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Os meus discos preferidos de 2014

Listas sempre dividem opiniões. Para mim, elas servem, principalmente, para descobrir discos que possam ter passado despercebidos pela enormidade de lançamentos ou mesmo relembrar outros que, por algum motivo, se perderam na memória. Entretanto, eu considero que discuti-las é sempre divertido, ao passo que tentar questionar ou invalidá-las é perda de tempo. Elas sempre refletem, puramente, uma opinião – de uma pessoa ou publicação.

Por isso, diferentemente do ano passado, não batizarei essa lista de fim de ano como os melhores e sim como meus preferidos. Porque música está longe de ser uma ciência exata e, mesmo que crítica e argumentação tenham o mais profundo valor, no fim das contas a opinião definitiva sobre o valor de um álbum ou artista é suaSe alguma música te toca, te deixa feliz, te faz sentir menos sozinho ou de alguma forma torna o fardo do dia a dia mais leve, já é motivo mais que suficiente pra ter carinho por aquilo, afinal, para a grande maioria das pessoas música é apenas uma maneira de desaguar as preocupações cotidianas. E nenhuma crítica tem – ou deveria ter – o poder de desconstruir esse sentimento.

Em se tratando de preferências pessoais-musicais, 2014 foi um ano bastante generoso comigo. Foram tantos bons lançamentos que não foi incomum, ao repassar o que havia saído,  ficar com a estranha sensação de que determinado álbum não era desse ano, tão soterrado por outros (bons) discos estava a lembrança. No fim, apesar de sempre divertida, a tarefa de escolher só 20 álbuns foi dura. Poderiam facilmente ser 50. Então, se alguma banda esperada por você não estiver na lista, não necessariamente significa que eu não tenha gostado. Aproveite e faça também a sua lista.

Sem mais blá blá blá, esses são meus 20 discos preferidos de 2014, em ordem decrescente. No final, há uma playlist com uma música de cada um deles (exceto dois):

20. Cloud Nothings – Here and Nowhere Else

Cover

Como eu já havia escrito antes sobre o disco: “Raiva. Se tem uma palavra que pode definir o disco do Cloud Nothings, Here and Nowhere Else, é essa. Rápido, agressivo e deliciosamente construído sobre guitarras distorcidas, é um bom lembrete do porquê o rock sempre foi capaz de atrair jovens. O próprio título traduz bem a sensação de urgência cortante que dá o tom do álbum. Mesmo as faixas que começam calmamente, como Psychic Trauma, logo são tomadas por um emaranhado de distorções, tons de bateria e gritos. Com 8 faixas quase sempre curtas (todas tem menos de 4 minutos, à exceção das duas últimas), é ainda melhor que o disco anterior do grupo, o bom Attack on Memory, produzido por Steve Albini (Pixies, Nirvana).”

Link para o disco completo: http://bit.ly/1rsT7s7

19. Dean Blunt – Black Metal

Dean Blunt Dean Blunt faz música estranha. É a definição mais próxima que eu encontro para o som do inglês que foi chamado pelo Guardian de “o elo perdido entre Ariel Pink e Aphex Twin”. Ex-metade do duo de música eletrônica Hype Williams (nada a ver com o famoso diretor de vídeo clipes), Blunt chamou a atenção com seu excelente disco do ano passado, The Redeemer. Black Metal é diferente do antecessor, mas ainda bastante digno de nota, com uma pegada lo-fi e guitarreira que pode interessar especialmente aos fãs do indie rock dos anos 90. Embora musicalmente pouco tenha a ver com sub-gênero homônimo, a impressão que fica após ouvir o álbum é de que o senso de humor ali só poderia vir de alguém tão problemático e introspectivo quanto metaleiros nórdicos que queimam igrejas.

Link para o disco completo: http://bit.ly/1pDAlgy

18. Electric Wizard – Time to Die

Electric WizardSe você fizer uma pesquisa rápida sobre o Electric Wizard, as chances de encontrar alguma comparação com o Black Sabbath é imensa. Obviamente, não por acaso. A banda inglesa da década de 90 é expert em riffs lentos, mas poderosos e faz cada nota soar com um suspense que não desapontaria Alfred Hitchcock. O nome e a capa entregam que esse não é o melhor dos discos pra se ouvir em um dia ensolarado enquanto cantarola pelas ruas da sua cidade, mas é perfeito se você estiver no clima de imergir na escuridão que todo mundo carrega em si. Escute alto. Você vai achar bons motivos para sorrir.

