Primavera Sound 2014 em Barcelona: um festival que você precisa conhecer

“Um dia nós vamos morrer e nossas cinzas vão voar de um avião sobre o oceano. Mas agora nós somos jovens”. A noite, que resiste tanto a chegar por esses lados, finalmente havia possuído Barcelona por completo quando um envelhecido Jeff Mangum entoou os versos diante de uma multidão que se apertava para vê-lo junto ao seu Neutral Milk Hotel. Ao lado, o vento gelado vinha diretamente do mar, ali a poucos metros de distância, tornando as palavras de Mangum ainda mais doloridas, tocantes e pertinentes. E como numa fração de segundo daquelas que de repente muda tudo, eu tinha toda a consciência do mundo de que naquele momento eu pertencia exatamente ao lugar onde eu estava: o Primavera Sound.

O Neutral Milk Hotel havia sido a primeira banda a ser confirmada para o festival, ainda na cerimônia de encerramento da edição anterior. O show deles foi apenas um entre os quase 350 que aconteceram na programação no Parc Del Fórum e outros pontos da cidade. Do indie de arena do Arcade Fire ao black metal do Deafheaven, da psicodelia do Midlake ao pop ensolarado do !!!, era impossível passar o olho pela programação e automaticamente não desejar ver um punhado dos artistas ali listados. Para quem gosta de música alternativa atual, arrisco dizer que a curadoria do Primavera Sound é, hoje, a melhor do mundo e um dos pontos mais fortes do festival ao lado da localização, em um lugar paradisíaco cercado pelo Mar Mediterrâneo. O público, segundo a organização, foi de 190 mil pessoas das mais diferenciadas nacionalidades e o clima em todos os dias foi de tranquilidade e cordialidade. Foi o primeiro evento do tipo a que compareci fora do Brasil e posso dizer com toda a certeza que não me arrependi da escolha.

Cheguei a Barcelona na quarta-feira à noite, depois de uma longa viagem que passou por Buenos Aires e Madrid, enquanto aconteciam apresentações abertas de artistas como os britânicos do Temples e a californiana Sky Ferreira. Aliás, esse é outro ponto interessante do Primavera: a conexão com a cidade e seus habitantes. Mesmo com os ingressos longe de serem baratos (a entrada para os três dias saía por 195 euros no último lote), vários shows gratuitos foram realizados durante a semana, trazendo a atenção e o apoio dos locais ao invés de se fechar apenas ao público pagante. Contudo, devido ao cansaço, achei melhor abrir da programação do dia para descansar e aproveitar o melhor o que viria na quinta-feira.

O acesso ao festival pelo metrô de Barcelona é bastante fácil e o trajeto entre lugar onde eu estava hospedado com minha namorada e o Parc Del Fórum, que fica a 150 metros da estação, foi rápido e sem transtornos. Nesse primeiro dia de festival fechado, a entrada foi lenta e um pouco confusa, devido ao grande número de pessoas e o fato de que todos deveriam trocar os ingressos por uma pulseira de acesso que serviria para os demais dias e um cartão, utilizado para acompanhar a programação nos clubes no centro de Barcelona. Porém, nada que tomasse muito tempo ou arruinasse a experiência que mal havia começado.

Quinta-feira – O primeiro encontro. Com Real Estate, Midlake, Warpaint, Neutral Milk Hotel e Arcade Fire

Logo na entrada, em uma barraca do selo londrino Rough Trade, era possível comprar camisetas de bandas e do festival (de 15 a 25 euros), vinis e CDs (de 10 a 35 euros), mochilas com a marca do Primavera (35 euros) e uma infinidade de outros badulaques de boa serventia a quem quisesse levar um pedacinho daquilo tudo pra casa. Em volta da lojinha da Rough Trade outros stands também vendiam camisetas, discos de bandas obscuras, fones de ouvido, pôsteres, etc. A publicidade existia em bastante quantidade, mas não chegava a incomodar pois, geralmente, vinha contextualizada na forma de um palco, de uma atração ou sinalizando um lugar para alimentação.

Já passava das seis da tarde, então, quando nos encaminhamos para conferir o show do hypado Real Estate em um dos palcos principais, debaixo de um forte sol que, a mim, marinheiro de primeira viagem na Europa, causou forte estranhamento pelo horário. Como eu entrego no parágrafo que abre esse texto, a noite só cairia muito depois.

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Real Estate (Foto por Clarissa Wolff/ Catárticos)

Os americanos fizeram um set baseado no seu mais recentemente lançamento, Atlas (2014), à frente de um público bastante grande para o horário. Eu preciso confessar que essa é uma banda com a qual eu não consigo me empolgar muito. Escutei Atlas por diversas vezes e, mesmo sendo um disco muito longe do ruim, não caiu nas minhas graças. É um rock alternativo cheio de influências dos anos 90, com timbres limpinhos e bons riffs de guitarra. No palco, o show se resume à uma reprodução bem feita das gravações de estúdio e está aí o ponto chave: se você gosta das músicas, vai gostar do que for ver e ouvir.

Aqui vale ressaltar que no Primavera havia um esquema interessante nos palcos principais: eles ficavam um de frente para o outro e se alternavam entre o fim de uma atração e começo de outra, com intervalos de 10 a 20 minutos, de forma que quase sempre haveria alguém tocando pela região e era bastante rápido chegar a outro show.

