Primavera Sound 2014 em Barcelona: um festival que você precisa conhecer

“Um dia nós vamos morrer e nossas cinzas vão voar de um avião sobre o oceano. Mas agora nós somos jovens”. A noite, que resiste tanto a chegar por esses lados, finalmente havia possuído Barcelona por completo quando um envelhecido Jeff Mangum entoou os versos diante de uma multidão que se apertava para vê-lo junto ao seu Neutral Milk Hotel. Ao lado, o vento gelado vinha diretamente do mar, ali a poucos metros de distância, tornando as palavras de Mangum ainda mais doloridas, tocantes e pertinentes. E como numa fração de segundo daquelas que de repente muda tudo, eu tinha toda a consciência do mundo de que naquele momento eu pertencia exatamente ao lugar onde eu estava: o Primavera Sound.

O Neutral Milk Hotel havia sido a primeira banda a ser confirmada para o festival, ainda na cerimônia de encerramento da edição anterior. O show deles foi apenas um entre os quase 350 que aconteceram na programação no Parc Del Fórum e outros pontos da cidade. Do indie de arena do Arcade Fire ao black metal do Deafheaven, da psicodelia do Midlake ao pop ensolarado do !!!, era impossível passar o olho pela programação e automaticamente não desejar ver um punhado dos artistas ali listados. Para quem gosta de música alternativa atual, arrisco dizer que a curadoria do Primavera Sound é, hoje, a melhor do mundo e um dos pontos mais fortes do festival ao lado da localização, em um lugar paradisíaco cercado pelo Mar Mediterrâneo. O público, segundo a organização, foi de 190 mil pessoas das mais diferenciadas nacionalidades e o clima em todos os dias foi de tranquilidade e cordialidade. Foi o primeiro evento do tipo a que compareci fora do Brasil e posso dizer com toda a certeza que não me arrependi da escolha.

Cheguei a Barcelona na quarta-feira à noite, depois de uma longa viagem que passou por Buenos Aires e Madrid, enquanto aconteciam apresentações abertas de artistas como os britânicos do Temples e a californiana Sky Ferreira. Aliás, esse é outro ponto interessante do Primavera: a conexão com a cidade e seus habitantes. Mesmo com os ingressos longe de serem baratos (a entrada para os três dias saía por 195 euros no último lote), vários shows gratuitos foram realizados durante a semana, trazendo a atenção e o apoio dos locais ao invés de se fechar apenas ao público pagante. Contudo, devido ao cansaço, achei melhor abrir da programação do dia para descansar e aproveitar o melhor o que viria na quinta-feira.

O acesso ao festival pelo metrô de Barcelona é bastante fácil e o trajeto entre lugar onde eu estava hospedado com minha namorada e o Parc Del Fórum, que fica a 150 metros da estação, foi rápido e sem transtornos. Nesse primeiro dia de festival fechado, a entrada foi lenta e um pouco confusa, devido ao grande número de pessoas e o fato de que todos deveriam trocar os ingressos por uma pulseira de acesso que serviria para os demais dias e um cartão, utilizado para acompanhar a programação nos clubes no centro de Barcelona. Porém, nada que tomasse muito tempo ou arruinasse a experiência que mal havia começado.

Quinta-feira – O primeiro encontro. Com Real Estate, Midlake, Warpaint, Neutral Milk Hotel e Arcade Fire

Logo na entrada, em uma barraca do selo londrino Rough Trade, era possível comprar camisetas de bandas e do festival (de 15 a 25 euros), vinis e CDs (de 10 a 35 euros), mochilas com a marca do Primavera (35 euros) e uma infinidade de outros badulaques de boa serventia a quem quisesse levar um pedacinho daquilo tudo pra casa. Em volta da lojinha da Rough Trade outros stands também vendiam camisetas, discos de bandas obscuras, fones de ouvido, pôsteres, etc. A publicidade existia em bastante quantidade, mas não chegava a incomodar pois, geralmente, vinha contextualizada na forma de um palco, de uma atração ou sinalizando um lugar para alimentação.

Já passava das seis da tarde, então, quando nos encaminhamos para conferir o show do hypado Real Estate em um dos palcos principais, debaixo de um forte sol que, a mim, marinheiro de primeira viagem na Europa, causou forte estranhamento pelo horário. Como eu entrego no parágrafo que abre esse texto, a noite só cairia muito depois.

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Real Estate (Foto por Clarissa Wolff/ Catárticos)

Os americanos fizeram um set baseado no seu mais recentemente lançamento, Atlas (2014), à frente de um público bastante grande para o horário. Eu preciso confessar que essa é uma banda com a qual eu não consigo me empolgar muito. Escutei Atlas por diversas vezes e, mesmo sendo um disco muito longe do ruim, não caiu nas minhas graças. É um rock alternativo cheio de influências dos anos 90, com timbres limpinhos e bons riffs de guitarra. No palco, o show se resume à uma reprodução bem feita das gravações de estúdio e está aí o ponto chave: se você gosta das músicas, vai gostar do que for ver e ouvir.

Aqui vale ressaltar que no Primavera havia um esquema interessante nos palcos principais: eles ficavam um de frente para o outro e se alternavam entre o fim de uma atração e começo de outra, com intervalos de 10 a 20 minutos, de forma que quase sempre haveria alguém tocando pela região e era bastante rápido chegar a outro show.

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Midlake (Foto por Clarissa Wolff/ Catárticos)

E o show seguinte seria do Midlake, grupo que lançou um dos meus discos preferidos do ano passado, Antiphon (2013), no outro palco principal. Quando chegamos, ainda havia um público tímido esperando pelo início dos trabalhos, mas à medida que a banda tocava os primeiros acordes, mais e mais pessoas foram chegando nas proximidades. Sorte a delas. Esse era um dos shows que eu mais queria ver e não me decepcionou nem um pouco. Antiphon foi o resultado do trabalho de uma banda que havia acabado de passar por uma grande turbulência que culminou com a saída do seu vocalista e principal compositor, Tim Smith. Eles tiveram que começar tudo do zero e o disco, mesmo assim, é fantástico, principalmente na sua primeira metade e uma excelente pedida pra quem é fã de boas melodias psicodélicas. No palco, seis músicos compunham uma formação com violão, guitarra, bateria, baixo e dois teclados/sintetizadores, o que pode parecer um exagero, mas fazia toda a diferença para recriar as atmosferas e texturas de estúdio. O perfeito som do palco ajudava a fazer com que a combinação dos instrumentos funcionasse como um macio tapete melódico, pronto para abrigar a voz do agora vocalista principal Eric Pulido, que se alternava com a barulheira distorcida vinda da única e solitária guitarra. Sensacional. Os texanos precisam apresentar esse show no Brasil e, se o fizerem, você não deve perdê-lo. Deve, inclusive, ser melhor ainda em um espaço fechado e sem ruídos que não sejam os emanados pelos integrantes, o que obviamente é impossível em um grande festival. Agora sim eu sentia que o Primavera Sound havia, de fato, começado.

