que o estilo vem ganhando mais fãs? Vocês recentemente participaram do festival Música Muda no SESC, como foi isso?

Certamente mudou bastante desde que criamos o Labirinto há quase 10. Não somente em relação ao post rock, mas também à música instrumental e/ou experimental. O estranhamento diminuiu, e o tipo de som tornou-se mais acessível. Tal processo se intensificou, principalmente, devido à internet, que possibilitou o maior contato das pessoas com bandas, selos e festivais gringos de post rock/metal. No Brasil surgiram mais bandas com referências no estilo.

O festival foi muito significativo para esse processo de “naturalização” do rock instrumental. Bandas de quatro países, com diversas formas de produzir música sem vocal, se apresentaram, despertando o interesse do público, que lotou o SESC Pompeia, quase todos os dias.

Grandes bandas estrangeiras de post-rock como Mogwai e Sigur Rós influenciam o trabalho de vocês, servem como inspiração?

Desde que começamos com o Labirinto, possuímos diversas referências que vão além do Post Rock. Música progressiva, erudita, minimalista, eletrônica, metal; ouvimos muitas coisas, entre elas, as bandas de post rock/metal, como as citadas.

Vocês tem um selo e um estúdio, além da banda. Como isso funciona pra vocês? Vocês conseguem se sustentar apenas com atividades relacionadas à música?

Além do Labirinto, e de outros projetos musicais que possuímos, todos possuem trabalhos remunerados e convencionais, fora da banda. Eu e a Muriel trabalhamos no selo Dissenso Records, e no Dissenso Studio, onde conseguimos viver indiretamente de música. As atividades extra-banda ocupam grande parte de nosso tempo, mas ainda assim, como todos os integrantes do Labirinto, conseguimos organizar nossas agendas para podermos nos dedicar a todas as atividades.

Vocês vão tocar no próximo sábado no Overload Music Fest junto a bandas como o Alcest e o God Is An Astronaut. Vocês acham que o país tem demanda para abrigar mais festivais desse tipo? Qual a expectativa pro show?

Certamente, hoje existe um público ávido por esse tipo de festival, por tais estilos musicais. O Overload Music Fest será um marco nesse sentido, com bandas emblemáticas. Esperamos que seja o primeiro de muitos há ocorrer no Brasil!

Vocês recentemente lançaram um clipe de 25 minutos. Como está a agenda de lançamentos da banda, algum plano pra esse ano e pro próximo?

Lançamos um vídeo recentemente, com 3 músicas ao vivo, Masao (2014) e mais duas músicas inéditas (Avernus e Alamut) . Nossa intenção era mostrar como o Labirinto é ao vivo; muitas pessoas não conseguem ir às nossas apresentações devido a distância, ou mesmo, pela pouca frequência de shows que fazemos por ano.

Estamos trabalhando em nosso próximo disco “full” que será lançado no segundo semestre de 2015, organizando as próximas turnês para o exterior no ano que vem, além de shows, ainda esse ano, em outros estados como Rio de Janeiro e Belo Horizonte. Em breve, anunciaremos algumas novidades no site. (http://labirinto.mus.br/site/).

Quais são as melhores bandas de post-rock do Brasil pra vocês hoje – tirando a Labirinto, obviamente?

Infelizmente, não podemos dizer que existam muitas bandas de post rock em terras brasileiras, gostaríamos que houvesse mais projetos que conseguissem desenvolver uma identidade própria, nesse estilo, através de sua música. Mas, podemos mencionar bandas que não são estritamente de post rock; algumas mais pesadas, mesclando o post metal, outras mais shoegaze, outras mais trip hop…. Enfim, gostamos bastante dos curitibanos do Black Sea e do Ruido/mm, que está lançando disco novo em alguns dias; o Orchestre Noir e os sons experimentais e abstratos do National e do Muep Etmo. Tem também o Leaving the Planet e o Tesla Orquestra do nordeste. O Infraaudio e o Loveless em São Paulo. São somente alguns nomes que nos vieram à mente agora, tem muita gente boa fazendo música no Brasil, não necessariamente dentro do rótulo de post rock.

Por que fazer música instrumental?

Sempre nos interessamos por fazer música instrumental, foi um processo natural no Labirinto. Muitas vezes, utilizamos as vozes como mais um instrumento, processando-as com efeitos, através de sintetizadores e pedais. Buscamos engendrar diversas sonoridades, timbres e texturas, onde não exista um instrumento preponderante, como pode acontecer nas composições com a presença da voz.

