ENTREVISTA: Thurston Moore – “Ser um rockstar é uma das últimas coisas que eu tenho interesse”

Thurston Moore teve um 2014 agitado. Depois de declarações de Kim Gordon – sua ex-esposa e companheira de banda – sobre o fim do casamento de 27 anos explodirem na imprensa, o músico americano resolveu lidar com o assunto da única forma que sabe: fazendo música e caindo na estrada. Foi assim que lançou o quarto álbum solo da carreira, o excelente The Best Day (meu segundo disco preferido do ano), o qual foi a base de uma turnê mundial que passou pelo Brasil no último dia 04 de dezembro fazendo o que foi, na minha opinião, o melhor show internacional no país nesse último ano.

À época eu tive a oportunidade de conversar com o guitarrista por Skype por quase uma hora para escrever uma matéria para o UOL (aqui). Obviamente, pela limitação de espaço, acabaram sendo publicadas apenas as partes mais importantes. Por isso, abaixo você pode conferir como foi o papo completo em que o músico fala sobre a vida pessoal, possível volta ao Brasil com outro projeto, black metal, internet e claro, Sonic Youth.

Eu acho que The Best Day é um disco muito bom. Você ficou satisfeito com o resultado?

Sim, sim. Um segundo. […] Desculpa.

Não, tudo bem.

Eu estou muito feliz com o disco. Foi uma coisa realmente mágica pra mim, de repente, ter uma banda como essa no meu mundo e gravar essas músicas que eu tinha composto. Foi muito agradável pra mim.

Você tocou o Steve Shelley (Sonic Youth) e Debbie Googe (My Bloody Valentine), eles também estão tocando contigo ao vivo agora…

Sim, é a mesma banda que está no disco! Steve Shelley, Debbie Googe e James Sedwards.

Como tem funcionado isso? Vocês se dão bem?

Sim, nós nos damos muito bem, nós meio que nos conhecemos através de amizades, eu certamente conheço o Steve do Sonic Youth (risos). Eu encontrei o Steve quando eu estava começando a escrever essas músicas e eu estava tocando um duo de guitarras com o James Sedwards e ele escutou as músicas e disse que tocaria bateria nelas se eu estivesse interessado e eu estava muito interessado! Steve foi quem teve que voar, porque agora eu moro em Londres, então ele foi quem pegou um vôo até aqui. E James e eu decidimos chamar a Debbie Googe…Bem, James e Debbie são amigos e eu conheço ela há anos porque o Sonic Youth e o My Bloody Valentine tocaram juntos desde o começo, nos anos 80. Então, nós ligamos pra Debbie pra ver se ela queria tocar, se ela estava livre. Eu sabia que o My Bloody Valentine tinha terminado a turnê de reunião deles e então ela disse que estava livre. Ela veio até minha casa, nós tomamos algum vinho, escutamos a música e, quando eu vi, os quatro estavam no estúdio juntos. E a primeira vez que todo mundo tocou junto foi no estúdio, com a fita rolando.

Por que você decidiu se mudar pra Londres?

Oh, por muitas razões. Muitas razões pessoais, principalmente. A mulher por quem eu estava…estou apaixonado mora em Londres e isso é o principal, eu queria estar com ela. Também eu senti que a minha vida estava passando por mudanças radicais, eu gostaria de ir a algum lugar que fosse novo, mas foi principalmente porque ela estava lá.

O texto de lançamento do The Best Day diz que o disco é baseado em “amor positivo e radical”, tem a ver com isso que você está dizendo?

Sim, definitivamente. Mas ao mesmo tempo, eu sempre tive paixão por escrever sobre amor radical, de qualquer jeito (risos). Só que dessa vez foi muito pessoal porque eu passava por uma mudança muito grande na minha vida e eu realmente queria celebrar esse sentimento, em oposição a escrever sobre perturbações que acontecem nas vidas das pessoas, mas ainda tendo respeito pela realidade disso, sabe? E é por isso que que tenho essa foto da minha mãe na capa do disco, quando ela era uma mulher jovem. Não sei se você viu a capa…

Sim, sim…

Então, aquela é a minha mãe. Ela estava no começo dos seus 20 anos, na água, com o melhor amigo dela, seu cachorro. E ela está olhando para a câmera do meu pai e ela está nesse lugar de serenidade e amor e, isso é durante a Segunda Guerra Mundial. Não é como se fosse uma utopia, mas ele está nesse lugar utopicamente seguro. E eu admirei isso e queria expressar isso, ao invés de qualquer sentimento de chateação. Eu acho que todo mundo tem o suficiente disso no seu próprio mundo, nós todos temos isso no nosso mundo real e não é como se eu quisesse fugir e fantasiar qualquer vida de felicidade fingida e posar como se tudo tivesse bem. Eu sei que as coisas nunca estão bem, mas, ao mesmo tempo, tudo pode ficar bem, não há razão pra que as coisas não possam ficar bem. Então eu queria focar nisso.

Não é exagerado dizer que seu último disco solo, Demolished Thoughts (2012), é um dos meus discos favoritos de todos os tempos. Foi o primeiro disco que eu dei à minha esposa quando começamos a namorar…

Que amor!

É um disco muito especial pra mim. E The Best Day é bom, mas muito diferente. Essa diferença está diretamente ligada ao seu momento e todas essas mudanças pelas quais você vem passando?

