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Franz Ferdinand em São Paulo ou porque amo tanto música ao vivo

Ao anunciar a sua terceira vinda ao Brasil em três anos (sua sexta no total), o Franz Ferdinand virou, em alguns círculos, motivo de piada. A mentalidade brasileira, ainda pouco acostumada à recente nova dinâmica de shows internacionais no país – que passou a ser rota quase obrigatória na agenda dos artistas e aumentou a oferta ao público – parece considerar algum tipo de desonra que bandas voltem com frequência, como se fosse sinal de desespero, explicitando uma espécie de complexo de vira-latas cultural. Poucos entendem que esse é um passo fundamental para a consolidação do ainda tímido mercado musical nacional. E se esse pensamento ultrapassado representa uma incômoda parede a ser demolida, o grupo escocês contribuiu para derrubar alguns tijolos com a potente marretada que foi sua apresentação de ontem, no Espaço das Américas, em São Paulo.

Um público de pouco mais de 4 mil pessoas – segundo informações da organização – se deslocou até a casa da Barra Funda para conferir o show dos britânicos, que teve abertura dos goianos do Boogarins, recentemente regressos de uma extensa turnê nos Estados Unidos. A opção pela psicodelia do cerrado se mostrou acertada e levantou parte do público em diversos momentos. O vocalista Dinho Almeida parecia habitar confortavelmente uma dimensão própria, muitas vezes tirando sua guitarra para dançar no palco e sem vergonha de fechar os olhos para entornar sua voz em falsete sobre as melodias cheias de efeito do conjunto. Em 45 minutos, o Boogarins tocou uma música nova e mostrou que tem potencial para crescer ainda mais. As jams distorcidas dos quatro instrumentistas foram o ponto alto do curto concerto. Finalizado, era então o momento de esperar pela atração principal da noite, marcada para entrar em meia hora.

Dinho Almeida, vocalista do Boogarins (Foto por Clarissa Wolff/ Catárticos)
Dinho Almeida, vocalista do Boogarins (Foto por Clarissa Wolff/ Catárticos)

Às 22:15, pontualmente, as luzes se apagaram e os telões se acenderam. Os mesmo telões que permaneceram desligados seis dias antes, no show dos californianos do Queens of the Stone Ages e prejudicaram a visão do público que estava nas partes mais afastadas do palco. Felizmente, o Franz Ferdinand não teve o mesmo ataque de estrelismo da trupe de Josh Homme e a transmissão pode funcionar em harmonia perfeita com as projeções simples no fundo do palco e o figurino em preto e branco dos músicos.

A primeira canção a ser executada foi “Right Action”, faixa que cede parte da sua letra para dar nome ao quarto e último disco do Franz, Right Thoughts, Right Words, Right Action, de 2013 e que, em tese, seria a base da atual turnê. Em tese porque Alex Kapranos e companhia destilaram um repertório que contemplou toda a carreira do conjunto, que surgiu no começo dos anos 2000 como um dos principais expoentes do então novo rock. Mais de uma década depois e sem chamar a mesma atenção dos primeiros anos, o grupo mostrou que, ao menos ao vivo, ainda é relevante, com uma energia descomunal para fim de turnê e presença de palco fantástica.

Do começo ao fim a intensidade foi a tônica e foi impossível conter a memória do eu adolescente, aos 14 anos, descobrindo em 2004 sua primeira banda indie e vendo repetidamente o clipe de The Dark of The Matinee, baixado pelo pré-histórico programa de compartilhamento Kazaa. As palhetadas furiosas do guitarrista Nick McCarthy ditavam a velocidade e a química com o vocalista Kapranos escorria junto ao suor de ambos. O Franz Ferdinand nunca foi a minha banda preferida, nem perto, mas eu estava absolutamente feliz de presenciar aquele momento. É fácil – felizmente – gostar do show de uma banda que você adora, mas é nas surpresas, como ontem, que me lembro do porquê amo tanto música ao vivo.

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Foto por Clarissa Wolff/ Catárticos

E o público pareceu aprovar cada momento tanto quanto eu. Cantou junto e foi parte importante na construção da excelente atmosfera. Assim como foi essencial o perfeito sistema de som do Espaço das Américas, alto e claro, como sempre deveria ser, aliás. Eu poderia detalhar como foi a reação a cada canção do quarteto, mas eu penso ser desnecessário. Basta dizer que de Evil Eye, boa faixa do último disco, ao hit Take Me Out (veja no vídeo abaixo), já desgastado pela o excesso de vezes que foi tocado por aí, quase todas as músicas foram tocadas como se fosse a última vez que os escoceses teriam de subir em um palco e recebidas com fervor. Os destaques negativos ficaram para as apagadas Erdbeer Mund e Stand on The Horizon. O encerramento, antes do bis, com Outsiders, com todos os membros se juntando ao baterista Paul Thomson para uma jam percussiva, funcionou como um resumo de uma palavra da noite: poderoso.

O Franz ainda voltou ao palco para tocar três músicas, Jacqueline, Goodbye Lovers & Friends e This Fire, como cortesia aos presentes. Nem precisava.  Essa foi a terceira vez que eu assisti a um show da banda e foi, disparada, a melhor. Que eles voltem no ano que vem. Eu irei.

Importante frisar que a apresentação terminou antes do horário de encerramento do funcionamento do metrô, o que deveria ser a regra, mas não é.

Ao final você confere um vídeo exclusivo dos companheiros de Catárticos do Discophenia, com três músicas.

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Foto por Clarissa Wolff/ Catárticos
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Foto por Clarissa Wolff/ Catárticos
essa nao sei se vale postar
Foto por Clarissa Wolff/ Catárticos

Setlist Bogarins:

Avalanche
Lucifernandis
Infinu
Tempo
Erre
Despreocupar
Doce

Setlist Franz Ferdinand:

Right Actio
No You Girls
Tell Her Tonight
Evil Eye
The Dark of the Matinée
Do You Want To
The Fallen
Lucid Dreams
Erdbeer Mund
Michael
Walk Away
Stand on the Horizon
Can’t Stop Feeling / Auf Achse
Brief Encounters
Take Me Out
Ulysses
Love Illumination
Outsiders

Encore:
Jacqueline
Goodbye Lovers & Friends
This Fire