ENTREVISTA: 4 perguntas para José Barreiros, diretor do NOS Primavera Sound.

O Primavera Sound cada vez mais chama a atenção dos apaixonados por música contemporânea. O festival, que nasceu em Barcelona e vai para sua 15ª edição em 2015, ganhou os olhos do mundo apostando na diversidade de estilos e no melhor do que ocorre no vasto cenário musical pós-internet, sem esquecer de homenagear o passado. Fez tanto sucesso que ganhou irmão na cidade do Porto, em Portugal: o Nos Primavera Sound, o qual nós tivemos o prazer de cobrir a edição de 2014 aqui.
E para entender melhor toda a diversidade do intercâmbio entre as edições espanhola e portuguesa e também a importância para as bandas brasileiras e lusitanas de um festival tão comentado no calendário internacional falar a nossa língua materna, a Mar Herrando, amiga e colaboradora do blog fez quatro perguntas para José Barreiros, diretor da versão portuguesa do festival.

Por Mar Herrando

Que consequências para a música cantada em português você acha que tem gerado essa união entre os festivais de Barcelona e Porto?

José: Num festival em Portugal é normal que tenha a presença de grupos que cantam em português. No entanto, nos últimos anos temos confirmado que a música brasileira e os grandes clássicos como Gilberto Gil, Caetano Veloso e Chico Buarque, também têm a companhia de artistas que têm ousado a criar uma nova música e Europa conhecia muito pouco. Antigamente era mais um fenômeno português, mas penso que artistas como Rodrigo Amarante ou como Marcelo Camelo deram à música brasileira um novo enfoque que fez a Europa apreciar muito esse estilo. E é normal que eles agora comecem a tocar em festivais na Europa, não só em Portugal por suposto. E estas são as diferenças de por exemplo estar em Barcelona, que teve uma presença muito grande de bandas brasileiras e também apostam no mercado brasileiro que confirmam o que estava falando anteriormente.

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Você acha que há uma maior exportação de música portuguesa ao Brasil ou uma maior importação de música brasileira a Portugal?

José: Importa bem mais do que se exporta. É muito difícil para um artista português ter uma carreira em Brasil. Há poucos que se movem do lado da World Music como o fado ou nos últimos tempos, por exemplo, Antonio Zambujo e que conseguem ter uma carreira em Brasil, mas artistas brasileiros em Portugal o conseguem.

Estamos bem mais abertos à cultura brasileira do que o Brasil está à cultura portuguesa. Por tanto, é normal que artistas grandes de Brasil sejam também grandes em Portugal. Nós temos uma influência muito grande da cultura brasileira já das novelas brasileiras até a música, são quase 40 anos de importação de cultura brasileira. E Portugal em Brasil ainda é visto como um país com pouca dinâmica cultural, mas opino que nos próximos anos isso vai ter tendência a desaparecer e a que a relação seja mais equilibrada.

Como você já sabe o festival Primavera Sound em Barcelona é um festival totalmente internacional com uma presença superior de 40% de público estrangeiros. . Qual é vosso truque para conseguir respirar o ambiente de Porto num festival tão internacional como é Nos Primavera Sound e que seja tão local ao mesmo tempo?

José: Primeiro que temos um local completamente diferente que o de Barcelona, é uma mordomia muito grande poder fazer um festival num espaço tão bonito. Isso implica o cuidar, isso é um espaço verde que de nenhuma forma queremos estragar do Parque da Cidade no Porto.

Por outro lado, a presença de estrangeiros em Porto está acima de 30% dos espectadores do festival, ou seja, não é só um festival para portugueses, temos mais de 30 nacionalidades aqui representadas também. Isto aumenta a marca Primavera Sound, que é uma marca muito forte em todo mundo, é considerado o melhor  festival de música da Europa e faz que todo aquilo que Primavera Sound faça tenha repercussão internacional. Em Porto nós elaboramos uma matriz mais local precisamente para o distinguir de Barcelona, é um festival mais intimista. Queremos que seja especial, que as pessoas se sintam bem, e também é um festival que atrai a muitas pessoas acima dos 40 anos, sendo o único festival em Portugal que tem mais pessoas com mais de 40 anos que com menos de 18. E toda essa interação entre a cidade e o festival faz que pareça mais local, quando no fundo não deixa de ser um festival internacional. Mas ao mesmo tempo queremos que o festival também seja um evento da cidade do Porto, por isso convidamos aos restaurantes tradicionais: as tasquinhas da cidade, que vem aqui a apresentar seus produtos. Apresentamos no mercadilho muitos artistas locais, criadores de moda, de mobiliário, de calçado, para que estejam presentes para mostrar seus produtos porque queremos que as pessoas conheçam Porto. Além disso, Porto ainda é desconhecida para a maioria dos europeus e a nível mundial, e também queremos que o festival seja uma aposta turística e daí essa aposta pelo local e pelo que é nosso.