Link para o disco completo: http://bit.ly/1pDIGko

17. Fumaça Preta – Fumaça Preta

Fumaça PretaExistem poucas chances de você já ter ouvido falar no Fumaça Preta, mas como eu sou completamente contra a baboseira hipster de guardar bandas para si, espero fazer o que estiver ao meu alcance para que no futuro isso seja um pouquinho menos realidade. É, com absoluta certeza, a banda mais brasileira criada por um luso-venezuelano que mora em Amsterdã. Pra completar a globalização, o disco homônimo ainda saiu pelo selo londrino Soundway Records. O cara em questão é Alex Figueira e, em uma época que a psicodelia voltou aos holofotes, um disco desse ser praticamente ignorado por aqui é uma pena, no mínimo. Os sons tropicalistas e os vocais em português deixam tudo ainda mais em casa. Uma das melhores descobertas desse ano.

Link para o disco completo:  http://bit.ly/1z6zSUf

16. Mirel Wagner – When the Cellar Children See The Light Of The Day

Mirel WagnerMirel Wagner é uma cantora nascida na Etiópia e criada Finlândia. A ligação íntima com dois lugares tão distintos só teria como resultar em um trabalho que é marcado por colisões. A bela e melódica voz, que honra a tradição das melhores cantoras do soul, ecoa sobre melodias cortantes e, muitas vezes, cruas. Não há como se enganar: a estrela aqui são as palavras. Lançado pela lendária Sub Pop, When The Cellar Children See The Light Of The Day é pra rasgar corações e de cara me chamou a atenção pela mistura que deságua numa doce, ácida e irresistível melancolia. Felizmente, aos 23 anos, Wagner está apenas começando.

Link para o disco completo: http://bit.ly/1z6DoxR

15. Mourn – Mourn

MournNão há muito pra dizer sobre a estreia do Mourn. É, simplesmente, um rock de garagem direto ao ponto. E isso é mais do que suficiente. Com 11 canções rápidas – apenas uma tem mais de 3 minutos – a clássica formação guitarra, baixo e bateria unida a bons riffs e vocais femininos em tons de cinza, fez com que o resultado tenha ficado marcado na minha memória. É mais um filho da, tantas vezes explorada, combinação entre punk e indie rock noventista. E, se você ainda gosta de rock, um dos bons.

Link para o disco completo: http://bit.ly/15NYatp

14. Sharon Van Etten – Are We There

Sharon Van Etten

 Sharon Van Etten parece ser daqueles artistas fadados a sempre estarem ali pela terceira ou quarta linha da escalação de um festival. E isso não é necessariamente ruim. Tendo lançado quatro bons discos em cinco anos, Are We There (Chegamos lá?, em tradução livresoa como um questionamento de Van Etten a si mesma. Talvez ela tenha se sentido suficientemente confiante pra fazer a pergunta porque, de fato, é seu melhor trabalho até aqui. Estabelecida como musicista e sem qualquer pressão para ir além de onde já chegou, ela pôde ousar mais e criar um álbum que é dilacerante e empolgante ao mesmo tempo, assim como meu estilo preferido de música. É dela, inclusive, a música que considero a melhor desse ano: Your Love Is Killing Me.  Se me é permitido responder ao questionamento de Sharon, eu diria que sim, ela chegou lá.

Link para o disco completo: http://bit.ly/1vUe22F

13. Angel Olsen – Burn Your Fire For no Witness

jag246.11183Sobre o disco da Angel Olsen, eu já tinha escrito por aqui e reproduzo: “Poucas coisas são mais democráticas que um coração partido. E talvez por isso seja o assunto preferido dos artistas ao longo dos tempos. A forma que cada um lida com a dor, porém, é o que diferencia um trabalho do outro. Em Burn Your Fire For No Witness, segundo disco de Olsen, a compositora viaja entre melodias suaves e versos melancólicos que despertam uma sensação de nostalgia a qualquer um que lhes prestar um pouco de atenção: todo mundo se identifica em algum nível com aquela sensação. Um disco denso que pode ser resumido no verso que abre a terceira música, Hi-Five: I feel so lonesome I could cry, uma clara referência à clássica canção de 1949 de Hank Willians. Mas não chore. Ao invés, escute esse belíssimo álbum. É uma das melhores coisas que eu ouvi nesse ano. E, provavelmente, você também.”