A próxima parada era para conferir o novo show das meninas do Warpaint, baseado no disco homônimo lançado esse ano. É um disco de post-punk interessante, apesar de não trazer nada excepcional. Em ação, as quatro integrantes se mostraram musicistas competentes. Com seus cabelos coloridos e sem se esforçar pra manter uma suposta pose cool, por vezes elas deixaram escapar sorrisos e lá pelas tantas algumas delas começaram a se livrar dos casacos que vestiam, acompanhando a subida de temperatura da plateia, que cada vez se animava mais. O sol se punha lentamente ao redor do Mar Mediterrâneo, o que ajudava a compor um cenário digno da beleza de Barcelona, mas um pouco superior ao só legal show que acontecia ali. Em comparação com outra banda com influências post-punk formada apenas por mulheres, o Savages – que se apresentou no último Lollapalooza Brasil -, elas saem bastante em desvantagem. O que não quer dizer que sejam ruins. Tocar ainda entre o Midlake e o Neutral Milk Hotel tornava a tarefa de ser relevante ainda mais árdua, ao ponto de que esse não será exatamente o show que eu irei mais me lembrar daqui a algum tempo.

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Agora era correr para o palco ATP pra pegar o início da apresentação do Neutral Milk Hotel, banda cult dos anos 90 que, depois de anos, se reuniu para uma concorrida turnê. Aqui eu preciso avisar que se você pretende algum dia ir ao Primavera Sound, você tem que estar ciente de que irá andar MUITO. São muitas bandas, muitos palcos e a maioria deles fica bastante longe uns dos outros, ao ponto que as caminhadas do último Lollapalooza Brasil, que causaram certo descontentamento em alguns, são só uma espécie de treino se comparado ao festival espanhol. Mas ainda era o primeiro dia e esse show valia todo o esforço.

Muita gente já aguardava a apresentação e conseguir um lugar no apertado espaço foi tarefa difícil, mas bem recompensada quando a banda apareceu e performou as três partes de King of Carrot Flowers apoiada em um coral uníssono dos presentes. É impossível ter escutado o disco clássico do Neutral Milk Hotel, In the Aeroplane Over the Sea (1998), e não se lembrar do prolongado verso “I love you Jesus Christ” que abre uma das partes de King of Carrot… Eu, que estou longe de ser praticante de alguma religião, não pude evitar em ficar arrepiado. O que se sucedeu depois disso foi um desfile de músicas coerente com o espírito da banda, alternando entre a alegria esquizofrênica e a melancolia doce, que atingiu o seu ápice na cena que eu descrevi no primeiro parágrafo desse texto. Fantástico. Outro show que tem que passar pelo Brasil. E logo.

Neutral Milk Hotel (Foto por Clarissa Wolff/ Catárticos)
Neutral Milk Hotel (Foto por Clarissa Wolff/ Catárticos)

O cansaço já batia forte, mas ainda havia um último show que queríamos conferir no primeiro dia. E enquanto era possível escutar o Queens of the Stone Age no palco ao fundo, fazendo a apresentação que eles trarão ao Brasil no segundo semestre, uma multidão já esperava os canadenses do Arcade Fire. E foi uma multidão, mesmo. Provavelmente o show com o maior público do festival, algumas pessoas com quem conversei posteriormente reclamaram de não ter conseguido ver ou ouvir bem o palco. Esse foi um problema com algum dos shows mais concorridos do festival e é algo que precisa ser repensado pela organização. Eu, por exemplo, não consegui ver o palco no show do Mogwai no último dia, mas para o Arcade Fire, acabei pegando uma boa posição. E o grupo fez basicamente o mesmo show do Lollapalooza Brasil, com apenas algumas adições ao repertório – eles tocaram todas as músicas do show paulista mais “Rococo”, “Keep the Car Running”, “Joan of Arc” e “We Exist”. Entretanto, a animação do público espanhol não chegou nem perto da brasileira. No palco, os integrantes pareciam animados, mas cansados e nada muito especial aconteceu. No fim, foi ótimo, mas sem o tom de novidade do Lolla. Irei ver o Arcade Fire ainda mais uma vez nessa turnê, em Paris, na semana seguinte ao Primavera para saber como eles se comportarão em um show solo e fora de festival.

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Arcade Fire (Foto por Clarissa Wolff/ Catárticos)

Achamos que era a hora de voltar para casa, mas a saída foi um pouco turbulenta nesse primeiro dia. O metrô havia parado à meia-noite (o show do Arcade Fire acabou por volta das duas da manhã) e só reabriria às 05h, as filas para ônibus eram lentas e quilométricas e os taxis eram pouquíssimos e ridiculamente concorridos. Depois de quase duas horas esperando e um bocado de esforço, conseguimos pegar um e nos recompor, na medida do possível, para o que viria no próximo dia. E que dia.

Sexta-feira – O Dia D. Com Slowdive, The National e Jesu

Quem me acompanha pelo Twitter ou pelo meu Facebook pessoal, certamente sabe que The National é uma das minhas bandas preferidas. Talvez A preferida. E o único show a que tinha assistido deles, em 2011 em São Paulo, sempre será lembrado como um dos mais especiais da minha vida. Por isso quando eles foram confirmados como atração principal do Primavera Sound, ao qual já planejávamos ir antes, foi o sinal definitivo para selarmos a viagem.

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(Foto por Clarissa Wolff/ Catárticos)

E o tempo em Barcelona já não era mais tão ensolarado no dia anterior, quando uma forte chuva começou a cair pela cidade. A galera se protegia como dava e nós tivemos que sair correndo para chegar até a área coberta da praça de alimentação. O público era bem menor que na quinta-feira, um pouco pela tempestade, um pouco pelas atrações não serem tão populares, o que fez com que ao chegarmos no palco onde The National e Slowdive se apresentariam, uma hora e meia antes do show dos britânicos, conseguíssemos sem problemas ficar no lugar mais central da grade. No palco oposto, as irmãs do HAIM faziam seu o show sem incomodar ou chamar a atenção de ninguém que estivesse por ali. Tanto que quase nem me lembrei de citá-las no texto.