 

Para acabar, acontece como em Barcelona que o festival já está tão enraizado entre o público que faz com que se esgotem os primeiros 1000 ingressos – lote máximo –  após apenas duas semanas do fim do festival?

José: Sim, completamente. No ano passado, após quinze dias que o festival acabou, começamos a vender o primeiro lote de mil bilhetes e se esgotaram em duas horas. Por tanto, acho que quando as pessoas saem daqui, querem que isto não acabe, querem perpetuar em suas memórias o festival,  e tão cedo têm a oportunidade, o compram para o próximo ano. Isto é sinal que temos uma relação muito próxima com nosso público que reconhece que estamos a realizar um bom trabalho.

Mar Herrando é jornalista e acha que as melhores parcerias são sempre feitas de música. Nascida e estabelecida em Barcelona, morou por um ano em Fortaleza com o fim de estudar Comunicação Social e conhecer de perto a cultura brasileira. Voltou, mas a a saudade ainda não tem ido embora, assim que em tempos de Copa, decidiu matá-la escrevendo em português para um blog musical do Brasil que só sabe falar de coisas legais.

(foto por Mar H. Salvador)
(foto por Mar H. Salvador)
Caetano Veloso (foto por Mar H. Salvador)
Caetano Veloso (foto por Mar H. Salvador)
Foto por Mar Herrando
Foto por Mar Herrando
Foto por Mar Herrando
Foto por Mar Herrando

 

Primavera Sound 2014 em Barcelona: um festival que você precisa conhecer

“Um dia nós vamos morrer e nossas cinzas vão voar de um avião sobre o oceano. Mas agora nós somos jovens”. A noite, que resiste tanto a chegar por esses lados, finalmente havia possuído Barcelona por completo quando um envelhecido Jeff Mangum entoou os versos diante de uma multidão que se apertava para vê-lo junto ao seu Neutral Milk Hotel. Ao lado, o vento gelado vinha diretamente do mar, ali a poucos metros de distância, tornando as palavras de Mangum ainda mais doloridas, tocantes e pertinentes. E como numa fração de segundo daquelas que de repente muda tudo, eu tinha toda a consciência do mundo de que naquele momento eu pertencia exatamente ao lugar onde eu estava: o Primavera Sound.

O Neutral Milk Hotel havia sido a primeira banda a ser confirmada para o festival, ainda na cerimônia de encerramento da edição anterior. O show deles foi apenas um entre os quase 350 que aconteceram na programação no Parc Del Fórum e outros pontos da cidade. Do indie de arena do Arcade Fire ao black metal do Deafheaven, da psicodelia do Midlake ao pop ensolarado do !!!, era impossível passar o olho pela programação e automaticamente não desejar ver um punhado dos artistas ali listados. Para quem gosta de música alternativa atual, arrisco dizer que a curadoria do Primavera Sound é, hoje, a melhor do mundo e um dos pontos mais fortes do festival ao lado da localização, em um lugar paradisíaco cercado pelo Mar Mediterrâneo. O público, segundo a organização, foi de 190 mil pessoas das mais diferenciadas nacionalidades e o clima em todos os dias foi de tranquilidade e cordialidade. Foi o primeiro evento do tipo a que compareci fora do Brasil e posso dizer com toda a certeza que não me arrependi da escolha.

Cheguei a Barcelona na quarta-feira à noite, depois de uma longa viagem que passou por Buenos Aires e Madrid, enquanto aconteciam apresentações abertas de artistas como os britânicos do Temples e a californiana Sky Ferreira. Aliás, esse é outro ponto interessante do Primavera: a conexão com a cidade e seus habitantes. Mesmo com os ingressos longe de serem baratos (a entrada para os três dias saía por 195 euros no último lote), vários shows gratuitos foram realizados durante a semana, trazendo a atenção e o apoio dos locais ao invés de se fechar apenas ao público pagante. Contudo, devido ao cansaço, achei melhor abrir da programação do dia para descansar e aproveitar o melhor o que viria na quinta-feira.

O acesso ao festival pelo metrô de Barcelona é bastante fácil e o trajeto entre lugar onde eu estava hospedado com minha namorada e o Parc Del Fórum, que fica a 150 metros da estação, foi rápido e sem transtornos. Nesse primeiro dia de festival fechado, a entrada foi lenta e um pouco confusa, devido ao grande número de pessoas e o fato de que todos deveriam trocar os ingressos por uma pulseira de acesso que serviria para os demais dias e um cartão, utilizado para acompanhar a programação nos clubes no centro de Barcelona. Porém, nada que tomasse muito tempo ou arruinasse a experiência que mal havia começado.