Você pode ouvir e baixar gratuitamente quase toda a discografia da banda no site oficial: http://labirinto.mus.br/site/

Primavera Sound 2014 em Barcelona: um festival que você precisa conhecer

“Um dia nós vamos morrer e nossas cinzas vão voar de um avião sobre o oceano. Mas agora nós somos jovens”. A noite, que resiste tanto a chegar por esses lados, finalmente havia possuído Barcelona por completo quando um envelhecido Jeff Mangum entoou os versos diante de uma multidão que se apertava para vê-lo junto ao seu Neutral Milk Hotel. Ao lado, o vento gelado vinha diretamente do mar, ali a poucos metros de distância, tornando as palavras de Mangum ainda mais doloridas, tocantes e pertinentes. E como numa fração de segundo daquelas que de repente muda tudo, eu tinha toda a consciência do mundo de que naquele momento eu pertencia exatamente ao lugar onde eu estava: o Primavera Sound.

O Neutral Milk Hotel havia sido a primeira banda a ser confirmada para o festival, ainda na cerimônia de encerramento da edição anterior. O show deles foi apenas um entre os quase 350 que aconteceram na programação no Parc Del Fórum e outros pontos da cidade. Do indie de arena do Arcade Fire ao black metal do Deafheaven, da psicodelia do Midlake ao pop ensolarado do !!!, era impossível passar o olho pela programação e automaticamente não desejar ver um punhado dos artistas ali listados. Para quem gosta de música alternativa atual, arrisco dizer que a curadoria do Primavera Sound é, hoje, a melhor do mundo e um dos pontos mais fortes do festival ao lado da localização, em um lugar paradisíaco cercado pelo Mar Mediterrâneo. O público, segundo a organização, foi de 190 mil pessoas das mais diferenciadas nacionalidades e o clima em todos os dias foi de tranquilidade e cordialidade. Foi o primeiro evento do tipo a que compareci fora do Brasil e posso dizer com toda a certeza que não me arrependi da escolha.

Cheguei a Barcelona na quarta-feira à noite, depois de uma longa viagem que passou por Buenos Aires e Madrid, enquanto aconteciam apresentações abertas de artistas como os britânicos do Temples e a californiana Sky Ferreira. Aliás, esse é outro ponto interessante do Primavera: a conexão com a cidade e seus habitantes. Mesmo com os ingressos longe de serem baratos (a entrada para os três dias saía por 195 euros no último lote), vários shows gratuitos foram realizados durante a semana, trazendo a atenção e o apoio dos locais ao invés de se fechar apenas ao público pagante. Contudo, devido ao cansaço, achei melhor abrir da programação do dia para descansar e aproveitar o melhor o que viria na quinta-feira.

O acesso ao festival pelo metrô de Barcelona é bastante fácil e o trajeto entre lugar onde eu estava hospedado com minha namorada e o Parc Del Fórum, que fica a 150 metros da estação, foi rápido e sem transtornos. Nesse primeiro dia de festival fechado, a entrada foi lenta e um pouco confusa, devido ao grande número de pessoas e o fato de que todos deveriam trocar os ingressos por uma pulseira de acesso que serviria para os demais dias e um cartão, utilizado para acompanhar a programação nos clubes no centro de Barcelona. Porém, nada que tomasse muito tempo ou arruinasse a experiência que mal havia começado.

Quinta-feira – O primeiro encontro. Com Real Estate, Midlake, Warpaint, Neutral Milk Hotel e Arcade Fire

Logo na entrada, em uma barraca do selo londrino Rough Trade, era possível comprar camisetas de bandas e do festival (de 15 a 25 euros), vinis e CDs (de 10 a 35 euros), mochilas com a marca do Primavera (35 euros) e uma infinidade de outros badulaques de boa serventia a quem quisesse levar um pedacinho daquilo tudo pra casa. Em volta da lojinha da Rough Trade outros stands também vendiam camisetas, discos de bandas obscuras, fones de ouvido, pôsteres, etc. A publicidade existia em bastante quantidade, mas não chegava a incomodar pois, geralmente, vinha contextualizada na forma de um palco, de uma atração ou sinalizando um lugar para alimentação.

Já passava das seis da tarde, então, quando nos encaminhamos para conferir o show do hypado Real Estate em um dos palcos principais, debaixo de um forte sol que, a mim, marinheiro de primeira viagem na Europa, causou forte estranhamento pelo horário. Como eu entrego no parágrafo que abre esse texto, a noite só cairia muito depois.