Tem que estar. Eu sinto que, pra mim, quando eu começo a escrever música é como um experimento, usando a linguagem e o som e eu não penso em nada a não ser o momento em que estou agora na minha consciência. Eu não gostaria que fosse apenas uma ego trip, também. Eu gosto que seja uma coisa aberta, que a música convide as pessoas a mergulhar e que elas também possam tomar aquilo que elas quiserem. Então eu não escrevo letras com um objetivo definido sobre o que eu quero expressar, eu gosto que as palavras simplesmente saiam, como uma expressão pura. Aguenta aí um pouquinho, tenho que pegar um negócio…

Eu estava pegando chá, nós tivemos um show bastante tarde ontem em Santa Cruz, Califórnia, estou me recompondo agora e eu pedi um chá, perdão.

Então, sim, esse disco é completamente diferente do Demolished Thoughts, que eram basicamente canções de amor que tentavam lidar, de várias formas, com essa ideia de como o amor muda de forma. E eu devia lidar com isso, porque era muito importante pra mim, mas eu não tinha certeza com o que exatamente eu estava lidando, sabe? De repente, eu não tinha palavras exatas pra dizer o que eu queria.

Você sempre esteve muito envolvido com ativismo social e The Best Day fala bastante disso, também. Como você vê o ativismo na era da internet? Você acha que ela mais ajuda ou atrapalha?

Eu acho que a internet é maravilhosa e importante pra conectar as pessoas com consciência sobre o que está acontecendo ao redor do mundo e em situações que há um desequilíbrio de poder, pra que nós possamos ver imediatamente o que acontece, como as pessoas indo às ruas em Hong Kong  e possamos imediatamente ver o que as pessoas tem a dizer, porque elas usam a internet pra se expressar sobre o que está acontecendo nas ruas. Isso é muito importante. E agora nós vemos o que acontece em situações de privilégios onde há abuso, de repente nós vemos situações como a polícia se aproveitando da situação de poder deles. E você pode estar muito nervoso, mas ao mesmo tempo você precisa ter um certo nível de maturidade, um nível de sensibilidade adulta porque nós sabemos que nem todas as pessoas em lugares de autoridade, nem na polícia, estão tentando abusar da posição deles. São só algumas pessoas, mas agora nós podemos monitorar essa situação como público com a internet, então eu acho que a internet é ótima.

Mas é também horrível, porque qualquer lunático pode usar a internet (risos). Então acaba se tornando uma batalha entre um monte de vozes diferentes. Mas você tem que entender que essa é a dinâmica do mundo de qualquer forma. Eu lido com isso o tempo todo, porque as pessoas escrevem coisas realmente horríveis nas minhas páginas de mídias sociais. E é como: por que você sequer pensaria em fazer algo assim? Eu nunca faço algo assim, eu jamais coloco um comentário horrível na página de alguém que eu não conheço. Mas nem todo mundo está dizendo coisas ruins.

Quando as pessoas pegam e escrevem essas coisas horríveis, você acha que é quem eles realmente são ou estão vestindo um personagem ali?

Eu não tenho ideia. Eu acho que é uma projeção das inseguranças das próprias pessoas. Não é nem mesmo uma questão pessoal porque você nem sabe quem são essas pessoas. A internet tem toda essa atividade de comunicação, boa, ruim, diferente, tanto faz…e é um verdadeiro tumulto, mas quando você sai de casa e vai pra rua, você não vê isso. Ninguém chega em você e tem esse tipo de conversa, ninguém fala contigo ou se expressa dessa maneira. Simplesmente não existe lá. De vez em quando alguém diz “ei, você viu o que falaram na internet?” e você ri e pensa “uau, a internet é tão fodida” (risos). Mas vivemos numa situação dupla, temos a vida online e a vida real e essa é uma força muito nova na humanidade, termos esse mundo online e o mundo físico e a relação é muito estranha. É uma relação muito estranha entre os dois mundos. Acho que é mais efetiva no ativismo, em que você pode juntar as pessoas e formar uma coalisão, como foi por exemplo com o Occupy Wall Street, que foi basicamente todo desenhado pela internet. E daí você tem políticos que tem grande sucesso usando a internet pra fazer campanha – certamente Barack Obama usou muito eficientemente a internet pra campanha à presidência, essa foi a primeira vez. Então é uma coisa incrível atualmente perceber essa transição maçante da vida online pra física.

E como você vê o papel da música nessa cultura da internet? Você acha que continua relevante ou agora é apenas algo reduzido? Como você enxerga o lugar da música hoje?