A reunião do Slowdive corria como rumor já há um bom tempo, mas quando ela se confirmou, não houve um site sério de música que tenha deixado de pelo menos citar o fato. É interessante notar que o Slowdive nunca foi e nunca vai ser um sucesso massivo de público, mas como aconteceu com várias bandas dos anos 80 e 90 que terminaram, voltaram com a pecha de headliners. Mas quem se importa com isso quando a banda é tão boa em disco? Restava saber se ao vivo eles corresponderiam ou era apenas mais uma saudosista turnê caça-níqueis. Digo a vocês, então, que se a turnê de reunião do Slowdive foi feita pelo dinheiro, eles merecem cada centavo que ganharam. O que eu e mais 25 mil pessoas presenciamos ali na nossa frente, no palco Sony, foi uma banda inteira, intensa e com um repertório invejável. Bons músicos e, sobretudo, bons artistas, que conseguiram tornar pequenos clássicos ainda mais poderosos ali. Melodias lindas cravadas em distorções pesadas e asfixiantes capazes de fazer qualquer fã de boa música se encantar. Ouvir minha música preferida deles, “Machine Gun”, algo tão improvável há algum tempo, foi, no mínimo, libertador. A essa altura a chuva já tinha ido embora há tempos, mas o som das guitarras da banda corria como água pelo corpo dos que estavam ali a ponto de ser uma tarefa hercúlea tentar não fechar os olhos e balançar a cabeça no ritmo do som, entregue. Quando a banda avisou que teria que cortar uma música do repertório devido ao tempo – que provavelmente acabou sendo a mais famosa, “Alison” – alguém gritou da plateia o que todo mundo parecia sentir: “FUCK THE PIXIES!” (próxima banda a tocar no palco oposto). Mas não teve jeito, tivemos que nos contentar com “apenas” mais uma música, um cover de uma faixa solo do primeiro líder do Pink Floyd, Syd Barrett, executado numa versão totalmente slowdiviana. De todos os shows que eu já pedi no Brasil nesse texto até agora, esse é o que urge mais acontecer. Alguém, por favor, traga a banda para o nosso país. Se isso se confirmar, com certeza estarei lá novamente. Tinha sido o melhor show do festival até o momento. Disparado. Mas aí veio o The National.

Matt Berninger, The National (Foto por Clarissa Wolff/ Catárticos)
Matt Berninger, The National (Foto por Clarissa Wolff/ Catárticos)

Música é algo subjetivo, pra quem faz ou pra quem ouve, e como qualquer outra manifestação artística, depende tanto de qualidade interpretativa e técnica, como de bagagem emocional e sentimento de pertencimento. Não raro, músicas populares podem emocionar muito mais intensamente que sinfonias clássicas.

Poucas coisas me emocionam mais do que o The National. Posso dizer, com certeza, que eles são uma das grandes razões de eu estar aqui hoje, falando e querendo conhecer cada vez mais sobre música. O impacto pessoal do show deles a que assisti em 2011 foi tão grande que é difícil imaginar como seria minha vida hoje se ele não tivesse acontecido. Por isso, quando eles finalmente entraram no palco e tocaram as primeiras notas de “Don’t Swallow the Cap”, do recente “Trouble Will Find Me” – do qual nem gosto tanto -, eu sabia que algo muito especial estava por vir. E veio. A emoção de você assistir a sua banda preferida no palco é indescritível, quem já passou por isso sabe. E daí pouco importa se a crítica a acha a mais importante, relevante ou o diabo que o valha. Ali, aquela é a melhor banda do mundo. A melhor banda do seu mundo. E isso é mais que suficiente. Pelas quase duas horas em que eles estiveram no palco, ver a loucura intensa e prestes a transbordar de Matt Berninger, as personalidades diferentes dos irmãos gêmeos Bryce e Aaron Dessner e a precisão cirúrgica dos irmãos Devendorf se converterem em música, me lembraram de quem eu era e de que tudo sempre valeu a pena. O poder da música é o poder da vida. E mais uma vez, aquele foi o show da minha vida.

Já tinha sido o melhor dia de música que eu havia tido a chance de presenciar, mas ainda dava para curtir o show do Jesu, que começaria no palco da Vice em uma meia hora. Fomos pra lá e o ar gélido vindo do mar não hesitava em castigar os brasileiros mal vestidos pro frio europeu. O clima, entretanto, era perfeito para o shoegaze obscuro e atmosférico da banda. Em formato de duo, com um baixo e uma guitarra sob bases pré-gravadas, eles tocavam ao passo que imagens macabras em preto e branco iam rolando no telão ao fundo. De dar um frio na espinha. Gostaria de ter visto até o final, mas a fome, o cansaço e o frio fizeram com que tivéssemos que sair antes do término. Agora faltava um dia.

The National (Foto por Clarissa Wolff/ Catárticos)
The National (Foto por Clarissa Wolff/ Catárticos)

Sábado – Adéu, Barcelona! Com Teho Teardo & Blixa Bargeld, Caetano Veloso, Goodspeed You! Black Emperor, Kendrick Lamar, Cloud Nothings e Mogwai

Nesse momento eu já estava completamente apaixonado por Barcelona. Cidade de arquitetura linda, banhada pelo Mar Mediterrâneo e de povo tão simpático e cordial, virou uma piada entre eu e minha namorada virarmos um para o outro em momentos completamente aleatórios e suspirar “I love Barcelona”. Fomos muito felizes quando escolhemos esse pra ser o destino da nossa primeira viagem ao exterior. E era ali o momento de nos despedirmos, pronto para seguir para Paris. E que jeito melhor de se despedir do que com boa música?

Por isso, por volta das sete horas, com o sol brilhando no céu e todo mundo já com cara de cansaço, segui para o Auditório Rockdelux para acompanhar sentado a parceria ítalo-germânica de Teho Teardo & Blixa Bargeld. Teardo é um conhecido compositor italiano de trilhas sonoras e membro fundador da banda noventista Meathead. Bargeld é o líder da seminal banda alemã Einstürzende Neubauten e que já trabalhou com gente do calibre de Nick Cave. Se juntaram ano passado para lançar o ótimo disco Still Smiling (2014), que acabou até na minha lista de 20 melhores do ano. A apresentação era feita com Teardo no baixo, enquanto Bargeld deixava ecoar sua voz grave e angustiante, apoiados por instrumentos de orquestra, como violinos e violoncelos. Foi sombrio e lindo.

Vista do palco onde se apresentava Caetano Veloso (Foto por Clarissa Wolff/ Catárticos)
Vista do palco onde se apresentava Caetano Veloso (Foto por Clarissa Wolff/ Catárticos)

Era a vez, então, de conferir o show do Goodspeed You! Black Emperor, um dos que eu mais queria ver em todo o festival, no palco ATP. Mas como ainda faltava um bom tempo para o início do show, ficamos assistindo à apresentação de Caetano Veloso no palco da marca de óculos. E como estava cheio! E ver aquele monte de gente tentando acompanhar um brasileiro cantando em português em um palco encravado no meio de um cenário paradisíaco, de repente, me despertou uma pontinha de saudades de casa. Que estariam fazendo minha família e meus amigos naquele momento enquanto a milhares de quilômetros de distância eu ouvia o Caetano cantar que o lugar mais frio do Rio era o quarto dele? Mas longe de estar triste, eu estava muito, muito feliz e aparentemente Veloso e sua banda Cê também. Pareciam animados e soando rock’n’roll até nos maiores sambas. Os gringos adoraram.