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Real Estate (Foto por Clarissa Wolff/ Catárticos)

Os americanos fizeram um set baseado no seu mais recentemente lançamento, Atlas (2014), à frente de um público bastante grande para o horário. Eu preciso confessar que essa é uma banda com a qual eu não consigo me empolgar muito. Escutei Atlas por diversas vezes e, mesmo sendo um disco muito longe do ruim, não caiu nas minhas graças. É um rock alternativo cheio de influências dos anos 90, com timbres limpinhos e bons riffs de guitarra. No palco, o show se resume à uma reprodução bem feita das gravações de estúdio e está aí o ponto chave: se você gosta das músicas, vai gostar do que for ver e ouvir.

Aqui vale ressaltar que no Primavera havia um esquema interessante nos palcos principais: eles ficavam um de frente para o outro e se alternavam entre o fim de uma atração e começo de outra, com intervalos de 10 a 20 minutos, de forma que quase sempre haveria alguém tocando pela região e era bastante rápido chegar a outro show.

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Midlake (Foto por Clarissa Wolff/ Catárticos)

E o show seguinte seria do Midlake, grupo que lançou um dos meus discos preferidos do ano passado, Antiphon (2013), no outro palco principal. Quando chegamos, ainda havia um público tímido esperando pelo início dos trabalhos, mas à medida que a banda tocava os primeiros acordes, mais e mais pessoas foram chegando nas proximidades. Sorte a delas. Esse era um dos shows que eu mais queria ver e não me decepcionou nem um pouco. Antiphon foi o resultado do trabalho de uma banda que havia acabado de passar por uma grande turbulência que culminou com a saída do seu vocalista e principal compositor, Tim Smith. Eles tiveram que começar tudo do zero e o disco, mesmo assim, é fantástico, principalmente na sua primeira metade e uma excelente pedida pra quem é fã de boas melodias psicodélicas. No palco, seis músicos compunham uma formação com violão, guitarra, bateria, baixo e dois teclados/sintetizadores, o que pode parecer um exagero, mas fazia toda a diferença para recriar as atmosferas e texturas de estúdio. O perfeito som do palco ajudava a fazer com que a combinação dos instrumentos funcionasse como um macio tapete melódico, pronto para abrigar a voz do agora vocalista principal Eric Pulido, que se alternava com a barulheira distorcida vinda da única e solitária guitarra. Sensacional. Os texanos precisam apresentar esse show no Brasil e, se o fizerem, você não deve perdê-lo. Deve, inclusive, ser melhor ainda em um espaço fechado e sem ruídos que não sejam os emanados pelos integrantes, o que obviamente é impossível em um grande festival. Agora sim eu sentia que o Primavera Sound havia, de fato, começado.

A próxima parada era para conferir o novo show das meninas do Warpaint, baseado no disco homônimo lançado esse ano. É um disco de post-punk interessante, apesar de não trazer nada excepcional. Em ação, as quatro integrantes se mostraram musicistas competentes. Com seus cabelos coloridos e sem se esforçar pra manter uma suposta pose cool, por vezes elas deixaram escapar sorrisos e lá pelas tantas algumas delas começaram a se livrar dos casacos que vestiam, acompanhando a subida de temperatura da plateia, que cada vez se animava mais. O sol se punha lentamente ao redor do Mar Mediterrâneo, o que ajudava a compor um cenário digno da beleza de Barcelona, mas um pouco superior ao só legal show que acontecia ali. Em comparação com outra banda com influências post-punk formada apenas por mulheres, o Savages – que se apresentou no último Lollapalooza Brasil -, elas saem bastante em desvantagem. O que não quer dizer que sejam ruins. Tocar ainda entre o Midlake e o Neutral Milk Hotel tornava a tarefa de ser relevante ainda mais árdua, ao ponto de que esse não será exatamente o show que eu irei mais me lembrar daqui a algum tempo.

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Agora era correr para o palco ATP pra pegar o início da apresentação do Neutral Milk Hotel, banda cult dos anos 90 que, depois de anos, se reuniu para uma concorrida turnê. Aqui eu preciso avisar que se você pretende algum dia ir ao Primavera Sound, você tem que estar ciente de que irá andar MUITO. São muitas bandas, muitos palcos e a maioria deles fica bastante longe uns dos outros, ao ponto que as caminhadas do último Lollapalooza Brasil, que causaram certo descontentamento em alguns, são só uma espécie de treino se comparado ao festival espanhol. Mas ainda era o primeiro dia e esse show valia todo o esforço.

