Spiritualized em São Paulo ou um relato pessoal de como a música pode mudar vidas

Quando eu era adolescente, como milhões, sonhava em ter uma banda. Tipicamente cheio de confusões, me digladiava internamente ao tentar entender o mundo como me era apresentado à luz de um recente florescer de consciência. Meu assunto preferido era a religião e tentar transformar toda essa inquietação em versos e acordes utilizando meus primitivos conhecimentos musicais, uma necessidade quase fisiológica à época. O tempo passou, assim como a vontade e o sonho de ser artista. Mas a confusão permaneceu, mesmo que em menor intensidade, juntamente com o amor pela música, esse cada vez mais pujante. E num dia qualquer de mergulho existencial nos meus inseparáveis fones de ouvido, descobri que existia há anos uma banda que seria a materialização exata do que eu queria quando sustentava em mim todos aqueles desejos e esperanças pueris: o Spiritualized. E isso mudou minha vida.

Então, qualquer pretensa objetividade foi de cara abandonada, quando na noite fria de ontem tive a oportunidade de ver ao vivo Jason Pierce em ação pela 32ª segunda edição do Popload Gig, no Audio Club em São Paulo. Era o primeiro encontro comigo e centenas de outros fãs brasileiros que esperaram por mais de uma década até o grupo desembarcar no país.

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Foto por Clarissa Wolff/Catárticos

Não era o clássico show com guitarras raivosas e pulsantes. Na montagem denominada “Acoustic Mainlines”, a formação de palco consistia em Pierce, munido apenas de violão, e o companheiro de longa data Doggen, encarregado do piano e gaita, sendo guarnecidos por um quarteto de cordas e um coreto gospel composto de quatro cantoras, totalizando uma formação de dez. Separados estrategicamente em dois grupos, Doggen e as instrumentistas estavam completamente vestidos de preto à esquerda, enquanto Jason e as cantoras, de branco da cabeça aos pés, ficavam à direita – com o negro violão de Pierce como um premeditado enclave naquela parte do palco. Ali estava a dualidade clássica do mundo e principalmente da religião: preto contra branco, bem contra mal, as sombras contra a luz.

Era um show delicado e para ser assistido em absoluto silêncio, algo que muitas vezes não foi respeitado por um grupo que insistia em pedir por canções incompatíveis com o “Acoustic Mainlines” ou simplesmente gritar coisas sem sentido. Contudo, tais manifestações, felizmente, não foram suficientes para tirar a beleza do espetáculo. A oportunidade de assistir a canções do repertório que raramente são interpretadas nos shows tradicionais, como “Broken Heart”, “Cool Waves” e “Too Late”, foi suficiente. “Broken Heart”, talvez seja minha canção preferida do Spiritualized e ouvir os doloridos versos iniciais “Though I have a broken heart/I’m too busy to be heartbroken” a menos de dez metros de distância de Pierce, é algo que eu nunca vou esquecer.

Houve ainda espaço para músicas do Spacemen 3, antiga banda de Jason, e um cover da mais famosa canção de Daniel Johnston, “True Love Will Find You In the End”, sem deixar de fora a faixa título e clássicos do mais conhecido disco da banda “Ladies & Gentlemen, We’re Floating In Space”. Lindo.

Foto por Clarissa Wolff/Catárticos
Foto por Clarissa Wolff/Catárticos

Mas a força, dor ou beleza das canções ali entoadas por aquelas dez almas no palco, não era nada perto do que elas representavam. Para mim, aquele foi um momento em que eu parei para pensar em porque a música ocupa um espaço tão grande na minha vida. Eu parei para pensar o que significava me conectar tanto com aquelas palavras e notas e como elas mudavam quem eu era, ao mesmo tempo que me encorajavam a abraçar todos as feridas mais antigas. E naquele momento, aquele adolescente confuso e cheio de questões que ainda vive dentro de mim e, vira e mexe dá as caras, teve um momento de paz. Ele sabia que não estava sozinho no mundo. Lembrei que música tinha razão de existir. Naquela noite eu pude dormir sorrindo.

Setlist (via setlist.fm):

Sitting on Fire
Lord Let It Rain on Me
True Love Will Find You in the End (Daniel Johnston cover)
Cool Waves
Amen
Soul on Fire
Walkin’ with Jesus (Spacemen 3 cover)
Feel So Sad
Going Down Slow
Stop Your Crying
Anything More
Ladies and Gentlemen We Are Floating in Space
Broken Heart
Lord Can You Hear Me? (Spacemen 3 cover)

Encore:
Too Late
I Think I’m in Love
Goodnight Goodnight

CONEXÃO EUROPA: Vida Festival, na Catalunha, têm shows de Lana Del Rey, Yo La Tengo e M. Ward.

palcoPor Mar Herrando

Viver sem música seria terrível

A palavra “vida” têm muitos conceitos dentro dela, tantos que não podemos nem resumir o seu significado num só. Estado, alimento, ser, a longevidade das coisas… a vida têm tantas emoções como uma linda palavra existente somente em português: saudade.  E é isso mesmo o que deixou essa primeira edição do festival: muita saudade. O Vida Festival foi demais, superou expectativas e ainda bem que já prometeu voltar no ano que vem. Um(a)  VIDA que alimenta as pessoas com música boa e com a magia da sua localização no coração da costa catalã.

vida

Foi um belo acerto dos organizadores do já histórico festival Faraday e que começaram com o pé direito com este novo projeto, que já é uma realidade. A programação esteve repartida entre duas localizações, nas quais se respirava o mais puro ambiente do Mar Mediterrâneo, o que a equipe artística cuidou até o ultimo detalhe.

A opção de montanha, Mas d’en Cabanyes, albergou as atuações principais: a Masia (casa tradicional da Catalunha) rodeada de campos de uva e com vistas a Vilanova i la Geltrú, convidava aos assistentes a seguir o caminho e encontrar com uma feira artesanal e os dois palcos principais nos quais não se sobrepôs nenhum show. Assim que chegamos até o inicio do bosque marcado com letras grandes de luzes com a palavra VIDA, encontramos o palco de El Vaixell, uma autêntica barca de pescador para fazer-nos recordar a longa tradição de pesca da localidade catalã. Por último, o palco mais acolhedor, La Cabana, um refúgio para a música e no que tiveram lugar atuações como as do Joan Colomo. Tão acolhedor quanto El Niu (O Ninho), o espaço dedicado aos mais pequenos, ainda que no espaço tudo fosse perfeito para qualquer pessoa, independentemente da sua idade.

yo la tengo

As atrações que mais gostamos da jornada da sexta-feira foram as do Sr. Chinarro (artista da Sevilla), simpático e com letras extraordinárias cantadas desde a barca, mas infelizemente com um público ainda dormido da siesta. O artista declarou-se fã de M. Ward, o que se confirmou quando na atuação do nova-iorquino, vimos a Chinarro mais duma vez  nos ecrãs do palco curtindo o show.

A atuação teve um formato bem mais elétrico do que em outras oportunidades, e M. Ward deixou de lado a técnica do finger-picking própria de ver nos seus concertos acústicos e mais íntimos. Ward tem avôs mexicanos, é músico e produtor de outros artistas, toda uma figura da indústria da música e com duas baterias sobre o palco, a precisão da percussão marcou uma autenticidade em canções como Primitive Girl. O show foi programado numa hora intermediária, envolvida pelo entardecer e pela chegada de mais público.

galera

Acabamos na sexta-feira com Rufus Wainwright, que comentou sobre não ter a voz muito boa, mas nós não percebemos nada estranho em nenhum instante. Ele só ao piano e à guitarra, dedicou o último tema a capella a sua mãe, que foi professora de canto e com quem sempre foi muito próximo. Rufus nos prometeu que na sua próxima visita vai cantar a canção Barcelona, de Freddie Mercurie e Montserrat Caballé.

Regressamos no sábado, a voz de Silvia Pérez Cruz e a guitarra de Raül Fernández, nos deixaram com a boca aberta. Com muito mais público do que na sexta, o espaço da barca foi um mar de silêncio e admiração para o dueto que está enchendo as salas da Espanha toda. A cantora nos explicou que os estados da pena, raiva e resignação convivem nesta vida e o recompilatório de canções reflete as vivências de diferentes autores, desde Albert Pla até a chilena Violeta Parra.

Ao mesmo, oficinas de Yoga, Ipads para brincar com a app Toc and Roll (criação de Minimúsica do selo Sones) e muitas outras coisas aconteceram no palco dedicado às crianças. Pudemos escutar o cover de Blister in the Sun dos ViolentFemmes da mão dos jovens de Mataró, The Free Fall Band. As crianças ficaram de boca aberta!

