Thurston Moore Band em São Paulo – Aos 45 do segundo tempo, o melhor show do ano no Brasil

Eu adoro o Sonic Youth, mas talvez tenha uma relação ainda mais próxima com o trabalho solo do seu guitarrista, Thurston Moore. Seu disco de 2011, Demolished Thoughts, figura entre os meus favoritos de todos os tempos e o último, The Best Day (lançado em outubro), é dos que mais gostei nesse ano que já se encaminha para o fim. Juntando tudo isso à uma banda de craques e uma performance explosiva, não haveria como dizer que a apresentação que a denominada Thurston Moore Band fez na noite de ontem para um Cine Joia cheio, mas confortável, – dentro da série Popload Gig – não tenha sido o melhor show que vi no Brasil em 2014.

Primeiro é preciso elogiar a produção, que fez com que a apresentação começasse às 22h15 e assim tornou possível que, ao final, o público utilizasse o metrô e o sistema de transporte público para retornar para casa. É muito bom ver o Cine Joia finalmente se aproveitando da sua excelente localização e torço para que isso se torne uma constante daqui para frente. Em um mercado tão competitivo e com tantas ofertas, esse é um diferencial que sempre conta muito.

No palco, Moore se juntou ao guitarrista inglês James Sedwards, Deb Googe (My Bloody Valentine) e Thiago Babalu, baterista brasileiro que toca na banda de Jair Naves e teve que substituir às pressas, o também Sonic Youth, Steve Shelley. Este último, já em São Paulo, constatou um problema relacionado à visão que poderia se tornar algo mais grave e, sob orientações médicas, teve que abandonar a turnê e voltará para casa para se submeter a uma cirurgia e descansar. Shelley é um dos grandes bateristas do rock e foi uma pena não poder vê-lo com o grupo, mas, orientado pelo americano na tarde inteira pré-show, Babalu deu conta do recado.

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Foto por Clarissa Wolff/ Catárticos

Sem muitas palavras, os quatro se posicionaram em seus instrumentos e executaram as belas e longas Forevermore e Speak to the Wild, faixas que também abrem The Best Day. Ali os ruídos e distorções ainda eram tímidos e o que se sobressaía era a beleza melódica e a paz que Moore explicou que prentendia passar com o álbum, em entrevista recente que fiz com ele (aqui). Juntas consumiram cerca de 25 minutos  e foram acompanhadas de calmas projeções do oceano ao fundo, preparando os presentes para a chuva de distorções que se seguiria.

Thurston é mestre de uma escola de guitarristas barulhentos na qual às vezes o mais importante é destruir. Derrubar, demolir, tornar escombros notas, arranjos e dogmas. Essa talvez tenha sido a maior virtude do Sonic Youth, ao tornar popular algo que fugisse aos padrões da própria música popular, influenciando toda uma geração e garantindo a eles o lugar que ocupam no panteão de artistas dos últimos 50 anos. E algo assim não se apaga da noite pro dia. Felizmente.

Os ruídos e distorções então começaram a florescer quando o quarteto tocou, em seguida, Germs Burn, Detonation e The Best Day, todas do disco mais recente, para desembocar numa versão arrasadora de 15 minutos da instrumental Grace Lake. Se a apresentação tivesse sido apenas a música, já seria suficiente para destaque. Eu posso dizer, sem sobra de dúvidas, que foi um dos momentos musicais mais poderosos que presenciei na vida. As guitarras de Sedwards e Moore conversavam em texturas quase palpáveis sobre a firme cama preparada por Babalu e Googe, e caminhavam por dentro da melodia de maneira hipnótica, sugando a todos os presentes. As projeções espaciais na parede do Cine Joia funcionaram como extra e criaram uma atmosfera psicodélica que fez com o que o Tame Impala – que eu adoro – parecesse uma banda de adolescentes inexperientes. A medida que eles aceleravam o ritmo, uma avalanche de som enterrava uma casa em transe. Fantástico.

Depois disso não havia muito o que fazer, senão sair do palco. Mas diante de uma plateia ainda petrificada, voltaram e tocaram maravilhosa e – surpresa- barulhenta Pretty Bad, do primeiro disco solo de Moore, Psychic Heart (1995), pra voltar e encerrar – após terem saído novamente do palco – com Ono Soul, também do álbum solo de estreia do americano. Um show pra ficar guardado para sempre e que fez jus à tradição das criações mais famosas do guitarrista, mesmo sem uma única canção do Sonic Youth. Na noite de ontem, escreveu-se certo por notas tortas.

Setlist:

Forevermore
Speak to the Wild
Germs Burn
Detonation
The Best Day
Grace Lake

Encore:
Pretty Bad

Encore 2:
Ono Soul

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Foto por Clarissa Wolff/ Catárticos
Foto por Clarissa Wolff/ Catárticos
Foto por Clarissa Wolff/ Catárticos

Franz Ferdinand em São Paulo ou porque amo tanto música ao vivo

Ao anunciar a sua terceira vinda ao Brasil em três anos (sua sexta no total), o Franz Ferdinand virou, em alguns círculos, motivo de piada. A mentalidade brasileira, ainda pouco acostumada à recente nova dinâmica de shows internacionais no país – que passou a ser rota quase obrigatória na agenda dos artistas e aumentou a oferta ao público – parece considerar algum tipo de desonra que bandas voltem com frequência, como se fosse sinal de desespero, explicitando uma espécie de complexo de vira-latas cultural. Poucos entendem que esse é um passo fundamental para a consolidação do ainda tímido mercado musical nacional. E se esse pensamento ultrapassado representa uma incômoda parede a ser demolida, o grupo escocês contribuiu para derrubar alguns tijolos com a potente marretada que foi sua apresentação de ontem, no Espaço das Américas, em São Paulo.

Um público de pouco mais de 4 mil pessoas – segundo informações da organização – se deslocou até a casa da Barra Funda para conferir o show dos britânicos, que teve abertura dos goianos do Boogarins, recentemente regressos de uma extensa turnê nos Estados Unidos. A opção pela psicodelia do cerrado se mostrou acertada e levantou parte do público em diversos momentos. O vocalista Dinho Almeida parecia habitar confortavelmente uma dimensão própria, muitas vezes tirando sua guitarra para dançar no palco e sem vergonha de fechar os olhos para entornar sua voz em falsete sobre as melodias cheias de efeito do conjunto. Em 45 minutos, o Boogarins tocou uma música nova e mostrou que tem potencial para crescer ainda mais. As jams distorcidas dos quatro instrumentistas foram o ponto alto do curto concerto. Finalizado, era então o momento de esperar pela atração principal da noite, marcada para entrar em meia hora.

Dinho Almeida, vocalista do Boogarins (Foto por Clarissa Wolff/ Catárticos)
Dinho Almeida, vocalista do Boogarins (Foto por Clarissa Wolff/ Catárticos)

Às 22:15, pontualmente, as luzes se apagaram e os telões se acenderam. Os mesmo telões que permaneceram desligados seis dias antes, no show dos californianos do Queens of the Stone Ages e prejudicaram a visão do público que estava nas partes mais afastadas do palco. Felizmente, o Franz Ferdinand não teve o mesmo ataque de estrelismo da trupe de Josh Homme e a transmissão pode funcionar em harmonia perfeita com as projeções simples no fundo do palco e o figurino em preto e branco dos músicos.