Muita gente já aguardava a apresentação e conseguir um lugar no apertado espaço foi tarefa difícil, mas bem recompensada quando a banda apareceu e performou as três partes de King of Carrot Flowers apoiada em um coral uníssono dos presentes. É impossível ter escutado o disco clássico do Neutral Milk Hotel, In the Aeroplane Over the Sea (1998), e não se lembrar do prolongado verso “I love you Jesus Christ” que abre uma das partes de King of Carrot… Eu, que estou longe de ser praticante de alguma religião, não pude evitar em ficar arrepiado. O que se sucedeu depois disso foi um desfile de músicas coerente com o espírito da banda, alternando entre a alegria esquizofrênica e a melancolia doce, que atingiu o seu ápice na cena que eu descrevi no primeiro parágrafo desse texto. Fantástico. Outro show que tem que passar pelo Brasil. E logo.

Neutral Milk Hotel (Foto por Clarissa Wolff/ Catárticos)
Neutral Milk Hotel (Foto por Clarissa Wolff/ Catárticos)

O cansaço já batia forte, mas ainda havia um último show que queríamos conferir no primeiro dia. E enquanto era possível escutar o Queens of the Stone Age no palco ao fundo, fazendo a apresentação que eles trarão ao Brasil no segundo semestre, uma multidão já esperava os canadenses do Arcade Fire. E foi uma multidão, mesmo. Provavelmente o show com o maior público do festival, algumas pessoas com quem conversei posteriormente reclamaram de não ter conseguido ver ou ouvir bem o palco. Esse foi um problema com algum dos shows mais concorridos do festival e é algo que precisa ser repensado pela organização. Eu, por exemplo, não consegui ver o palco no show do Mogwai no último dia, mas para o Arcade Fire, acabei pegando uma boa posição. E o grupo fez basicamente o mesmo show do Lollapalooza Brasil, com apenas algumas adições ao repertório – eles tocaram todas as músicas do show paulista mais “Rococo”, “Keep the Car Running”, “Joan of Arc” e “We Exist”. Entretanto, a animação do público espanhol não chegou nem perto da brasileira. No palco, os integrantes pareciam animados, mas cansados e nada muito especial aconteceu. No fim, foi ótimo, mas sem o tom de novidade do Lolla. Irei ver o Arcade Fire ainda mais uma vez nessa turnê, em Paris, na semana seguinte ao Primavera para saber como eles se comportarão em um show solo e fora de festival.

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Arcade Fire (Foto por Clarissa Wolff/ Catárticos)

Achamos que era a hora de voltar para casa, mas a saída foi um pouco turbulenta nesse primeiro dia. O metrô havia parado à meia-noite (o show do Arcade Fire acabou por volta das duas da manhã) e só reabriria às 05h, as filas para ônibus eram lentas e quilométricas e os taxis eram pouquíssimos e ridiculamente concorridos. Depois de quase duas horas esperando e um bocado de esforço, conseguimos pegar um e nos recompor, na medida do possível, para o que viria no próximo dia. E que dia.

Sexta-feira – O Dia D. Com Slowdive, The National e Jesu

Quem me acompanha pelo Twitter ou pelo meu Facebook pessoal, certamente sabe que The National é uma das minhas bandas preferidas. Talvez A preferida. E o único show a que tinha assistido deles, em 2011 em São Paulo, sempre será lembrado como um dos mais especiais da minha vida. Por isso quando eles foram confirmados como atração principal do Primavera Sound, ao qual já planejávamos ir antes, foi o sinal definitivo para selarmos a viagem.

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(Foto por Clarissa Wolff/ Catárticos)

E o tempo em Barcelona já não era mais tão ensolarado no dia anterior, quando uma forte chuva começou a cair pela cidade. A galera se protegia como dava e nós tivemos que sair correndo para chegar até a área coberta da praça de alimentação. O público era bem menor que na quinta-feira, um pouco pela tempestade, um pouco pelas atrações não serem tão populares, o que fez com que ao chegarmos no palco onde The National e Slowdive se apresentariam, uma hora e meia antes do show dos britânicos, conseguíssemos sem problemas ficar no lugar mais central da grade. No palco oposto, as irmãs do HAIM faziam seu o show sem incomodar ou chamar a atenção de ninguém que estivesse por ali. Tanto que quase nem me lembrei de citá-las no texto.