Nas atividades paralelas ao festival, nesse mesmo dia tinha haveria uma apresentação sobre o livro Big Day Coming. Yo La Tengo e o auge do indie-rock de Jesse Jarnow, mas infelizmente a mesma teve que ser cancelada devido a atrasos com os vôos. Não por isso, os fãs deixaram de curtir o show da banda-tema do livro, os quais fizeram uma belíssima apresentação e  não esqueceram de músicas como Sugarcube ou Today is the day.

Lana
Lana Del Rey

Nesse mesmo palco teve lugar a atuação da polifacética Lana del Rey, headliner e cabeça de campanhas de publicidade, a modelo e cantora é um ícone das nova gerações, o que muitos, tentam, mas poucas o conseguem.

Tendo em vista tudo isso, aprovamos o VIDA e esperamos que venham muitas outras edições. Longa vida ao festival!

O lado escuro da fama: 228 entrevistas censuradas com artistas como Strokes, Bowie e Pink Floyd

Neil Strauss é nome bem conhecido no jornalismo americano. Durante mais de 20 anos, entrevistou para veículos como o jornal New York Times e a revista Rolling Stone, artistas e personalidades ligados ao cinema, moda e principalmente música, fez reportagens investigativas e escreveu biografias de Marylin Manson, Mötley Crüe e o best seller mundial “O Jogo”, em que se infiltra em uma sociedade secreta de conquistadores e sai de lá supostamente como um expert no assunto. O título, inclusive, deve virar filme logo.

E foi remexendo nos originais dessas matérias (segundo Strauss mais de 3000) que o autor resolveu reunir em um livro passagens que foram censuradas ou não saíram à época nas publicações com qual contribuiu. Em inglês o compêndio ganhou o nome de Everybody Loves You When You’re Dead (Todo Mundo Te Ama Quando Você Morre, em tradução livre) que acabou de ganhar uma versão em português chamada Fama & Loucura: Entrevistas Censuradas Com Os Maiores Artistas do Planeta, pela Editora Best Seller.

Strauss conta da vez que foi comprar fraldas com Snoop Dogg, que escutou o choro de Lady Gaga no seu ombro e que fez o que chamou de “a pior entrevista de todos os tempos” com um Julian Casablancas (The Strokes) bêbado e pouco a fim de falar sobre qualquer assunto. O encontro com o vocalista da banda nova-iorquina, inclusive, é o que inicia o primeiro ato do livro, que ao todo é dividido em dez deles, como se fosse uma peça de teatro. Ao todo são 228 conversas com Led Zeppelin, Pink Floyd, Bruce Springsteen, Bob Dylan, Radiohead, The Who, Eric Clapton, Britney Spears, Justin Timberlake, Paul McCartney, R.E.M., Madonna, Bob Dylan e uma lista que eu teria que passar o resto do dia aqui digitando para que ficasse completa.

Em um trecho ele conta: “[…] (Julian Casablancas) se senta no meu colo, beija meu pescoço sete vezes e tenta me beijar na boca três vezes, conseguindo uma. Antes que eu consiga me limpar, ele já saiu do bar e está indo para casa em uma cadeira de rodas que encontrou do lado de fora.”

Nas suas matérias, o jornalista tenta captar o lado mais pessoal dos entrevistados e como a fama, sucesso e a grande exposição afeta a vida cotidiana deles. Em entrevista recente a’O Globo, ele disse: “Todo mundo que eu entrevistei, seja Chuck Berry, o inventor do rock’n’roll, ou Gaga, que estava vivendo seu grande momento de fama, se sentia perseguido. Eles acreditavam no que de negativo era publicado sobre eles. Acho que, especialmente na cultura de hoje, deve-se viver com o que se é, não com o que dizem sobre você. Há sempre quem vai querer sua desgraça quando você faz sucesso. É por isso que o livro se chama “Everyone loves you when you’re dead”. Quando você morre, afinal, não oferece mais competição.”

Excelente pedida para quem gosta de cultura pop, mas também de entender melhor a personalidade humana, o autor consegue definir boas entrevistas em uma frase: “Você pode dizer muita coisa sobre uma pessoa em apenas um minuto – se você escolher o minuto certo”.

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Courtney Love e o autor.

UPDATE: Estamos sorteando dois exemplares do livro AQUI

ENTREVISTA EXCLUSIVA : Violent Femmes – “Nossa música foi desenhada para ser atemporal”

Por Mar Herrando, de Barcelona

O Violent Femmes, banda clássica dos anos 80 e 90, voltou, mas não só para tocar nos Estados Unidos. Também viajaram à Europa para fazer uma pequena turnê de quatro shows, acabando na cidade de Vitoria, no norte da Espanha. O motivo foi retornar ao Azkena Rock Festival, que nos dias 20 e 21 de junho completou sua 13ª edição, e no qual a banda já tinha sido escalada há exatamente dez anos.

O show foi excelente e começou com três sucessos do seu primeiro álbum, auto-intitulado, de 1982: “Blister in the Sun”, “Kiss Off” e “Please Do Not Go”. Também cantaram “Add It Up”, “Good Feeling” e “Confessions” e deixaram tempo para a melhor performance percussiva do novo baterista, Brian Viglione, acompanhado de um cajón flamenco (instrumento espanhol). Para finalizar, como não poderia ser diferente, mandaram “American Music”.

Além de realizar o sonho de ver uma das minhas bandas preferidas ao vivo, tive a oportunidade de falar rapidamente, por e-mail, com o baixista Brian Ritchie, único membro remanescente da formação original do grupo. Abaixo, você confere as respostas:

O show no Azkena Rock Festival foi a última parada de vocês na Europa e também o primeiro na Espanha desde novembro 2006. Que memórias vocês tem daquela tour?

Brian: A gente sempre curte tocar na Espanha. É muito cômodo para nós. Nós tocamos em Azkena há 10 anos e alguns dos outros artistas, eu lembro que eram MC5 e Roger McGuinn. Foi fantástico. Um dos nossos sidemen, Jarrod Oldman gostou tanto que ele casou com uma menina de Vitoria e começou uma família. Ele ainda mora aqui. Não lembro muito porque na época bebi absinto demais (risos). Cidade boa e comida boa.

outro

A confirmação da escalação de vocês pro line-up foi uma surpresa para os fãs da banda na Espanha. Ainda assim, há outras gerações que foram festival além de quem nasceu no começo dos ano 80- e seu primeiro LP foi lançado em 1982. Eles quiseram escutar canções de diferentes períodos da banda? Por que você acha que estas gerações continuaram a ser influenciadas pela a fusão de punk e folk que vocês fazem, independentemente do período musical da banda?

Brian: Nossa música foi desenhada para ser atemporal. Quando fizemos o primeiro álbum, evitamos intencionalmente qualquer ferramenta de produção que teria feito com que o álbum ficasse preso num período de tempo específico.  Nós quisemos soar como algo que poderia ter sido gravado nas décadas de 1950, 1960, 1980 ou no futuro.

Agora estamos no futuro e o pessoal ainda gosta, assim acho que nossa estratégia deve ter funcionado. Nós somos parte da continuidade da música americana, iniciada com o  folk, blues e early jazz, através do rockabilly e punk. Estamos seguros de tocar para qualquer pessoa de qualquer parte, idade e pensamento. Porque nossa música é simples e direta. 

Ainda sobre a volta, a qual começou em Londres, e terminou no sábado passado no Azkena Rock Festival em Vitoria. Este último show foi o único dos quatro em Europa que foi num festival. Como vocês se sentiram num evento internacional com um line-up puramente de bandas rock?

Brian: Nós não nos importamos. Tocamos em festivais de jazz, folk, blues, e inclusive de metal. Não acreditamos em fronteiras musicais. Estive num festival na Tasmânia chamado MONA FOMA (www.mofo.net.au) no qual existem zero fronteiras musicais e essa é nossa filosofia.

“Out the window”, “Good Feeling” e “Used to be” falam sobre uma felicidade que foi embora, mas nunca vai voltar. Mas ainda assim, por outro lado, a galera pode ganhar um pouco de esperança e fé em canções como “Rejoice and be happy” ou “This Island Life”. Nos poderia dizer se você acha que esta compensação, esse equilíbrio, é o paradigma eterno do comportamento humano e também se poderia ser uma das razões do seu sucesso contínuo?

Brian: Se você parar pra pensar, em muitas música que as pessoas desfrutam, há algo introvertido e deprimido nas letras, enquanto a música por si mesma é algo alegre. Por exemplo, o blues é uma porção de queixas, mas a galera gosta de dança-lo e jogarfora da sua mente as preocupações. Nossa música é uma expressão da humanidade real, não tenta ser cool ou criada. As pessoas podem se ver nela e é por isso que se relacionam com ela.