A primeira canção a ser executada foi “Right Action”, faixa que cede parte da sua letra para dar nome ao quarto e último disco do Franz, Right Thoughts, Right Words, Right Action, de 2013 e que, em tese, seria a base da atual turnê. Em tese porque Alex Kapranos e companhia destilaram um repertório que contemplou toda a carreira do conjunto, que surgiu no começo dos anos 2000 como um dos principais expoentes do então novo rock. Mais de uma década depois e sem chamar a mesma atenção dos primeiros anos, o grupo mostrou que, ao menos ao vivo, ainda é relevante, com uma energia descomunal para fim de turnê e presença de palco fantástica.

Do começo ao fim a intensidade foi a tônica e foi impossível conter a memória do eu adolescente, aos 14 anos, descobrindo em 2004 sua primeira banda indie e vendo repetidamente o clipe de The Dark of The Matinee, baixado pelo pré-histórico programa de compartilhamento Kazaa. As palhetadas furiosas do guitarrista Nick McCarthy ditavam a velocidade e a química com o vocalista Kapranos escorria junto ao suor de ambos. O Franz Ferdinand nunca foi a minha banda preferida, nem perto, mas eu estava absolutamente feliz de presenciar aquele momento. É fácil – felizmente – gostar do show de uma banda que você adora, mas é nas surpresas, como ontem, que me lembro do porquê amo tanto música ao vivo.

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Foto por Clarissa Wolff/ Catárticos

E o público pareceu aprovar cada momento tanto quanto eu. Cantou junto e foi parte importante na construção da excelente atmosfera. Assim como foi essencial o perfeito sistema de som do Espaço das Américas, alto e claro, como sempre deveria ser, aliás. Eu poderia detalhar como foi a reação a cada canção do quarteto, mas eu penso ser desnecessário. Basta dizer que de Evil Eye, boa faixa do último disco, ao hit Take Me Out (veja no vídeo abaixo), já desgastado pela o excesso de vezes que foi tocado por aí, quase todas as músicas foram tocadas como se fosse a última vez que os escoceses teriam de subir em um palco e recebidas com fervor. Os destaques negativos ficaram para as apagadas Erdbeer Mund e Stand on The Horizon. O encerramento, antes do bis, com Outsiders, com todos os membros se juntando ao baterista Paul Thomson para uma jam percussiva, funcionou como um resumo de uma palavra da noite: poderoso.

O Franz ainda voltou ao palco para tocar três músicas, Jacqueline, Goodbye Lovers & Friends e This Fire, como cortesia aos presentes. Nem precisava.  Essa foi a terceira vez que eu assisti a um show da banda e foi, disparada, a melhor. Que eles voltem no ano que vem. Eu irei.

Importante frisar que a apresentação terminou antes do horário de encerramento do funcionamento do metrô, o que deveria ser a regra, mas não é.

Ao final você confere um vídeo exclusivo dos companheiros de Catárticos do Discophenia, com três músicas.

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Foto por Clarissa Wolff/ Catárticos
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Foto por Clarissa Wolff/ Catárticos
essa nao sei se vale postar
Foto por Clarissa Wolff/ Catárticos

Setlist Bogarins:

Avalanche
Lucifernandis
Infinu
Tempo
Erre
Despreocupar
Doce

Setlist Franz Ferdinand:

Right Actio
No You Girls
Tell Her Tonight
Evil Eye
The Dark of the Matinée
Do You Want To
The Fallen
Lucid Dreams
Erdbeer Mund
Michael
Walk Away
Stand on the Horizon
Can’t Stop Feeling / Auf Achse
Brief Encounters
Take Me Out
Ulysses
Love Illumination
Outsiders

Encore:
Jacqueline
Goodbye Lovers & Friends
This Fire

Spiritualized em São Paulo ou um relato pessoal de como a música pode mudar vidas

Quando eu era adolescente, como milhões, sonhava em ter uma banda. Tipicamente cheio de confusões, me digladiava internamente ao tentar entender o mundo como me era apresentado à luz de um recente florescer de consciência. Meu assunto preferido era a religião e tentar transformar toda essa inquietação em versos e acordes utilizando meus primitivos conhecimentos musicais, uma necessidade quase fisiológica à época. O tempo passou, assim como a vontade e o sonho de ser artista. Mas a confusão permaneceu, mesmo que em menor intensidade, juntamente com o amor pela música, esse cada vez mais pujante. E num dia qualquer de mergulho existencial nos meus inseparáveis fones de ouvido, descobri que existia há anos uma banda que seria a materialização exata do que eu queria quando sustentava em mim todos aqueles desejos e esperanças pueris: o Spiritualized. E isso mudou minha vida.

Então, qualquer pretensa objetividade foi de cara abandonada, quando na noite fria de ontem tive a oportunidade de ver ao vivo Jason Pierce em ação pela 32ª segunda edição do Popload Gig, no Audio Club em São Paulo. Era o primeiro encontro comigo e centenas de outros fãs brasileiros que esperaram por mais de uma década até o grupo desembarcar no país.

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Foto por Clarissa Wolff/Catárticos

Não era o clássico show com guitarras raivosas e pulsantes. Na montagem denominada “Acoustic Mainlines”, a formação de palco consistia em Pierce, munido apenas de violão, e o companheiro de longa data Doggen, encarregado do piano e gaita, sendo guarnecidos por um quarteto de cordas e um coreto gospel composto de quatro cantoras, totalizando uma formação de dez. Separados estrategicamente em dois grupos, Doggen e as instrumentistas estavam completamente vestidos de preto à esquerda, enquanto Jason e as cantoras, de branco da cabeça aos pés, ficavam à direita – com o negro violão de Pierce como um premeditado enclave naquela parte do palco. Ali estava a dualidade clássica do mundo e principalmente da religião: preto contra branco, bem contra mal, as sombras contra a luz.

Era um show delicado e para ser assistido em absoluto silêncio, algo que muitas vezes não foi respeitado por um grupo que insistia em pedir por canções incompatíveis com o “Acoustic Mainlines” ou simplesmente gritar coisas sem sentido. Contudo, tais manifestações, felizmente, não foram suficientes para tirar a beleza do espetáculo. A oportunidade de assistir a canções do repertório que raramente são interpretadas nos shows tradicionais, como “Broken Heart”, “Cool Waves” e “Too Late”, foi suficiente. “Broken Heart”, talvez seja minha canção preferida do Spiritualized e ouvir os doloridos versos iniciais “Though I have a broken heart/I’m too busy to be heartbroken” a menos de dez metros de distância de Pierce, é algo que eu nunca vou esquecer.