Link para o disco completo: http://bit.ly/1vUhASv

12. Sun Kil Moon – Benji

Sun Kil MoonMark Kozelek, o homem por trás do Sun Kil Moon (e do finado Red House Painters), é um idiota. Mal educado, arrogante e egocêntrico, apareceu esse ano menos pelo excelente disco que compôs e mais pela patética briga (quase totalmente ignorada pelo outro lado) com o War on Drugs. Eu já havia lido em publicações da Europa sobre o péssimo comportamento do compositor com público e produtores em turnês por lá e automaticamente tudo fez sentido. Sentido que sempre me falta ao comparar esse perfil de cidadão exemplar com a doçura e angústia que encharca cada verso de Benji. Com acordes e dedilhados no violão ele discursa sobre a vida e, principalmente, a morte com a autoridade de alguém que  parece frequentemente envolto pelos tentáculos gélidos do nosso ponto final nesse mundo. É um estilo de folk denso e pesado, que precisa de um tempo pra ser digerido, mas que vale a pena, mesmo com alguma dor de estômago. É preciso separar a pessoa do artista e Kozelek prova mais uma vez que os idiotas também podem ser geniais.

Link para o disco completo: http://bit.ly/1vUqJdU

11. Run The Jewels – Run The Jewels 2

Run The Jewels Pesado, moderno e cheio de energia. O segundo filho da parceria entre El-P e Killer Mike não só não decepciona como é ainda melhor que o disco de estreia. Não tem muito o que dizer, é simplesmente o melhor disco de hip-hop que eu ouvi esse ano. Eu o escutei tanto no período de Natal e ano novo que eu quase subi a posição dele nesse lista. Se é o tipo de som que você gosta, não perde tempo.

Link para o disco completo: http://bit.ly/1vUv5l5

10. Juçara Marçal – Encarnado

Juçara MarçalO primeiro disco nacional da lista. Juçara Marçal é companheira de Kiko Dinucci em projetos como Padê e o também excepcional Metá Metá. Na estreia solo da cantora, eles se juntaram ao saxofonista Thiago França pra lançar um dos mais potentes registros do ano e do cenário nacional nos últimos tempos. A voz mpbística de Juçara se junta às guitarras tortas de Dinucci fazendo o casamento perfeito entre MPB e MTB (Música Torta Brasileira).  Há sim lugar pra música experimental na conservadora MPB e é muito bom ver artistas explorando esse território. Ouça o disco, vá no show e mergulhe nessa mistura de distorção e grandiosidade vocal.

Link para o disco completo: http://bit.ly/1vUDPHY

9. Leonard Cohen – Popular Problems

Leonard CohenNão sei deixe enganar pela capa horrorosa de Popular Problems: Leonard Cohen continua sendo o maior ser humano vivo. Meu músico preferido de todos os tempos, seus três primeiros discos estão entre os melhores e mais importantes na minha vida. Com 80 anos completos, é difícil imaginar um artista que continua compondo em tão alto nível como é o caso de Old Ideas (2012) e do próprio Popular Problems. Cohen tinha se retirado da vida artística, mas teve todo o seu dinheiro surrupiado pela antiga empresária, fazendo com que ele deixasse o monastério em que vivia e voltasse aos palcos e estúdios. Com a sagacidade e sensibilidade do poeta que é, Cohen e sua voz marcante destilam versos cheios de emoção e ironia, em músicas marcadas por uma produção que poderia soar ultrapassada, mas casa perfeitamente com a lenda viva. Ele não deve gostar muito da sua ex-agente, mas nós só temos a agradecê-la.

Link para o disco completo: http://bit.ly/1vUJWfq 

8. Aphex Twin – Syro

FINAL MASTER SYRO DIGIPAK.inddMais de uma década após o seu último lançamento oficial, Richard D. James, ou Aphex Twin, continua provando que ainda é o melhor em fazer música eletrônica complexa pra um bando de gente estranha. O que é suficiente pra você saber onde está se metendo.

Link para o disco completo: http://bit.ly/1vUMeuY

7. ruído/mm – Rasura

Rasura

O meu disco nacional preferido de 2014. Lançado gratuitamente pelo selo brasileiro independente Sinewave, Rasura é como um exercício de respiração. Passeia entre o calmo e o violento de uma forma tão suave que se você, na correria do dia a dia, conseguir parar pra dar total atenção ao disco, vai se sentir como parte essencial dele. Com vocais quase inexistentes, chama a atenção a construção cuidadosa das melodias e o diálogo eloquente entre piano e guitarra em algumas faixas. No final da audição é quase impossível resistir a ouvi-lo novamente já na sequência. Não resista. O clichê aqui funciona: ouça de olhos fechados.