Já no palco ATP, um som grave e contínuo deixava no ar que logo o Godspeed You! Black Emperor entraria. Esse ano os canadenses completam 20 anos de grupo e mesmo sem serem conhecidos do grande público, já tem um lugar cativo na história da música moderna. Peritos em misturar o post-rock a elementos de música clássica, lançaram alguns dos discos mais poderosos que eu já ouvi. Se você não conhece a banda, faça-o o mais breve possível. Por isso tudo, estava ansioso para ver como eles portariam ao vivo. E a palavra é exatamente aquela dos discos: poderoso. Com quase sempre três guitarras, duas baterias, um violino, um violoncelo e um contrabaixo, as texturas criadas pelo grupo em meio a timbres ruidosos e instrumentos clássicos, acompanhadas de belas melodias transportaram os presentes a um mundo em decadência, mas ainda cheio de esperança, como se as notas mais bonitas fossem flores nascendo dentre os escombros de distorção. Uma hora e meia de catarse completa e um dos melhores shows do festival.

Mas era preciso sair rápido do transe e atravessar o Parc Del Fórum para chegar até a apresentação do rapper Kendrick Lamar, no palco da cerveja, que já havia começado. Sou recebido com o sucesso “Bitch Don’t Kill My Vibe” do já clássico do gênero Good Kid, M.A.A.D City (2012). Bastante cheio, não consigo chegar muito perto do palco, mas dá pra ter uma boa ideia de como é o show do americano. Acompanhado por uma banda bastante rockeira, ele desfila os versos cheio de empáfia e boas rimas sobre as ótimas bases produzidas dos seus discos. Cheio de ginga, era possível olhar pro lado e ver uma porção de gringos duros tentando dançar ao ritmo das batidas graves. Um bom show, apesar de eu, grande fã do disco mais recente, esperar mais. Tenho pra mim que shows de rap e hip-hop não funcionam tão bem em lugares abertos, onde o som facilmente se dispersa. Em um lugar menor deve ser muito mais impactante.

Galera surfando no Cloud Nothings (Foto por Clarissa Wolff/ Catárticos)
Galera surfando no Cloud Nothings (Foto por Clarissa Wolff/ Catárticos)

A noite já engolia todo o local quando eu retirei forças do além para atravessar novamente o Parc Del Fórum em cerca de dez minutos, para pegar a metade final da apresentação do Cloud Nothings. Gosto bastante dos dois últimos discos da banda e ao vivo a energia dos caras é incrível. Quando eu cheguei no palco da Vice já era possível ver uma galera surfando na multidão e se jogando ao som das pauladas que vinham do trio. Não tem muito o que dizer: é rápido, é pesado, é rock e é bom. Esse é um show que deve aparecer no Brasil esse ano e se você tiver a chance, não perca. Vale demais. O vocalista Dylan Baldi também estava se divertindo e antes de anunciar como última música uma versão de mais de 10 minutos de “Wasted Days” foi ao microfone agradecer ao público e sentenciar “This is a cool festival”. Realmente é.

Dylan, Cloud Nothings (Foto por Clarissa Wolff/ Catárticos)
Dylan, Cloud Nothings (Foto por Clarissa Wolff/ Catárticos)

Restava para nós o show do Mogwai, em um palco tão abarrotado de gente que eu não conseguia vê-lo de onde eu estava, apenas ouvi-lo. Vi o Mogwai em 2012 na versão brasileira do Sónar e o show foi espetacular. O do Primavera Sound soava ainda melhor. Não haveria jeito melhor, pra mim,de terminar aquele primeiro Primavera Sound. Quando começaram os primeiros acordes de “Rano Pano” eu virei pra minha namorada e disse que adorava aquela música, que seria uma perfeita para ouvir enquanto caminhávamos em direção à saída. E assim nos despedimos daquele festival, com uma dorzinha no coração, mas satisfeitos com o que havíamos vivido.

Aos sábados o metrô de Barcelona funciona ininterruptamente e voltamos pra casa de forma tranquila. Ano que vem o Primavera Sound completa 15 anos e acontecerá nos dias 28, 29 e 30 de maio. Esperamos poder voltar e curtir a festa de debutante do festival.

I love Barcelona.

Meus 5 shows preferidos do festival ficam assim:

1 – The National

2 – Slowdive

3 – Goodspeed You! Black Emperor

4 – Midlake

5 – Arcade Fire

No fim, é tudo sobre música ou como foi o 2º dia do Lollapalooza Brasil

Foto por João Vitor Medeiros/Catárticos
Foto por João Vitor Medeiros/Catárticos

O segundo dia do Lollapalooza Brasil de 2014 começou em ritmo bem mais tranquilo que o anterior. Se no sábado tinham ocorrido muitos problemas, a resposta pra maioria deles estava ali na segunda etapa do festival: menos gente. Bem menos concorrido, era fácil se locomover entre os palcos, ir aos banheiros e comprar o que quer que você precisasse (com um pequeno porém que comentarei mais à frente). Filas e espera são inevitáveis em eventos desse porte, mas no domingo parecia tudo funcionar bem. E no começo da tarde os problemas se resumiam às dores nas pernas e ao sol escaldante.

Aí fica fácil se concentrar no que realmente importa: a música. Eu resolvi que assistiria a quatro shows naquele dia: Johnny Marr, Savages, Pixies e Arcade Fire. Gostaria de ter visto Soundgarden, Vampire Weekend e New Order, mas festival é escolha e em todos os lugares do mundo funciona assim. Imagine ir ao Glastonbury ou ao Coachella e tentar assistir a todos os shows? Perguntei a um amigo que já foi a vários eventos do tipo no exterior se ele havia ido a algum que fosse maior em área e caminhadas que o Lolla de 2014 e ele me contou que o Reading, um dos mais famosos do planeta, era ainda mais extenso. Não estamos totalmente acostumados a esse formato, mas nesse fim de semana um passo importante com relação a isso foi dado.

E eu não poderia ter sido mais feliz nas minhas escolhas. Nenhum show me decepcionou e alguns me surpreenderam. Fui em todos os dias de todas as edições do Lollapalooza Brasil até hoje e certamente esse foi o meu preferido de sempre.

Foto por Clarissa Wolff/Catárticos
Foto por Clarissa Wolff/Catárticos

Às duas da tarde e sob um calor de rachar a cuca, Johnny Marr era os Smiths no palco Ônix. E que show, amigos. A apresentação do inglês quase foi cancelada por ele ter fraturado a mão há duas semanas, mas isso parecia ter ficado em um passado longínquo. As canções do seu recente primeiro disco solo, The Messenger, ao vivo ficaram muito melhores, e a banda que o acompanhava deu conta do recado. Ainda teve espaço pra uma cover de I Fought the Law, que ficou famosa com o Clash, uma música do Electronic e quatro músicas da banda mais famosa do guitarrista. Destaque pra How Soon Is Now? com a participação de Andy Rourke e ½ Smiths no palco. O encerramento com There Is A Light That Never Goes Out cantada em uníssono não deixou dúvidas de que foi um dos grandes shows do evento e, provavelmente, do ano inteiro por aqui.