Houve ainda espaço para músicas do Spacemen 3, antiga banda de Jason, e um cover da mais famosa canção de Daniel Johnston, “True Love Will Find You In the End”, sem deixar de fora a faixa título e clássicos do mais conhecido disco da banda “Ladies & Gentlemen, We’re Floating In Space”. Lindo.

Foto por Clarissa Wolff/Catárticos
Foto por Clarissa Wolff/Catárticos

Mas a força, dor ou beleza das canções ali entoadas por aquelas dez almas no palco, não era nada perto do que elas representavam. Para mim, aquele foi um momento em que eu parei para pensar em porque a música ocupa um espaço tão grande na minha vida. Eu parei para pensar o que significava me conectar tanto com aquelas palavras e notas e como elas mudavam quem eu era, ao mesmo tempo que me encorajavam a abraçar todos as feridas mais antigas. E naquele momento, aquele adolescente confuso e cheio de questões que ainda vive dentro de mim e, vira e mexe dá as caras, teve um momento de paz. Ele sabia que não estava sozinho no mundo. Lembrei que música tinha razão de existir. Naquela noite eu pude dormir sorrindo.

Setlist (via setlist.fm):

Sitting on Fire
Lord Let It Rain on Me
True Love Will Find You in the End (Daniel Johnston cover)
Cool Waves
Amen
Soul on Fire
Walkin’ with Jesus (Spacemen 3 cover)
Feel So Sad
Going Down Slow
Stop Your Crying
Anything More
Ladies and Gentlemen We Are Floating in Space
Broken Heart
Lord Can You Hear Me? (Spacemen 3 cover)

Encore:
Too Late
I Think I’m in Love
Goodnight Goodnight

CONEXÃO EUROPA: Vida Festival, na Catalunha, têm shows de Lana Del Rey, Yo La Tengo e M. Ward.

palcoPor Mar Herrando

Viver sem música seria terrível

A palavra “vida” têm muitos conceitos dentro dela, tantos que não podemos nem resumir o seu significado num só. Estado, alimento, ser, a longevidade das coisas… a vida têm tantas emoções como uma linda palavra existente somente em português: saudade.  E é isso mesmo o que deixou essa primeira edição do festival: muita saudade. O Vida Festival foi demais, superou expectativas e ainda bem que já prometeu voltar no ano que vem. Um(a)  VIDA que alimenta as pessoas com música boa e com a magia da sua localização no coração da costa catalã.

vida

Foi um belo acerto dos organizadores do já histórico festival Faraday e que começaram com o pé direito com este novo projeto, que já é uma realidade. A programação esteve repartida entre duas localizações, nas quais se respirava o mais puro ambiente do Mar Mediterrâneo, o que a equipe artística cuidou até o ultimo detalhe.

A opção de montanha, Mas d’en Cabanyes, albergou as atuações principais: a Masia (casa tradicional da Catalunha) rodeada de campos de uva e com vistas a Vilanova i la Geltrú, convidava aos assistentes a seguir o caminho e encontrar com uma feira artesanal e os dois palcos principais nos quais não se sobrepôs nenhum show. Assim que chegamos até o inicio do bosque marcado com letras grandes de luzes com a palavra VIDA, encontramos o palco de El Vaixell, uma autêntica barca de pescador para fazer-nos recordar a longa tradição de pesca da localidade catalã. Por último, o palco mais acolhedor, La Cabana, um refúgio para a música e no que tiveram lugar atuações como as do Joan Colomo. Tão acolhedor quanto El Niu (O Ninho), o espaço dedicado aos mais pequenos, ainda que no espaço tudo fosse perfeito para qualquer pessoa, independentemente da sua idade.

yo la tengo

As atrações que mais gostamos da jornada da sexta-feira foram as do Sr. Chinarro (artista da Sevilla), simpático e com letras extraordinárias cantadas desde a barca, mas infelizemente com um público ainda dormido da siesta. O artista declarou-se fã de M. Ward, o que se confirmou quando na atuação do nova-iorquino, vimos a Chinarro mais duma vez  nos ecrãs do palco curtindo o show.

A atuação teve um formato bem mais elétrico do que em outras oportunidades, e M. Ward deixou de lado a técnica do finger-picking própria de ver nos seus concertos acústicos e mais íntimos. Ward tem avôs mexicanos, é músico e produtor de outros artistas, toda uma figura da indústria da música e com duas baterias sobre o palco, a precisão da percussão marcou uma autenticidade em canções como Primitive Girl. O show foi programado numa hora intermediária, envolvida pelo entardecer e pela chegada de mais público.

galera

Acabamos na sexta-feira com Rufus Wainwright, que comentou sobre não ter a voz muito boa, mas nós não percebemos nada estranho em nenhum instante. Ele só ao piano e à guitarra, dedicou o último tema a capella a sua mãe, que foi professora de canto e com quem sempre foi muito próximo. Rufus nos prometeu que na sua próxima visita vai cantar a canção Barcelona, de Freddie Mercurie e Montserrat Caballé.

Regressamos no sábado, a voz de Silvia Pérez Cruz e a guitarra de Raül Fernández, nos deixaram com a boca aberta. Com muito mais público do que na sexta, o espaço da barca foi um mar de silêncio e admiração para o dueto que está enchendo as salas da Espanha toda. A cantora nos explicou que os estados da pena, raiva e resignação convivem nesta vida e o recompilatório de canções reflete as vivências de diferentes autores, desde Albert Pla até a chilena Violeta Parra.

Ao mesmo, oficinas de Yoga, Ipads para brincar com a app Toc and Roll (criação de Minimúsica do selo Sones) e muitas outras coisas aconteceram no palco dedicado às crianças. Pudemos escutar o cover de Blister in the Sun dos ViolentFemmes da mão dos jovens de Mataró, The Free Fall Band. As crianças ficaram de boca aberta!

Nas atividades paralelas ao festival, nesse mesmo dia tinha haveria uma apresentação sobre o livro Big Day Coming. Yo La Tengo e o auge do indie-rock de Jesse Jarnow, mas infelizmente a mesma teve que ser cancelada devido a atrasos com os vôos. Não por isso, os fãs deixaram de curtir o show da banda-tema do livro, os quais fizeram uma belíssima apresentação e  não esqueceram de músicas como Sugarcube ou Today is the day.

Lana
Lana Del Rey

Nesse mesmo palco teve lugar a atuação da polifacética Lana del Rey, headliner e cabeça de campanhas de publicidade, a modelo e cantora é um ícone das nova gerações, o que muitos, tentam, mas poucas o conseguem.

Tendo em vista tudo isso, aprovamos o VIDA e esperamos que venham muitas outras edições. Longa vida ao festival!

Nos Primavera Sound em Portugal: grandes festivais europeus também falam português

A versão portuguesa do Primavera Sound em Portugal também vale a pena (foto por Mar H. Salvador)
A versão portuguesa do Primavera Sound em Portugal também vale a pena (foto por Mar H. Salvador)

Acabei de voltar de uma temporada pela Europa onde acompanhei de perto o Primavera Sound em Barcelona, como contei no último post, e mais alguns shows em Paris, incluindo uma entrevista com o Slowdive, dos quais falarei por aqui em breve. Mas pra quem quer uma outra (boa) opção de festival europeu a Mar Herrando conta no texto abaixo como é a experiência do festival português irmão da versão catalã.