A reunião do Slowdive corria como rumor já há um bom tempo, mas quando ela se confirmou, não houve um site sério de música que tenha deixado de pelo menos citar o fato. É interessante notar que o Slowdive nunca foi e nunca vai ser um sucesso massivo de público, mas como aconteceu com várias bandas dos anos 80 e 90 que terminaram, voltaram com a pecha de headliners. Mas quem se importa com isso quando a banda é tão boa em disco? Restava saber se ao vivo eles corresponderiam ou era apenas mais uma saudosista turnê caça-níqueis. Digo a vocês, então, que se a turnê de reunião do Slowdive foi feita pelo dinheiro, eles merecem cada centavo que ganharam. O que eu e mais 25 mil pessoas presenciamos ali na nossa frente, no palco Sony, foi uma banda inteira, intensa e com um repertório invejável. Bons músicos e, sobretudo, bons artistas, que conseguiram tornar pequenos clássicos ainda mais poderosos ali. Melodias lindas cravadas em distorções pesadas e asfixiantes capazes de fazer qualquer fã de boa música se encantar. Ouvir minha música preferida deles, “Machine Gun”, algo tão improvável há algum tempo, foi, no mínimo, libertador. A essa altura a chuva já tinha ido embora há tempos, mas o som das guitarras da banda corria como água pelo corpo dos que estavam ali a ponto de ser uma tarefa hercúlea tentar não fechar os olhos e balançar a cabeça no ritmo do som, entregue. Quando a banda avisou que teria que cortar uma música do repertório devido ao tempo – que provavelmente acabou sendo a mais famosa, “Alison” – alguém gritou da plateia o que todo mundo parecia sentir: “FUCK THE PIXIES!” (próxima banda a tocar no palco oposto). Mas não teve jeito, tivemos que nos contentar com “apenas” mais uma música, um cover de uma faixa solo do primeiro líder do Pink Floyd, Syd Barrett, executado numa versão totalmente slowdiviana. De todos os shows que eu já pedi no Brasil nesse texto até agora, esse é o que urge mais acontecer. Alguém, por favor, traga a banda para o nosso país. Se isso se confirmar, com certeza estarei lá novamente. Tinha sido o melhor show do festival até o momento. Disparado. Mas aí veio o The National.

Matt Berninger, The National (Foto por Clarissa Wolff/ Catárticos)
Matt Berninger, The National (Foto por Clarissa Wolff/ Catárticos)

Música é algo subjetivo, pra quem faz ou pra quem ouve, e como qualquer outra manifestação artística, depende tanto de qualidade interpretativa e técnica, como de bagagem emocional e sentimento de pertencimento. Não raro, músicas populares podem emocionar muito mais intensamente que sinfonias clássicas.

Poucas coisas me emocionam mais do que o The National. Posso dizer, com certeza, que eles são uma das grandes razões de eu estar aqui hoje, falando e querendo conhecer cada vez mais sobre música. O impacto pessoal do show deles a que assisti em 2011 foi tão grande que é difícil imaginar como seria minha vida hoje se ele não tivesse acontecido. Por isso, quando eles finalmente entraram no palco e tocaram as primeiras notas de “Don’t Swallow the Cap”, do recente “Trouble Will Find Me” – do qual nem gosto tanto -, eu sabia que algo muito especial estava por vir. E veio. A emoção de você assistir a sua banda preferida no palco é indescritível, quem já passou por isso sabe. E daí pouco importa se a crítica a acha a mais importante, relevante ou o diabo que o valha. Ali, aquela é a melhor banda do mundo. A melhor banda do seu mundo. E isso é mais que suficiente. Pelas quase duas horas em que eles estiveram no palco, ver a loucura intensa e prestes a transbordar de Matt Berninger, as personalidades diferentes dos irmãos gêmeos Bryce e Aaron Dessner e a precisão cirúrgica dos irmãos Devendorf se converterem em música, me lembraram de quem eu era e de que tudo sempre valeu a pena. O poder da música é o poder da vida. E mais uma vez, aquele foi o show da minha vida.

Já tinha sido o melhor dia de música que eu havia tido a chance de presenciar, mas ainda dava para curtir o show do Jesu, que começaria no palco da Vice em uma meia hora. Fomos pra lá e o ar gélido vindo do mar não hesitava em castigar os brasileiros mal vestidos pro frio europeu. O clima, entretanto, era perfeito para o shoegaze obscuro e atmosférico da banda. Em formato de duo, com um baixo e uma guitarra sob bases pré-gravadas, eles tocavam ao passo que imagens macabras em preto e branco iam rolando no telão ao fundo. De dar um frio na espinha. Gostaria de ter visto até o final, mas a fome, o cansaço e o frio fizeram com que tivéssemos que sair antes do término. Agora faltava um dia.