Abri mão de ver o Vampire Weekend e fui pro Palco Interlagos aguardar pelas meninas do Savages. Era o menor público entre todas as apresentações que acompanhei no autódromo. Novatas e com só um disco na bagagem – Silence Yourself, do ano passado – as europeias não ficaram devendo pra nenhum veterano. Boas músicas, banda afiada e vocalista sisuda vestida toda de preto, exceto pelo salto alto rosa, foi o mais próximo que já cheguei de um show do Joy Division – e eu já vi o New Order. Excelentes instrumentistas, era impossível não se deixar levar pelo clima obscuro que era construído a cada música executada com pulsação do baixo como fio condutor. Matador.

Foto por Clarissa Wolff/Catárticos
Foto por Clarissa Wolff/Catárticos

Com um sorriso no rosto, fui até o Palco Skol esperar pelo próximo show, do Pixies, banda que adoro e que passou por muitas mudanças nos últimos tempos. Mês passado conversei com o baterista por telefone sobre isso tudo e se você não leu, pode fazê-lo AQUI.

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Foto por Clarissa Wolff/Catárticos

Aqui cabe um parêntesis: os vendedores ambulantes que eu tanto tinha elogiado no dia anterior, dessa vez deixaram a desejar. Não pela presença deles, que costumava bastante satisfatória, mas pela falta de controle e organização. Abordei no entorno do palco mais de cinco deles e nenhum queria vender água pelo valor estipulado de 3 reais, mesmo usando vestimentas que deixavam explícito o preço. Me neguei a comprar e só consegui fazê-lo pelo valor justo mais de uma hora e meia depois. Além disso, muita gente reclamou que quase nenhum dos ambulantes aceitava fichas, o que tornava a utilização delas uma dor de cabeça. A organização precisa se atentar a isso nas próximas edições, porque no meio de tantos shows e longas caminhadas, é inadmissível ser extorquido para se hidratar.

Frank Black e companhia então entraram no palco e desfilaram seu repertório extenso. O show do Pixies é basicamente isso: repertório. E é o suficiente. Na sua simpatia de sempre, a banda não trocou uma só palavra com a plateia ao longo de toda a apresentação. Foram 23 músicas e muitos sucessos. As músicas novas não empolgaram, mas não comprometeram. A nova baixista, a argentina Paz Lechantin, não é nenhuma Kim Deal, mas deu conta do recado e parecia a mais animada dos quatro no palco. A história do rock passa obrigatoriamente pelo Pixies e foi uma satisfação poder vê-los ao vivo pela primeira vez.

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Foto por João Vitor Medeiros/Catárticos

Finalmente então era hora de esperar pelo último show da noite, o Arcade Fire. Muita gente optou pelo New Order, na mesma hora, de forma que o o Pixies pareceu ter sido assistido por mais pessoas. Nada que interferisse no resultado final. O que aconteceu ali foi uma das maiores surpresas que já tive com relação à música. Gosto bastante da banda canadense em disco, mas nunca foi das minhas preferidas. Cheguei diversas vezes a me perguntar o porquê de todo o oba-oba em volta deles. Tive então a minha resposta.

Tenho certeza que você já ouviu gente de mais comentar sobre o show e vamos simplesmente dizer que foi o melhor do festival. Aqui é permitido se entregar ao clichê do “show catártico” nas resenhas. Foi a missa mais hipster do mundo. A plateia ajudou e a banda parecia muito feliz. Poucas coisas impedem uma banda feliz de fazer um grande show e nenhuma delas impediu o Arcade Fire ontem. Desde os primeiros acordes de Reflektor, passando por danças, referências ao Brasil e antigas canções, até desembocar no final com Wake Up com direito a chuva de papel picado e fogos de artifício, tudo deu maravilhosamente certo. Destaque para terem tocado Laika, canção de Funeral, pela primeira vez nessa turnê nos shows do Rio e em São Paulo. A música foi requisitada à banda por meio do fã clube deles por aqui, o pessoal gente finíssima do Arcade Fire Brasil.

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Foto por João Vitor Medeiros/Catárticos

O saldo final foi positivo. Ouso dizer que foi o melhor entre todas as três edições, mesmo com todo os seus problemas. Dessa vez fiquei até o final e a volta de trem ocorreu tranquilamente. Há bastante coisa a ser repensada, como a capacidade máxima e o acesso aos palcos, mas há muita coisa a ser mantida. No Jockey, talvez fosse mais cômodo pra maioria das pessoas, mas era em um espaço apertado e como som vazando entre palcos, algo péssimo em um festival de música. E no final, não é a música que importa mais?

Confira um resumo do festival em 30 fotos AQUI.
Confira nossa cobertura completa AQUI.

ENTREVISTA EXCLUSIVA: Pixies – “Depois que a Kim Deal saiu, rolou uma união maior que fez o Pixies seguir”

Quando a escalação do Lollapalooza 2014 foi anunciada, depois da mudança de comando da GEO para a Time For Fun, eu fiz questão de deixar claro que achava esse o melhor line-up do festival americano em solo brasileiro. Talvez não comercialmente, mas certamente em termos de qualidade: talento e sucesso comercial nem sempre andam lado a lado, como bem sabemos. E se a princípio as bandas não são tão populares quanto as de outros anos, com certeza existem mais grupos que eu faço questão de assistir em 2014 do que em edições anteriores.

O Pixies é um desses grupos e dispensa grandes apresentações. Formado em 1986 na cidade estadunidense de Boston, a banda se dissipou em 1993, depois de ter lançado quatro LP’s e influenciado quase todo mundo no rock alternativo, gente como o Nirvana e o Weezer.

Em 2004, a reunião. Com direito a turnê mundial e show no Brasil, os membros originais se juntaram novamente e desde então vêm fazendo shows com maior ou menor frequência, mas de forma ininterrupta. Contudo, até o ano passado, apenas uma nova música havia sido gravada e lançada, no mesmo ano da volta ao palcos: Bam Thwok, cantada e composta pela baixista Kim Deal.

O conjunto, que sempre foi avesso a grandes badalações, viu-se bastante assediado pela mídia em 2013 quando anunciaram pelo site oficial a saída de Deal, um de seus símbolos. Em um comunicado curto, sem muitas explicações, agradeciam e desejavam sorte a Kim. Alguns dias depois, mais uma surpresa: lançaram Bagboy, primeira música em 9 anos, com direito a clipe. O Pixies certamente está na ativa.

Depois vieram dois EP’s chamados de EP1 e EP2, em setembro de 2013 e janeiro de 2014, respectivamente, e o lançamento de uma nova turnê mundial que começou em Paris e passará por uma série de cidades e festivais, entre eles o Lollapalooza Brasil.

Tendo em vista tudo isso, o baterista David Lovering, na banda desde o início, gentilmente conversou comigo em nome do grupo, por telefone, durante 30 minutos na última sexta-feira. Essa é a primeira entrevista do Pixies pra um veículo brasileiro desde 2010, quando tocaram no SWU. E você pode conferir a conversa abaixo:

DAVID LOVERING: É o David falando.

JOÃO VITOR MEDEIROS: Ei, David, é o João, como você está?

DL: Bem e você?