Quinta-feira – O primeiro encontro. Com Real Estate, Midlake, Warpaint, Neutral Milk Hotel e Arcade Fire

Logo na entrada, em uma barraca do selo londrino Rough Trade, era possível comprar camisetas de bandas e do festival (de 15 a 25 euros), vinis e CDs (de 10 a 35 euros), mochilas com a marca do Primavera (35 euros) e uma infinidade de outros badulaques de boa serventia a quem quisesse levar um pedacinho daquilo tudo pra casa. Em volta da lojinha da Rough Trade outros stands também vendiam camisetas, discos de bandas obscuras, fones de ouvido, pôsteres, etc. A publicidade existia em bastante quantidade, mas não chegava a incomodar pois, geralmente, vinha contextualizada na forma de um palco, de uma atração ou sinalizando um lugar para alimentação.

Já passava das seis da tarde, então, quando nos encaminhamos para conferir o show do hypado Real Estate em um dos palcos principais, debaixo de um forte sol que, a mim, marinheiro de primeira viagem na Europa, causou forte estranhamento pelo horário. Como eu entrego no parágrafo que abre esse texto, a noite só cairia muito depois.

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Real Estate (Foto por Clarissa Wolff/ Catárticos)

Os americanos fizeram um set baseado no seu mais recentemente lançamento, Atlas (2014), à frente de um público bastante grande para o horário. Eu preciso confessar que essa é uma banda com a qual eu não consigo me empolgar muito. Escutei Atlas por diversas vezes e, mesmo sendo um disco muito longe do ruim, não caiu nas minhas graças. É um rock alternativo cheio de influências dos anos 90, com timbres limpinhos e bons riffs de guitarra. No palco, o show se resume à uma reprodução bem feita das gravações de estúdio e está aí o ponto chave: se você gosta das músicas, vai gostar do que for ver e ouvir.

Aqui vale ressaltar que no Primavera havia um esquema interessante nos palcos principais: eles ficavam um de frente para o outro e se alternavam entre o fim de uma atração e começo de outra, com intervalos de 10 a 20 minutos, de forma que quase sempre haveria alguém tocando pela região e era bastante rápido chegar a outro show.

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Midlake (Foto por Clarissa Wolff/ Catárticos)

E o show seguinte seria do Midlake, grupo que lançou um dos meus discos preferidos do ano passado, Antiphon (2013), no outro palco principal. Quando chegamos, ainda havia um público tímido esperando pelo início dos trabalhos, mas à medida que a banda tocava os primeiros acordes, mais e mais pessoas foram chegando nas proximidades. Sorte a delas. Esse era um dos shows que eu mais queria ver e não me decepcionou nem um pouco. Antiphon foi o resultado do trabalho de uma banda que havia acabado de passar por uma grande turbulência que culminou com a saída do seu vocalista e principal compositor, Tim Smith. Eles tiveram que começar tudo do zero e o disco, mesmo assim, é fantástico, principalmente na sua primeira metade e uma excelente pedida pra quem é fã de boas melodias psicodélicas. No palco, seis músicos compunham uma formação com violão, guitarra, bateria, baixo e dois teclados/sintetizadores, o que pode parecer um exagero, mas fazia toda a diferença para recriar as atmosferas e texturas de estúdio. O perfeito som do palco ajudava a fazer com que a combinação dos instrumentos funcionasse como um macio tapete melódico, pronto para abrigar a voz do agora vocalista principal Eric Pulido, que se alternava com a barulheira distorcida vinda da única e solitária guitarra. Sensacional. Os texanos precisam apresentar esse show no Brasil e, se o fizerem, você não deve perdê-lo. Deve, inclusive, ser melhor ainda em um espaço fechado e sem ruídos que não sejam os emanados pelos integrantes, o que obviamente é impossível em um grande festival. Agora sim eu sentia que o Primavera Sound havia, de fato, começado.

A próxima parada era para conferir o novo show das meninas do Warpaint, baseado no disco homônimo lançado esse ano. É um disco de post-punk interessante, apesar de não trazer nada excepcional. Em ação, as quatro integrantes se mostraram musicistas competentes. Com seus cabelos coloridos e sem se esforçar pra manter uma suposta pose cool, por vezes elas deixaram escapar sorrisos e lá pelas tantas algumas delas começaram a se livrar dos casacos que vestiam, acompanhando a subida de temperatura da plateia, que cada vez se animava mais. O sol se punha lentamente ao redor do Mar Mediterrâneo, o que ajudava a compor um cenário digno da beleza de Barcelona, mas um pouco superior ao só legal show que acontecia ali. Em comparação com outra banda com influências post-punk formada apenas por mulheres, o Savages – que se apresentou no último Lollapalooza Brasil -, elas saem bastante em desvantagem. O que não quer dizer que sejam ruins. Tocar ainda entre o Midlake e o Neutral Milk Hotel tornava a tarefa de ser relevante ainda mais árdua, ao ponto de que esse não será exatamente o show que eu irei mais me lembrar daqui a algum tempo.