The National (Foto por Clarissa Wolff/ Catárticos)
The National (Foto por Clarissa Wolff/ Catárticos)

Sábado – Adéu, Barcelona! Com Teho Teardo & Blixa Bargeld, Caetano Veloso, Goodspeed You! Black Emperor, Kendrick Lamar, Cloud Nothings e Mogwai

Nesse momento eu já estava completamente apaixonado por Barcelona. Cidade de arquitetura linda, banhada pelo Mar Mediterrâneo e de povo tão simpático e cordial, virou uma piada entre eu e minha namorada virarmos um para o outro em momentos completamente aleatórios e suspirar “I love Barcelona”. Fomos muito felizes quando escolhemos esse pra ser o destino da nossa primeira viagem ao exterior. E era ali o momento de nos despedirmos, pronto para seguir para Paris. E que jeito melhor de se despedir do que com boa música?

Por isso, por volta das sete horas, com o sol brilhando no céu e todo mundo já com cara de cansaço, segui para o Auditório Rockdelux para acompanhar sentado a parceria ítalo-germânica de Teho Teardo & Blixa Bargeld. Teardo é um conhecido compositor italiano de trilhas sonoras e membro fundador da banda noventista Meathead. Bargeld é o líder da seminal banda alemã Einstürzende Neubauten e que já trabalhou com gente do calibre de Nick Cave. Se juntaram ano passado para lançar o ótimo disco Still Smiling (2014), que acabou até na minha lista de 20 melhores do ano. A apresentação era feita com Teardo no baixo, enquanto Bargeld deixava ecoar sua voz grave e angustiante, apoiados por instrumentos de orquestra, como violinos e violoncelos. Foi sombrio e lindo.

Vista do palco onde se apresentava Caetano Veloso (Foto por Clarissa Wolff/ Catárticos)
Vista do palco onde se apresentava Caetano Veloso (Foto por Clarissa Wolff/ Catárticos)

Era a vez, então, de conferir o show do Goodspeed You! Black Emperor, um dos que eu mais queria ver em todo o festival, no palco ATP. Mas como ainda faltava um bom tempo para o início do show, ficamos assistindo à apresentação de Caetano Veloso no palco da marca de óculos. E como estava cheio! E ver aquele monte de gente tentando acompanhar um brasileiro cantando em português em um palco encravado no meio de um cenário paradisíaco, de repente, me despertou uma pontinha de saudades de casa. Que estariam fazendo minha família e meus amigos naquele momento enquanto a milhares de quilômetros de distância eu ouvia o Caetano cantar que o lugar mais frio do Rio era o quarto dele? Mas longe de estar triste, eu estava muito, muito feliz e aparentemente Veloso e sua banda Cê também. Pareciam animados e soando rock’n’roll até nos maiores sambas. Os gringos adoraram.

Já no palco ATP, um som grave e contínuo deixava no ar que logo o Godspeed You! Black Emperor entraria. Esse ano os canadenses completam 20 anos de grupo e mesmo sem serem conhecidos do grande público, já tem um lugar cativo na história da música moderna. Peritos em misturar o post-rock a elementos de música clássica, lançaram alguns dos discos mais poderosos que eu já ouvi. Se você não conhece a banda, faça-o o mais breve possível. Por isso tudo, estava ansioso para ver como eles portariam ao vivo. E a palavra é exatamente aquela dos discos: poderoso. Com quase sempre três guitarras, duas baterias, um violino, um violoncelo e um contrabaixo, as texturas criadas pelo grupo em meio a timbres ruidosos e instrumentos clássicos, acompanhadas de belas melodias transportaram os presentes a um mundo em decadência, mas ainda cheio de esperança, como se as notas mais bonitas fossem flores nascendo dentre os escombros de distorção. Uma hora e meia de catarse completa e um dos melhores shows do festival.

Mas era preciso sair rápido do transe e atravessar o Parc Del Fórum para chegar até a apresentação do rapper Kendrick Lamar, no palco da cerveja, que já havia começado. Sou recebido com o sucesso “Bitch Don’t Kill My Vibe” do já clássico do gênero Good Kid, M.A.A.D City (2012). Bastante cheio, não consigo chegar muito perto do palco, mas dá pra ter uma boa ideia de como é o show do americano. Acompanhado por uma banda bastante rockeira, ele desfila os versos cheio de empáfia e boas rimas sobre as ótimas bases produzidas dos seus discos. Cheio de ginga, era possível olhar pro lado e ver uma porção de gringos duros tentando dançar ao ritmo das batidas graves. Um bom show, apesar de eu, grande fã do disco mais recente, esperar mais. Tenho pra mim que shows de rap e hip-hop não funcionam tão bem em lugares abertos, onde o som facilmente se dispersa. Em um lugar menor deve ser muito mais impactante.