JVM: Bem também. Estou ligando do Brasil pela entrevista.

DL: Maravilhoso!

JVM: Você parece estar de bom-humor.

DL: (risos) Ontem ficamos de folga, consegui descansar um pouco.

JVM: Isso é ótimo! Podemos começar? Vou fazer algumas perguntas e espero que você não fique bravo comigo (risos).

DL: (risos) Ok, claro.

JVM: Então, Bagboy e o EP1 foram as primeiras gravações do Pixies em nove anos. Como isso aconteceu? Como vocês decidiram que era hora de gravar material novo?

DL: Demorou muito tempo. Nós estamos excursionando desde a reunião, em 2004, sem parar. Foi uma tour e então a próxima, a próxima, a próxima… E daí nós começamos a turnê do Doolittle, que era tocando o disco do começo ao fim, e isso levou dois anos. Naquele momento, logo quando a turnê acabou, nós estávamos discutindo: “Ei, nós ainda somos uma banda viável, acho que deveríamos fazer algo, lançar algo”. Lançar, essa foi a palavra exata. Mas demorou muito tempo, demorou quatro anos da época em que discutimos até o EP1 nascer, até termos demos e finalmente decidir ir ao estúdio gravar. Então foi muito tempo, quatro anos até chegar nesse ponto. Mas chegamos lá e aí está.

JVM: Foi ideia do Charles (Thompson IV, também conhecido como Frank Black)?

DL: Sim, eu acho, porque ele tinha várias músicas. Charles é definitivamente um compositor, então ele tinha músicas e algumas ideias em mente, então eu diria que foi ideia dele sim.

JVM: Eu li algumas críticas bem ruins sobre o EP1 e EP2. Isso incomodou vocês?

DL: Não, de jeito nenhum. É engraçado, nós somos uma banda, nós…o chato é que, deus, nós nunca tínhamos tido uma crítica ruim, nunca. E dessa vez chegaram as notícias e tinham algumas, acontece. Mas não demos ouvidos, elas não nos machucaram de jeito nenhum. Só deixamos rolar.

JVM: E como tem sido a resposta do público às novas músicas?

DL: É boa. Estamos fazendo um show de mais ou menos uma hora e meia, dá quase umas 30 músicas e no set tem músicas antigas e daí colocamos umas novas, entre 8 e 5, e é bem legal. Já que estou na bateria, eu consigo ter uma visão um pouco mais privilegiada do fundo e eu consigo ver se tem alguém indo embora ou ao banheiro durante nossas músicas, então tenho uma boa indicação. Nesse momento está bem bom.

JVM: Isso é ótimo. E na sua opinião, qual o papel da crítica musical hoje em dia, nos tempos de internet, pra uma banda como vocês? Já que vocês estão na estrada há quase trinta anos e pegaram períodos diferentes.

DL: Ahn, eu acho que a banda ainda está na mesma posição. Eu acho que se você é uma boa banda, se você tem boas músicas, as pessoas vão te notar. Então de alguma forma você pode ir lá e fazer isso, com a internet, mp3 e coisas desse tipo, é o mesmo de antes: se você é bom, se você é diferente, as pessoas vão prestar atenção em você. E eu acho que sair, fazer shows, tocar ao vivo, é a coisa mais importante pra uma banda, ainda é o que faz a diferença. Eu acho que o tabuleiro ainda é o mesmo que antes. Mas nós temos sorte de ser o Pixies, ter uma base de fãs grandes que recebe nossos e-mails pelo nosso website, e então nós podemos nos aproveitar disso e distribuir por ali. Nós não temos uma gravadora e podemos fazer isso do jeito que quisermos, chegamos no nível de sermos suficientemente grandes pra isso. Nisso talvez as bandas menores não tenham tantas oportunidades hoje em dia sem alguma ajuda externa, mas certamente é possível.

JVM: E agora o que vocês estão preparando com a banda? Podemos esperar um LP inteiro?

DL: Como um músico, eu não posso revelar a maioria dos segredos, mas nós lançamos esses dois EP’s e pode haver mais um terceiro e ao final deles, um LP completo. Mas como músico tenho que guardar o resto.

JVM: Ah, mas pode me contar, prometo que não vou contar pra ninguém! (risos)

DL: (risos) Ok, pode deixar.

JVM: A Kim Deal deixou o Pixies ano passado. Como foi esse momento pra você?

DL: Foi bem difícil. Quando ela disse que estava indo foi bastante emocionante. Claro que não queríamos que ela fosse, mas desejamos a ela o melhor. Foi um momento complicado, não sabíamos o que fazer, estávamos gravando, literalmente na metade e, nós três, Joe, Charles e eu decidimos ir em frente e terminamos. Foi bom, nós tivemos uma bom método de trabalho e foi legal, rolou uma união maior entre nós naquele momento que fez o Pixies continuar.

JVM: E você sabe por que ela fez isso? Ela disse?

DL: Não, ela só disse que pra ela já tinha dado com o Pixies e foi isso. E sabe, eu entendo ela, de verdade. Desejamos a ela o melhor e ela pode voltar a hora que quiser.

JVM: Oh, e essa é a minha próxima pergunta: você sente falta dela?

DL: Sim, claro. Por um tanto de anos, ahn, talvez um total de 18 anos – nos primeiros anos, na reunião – ela foi a única baixista que esteve à minha esquerda. Então fez uma diferença quando ela foi embora, ela não estando lá: “oh, a Kim se foi”. É uma grande diferença.

JVM: E você gosta da outra banda dela, o Breeders?

DL: Sim, sim, gosto sim.

JVM:  Daí a Kim Shattuck entrou no lugar da Kim Deal e o que aconteceu? Ela (Shattuck) diz que foi jogada fora da banda por ser muito extrovertida, social. Isso é verdade?

DL: Ahn, não. Nós nunca comentamos sobre isso porque…basicamente ela foi contratada pra ser a baixista do Pixies pra turnê europeia e só essa. Só vou dizer que ela foi muito pouco profissional no que ela disse. (risos) Mas foi bom naquela tour, a Kim Deal tinha saído e estávamos com pressa e colocamos a Shattuck, mas logo depois a substituímos pela Paz Lenchantin e ela é ótima. Excelente baixista, ela é fantástica, é maravilhoso tocar. Ela é muito boa e tá fazendo com que EU toque melhor.

JVM: Eu vi o documentário loudQUIETloud (2006) e eu acho que foi a Kelley Deal que disse que vocês são “os piores comunicadores de todos os tempos”, que você não conversam muito. É verdade?

DL: Não. Naquele filme aquela empresa seguiu a gente por dois anos e gravaram um monte de coisas e no fim eles acharam que a gente era uma banda muito chata. Sem drama ou nada do tipo. Então, as coisas que eles deram destaque quando editaram fizeram nós parecermos muito antissociais, mas nós não somos. Nós passamos tempo juntos, nós somos uma banda, passamos um tempão na estrada, tocando juntos, dentro do ônibus, claro que precisamos de um tempo a sós, como qualquer pessoa, entende? Mas não somos antissociais um com os outros não. Além disso, a coisa das drogas e a linha do tempo no filme, as coisas aconteceram, mas não foi escalando ao longo de dois anos como eles fizeram parecer. Então eles colocaram um drama lá. (risos)

JVM: Vocês são normais demais! (risos)

DL: É, obrigado. Eu me lembro de ver a primeira vez e só ia afundando, afundando e afundando cada vez mais na minha poltrona. (risos)

JVM: E como tá a turnê agora?