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Qual é a melhor e a pior versão da “Kiss off” que você já escutou ?

Brian: Se você procurar no Youtube, tem uma versão de Kiss Off que os Dresden Dolls fizeram e que é impactante, e foi aí que pensei em colocar o Brian Viglione na banda, quando precisávamos de um novo baterista. Eu também escutei outras bandas fazendo covers boas, mas não lembro dos seus nomes agora. Nunca escutei uma versão má, porque a canção em si mesma é boa.

Por fim, você descobriu alguma banda que faz essa mistura de punk e folk com a mesma sutileza e qualidade com o que vocês fazem?  E se você nos poderia fazer uma recomendação de alguns dos seus artistas favoritos.

Brian: Obrigado pelo elogio. Imagino que poderia dizer que Bob Dylan e Jonathan Richman tem feito isso há50 anos mais ou menos. Há muitas bandas novinhas que estão influenciadas por nós como os The Lumineers e Ben Kweller. Com certeza eu acho que os Femmes são a melhor em folk-punk, mas eu estou fortemente inclinado! Enquanto há jovens com atitudes ruins e ideias boas, vamos ver o estilo de música que está surgindo aqui e ali.

ENTREVISTA: 4 perguntas para José Barreiros, diretor do NOS Primavera Sound.

O Primavera Sound cada vez mais chama a atenção dos apaixonados por música contemporânea. O festival, que nasceu em Barcelona e vai para sua 15ª edição em 2015, ganhou os olhos do mundo apostando na diversidade de estilos e no melhor do que ocorre no vasto cenário musical pós-internet, sem esquecer de homenagear o passado. Fez tanto sucesso que ganhou irmão na cidade do Porto, em Portugal: o Nos Primavera Sound, o qual nós tivemos o prazer de cobrir a edição de 2014 aqui.
E para entender melhor toda a diversidade do intercâmbio entre as edições espanhola e portuguesa e também a importância para as bandas brasileiras e lusitanas de um festival tão comentado no calendário internacional falar a nossa língua materna, a Mar Herrando, amiga e colaboradora do blog fez quatro perguntas para José Barreiros, diretor da versão portuguesa do festival.

Por Mar Herrando

Que consequências para a música cantada em português você acha que tem gerado essa união entre os festivais de Barcelona e Porto?

José: Num festival em Portugal é normal que tenha a presença de grupos que cantam em português. No entanto, nos últimos anos temos confirmado que a música brasileira e os grandes clássicos como Gilberto Gil, Caetano Veloso e Chico Buarque, também têm a companhia de artistas que têm ousado a criar uma nova música e Europa conhecia muito pouco. Antigamente era mais um fenômeno português, mas penso que artistas como Rodrigo Amarante ou como Marcelo Camelo deram à música brasileira um novo enfoque que fez a Europa apreciar muito esse estilo. E é normal que eles agora comecem a tocar em festivais na Europa, não só em Portugal por suposto. E estas são as diferenças de por exemplo estar em Barcelona, que teve uma presença muito grande de bandas brasileiras e também apostam no mercado brasileiro que confirmam o que estava falando anteriormente.

 familias

Você acha que há uma maior exportação de música portuguesa ao Brasil ou uma maior importação de música brasileira a Portugal?

José: Importa bem mais do que se exporta. É muito difícil para um artista português ter uma carreira em Brasil. Há poucos que se movem do lado da World Music como o fado ou nos últimos tempos, por exemplo, Antonio Zambujo e que conseguem ter uma carreira em Brasil, mas artistas brasileiros em Portugal o conseguem.

Estamos bem mais abertos à cultura brasileira do que o Brasil está à cultura portuguesa. Por tanto, é normal que artistas grandes de Brasil sejam também grandes em Portugal. Nós temos uma influência muito grande da cultura brasileira já das novelas brasileiras até a música, são quase 40 anos de importação de cultura brasileira. E Portugal em Brasil ainda é visto como um país com pouca dinâmica cultural, mas opino que nos próximos anos isso vai ter tendência a desaparecer e a que a relação seja mais equilibrada.

Como você já sabe o festival Primavera Sound em Barcelona é um festival totalmente internacional com uma presença superior de 40% de público estrangeiros. . Qual é vosso truque para conseguir respirar o ambiente de Porto num festival tão internacional como é Nos Primavera Sound e que seja tão local ao mesmo tempo?

José: Primeiro que temos um local completamente diferente que o de Barcelona, é uma mordomia muito grande poder fazer um festival num espaço tão bonito. Isso implica o cuidar, isso é um espaço verde que de nenhuma forma queremos estragar do Parque da Cidade no Porto.

Por outro lado, a presença de estrangeiros em Porto está acima de 30% dos espectadores do festival, ou seja, não é só um festival para portugueses, temos mais de 30 nacionalidades aqui representadas também. Isto aumenta a marca Primavera Sound, que é uma marca muito forte em todo mundo, é considerado o melhor  festival de música da Europa e faz que todo aquilo que Primavera Sound faça tenha repercussão internacional. Em Porto nós elaboramos uma matriz mais local precisamente para o distinguir de Barcelona, é um festival mais intimista. Queremos que seja especial, que as pessoas se sintam bem, e também é um festival que atrai a muitas pessoas acima dos 40 anos, sendo o único festival em Portugal que tem mais pessoas com mais de 40 anos que com menos de 18. E toda essa interação entre a cidade e o festival faz que pareça mais local, quando no fundo não deixa de ser um festival internacional. Mas ao mesmo tempo queremos que o festival também seja um evento da cidade do Porto, por isso convidamos aos restaurantes tradicionais: as tasquinhas da cidade, que vem aqui a apresentar seus produtos. Apresentamos no mercadilho muitos artistas locais, criadores de moda, de mobiliário, de calçado, para que estejam presentes para mostrar seus produtos porque queremos que as pessoas conheçam Porto. Além disso, Porto ainda é desconhecida para a maioria dos europeus e a nível mundial, e também queremos que o festival seja uma aposta turística e daí essa aposta pelo local e pelo que é nosso.

 

Para acabar, acontece como em Barcelona que o festival já está tão enraizado entre o público que faz com que se esgotem os primeiros 1000 ingressos – lote máximo –  após apenas duas semanas do fim do festival?

José: Sim, completamente. No ano passado, após quinze dias que o festival acabou, começamos a vender o primeiro lote de mil bilhetes e se esgotaram em duas horas. Por tanto, acho que quando as pessoas saem daqui, querem que isto não acabe, querem perpetuar em suas memórias o festival,  e tão cedo têm a oportunidade, o compram para o próximo ano. Isto é sinal que temos uma relação muito próxima com nosso público que reconhece que estamos a realizar um bom trabalho.

Mar Herrando é jornalista e acha que as melhores parcerias são sempre feitas de música. Nascida e estabelecida em Barcelona, morou por um ano em Fortaleza com o fim de estudar Comunicação Social e conhecer de perto a cultura brasileira. Voltou, mas a a saudade ainda não tem ido embora, assim que em tempos de Copa, decidiu matá-la escrevendo em português para um blog musical do Brasil que só sabe falar de coisas legais.

(foto por Mar H. Salvador)
(foto por Mar H. Salvador)
Caetano Veloso (foto por Mar H. Salvador)
Caetano Veloso (foto por Mar H. Salvador)
Foto por Mar Herrando
Foto por Mar Herrando
Foto por Mar Herrando
Foto por Mar Herrando

 

Nos Primavera Sound em Portugal: grandes festivais europeus também falam português

A versão portuguesa do Primavera Sound em Portugal também vale a pena (foto por Mar H. Salvador)
A versão portuguesa do Primavera Sound em Portugal também vale a pena (foto por Mar H. Salvador)

Acabei de voltar de uma temporada pela Europa onde acompanhei de perto o Primavera Sound em Barcelona, como contei no último post, e mais alguns shows em Paris, incluindo uma entrevista com o Slowdive, dos quais falarei por aqui em breve. Mas pra quem quer uma outra (boa) opção de festival europeu a Mar Herrando conta no texto abaixo como é a experiência do festival português irmão da versão catalã.

TEXTO POR MAR HERRANDO

Nos Primavera Sound: Mais do que uma linguagem musical.

Ontem começou a Copa do Mundo e já escutamos falar muitas vezes que em tempos de Copa o Brasil está aberto ao mundo. Mas, para nós, o Brasil não é só futebol. É muito mais e sua língua ganha cada vez mais terreno entre diferentes festivais musicais europeus.

A versão lusa do Primavera Sound foi há uma semana, exatamente nos dias 5, 6 e 7 de junho, no Parque da Cidade do Porto. O evento contou com mais de 70.000 participantes de 40 nacionalidades diferentes, mas sem perder o seu selo português.