TEXTO POR MAR HERRANDO

Nos Primavera Sound: Mais do que uma linguagem musical.

Ontem começou a Copa do Mundo e já escutamos falar muitas vezes que em tempos de Copa o Brasil está aberto ao mundo. Mas, para nós, o Brasil não é só futebol. É muito mais e sua língua ganha cada vez mais terreno entre diferentes festivais musicais europeus.

A versão lusa do Primavera Sound foi há uma semana, exatamente nos dias 5, 6 e 7 de junho, no Parque da Cidade do Porto. O evento contou com mais de 70.000 participantes de 40 nacionalidades diferentes, mas sem perder o seu selo português.

(foto por Mar H. Salvador)
(foto por Mar H. Salvador)

Não vamos cair em comparações, porque estas são odiosas, mas se alguém quer um festival maciço mas acolhedor, internacional mas local, lotado mas varejista, o seu festival é o Nos Primavera Sound. Organizado pela Pic-Nic Produções, o evento fez sua primeira edição em 2012 e mais uma vez  cuidou dos seus fãs com pequenas lembranças gratuitas: flores, nuvens de cores, capas de chuva e, como não poderia faltar, o saco oficial que se transforma numa toalha de mesa quadriculada perfeita para um pic-nic. A galera pode curtir os concertos de forma descontraída, deitando no gramado. O Nos Primavera Sound é um festival para os amantes da música, onde todos podem criar a sua própria experiência musical e a diversidade é garantida, de jovens até familias – que tem a opção do Miniprimavera, espaço dedicado às crianças.

Além disso, como fica dentro do Parque da Cidade, os participantes encontram de um lado uma feira promovendo a cultura local e do outro as Tasquinhas, com pratos tradicionais portugueses. Além de todos estes detalhes, a prefeitura de Porto aumentou  a freqüência de ônibus para facilitar o retorno aos diferentes pontos de cidade e evitar avalanches de pessoas.

(foto por Mar H. Salvador)
(foto por Mar H. Salvador)

Quinta-feira, 5 de junho: primeiro dia em que reinou a língua portuguesa.

 Na quinta-feira, 5 de junho, os participantes puderam desfrutar de todos os shows, sem stress, sem deslocamentos entre palcos e sem sacrificar qualquer show por outro, porque felizmente eles não se sobrepõem. Os concertos foram alternados entre os dois palcos principais, localizados num lindo vale do Parque da Cidade. A banda portuguesa “Os da Cidade”abriu o festival no palco Nos, patrocinador principal do festival. O carioca Rodrigo Amarante, no palco Super Bock – ao lado – foi o seguinte. A lusofonia reinou na primavera e o sucesso foi dividido entre artistas do Portugal e Brasil.

Caetano Veloso (foto por Mar H. Salvador)
Caetano Veloso (foto por Mar H. Salvador)

O dia continuou com a banda americana Spoon, que abriu com o tema Don’t You Evah e fechou com Black like me. Os garotos de Austin sabem fazer bem as coisas e ninguém melhor do que eles sabem se portar em um festival e se aproximar de um público que ainda estava esquentando na primeira tarde do evento. Então chegou a multifacetada Sky Ferreira, que depois de sua performance no dia gratuito do festival irmão de Barcelona, retornou ao line-up do Primavera Sound em Portugal.  A jovem da Califórnia fechou a tarde e abriu o caminho à noite, para dar espaço a uma das principais lendas da Música Popular Brasileira: Caetano Veloso. O baiano não esqueceu canções como Estou Triste, tão conhecida no Brasil quanto em Portugal, país no qual muitos artistas brasileiros foram capazes de desenvolver também sua carreira profissional. Depois seguiu o trio Haim, o good boy Kendrick Lamar e fecharam a noite os australianos Jagwar Ma que, para muitos, ajudam a matar a saudade que temos do Primal Scream, mas com o seu toque pessoal e inconfundível.

Sexta-feira, 6 de junho: as ofertas musicais duplicaram.

A gente voltou para o parque e não foi difícil ficar à vontade, mas fazer escolhas foi mais complicado do que na quinta, com o dobro de shows e, portanto, o dobro de cenários. Tivemos que selecionar e o roteiro ficou assim: Follakzoid, Midlake, Television, Warpaint, Slowdive, Pixies e John Wizards até ver fechar o palco Pitchfork.

(foto por Mar H. Salvador)
Franck Black abrindo a boca pra cantar, claro.(foto por Mar H. Salvador)

Aqui fizemos sacrifícios, mas a acessibilidade do Parque da Cidade e a sua boa distribuição fez com que nos sentíssemos satisfeitos com a otimização do tempo e com a qualidade do festival. Nossa primeira parada foi no palco ATP e começamos com a chilena Follakzoid. Ficamos impressionados com a energia do baterista e as canções de pelo menos 10 minutos de duração. Estivemos decididos a sacrificar o fim do show deles para apreciar o folk-rock psicodélico do Midlake no Super Bock e voltamos ao ATP para ver o Television que começou com uma pequena demora, com eles ainda passando o som e  Tom Verlaine pedindo a galera por cinco minutos. Felizmente o responsável por Marquee Moon conseguiu confirmar o ditado que diz que  “o bom é esperado”.

Depois chegaram as Warpaint, talento e carisma é o que essas quatro garotas de Los Angeles tem. Seu som hipnotizou na atmosfera pós chuva  e os espectadores se entregaram completamente no equador do festival. Mais tarde chegou uma das reuniões que sempre caracterizam a programação do Primavera Sound, o Slowdive , que após uma inatividade de duas décadas se mostraram em sua melhor forma. Mais um exemplo de estar em forma, chegava o show mais esperado da sexta-feira e o momento dos Pixies. Tocaram uma música após a outra, sem esperas, e Frank Black ofereceu os seus melhores jogos de voz, Joey Santiago quebrou um buquê de primavera contra seu violão e a cumplicidade profissional entre a novo baixista Paz Lenchantin e o baterista David Lovering tornou-se clara. Terminaram com Where is my mind? e após isso grande parte do público decidiu deixar o local.

(foto por Mar H. Salvador)
Slowdive (foto por Mar H. Salvador)

Sábado, 7 de junho de: mais dilemas, roteiro ainda mais difícil.