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Midlake (Foto por Clarissa Wolff/ Catárticos)

E o show seguinte seria do Midlake, grupo que lançou um dos meus discos preferidos do ano passado, Antiphon (2013), no outro palco principal. Quando chegamos, ainda havia um público tímido esperando pelo início dos trabalhos, mas à medida que a banda tocava os primeiros acordes, mais e mais pessoas foram chegando nas proximidades. Sorte a delas. Esse era um dos shows que eu mais queria ver e não me decepcionou nem um pouco. Antiphon foi o resultado do trabalho de uma banda que havia acabado de passar por uma grande turbulência que culminou com a saída do seu vocalista e principal compositor, Tim Smith. Eles tiveram que começar tudo do zero e o disco, mesmo assim, é fantástico, principalmente na sua primeira metade e uma excelente pedida pra quem é fã de boas melodias psicodélicas. No palco, seis músicos compunham uma formação com violão, guitarra, bateria, baixo e dois teclados/sintetizadores, o que pode parecer um exagero, mas fazia toda a diferença para recriar as atmosferas e texturas de estúdio. O perfeito som do palco ajudava a fazer com que a combinação dos instrumentos funcionasse como um macio tapete melódico, pronto para abrigar a voz do agora vocalista principal Eric Pulido, que se alternava com a barulheira distorcida vinda da única e solitária guitarra. Sensacional. Os texanos precisam apresentar esse show no Brasil e, se o fizerem, você não deve perdê-lo. Deve, inclusive, ser melhor ainda em um espaço fechado e sem ruídos que não sejam os emanados pelos integrantes, o que obviamente é impossível em um grande festival. Agora sim eu sentia que o Primavera Sound havia, de fato, começado.

A próxima parada era para conferir o novo show das meninas do Warpaint, baseado no disco homônimo lançado esse ano. É um disco de post-punk interessante, apesar de não trazer nada excepcional. Em ação, as quatro integrantes se mostraram musicistas competentes. Com seus cabelos coloridos e sem se esforçar pra manter uma suposta pose cool, por vezes elas deixaram escapar sorrisos e lá pelas tantas algumas delas começaram a se livrar dos casacos que vestiam, acompanhando a subida de temperatura da plateia, que cada vez se animava mais. O sol se punha lentamente ao redor do Mar Mediterrâneo, o que ajudava a compor um cenário digno da beleza de Barcelona, mas um pouco superior ao só legal show que acontecia ali. Em comparação com outra banda com influências post-punk formada apenas por mulheres, o Savages – que se apresentou no último Lollapalooza Brasil -, elas saem bastante em desvantagem. O que não quer dizer que sejam ruins. Tocar ainda entre o Midlake e o Neutral Milk Hotel tornava a tarefa de ser relevante ainda mais árdua, ao ponto de que esse não será exatamente o show que eu irei mais me lembrar daqui a algum tempo.

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Agora era correr para o palco ATP pra pegar o início da apresentação do Neutral Milk Hotel, banda cult dos anos 90 que, depois de anos, se reuniu para uma concorrida turnê. Aqui eu preciso avisar que se você pretende algum dia ir ao Primavera Sound, você tem que estar ciente de que irá andar MUITO. São muitas bandas, muitos palcos e a maioria deles fica bastante longe uns dos outros, ao ponto que as caminhadas do último Lollapalooza Brasil, que causaram certo descontentamento em alguns, são só uma espécie de treino se comparado ao festival espanhol. Mas ainda era o primeiro dia e esse show valia todo o esforço.

Muita gente já aguardava a apresentação e conseguir um lugar no apertado espaço foi tarefa difícil, mas bem recompensada quando a banda apareceu e performou as três partes de King of Carrot Flowers apoiada em um coral uníssono dos presentes. É impossível ter escutado o disco clássico do Neutral Milk Hotel, In the Aeroplane Over the Sea (1998), e não se lembrar do prolongado verso “I love you Jesus Christ” que abre uma das partes de King of Carrot… Eu, que estou longe de ser praticante de alguma religião, não pude evitar em ficar arrepiado. O que se sucedeu depois disso foi um desfile de músicas coerente com o espírito da banda, alternando entre a alegria esquizofrênica e a melancolia doce, que atingiu o seu ápice na cena que eu descrevi no primeiro parágrafo desse texto. Fantástico. Outro show que tem que passar pelo Brasil. E logo.