(foto por Mar H. Salvador)
(foto por Mar H. Salvador)

Não vamos cair em comparações, porque estas são odiosas, mas se alguém quer um festival maciço mas acolhedor, internacional mas local, lotado mas varejista, o seu festival é o Nos Primavera Sound. Organizado pela Pic-Nic Produções, o evento fez sua primeira edição em 2012 e mais uma vez  cuidou dos seus fãs com pequenas lembranças gratuitas: flores, nuvens de cores, capas de chuva e, como não poderia faltar, o saco oficial que se transforma numa toalha de mesa quadriculada perfeita para um pic-nic. A galera pode curtir os concertos de forma descontraída, deitando no gramado. O Nos Primavera Sound é um festival para os amantes da música, onde todos podem criar a sua própria experiência musical e a diversidade é garantida, de jovens até familias – que tem a opção do Miniprimavera, espaço dedicado às crianças.

Além disso, como fica dentro do Parque da Cidade, os participantes encontram de um lado uma feira promovendo a cultura local e do outro as Tasquinhas, com pratos tradicionais portugueses. Além de todos estes detalhes, a prefeitura de Porto aumentou  a freqüência de ônibus para facilitar o retorno aos diferentes pontos de cidade e evitar avalanches de pessoas.

(foto por Mar H. Salvador)
(foto por Mar H. Salvador)

Quinta-feira, 5 de junho: primeiro dia em que reinou a língua portuguesa.

 Na quinta-feira, 5 de junho, os participantes puderam desfrutar de todos os shows, sem stress, sem deslocamentos entre palcos e sem sacrificar qualquer show por outro, porque felizmente eles não se sobrepõem. Os concertos foram alternados entre os dois palcos principais, localizados num lindo vale do Parque da Cidade. A banda portuguesa “Os da Cidade”abriu o festival no palco Nos, patrocinador principal do festival. O carioca Rodrigo Amarante, no palco Super Bock – ao lado – foi o seguinte. A lusofonia reinou na primavera e o sucesso foi dividido entre artistas do Portugal e Brasil.

Caetano Veloso (foto por Mar H. Salvador)
Caetano Veloso (foto por Mar H. Salvador)

O dia continuou com a banda americana Spoon, que abriu com o tema Don’t You Evah e fechou com Black like me. Os garotos de Austin sabem fazer bem as coisas e ninguém melhor do que eles sabem se portar em um festival e se aproximar de um público que ainda estava esquentando na primeira tarde do evento. Então chegou a multifacetada Sky Ferreira, que depois de sua performance no dia gratuito do festival irmão de Barcelona, retornou ao line-up do Primavera Sound em Portugal.  A jovem da Califórnia fechou a tarde e abriu o caminho à noite, para dar espaço a uma das principais lendas da Música Popular Brasileira: Caetano Veloso. O baiano não esqueceu canções como Estou Triste, tão conhecida no Brasil quanto em Portugal, país no qual muitos artistas brasileiros foram capazes de desenvolver também sua carreira profissional. Depois seguiu o trio Haim, o good boy Kendrick Lamar e fecharam a noite os australianos Jagwar Ma que, para muitos, ajudam a matar a saudade que temos do Primal Scream, mas com o seu toque pessoal e inconfundível.

Sexta-feira, 6 de junho: as ofertas musicais duplicaram.

A gente voltou para o parque e não foi difícil ficar à vontade, mas fazer escolhas foi mais complicado do que na quinta, com o dobro de shows e, portanto, o dobro de cenários. Tivemos que selecionar e o roteiro ficou assim: Follakzoid, Midlake, Television, Warpaint, Slowdive, Pixies e John Wizards até ver fechar o palco Pitchfork.

(foto por Mar H. Salvador)
Franck Black abrindo a boca pra cantar, claro.(foto por Mar H. Salvador)

Aqui fizemos sacrifícios, mas a acessibilidade do Parque da Cidade e a sua boa distribuição fez com que nos sentíssemos satisfeitos com a otimização do tempo e com a qualidade do festival. Nossa primeira parada foi no palco ATP e começamos com a chilena Follakzoid. Ficamos impressionados com a energia do baterista e as canções de pelo menos 10 minutos de duração. Estivemos decididos a sacrificar o fim do show deles para apreciar o folk-rock psicodélico do Midlake no Super Bock e voltamos ao ATP para ver o Television que começou com uma pequena demora, com eles ainda passando o som e  Tom Verlaine pedindo a galera por cinco minutos. Felizmente o responsável por Marquee Moon conseguiu confirmar o ditado que diz que  “o bom é esperado”.

Depois chegaram as Warpaint, talento e carisma é o que essas quatro garotas de Los Angeles tem. Seu som hipnotizou na atmosfera pós chuva  e os espectadores se entregaram completamente no equador do festival. Mais tarde chegou uma das reuniões que sempre caracterizam a programação do Primavera Sound, o Slowdive , que após uma inatividade de duas décadas se mostraram em sua melhor forma. Mais um exemplo de estar em forma, chegava o show mais esperado da sexta-feira e o momento dos Pixies. Tocaram uma música após a outra, sem esperas, e Frank Black ofereceu os seus melhores jogos de voz, Joey Santiago quebrou um buquê de primavera contra seu violão e a cumplicidade profissional entre a novo baixista Paz Lenchantin e o baterista David Lovering tornou-se clara. Terminaram com Where is my mind? e após isso grande parte do público decidiu deixar o local.

(foto por Mar H. Salvador)
Slowdive (foto por Mar H. Salvador)

Sábado, 7 de junho de: mais dilemas, roteiro ainda mais difícil.

Se Primavera Sound em Barcelona recebeu aos portugueses Paus de El Segell, o Nos Primavera Sound congratulou aos catalãos Refree, também do mesmo selo. A banda de Raül Fernández abriu o sábado no palco Super Bock, seguido dos norte-americanos Lee Renaldo e John Grant. “Azulejos azulejos…I can’t get enough of them” falava um simpático Grant, que é caracterizado pelo seu interesse na cultura local das cidades que visita (o seu facebook oficial fala por ele mesmo).  Acompanhado da sua banda islandesa, país onde editou seu último álbum, Pale Green Ghosts, o artista ofereceu um show de uma hora, uma viagem com sua mistura de acústica e eletrônica. Com certeza cantou GMF, Black Belt e fechou  com a excelente “Queen of Denmark”,  acompanhado dos seus habituais jogos de luzes. Apenas no palco do lado e dez minutos mais tarde, começamos a ouvir um hino: Don’t Swallow the Cap e com certeza estamos falando de The National. Eles continuaram com I Should Live In SaltMistaken for Strangers e o quarto tema tornou-se a surpresa, St Vincent entrou em cena e um ofereceu um dos melhores momentos do festival. Depois disso, a banda também fez uma longa lista de sucessos como Fake Empire, Sea of Love e Troubles Will Find Me.  Mas chegou o drama, tivemos que deixar o show porque ao mesmo tempo Charles Bradley estava agindo no ATP, funk e soul de categoria contra a banda liderada por Matt Berninger, separados por poucos metros de distância. Foi difícil de assimilar e tive que lidar da melhor maneira possível  com a sobreposição de concertos, mas curtimos demais o show de Bradley e de um genuíno palco ATP, super lotado, apesar de ter uma das melhores bandas do festival tocando ao mesmo tempo.

Em breve uma entrevista com José Barreiros, coordenador do evento, acompanhada de mais imagens.

 

National
The National (foto por Mar H. Salvador)
John Grant
John Grant (foto por Mar H. Salvador)
(foto por Mar H. Salvador)
(foto por Mar H. Salvador)

Primavera Sound 2014 em Barcelona: um festival que você precisa conhecer

“Um dia nós vamos morrer e nossas cinzas vão voar de um avião sobre o oceano. Mas agora nós somos jovens”. A noite, que resiste tanto a chegar por esses lados, finalmente havia possuído Barcelona por completo quando um envelhecido Jeff Mangum entoou os versos diante de uma multidão que se apertava para vê-lo junto ao seu Neutral Milk Hotel. Ao lado, o vento gelado vinha diretamente do mar, ali a poucos metros de distância, tornando as palavras de Mangum ainda mais doloridas, tocantes e pertinentes. E como numa fração de segundo daquelas que de repente muda tudo, eu tinha toda a consciência do mundo de que naquele momento eu pertencia exatamente ao lugar onde eu estava: o Primavera Sound.