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Agora era correr para o palco ATP pra pegar o início da apresentação do Neutral Milk Hotel, banda cult dos anos 90 que, depois de anos, se reuniu para uma concorrida turnê. Aqui eu preciso avisar que se você pretende algum dia ir ao Primavera Sound, você tem que estar ciente de que irá andar MUITO. São muitas bandas, muitos palcos e a maioria deles fica bastante longe uns dos outros, ao ponto que as caminhadas do último Lollapalooza Brasil, que causaram certo descontentamento em alguns, são só uma espécie de treino se comparado ao festival espanhol. Mas ainda era o primeiro dia e esse show valia todo o esforço.

Muita gente já aguardava a apresentação e conseguir um lugar no apertado espaço foi tarefa difícil, mas bem recompensada quando a banda apareceu e performou as três partes de King of Carrot Flowers apoiada em um coral uníssono dos presentes. É impossível ter escutado o disco clássico do Neutral Milk Hotel, In the Aeroplane Over the Sea (1998), e não se lembrar do prolongado verso “I love you Jesus Christ” que abre uma das partes de King of Carrot… Eu, que estou longe de ser praticante de alguma religião, não pude evitar em ficar arrepiado. O que se sucedeu depois disso foi um desfile de músicas coerente com o espírito da banda, alternando entre a alegria esquizofrênica e a melancolia doce, que atingiu o seu ápice na cena que eu descrevi no primeiro parágrafo desse texto. Fantástico. Outro show que tem que passar pelo Brasil. E logo.

Neutral Milk Hotel (Foto por Clarissa Wolff/ Catárticos)
Neutral Milk Hotel (Foto por Clarissa Wolff/ Catárticos)

O cansaço já batia forte, mas ainda havia um último show que queríamos conferir no primeiro dia. E enquanto era possível escutar o Queens of the Stone Age no palco ao fundo, fazendo a apresentação que eles trarão ao Brasil no segundo semestre, uma multidão já esperava os canadenses do Arcade Fire. E foi uma multidão, mesmo. Provavelmente o show com o maior público do festival, algumas pessoas com quem conversei posteriormente reclamaram de não ter conseguido ver ou ouvir bem o palco. Esse foi um problema com algum dos shows mais concorridos do festival e é algo que precisa ser repensado pela organização. Eu, por exemplo, não consegui ver o palco no show do Mogwai no último dia, mas para o Arcade Fire, acabei pegando uma boa posição. E o grupo fez basicamente o mesmo show do Lollapalooza Brasil, com apenas algumas adições ao repertório – eles tocaram todas as músicas do show paulista mais “Rococo”, “Keep the Car Running”, “Joan of Arc” e “We Exist”. Entretanto, a animação do público espanhol não chegou nem perto da brasileira. No palco, os integrantes pareciam animados, mas cansados e nada muito especial aconteceu. No fim, foi ótimo, mas sem o tom de novidade do Lolla. Irei ver o Arcade Fire ainda mais uma vez nessa turnê, em Paris, na semana seguinte ao Primavera para saber como eles se comportarão em um show solo e fora de festival.

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Arcade Fire (Foto por Clarissa Wolff/ Catárticos)

Achamos que era a hora de voltar para casa, mas a saída foi um pouco turbulenta nesse primeiro dia. O metrô havia parado à meia-noite (o show do Arcade Fire acabou por volta das duas da manhã) e só reabriria às 05h, as filas para ônibus eram lentas e quilométricas e os taxis eram pouquíssimos e ridiculamente concorridos. Depois de quase duas horas esperando e um bocado de esforço, conseguimos pegar um e nos recompor, na medida do possível, para o que viria no próximo dia. E que dia.

Sexta-feira – O Dia D. Com Slowdive, The National e Jesu

Quem me acompanha pelo Twitter ou pelo meu Facebook pessoal, certamente sabe que The National é uma das minhas bandas preferidas. Talvez A preferida. E o único show a que tinha assistido deles, em 2011 em São Paulo, sempre será lembrado como um dos mais especiais da minha vida. Por isso quando eles foram confirmados como atração principal do Primavera Sound, ao qual já planejávamos ir antes, foi o sinal definitivo para selarmos a viagem.