Neutral Milk Hotel (Foto por Clarissa Wolff/ Catárticos)
Neutral Milk Hotel (Foto por Clarissa Wolff/ Catárticos)

O cansaço já batia forte, mas ainda havia um último show que queríamos conferir no primeiro dia. E enquanto era possível escutar o Queens of the Stone Age no palco ao fundo, fazendo a apresentação que eles trarão ao Brasil no segundo semestre, uma multidão já esperava os canadenses do Arcade Fire. E foi uma multidão, mesmo. Provavelmente o show com o maior público do festival, algumas pessoas com quem conversei posteriormente reclamaram de não ter conseguido ver ou ouvir bem o palco. Esse foi um problema com algum dos shows mais concorridos do festival e é algo que precisa ser repensado pela organização. Eu, por exemplo, não consegui ver o palco no show do Mogwai no último dia, mas para o Arcade Fire, acabei pegando uma boa posição. E o grupo fez basicamente o mesmo show do Lollapalooza Brasil, com apenas algumas adições ao repertório – eles tocaram todas as músicas do show paulista mais “Rococo”, “Keep the Car Running”, “Joan of Arc” e “We Exist”. Entretanto, a animação do público espanhol não chegou nem perto da brasileira. No palco, os integrantes pareciam animados, mas cansados e nada muito especial aconteceu. No fim, foi ótimo, mas sem o tom de novidade do Lolla. Irei ver o Arcade Fire ainda mais uma vez nessa turnê, em Paris, na semana seguinte ao Primavera para saber como eles se comportarão em um show solo e fora de festival.

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Arcade Fire (Foto por Clarissa Wolff/ Catárticos)

Achamos que era a hora de voltar para casa, mas a saída foi um pouco turbulenta nesse primeiro dia. O metrô havia parado à meia-noite (o show do Arcade Fire acabou por volta das duas da manhã) e só reabriria às 05h, as filas para ônibus eram lentas e quilométricas e os taxis eram pouquíssimos e ridiculamente concorridos. Depois de quase duas horas esperando e um bocado de esforço, conseguimos pegar um e nos recompor, na medida do possível, para o que viria no próximo dia. E que dia.

Sexta-feira – O Dia D. Com Slowdive, The National e Jesu

Quem me acompanha pelo Twitter ou pelo meu Facebook pessoal, certamente sabe que The National é uma das minhas bandas preferidas. Talvez A preferida. E o único show a que tinha assistido deles, em 2011 em São Paulo, sempre será lembrado como um dos mais especiais da minha vida. Por isso quando eles foram confirmados como atração principal do Primavera Sound, ao qual já planejávamos ir antes, foi o sinal definitivo para selarmos a viagem.

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(Foto por Clarissa Wolff/ Catárticos)

E o tempo em Barcelona já não era mais tão ensolarado no dia anterior, quando uma forte chuva começou a cair pela cidade. A galera se protegia como dava e nós tivemos que sair correndo para chegar até a área coberta da praça de alimentação. O público era bem menor que na quinta-feira, um pouco pela tempestade, um pouco pelas atrações não serem tão populares, o que fez com que ao chegarmos no palco onde The National e Slowdive se apresentariam, uma hora e meia antes do show dos britânicos, conseguíssemos sem problemas ficar no lugar mais central da grade. No palco oposto, as irmãs do HAIM faziam seu o show sem incomodar ou chamar a atenção de ninguém que estivesse por ali. Tanto que quase nem me lembrei de citá-las no texto.

A reunião do Slowdive corria como rumor já há um bom tempo, mas quando ela se confirmou, não houve um site sério de música que tenha deixado de pelo menos citar o fato. É interessante notar que o Slowdive nunca foi e nunca vai ser um sucesso massivo de público, mas como aconteceu com várias bandas dos anos 80 e 90 que terminaram, voltaram com a pecha de headliners. Mas quem se importa com isso quando a banda é tão boa em disco? Restava saber se ao vivo eles corresponderiam ou era apenas mais uma saudosista turnê caça-níqueis. Digo a vocês, então, que se a turnê de reunião do Slowdive foi feita pelo dinheiro, eles merecem cada centavo que ganharam. O que eu e mais 25 mil pessoas presenciamos ali na nossa frente, no palco Sony, foi uma banda inteira, intensa e com um repertório invejável. Bons músicos e, sobretudo, bons artistas, que conseguiram tornar pequenos clássicos ainda mais poderosos ali. Melodias lindas cravadas em distorções pesadas e asfixiantes capazes de fazer qualquer fã de boa música se encantar. Ouvir minha música preferida deles, “Machine Gun”, algo tão improvável há algum tempo, foi, no mínimo, libertador. A essa altura a chuva já tinha ido embora há tempos, mas o som das guitarras da banda corria como água pelo corpo dos que estavam ali a ponto de ser uma tarefa hercúlea tentar não fechar os olhos e balançar a cabeça no ritmo do som, entregue. Quando a banda avisou que teria que cortar uma música do repertório devido ao tempo – que provavelmente acabou sendo a mais famosa, “Alison” – alguém gritou da plateia o que todo mundo parecia sentir: “FUCK THE PIXIES!” (próxima banda a tocar no palco oposto). Mas não teve jeito, tivemos que nos contentar com “apenas” mais uma música, um cover de uma faixa solo do primeiro líder do Pink Floyd, Syd Barrett, executado numa versão totalmente slowdiviana. De todos os shows que eu já pedi no Brasil nesse texto até agora, esse é o que urge mais acontecer. Alguém, por favor, traga a banda para o nosso país. Se isso se confirmar, com certeza estarei lá novamente. Tinha sido o melhor show do festival até o momento. Disparado. Mas aí veio o The National.

Matt Berninger, The National (Foto por Clarissa Wolff/ Catárticos)
Matt Berninger, The National (Foto por Clarissa Wolff/ Catárticos)

Música é algo subjetivo, pra quem faz ou pra quem ouve, e como qualquer outra manifestação artística, depende tanto de qualidade interpretativa e técnica, como de bagagem emocional e sentimento de pertencimento. Não raro, músicas populares podem emocionar muito mais intensamente que sinfonias clássicas.