Galera surfando no Cloud Nothings (Foto por Clarissa Wolff/ Catárticos)
Galera surfando no Cloud Nothings (Foto por Clarissa Wolff/ Catárticos)

A noite já engolia todo o local quando eu retirei forças do além para atravessar novamente o Parc Del Fórum em cerca de dez minutos, para pegar a metade final da apresentação do Cloud Nothings. Gosto bastante dos dois últimos discos da banda e ao vivo a energia dos caras é incrível. Quando eu cheguei no palco da Vice já era possível ver uma galera surfando na multidão e se jogando ao som das pauladas que vinham do trio. Não tem muito o que dizer: é rápido, é pesado, é rock e é bom. Esse é um show que deve aparecer no Brasil esse ano e se você tiver a chance, não perca. Vale demais. O vocalista Dylan Baldi também estava se divertindo e antes de anunciar como última música uma versão de mais de 10 minutos de “Wasted Days” foi ao microfone agradecer ao público e sentenciar “This is a cool festival”. Realmente é.

Dylan, Cloud Nothings (Foto por Clarissa Wolff/ Catárticos)
Dylan, Cloud Nothings (Foto por Clarissa Wolff/ Catárticos)

Restava para nós o show do Mogwai, em um palco tão abarrotado de gente que eu não conseguia vê-lo de onde eu estava, apenas ouvi-lo. Vi o Mogwai em 2012 na versão brasileira do Sónar e o show foi espetacular. O do Primavera Sound soava ainda melhor. Não haveria jeito melhor, pra mim,de terminar aquele primeiro Primavera Sound. Quando começaram os primeiros acordes de “Rano Pano” eu virei pra minha namorada e disse que adorava aquela música, que seria uma perfeita para ouvir enquanto caminhávamos em direção à saída. E assim nos despedimos daquele festival, com uma dorzinha no coração, mas satisfeitos com o que havíamos vivido.

Aos sábados o metrô de Barcelona funciona ininterruptamente e voltamos pra casa de forma tranquila. Ano que vem o Primavera Sound completa 15 anos e acontecerá nos dias 28, 29 e 30 de maio. Esperamos poder voltar e curtir a festa de debutante do festival.

I love Barcelona.

Meus 5 shows preferidos do festival ficam assim:

1 – The National

2 – Slowdive

3 – Goodspeed You! Black Emperor

4 – Midlake

5 – Arcade Fire

Os horários e programação para assistir o Coachella pela internet nesse fim de semana

coachella

Nessa semana rola um dos maiores e talvez o mais famoso festival de música do mundo, o Coachella. Atraindo as atenções de qualquer pessoa que minimamente se interessa por música, o evento rola no deserto de Índio na Califórnia e tem como headliners nesse ano o Muse, Arcade Fire e Outkast.

E pra quem não tem condições de  curtir isso tudo pessoalmente, como nos outros anos, vai rolar uma cobertura e transmissão dos shows completa pelo Youtube nesse link.

Apesar de não ser o melhor line-up do festival americano, ainda tem muita coisa que vale a pena ser conferida. Abaixo, a hora e canal dos shows no horário de Brasília em uma tabela organizada pelo chapa Robson Rocha. É importante notar que algumas apresentações não serão transmitidas, por opção ou porque algumas bandas não cederam direitos de imagem como Motorhead e Neutral Milk Hotel.horários do Coachella

 

Festival Planeta Terra não deve acontecer em 2014

Com o final dessa edição do Lollapalooza Brasil, os olhos se viraram para o calendário de festivais do segundo semestre e ao que parece o país esse ano perderá um evento de peso. Criado em 2007 e acontecendo todos os anos ininterruptamente desde lá, o Planeta Terra Festival não deve ocorrer em 2014. Foi o que eu apurei em conversas com diversas fontes ligadas à organização.

Embora a decisão ainda não esteja 100% tomada, é infelizmente o mais provável. No ano passado a possibilidade foi levantada, mas em cima da hora a empresa espanhola firmou uma parceria com a Time For Fun, gigante do entretenimento na América do Sul, e  tivemos shows de Blur, Lana Del Rey, Beck, Travis e outros artistas no Campo de Marte.

Um dos principais eventos do circuito alternativo, o Planeta Terra perdeu um pouco de sua força em 2012 e 2013, quando outros eventos do estilo, como o Lollapalooza, chegaram ao Brasil e acirraram a disputa por público e atrações. Entre alguns outros prováveis motivos para a não realização, estão o alto investimento na reformulação total do portal que aconteceu recentemente e o foco em outras áreas em ano de eleições e Copa do Mundo.