Eu acho que a música pode usar a internet tão bem quanto qualquer outra coisa pode usar bem a internet. Eu não acho que a música precise de nada, música simplesmente existe como a voz das pessoas. Eu não equaciono música e dinheiro, apesar de quando a música se equaciona com dinheiro isso se torna um problema, porque de repente você tem essas milhões de venda digitais pelo iTunes, Youtube, dando milhares de discos gratuitos por pessoas que não os pediram (risos). E isso é muito interessante, mas eu sempre achei que a música deveria ser gratuita, de qualquer maneira. O jeito de fazer dinheiro como músico é que você precisa sair e subir no palco ou ir tocar num canto da rua ou vender seu disco em uma barraquinha de merchandise. Ninguém disse que músicos precisam ser rockstars ricos, isso é besteira, quem inventou isso? É maravilhoso se você conseguir ganhar milhões e milhões de dólares, de euros, de libras, de batatas ou qualquer coisa (risos), seria divertido, mas eu não vejo isso como um objetivo ou uma ambição, isso é tipo ganhar na loteria, quantas pessoas conseguem isso com música? Eu me dedico à música em tempo integral e eu dependo da música pra ganhar meu sustento, então eu faço tours o tempo todo e eu aproveito as oportunidades quando elas aparecem. Se alguém diz “você pode fazer uma residência aqui nesse país por duas semanas e você pode pegar tanto dinheiro?” e geralmente não é muito dinheiro, mas você consegue pelo menos pagar o aluguel e estou bem com isso.  Pagar o aluguel, comer e gastar um pouco em lojas de discos e livrarias, eu tô ok com isso.

E o Sonic Youth nunca ganhou tanto dinheiro assim. Eu acho que quando nós assinamos com a Geffen pela primeira vez nós conseguimos ter acesso a um estilo de vida mais confortável, uma boa casa, Kim e eu pudemos ter uma filha, o que foi algo maravilhoso e nós pudemos ser responsáveis o suficiente pra alimentar essa criança e isso foi ótimo, porque não é todo mundo que pode fazer isso.

Eu costumo dizer que o rock não morreu, só o rockstar. E tá tudo bem.

Sim e ser um rockstar é uma das últimas coisas que eu tenho interesse e algumas vezes eu sou apresentado dessa maneira pela carreira do Sonic Youth ou qualquer coisa e eu entendo, é ok. Mas nessa altura do campeonato é bobo isso tudo, ser um rockstar. Se você vende muitos discos, se você ganha milhões, você é um rockstar. Se você vende muitos discos, eu te apoio, está tudo bem, é maravilhoso, você é muito sortudo (risos).

E você mencionou sua filha, sei que ela tem uma banda, chama Big Nils. Você gosta do som deles?

Sim, Big Nils! Eles eram fantásticos, mas acho eles não têm tocado mais. Era uma banda de quando eles estavam no Ensino Médio e agora eles todos estão em lugares diferentes. Minha filha está na Universidade e os outros estão em outras escolas ao redor do país. Então não, Big Nils teve uma rápida existência. Mas era uma ótima banda, eu vi eles ao vivo algumas vezes e mesmo que ela não fosse minha filha, eu teria amado a banda.

Falando de bandas que tiveram uma curta existência, o que aconteceu com o Chelsea Light Moving? Porque recentemente você lançou um clipe pra Heavenmetal sob o seu próprio nome.

Ah, sim, eu estava fazendo uma transição do Chelsea Light Moving pra minha carreira solo. E foi um projeto de transição pra mim, foi quando eu estava me mudando pra Londres, mas ainda em Nova York e eu queria continuar tocando música. Chelsea Light Moving foi a banda que estava excursionando em apoio ao Demolished Thoughts e no final da turnê e eu queria voltar a tocar mais guitarra, porque o Demolished Thoughts tinha a ver com violões e violinos e coisa e tal, e foi maravilhoso, mas eu comecei a ficar muito interessado em tocar guitarra novamente. E eu comecei a fazer isso, tocar músicas antigas do Psychic Hearts (primeiro disco solo de 2005), e me juntei com todo mundo e nós simplesmente expelimos um álbum inteiro em dois dias, foi muito rápido. Eu pensei que seria um bom projeto a se fazer, só lançar o disco, não fazer nenhuma entrevista, não ter o meu nome na capa e pegar uma van e partir pra tocarmos em qualquer lanchonete por aí e foi o que eu fiz por quase um ano e meio, enquanto eu estava tentando me mudar pra Londres. (risos) Foi louco, porque nós tocávamos em todo lugar como Chelsea Light Moving e eu estava tentando ser só um dos membro dessa banda. Foi um pouquinho difícil porque as pessoas sabiam que era eu e elas vinham até esses lugares bem pequenos e queriam escutar músicas do Sonic Youth (risos). Eu realmente amei tocar no Chelse Light Moving, foi um grupo muito rock’n’roll desde o início.

E você continua tocando músicas do Chelsea Light Moving ao vivo?

Nesse momento não. Tem uma música chamada “Alighted” que eu gostaria de tocar e eu acho que também podemos tocar “Heavenmetal”. Mas nesse momento só estamos tocando as músicas que estão no The Best Day e algumas do Psychic Hearts…

Nada do Sonic Youth?

Bom, Sonic Youth não está tocando agora. E ninguém assinou os papéis dizendo que nós estamos oficialmente terminados. A banda pode voltar depois que Kim e eu passemos por esse período e é um período muito sensível e Steve e Lee e todo mundo que trabalha conosco entende e respeita totalmente isso. Então nós só precisamos deixar o tempo definir o que o Sonic Youth vai ser. E o Sonic Youth pra mim sempre vai existir, porque Sonic Youth foi um nome que eu inventei e eu tenho Sonic Life tatuado no meu corpo e Sonic Youth sempre vai ser algo muito real no meu coração e na minha alma. Pra mim, Sonic Youth nunca vai se separar. Sonic Youth vai comigo pro túmulo.