Poucas coisas me emocionam mais do que o The National. Posso dizer, com certeza, que eles são uma das grandes razões de eu estar aqui hoje, falando e querendo conhecer cada vez mais sobre música. O impacto pessoal do show deles a que assisti em 2011 foi tão grande que é difícil imaginar como seria minha vida hoje se ele não tivesse acontecido. Por isso, quando eles finalmente entraram no palco e tocaram as primeiras notas de “Don’t Swallow the Cap”, do recente “Trouble Will Find Me” – do qual nem gosto tanto -, eu sabia que algo muito especial estava por vir. E veio. A emoção de você assistir a sua banda preferida no palco é indescritível, quem já passou por isso sabe. E daí pouco importa se a crítica a acha a mais importante, relevante ou o diabo que o valha. Ali, aquela é a melhor banda do mundo. A melhor banda do seu mundo. E isso é mais que suficiente. Pelas quase duas horas em que eles estiveram no palco, ver a loucura intensa e prestes a transbordar de Matt Berninger, as personalidades diferentes dos irmãos gêmeos Bryce e Aaron Dessner e a precisão cirúrgica dos irmãos Devendorf se converterem em música, me lembraram de quem eu era e de que tudo sempre valeu a pena. O poder da música é o poder da vida. E mais uma vez, aquele foi o show da minha vida.

Já tinha sido o melhor dia de música que eu havia tido a chance de presenciar, mas ainda dava para curtir o show do Jesu, que começaria no palco da Vice em uma meia hora. Fomos pra lá e o ar gélido vindo do mar não hesitava em castigar os brasileiros mal vestidos pro frio europeu. O clima, entretanto, era perfeito para o shoegaze obscuro e atmosférico da banda. Em formato de duo, com um baixo e uma guitarra sob bases pré-gravadas, eles tocavam ao passo que imagens macabras em preto e branco iam rolando no telão ao fundo. De dar um frio na espinha. Gostaria de ter visto até o final, mas a fome, o cansaço e o frio fizeram com que tivéssemos que sair antes do término. Agora faltava um dia.

The National (Foto por Clarissa Wolff/ Catárticos)
The National (Foto por Clarissa Wolff/ Catárticos)

Sábado – Adéu, Barcelona! Com Teho Teardo & Blixa Bargeld, Caetano Veloso, Goodspeed You! Black Emperor, Kendrick Lamar, Cloud Nothings e Mogwai

Nesse momento eu já estava completamente apaixonado por Barcelona. Cidade de arquitetura linda, banhada pelo Mar Mediterrâneo e de povo tão simpático e cordial, virou uma piada entre eu e minha namorada virarmos um para o outro em momentos completamente aleatórios e suspirar “I love Barcelona”. Fomos muito felizes quando escolhemos esse pra ser o destino da nossa primeira viagem ao exterior. E era ali o momento de nos despedirmos, pronto para seguir para Paris. E que jeito melhor de se despedir do que com boa música?

Por isso, por volta das sete horas, com o sol brilhando no céu e todo mundo já com cara de cansaço, segui para o Auditório Rockdelux para acompanhar sentado a parceria ítalo-germânica de Teho Teardo & Blixa Bargeld. Teardo é um conhecido compositor italiano de trilhas sonoras e membro fundador da banda noventista Meathead. Bargeld é o líder da seminal banda alemã Einstürzende Neubauten e que já trabalhou com gente do calibre de Nick Cave. Se juntaram ano passado para lançar o ótimo disco Still Smiling (2014), que acabou até na minha lista de 20 melhores do ano. A apresentação era feita com Teardo no baixo, enquanto Bargeld deixava ecoar sua voz grave e angustiante, apoiados por instrumentos de orquestra, como violinos e violoncelos. Foi sombrio e lindo.

Vista do palco onde se apresentava Caetano Veloso (Foto por Clarissa Wolff/ Catárticos)
Vista do palco onde se apresentava Caetano Veloso (Foto por Clarissa Wolff/ Catárticos)

Era a vez, então, de conferir o show do Goodspeed You! Black Emperor, um dos que eu mais queria ver em todo o festival, no palco ATP. Mas como ainda faltava um bom tempo para o início do show, ficamos assistindo à apresentação de Caetano Veloso no palco da marca de óculos. E como estava cheio! E ver aquele monte de gente tentando acompanhar um brasileiro cantando em português em um palco encravado no meio de um cenário paradisíaco, de repente, me despertou uma pontinha de saudades de casa. Que estariam fazendo minha família e meus amigos naquele momento enquanto a milhares de quilômetros de distância eu ouvia o Caetano cantar que o lugar mais frio do Rio era o quarto dele? Mas longe de estar triste, eu estava muito, muito feliz e aparentemente Veloso e sua banda Cê também. Pareciam animados e soando rock’n’roll até nos maiores sambas. Os gringos adoraram.