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(Foto por Clarissa Wolff/ Catárticos)

E o tempo em Barcelona já não era mais tão ensolarado no dia anterior, quando uma forte chuva começou a cair pela cidade. A galera se protegia como dava e nós tivemos que sair correndo para chegar até a área coberta da praça de alimentação. O público era bem menor que na quinta-feira, um pouco pela tempestade, um pouco pelas atrações não serem tão populares, o que fez com que ao chegarmos no palco onde The National e Slowdive se apresentariam, uma hora e meia antes do show dos britânicos, conseguíssemos sem problemas ficar no lugar mais central da grade. No palco oposto, as irmãs do HAIM faziam seu o show sem incomodar ou chamar a atenção de ninguém que estivesse por ali. Tanto que quase nem me lembrei de citá-las no texto.

A reunião do Slowdive corria como rumor já há um bom tempo, mas quando ela se confirmou, não houve um site sério de música que tenha deixado de pelo menos citar o fato. É interessante notar que o Slowdive nunca foi e nunca vai ser um sucesso massivo de público, mas como aconteceu com várias bandas dos anos 80 e 90 que terminaram, voltaram com a pecha de headliners. Mas quem se importa com isso quando a banda é tão boa em disco? Restava saber se ao vivo eles corresponderiam ou era apenas mais uma saudosista turnê caça-níqueis. Digo a vocês, então, que se a turnê de reunião do Slowdive foi feita pelo dinheiro, eles merecem cada centavo que ganharam. O que eu e mais 25 mil pessoas presenciamos ali na nossa frente, no palco Sony, foi uma banda inteira, intensa e com um repertório invejável. Bons músicos e, sobretudo, bons artistas, que conseguiram tornar pequenos clássicos ainda mais poderosos ali. Melodias lindas cravadas em distorções pesadas e asfixiantes capazes de fazer qualquer fã de boa música se encantar. Ouvir minha música preferida deles, “Machine Gun”, algo tão improvável há algum tempo, foi, no mínimo, libertador. A essa altura a chuva já tinha ido embora há tempos, mas o som das guitarras da banda corria como água pelo corpo dos que estavam ali a ponto de ser uma tarefa hercúlea tentar não fechar os olhos e balançar a cabeça no ritmo do som, entregue. Quando a banda avisou que teria que cortar uma música do repertório devido ao tempo – que provavelmente acabou sendo a mais famosa, “Alison” – alguém gritou da plateia o que todo mundo parecia sentir: “FUCK THE PIXIES!” (próxima banda a tocar no palco oposto). Mas não teve jeito, tivemos que nos contentar com “apenas” mais uma música, um cover de uma faixa solo do primeiro líder do Pink Floyd, Syd Barrett, executado numa versão totalmente slowdiviana. De todos os shows que eu já pedi no Brasil nesse texto até agora, esse é o que urge mais acontecer. Alguém, por favor, traga a banda para o nosso país. Se isso se confirmar, com certeza estarei lá novamente. Tinha sido o melhor show do festival até o momento. Disparado. Mas aí veio o The National.

Matt Berninger, The National (Foto por Clarissa Wolff/ Catárticos)
Matt Berninger, The National (Foto por Clarissa Wolff/ Catárticos)

Música é algo subjetivo, pra quem faz ou pra quem ouve, e como qualquer outra manifestação artística, depende tanto de qualidade interpretativa e técnica, como de bagagem emocional e sentimento de pertencimento. Não raro, músicas populares podem emocionar muito mais intensamente que sinfonias clássicas.

Poucas coisas me emocionam mais do que o The National. Posso dizer, com certeza, que eles são uma das grandes razões de eu estar aqui hoje, falando e querendo conhecer cada vez mais sobre música. O impacto pessoal do show deles a que assisti em 2011 foi tão grande que é difícil imaginar como seria minha vida hoje se ele não tivesse acontecido. Por isso, quando eles finalmente entraram no palco e tocaram as primeiras notas de “Don’t Swallow the Cap”, do recente “Trouble Will Find Me” – do qual nem gosto tanto -, eu sabia que algo muito especial estava por vir. E veio. A emoção de você assistir a sua banda preferida no palco é indescritível, quem já passou por isso sabe. E daí pouco importa se a crítica a acha a mais importante, relevante ou o diabo que o valha. Ali, aquela é a melhor banda do mundo. A melhor banda do seu mundo. E isso é mais que suficiente. Pelas quase duas horas em que eles estiveram no palco, ver a loucura intensa e prestes a transbordar de Matt Berninger, as personalidades diferentes dos irmãos gêmeos Bryce e Aaron Dessner e a precisão cirúrgica dos irmãos Devendorf se converterem em música, me lembraram de quem eu era e de que tudo sempre valeu a pena. O poder da música é o poder da vida. E mais uma vez, aquele foi o show da minha vida.