Eu não vou perguntar nada muito pessoal, porque eu sei que é uma situação delicada, mas você acha que a imprensa te tratou de forma injusta no meio de toda a situação?

(Risos) A imprensa trata todo mundo injustamente. Poderia ter sido melhor, poderia ter sido pior. Eu não espero ser tratado diferentemente de ninguém que tenha algum tipo de perfil público e está envolvido com uma situação que é um pouco chocante para as pessoas. Eu esperava isso e algumas vezes as pessoas escrevem sobre as coisas sem realmente saberem da verdade íntima. Porque existe apenas uma verdade e essa verdade é muito íntima e pessoal entre as pessoas que estão envolvidas na situação. E todo o resto, todas as outras pessoas – a menos que eles estejam na minha família -, eles não sabem. Eles não tem ideia do que seja a história. E essa história é muito pessoal. E independentemente do que eu digo ou outras pessoas dizem ou alguém na minha família diria publicamente pra imprensa, não importa, porque ninguém nunca irá saber, tirando nós. Eu tive que levar de forma muito leve porque eu sei que ia se desfazer, como areia numa pedra, porque não significa nada pra ninguém. Quando eu vejo a imprensa tratar as pessoas que estão passando por situações similares à minha, não é algo que eu leve comigo pra fora do meu quarto. Tipo o Neil Young, o que ele está passando na vida pessoal dele, eu to cagando pra isso. É curioso, suculento, escandaloso, mas quando eu saio não tem nenhum impacto na minha vida, na minha consciência e no que eu faço ou como lido com as pessoas. Isso que importa.

O último show que o Sonic Youth fez foi aqui no Brasil. Você tem alguma memória daquele dia?

Era um festival imenso (SWU) e estava chovendo em algum nível. E eu me lembro que eu realmente não pensei como se fosse nosso último show, não era uma coisa grande pra mim. Eu pensei “ok, esse é o último show que nós temos marcado. E só Deus sabe o que vai acontecer depois disso”. Mas eu não pensei “esse é o último show do Sonic Youth pra sempre, tchau, adeus, Sonic Youth está terminado”. Isso não estava na minha cabeça de jeito nenhum. Era só o último show que tínhamos até algum aviso futuro, tipo “ok, vamos dar um tempinho agora” (risos). E eu ainda me sinto dessa forma, sabe? Sonic Youth foi a coisa mais importante da minha vida porque foi a minha vida. Eu tenho muito orgulho do trabalho que a gente fez, porque a gente gravou tanta música que, de um jeito, talvez seja bom dar uma parada e, se as pessoas quiserem, elas podem mergulhar um pouco mais nas nossas músicas, sem que a gente jogue nelas mais 20, 30 outras por ano (risos).

Vocês tem algum plano de lançar gravações raras ou que ainda não viram a luz?

Tem muita música existente e nós temos algumas ideias do que lançar. Eu sei que uma vez nós fizemos uma sessão em Paris, na França, com Brigitte Fontaine que é uma lenda francesa surrealista, feminista e avant-garde da música teatral dos anos 60 e ela fez um disco maravilhoso de improvisação livre com a Art Ensemble of Chicago no final dos anos 60 e nós trabalhamos com ela. Anos atrás nós fizemos essa sessão ótima com ela, quando o Jim O’Rourke estava na banda, e nunca foi lançada. E tem também uma ótima gravação em vídeo. Mas isso tem um monte a ver com gravadoras na França (risos), elas são proprietárias e coisas assim. Tem muita coisa ao vivo, também. Então tem muita coisa do Sonic Youth nos cofres, de uma certa forma.

Você lançou nos últimos anos sessões de improviso livre com gente como o John Zorn e Matt Gustafson, você tem trabalhado em algo desse tipo? Deveria fazer uma dessas no Brasil.

Matt Gustafson quer fazer uma turnê no Brasil comigo. Uma turnê na América do Sul comigo. Então, estamos pensando em fazer isso. Pra mim é uma música de muita entrega e eu acho ela muito espiritual, um tipo de meditação e seguir a musa totalmente. A ideia de composição torna-se muito espontânea, então é como uma composição espontânea. Nós estamos compondo ao vivo. Eu adoraria tocar essa música na América do Sul. E esperemos que isso aconteça logo.

Recentemente você fez alguns comentários sobre black metal que pareceram chatear alguns fãs. O que você achou da reação deles?

(risos) Eu achei surpreendente porque eu sou tipo um grande devoto e maluco por black metal. Eu venho colecionando e arquivando black metal underground em fitas cassete por anos, então eu acho que black metal tem um senso de perversidade nele que deveria permitir a alguém como eu dizer que black metal é música sem colhões, sabe? Mas muita gente levou isso pro lado errado. Eu achei engraçado porque ouvir e ser devotado ao black metal deixam você muito pouco sensível, você não tem o sentimento que pessoas comuns teriam (risos). Mas quando as pessoas ficaram chateadas eu me dei conta que existem muitos fãs sensíveis do gênero. E você não se desculpa com fãs de black metal porque a ideia de pedir desculpas não existe no mundo do black metal. Você só destrói (risos). Então é tudo que eu posso dizer sobre isso.

2014 marcou 20 anos da morte do Kurt Cobain. Como foi essa data pra você?