O Neutral Milk Hotel havia sido a primeira banda a ser confirmada para o festival, ainda na cerimônia de encerramento da edição anterior. O show deles foi apenas um entre os quase 350 que aconteceram na programação no Parc Del Fórum e outros pontos da cidade. Do indie de arena do Arcade Fire ao black metal do Deafheaven, da psicodelia do Midlake ao pop ensolarado do !!!, era impossível passar o olho pela programação e automaticamente não desejar ver um punhado dos artistas ali listados. Para quem gosta de música alternativa atual, arrisco dizer que a curadoria do Primavera Sound é, hoje, a melhor do mundo e um dos pontos mais fortes do festival ao lado da localização, em um lugar paradisíaco cercado pelo Mar Mediterrâneo. O público, segundo a organização, foi de 190 mil pessoas das mais diferenciadas nacionalidades e o clima em todos os dias foi de tranquilidade e cordialidade. Foi o primeiro evento do tipo a que compareci fora do Brasil e posso dizer com toda a certeza que não me arrependi da escolha.

Cheguei a Barcelona na quarta-feira à noite, depois de uma longa viagem que passou por Buenos Aires e Madrid, enquanto aconteciam apresentações abertas de artistas como os britânicos do Temples e a californiana Sky Ferreira. Aliás, esse é outro ponto interessante do Primavera: a conexão com a cidade e seus habitantes. Mesmo com os ingressos longe de serem baratos (a entrada para os três dias saía por 195 euros no último lote), vários shows gratuitos foram realizados durante a semana, trazendo a atenção e o apoio dos locais ao invés de se fechar apenas ao público pagante. Contudo, devido ao cansaço, achei melhor abrir da programação do dia para descansar e aproveitar o melhor o que viria na quinta-feira.

O acesso ao festival pelo metrô de Barcelona é bastante fácil e o trajeto entre lugar onde eu estava hospedado com minha namorada e o Parc Del Fórum, que fica a 150 metros da estação, foi rápido e sem transtornos. Nesse primeiro dia de festival fechado, a entrada foi lenta e um pouco confusa, devido ao grande número de pessoas e o fato de que todos deveriam trocar os ingressos por uma pulseira de acesso que serviria para os demais dias e um cartão, utilizado para acompanhar a programação nos clubes no centro de Barcelona. Porém, nada que tomasse muito tempo ou arruinasse a experiência que mal havia começado.

Quinta-feira – O primeiro encontro. Com Real Estate, Midlake, Warpaint, Neutral Milk Hotel e Arcade Fire

Logo na entrada, em uma barraca do selo londrino Rough Trade, era possível comprar camisetas de bandas e do festival (de 15 a 25 euros), vinis e CDs (de 10 a 35 euros), mochilas com a marca do Primavera (35 euros) e uma infinidade de outros badulaques de boa serventia a quem quisesse levar um pedacinho daquilo tudo pra casa. Em volta da lojinha da Rough Trade outros stands também vendiam camisetas, discos de bandas obscuras, fones de ouvido, pôsteres, etc. A publicidade existia em bastante quantidade, mas não chegava a incomodar pois, geralmente, vinha contextualizada na forma de um palco, de uma atração ou sinalizando um lugar para alimentação.

Já passava das seis da tarde, então, quando nos encaminhamos para conferir o show do hypado Real Estate em um dos palcos principais, debaixo de um forte sol que, a mim, marinheiro de primeira viagem na Europa, causou forte estranhamento pelo horário. Como eu entrego no parágrafo que abre esse texto, a noite só cairia muito depois.

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Real Estate (Foto por Clarissa Wolff/ Catárticos)

Os americanos fizeram um set baseado no seu mais recentemente lançamento, Atlas (2014), à frente de um público bastante grande para o horário. Eu preciso confessar que essa é uma banda com a qual eu não consigo me empolgar muito. Escutei Atlas por diversas vezes e, mesmo sendo um disco muito longe do ruim, não caiu nas minhas graças. É um rock alternativo cheio de influências dos anos 90, com timbres limpinhos e bons riffs de guitarra. No palco, o show se resume à uma reprodução bem feita das gravações de estúdio e está aí o ponto chave: se você gosta das músicas, vai gostar do que for ver e ouvir.

Aqui vale ressaltar que no Primavera havia um esquema interessante nos palcos principais: eles ficavam um de frente para o outro e se alternavam entre o fim de uma atração e começo de outra, com intervalos de 10 a 20 minutos, de forma que quase sempre haveria alguém tocando pela região e era bastante rápido chegar a outro show.

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Midlake (Foto por Clarissa Wolff/ Catárticos)

E o show seguinte seria do Midlake, grupo que lançou um dos meus discos preferidos do ano passado, Antiphon (2013), no outro palco principal. Quando chegamos, ainda havia um público tímido esperando pelo início dos trabalhos, mas à medida que a banda tocava os primeiros acordes, mais e mais pessoas foram chegando nas proximidades. Sorte a delas. Esse era um dos shows que eu mais queria ver e não me decepcionou nem um pouco. Antiphon foi o resultado do trabalho de uma banda que havia acabado de passar por uma grande turbulência que culminou com a saída do seu vocalista e principal compositor, Tim Smith. Eles tiveram que começar tudo do zero e o disco, mesmo assim, é fantástico, principalmente na sua primeira metade e uma excelente pedida pra quem é fã de boas melodias psicodélicas. No palco, seis músicos compunham uma formação com violão, guitarra, bateria, baixo e dois teclados/sintetizadores, o que pode parecer um exagero, mas fazia toda a diferença para recriar as atmosferas e texturas de estúdio. O perfeito som do palco ajudava a fazer com que a combinação dos instrumentos funcionasse como um macio tapete melódico, pronto para abrigar a voz do agora vocalista principal Eric Pulido, que se alternava com a barulheira distorcida vinda da única e solitária guitarra. Sensacional. Os texanos precisam apresentar esse show no Brasil e, se o fizerem, você não deve perdê-lo. Deve, inclusive, ser melhor ainda em um espaço fechado e sem ruídos que não sejam os emanados pelos integrantes, o que obviamente é impossível em um grande festival. Agora sim eu sentia que o Primavera Sound havia, de fato, começado.

A próxima parada era para conferir o novo show das meninas do Warpaint, baseado no disco homônimo lançado esse ano. É um disco de post-punk interessante, apesar de não trazer nada excepcional. Em ação, as quatro integrantes se mostraram musicistas competentes. Com seus cabelos coloridos e sem se esforçar pra manter uma suposta pose cool, por vezes elas deixaram escapar sorrisos e lá pelas tantas algumas delas começaram a se livrar dos casacos que vestiam, acompanhando a subida de temperatura da plateia, que cada vez se animava mais. O sol se punha lentamente ao redor do Mar Mediterrâneo, o que ajudava a compor um cenário digno da beleza de Barcelona, mas um pouco superior ao só legal show que acontecia ali. Em comparação com outra banda com influências post-punk formada apenas por mulheres, o Savages – que se apresentou no último Lollapalooza Brasil -, elas saem bastante em desvantagem. O que não quer dizer que sejam ruins. Tocar ainda entre o Midlake e o Neutral Milk Hotel tornava a tarefa de ser relevante ainda mais árdua, ao ponto de que esse não será exatamente o show que eu irei mais me lembrar daqui a algum tempo.

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Agora era correr para o palco ATP pra pegar o início da apresentação do Neutral Milk Hotel, banda cult dos anos 90 que, depois de anos, se reuniu para uma concorrida turnê. Aqui eu preciso avisar que se você pretende algum dia ir ao Primavera Sound, você tem que estar ciente de que irá andar MUITO. São muitas bandas, muitos palcos e a maioria deles fica bastante longe uns dos outros, ao ponto que as caminhadas do último Lollapalooza Brasil, que causaram certo descontentamento em alguns, são só uma espécie de treino se comparado ao festival espanhol. Mas ainda era o primeiro dia e esse show valia todo o esforço.

Muita gente já aguardava a apresentação e conseguir um lugar no apertado espaço foi tarefa difícil, mas bem recompensada quando a banda apareceu e performou as três partes de King of Carrot Flowers apoiada em um coral uníssono dos presentes. É impossível ter escutado o disco clássico do Neutral Milk Hotel, In the Aeroplane Over the Sea (1998), e não se lembrar do prolongado verso “I love you Jesus Christ” que abre uma das partes de King of Carrot… Eu, que estou longe de ser praticante de alguma religião, não pude evitar em ficar arrepiado. O que se sucedeu depois disso foi um desfile de músicas coerente com o espírito da banda, alternando entre a alegria esquizofrênica e a melancolia doce, que atingiu o seu ápice na cena que eu descrevi no primeiro parágrafo desse texto. Fantástico. Outro show que tem que passar pelo Brasil. E logo.