Se Primavera Sound em Barcelona recebeu aos portugueses Paus de El Segell, o Nos Primavera Sound congratulou aos catalãos Refree, também do mesmo selo. A banda de Raül Fernández abriu o sábado no palco Super Bock, seguido dos norte-americanos Lee Renaldo e John Grant. “Azulejos azulejos…I can’t get enough of them” falava um simpático Grant, que é caracterizado pelo seu interesse na cultura local das cidades que visita (o seu facebook oficial fala por ele mesmo).  Acompanhado da sua banda islandesa, país onde editou seu último álbum, Pale Green Ghosts, o artista ofereceu um show de uma hora, uma viagem com sua mistura de acústica e eletrônica. Com certeza cantou GMF, Black Belt e fechou  com a excelente “Queen of Denmark”,  acompanhado dos seus habituais jogos de luzes. Apenas no palco do lado e dez minutos mais tarde, começamos a ouvir um hino: Don’t Swallow the Cap e com certeza estamos falando de The National. Eles continuaram com I Should Live In SaltMistaken for Strangers e o quarto tema tornou-se a surpresa, St Vincent entrou em cena e um ofereceu um dos melhores momentos do festival. Depois disso, a banda também fez uma longa lista de sucessos como Fake Empire, Sea of Love e Troubles Will Find Me.  Mas chegou o drama, tivemos que deixar o show porque ao mesmo tempo Charles Bradley estava agindo no ATP, funk e soul de categoria contra a banda liderada por Matt Berninger, separados por poucos metros de distância. Foi difícil de assimilar e tive que lidar da melhor maneira possível  com a sobreposição de concertos, mas curtimos demais o show de Bradley e de um genuíno palco ATP, super lotado, apesar de ter uma das melhores bandas do festival tocando ao mesmo tempo.

Em breve uma entrevista com José Barreiros, coordenador do evento, acompanhada de mais imagens.

 

National
The National (foto por Mar H. Salvador)
John Grant
John Grant (foto por Mar H. Salvador)
(foto por Mar H. Salvador)
(foto por Mar H. Salvador)

Jesus & Mary Chain no 18º Festival da Cultura Inglesa

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Aconteceu ontem, pela segunda vez consecutiva no Memorial da América Latina, o já clássico Cultura Inglesa Festival que trouxe ao Brasil bandas como Franz Ferdinand, The Horrors, Gang of Four, Blood Red Shoes, Kate Nash e outras. Esse ano, o Jesus & Mary Chain encabeçava a programação, acompanhado pelo Los Campesinos! Infelizmente, não pude estar no festival pessoalmente, pois estou viajando para fazer a cobertura do espanhol Primavera Sound (em breve por aqui), mas mandei um enviado para falar do que interessa: o encontro com Jesus.

TEXTO POR RAUL RAMONE

Você já deve ter lido por aí sobre o show “nostálgico” do Jesus and Mary Chain, ontem, no encerramento do 18º Cultura Inglesa Festival. Após três décadas de carreira (contando a pausa entre 1999 e 2007), a banda dos irmãos Reid se tornou sim, especialista em turnês regadas a hits, sem vergonha alguma de parecer caça-níquel.

Mas, ao contrário do que aconteceria em outros casos, o público parece não se importar em ouvir novamente as boas e velhas canções que consagraram um dos pioneiros do Shoegaze.

A postura dos músicos continua exatamente a mesma de antes, ou seja, completamente alheia ao que acontece do palco pra lá (apesar do esforço apresentado pelo vocalista em interagir com a plateia).

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Dois fatores acabaram comprometendo o desempenho do grupo ao longo do show. O primeiro (talvez não tão perceptível para algumas pessoas), foi a qualidade do som, instável, variando entre excessivos graves e agudos estridentes. O segundo problema (muito mais nítido para o público), foi o desentrosamento entre os integrantes, que gerou interrupções e atravessadas cometidas principalmente pela guitarra do veterano William Reid (“Sidewalking”, “Halfway to Crazy” e “Just Like Honey” precisaram ser reiniciadas) e por seu irmão mais novo Jim.

Compreensível, uma vez que a banda permaneceu seis meses sem tocar.

No total, foram 16 músicas no set list, com destaque para “Head On”, “Between Planets”, “Just Like Honey” e “Happy When It Rains” (que coincidiu com o retorno da forte garoa que caiu durante todo o domingo em São Paulo).

No bis, uma sequência de faixas do álbum clássico Pychocandy (1985), levando os fãs ao delírio. Pra encerrar, tocaram Reverence, faixa que abre Honey’s Dead (1992).

Apesar dos pesares, o show do Jesus and Mary Chain no 18º Cultura Inglesa Festival merece figurar na lista de melhores do ano. E se por alguma razão você não estava lá, fique com o show completo logo abaixo.

Fotos: Rodrigo Capote/UOL

SETLIST:

Snakedriver
Head On
Far Gone and Out
Between Planets
Blues From a Gun
Teenage Lust
Sidewalking (Stopped at the beggining and restarted)
Cracking Up
All Things Must Pass
Some Candy Talking
Happy When It Rains (Stopped at the beggining and restarted)
Halfway to Crazy
Just Like Honey (Stopped at the beggining and restarted)

Encore:
The Hardest Walk
Taste of Cindy
Reverence

Afghan Whigs em São Paulo: quando pais e mães de família voltaram a ser adolescentes

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Foto por Amanda Mont’Alvão

Em uma semana em que voltou a chover e, contra todas as probabilidades da natureza, as ruas se encheram de gelo em São Paulo, o evento mais improvável de todos aconteceu no Audio Club no bairro da barra Barra Funda. A mais nova casa de shows da cidade recebeu em seu palco o Afghan Whigs, veterana banda americana de rock alternativo que embalou 10 entre 10 baladas do gênero no final dos anos 90 e começo dos 2000, mas nunca havia pisado no país nos seus quase 30 anos de carreira.

Além da apresentação em solo paulistano, a banda passaria por Porto Alegre, mas esta última foi cancelada devido à baixa procura de ingressos. Fato que, aparentemente, não esteve nem perto de acontecer quando o show de ontem começou com casa lotada às 23 horas, exatamente. Aqui é novamente necessário se questionar o porquê de uma casa que conta com um trunfo tão grande quanto a proximidade com o metrô, abrir mão de utilizá-lo. Isso inviabiliza que muita gente vá até o evento e complica a vida daqueles que vão de qualquer maneira. Não há motivo racional, econômico ou logístico, que pareça justificar essa sandice. Ainda assim, os apelos do público continuam a serem ignorados.

Sorte da produção que quando as luzes se acenderam e a banda entrou no palco, toda vestida de preto e capitaneada pelo sisudo Greg Dulli, a plateia só parecia interessada em tirar todo o atraso de anos entalado na garganta. Com um repertório baseado no recente novo disco Do to the Beast (2014), mas passeando por toda a carreira, a banda desfilou o seu som potente e cirurgicamente martelado com uma pedrada atrás da outra. Os presentes cantavam os hits alternativos a pleno pulmões e receberam muito bem as novas canções. O destaque foi a interpretação de Gentlemen, do disco homônimo de 1993, com o Audio quase vindo abaixo. A qualquer momento era possível passar os olhos pelo recinto e apanhar um marmanjo qualquer displicentemente tocando air guitar para reforçar as três guitarras do palco. Ninguém ali parecia ter menos de 25 anos e ninguém ali parecia agir como se tivesse mais de 16

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Foto por Amanda Mont’Alvão

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A banda estava afiada e o sistema de som – que ainda pode melhorar – também não comprometeu. A voz de Dulli parece intacta e não decepcionou quando mais exigida. No palco, a banda pareceu se divertir sempre que possível, só dando uma pausa nas poucas canções mais tranquilas, nas quais o nível de silêncio sempre funciona com fator catalisador. O resultado foi um show em que ninguém se arrependeu de ter voltado pra casa em uma madrugada chuvosa de quinta-feira.

