Explosions in the Sky em São Paulo: quando o tempo é relativo e a entrega absoluta

DSC_7335
Foto por Clarissa Wolff/Indie da Deprê

O post-rock, gênero de nome pomposo, não é para muitos. Mas deveria. Suas canções são cuidadosamente construídas e costumam criar uma atmosfera tão convidativa que é quase impossível resistir a fechar os olhos e entrar numa espécie de transe guiado. Não é um som urgente, descartável, nem de fácil assimilação. Na grande maioria das vezes não possui vocais. Por aqui, mesmo com bons nomes nacionais (com bandas como a Herod Layne, Labirinto e Ruído/mm) e um selo especializado (a Sinewave), ainda é conhecido por um número pequeno de pessoas. Exceções à regra, a islandesa Sigur Rós, os escoceses do Mogwai e os texanos do Explosions in the Sky possuem uma boa base de fãs no país. E foram esses últimos que fizeram um show inesquecível na última quarta no SESC Belenzinho, na zona leste.

O clima de chuva amena e céu cinzento dava o tom da noite. A maior metrópole tupiniquim parecia dar boas-vindas, do seu jeito único e truculento, à banda. Era a mais pura São Paulo. Com duas apresentações marcadas em dias seguidos na cidade, o show era ansiosamente aguardado pelos felizardos que conseguiram adquirir uma das entradas que se esgotaram em apenas uma hora e meia. Em um espaço confortável, cerca de 500 escolhidos se acomodavam pra assistir à primeira delas.

DSC_7138
Foto por Clarissa Wolff/Indie da Deprê

Já tornou-se redundante, mas é preciso novamente elogiar a organização do SESC. Não irei entrar no seara de preços praticados, pois a organização tem formas de financiamento que certamente lhe dão vantagens na comparação com a iniciativa privada. Contudo, em relação a respeito ao público, é tudo irrepreensível. Usando a proximidade com o metrô como trunfo e propiciando a utilização de transporte público tanto na ida quanto na volta, faz o que deveria se esperar de qualquer casa de shows: respeitam rigorosamente os horários. Às 21:30 em ponto os integrantes estavam em cima do palco. Chama ainda atenção o zelo com o som, que durante toda a apresentação estava perfeito e cristalino, tornando possível distinguir cada instrumento individualmente sem maiores dificuldades.

DSC_7075-2
Foto por Clarissa Wolff/Indie da Deprê

Com os membros da banda já posicionados em seus instrumentos, o guitarrista Munaf Rayani disse ao microfone: “Eu não sei falar português” – ironicamente em um português bastante claro. Prosseguiu: “mas é um sonho estar aqui hoje. Então fechem os olhos agora e venham sonhar com a gente”. Essas seriam as únicas palavras vindas dos americanos na próxima hora e meia, tempo em que se sucedeu um espetáculo embasbacante.

A primeira canção começou lenta, sendo aos poucos erguida pela soma das três guitarras, baixo e bateria, formação que seria utilizada até o final, com exceção de uma única música. Com a paciência de um escultor, que molda o barro com toda a frieza, a música foi ganhando corpo em sequências de notas hipnóticas. De repente, como num estalar de dedos, a explosão. Como se seguindo o mantra da camiseta do guitarrista Michael James, que continha os dizeres “make noise” (faça barulho), uma parede de distorção é criada e todos os músicos se entregam por completo aos seus instrumentos, numa simbiose tão perfeita que naquele momento era impossível discernir onde começava um e terminava o outro. O público, absurdamente respeitoso, comtemplava o que parecia tão íntimo e se entregava contribuindo como podia, tornando a experiência uma espécie de catarse coletiva, onde tudo desaguava naqueles ruídos em volume máximo. O jogo já estava ganho.

As interpretações que se seguiram não foram muito diferentes. Intercalando belas e calmas melodias com passagens barulhentas, a violência contra os instrumentos era tamanha que a certa altura do show o baterista Chris Hrasky teve que solicitar outro pedal para o bumbo, nem assim interrompendo o espetáculo, que nesse breve período foi conduzido pelo diálogo sempre eloquente entre as guitarras dos outros membros. Esses não se importavam em se jogar ao chão ou, no mínimo, balançar corpo e cabeça com toda força, conforme o ritmo requisitasse.

DSC_7310
Foto por Clarissa Wolff/Indie da Deprê

O mais animado de todos certamente era Munaf Rayani, o mesmo que proferiu as palavras de abertura. O descendente de indiano parecia estar em perfeita sinergia com tudo que se passava e se jogou no chão, mexeu em seus pedais, abusou da sua guitarra e até mesmo conduziu uma caixa de bateria extra em uma das músicas, ampliando tanto o espectro rítmico, quanto a violência do grupo naquele determinado ponto. Por fim, ele mesmo abriu o tema final da noite com sua guitarra sendo tocando com uma…caneta. A partir daí, a apresentação teve o fechamento mais que perfeito, com performance de cerca de dez minutos da mais fina distorção. Em certo momento o próprio Rayani abandonou a guitarra, se agarrou a uma pandeirola (ou meia-lua) e começou a, no tempo exigido, soca-la no chão com tanta força que fez as minhas mãos doerem de leve só de observar. Tudo isso enquanto seus companheiros castigavam, cada um à sua maneira, seus apetrechos musicais, até que inevitavelmente o silêncio voltasse a reinar. Memorável.

A banda se despediu timidamente, como se arrependida por ter dividido algo tão profundo e íntimo com todas aquelas pessoas e rapidamente se retirou do palco. Ao fim, era inacreditável que tudo aquilo tivesse durado noventa minutos. Pareciam dez. Havia pelo menos uma certeza: o que tinha acabado de acontecer ali era um dos melhores shows do ano.