Eu realmente não sei o que dizer, exceto que eu me sinto muito sortudo de ter sido alguém que o conheceu. Eu não saía tanto com o Kurt, mas nós fizemos turnê juntos, duas vezes. Excursionamos os EUA e a Europa, que foi o que Dave Markey capturou naquele filme 1991: The Year Punk Broke e eu permaneci amigo do Kurt, ligava pra ele às vezes e conversávamos sobre gravar e tal. E eu fiquei de coração partido quando o Kurt tirou a própria vida. Foi devastador. Isso não é aceitável pra mim. Eu não tenho nada além de amor pelo trabalho dele e a pessoa que ele era. Ele era uma pessoa maravilhosa, muito doce, mas era também só um garoto normal, sabe? E aconteceu dele ser abençoado com uma voz de um anjo dourado. Eles eram uma grande banda, mas acho que se houvesse outro cantor naquela banda, não estaríamos aqui falando deles agora. A voz dele era mel vindo do paraíso. Ele veio até a Terra, fez esse grande trabalho e partiu imediatamente. Pessoas como ele, Jimi Hendrix, John Coltrane, Janis Joplin, pessoas que vem até aqui, criam esse fogo tão bonito e desaparecem. E isso acontece às vezes. Pra mim, eu me sinto muito grato de ter conhecidos essas pessoas.

E algumas pessoas que você conhece, à medida que você vai envelhecendo, morrem. É uma coisa natural. Isso te afeta? Você costuma pensar sobre a morte?

Não, eu nunca penso sobre a morte. As pessoas que eu conhecia e que se foram, no mundo das artes, eu penso sobre isso, como é gratificante ter conhecido pessoas assim e pessoas da minha família, que eu amo, mas essa é a realidade. Eu não penso muito nisso, porque eu tenho uma opinião muito budista, eu vejo como um estado de permanência, uma constante transição e eu não temo isso. Tem o mistério e eu não me importo, eu gosto de mistério e, pra mim, eu não tenho nada além de respeito, porque é a única coisa além do nascimento que todos partilhamos, então eu realmente não penso sobre. Eu adoro ler e cantar sobre isso, sobre rituais, sobre celebração disso, como no Dia dos Mortos que acontece no México que é maravilhoso, e eu acho que é algo que deveria acontecer em um processo de amor e paz. Eu não gosto da ideia de morte acontecendo de forma violenta e acho que essa deveria ser uma ideia que todos se opusessem, então, isso é importante pra mim.

E você vai tocar aqui em Dezembro. Animado? O que podemos esperar?

Vocês vão ver uma banda muito boa. Sou eu, Steve, Debbie e James e estamos matando a pau nesse momento – falando em morte… (risos) E vocês verão um post-punk-death-rock bastante pesado. Eu to muito animado em ir ao Brasil, eu sempre amo ir aí. São Paulo, Rio, duas cidades extremamente diferentes. Eu não tenho nada além de amor pelo Brasil. Pra mim, alguns dos melhores trabalhos musicais de todos os tempos saíram do Brasil. Toda a Tropicália, algumas das músicas mais importantes que já foram gravadas, eu amo toda a tropicália clássica, Caetano, Nara. Gal Costa é genial. Eu acho que muito disso teve a ver com os anos 90 e 2000, quando as pessoas tiveram condições de redescobrir as gravações online ou em reedições em CD. Então de repente, todo mundo podia ouvir essa música. Mas eu tive contato com ela pela primeira vez através do Arto Lindsay e ele estava numa banda chamada DNA e ele falava da música brasileira e o jeito que ele cantava no DNA e no Golden Palominos, ele tinha essa bela voz-em-samba e eu sempre fiquei muito curioso sobre isso e ele contava da beleza da brasiliana e tropicália. E tão logo nós achamos as gravações, nós nos deliciamos com aquilo, engolimos, bebemos e foi lindo, lindo. Nós íamos a São Paulo, íamos nas lojas de discos e voltávamos com quaisquer discos que nos intrigasse e escutávamos essa música o tempo todo. É também um estilo bem diferente, não é algo que empregue na minha música constantemente, então o que eu mais tiro dessas músicas é a poesia que há no balanço de música e ativismo que eu escuto em muitas das músicas da Tropicália. E eu acho isso maravilhoso, essa carga que a música tem. Eu acho muito importante as pessoas terem esse tipo de música em seu mundo.

ENTREVISTA – Real Estate: “Provavelmente a música baseada em guitarras está morrendo”

No último ano o mundo foi pequeno para o Real Estate. Projetados pelo terceiro e elogiado disco, Atlas, a banda de New Jersey viajou e tocou em praticamente todos os festivais e centros mais importantes do globo. Oriundos da pequena cidade de Ridgewood, hoje eles aparecem com um dos maiores expoentes do rock alternativo americano e vivem no musicalmente efervescente Brooklyn de Nova York.

Atlas foi tão bem recebido em solo americano que chegou a ocupar a posição de número 34 nas paradas estadunidenses, um grande feito para uma banda independente de médio porte, cercada por todos os lados por oceanos de projetos milionários. Assim como na produção, não há nada de extravagante na música do grupo. Nas canções da banda, melodias sutis são tecidas sob vocais tranquilos, sempre guiadas por acordes ou riffs de guitarra. A sensação é a de deitar-se em uma rede e de repente não ser mais refém do tempo.