A minha torcida é que mesmo não acontecendo esse ano, o festival não morra. Que passe a  um formato menor ou tenha intervalos de tempo maiores entre suas realizações, mas que continue existindo. Quem gosta de música, agradeceria.

Procurada, a assessoria do Terra não se pronunciou oficialmente até o momento.

Mac DeMarco em São Paulo – A juventude é a plateia no show de um músico canadense

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“Eu não sabia que Mac DeMarco tinha tantos fãs” – foram minhas palavras a minha namorada quando ao sinal do primeiro verso de The Stars Keep On Calling My Name, segunda música da apresentação que o canadense fez com sua banda ontem no SESC Belenzinho, em São Paulo, o coro foi engrossado com uma alegria furiosa pela plateia. E quem já foi a qualquer show, sabe que isso faz toda a diferença.

Obviamente, os preços cobrados pelo SESC, muito abaixo do mercado, tratam de otimizar todo esse processo. Os ingressos mais caros para as duas apresentações de DeMarco custavam R$ 35,00 e evaporaram em horas. Mas eu já fui a vários shows no SESC e havia ali algo diferente. Noventa por cento da cerca de 500 pessoas que se prostravam a frente do palco não deviam ter mais que 25 anos. Uma geração que quase não viveu em um mundo sem internet e quase não sai dela. E a internet, mesmo com todas as suas desvantagens, é maravilhosa. O canadense sabe disso e ao anunciar uma música do novo disco, Salad Days, que já vazou, avisou que não dá a mínima se as pessoas fizerem o download ilegal – “sério, eu não ligo, baixem”. Queridinho de blogs pelo mundo, ele sabe que não teria chegado até aqui sem a rede mundial

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Com o jeitão caipira, vestido com um macacão de jardineiro bege e um boné que se fosse brasileiro com certeza teria estampado o nome de algum candidato a vereador obscuro, Mac e sua banda tornaram muito mais poderosas as composições de disco. Em um quarteto clássico, com duas guitarras (às vezes substituídas por sintetizadores), baixo e bateria, cantaram cheios de desdém sobre cigarros, drogas e paixões passageiras. Tudo isso fazendo uma série de piadas nos intervalos das músicas, sempre dirigindo-se diretamente ao público, que não perdia a oportunidade de reforçar o poder do carisma dos músicos . A estranha sensação era de descobrir que o palhaço da turma estranhamente mandava muito bem com uma guitarra na mão.

As canções mais famosas estavam todas ali: Cooking Up Something Good, Ode to Viceroy e até Robson Girl, atendendo a um pedido. Até aí tudo normal. Adjetivo que contudo não se aplica aos covers executados de maneira caricata: Tears in Heaven de Eric Clapton, Blackbird dos Beatles em uma versão pesada e até Wicked Games de Chris Isaak ganharam interpretações bizarras, muito mais cômicas que musicais e que nunca entrariam em um show de alguém sério. E não se levar a sério parece uma das grandes virtudes do canadense, que completamente de surpresa se jogou no público que o carregou e o levou de volta ao palco já na parte final da apresentação.

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Eles ainda voltariam pra um bis com Rock and Roll Night Club, mas o jogo já estava ganho desde os primeiros minutos. Não que isso importasse. Perder ou ganhar, tanto fazia. Desde os anos 60, quando os adolescentes e jovens viraram uma classe à parte de consumidores, ganhando atenção especial da indústria, tudo o que a juventude quer é se divertir, antes de encarar a maçante vida adulta. E ontem eles conseguiram. É o suficiente. Quem não quer ser jovem ?

Hoje tem MacDeMarco novamente no SESC Belenzinho, às 21:30. Os ingressos já estão esgotados, mas se puder, não perca.

Setlist (via setlist.fm):

  1. Salad Days
  2. The Stars Keep On Calling My Name
  3. Blue Boy
  4. Treat Her Better
  5. Cooking Up Something Good
  6. Let Her Go
  7. Brother
  8. I’m a Man
  9. Passing Out Pieces
  10. Let My Baby Stay
  11. Ode to Viceroy
  12. Tears in Heaven
    (Eric Clapton cover)
  13. Freaking Out the Neighborhood
  14. Robson Girl
    (Requested by the audience)
  15. Wicked Game
    (Chris Isaak cover)
  16. Chamber of Reflection
  17. She’s Really All I Need
  18. Take Five
    (The Dave Brubeck Quartet cover)
  19. Takin’ Care of Business
    (Bachman-Turner Overdrive cover)
  20. Blackbird
    (The Beatles cover)
  21. Only You
    (Makeout Videotape cover)
  22. Still Together
  23. Encore:
  24. Rock and Roll Night Club