Já tinha sido o melhor dia de música que eu havia tido a chance de presenciar, mas ainda dava para curtir o show do Jesu, que começaria no palco da Vice em uma meia hora. Fomos pra lá e o ar gélido vindo do mar não hesitava em castigar os brasileiros mal vestidos pro frio europeu. O clima, entretanto, era perfeito para o shoegaze obscuro e atmosférico da banda. Em formato de duo, com um baixo e uma guitarra sob bases pré-gravadas, eles tocavam ao passo que imagens macabras em preto e branco iam rolando no telão ao fundo. De dar um frio na espinha. Gostaria de ter visto até o final, mas a fome, o cansaço e o frio fizeram com que tivéssemos que sair antes do término. Agora faltava um dia.

The National (Foto por Clarissa Wolff/ Catárticos)
The National (Foto por Clarissa Wolff/ Catárticos)

Sábado – Adéu, Barcelona! Com Teho Teardo & Blixa Bargeld, Caetano Veloso, Goodspeed You! Black Emperor, Kendrick Lamar, Cloud Nothings e Mogwai

Nesse momento eu já estava completamente apaixonado por Barcelona. Cidade de arquitetura linda, banhada pelo Mar Mediterrâneo e de povo tão simpático e cordial, virou uma piada entre eu e minha namorada virarmos um para o outro em momentos completamente aleatórios e suspirar “I love Barcelona”. Fomos muito felizes quando escolhemos esse pra ser o destino da nossa primeira viagem ao exterior. E era ali o momento de nos despedirmos, pronto para seguir para Paris. E que jeito melhor de se despedir do que com boa música?

Por isso, por volta das sete horas, com o sol brilhando no céu e todo mundo já com cara de cansaço, segui para o Auditório Rockdelux para acompanhar sentado a parceria ítalo-germânica de Teho Teardo & Blixa Bargeld. Teardo é um conhecido compositor italiano de trilhas sonoras e membro fundador da banda noventista Meathead. Bargeld é o líder da seminal banda alemã Einstürzende Neubauten e que já trabalhou com gente do calibre de Nick Cave. Se juntaram ano passado para lançar o ótimo disco Still Smiling (2014), que acabou até na minha lista de 20 melhores do ano. A apresentação era feita com Teardo no baixo, enquanto Bargeld deixava ecoar sua voz grave e angustiante, apoiados por instrumentos de orquestra, como violinos e violoncelos. Foi sombrio e lindo.

Vista do palco onde se apresentava Caetano Veloso (Foto por Clarissa Wolff/ Catárticos)
Vista do palco onde se apresentava Caetano Veloso (Foto por Clarissa Wolff/ Catárticos)

Era a vez, então, de conferir o show do Goodspeed You! Black Emperor, um dos que eu mais queria ver em todo o festival, no palco ATP. Mas como ainda faltava um bom tempo para o início do show, ficamos assistindo à apresentação de Caetano Veloso no palco da marca de óculos. E como estava cheio! E ver aquele monte de gente tentando acompanhar um brasileiro cantando em português em um palco encravado no meio de um cenário paradisíaco, de repente, me despertou uma pontinha de saudades de casa. Que estariam fazendo minha família e meus amigos naquele momento enquanto a milhares de quilômetros de distância eu ouvia o Caetano cantar que o lugar mais frio do Rio era o quarto dele? Mas longe de estar triste, eu estava muito, muito feliz e aparentemente Veloso e sua banda Cê também. Pareciam animados e soando rock’n’roll até nos maiores sambas. Os gringos adoraram.

Já no palco ATP, um som grave e contínuo deixava no ar que logo o Godspeed You! Black Emperor entraria. Esse ano os canadenses completam 20 anos de grupo e mesmo sem serem conhecidos do grande público, já tem um lugar cativo na história da música moderna. Peritos em misturar o post-rock a elementos de música clássica, lançaram alguns dos discos mais poderosos que eu já ouvi. Se você não conhece a banda, faça-o o mais breve possível. Por isso tudo, estava ansioso para ver como eles portariam ao vivo. E a palavra é exatamente aquela dos discos: poderoso. Com quase sempre três guitarras, duas baterias, um violino, um violoncelo e um contrabaixo, as texturas criadas pelo grupo em meio a timbres ruidosos e instrumentos clássicos, acompanhadas de belas melodias transportaram os presentes a um mundo em decadência, mas ainda cheio de esperança, como se as notas mais bonitas fossem flores nascendo dentre os escombros de distorção. Uma hora e meia de catarse completa e um dos melhores shows do festival.

