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Spiritualized em São Paulo ou um relato pessoal de como a música pode mudar vidas

Quando eu era adolescente, como milhões, sonhava em ter uma banda. Tipicamente cheio de confusões, me digladiava internamente ao tentar entender o mundo como me era apresentado à luz de um recente florescer de consciência. Meu assunto preferido era a religião e tentar transformar toda essa inquietação em versos e acordes utilizando meus primitivos conhecimentos musicais, uma necessidade quase fisiológica à época. O tempo passou, assim como a vontade e o sonho de ser artista. Mas a confusão permaneceu, mesmo que em menor intensidade, juntamente com o amor pela música, esse cada vez mais pujante. E num dia qualquer de mergulho existencial nos meus inseparáveis fones de ouvido, descobri que existia há anos uma banda que seria a materialização exata do que eu queria quando sustentava em mim todos aqueles desejos e esperanças pueris: o Spiritualized. E isso mudou minha vida.

Então, qualquer pretensa objetividade foi de cara abandonada, quando na noite fria de ontem tive a oportunidade de ver ao vivo Jason Pierce em ação pela 32ª segunda edição do Popload Gig, no Audio Club em São Paulo. Era o primeiro encontro comigo e centenas de outros fãs brasileiros que esperaram por mais de uma década até o grupo desembarcar no país.

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Foto por Clarissa Wolff/Catárticos

Não era o clássico show com guitarras raivosas e pulsantes. Na montagem denominada “Acoustic Mainlines”, a formação de palco consistia em Pierce, munido apenas de violão, e o companheiro de longa data Doggen, encarregado do piano e gaita, sendo guarnecidos por um quarteto de cordas e um coreto gospel composto de quatro cantoras, totalizando uma formação de dez. Separados estrategicamente em dois grupos, Doggen e as instrumentistas estavam completamente vestidos de preto à esquerda, enquanto Jason e as cantoras, de branco da cabeça aos pés, ficavam à direita – com o negro violão de Pierce como um premeditado enclave naquela parte do palco. Ali estava a dualidade clássica do mundo e principalmente da religião: preto contra branco, bem contra mal, as sombras contra a luz.

Era um show delicado e para ser assistido em absoluto silêncio, algo que muitas vezes não foi respeitado por um grupo que insistia em pedir por canções incompatíveis com o “Acoustic Mainlines” ou simplesmente gritar coisas sem sentido. Contudo, tais manifestações, felizmente, não foram suficientes para tirar a beleza do espetáculo. A oportunidade de assistir a canções do repertório que raramente são interpretadas nos shows tradicionais, como “Broken Heart”, “Cool Waves” e “Too Late”, foi suficiente. “Broken Heart”, talvez seja minha canção preferida do Spiritualized e ouvir os doloridos versos iniciais “Though I have a broken heart/I’m too busy to be heartbroken” a menos de dez metros de distância de Pierce, é algo que eu nunca vou esquecer.

Houve ainda espaço para músicas do Spacemen 3, antiga banda de Jason, e um cover da mais famosa canção de Daniel Johnston, “True Love Will Find You In the End”, sem deixar de fora a faixa título e clássicos do mais conhecido disco da banda “Ladies & Gentlemen, We’re Floating In Space”. Lindo.

Foto por Clarissa Wolff/Catárticos
Foto por Clarissa Wolff/Catárticos

Mas a força, dor ou beleza das canções ali entoadas por aquelas dez almas no palco, não era nada perto do que elas representavam. Para mim, aquele foi um momento em que eu parei para pensar em porque a música ocupa um espaço tão grande na minha vida. Eu parei para pensar o que significava me conectar tanto com aquelas palavras e notas e como elas mudavam quem eu era, ao mesmo tempo que me encorajavam a abraçar todos as feridas mais antigas. E naquele momento, aquele adolescente confuso e cheio de questões que ainda vive dentro de mim e, vira e mexe dá as caras, teve um momento de paz. Ele sabia que não estava sozinho no mundo. Lembrei que música tinha razão de existir. Naquela noite eu pude dormir sorrindo.

Setlist (via setlist.fm):

Sitting on Fire
Lord Let It Rain on Me
True Love Will Find You in the End (Daniel Johnston cover)
Cool Waves
Amen
Soul on Fire
Walkin’ with Jesus (Spacemen 3 cover)
Feel So Sad
Going Down Slow
Stop Your Crying
Anything More
Ladies and Gentlemen We Are Floating in Space
Broken Heart
Lord Can You Hear Me? (Spacemen 3 cover)

Encore:
Too Late
I Think I’m in Love
Goodnight Goodnight