Neutral Milk Hotel (Foto por Clarissa Wolff/ Catárticos)
Neutral Milk Hotel (Foto por Clarissa Wolff/ Catárticos)

O cansaço já batia forte, mas ainda havia um último show que queríamos conferir no primeiro dia. E enquanto era possível escutar o Queens of the Stone Age no palco ao fundo, fazendo a apresentação que eles trarão ao Brasil no segundo semestre, uma multidão já esperava os canadenses do Arcade Fire. E foi uma multidão, mesmo. Provavelmente o show com o maior público do festival, algumas pessoas com quem conversei posteriormente reclamaram de não ter conseguido ver ou ouvir bem o palco. Esse foi um problema com algum dos shows mais concorridos do festival e é algo que precisa ser repensado pela organização. Eu, por exemplo, não consegui ver o palco no show do Mogwai no último dia, mas para o Arcade Fire, acabei pegando uma boa posição. E o grupo fez basicamente o mesmo show do Lollapalooza Brasil, com apenas algumas adições ao repertório – eles tocaram todas as músicas do show paulista mais “Rococo”, “Keep the Car Running”, “Joan of Arc” e “We Exist”. Entretanto, a animação do público espanhol não chegou nem perto da brasileira. No palco, os integrantes pareciam animados, mas cansados e nada muito especial aconteceu. No fim, foi ótimo, mas sem o tom de novidade do Lolla. Irei ver o Arcade Fire ainda mais uma vez nessa turnê, em Paris, na semana seguinte ao Primavera para saber como eles se comportarão em um show solo e fora de festival.

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Arcade Fire (Foto por Clarissa Wolff/ Catárticos)

Achamos que era a hora de voltar para casa, mas a saída foi um pouco turbulenta nesse primeiro dia. O metrô havia parado à meia-noite (o show do Arcade Fire acabou por volta das duas da manhã) e só reabriria às 05h, as filas para ônibus eram lentas e quilométricas e os taxis eram pouquíssimos e ridiculamente concorridos. Depois de quase duas horas esperando e um bocado de esforço, conseguimos pegar um e nos recompor, na medida do possível, para o que viria no próximo dia. E que dia.

Sexta-feira – O Dia D. Com Slowdive, The National e Jesu

Quem me acompanha pelo Twitter ou pelo meu Facebook pessoal, certamente sabe que The National é uma das minhas bandas preferidas. Talvez A preferida. E o único show a que tinha assistido deles, em 2011 em São Paulo, sempre será lembrado como um dos mais especiais da minha vida. Por isso quando eles foram confirmados como atração principal do Primavera Sound, ao qual já planejávamos ir antes, foi o sinal definitivo para selarmos a viagem.

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(Foto por Clarissa Wolff/ Catárticos)

E o tempo em Barcelona já não era mais tão ensolarado no dia anterior, quando uma forte chuva começou a cair pela cidade. A galera se protegia como dava e nós tivemos que sair correndo para chegar até a área coberta da praça de alimentação. O público era bem menor que na quinta-feira, um pouco pela tempestade, um pouco pelas atrações não serem tão populares, o que fez com que ao chegarmos no palco onde The National e Slowdive se apresentariam, uma hora e meia antes do show dos britânicos, conseguíssemos sem problemas ficar no lugar mais central da grade. No palco oposto, as irmãs do HAIM faziam seu o show sem incomodar ou chamar a atenção de ninguém que estivesse por ali. Tanto que quase nem me lembrei de citá-las no texto.

A reunião do Slowdive corria como rumor já há um bom tempo, mas quando ela se confirmou, não houve um site sério de música que tenha deixado de pelo menos citar o fato. É interessante notar que o Slowdive nunca foi e nunca vai ser um sucesso massivo de público, mas como aconteceu com várias bandas dos anos 80 e 90 que terminaram, voltaram com a pecha de headliners. Mas quem se importa com isso quando a banda é tão boa em disco? Restava saber se ao vivo eles corresponderiam ou era apenas mais uma saudosista turnê caça-níqueis. Digo a vocês, então, que se a turnê de reunião do Slowdive foi feita pelo dinheiro, eles merecem cada centavo que ganharam. O que eu e mais 25 mil pessoas presenciamos ali na nossa frente, no palco Sony, foi uma banda inteira, intensa e com um repertório invejável. Bons músicos e, sobretudo, bons artistas, que conseguiram tornar pequenos clássicos ainda mais poderosos ali. Melodias lindas cravadas em distorções pesadas e asfixiantes capazes de fazer qualquer fã de boa música se encantar. Ouvir minha música preferida deles, “Machine Gun”, algo tão improvável há algum tempo, foi, no mínimo, libertador. A essa altura a chuva já tinha ido embora há tempos, mas o som das guitarras da banda corria como água pelo corpo dos que estavam ali a ponto de ser uma tarefa hercúlea tentar não fechar os olhos e balançar a cabeça no ritmo do som, entregue. Quando a banda avisou que teria que cortar uma música do repertório devido ao tempo – que provavelmente acabou sendo a mais famosa, “Alison” – alguém gritou da plateia o que todo mundo parecia sentir: “FUCK THE PIXIES!” (próxima banda a tocar no palco oposto). Mas não teve jeito, tivemos que nos contentar com “apenas” mais uma música, um cover de uma faixa solo do primeiro líder do Pink Floyd, Syd Barrett, executado numa versão totalmente slowdiviana. De todos os shows que eu já pedi no Brasil nesse texto até agora, esse é o que urge mais acontecer. Alguém, por favor, traga a banda para o nosso país. Se isso se confirmar, com certeza estarei lá novamente. Tinha sido o melhor show do festival até o momento. Disparado. Mas aí veio o The National.

Matt Berninger, The National (Foto por Clarissa Wolff/ Catárticos)
Matt Berninger, The National (Foto por Clarissa Wolff/ Catárticos)

Música é algo subjetivo, pra quem faz ou pra quem ouve, e como qualquer outra manifestação artística, depende tanto de qualidade interpretativa e técnica, como de bagagem emocional e sentimento de pertencimento. Não raro, músicas populares podem emocionar muito mais intensamente que sinfonias clássicas.

Poucas coisas me emocionam mais do que o The National. Posso dizer, com certeza, que eles são uma das grandes razões de eu estar aqui hoje, falando e querendo conhecer cada vez mais sobre música. O impacto pessoal do show deles a que assisti em 2011 foi tão grande que é difícil imaginar como seria minha vida hoje se ele não tivesse acontecido. Por isso, quando eles finalmente entraram no palco e tocaram as primeiras notas de “Don’t Swallow the Cap”, do recente “Trouble Will Find Me” – do qual nem gosto tanto -, eu sabia que algo muito especial estava por vir. E veio. A emoção de você assistir a sua banda preferida no palco é indescritível, quem já passou por isso sabe. E daí pouco importa se a crítica a acha a mais importante, relevante ou o diabo que o valha. Ali, aquela é a melhor banda do mundo. A melhor banda do seu mundo. E isso é mais que suficiente. Pelas quase duas horas em que eles estiveram no palco, ver a loucura intensa e prestes a transbordar de Matt Berninger, as personalidades diferentes dos irmãos gêmeos Bryce e Aaron Dessner e a precisão cirúrgica dos irmãos Devendorf se converterem em música, me lembraram de quem eu era e de que tudo sempre valeu a pena. O poder da música é o poder da vida. E mais uma vez, aquele foi o show da minha vida.

Já tinha sido o melhor dia de música que eu havia tido a chance de presenciar, mas ainda dava para curtir o show do Jesu, que começaria no palco da Vice em uma meia hora. Fomos pra lá e o ar gélido vindo do mar não hesitava em castigar os brasileiros mal vestidos pro frio europeu. O clima, entretanto, era perfeito para o shoegaze obscuro e atmosférico da banda. Em formato de duo, com um baixo e uma guitarra sob bases pré-gravadas, eles tocavam ao passo que imagens macabras em preto e branco iam rolando no telão ao fundo. De dar um frio na espinha. Gostaria de ter visto até o final, mas a fome, o cansaço e o frio fizeram com que tivéssemos que sair antes do término. Agora faltava um dia.

The National (Foto por Clarissa Wolff/ Catárticos)
The National (Foto por Clarissa Wolff/ Catárticos)

Sábado – Adéu, Barcelona! Com Teho Teardo & Blixa Bargeld, Caetano Veloso, Goodspeed You! Black Emperor, Kendrick Lamar, Cloud Nothings e Mogwai

Nesse momento eu já estava completamente apaixonado por Barcelona. Cidade de arquitetura linda, banhada pelo Mar Mediterrâneo e de povo tão simpático e cordial, virou uma piada entre eu e minha namorada virarmos um para o outro em momentos completamente aleatórios e suspirar “I love Barcelona”. Fomos muito felizes quando escolhemos esse pra ser o destino da nossa primeira viagem ao exterior. E era ali o momento de nos despedirmos, pronto para seguir para Paris. E que jeito melhor de se despedir do que com boa música?