Já no palco ATP, um som grave e contínuo deixava no ar que logo o Godspeed You! Black Emperor entraria. Esse ano os canadenses completam 20 anos de grupo e mesmo sem serem conhecidos do grande público, já tem um lugar cativo na história da música moderna. Peritos em misturar o post-rock a elementos de música clássica, lançaram alguns dos discos mais poderosos que eu já ouvi. Se você não conhece a banda, faça-o o mais breve possível. Por isso tudo, estava ansioso para ver como eles portariam ao vivo. E a palavra é exatamente aquela dos discos: poderoso. Com quase sempre três guitarras, duas baterias, um violino, um violoncelo e um contrabaixo, as texturas criadas pelo grupo em meio a timbres ruidosos e instrumentos clássicos, acompanhadas de belas melodias transportaram os presentes a um mundo em decadência, mas ainda cheio de esperança, como se as notas mais bonitas fossem flores nascendo dentre os escombros de distorção. Uma hora e meia de catarse completa e um dos melhores shows do festival.

Mas era preciso sair rápido do transe e atravessar o Parc Del Fórum para chegar até a apresentação do rapper Kendrick Lamar, no palco da cerveja, que já havia começado. Sou recebido com o sucesso “Bitch Don’t Kill My Vibe” do já clássico do gênero Good Kid, M.A.A.D City (2012). Bastante cheio, não consigo chegar muito perto do palco, mas dá pra ter uma boa ideia de como é o show do americano. Acompanhado por uma banda bastante rockeira, ele desfila os versos cheio de empáfia e boas rimas sobre as ótimas bases produzidas dos seus discos. Cheio de ginga, era possível olhar pro lado e ver uma porção de gringos duros tentando dançar ao ritmo das batidas graves. Um bom show, apesar de eu, grande fã do disco mais recente, esperar mais. Tenho pra mim que shows de rap e hip-hop não funcionam tão bem em lugares abertos, onde o som facilmente se dispersa. Em um lugar menor deve ser muito mais impactante.

Galera surfando no Cloud Nothings (Foto por Clarissa Wolff/ Catárticos)
Galera surfando no Cloud Nothings (Foto por Clarissa Wolff/ Catárticos)

A noite já engolia todo o local quando eu retirei forças do além para atravessar novamente o Parc Del Fórum em cerca de dez minutos, para pegar a metade final da apresentação do Cloud Nothings. Gosto bastante dos dois últimos discos da banda e ao vivo a energia dos caras é incrível. Quando eu cheguei no palco da Vice já era possível ver uma galera surfando na multidão e se jogando ao som das pauladas que vinham do trio. Não tem muito o que dizer: é rápido, é pesado, é rock e é bom. Esse é um show que deve aparecer no Brasil esse ano e se você tiver a chance, não perca. Vale demais. O vocalista Dylan Baldi também estava se divertindo e antes de anunciar como última música uma versão de mais de 10 minutos de “Wasted Days” foi ao microfone agradecer ao público e sentenciar “This is a cool festival”. Realmente é.

Dylan, Cloud Nothings (Foto por Clarissa Wolff/ Catárticos)
Dylan, Cloud Nothings (Foto por Clarissa Wolff/ Catárticos)

Restava para nós o show do Mogwai, em um palco tão abarrotado de gente que eu não conseguia vê-lo de onde eu estava, apenas ouvi-lo. Vi o Mogwai em 2012 na versão brasileira do Sónar e o show foi espetacular. O do Primavera Sound soava ainda melhor. Não haveria jeito melhor, pra mim,de terminar aquele primeiro Primavera Sound. Quando começaram os primeiros acordes de “Rano Pano” eu virei pra minha namorada e disse que adorava aquela música, que seria uma perfeita para ouvir enquanto caminhávamos em direção à saída. E assim nos despedimos daquele festival, com uma dorzinha no coração, mas satisfeitos com o que havíamos vivido.

Aos sábados o metrô de Barcelona funciona ininterruptamente e voltamos pra casa de forma tranquila. Ano que vem o Primavera Sound completa 15 anos e acontecerá nos dias 28, 29 e 30 de maio. Esperamos poder voltar e curtir a festa de debutante do festival.

I love Barcelona.

Meus 5 shows preferidos do festival ficam assim:

1 – The National

2 – Slowdive

3 – Goodspeed You! Black Emperor

4 – Midlake

5 – Arcade Fire

ENTREVISTA EXCLUSIVA: Bryce Dessner, do The National, fala sobre música clássica, parceria com guitarrista do Radiohead e futuro da banda

Quando se fala em Bryce Dessner, é impossível não pensar automaticamente em The National. Contudo, o membro fundador, guitarrista e compositor da banda norte-americana tem muito mais a oferecer do que “apenas” as excelentes melodias e energia que  transbordam da sua guitarra e compõe o som característico e único do quinteto de Ohio. Bryce é, também, um dos expoentes de uma nova geração de compositores de música clássica e acaba de lançar no último mês seu segundo trabalho solo, St. Carolyn By The Sea, em um disco dividido com outro músico que transita entre o rock e o clássico: Jonny Greenwood, guitarrista do Radiohead.

Composto de três peças, cada uma com cerca de 15 minutos de duração, St. Carolyn dá continuidade ao primeiro trabalho do músico, Aheym, lançado no ano passado e feito em parceria com o Kronos Quartet. É um registro sensível, mas pouco provável apenas para os mais desatentos. Dessner estuda música clássica desde a adolescência, tem um mestrado na área pela Universidade de Yale, fundou seu próprio festival de compositores contemporâneos e hoje é residente em Eindhoven na Holanda.