E é com esse poder em mãos que eles desembarcam essa semana em São Paulo (20/11) e Porto Alegre (21/11) – ambos os shows acontecerão no Beco 203 – para pela primeira vez se apresentarem nos palcos da América do Sul. Conversei por telefone com o vocalista Martin Courtney para a edição de novembro da versão brasileira da Revista Rolling Stone e a íntegra da conversa você confere abaixo.

Por que vocês escolheram o nome Atlas pro disco?

Eu acho que, lá atrás, quando estávamos acabando de montar as peças, nós tínhamos muitas músicas extras que acabaram não entrando no disco, mas as que acabamos mantendo, aleatoriamente, eu percebi que elas tinham coisas em comum, tinham a ver com certos lugares e nós temos viajado bastante. Desculpa, eu tô um pouco atordoado, acabei de acordar, fizemos um show até tarde ontem (risos). Mas basicamente tem a ver com um monte de coisas que estão no disco e como você se encontra em algum lugar do mundo. Muitas coisas no disco são sobre o futuro, como onde eu me vejo estando em 5 anos, 10 anos ou alguns meses e eu acho que quando eu olho pro disco é como se fosse um mapa, as músicas que eu escrevi me ajudam a descobrir onde eu quero terminar, como se fossem um guia pessoal pro futuro.

E você acha que Atlas é o seu melhor trabalho até hoje?

Eu acho. Como compositor, como a pessoa que escreveu a maioria das canções do disco, eu acho que são mais… acho que são canções bem trabalhadas e eu gastei bastante tempo nelas. À medida que você vai crescendo, e nós já temos essa banda há 6 anos, eu venho escrevendo músicas há mais tempo que isso, eu acho que se você fizer algo de novo e de novo você fica melhor nisso. Eu sinto que nós estamos melhores como banda, escrevendo músicas, arranjando ou mesmo tocando nossos instrumentos, sabe, eu era bem ruim como guitarrista quando nós começamos, eu ainda não sou muito bom, mas eu melhorei excursionando, tocando todo dia e tal… Então, sim, eu realmente penso que é melhor que nossos discos anteriores.

Nos seus trabalhos anteriores muitas músicas falavam do passado ou soavam nostálgicas, enquanto em Atlas o foco é o presente e o futuro. Por que essa mudança?

Eu meio que queria fazer isso como um desafio pra mim mesmo porque eu acho fácil escrever sobre o passado. Escrever as letras é a parte mais complicada do processo, eu não quero que elas sejam ruins (risos), então vai bastante pensamento e esforço. Então, basicamente, é muito trabalhoso pra mim escrever as letras, ou pelos menos aquelas que com as quais eu fico satisfeito. Muita gente diz que as músicas que eu escrevi anteriormente eram sobre o passado, olhar pra trás, nostalgicamente ou não…

E eu sei que você se casou recentemente, certo?

Sim, exatamente, então eu decidi que eu ia tentar não fazer isso dessa forma, ia explorar algo novo pra banda e também veio meio que naturalmente, houve muitas mudanças, coisas grandes estão acontecendo agora na minha vida pessoal, então também aconteceu naturalmente.

Você teve algum tipo de inspiração especial pra compor o disco?

Eu compus grande parte das músicas no meu apartamento, as guitarras e tal, e fomos aperfeiçoando quando estávamos no Brooklyn, gravando demos. Eu escrevi grande parte das letras enquanto eu estava caminhando pela cidade ou meu bairro no Brooklyn, estava meio que me forçando a sair e fazer longas caminhadas e então eu ficava tocando a música na minha cabeça e começava a escrever. O lugar que eu provavelmente mais escrevi era esse parque em Greenpoint, eu me sentava muito lá, tinha esse caderninho, ficava lá só olhando o céu. Então não foi uma inspiração direta, mas certamente influenciou no fim.

Alguns dizem que suas músicas e discos soam todos iguais, o que você pensa disso? Te incomoda?

Não me incomoda, mas me faz pensar… porque especialmente na produção, são discos muito diferentes. O primeiro foi feito em casa e o segundo nós fizemos em estúdios muito diferentes. Acho que especialmente o terceiro disco foi o mais afiado em termos de produção, nós tínhamos bastante consciência do que queríamos, mas sabe, nós definitivamente somos uma banda, temos um som e um estilo e eu acho que funciona pra nós. Nós somos uma banda baseada em guitarras e nós temos um certo som pra nossas guitarras e se as pessoas não gostam do jeito como nós soamos, provavelmente não vão gostar da maior parte das nossas músicas porque, não estou dizendo que tem uma fórmula, porque não tem, mas… Sabe, eu acho que eu só posso discordar disso (risos). Eu penso que cada canção é muito diferente, sabe? Eu acho que existe sutileza na nossa música, especialmente no último álbum. Eu sinto que cada álbum fica mais e mais sutil e se você não vai passar tempo com eles pode não se perceber o que estamos fazendo, então é uma pena pra essa pessoa, eu acho.

Você acha que música baseada em guitarras está morrendo?

Não sei, definitivamente é o menos popular que já foi desde os anos 50 ou 40, quando o rock’n’roll se tornou notável, mas eu não sei… sim, eu acho que provavelmente a música baseada em guitarras está morrendo, em 20 anos será completamente antiquado, mas eu não posso afirmar com certeza. Eu realmente amo guitarras e toda a músicas que fazemos.