Mas era preciso sair rápido do transe e atravessar o Parc Del Fórum para chegar até a apresentação do rapper Kendrick Lamar, no palco da cerveja, que já havia começado. Sou recebido com o sucesso “Bitch Don’t Kill My Vibe” do já clássico do gênero Good Kid, M.A.A.D City (2012). Bastante cheio, não consigo chegar muito perto do palco, mas dá pra ter uma boa ideia de como é o show do americano. Acompanhado por uma banda bastante rockeira, ele desfila os versos cheio de empáfia e boas rimas sobre as ótimas bases produzidas dos seus discos. Cheio de ginga, era possível olhar pro lado e ver uma porção de gringos duros tentando dançar ao ritmo das batidas graves. Um bom show, apesar de eu, grande fã do disco mais recente, esperar mais. Tenho pra mim que shows de rap e hip-hop não funcionam tão bem em lugares abertos, onde o som facilmente se dispersa. Em um lugar menor deve ser muito mais impactante.

Galera surfando no Cloud Nothings (Foto por Clarissa Wolff/ Catárticos)
Galera surfando no Cloud Nothings (Foto por Clarissa Wolff/ Catárticos)

A noite já engolia todo o local quando eu retirei forças do além para atravessar novamente o Parc Del Fórum em cerca de dez minutos, para pegar a metade final da apresentação do Cloud Nothings. Gosto bastante dos dois últimos discos da banda e ao vivo a energia dos caras é incrível. Quando eu cheguei no palco da Vice já era possível ver uma galera surfando na multidão e se jogando ao som das pauladas que vinham do trio. Não tem muito o que dizer: é rápido, é pesado, é rock e é bom. Esse é um show que deve aparecer no Brasil esse ano e se você tiver a chance, não perca. Vale demais. O vocalista Dylan Baldi também estava se divertindo e antes de anunciar como última música uma versão de mais de 10 minutos de “Wasted Days” foi ao microfone agradecer ao público e sentenciar “This is a cool festival”. Realmente é.

Dylan, Cloud Nothings (Foto por Clarissa Wolff/ Catárticos)
Dylan, Cloud Nothings (Foto por Clarissa Wolff/ Catárticos)

Restava para nós o show do Mogwai, em um palco tão abarrotado de gente que eu não conseguia vê-lo de onde eu estava, apenas ouvi-lo. Vi o Mogwai em 2012 na versão brasileira do Sónar e o show foi espetacular. O do Primavera Sound soava ainda melhor. Não haveria jeito melhor, pra mim,de terminar aquele primeiro Primavera Sound. Quando começaram os primeiros acordes de “Rano Pano” eu virei pra minha namorada e disse que adorava aquela música, que seria uma perfeita para ouvir enquanto caminhávamos em direção à saída. E assim nos despedimos daquele festival, com uma dorzinha no coração, mas satisfeitos com o que havíamos vivido.

Aos sábados o metrô de Barcelona funciona ininterruptamente e voltamos pra casa de forma tranquila. Ano que vem o Primavera Sound completa 15 anos e acontecerá nos dias 28, 29 e 30 de maio. Esperamos poder voltar e curtir a festa de debutante do festival.

I love Barcelona.

Meus 5 shows preferidos do festival ficam assim:

1 – The National

2 – Slowdive

3 – Goodspeed You! Black Emperor

4 – Midlake

5 – Arcade Fire

Aquela banda que você adora de novo no Brasil? Ótimo!

Levantamento feito por www.rockinchair.com.br - veja quadro completo de acordo com link no 1º parágrafo
Levantamento feito por www.rockinchair.com.br – veja quadro completo de acordo com link no 1º parágrafo

O Brasil vive a sua fase de ouro no que se refere à quantidade de artistas e turnês internacionais que passam por aqui. Em 2013, apenas no estado de São Paulo foram 493 artistas em 580 shows e 19 festivais, segundo levantamento feito pelo Rock in Chair (veja quadro completo). Apesar disso, o preço ainda é caro: R$ 80,00 a média do ingresso mais barato de cada evento.

Esse aumento começou a partir de 2009/2010, quando a demanda por shows na Europa e EUA, principais mercados, diminuiu drasticamente devido à crise financeira mundial. A América do Sul, e sobretudo o Brasil – conhecido no exterior pelo pagamento de altos cachês e pouco afetado pela crise -, passaram a ser considerados como alternativas muito interessantes para aliviar a queda nos rendimentos das turnês. Lembre-se que desde a decadência da indústria fonográfica e das vendas de discos, essa é a principal fonte de lucro dos artistas: hoje eles fazem discos para venderem shows e não o contrário, como acontecia em outras épocas. Some-se a isso o fato dos brasileiros, cada vez mais, terem acesso instantâneo ao que acontece de mais interessante no mundo devido à internet e às redes sociais e pronto, você tem um amplo mercado a ser explorado.