Link para o disco completo: http://bit.ly/1DtpaJS

6. Ty Segall – Manipulator

Ty Segall

Ty Segall é considerado por muitos um garoto prodígio. Com 27 anos de idade e sete álbuns lançados nos últimos oito, ele transborda algo que têm faltado em muitos discos de rock: energia. Mas como energia sozinha não significa nada, Manipulator é um disco sem maiores pretensões, cheio de bons riffs, guitarras garageiras e cozinha afiada. Feel deve ter sido a música que mais escutei em 2014. O rock definitivamente não precisa ser salvo e quantos mais artistas assim aparecerem, melhor.

Link para o disco completo: http://bit.ly/1DttlW4

5. Flying Lotus – You’re Dead!

Flying LotusO americano Flying Lotus já se consolidou como um dos maiores expoentes da música eletrônica nessa geração, mas aparentemente ainda tem muito combustível pra queimar. Em You’re Dead! a mistura de hip-hop, jazz, rock e música eletrônica se torna uma viagem cheia de desvios, saltos e quebras de ritmo. A parceria com o rapper Kendrick Lamar rendeu uma ótima faixa, mas a força do disco reside mesmo é no resultado da mistureba deliciosa de estilos. Um disco pra ouvir fora de casa e se descobrir fora de si.

Link para o disco completo: http://bit.ly/1DeUPS2

4. Ought – More Than Any Other Day

Ought

A Constellation Records, selo canadense, dificilmente erra. Casa de artistas como o Goodspeed You! Black Emperor, Matana Roberts e Silver Mt. Zion, foram os responsáveis por lançar o LP de estreia do Ought. Visceral, urgente, cheio de força, é um post-punk torto, com várias quebras de ritmo e repleto de interlúdios, como uma percussão que chama a atenção entre os instrumentos. A minha estreia favorita do ano e uma banda pra definitivamente se ficar de olho. Ainda lançaram outro bom EP em 2014.

Link para o disco completo: http://bit.ly/1DeWIy2

3. Swans – To Be Kind

Swans

Ser gentil é uma tarefa sempre complicada. Por isso, não poderia haver nome melhor para o sombrio, denso, carregado, soturno e por vezes melancólico disco do Swans. Uma obra-prima teatral que deu origem a um LP triplo com mais de 2 horas de duração, não é um álbum fácil de ser mastigado ou digerido. Demanda tempo, demanda atenção e demanda paciência, coisas que nem sempre são de fácil acesso no cotidiano. Na minha opinião, é ainda melhor que a também obra-prima The Seer, disco anterior da trupe comandada pro Michael Gira e vale cada segundo dispensado. Essencial.

Link para o disco completo: http://bit.ly/1DeWIy2

2. Thurston Moore – The Best Day

Thurston Moore

A dissolução do Sonic Youth ao menos nos brindou com três bons projetos: Kim Gordon e seu Body/Head, Lee Ranaldo e sua banda The Dust e a carreira solo de Thurston Moore. Esse último, ainda bastante afetado pelo fim do casamento de 27 com a ex-companheira de banda que teve direito a exposição pública, fez um disco em que se concentrou em uma única coisa: ter paz. Ele falou mais sobre isso e outros assuntos na entrevista que fiz com ele para o UOL (leia aqui) e que em breve devo colocar aqui no blog na íntegra.  Sobre o disco, basta dizer que poderia ser um disco do Sonic Youth com louvor. Medalha de prata.

Link para o disco completo: http://bit.ly/1Df9SuO

1. Grouper – Ruins

Grouper Qual a importância do silêncio pra música? O músico e teórico John Cage já defendia o seu fator decisivo na sua obra mais famosa, a extrema 4’33” (veja aqui). E é nas pausas e silêncios que as maiores mensagens são transmitidas em Ruins, disco do Grouper, projeto solo da musicista americana Liz Harris. Aqui ela abandona o violão de álbuns anteriores e se traz o piano e o silêncio como únicos aportes pra sua melancólica e doce voz. É um disco de contemplação e que urge calma. As melodias são delicadas e muitas vezes os vocais são sussurrados e de difícil compreensão, até para quem domina o inglês. Nem sempre é preciso falar alto pra gritar e às vezes uma pausa representa mais que qualquer palavra. É disco emocionalmente muito pesado e o mais belo trabalho que eu ouvi esse ano. Porque os dias chuvosos são os mais bonitos.

Link para o disco completo: http://bit.ly/1DfglpP

Abaixo, uma playlist da Deezer com uma faixa de cada um dos álbuns citados nessa lista, com exceção de Juçara Marçal e Ty Segall, não presentes no serviço. No caso de ambos, sugiro as faixas Ciranda do Aborto (ouça aqui) e Feel (ouça aqui).