Eu acho que nós vamos sempre ter alguns garotos tocando, só não vai ser mais tão popular…

Eu acho que existem maneiras de fazer isso e fazer com que soe novo. Nós como banda gostamos de escutar muita coisa antiga…

Tipo o que?

Tipo rock clássico ou indie rock dos anos 80 e 90, coisas como essa, até Krautrock, música alemã dos anos 70, mas eu sinto que as nossas melodias são, esperançosamente, novas. Eu acho que se você for só reproduzir todo esse rock já feito, talvez não tenha espaço pra você, mas se você tentar achar um jeito de fazer isso de uma forma nova, então, eu não me sinto preso, há pra onde crescer. Então pode estar morrendo com relação à popularidade, as pessoas podem estar menos interessada em músicas com guitarras do que costumavam, mas eu não acho que é nada menos vital do que já foi, porque ainda existem pessoas interessadas em fazer isso. Eu acho que é um jeito muito bom de sintetizar ideias diferentes. Existe muito o que você pode fazer com duas guitarras, baixo, bateria e teclado, tem muito o que você pode fazer com isso. Pra nós, eu gosto do fato que tudo que a gente faz em estúdio, nós podemos fazer ao vivo, nós não usamos nenhum sequenciador ou computador ou nada que não possamos reproduzir no palco, pra mim isso é uma coisa boa.

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Qual a sua opinião sobre a música pop que atualmente domina as paradas?

Eu não sei muito sobre isso, eu acho (risos). Eu conheço o que eu escuto por aí. Existem músicas boas e ruins, eu posso me interessar por algumas delas. Eu nem sei quem são, mas se eu escutar e gostar de algo eu não vou negar isso, mas tem muito lixo, claro. Mas é sempre assim, música pop é sempre uma mistura, há sempre coisas horrendas e pavorosas e há sempre coisas no limite, como Madonna, sabe? Músicas que são realmente muito, muito boas e de alguma maneira conseguem emplacar em um Top 40 e tal, então, eu realmente não posso apontar nada nesse momento que seja muito bom, mas tenho certeza que existe (risos). Eu só não escuto muito rádio, então não sei.

O vinil começa a se tornar popular novamente. O que você pensa sobre isso? Você gosta do som do vinil, você ainda compra?

Sim, eu compro discos, definitivamente. Eu acho legal que as pessoas estejam se interessando mais pelos discos agora, sabe, eu gosto de discos faz tempo, muito antes de começar essa banda. Eu com certeza acho que eles soam bem, mas eu não sou um grande audiófilo, então eu não consigo perceber muito a diferença nisso. Eu sei que soa muito bem e eu gosto da ideia de pegar o disco, é mais sobre a experiência tátil, ir até a prateleira, escolher um disco, ficar olhando pros detalhes da arte, fazer disso um ritual, que é diferente de você pegar algo e colocar no seu telefone. Eu gosto disso também, mas discos são diferentes, você está sentado na sua sala, tem todo o processo, uma coisa diferente. Mas eu estou especialmente alegre que as pessoas estão comprando vinil agora porque nós podemos fazer discos, sabe, como uma banda, e sabe, é muito divertido montar tudo, escolher a arte e ir decidindo o que vai dentro, como vai se parecer e tal eu sinto que, se nós estivéssemos fazendo isso há 10 ou 15 anos atrás, não seria possível pra gente porque seria menos popular.

 Você tem alguma colaboração dos sonhos? Algum artista que você realmente queira trabalhar junto…

Tem muitos, mas nós meio que já fizemos um. A banda The Feelies, nós sempre fomos muitos fãs deles e alguns anos atrás nós os conhecemos e nos tornamos amigos deles e pudemos tocar alguns shows com eles. Até tocamos com Glenn Mercer, o vocalista deles, algumas músicas. Eu consegui me juntar a eles no palco, também e fizemos covers de Television e Beatles e foi sensacional. Eu sinto que conseguimos colaborar com as pessoas que admiramos, nós conhecemos o Yo La Tengo, que é uma das minhas bandas preferidas e eu toquei uma música com eles no palco, então, sim, foi legal. Eu acho que como banda nós adoraríamos andar com o Neil Young e trabalhar juntos, isso seria demais (risos). Tem bastante gente que admiramos.

O que está esperando dos shows do Brasil?

Eu to muito, muito animado. Eu nunca estive na América do Sul, no Brasil, eu mal posso esperar.

Você conhece música brasileira?

Sim, um pouco. Não muito. Mas eu gosto muito da ideia do Brasil, sabe? Eu assisti alguns filmes que se passam aí tipo Orfeu Negro (1959, do diretor Marcel Camus)… Eu não sei, eu estou muito animado pra ir a praia, mal posso esperar.

ENTREVISTA EXCLUSIVA : Violent Femmes – “Nossa música foi desenhada para ser atemporal”

Por Mar Herrando, de Barcelona

O Violent Femmes, banda clássica dos anos 80 e 90, voltou, mas não só para tocar nos Estados Unidos. Também viajaram à Europa para fazer uma pequena turnê de quatro shows, acabando na cidade de Vitoria, no norte da Espanha. O motivo foi retornar ao Azkena Rock Festival, que nos dias 20 e 21 de junho completou sua 13ª edição, e no qual a banda já tinha sido escalada há exatamente dez anos.