Por isso, por volta das sete horas, com o sol brilhando no céu e todo mundo já com cara de cansaço, segui para o Auditório Rockdelux para acompanhar sentado a parceria ítalo-germânica de Teho Teardo & Blixa Bargeld. Teardo é um conhecido compositor italiano de trilhas sonoras e membro fundador da banda noventista Meathead. Bargeld é o líder da seminal banda alemã Einstürzende Neubauten e que já trabalhou com gente do calibre de Nick Cave. Se juntaram ano passado para lançar o ótimo disco Still Smiling (2014), que acabou até na minha lista de 20 melhores do ano. A apresentação era feita com Teardo no baixo, enquanto Bargeld deixava ecoar sua voz grave e angustiante, apoiados por instrumentos de orquestra, como violinos e violoncelos. Foi sombrio e lindo.

Vista do palco onde se apresentava Caetano Veloso (Foto por Clarissa Wolff/ Catárticos)
Vista do palco onde se apresentava Caetano Veloso (Foto por Clarissa Wolff/ Catárticos)

Era a vez, então, de conferir o show do Goodspeed You! Black Emperor, um dos que eu mais queria ver em todo o festival, no palco ATP. Mas como ainda faltava um bom tempo para o início do show, ficamos assistindo à apresentação de Caetano Veloso no palco da marca de óculos. E como estava cheio! E ver aquele monte de gente tentando acompanhar um brasileiro cantando em português em um palco encravado no meio de um cenário paradisíaco, de repente, me despertou uma pontinha de saudades de casa. Que estariam fazendo minha família e meus amigos naquele momento enquanto a milhares de quilômetros de distância eu ouvia o Caetano cantar que o lugar mais frio do Rio era o quarto dele? Mas longe de estar triste, eu estava muito, muito feliz e aparentemente Veloso e sua banda Cê também. Pareciam animados e soando rock’n’roll até nos maiores sambas. Os gringos adoraram.

Já no palco ATP, um som grave e contínuo deixava no ar que logo o Godspeed You! Black Emperor entraria. Esse ano os canadenses completam 20 anos de grupo e mesmo sem serem conhecidos do grande público, já tem um lugar cativo na história da música moderna. Peritos em misturar o post-rock a elementos de música clássica, lançaram alguns dos discos mais poderosos que eu já ouvi. Se você não conhece a banda, faça-o o mais breve possível. Por isso tudo, estava ansioso para ver como eles portariam ao vivo. E a palavra é exatamente aquela dos discos: poderoso. Com quase sempre três guitarras, duas baterias, um violino, um violoncelo e um contrabaixo, as texturas criadas pelo grupo em meio a timbres ruidosos e instrumentos clássicos, acompanhadas de belas melodias transportaram os presentes a um mundo em decadência, mas ainda cheio de esperança, como se as notas mais bonitas fossem flores nascendo dentre os escombros de distorção. Uma hora e meia de catarse completa e um dos melhores shows do festival.

Mas era preciso sair rápido do transe e atravessar o Parc Del Fórum para chegar até a apresentação do rapper Kendrick Lamar, no palco da cerveja, que já havia começado. Sou recebido com o sucesso “Bitch Don’t Kill My Vibe” do já clássico do gênero Good Kid, M.A.A.D City (2012). Bastante cheio, não consigo chegar muito perto do palco, mas dá pra ter uma boa ideia de como é o show do americano. Acompanhado por uma banda bastante rockeira, ele desfila os versos cheio de empáfia e boas rimas sobre as ótimas bases produzidas dos seus discos. Cheio de ginga, era possível olhar pro lado e ver uma porção de gringos duros tentando dançar ao ritmo das batidas graves. Um bom show, apesar de eu, grande fã do disco mais recente, esperar mais. Tenho pra mim que shows de rap e hip-hop não funcionam tão bem em lugares abertos, onde o som facilmente se dispersa. Em um lugar menor deve ser muito mais impactante.

Galera surfando no Cloud Nothings (Foto por Clarissa Wolff/ Catárticos)
Galera surfando no Cloud Nothings (Foto por Clarissa Wolff/ Catárticos)

A noite já engolia todo o local quando eu retirei forças do além para atravessar novamente o Parc Del Fórum em cerca de dez minutos, para pegar a metade final da apresentação do Cloud Nothings. Gosto bastante dos dois últimos discos da banda e ao vivo a energia dos caras é incrível. Quando eu cheguei no palco da Vice já era possível ver uma galera surfando na multidão e se jogando ao som das pauladas que vinham do trio. Não tem muito o que dizer: é rápido, é pesado, é rock e é bom. Esse é um show que deve aparecer no Brasil esse ano e se você tiver a chance, não perca. Vale demais. O vocalista Dylan Baldi também estava se divertindo e antes de anunciar como última música uma versão de mais de 10 minutos de “Wasted Days” foi ao microfone agradecer ao público e sentenciar “This is a cool festival”. Realmente é.

Dylan, Cloud Nothings (Foto por Clarissa Wolff/ Catárticos)
Dylan, Cloud Nothings (Foto por Clarissa Wolff/ Catárticos)

Restava para nós o show do Mogwai, em um palco tão abarrotado de gente que eu não conseguia vê-lo de onde eu estava, apenas ouvi-lo. Vi o Mogwai em 2012 na versão brasileira do Sónar e o show foi espetacular. O do Primavera Sound soava ainda melhor. Não haveria jeito melhor, pra mim,de terminar aquele primeiro Primavera Sound. Quando começaram os primeiros acordes de “Rano Pano” eu virei pra minha namorada e disse que adorava aquela música, que seria uma perfeita para ouvir enquanto caminhávamos em direção à saída. E assim nos despedimos daquele festival, com uma dorzinha no coração, mas satisfeitos com o que havíamos vivido.

Aos sábados o metrô de Barcelona funciona ininterruptamente e voltamos pra casa de forma tranquila. Ano que vem o Primavera Sound completa 15 anos e acontecerá nos dias 28, 29 e 30 de maio. Esperamos poder voltar e curtir a festa de debutante do festival.

I love Barcelona.

Meus 5 shows preferidos do festival ficam assim:

1 – The National

2 – Slowdive

3 – Goodspeed You! Black Emperor

4 – Midlake

5 – Arcade Fire

Jesus & Mary Chain no 18º Festival da Cultura Inglesa

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Aconteceu ontem, pela segunda vez consecutiva no Memorial da América Latina, o já clássico Cultura Inglesa Festival que trouxe ao Brasil bandas como Franz Ferdinand, The Horrors, Gang of Four, Blood Red Shoes, Kate Nash e outras. Esse ano, o Jesus & Mary Chain encabeçava a programação, acompanhado pelo Los Campesinos! Infelizmente, não pude estar no festival pessoalmente, pois estou viajando para fazer a cobertura do espanhol Primavera Sound (em breve por aqui), mas mandei um enviado para falar do que interessa: o encontro com Jesus.

TEXTO POR RAUL RAMONE

Você já deve ter lido por aí sobre o show “nostálgico” do Jesus and Mary Chain, ontem, no encerramento do 18º Cultura Inglesa Festival. Após três décadas de carreira (contando a pausa entre 1999 e 2007), a banda dos irmãos Reid se tornou sim, especialista em turnês regadas a hits, sem vergonha alguma de parecer caça-níquel.

Mas, ao contrário do que aconteceria em outros casos, o público parece não se importar em ouvir novamente as boas e velhas canções que consagraram um dos pioneiros do Shoegaze.

A postura dos músicos continua exatamente a mesma de antes, ou seja, completamente alheia ao que acontece do palco pra lá (apesar do esforço apresentado pelo vocalista em interagir com a plateia).

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Dois fatores acabaram comprometendo o desempenho do grupo ao longo do show. O primeiro (talvez não tão perceptível para algumas pessoas), foi a qualidade do som, instável, variando entre excessivos graves e agudos estridentes. O segundo problema (muito mais nítido para o público), foi o desentrosamento entre os integrantes, que gerou interrupções e atravessadas cometidas principalmente pela guitarra do veterano William Reid (“Sidewalking”, “Halfway to Crazy” e “Just Like Honey” precisaram ser reiniciadas) e por seu irmão mais novo Jim.

Compreensível, uma vez que a banda permaneceu seis meses sem tocar.

No total, foram 16 músicas no set list, com destaque para “Head On”, “Between Planets”, “Just Like Honey” e “Happy When It Rains” (que coincidiu com o retorno da forte garoa que caiu durante todo o domingo em São Paulo).

No bis, uma sequência de faixas do álbum clássico Pychocandy (1985), levando os fãs ao delírio. Pra encerrar, tocaram Reverence, faixa que abre Honey’s Dead (1992).