Em 2011 chegamos ao auge. Paul McCartney de volta depois de show disputado em 2010, o Festival Planeta Terra esgotando seus ingressos em horas, o Rock in Rio voltando ao país após 10 anos (e também esgotado em horas), o megalomaníaco SWU com mais um line-up exuberante e a inúmera quantidade de shows em casas menores com ingressos completamente vendidos: Interpol, Metronomy, The Kills e Kings of Convenience foram só alguns deles. Nunca fomos tão conectados ao resto do mundo. Para quem achava o preço dos ingressos caro (com razão) ou não podia pagá-los, o SESC continuava como alternativa mais acessível, sem perder em qualidade ou quantidade.

The Strokes no Planeta Terra de 2011
The Strokes no Planeta Terra de 2011

E todo mundo quis aproveitar o momento. O americano Lollapalooza chegou em 2012 como uma escalação de peso, que trazia bandas como Arctic Monkeys e Foo Fighters, que já tinham passado por aqui anos antes sem chamar muita atenção, mas que agora eram capazes de atrair mais de 50 mil pessoas a seus shows. O ainda-menino-do-bem Justin Bieber lotou estádios. Shows por todos os lugares, de todos os tamanhos aconteceram até que no fim do ano o suposto “encalhe” de ingressos para shows de Madonna e Lady Gaga e o cancelamento do SWU acenderam a luz amarela. Os mais pessimistas alardeavam a existência de uma suposta “bolha de consumo”, prestes a explodir e dar fim ao exponencial crescimento do setor.

O tempo encarregou-se de provar que não era bem assim. E os números de 2013 que abrem esse post são a prova disso. O que houve nada mais foi que uma regulação natural de mercado, mostrando que não basta demanda sem um trabalho de planejamento, pesquisa, produção, curadoria e marketing competentes por trás. E os “fracassos” apontados por alguns como sinais do apocalipse nada mais eram que indicativos da falta desses.

Mas e agora? Os shows inéditos no Brasil são cada vez mais raros e não é pouco comum que a reação ao anúncio de alguma banda “repetida” seja encarada com um desanimado: de novo? Essa semana foi anunciado a escalação do espanhol Primavera Sound e era impossível não notar que a maioria daquelas turnês passaram recentemente por terras tupiniquins. O mesmo com o badalado californiano Coachella. E isso deve ser encarado como algo positivo e não o contrário.

Na Europa e EUA cada turnê é considerada um show novo e por isso as bandas excursionam tanto por lá. O Arcade Fire, destaque dos festivais mundo afora em 2014, já tocou no Coachella quatro vezes, inclusa a desse ano. O Pixies, atração principal de um dos dias do Primavera Sound, também tocou por lá em 2010. Isso só pra citar esses bandas e festivais. Consulte a agenda de qualquer artista de médio porte, geralmente disponível no próprio website, e verá que isso é comum. E tem que se tornar comum por aqui também ou corremos o risco de voltar à escassez de outros dias. Tenha em mente que a cada novo lançamento o repertório dos artistas muda, assim com a experiência de vê-lo sendo interpretado ao vivo, algo que eu e, provavelmente, você amamos.

Escalação do Primavera Sound 2014
Escalação do Primavera Sound 2014

Já vi dois shows do Kraftwerk, Franz Ferdinand e Tame Impala, entre outras bandas, e cada um deles foi diferente. Todos valeram a pena. Em maio eu pretendo ir ao Primavera Sound e mal posso esperar pra rever os shows de The National e Mogwai, assim como irei conferir novamente Nine Inch Nails, Pixies e Arcade Fire, os quais verei no Lollapalooza Brasil desse ano. Lolla onde me reencontrarei com o show do Cage the Elephant. Não há motivo para não fazê-lo se a banda ainda é boa. É o velho papo do filósofo Heráclito de que ninguém passa pelo mesmo rio duas vezes. Você e o rio estão diferentes. E mergulhar novamente pode ser muito bom.

É verdade que os preços aqui ainda são proibitivos para muitos. Para isso é preciso mobilização dos produtores – evitando o pagamento de cachês exorbitantes e leilões de artistas – e do governo – regulamentando de forma mais eficaz assuntos como a meia-entrada – para que o ticket médio caia. Contudo, você pode fazer sua parte, aceitando de braços abertos mais um show daquela banda que você adora (se o preço for justo). Porque música boa nunca é demais. E ao vivo é sempre demais.