O show foi excelente e começou com três sucessos do seu primeiro álbum, auto-intitulado, de 1982: “Blister in the Sun”, “Kiss Off” e “Please Do Not Go”. Também cantaram “Add It Up”, “Good Feeling” e “Confessions” e deixaram tempo para a melhor performance percussiva do novo baterista, Brian Viglione, acompanhado de um cajón flamenco (instrumento espanhol). Para finalizar, como não poderia ser diferente, mandaram “American Music”.

Além de realizar o sonho de ver uma das minhas bandas preferidas ao vivo, tive a oportunidade de falar rapidamente, por e-mail, com o baixista Brian Ritchie, único membro remanescente da formação original do grupo. Abaixo, você confere as respostas:

O show no Azkena Rock Festival foi a última parada de vocês na Europa e também o primeiro na Espanha desde novembro 2006. Que memórias vocês tem daquela tour?

Brian: A gente sempre curte tocar na Espanha. É muito cômodo para nós. Nós tocamos em Azkena há 10 anos e alguns dos outros artistas, eu lembro que eram MC5 e Roger McGuinn. Foi fantástico. Um dos nossos sidemen, Jarrod Oldman gostou tanto que ele casou com uma menina de Vitoria e começou uma família. Ele ainda mora aqui. Não lembro muito porque na época bebi absinto demais (risos). Cidade boa e comida boa.

outro

A confirmação da escalação de vocês pro line-up foi uma surpresa para os fãs da banda na Espanha. Ainda assim, há outras gerações que foram festival além de quem nasceu no começo dos ano 80- e seu primeiro LP foi lançado em 1982. Eles quiseram escutar canções de diferentes períodos da banda? Por que você acha que estas gerações continuaram a ser influenciadas pela a fusão de punk e folk que vocês fazem, independentemente do período musical da banda?

Brian: Nossa música foi desenhada para ser atemporal. Quando fizemos o primeiro álbum, evitamos intencionalmente qualquer ferramenta de produção que teria feito com que o álbum ficasse preso num período de tempo específico.  Nós quisemos soar como algo que poderia ter sido gravado nas décadas de 1950, 1960, 1980 ou no futuro.

Agora estamos no futuro e o pessoal ainda gosta, assim acho que nossa estratégia deve ter funcionado. Nós somos parte da continuidade da música americana, iniciada com o  folk, blues e early jazz, através do rockabilly e punk. Estamos seguros de tocar para qualquer pessoa de qualquer parte, idade e pensamento. Porque nossa música é simples e direta. 

Ainda sobre a volta, a qual começou em Londres, e terminou no sábado passado no Azkena Rock Festival em Vitoria. Este último show foi o único dos quatro em Europa que foi num festival. Como vocês se sentiram num evento internacional com um line-up puramente de bandas rock?

Brian: Nós não nos importamos. Tocamos em festivais de jazz, folk, blues, e inclusive de metal. Não acreditamos em fronteiras musicais. Estive num festival na Tasmânia chamado MONA FOMA (www.mofo.net.au) no qual existem zero fronteiras musicais e essa é nossa filosofia.

“Out the window”, “Good Feeling” e “Used to be” falam sobre uma felicidade que foi embora, mas nunca vai voltar. Mas ainda assim, por outro lado, a galera pode ganhar um pouco de esperança e fé em canções como “Rejoice and be happy” ou “This Island Life”. Nos poderia dizer se você acha que esta compensação, esse equilíbrio, é o paradigma eterno do comportamento humano e também se poderia ser uma das razões do seu sucesso contínuo?

Brian: Se você parar pra pensar, em muitas música que as pessoas desfrutam, há algo introvertido e deprimido nas letras, enquanto a música por si mesma é algo alegre. Por exemplo, o blues é uma porção de queixas, mas a galera gosta de dança-lo e jogarfora da sua mente as preocupações. Nossa música é uma expressão da humanidade real, não tenta ser cool ou criada. As pessoas podem se ver nela e é por isso que se relacionam com ela.

batera

Qual é a melhor e a pior versão da “Kiss off” que você já escutou ?

Brian: Se você procurar no Youtube, tem uma versão de Kiss Off que os Dresden Dolls fizeram e que é impactante, e foi aí que pensei em colocar o Brian Viglione na banda, quando precisávamos de um novo baterista. Eu também escutei outras bandas fazendo covers boas, mas não lembro dos seus nomes agora. Nunca escutei uma versão má, porque a canção em si mesma é boa.

Por fim, você descobriu alguma banda que faz essa mistura de punk e folk com a mesma sutileza e qualidade com o que vocês fazem?  E se você nos poderia fazer uma recomendação de alguns dos seus artistas favoritos.

Brian: Obrigado pelo elogio. Imagino que poderia dizer que Bob Dylan e Jonathan Richman tem feito isso há50 anos mais ou menos. Há muitas bandas novinhas que estão influenciadas por nós como os The Lumineers e Ben Kweller. Com certeza eu acho que os Femmes são a melhor em folk-punk, mas eu estou fortemente inclinado! Enquanto há jovens com atitudes ruins e ideias boas, vamos ver o estilo de música que está surgindo aqui e ali.