DL: Ah, estamos nos EUA e tá sendo ótimo. Estou gostando muito e temos uma grande plateia, dos mais novos aos mais velhos, de pessoas que nem tinham nascido quando o Pixies começou até gente da minha idade, estamos tocando em uma série de lugares.

JVM: Eu não tinha nascido quando os Pixies começaram! Nasci em 1990 e sou um grande fã.

DL: Oh, obrigado, você tem bom gosto! (risos)

JVM: Então, vocês vão tocar no Lollapalooza Brasil em abril. É a terceira vez que vocês vêm ao país. Certo?

DL: Isso! Acho que é isso mesmo.

JVM:  Como foi das outras vezes?

DL: Eu tenho que dizer que quando viajamos até aí tem sido ótimo. Tanta gente nos vendo e a gente realmente se divertindo, a gente vê isso em algumas partes do mundo, mas é diferente por aí. Isso te deixa muito animado, você quer tocar melhor ainda.

JVM: E alguma experiência marcante aqui? Vocês provaram algo típico?

DL: Comida! Quando eu não estou tocando, estou comendo e a comida daí era muito boa.

JVM:  E o que vocês tão esperando pra próxima vez em abril?

DL: Ah, eu to muito animado. Vai ser a primeira vez com a Paz e ela meio que transformou a gente, de alguma forma, numa versão 2.0 e a parte rítmica está muito boa e acho que vocês vão curtir.

JVM: Vai ser o meu primeiro show do Pixies, então tem que ser bom, ok? (risos)

DL: (risos) Ok, vamos fazer mais especial ainda.

JVM: Vocês são headliners de grandes festivais esse ano. Você prefere shows em festivais ou em casas fechadas?

DL: Oh, é difícil, porque…hmm, se eu tivesse que escolher um, acho que seria em casas fechadas, algo que não seja um festival, algo não muito grande. Mas festivais são bons, é legal, é divertido, é algo diferente pra gente, mas eu prefiro casas fechadas. Eu diria que você tem mais controle, arruma as coisas do jeito que quer e em um festival você não tem nenhum controle, porque tudo já é provido pra você e é um ambiente totalmente diferente pelo tamanho, você só chega lá e faz seu show. É diferente. Cinquenta, setenta mil pessoas fazem a coisa bem diferente.

JVM: E qual sua memória favorita do Pixies?

DL: Meu deus, essa é difícil. A única coisa que eu poderia dizer nesse caso, realmente, seria sobre o primeiro show que nós fizemos. Eu me lembro disso. Foi numa noite em Boston e acho que foi algo grande. Porque a partir dali a gente só foi crescendo e crescendo.

JVM: E como foi a separação no começo dos anos 90? Como você se sentiu?

DL: Ah, nós éramos uma banda tocando juntos por sete ou oito anos e era tudo que a gente sabia, viajar e tocar e essas coisas. E claro, sempre existem personalidades e atritos em qualquer grupo de pessoas e simplesmente chegou no ponto em que não tinha mais clima e nos separamos. Foi um choque, eu não sabia o que fazer quando a banda acabou e eventualmente eu parei de tocar bateria. Mas olhando pra trás e pensando “e se a banda não tivesse se separado naquela época?”, a turnê de reunião nunca teria rolado em 2004. Nós teríamos continuado e teria ficado pior, e pior, e pior e eu fico feliz que a gente tenha se separado e tenhamos chegado no ponto que eu estou falando contigo agora no telefone!

JVM: (risos) E como foi a reunião em 2004?

DL: Ah, foi louco! Era a primeira vez que, tocando com o Pixies, dava pra ver a diferença de idade na plateia. Sabe, quando a gente tocava nos anos 80 e 90 era só gente jovem, jovens adultos, que ia assistir a gente. E agora é completamente diferente. A primeira vez que a gente tocou no Coachella, em 2004, era um mar de adolescentes e jovens cantando cada letra de cada música e foi surreal. Foi a primeira vez que a gente via algo daquele tipo. Foi maravilhoso.

JVM: E você se vê tocando daqui a 20 anos com uma turnê de 50 anos como os Rolling Stones?

DL: Ah, eu não ligaria, mas eu já tenho uma certa idade, se minha resistência me deixar, eu tocaria sem problemas, porque eu amo tocar bateria, é um trabalho divertido e vou continuar enquanto eu puder.

JVM: Ah, que legal. E o Kurt Cobain disse numa entrevista que estava praticamente tentando roubar vocês quando fez Smells Like Teen Spirit. Você lembra de escutar sobre isso? O que você pensa?

DL: Foi interessante. Eu escutei a música e eu acho que eu entendo o que ele disse. É muito difícil eu conseguir falar exatamente, mas pra mim é estranho quando as pessoas dizem que a gente influenciou elas. Pra mim, eu sou só o David, eu toco bateria e essa é a minha banda. Então é muito difícil perceber que eu fiz algo especial ou… eu não sei, é uma coisa muita estranha ouvir alguém falar isso. Mas eu gosto de Smells Like Teen Spirit, acho que é uma boa música. Eu, pelo menos. (risos)

 JVM: Mas vocês são uma das bandas mais influentes de todos os tempos. Você escuta alguma banda que diz ser influenciada por vocês? Você tem alguma preferida?

DL: Eu tenho algumas no meu iPod que mencionaram algo. Ahn, eu não consigo escolher uma favorita, elas são todas boas (risos). Todas são minhas favoritas!

JVM: E quais bandas você escuta? Você pode amar elas igualmente.

DL: Ah, eu tenho de tudo. Bowie, Nirvana, Radiohead, Weezer.

JVM: Sei que você é um grande fã do Rush.

DL: Sim, sim, adoro eles. E Steely Dan também!

JVM: Mas alguma banda nova que você curta e tenha visto?

DL: Não, acho que não. Eu não tenho a oportunidade estando tanto tempo na estrada. O único momento que realmente escuto música é no meu carro, quando estou em casa. Mas tiveram algumas boas bandas que abriram pra gente e eu gosto muito. FIDLAR é uma, eles tocaram com a gente e são bons. Tem uns clipes engraçados. São caras ótimos e gosto da música deles.

 JVM: E algo que você ainda queira fazer com a banda?

DL: Não. Agora só estamos nos concentrando nos shows e nos EP’s e acho que esse vai ser o espírito de 2015.

JVM: E a última pergunta: você quer dizer algo pros fãs brasileiros de Pixies?