Foi a primeira vez que fui ao Audio e a casa não decepcionou, a não ser pelo que já citado. É bonita, confortável e de fácil acesso. Com ajustes, é muito promissora. Quanto à banda, a espera valeu a pena e, se ela não é mais tão relevante quanto nos anos 90, não deixa de ser especial e competente. Se relembrar é viver, quem esteve no Audio ontem não teve dúvidas de que a música faz a vida muito melhor.

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Foto por Amanda Mont’Alvão

 

Setlist :

Parked Outside
Matamoros
Fountain and Fairfax
The Lottery
Debonair
When We Two Parted/Over My Dead Body
Turn On the Water
Uptown Again
Algiers
Royal Cream
I Am Fire/Tusk (Fleetwood Mac cover)
Gentlemen
It Kills
Going to Town
John the Baptist
Heaven On Their Minds /Somethin’ Hot (Andrew Lloyd Webber cover)
My Enemy

Encore:
Bulletproof
Summer’s Kiss
People Get Ready (intro)/Faded

No fim, é tudo sobre música ou como foi o 2º dia do Lollapalooza Brasil

Foto por João Vitor Medeiros/Catárticos
Foto por João Vitor Medeiros/Catárticos

O segundo dia do Lollapalooza Brasil de 2014 começou em ritmo bem mais tranquilo que o anterior. Se no sábado tinham ocorrido muitos problemas, a resposta pra maioria deles estava ali na segunda etapa do festival: menos gente. Bem menos concorrido, era fácil se locomover entre os palcos, ir aos banheiros e comprar o que quer que você precisasse (com um pequeno porém que comentarei mais à frente). Filas e espera são inevitáveis em eventos desse porte, mas no domingo parecia tudo funcionar bem. E no começo da tarde os problemas se resumiam às dores nas pernas e ao sol escaldante.

Aí fica fácil se concentrar no que realmente importa: a música. Eu resolvi que assistiria a quatro shows naquele dia: Johnny Marr, Savages, Pixies e Arcade Fire. Gostaria de ter visto Soundgarden, Vampire Weekend e New Order, mas festival é escolha e em todos os lugares do mundo funciona assim. Imagine ir ao Glastonbury ou ao Coachella e tentar assistir a todos os shows? Perguntei a um amigo que já foi a vários eventos do tipo no exterior se ele havia ido a algum que fosse maior em área e caminhadas que o Lolla de 2014 e ele me contou que o Reading, um dos mais famosos do planeta, era ainda mais extenso. Não estamos totalmente acostumados a esse formato, mas nesse fim de semana um passo importante com relação a isso foi dado.

E eu não poderia ter sido mais feliz nas minhas escolhas. Nenhum show me decepcionou e alguns me surpreenderam. Fui em todos os dias de todas as edições do Lollapalooza Brasil até hoje e certamente esse foi o meu preferido de sempre.

Foto por Clarissa Wolff/Catárticos
Foto por Clarissa Wolff/Catárticos

Às duas da tarde e sob um calor de rachar a cuca, Johnny Marr era os Smiths no palco Ônix. E que show, amigos. A apresentação do inglês quase foi cancelada por ele ter fraturado a mão há duas semanas, mas isso parecia ter ficado em um passado longínquo. As canções do seu recente primeiro disco solo, The Messenger, ao vivo ficaram muito melhores, e a banda que o acompanhava deu conta do recado. Ainda teve espaço pra uma cover de I Fought the Law, que ficou famosa com o Clash, uma música do Electronic e quatro músicas da banda mais famosa do guitarrista. Destaque pra How Soon Is Now? com a participação de Andy Rourke e ½ Smiths no palco. O encerramento com There Is A Light That Never Goes Out cantada em uníssono não deixou dúvidas de que foi um dos grandes shows do evento e, provavelmente, do ano inteiro por aqui.

Abri mão de ver o Vampire Weekend e fui pro Palco Interlagos aguardar pelas meninas do Savages. Era o menor público entre todas as apresentações que acompanhei no autódromo. Novatas e com só um disco na bagagem – Silence Yourself, do ano passado – as europeias não ficaram devendo pra nenhum veterano. Boas músicas, banda afiada e vocalista sisuda vestida toda de preto, exceto pelo salto alto rosa, foi o mais próximo que já cheguei de um show do Joy Division – e eu já vi o New Order. Excelentes instrumentistas, era impossível não se deixar levar pelo clima obscuro que era construído a cada música executada com pulsação do baixo como fio condutor. Matador.

Foto por Clarissa Wolff/Catárticos
Foto por Clarissa Wolff/Catárticos

Com um sorriso no rosto, fui até o Palco Skol esperar pelo próximo show, do Pixies, banda que adoro e que passou por muitas mudanças nos últimos tempos. Mês passado conversei com o baterista por telefone sobre isso tudo e se você não leu, pode fazê-lo AQUI.

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Foto por Clarissa Wolff/Catárticos

Aqui cabe um parêntesis: os vendedores ambulantes que eu tanto tinha elogiado no dia anterior, dessa vez deixaram a desejar. Não pela presença deles, que costumava bastante satisfatória, mas pela falta de controle e organização. Abordei no entorno do palco mais de cinco deles e nenhum queria vender água pelo valor estipulado de 3 reais, mesmo usando vestimentas que deixavam explícito o preço. Me neguei a comprar e só consegui fazê-lo pelo valor justo mais de uma hora e meia depois. Além disso, muita gente reclamou que quase nenhum dos ambulantes aceitava fichas, o que tornava a utilização delas uma dor de cabeça. A organização precisa se atentar a isso nas próximas edições, porque no meio de tantos shows e longas caminhadas, é inadmissível ser extorquido para se hidratar.

Frank Black e companhia então entraram no palco e desfilaram seu repertório extenso. O show do Pixies é basicamente isso: repertório. E é o suficiente. Na sua simpatia de sempre, a banda não trocou uma só palavra com a plateia ao longo de toda a apresentação. Foram 23 músicas e muitos sucessos. As músicas novas não empolgaram, mas não comprometeram. A nova baixista, a argentina Paz Lechantin, não é nenhuma Kim Deal, mas deu conta do recado e parecia a mais animada dos quatro no palco. A história do rock passa obrigatoriamente pelo Pixies e foi uma satisfação poder vê-los ao vivo pela primeira vez.

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Foto por João Vitor Medeiros/Catárticos

Finalmente então era hora de esperar pelo último show da noite, o Arcade Fire. Muita gente optou pelo New Order, na mesma hora, de forma que o o Pixies pareceu ter sido assistido por mais pessoas. Nada que interferisse no resultado final. O que aconteceu ali foi uma das maiores surpresas que já tive com relação à música. Gosto bastante da banda canadense em disco, mas nunca foi das minhas preferidas. Cheguei diversas vezes a me perguntar o porquê de todo o oba-oba em volta deles. Tive então a minha resposta.