The Vaccines em São Paulo: Peter Pan tinha razão

Foto por Clarissa Wolff/Indie da Deprê
Foto por Clarissa Wolff/Indie da Deprê

“Quando me perguntam pelo mundo todo qual meu lugar preferido para tocar, sempre digo Brasil”. Com essas palavras no bis, Justin Young, vocalista do The Vaccines, resumiu o sentimento da banda na noite do último sábado em show no centro de São Paulo, pouco mais de um ano depois de terem tocado a primeira vez por aqui. Sentimento que foi inteiramente compartilhado pelo público na cerca de hora e meia em que os ingleses se apresentaram.

Uma das gratas surpresas foi o local escolhido, o Grand Metrópole, espaço situado no bairro da República e de fácil acesso por meio de transporte público. O funcionamento 24h do metrô paulistano, em virtude da Virada Cultural, contribuiu para o retorno dos cidadãos às suas casas e espera-se que os produtores continuem possibilitando a utilização das estações no futuro, evitando espetáculos que terminem em um horário no qual não seja mais possível desfrutar de tamanho trunfo. Além da facilidade logística, a casa também se destacou pelos aspectos estruturais: bem organizada, com bares de fácil acesso, decoração de ótimo gosto e, principalmente, som impecável, alto e nítido. Tudo isso faz com que o lugar sirva como excelente opção pra abrigar shows dentro da capital paulista.

A abertura dos trabalhos ficou a cargo da Inky, prata da casa e de estilo bastante diferente da atração principal. As músicas, compostas em grande parte de longas passagem instrumentais guiadas por sintetizadores, contra todas as possibilidades não soavam maçantes. Os paulistanos foram outra boa surpresa e cumpriram bem seu papel, mesmo enfrentando uma plateia em grande parte dispersa. Foram os responsáveis por abrir os shows da última turnê do LCD Soundsystem em solo brasileiro e desde então têm lançado material interessante. Merecem atenção.

Contudo, os Vaccines eram as estrelas da noite. E todo o funcionamento deles gira em torno de uma palavra: juventude. É dessas ironias mais brilhantes que o sobrenome do líder do grupo seja Young (jovem). A boa plateia que preenchia confortavelmente o local era maciçamente composta por pessoas entre 18 e 25 anos, todos com o aspecto de que tinham acabado de sair das aulas de alguma faculdade cheia de outros indivíduos da mesma idade. Foi a energia deles que deu todo o tom do show. Quando a banda subiu ao palco e começaram os primeiros acordes de No Hope, o clichê máximo de resenhas, “público indo ao delírio”, fazia todo o sentido. Jovens cantavam a plenos pulmões a maioria das letras sem se abalar. Aquele momento era tudo pra eles.

Foto por Clarissa Wolff/Indie da Deprê
Foto por Clarissa Wolff/Indie da Deprê

Entrosados, os integrantes pareciam se divertir e davam tudo de si, destaque para o bateirista que chegou a fazer (bons) solos nos intervalos enrte as canções. Até a nova Melody Calling, com um violão pouco usual para os padrões da banda, foi bem recebida. As músicas do primeiro disco eram as que empolgavam mais e o destaque vai pra dobradinha Post Break-up Sex/All in White, seguida por Wolf Pack e A Lack of Understanding. Não houve quem resistisse a, no mínimo, cantarolar as letras, gritadas em coro pelos presentes.

A banda e presentes seguiram em bom ritmo e como se tivessem passado apenas 10 minutos do início, o Vaccines encerrou a primeira parte do show com a ainda mais acelerada If You Wanna, a qual foi sucedida por Family Friend. Os músicos deixaram o palco sob fortes aplausos.

Contudo, o público continuava sedento e eles logo voltaram para o bis com a bela Weirdo, seguida com pouca conversa para Teenage Icon, hit do segundo disco, Come of Age, do ano passado. Noutra música de levada veloz, tratam de bradar que não são ícones adolescentes, que não são heróis de ninguém, contradizendo exatamente o que se via ali: uma plateia entregue e que alçava uma banda tão nova ao status de ídolos, chegando ao ponto de brigarem por toalhas empapadas de suor que foram atiradas pelos integrantes. O final veio com Norgaard, música com-menos-de-dois-minutos-quase-punk de What Did You Expected from the Vaccines, disco de estreia, do ainda fresco 2011 e, que surpresa, cantada em uníssono.

No final, o saldo do show foi bastante positivo e o grupo mostrou que é ainda melhor ao vivo do que em disco. Banda e presentes tiveram o que esperavam e todos saíram satisfeitos com a apresentação. Como diz o refrão da canção que abriu o show e dá nome ao segundo disco dos britânicos “it’s hard to come of age” (é difícil virar adulto) e nos shows do Vaccines é melhor que seja assim. Vale a lógica de Peter Pan: crescer não ajuda em nada. As músicas do grupo provavelmente não vão mudar o mundo, mas isso algum dia foi importante pro rock?

Foto por Clarissa Wolff/Indie da Deprê
Foto por Clarissa Wolff/Indie da Deprê

Setlist:

1. No Hope
2. Wreckin’ Bar (Ra Ra Ra)
3. Ghost Town
4. I Always Knew
5. Wetsuit
6. Under Your Thumb
7. Tiger Blood
8. Melody Calling
9. All in Vain
10. Post Break-Up Sex
11. All in White
12. Wolf Pack
13. A Lack of Understanding
14. Aftershave Ocean
15. Blow It Up
16. Bad Mood
17. If You Wanna
18. Family Friend

Encore:
19. Weirdo
20. Teenage Icon
21. Nørgaard