DL: Ahn, assim, de bate-pronto só queria dizer que todo mundo curta a mistura das músicas novas e velhas e não fiquem chateados se a gente não conversar, nós só queremos fazer música.

(Os melhores) Vídeos da semana – a partir de 22/07/2013

fraz love illumination
Clipes perderam a importância que tinham antigamente? Tocar na TV ainda atrai novos públicos? São perguntas difíceis de responder. Mas ainda é produzida muita coisa interessante e que vale a pena. Se você não conhece algo, é a oportunidade. Então saca os (melhores) vídeos dessa semana:

O Pixies voltou sem Kim Deal e pra compensar 9 anos sem música nova lançou logo dois clipes pra Bagboy. O segundo é uma viagem psicodélica baseada na capa do single:

O Franz tá com disco novo prestes a sair e lançou mais um clipe, dessa vez pra Love Illumination, saca só:

The Breeders em São Paulo: Kim Deal vai muito bem, obrigada

Foto por Fabrício Vianna/ Popload
Foto por Fabrício Vianna/ Popload

Há cerca de um mês o Pixies oficializou a saída de Kim Deal da banda em comunicado pouco esclarecedor no site oficial. Assinado pelos integrantes restantes, a nota agradecia à baixista e desejava sorte, como ocorre de praxe nessas ocasiões. Dias depois a seminal banda lançou uma nova música, a primeira em 9 anos e aumentou ainda mais os rumores de novo disco. Deal, que sempre foi claramente contra a gravação de material novo em entrevistas, parecia ter um motivo claro para deixar o grupo.

Outro motivo, porém, parecia estar estampado nos sorrisos que ela distribuiu sobre o palco do Cine Joia ontem em mais uma edição do Popload Gig, dessa vez estrelado pelo Breeders. Junto à irmã gêmea Kelley, ao baterista Jim MacPherson, a multi-instrumentista Carrie Bradley e a baixista Josephine Wiggs, Kim reuniu a formação clássica do conjunto para mais uma apresentação da turnê mundial em comemoração aos 20 anos do lançamento de Last Splash, álbum mais aclamado da banda.

Foto por Fabrício Vianna/ Popload
Foto por Fabrício Vianna/ Popload

Com a casa lotada à revelia do frio absurdo que tomava conta de São Paulo e a banda absolutamente confortável, uma a uma as músicas do disco de 1992 foram executadas de forma perfeita. O público vibrava e interagia com os integrantes que, excetuando-se a imóvel e sisuda Josephine Wiggs, respondia com grande simpatia.

Na primeira parte da apresentação os singles Divine Hammer e a clássica Cannonball foram as canções mais celebradas. A atmosfera que transita entre a calma e o ruído de Last Splash tomava conta do Joia e o sistema de som, que melhorou muito nos últimos tempos, contribuía bastante. Em Flipside as irmãs ensaiaram uma dancinha que emulava braçadas em alto mar. Kelley parecia ser a queridinha da plateia que gritou seu nome por diversas vezes e foi à loucura quando ela assumiu os vocais em I Just Want to Ger Along. Após 15 canções e finalizando com a barulhenta e curta reprise de Roi os membros deixaram o palco.

No primeiro bis covers de Guided By Voices (Shocker in Gloomtown, presente no EP Head to Toe) e Beatles (Happiness is a Warm Gun) se misturaram a faixas de outros lançamentos do Breeders, como Pod e o EP Safari, cuja faixa-título foi bastante comemorada. Os americanos ainda voltaram para mais um bis que teve Iris e Hellbound. Ao fim do show, Kelley Deal permaneceu solícita por um bom tempo no palco autografando material dos fãs e mostrando-se um tanto carinhosa.

A sensação que ficou é que o Breeders continua bem, duas décadas depois do lançamento do seu melhor disco. Eles não são mais tão jovens, assim como também não era a grande maioria dos presentes, mas continuam se divertindo e fazendo um show indispensável para quem é fã da produção musical dos anos 90. E se havia alguma dúvida sobre Kim Deal após a saída do Pixies, ela está muito bem, obrigada.

 

Foto por Fabrício Vianna/ Popload
Foto por Fabrício Vianna/ Popload

Setlist:

New Year

Cannonball

Invisible Man

No Aloha

Roi

Do You Love me Now?

Flipside

I Just Wanna Get Along

Mad Lucas

Divine Hammer

SOS

Hag

Saints

Drivin’ on 9

Roi Reprise

 

Encore 1:

Shocker in Gloomtown (Guided by Voices cover)

Head to toe

Happiness is a Warm Gun (Beatles Cover)

Safari

Opened

Oh!

Limehouse

 

Encore 2:

Iris

Hellbound

 

 

Um banquinho, um violão: 20 bandas fazem versões acústicas

Acoustic-Guitar-1

Guitarra cheia de distorção, baixo lá no alto e porrada na bateria. Não tem como negar que música assim é demais. Mas às vezes, um violão ou um piano tem o poder de acrescentar uma atmosfera tão única em algumas músicas, que é impossível não adorar uma versão acústica. Poder ser uma produção profissional ou algo mais íntimo e casual, mas é sempre legal ter conhecimento. Pra dias mais calmos, pra ocasiões mais suaves, algumas boas opções abaixo:

Radiohead – How to Disappear Completely

Parcerias: 15 bandas recebem convidados muito especiais no palco

Damon-Albarn-Noel-Gallagher-Graham-Coxon

No último final de semana, no maravilhoso festival espanhol Primavera Sound, o show do Jesus & Mary Chain contou com uma agradável surpresa: Bilinda Butcher, a voz suave por trás de toda a distorção do My Bloody Valentine, subiu ao palco e cantou junto à banda o clássico Just Like Honey. Não incomum, bandas recebem outros músicos pra subir ao palco e fazer versões muito especiais de algumas músicas. Abaixo, 15 desses encontros:

1. Jesus & Mary Chain recebe Bilinda Butcher (My Bloody Valentine)

MIXTAPE DEPREDANDO #3

depredando3- (1)
 
Sexta vocês já sabem, é dia de mixtape! Músicas estranhas, escolhidas por uma pessoa estranha para pessoas estranhas. Nessa semana tem Tame Impala e sua psicodelia, Thurston Moore e seu Sonic Youth em duas faixas diferentes, separadas por quase 30 anos de diferença, a música sexy do Massive Attack, algumas coisas menos conhecidas que eu gosto e muito mais. Então não perde tempo e dá play.
 

MIXTAPE DEPREDANDO #3 by João Vitor Medeiros on Grooveshark Quer enviar sugestões pra mixtape da semana que vem? Só mandar pelo twitter pra @indiedadepre.

Versões: 20 covers de bandas que você ama feitos por bandas que você ama

boa festa

Cada boa banda tem seu estilo próprio. Estilo que elas acabam imprimindo mesmo ao tocar canções de outro grupo. A seguir, 20 covers de bandas pra músicas de outros grupos  clássicos ou no mínimo bastante conhecidos. Aproveite e diga nos comentários os seus preferidos e indique outros que acha que deveriam entrar na lista,