Apesar dos pesares, o show do Jesus and Mary Chain no 18º Cultura Inglesa Festival merece figurar na lista de melhores do ano. E se por alguma razão você não estava lá, fique com o show completo logo abaixo.

Fotos: Rodrigo Capote/UOL

SETLIST:

Snakedriver
Head On
Far Gone and Out
Between Planets
Blues From a Gun
Teenage Lust
Sidewalking (Stopped at the beggining and restarted)
Cracking Up
All Things Must Pass
Some Candy Talking
Happy When It Rains (Stopped at the beggining and restarted)
Halfway to Crazy
Just Like Honey (Stopped at the beggining and restarted)

Encore:
The Hardest Walk
Taste of Cindy
Reverence

Afghan Whigs em São Paulo: quando pais e mães de família voltaram a ser adolescentes

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Foto por Amanda Mont’Alvão

Em uma semana em que voltou a chover e, contra todas as probabilidades da natureza, as ruas se encheram de gelo em São Paulo, o evento mais improvável de todos aconteceu no Audio Club no bairro da barra Barra Funda. A mais nova casa de shows da cidade recebeu em seu palco o Afghan Whigs, veterana banda americana de rock alternativo que embalou 10 entre 10 baladas do gênero no final dos anos 90 e começo dos 2000, mas nunca havia pisado no país nos seus quase 30 anos de carreira.

Além da apresentação em solo paulistano, a banda passaria por Porto Alegre, mas esta última foi cancelada devido à baixa procura de ingressos. Fato que, aparentemente, não esteve nem perto de acontecer quando o show de ontem começou com casa lotada às 23 horas, exatamente. Aqui é novamente necessário se questionar o porquê de uma casa que conta com um trunfo tão grande quanto a proximidade com o metrô, abrir mão de utilizá-lo. Isso inviabiliza que muita gente vá até o evento e complica a vida daqueles que vão de qualquer maneira. Não há motivo racional, econômico ou logístico, que pareça justificar essa sandice. Ainda assim, os apelos do público continuam a serem ignorados.

Sorte da produção que quando as luzes se acenderam e a banda entrou no palco, toda vestida de preto e capitaneada pelo sisudo Greg Dulli, a plateia só parecia interessada em tirar todo o atraso de anos entalado na garganta. Com um repertório baseado no recente novo disco Do to the Beast (2014), mas passeando por toda a carreira, a banda desfilou o seu som potente e cirurgicamente martelado com uma pedrada atrás da outra. Os presentes cantavam os hits alternativos a pleno pulmões e receberam muito bem as novas canções. O destaque foi a interpretação de Gentlemen, do disco homônimo de 1993, com o Audio quase vindo abaixo. A qualquer momento era possível passar os olhos pelo recinto e apanhar um marmanjo qualquer displicentemente tocando air guitar para reforçar as três guitarras do palco. Ninguém ali parecia ter menos de 25 anos e ninguém ali parecia agir como se tivesse mais de 16

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Foto por Amanda Mont’Alvão

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A banda estava afiada e o sistema de som – que ainda pode melhorar – também não comprometeu. A voz de Dulli parece intacta e não decepcionou quando mais exigida. No palco, a banda pareceu se divertir sempre que possível, só dando uma pausa nas poucas canções mais tranquilas, nas quais o nível de silêncio sempre funciona com fator catalisador. O resultado foi um show em que ninguém se arrependeu de ter voltado pra casa em uma madrugada chuvosa de quinta-feira.

Foi a primeira vez que fui ao Audio e a casa não decepcionou, a não ser pelo que já citado. É bonita, confortável e de fácil acesso. Com ajustes, é muito promissora. Quanto à banda, a espera valeu a pena e, se ela não é mais tão relevante quanto nos anos 90, não deixa de ser especial e competente. Se relembrar é viver, quem esteve no Audio ontem não teve dúvidas de que a música faz a vida muito melhor.

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Foto por Amanda Mont’Alvão

 

Setlist :

Parked Outside
Matamoros
Fountain and Fairfax
The Lottery
Debonair
When We Two Parted/Over My Dead Body
Turn On the Water
Uptown Again
Algiers
Royal Cream
I Am Fire/Tusk (Fleetwood Mac cover)
Gentlemen
It Kills
Going to Town
John the Baptist
Heaven On Their Minds /Somethin’ Hot (Andrew Lloyd Webber cover)
My Enemy

Encore:
Bulletproof
Summer’s Kiss
People Get Ready (intro)/Faded

Breadcrumb Trail: The Story of Slint ou o mito do homem comum na música

O que faz de um disco um clássico? Música incrível é obviamente a chave, mas como se chega lá? Uma dose de boas histórias ajudam, com certeza. E boas histórias não faltam a Breadcrumb Trail: The Story of Slint (2014), documentário que busca recontar as origens e transformações que fizeram com que quatro garotos de uma cidade do interior dos Estados Unidos compusessem, gravassem e se separassem antes mesmo de lançar um dos discos mais estranhos e sensacionais que a música alternativa americana já teve o prazer de parir: Spirderland, de 1991.

“Tenha em mente pelos próximos dias que nós estamos em Louisville, Kentucky. Não é Londres. Não é nem Nova York. Esse é um lugar estranho”. Essa citação do famoso jornalista Hunter S. Thompson introduz o clima quase bucólico, beirando o tédio e que, ao mesmo tempo, parece ser o combustível de uma geração que não conseguia se conectar com as manifestações artísticas que ocorriam no mainstream no começo dos anos 80 e aos poucos foi achando a sua própria voz. Ali, uma recém surgida cena musical toda baseada no mantra punk do it yourself era movida a hardcore e pessoas comuns. E foi nesse contexto que os amigos de infância Britt Walford e Brian McMahan começaram cedo, por volta dos 10 anos de idade, a tocar juntos e formar bandas pra se apresentar em espeluncas e quermesses de igreja.

Encarregado da bateria, Walford é o centro e fio condutor da narrativa, que conta com depoimento de diversos personagens importantes para a história do Slint: desde os membros da banda e amigos da cena, passando pelos pais do baterista que sempre abrigaram e apoiaram os ensaios do filho, até rostos conhecidos, como o produtor Steve Albini, James Murphy (LCD Soundsystem, DFA), Ian MacKaye (Minor Threat, Fugazi) e David Yow (Jesus Lizard). A impressão que fica em meio a tantas anedotas é de que toda a mística que envolve a banda e sua obra-prima é muito mais em razão do boca-a-boca no qual o disco se espalhou do que a alguma característica extraordinária ou suposta genialidade dos músicos. Tudo ali foi feito a partir de boas ideias e à base de muitos ensaios.Breadcrumb-Trail_Poster-for-Will-Oldham-approval

Sem querer entrar em muitos detalhes, nas entrevistas conduzidas pelo diretor Lance Bangs (que já fez vídeos de inúmeras bandas do rock alternativo, do Sonic Youth ao Arcade Fire, passando pelo Green Day e o Pavement) fica claro que mesmo sendo bons músicos, todos ali eram moleques, muitas vezes infantis. Em determinado momento, Ian MacKaye conta sobre uma vez em que eles estavam juntos e que, ao ouvirem um som flatulento, todos correram em busca da porta mais próxima. MacKaye ficou imóvel, perdido com a reação, quando foi avisado que o último a chegar a alguma maçaneta era punido com socos dos outros. Em outra parte, David Yow conta que a música Mouth Breather (“idiota”, em tradução livre) do Jesus Lizard foi baseada na vez em que Steve Albini pediu que Walford tomasse conta da sua casa durante uma viagem e o garoto quase destruiu o lugar.

Pouco focado nas gravações e processo de composição de Spiderland propriamente ditos, o maior triunfo do documentário é mostrar como boa arte não é privilégio de seres atormentados ou messias que vieram ao mundo apenas com o propósito de nos iluminar. Stress excessivo e colapsos nervosos ganham tom de eventos que podem acontecer com qualquer um e não fardos carregados por gênios. Como o nome mesmo sugere, o filme segue uma trilha em que cada migalha parece ao mesmo tempo ser pouco importante, mas imprescindível ao resultado final. É interessante notar que na cena musical de Louisville, todos eram amigos e acabaram contribuindo uns com os projetos dos outros, sem brigas de egos ou ataques de estrelismo. Assim, o que salta aos olhos (e ouvidos) é a música.

Breadcrumb Trail: The Story of Slint (2014) será lançado em DVD e fará parte da versão deluxe de Spiderland que será lançada em breve pelo selo Touch & Go. Apesar disso, é fácil encontra-lo em diversos sites de compartilhamento por aí.

Após se separar em 1991, o Slint se reúne esporadicamente para algumas turnês desde 2005. A última reunião foi em 2013 e ainda está em andamento.

Escute Spiderland na íntegra: