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O teste de Interlagos ou como foi o 1º dia do Lollapalooza Brasil

Foto por Clarissa Wolff/Catárticos
Foto por Clarissa Wolff/Catárticos

O primeiro dia do Lollapalooza Brasil era um teste importante: agora sob o comando da Time For Fun, o festival tinha a missão de provar que poderia fazer do Autódromo de Interlagos sua nova e definitiva casa no país. Os ingressos, esgotados na véspera, mostravam que o público tinha dado um voto de confiança à organização e superado a desconfiança inicial com a escolha do local.

Fui de metrô/trem até a estação Autódromo e o percurso todo funcionou de forma satisfatória na ida, dentro das suas limitações. O único problema foi mesmo a superlotação e o aperto, o que não chega a ser nenhuma novidade pra quem vive em São Paulo. Aliás, foi uma “boa” oportunidade para quem não mora na cidade conferir uma pequena parte de como é o dia a dia de quem depende de transporte público por aqui, porque é dali pra pior.

Chegando a Interlagos logo ficou claro qual seria o maior vilão do festival: a distância. Entrei próximo ao palco que leva o nome do autódromo e para chegar até o show do Cage the Elephant (banda que foi a primeira que assisti em um Lollapalooza, em 2011), no palco Ônix, foi um belo pedaço de chão. Consegui ver algumas músicas de longe, aproveitando os morrinhos que permitiam enxergar com clareza a banda mesmo estando afastado. Esse fator foi um belo acerto e funcionou bastante bem naquele palco. Contudo, preferi me adiantar e ir até o palco Skol conferir em pessoa o tão (mal) falado novo projeto de Julian Casablancas.

Foto por Clarissa Wolff/Catárticos
Foto por Clarissa Wolff/Catárticos

Eu gosto de Strokes. Gosto bastante. Vi a apresentação deles por aqui no Festival Planeta Terra de 2011 e mesmo com todos os problemas achei que foi um belíssimo show, principalmente por causa do público, que cantou todas as músicas o tempo todo. Do projeto solo do vocalista nunca fui dos maiores fãs, mas era preciso confirmar com meus próprios olhos (e ouvidos) o que o nova-iorquino aprontaria acompanhado da sua nova banda, The Voidz. Aí deu tudo errado. Sem versões de estúdio pra comparar (o disco deve ser lançado ainda esse mês), a estranheza com as novas canções era enorme. Era quase impossível distinguir a voz no bolo sonoro que se formou em meio a duas guitarras Flying-V com timbres de hard rock e uma bateria raivosa. Todas as músicas novas eram versões dessa combinação. E mesmo com a referência à bandas punks da Inglaterra do final dos anos 70 (Julian usava patchs do GBH e Discharge em sua jaqueta), tudo ali parecia soar como a primeira banda de um adolescente que acabara de descobrir o metal. Julian parecia animado, mas inseguro. Brincou com plateia dizendo: “Novas músicas, pessoal! Estamos aprendendo, estamos aprendendo”. O show melhorou sensivelmente na parte final quando foram tocadas 11th Dimension do seu primeiro disco solo e Take It or Leave It dos Strokes, mas aí já era tarde. O músico andou dizendo em entrevistas que seu novo disco iria explorar uma combinação pouco utilizada na música até agora. Se for parecido com o que apresentou, o pouco uso da tal combinação não é coincidência.

Foto por Clarissa Wolff/Catárticos
Foto por Clarissa Wolff/Catárticos

Em mais uma etapa da meia-maratona, voltei ao palco Interlagos pra conferir os shows de Portugal. The Man e Lorde. O primeiro, que faz um pop bem legal em disco, não comprometeu. Fez o arroz com feijão e agradou aos fãs. Foi legal ouvir ao vivo boas canções como Modern Jesus, mas pra quem não é louco pelo grupo, não foi um show memorável. Ainda assim, foi divertido.

