Breadcrumb Trail: The Story of Slint ou o mito do homem comum na música

O que faz de um disco um clássico? Música incrível é obviamente a chave, mas como se chega lá? Uma dose de boas histórias ajudam, com certeza. E boas histórias não faltam a Breadcrumb Trail: The Story of Slint (2014), documentário que busca recontar as origens e transformações que fizeram com que quatro garotos de uma cidade do interior dos Estados Unidos compusessem, gravassem e se separassem antes mesmo de lançar um dos discos mais estranhos e sensacionais que a música alternativa americana já teve o prazer de parir: Spirderland, de 1991.

“Tenha em mente pelos próximos dias que nós estamos em Louisville, Kentucky. Não é Londres. Não é nem Nova York. Esse é um lugar estranho”. Essa citação do famoso jornalista Hunter S. Thompson introduz o clima quase bucólico, beirando o tédio e que, ao mesmo tempo, parece ser o combustível de uma geração que não conseguia se conectar com as manifestações artísticas que ocorriam no mainstream no começo dos anos 80 e aos poucos foi achando a sua própria voz. Ali, uma recém surgida cena musical toda baseada no mantra punk do it yourself era movida a hardcore e pessoas comuns. E foi nesse contexto que os amigos de infância Britt Walford e Brian McMahan começaram cedo, por volta dos 10 anos de idade, a tocar juntos e formar bandas pra se apresentar em espeluncas e quermesses de igreja.

Encarregado da bateria, Walford é o centro e fio condutor da narrativa, que conta com depoimento de diversos personagens importantes para a história do Slint: desde os membros da banda e amigos da cena, passando pelos pais do baterista que sempre abrigaram e apoiaram os ensaios do filho, até rostos conhecidos, como o produtor Steve Albini, James Murphy (LCD Soundsystem, DFA), Ian MacKaye (Minor Threat, Fugazi) e David Yow (Jesus Lizard). A impressão que fica em meio a tantas anedotas é de que toda a mística que envolve a banda e sua obra-prima é muito mais em razão do boca-a-boca no qual o disco se espalhou do que a alguma característica extraordinária ou suposta genialidade dos músicos. Tudo ali foi feito a partir de boas ideias e à base de muitos ensaios.Breadcrumb-Trail_Poster-for-Will-Oldham-approval

Sem querer entrar em muitos detalhes, nas entrevistas conduzidas pelo diretor Lance Bangs (que já fez vídeos de inúmeras bandas do rock alternativo, do Sonic Youth ao Arcade Fire, passando pelo Green Day e o Pavement) fica claro que mesmo sendo bons músicos, todos ali eram moleques, muitas vezes infantis. Em determinado momento, Ian MacKaye conta sobre uma vez em que eles estavam juntos e que, ao ouvirem um som flatulento, todos correram em busca da porta mais próxima. MacKaye ficou imóvel, perdido com a reação, quando foi avisado que o último a chegar a alguma maçaneta era punido com socos dos outros. Em outra parte, David Yow conta que a música Mouth Breather (“idiota”, em tradução livre) do Jesus Lizard foi baseada na vez em que Steve Albini pediu que Walford tomasse conta da sua casa durante uma viagem e o garoto quase destruiu o lugar.

Pouco focado nas gravações e processo de composição de Spiderland propriamente ditos, o maior triunfo do documentário é mostrar como boa arte não é privilégio de seres atormentados ou messias que vieram ao mundo apenas com o propósito de nos iluminar. Stress excessivo e colapsos nervosos ganham tom de eventos que podem acontecer com qualquer um e não fardos carregados por gênios. Como o nome mesmo sugere, o filme segue uma trilha em que cada migalha parece ao mesmo tempo ser pouco importante, mas imprescindível ao resultado final. É interessante notar que na cena musical de Louisville, todos eram amigos e acabaram contribuindo uns com os projetos dos outros, sem brigas de egos ou ataques de estrelismo. Assim, o que salta aos olhos (e ouvidos) é a música.