Tenho certeza que você já ouviu gente de mais comentar sobre o show e vamos simplesmente dizer que foi o melhor do festival. Aqui é permitido se entregar ao clichê do “show catártico” nas resenhas. Foi a missa mais hipster do mundo. A plateia ajudou e a banda parecia muito feliz. Poucas coisas impedem uma banda feliz de fazer um grande show e nenhuma delas impediu o Arcade Fire ontem. Desde os primeiros acordes de Reflektor, passando por danças, referências ao Brasil e antigas canções, até desembocar no final com Wake Up com direito a chuva de papel picado e fogos de artifício, tudo deu maravilhosamente certo. Destaque para terem tocado Laika, canção de Funeral, pela primeira vez nessa turnê nos shows do Rio e em São Paulo. A música foi requisitada à banda por meio do fã clube deles por aqui, o pessoal gente finíssima do Arcade Fire Brasil.

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Foto por João Vitor Medeiros/Catárticos

O saldo final foi positivo. Ouso dizer que foi o melhor entre todas as três edições, mesmo com todo os seus problemas. Dessa vez fiquei até o final e a volta de trem ocorreu tranquilamente. Há bastante coisa a ser repensada, como a capacidade máxima e o acesso aos palcos, mas há muita coisa a ser mantida. No Jockey, talvez fosse mais cômodo pra maioria das pessoas, mas era em um espaço apertado e como som vazando entre palcos, algo péssimo em um festival de música. E no final, não é a música que importa mais?

Confira um resumo do festival em 30 fotos AQUI.
Confira nossa cobertura completa AQUI.

O teste de Interlagos ou como foi o 1º dia do Lollapalooza Brasil

Foto por Clarissa Wolff/Catárticos
Foto por Clarissa Wolff/Catárticos

O primeiro dia do Lollapalooza Brasil era um teste importante: agora sob o comando da Time For Fun, o festival tinha a missão de provar que poderia fazer do Autódromo de Interlagos sua nova e definitiva casa no país. Os ingressos, esgotados na véspera, mostravam que o público tinha dado um voto de confiança à organização e superado a desconfiança inicial com a escolha do local.

Fui de metrô/trem até a estação Autódromo e o percurso todo funcionou de forma satisfatória na ida, dentro das suas limitações. O único problema foi mesmo a superlotação e o aperto, o que não chega a ser nenhuma novidade pra quem vive em São Paulo. Aliás, foi uma “boa” oportunidade para quem não mora na cidade conferir uma pequena parte de como é o dia a dia de quem depende de transporte público por aqui, porque é dali pra pior.

Chegando a Interlagos logo ficou claro qual seria o maior vilão do festival: a distância. Entrei próximo ao palco que leva o nome do autódromo e para chegar até o show do Cage the Elephant (banda que foi a primeira que assisti em um Lollapalooza, em 2011), no palco Ônix, foi um belo pedaço de chão. Consegui ver algumas músicas de longe, aproveitando os morrinhos que permitiam enxergar com clareza a banda mesmo estando afastado. Esse fator foi um belo acerto e funcionou bastante bem naquele palco. Contudo, preferi me adiantar e ir até o palco Skol conferir em pessoa o tão (mal) falado novo projeto de Julian Casablancas.

Foto por Clarissa Wolff/Catárticos
Foto por Clarissa Wolff/Catárticos

Eu gosto de Strokes. Gosto bastante. Vi a apresentação deles por aqui no Festival Planeta Terra de 2011 e mesmo com todos os problemas achei que foi um belíssimo show, principalmente por causa do público, que cantou todas as músicas o tempo todo. Do projeto solo do vocalista nunca fui dos maiores fãs, mas era preciso confirmar com meus próprios olhos (e ouvidos) o que o nova-iorquino aprontaria acompanhado da sua nova banda, The Voidz. Aí deu tudo errado. Sem versões de estúdio pra comparar (o disco deve ser lançado ainda esse mês), a estranheza com as novas canções era enorme. Era quase impossível distinguir a voz no bolo sonoro que se formou em meio a duas guitarras Flying-V com timbres de hard rock e uma bateria raivosa. Todas as músicas novas eram versões dessa combinação. E mesmo com a referência à bandas punks da Inglaterra do final dos anos 70 (Julian usava patchs do GBH e Discharge em sua jaqueta), tudo ali parecia soar como a primeira banda de um adolescente que acabara de descobrir o metal. Julian parecia animado, mas inseguro. Brincou com plateia dizendo: “Novas músicas, pessoal! Estamos aprendendo, estamos aprendendo”. O show melhorou sensivelmente na parte final quando foram tocadas 11th Dimension do seu primeiro disco solo e Take It or Leave It dos Strokes, mas aí já era tarde. O músico andou dizendo em entrevistas que seu novo disco iria explorar uma combinação pouco utilizada na música até agora. Se for parecido com o que apresentou, o pouco uso da tal combinação não é coincidência.

Foto por Clarissa Wolff/Catárticos
Foto por Clarissa Wolff/Catárticos

Em mais uma etapa da meia-maratona, voltei ao palco Interlagos pra conferir os shows de Portugal. The Man e Lorde. O primeiro, que faz um pop bem legal em disco, não comprometeu. Fez o arroz com feijão e agradou aos fãs. Foi legal ouvir ao vivo boas canções como Modern Jesus, mas pra quem não é louco pelo grupo, não foi um show memorável. Ainda assim, foi divertido.

Era a vez então de Lorde, o mais recente fenômeno da música pop. Eu inclusive ouso dizer que os ingressos esgotados do dia talvez tivessem mais a ver com a neozelandesa (e o Imagine Dragons, outro fenômeno recente) do que com os headliners do dia. E ela não decepcionou. Com uma banda enxuta, formada apenas por um baterista e um tecladista, a adolescente parecia genuinamente emocionada e não cansava de elogiar o Brasil e dizer como estava feliz de estar ali. Lorde não faz meu estilo de música preferido e não coloco pra rodar um disco da cantora quando que quero relaxar, mas em meio a um pop radiofônico cada vez mais saturado, produzido em série e superproduzido em estúdio com batidas eletrônicas pasteurizadas, ver algo bem mais orgânico sendo feito é um alívio. A garota parece bem distante do personagem de diva pop e eu acho que ela tem um belo futuro pela frente. Não seria a primeira vez (e espero que não seja a última) que um adolescente daria um sopro de frescor ao pop de FM. O público pareceu não ter reclamações.

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Foto por Clarissa Wolff/Catárticos

Na saída, empurra-empurra e aperto. Não sei se a produção subestimou o público que gostaria de ver o show da Lorde, mas foi extremamente difícil e doloroso mudar de palco após a apresentação. E olha que eu saí faltando duas ou três músicas pro fim. Mais um ponto fraco do festival: os acessos aos palcos não comportaram bem o número de pessoas e por vezes, principalmente à noite, foi complicado se deslocar, mesmo para os palcos menos concorridos. A produção precisa encontrar uma maneira melhor de fazer isso funcionar com tanta gente (em rota de colisão) por ali.

Dei um tchauzinho de longe para o palco abarrotado onde o Phoenix tocava e fui esperar Trent Reznor e companhia no show do Nine Inch Nails. E daí foi só alegria. Ou melhor, foi só melancolia, raiva e violência. A banda entrou a mil com Wish e me fez esquecer o cansaço e a dor nos pés que naquela hora já estavam bastante grandes. Com a cara de que saiu de uma instituição mental direto para o palco de sempre e se comunicando com o público apenas por meio de seus “hey”, o americano não deixou a peteca cair nem quando a apresentação entrou numa parte mais calma. Mesmo com uma formação reduzida de oito pra quatro integrantes e sem a parafernália de iluminação completa, a banda fez o show do dia do festival. Pesado. A galera era intensa em algumas partes, mas em geral assistiu ao show com atenção e em silêncio. E mesmo que não dê pra esperar uma plateia feliz e saltitante em um show do Nine Inch Nails, até o mais sisudo dos presentes saiu com um sorriso no rosto. Ouvir Hurt ao vivo encerrando tudo foi a cereja do bolo.

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Foto por Clarissa Wolff/Catárticos

Vi algumas músicas do Muse de longe, mas não quis arriscar sair ao mesmo tempo daquele mundaréu de gente e fui embora ainda no começo do show. Na saída, passei pelo palco do Disclosure, que tinha bom público pra quem concorria com um headliner. Na volta, o transporte novamente funcionou de forma ok.

Mais organizado que os Lollapalooza do Jockey, não enfrentei fila pra comprar água ou alimentos em nenhum momento. Os vendedores ambulantes aceitando fichas e dinheiro funcionaram maravilhosamente bem. As ativações das marcas não ficaram cansativas e contribuíram pra experiência de quem estava ali querendo mais do que música. Não fui ao Chef Stage, mas só ouvi elogios à comida e ao serviço. O 3G, como sempre, foi impossível de acessar e os palcos às vezes pareciam apertados. E andar aquela distância toda foi bastante estafante. Contudo, jogando isso na balança, o saldo foi positivo. Longe de estar ainda perfeito, o #NovoLollaBR, como foi divulgado o tempo todo, tem potencial pra mudar o jeito como o público brasileiro se relaciona com festivais e Interlagos (sem chuvas) funcionou bem no todo. Como tudo que tem relação com essa edição, ainda há um longo caminho a ser percorrido (hehe), mas é possível chegar lá.

Vejamos como será o segundo dia de festival, que deve ter um público bem menor.

Mac DeMarco em São Paulo – A juventude é a plateia no show de um músico canadense

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“Eu não sabia que Mac DeMarco tinha tantos fãs” – foram minhas palavras a minha namorada quando ao sinal do primeiro verso de The Stars Keep On Calling My Name, segunda música da apresentação que o canadense fez com sua banda ontem no SESC Belenzinho, em São Paulo, o coro foi engrossado com uma alegria furiosa pela plateia. E quem já foi a qualquer show, sabe que isso faz toda a diferença.

Obviamente, os preços cobrados pelo SESC, muito abaixo do mercado, tratam de otimizar todo esse processo. Os ingressos mais caros para as duas apresentações de DeMarco custavam R$ 35,00 e evaporaram em horas. Mas eu já fui a vários shows no SESC e havia ali algo diferente. Noventa por cento da cerca de 500 pessoas que se prostravam a frente do palco não deviam ter mais que 25 anos. Uma geração que quase não viveu em um mundo sem internet e quase não sai dela. E a internet, mesmo com todas as suas desvantagens, é maravilhosa. O canadense sabe disso e ao anunciar uma música do novo disco, Salad Days, que já vazou, avisou que não dá a mínima se as pessoas fizerem o download ilegal – “sério, eu não ligo, baixem”. Queridinho de blogs pelo mundo, ele sabe que não teria chegado até aqui sem a rede mundial

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Com o jeitão caipira, vestido com um macacão de jardineiro bege e um boné que se fosse brasileiro com certeza teria estampado o nome de algum candidato a vereador obscuro, Mac e sua banda tornaram muito mais poderosas as composições de disco. Em um quarteto clássico, com duas guitarras (às vezes substituídas por sintetizadores), baixo e bateria, cantaram cheios de desdém sobre cigarros, drogas e paixões passageiras. Tudo isso fazendo uma série de piadas nos intervalos das músicas, sempre dirigindo-se diretamente ao público, que não perdia a oportunidade de reforçar o poder do carisma dos músicos . A estranha sensação era de descobrir que o palhaço da turma estranhamente mandava muito bem com uma guitarra na mão.

As canções mais famosas estavam todas ali: Cooking Up Something Good, Ode to Viceroy e até Robson Girl, atendendo a um pedido. Até aí tudo normal. Adjetivo que contudo não se aplica aos covers executados de maneira caricata: Tears in Heaven de Eric Clapton, Blackbird dos Beatles em uma versão pesada e até Wicked Games de Chris Isaak ganharam interpretações bizarras, muito mais cômicas que musicais e que nunca entrariam em um show de alguém sério. E não se levar a sério parece uma das grandes virtudes do canadense, que completamente de surpresa se jogou no público que o carregou e o levou de volta ao palco já na parte final da apresentação.

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Eles ainda voltariam pra um bis com Rock and Roll Night Club, mas o jogo já estava ganho desde os primeiros minutos. Não que isso importasse. Perder ou ganhar, tanto fazia. Desde os anos 60, quando os adolescentes e jovens viraram uma classe à parte de consumidores, ganhando atenção especial da indústria, tudo o que a juventude quer é se divertir, antes de encarar a maçante vida adulta. E ontem eles conseguiram. É o suficiente. Quem não quer ser jovem ?

Hoje tem MacDeMarco novamente no SESC Belenzinho, às 21:30. Os ingressos já estão esgotados, mas se puder, não perca.

Setlist (via setlist.fm):

  1. Salad Days
  2. The Stars Keep On Calling My Name
  3. Blue Boy
  4. Treat Her Better
  5. Cooking Up Something Good
  6. Let Her Go
  7. Brother
  8. I’m a Man
  9. Passing Out Pieces
  10. Let My Baby Stay
  11. Ode to Viceroy
  12. Tears in Heaven
    (Eric Clapton cover)
  13. Freaking Out the Neighborhood
  14. Robson Girl
    (Requested by the audience)
  15. Wicked Game
    (Chris Isaak cover)
  16. Chamber of Reflection
  17. She’s Really All I Need
  18. Take Five
    (The Dave Brubeck Quartet cover)
  19. Takin’ Care of Business
    (Bachman-Turner Overdrive cover)
  20. Blackbird
    (The Beatles cover)
  21. Only You
    (Makeout Videotape cover)
  22. Still Together
  23. Encore:
  24. Rock and Roll Night Club