Era a vez então de Lorde, o mais recente fenômeno da música pop. Eu inclusive ouso dizer que os ingressos esgotados do dia talvez tivessem mais a ver com a neozelandesa (e o Imagine Dragons, outro fenômeno recente) do que com os headliners do dia. E ela não decepcionou. Com uma banda enxuta, formada apenas por um baterista e um tecladista, a adolescente parecia genuinamente emocionada e não cansava de elogiar o Brasil e dizer como estava feliz de estar ali. Lorde não faz meu estilo de música preferido e não coloco pra rodar um disco da cantora quando que quero relaxar, mas em meio a um pop radiofônico cada vez mais saturado, produzido em série e superproduzido em estúdio com batidas eletrônicas pasteurizadas, ver algo bem mais orgânico sendo feito é um alívio. A garota parece bem distante do personagem de diva pop e eu acho que ela tem um belo futuro pela frente. Não seria a primeira vez (e espero que não seja a última) que um adolescente daria um sopro de frescor ao pop de FM. O público pareceu não ter reclamações.

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Foto por Clarissa Wolff/Catárticos

Na saída, empurra-empurra e aperto. Não sei se a produção subestimou o público que gostaria de ver o show da Lorde, mas foi extremamente difícil e doloroso mudar de palco após a apresentação. E olha que eu saí faltando duas ou três músicas pro fim. Mais um ponto fraco do festival: os acessos aos palcos não comportaram bem o número de pessoas e por vezes, principalmente à noite, foi complicado se deslocar, mesmo para os palcos menos concorridos. A produção precisa encontrar uma maneira melhor de fazer isso funcionar com tanta gente (em rota de colisão) por ali.

Dei um tchauzinho de longe para o palco abarrotado onde o Phoenix tocava e fui esperar Trent Reznor e companhia no show do Nine Inch Nails. E daí foi só alegria. Ou melhor, foi só melancolia, raiva e violência. A banda entrou a mil com Wish e me fez esquecer o cansaço e a dor nos pés que naquela hora já estavam bastante grandes. Com a cara de que saiu de uma instituição mental direto para o palco de sempre e se comunicando com o público apenas por meio de seus “hey”, o americano não deixou a peteca cair nem quando a apresentação entrou numa parte mais calma. Mesmo com uma formação reduzida de oito pra quatro integrantes e sem a parafernália de iluminação completa, a banda fez o show do dia do festival. Pesado. A galera era intensa em algumas partes, mas em geral assistiu ao show com atenção e em silêncio. E mesmo que não dê pra esperar uma plateia feliz e saltitante em um show do Nine Inch Nails, até o mais sisudo dos presentes saiu com um sorriso no rosto. Ouvir Hurt ao vivo encerrando tudo foi a cereja do bolo.

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Foto por Clarissa Wolff/Catárticos

Vi algumas músicas do Muse de longe, mas não quis arriscar sair ao mesmo tempo daquele mundaréu de gente e fui embora ainda no começo do show. Na saída, passei pelo palco do Disclosure, que tinha bom público pra quem concorria com um headliner. Na volta, o transporte novamente funcionou de forma ok.

Mais organizado que os Lollapalooza do Jockey, não enfrentei fila pra comprar água ou alimentos em nenhum momento. Os vendedores ambulantes aceitando fichas e dinheiro funcionaram maravilhosamente bem. As ativações das marcas não ficaram cansativas e contribuíram pra experiência de quem estava ali querendo mais do que música. Não fui ao Chef Stage, mas só ouvi elogios à comida e ao serviço. O 3G, como sempre, foi impossível de acessar e os palcos às vezes pareciam apertados. E andar aquela distância toda foi bastante estafante. Contudo, jogando isso na balança, o saldo foi positivo. Longe de estar ainda perfeito, o #NovoLollaBR, como foi divulgado o tempo todo, tem potencial pra mudar o jeito como o público brasileiro se relaciona com festivais e Interlagos (sem chuvas) funcionou bem no todo. Como tudo que tem relação com essa edição, ainda há um longo caminho a ser percorrido (hehe), mas é possível chegar lá.

Vejamos como será o segundo dia de festival, que deve ter um público bem menor.