Breadcrumb Trail: The Story of Slint (2014) será lançado em DVD e fará parte da versão deluxe de Spiderland que será lançada em breve pelo selo Touch & Go. Apesar disso, é fácil encontra-lo em diversos sites de compartilhamento por aí.

Após se separar em 1991, o Slint se reúne esporadicamente para algumas turnês desde 2005. A última reunião foi em 2013 e ainda está em andamento.

Escute Spiderland na íntegra:

Música pra ver: A história de uma lenda da música independente. Não, não é uma banda.

creation records

Eu gosto de pensar que pelo menos a maioria das pessoas que chegam até aqui é tão apaixonada por música quanto eu. E, por isso, estão sempre interessadas em mergulhar mais e mais nesse universo, seja conhecendo novos sons, seja buscando informações a respeito de fatos que foram importantes pra história e evolução da produção musical. Pois então, nessa seção “Música pra ver”, pretendo contar e indicar documentários e filmes que mostrem um pouco mais desse universo que vai além dos discos e shows.

Pra começar, escolhi um documentário que trata de uma lenda da música independente no Reino Unido e no mundo. Upside Down: The Creation Records Story fala da gravadora encabeçada pelo maluco e estranho Alan McGee, juntamente com Dick Green e Joe Foster, e que foi berço do nascimento de várias importantes bandas dos anos 80 e 90, como Jesus and Mary Chain, Primal Scream, My Bloody Valentine, Teenage Fanclub, Oasis, Super Furry Animals e outras.

A película conta a história em ordem cronológica desde o nascimento, em 1983, até o encerramento das atividades, em 1999, através de entrevistas com pessoas que participaram da trajetória da gravadora, como músicos, executivos e funcionários. McGee é extensamente entrevistado ao lado de figuras como Bob Gillespie, Jim Reid e Noel Gallagher, os quais contam histórias de bastidores, sobre como funcionava a Creations e como ela foi fundamental para o rock britânico.

O nome do filme vem de uma música do Jesus and Mary Chain, primeiro single da banda lançado pela gravadora e responsável por colocar ambos no mapa da música da Inglaterra. A partir daí são casos que não acabam mais. Para se ter uma ideia, houve uma determinada semana que a Creation possuía três discos seminais nas paradas britânicas: Screamadelica do Primal Scream, Bandwagonesque do Teenage Fanclub e Loveless do My Bloody Valentine. Inclusive McGee nega que esse último, que custou 247 mil libras para ser concluído, tenha sido o responsável por quase quebrar a empresa e obrigar que ela fosse vendida à Sony. Ele diz que não houve apenas um culpado e que outras coisas como grandes gastos com drogas e falta de jeito pra negócios ajudaram.

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O capítulo dedicado ao Oasis é um dos destaques e se refere à banda como “a última grande do rock”. Tenta explicar como eles explodiram e, ao mesmo tempo, contribuíram amplamente para o fechamento da Creation. Nessa época McGee sofria tanto com as consequências do seu vício em drogas, que inclusive o levaram a um colapso, que não pôde aproveitar algo que sempre sonhara: ter entre seus artistas a maior banda do mundo.

O documentário é informativo e bastante indicado para os fãs do que se fazia em termos de música no Reino Unido nos 80 e 90. É facilmente encontrado em sites de compartilhamento e nas locadoras Bitorrent da vida. Se você é admirador de alguma dessas bandas, não perca tempo e assista tão logo for possível.

 

Upside Down: The Creation Records Story

Diretor Danny O’Connor
Produtor Danny O’Connor
Participações Alan McGee, Dick Green, OasisPrimal Scream, My Bloody Valentine, Ride, Super Furry Animals,Teenage FanclubJesus & Mary Chain
Lançamento
    23 de outubro de 2010(London Film Festival)
Tempo 101 minutes