Por telefone, de Chicago, ele conversou comigo na semana passada sobre seu novo lançamento, como é viver entre dois mundos, seus planos para o futuro e claro, The National.

Confira:

St. Carolyn By the Sea é um split (disco que contém canções de dois artistas diferentes gravadas de maneira individual) com Suit From “There Will Be Blood” (título original do filme Sangue Negro) do Jonny Greenwood, guitarrista do Radiohead. Como isso aconteceu? Como você conhece o Jonny?

Na verdade foi por meio do Andre De Ridder, um maestro alemão. Ele trabalha bastante comigo e com o Jonny, então daí a conexão.

Jonny tem trabalhado bastante fazendo a trilha dos filmes do diretor norte-americano Paul Thomas Anderson ultimamente. Você gostaria de trabalhar com um diretor de cinema? Quem?

Na verdade, eu já compus algumas trilhas pra cinema, e é maravilhoso o que o Jonny faz, porque ali ele tem uma relação maravilhosa na qual ele pode escrever o tipo de música que ele preferir. Então sim, eu adoraria trabalhar em um filme maior, trabalhar com alguém como o (cineasta alemão) Werner Herzog, seria um sonho fazer a trilha de algum documentário dele.

Lembro-me de ter lido algo sobre a relação entre The National e Herzog, ele trabalhou com a banda ou é só um fã?

Sim, ele é um fã, vai a um monte de shows nossos, mas ainda não trabalhamos juntos.

Você toca em uma banda de rock e também compõe música clássica. Como isso funciona pra você? Eu sei que você se considera um compositor clássico antes de um guitarrista de rock, certo?

Eu toco música clássica desde o ensino médio, minha bagagem musical é mais clássica, mas eu toco em bandas de rock desde que eu era um moleque com meu irmão, então é como se fosse minha família, é essencial também. Em uma banda eu sou, na maioria da vezes, um guitarrista, e, quando se trata de música clássica, eu componho todos os instrumentos. De alguma forma são apenas lados diferentes de mim, mas não importa, eu sou sempre a mesma pessoa e não penso neles (música clássica e rock) de forma separada, são só partes de quem eu sou.

As composições clássicas e de rock vêm do mesmo lugar? Como é o processo pra cada uma delas? Porque no Mistaken for Strangers (documentário desse ano sobre o The National), você diz que a parte mais difícil de compor uma música pra banda é ter uma ideia. Funciona assim também com as composições clássicas?

Sim, eu diria que é mais difícil ainda com as composições clássicas, porque é difícil pra mim escrever música instrumental que não tenha uma inspiração por trás, ou mesmo uma ideia, especialmente sendo pra uma orquestra grande, em um trabalho que terá 15 ou 20 minutos de duração. Ajuda muito ter inspiração, as duas, musical e não musical. Pra mim, eu costumo frequentemente tirar inspiração da literatura, St. Carolyn By The Sea, por exemplo, foi inspirada em um romance homônimo do Jack Kerouac, e a segunda composição do split, Lachrimae, é baseada em uma peça musical do período renascentista. Mas falando sobre de onde a música vem, eu costumo fazer uma comparação com um escritor que escreve poesia e também romance. Você é a mesma pessoa, mas a forma é diferente e o jeito que você desenvolve ideias e o jeito que você executa ideias também são, e é desse jeito que funciona pra mim.

Sobre referências você cita Bela Bartók, Steve Reich, Glenn Branca, Philip Glass e outros que inspiram seu trabalho. Mas dentro da sua geração de compositores, quem são suas inspirações?

Por “minha geração” você quer dizer músicas que tenham a minha idade?

Isso.

Eu sou parte de um grupo de músicos que colaboram bastante entre si. Meu irmão (Aaron Dessner, também do The National) e eu trabalhamos bastante juntos. Nico Muhly é um amigo com quem que trabalho muito e também é um compositor, nós nos inspiramos mutuamente… eu acho que existem alguns aspectos da orquestração… ele é muito bom escrevendo pra grandes orquestras, aprendi demais com ele. Sufjan Stevens é um dos meus amigos mais próximos e ele é compositor brilhante, inacreditavelmente criativo, ótimo pra se ter perto e trabalhar junto. Na maioria do tempo são meus amigos que me inspiram. Richard Reed Parry é como eu e Jonny, está em uma banda de rock, ele faz parte do Arcade Fire e compõe bastante música conceitual.

E tirando seu irmão, Jonny e Richard, quais guitarrista de bandas de rock você admira?

Stephen Malkmus do Pavement sempre foi um dos meus favoritos. Ira (Kaplan) do Yo La Tengo também, Lee Ranaldo do Sonic Youth. Adoro alguns violonistas também, tipo o John Fahey, ninguém conseguia tocar como ele e foi um dos grandes motivos de eu começar na música clássica.                                                                                            bryce national

Seu primeiro trabalho solo, Aheym (2013), significa “aquele que se dirige pra casa” em ídiche. Pra você, a música clássica é como sua casa?

Eu realmente sinto como se fosse minha casa… é verdade, faz sentido isso. É meio que onde eu cresci, mas aquela música específica (que dá nome ao disco) foi inspirada nas histórias que minha avó, uma imigrante judia russa, contava. Foi escrita baseada nessa ideia de jornada pra casa, uma jornada musical pra ela. 

Você fundou seu próprio festival, o MusicNOW, na sua terra natal (Cincinnati, Ohio). Como a experiência tem sido pra você?

Eu amo. Ele foi concebido como um festival bastante íntimo e orgânico, bem ao contrário dos grandes festivais de rock. É tudo voluntário e são pequenas plateias, não chegam a 3000 pessoas, com muita música clássica contemporânea. Aparecem compositores, muitos amigos. É um ponto maravilhosamente alto do meu ano e ano que vem vai ser a décima edição, tem sido uma jornada ótima. Um grande lugar pra tentar coisas novas, na cidade pequena onde eu cresci, e, de alguma maneira, só funcionaria ali. Não funcionaria em uma cidade grande como Nova York, onde coisas desse tipo não são especiais, acontecem toda noite. Aqui é um elemento muito especial.

Você e seu irmão (Aaron Dessner, também do The National) parecem bons amigos. Provavelmente já te perguntaram sobre isso um milhão de vezes, mas como é trabalhar com ele? Eu sinto que tem uma energia muito legal entre vocês e ele também participou em St. Carolyn By The Sea.

É ótimo, nós somos gêmeos e pra irmãos trabalhando o tempo todo juntos nós nos damos muito bem. Ele não é um músico com treinamento clássico, ele não tem o interesse artístico que eu tenho nesse tipo de música, mas ele é muito talentoso, então ele consegue levar bem, basicamente ensino ele de ouvido. A faixa que ele toca comigo, eu escrevi especificamente pro estilo que ele toca, então é interessante porque aquilo foi feito já pensando nele. Ele é um grande compositor e produtor e é muito bom em estúdio. Nós temos habilidades diferentes, ele costuma ficar bastante envolvido com a produção do disco, enquanto eu faço a orquestração. Nós sempre brincamos que individualmente nós não somos tão bons, mas juntos somos impressionantes.

Você ainda está trabalhando com o Clogs (banda instrumental formada no começo dos anos 2000 e que lançou cinco discos)? Algum plano pro futuro?

Não temos trabalhado muito porque estamos vivendo em cidades diferentes agora. Nós trabalhamos juntos por dez anos e lançamos cinco discos, mas é bom ver que cada um seguiu seu caminho e foi um belo projeto, mas agora eu estou mais interessado em escrever minha própria música e no trabalho com o National.

Algumas bandas, como o Godspeed You! Black Emperor, misturam música clássica e rock. Você poderia fazer algo assim no futuro?

Eu acho que não, porque eu já toco em uma banda de rock e não sinto a necessidade de misturar as coisas desse jeito. Mas eles são uma banda interessante, tem algo muito bom acontecendo com eles, algo meio punk, com uma mensagem política. Mas eu acho que no meu caso é muito saudável o que eu tenho. Acho que existem muitos músicos clássicos que são roqueiros frustrados, mas eu não preciso disso, deixo a música clássica seguir sua própria trilha.

Trouble Will Find Me (2013) foi o sexto disco de estúdio com National e vocês foram uma banda média por um bom tempo, mas agora finalmente são headliners em grandes festivais pelo mundo. Qual a sensação?

É maravilhosa. Levou um bom tempo pra chegar onde estamos, mas também aprendemos a ser melhor como banda ao vivo, então até chegarmos nesse nível, tivemos bastante tempo pra crescer. Com algumas bandas tudo acontece muito rápido, enquanto são jovens. Nós meio que sabemos o que estamos fazemos, sabemos como fazer um show e tudo isso chegou na hora certa. Agora vamos tocar em vários festivais, como o Primavera Sound, que é ótimo, e é realmente divertido pra gente.

Você parece tão animado com seus trabalhos recentes e o The National está tocando junto já há mais de 15 anos. Você acha que o final está próximo?

Você nunca sabe, uma banda é algo frágil. Eu acho que a razão pela qual as bandas acabam é porque é difícil manter a química e todas as boas bandas de rock são sobre química. Então, no nosso caso, eu não sei, eu acho que provavelmente vamos fazer mais um disco, e nós queremos que o próximo disco seja bastante diferente, então vai ter um elemento de despedida, mas vamos continuar fazendo isso enquanto nos dermos bem e a música for boa. Quando a música estiver ficando ruim, com certeza vamos parar.

Li que você gosta de futebol, devia aparecer pra Copa!

Sim, a gente adora, eu e meu irmão crescemos jogando, ele está mais por dentro que eu, mas gostamos muito.

Você pretende apresentar suas composições clássica fora dos EUA e Europa? Alguma chance de rolar no Brasil?

Eu adoraria, não fui convidado, mas estou indo pro México esse ano. Se acontecer, eu vou adorar, mas ainda não aconteceu nenhum convite.

E podemos esperar o The National no Brasil nessa turnê? Você sabe algo sobre isso?

Talvez. Não temos certeza ainda. Tiveram algumas conversas sobre isso no outono (do hemisfério norte, primavera aqui), mas não tenho certeza se resolveram isso, se acertarem as datas, mas espero que aconteça. Adoraríamos ir ao Brasil, é tão divertido.

 

Assista ao making of de St. Carolyn By The Sea:

(Os melhores) Vídeos da Semana – a partir de 12/08/2013

alex band guy

Clipes perderam a importância que tinham antigamente? Tocar na TV ainda atrai novos públicos? São perguntas difíceis de responder. Mas ainda é produzida muita coisa interessante e que vale a pena. Se você não conhece algo, é a oportunidade. Então saca os (melhores) vídeos dessa semana:

O The National rodou a TV americana nessa semana pra divulgar ainda mais o bom novo disco da banda, Trouble Will Find Me. Veja a performance pra This Is The Last Time no Conan e Graceless no Jimmy Kimmel.

The National em Milão: a emoção que só sua banda preferida consegue causar.

national milao 3

Não é preciso falar as oportunidades que a Europa te oferece. Uma delas é a grande oferta de shows e festivais de qualidade. Mariana Di Pilla, amiga pessoal e do blog, jornalista meio italiana-meio brasileira passa temporada na Itália e aceitou o convite de escrever sobre os shows que ia acompanhar por lá. E essa mini-turnê começou muito bem com o show do The National em Milão no dia 1º de julho. Confira o relato abaixo e aguarde ansiosamente a passagem da banda por aqui no primeiro semestre de 2013.

The National em Milão por Mariana Di Pilla

O cenário não poderia ser mais incrível: Milão, a cidade onde vivi e que tanto amo. Um dia de verão, três antes do meu aniversário e a companhia do meu namorado, que tem The National como uma de suas bandas prediletas. Como uma boa e grande fã antes de um show, eu já não só tinha pesquisado o setlist possível que seria cantado, como feito um playlist no meu iTunes e ouvido inúmeras vezes para preparar o coração. A apresentação da banda não só atendeu, como superou as minhas expectativas.

National Milão 2 (2)
Foto por Mariana di Pilla

Fato é: para minha vida nada estará acima das letras sofridas de High Violet, mas a ansiedade para ver ao vivo as músicas de Trouble Will Find Me, o último lançamento deles, já era suficiente para me deixar empolgada.

O nervoso de Matt era visível da terceira fileira de pessoas, onde estávamos assistindo ao show. Que iniciou, digamos, um pouco duro, sem tanta emoção – foi assim que eles cantaram as primeiras músicas, I Should Live In Salt e Don’t Swallow The Cap. A banda começou a se soltar na terceira, Bloodbuzz Ohio. Foi neste momento que os italianos, geralmente tímidos e contidos em shows (morei aqui e fui a muitos), começaram a cantar com eles. Nós também.

National Milão 1
Foto por Mariana di Pilla

Daí pra frente, a apresentação começou a ficar mais forte no sentido emocional. The National tocou empolgado ao ver a passagem do dia para a noite – o show começou pontualmente às 21h30, quando o sol ainda dava as caras na cidade. O highlight antes do encore ficou por conta de Conversation 16, I Need My Girl, England e Graceless, músicas que pelo visto eles amam tocar, posto que era visível a empolgação do grupo.

Após 19 canções, a banda sai para depois voltar para o bis, que geralmente tem mais quatro doses de emoções. Eles retornam ao palco e eis que Aaron, meu favorito, anuncia Runaway. Segundo meu perfil na Last.fm, ela foi ouvida 225 vezes, número representativo e, sem dúvida, a letra mais emocionante, na minha opinião. Chorei como criança a cada estrofe pelas palavras e pelo fato de que eles não a haviam praticamente tocado em nenhuma das apresentações desta turnê. Me senti especial e satisfeita, sem saber que mais “coração na boca” ainda estava por vir.

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Fãs de The National sabem bem que quando Matt canta Mr. November ele pula no palco. Estávamos do lado direito e deixamos a cargo da sorte ter a companhia dele ou não. Berninger pulou longe, andou por fora da plateia. E voltou. Voltou para o nosso lado, subiu na grade e se jogou na galera. Seu corpo passou pelas minhas mãos. Eu não acreditava no que estava vendo e sentindo, mas era tudo verdade ali, em cima de nós.

Esta é a terceira apresentação que vejo do National. Na primeira, em Milão no ano de 2010, durante a turnê de High Violet, senti um aperto forte por estar sozinha no local, sentindo na minha vida praticamente tudo o que estava sendo cantado no momento. Na segunda, em 2011 durante a turnê por São Paulo, conheci toda a banda com exceção de Matt, que tinha voltado pro hotel. Esta, a terceira, foi sem dúvida a mais f**** de todas. Pegar Matt no colo, ouvir Runaway inesperadamente e ter ao lado a companhia mais incrível possível para aquele momento deixa qualquer outro sentimento no chinelo.

Faltou só cantar Mistaken For Strangers, música cuja letra está tatuada na minha pele, mas outras apresentacões virão, e com certeza reservarão surpresas inesquecíveis.

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Setlist (via setlist.fm)

I Should Live In Salt
Don’t Swallow the Cap
Bloodbuzz Ohio
Secret Meeting
Sea of Love
Demons
Afraid of Everyone
Conversation 16
Squalor Victoria
I Need My Girl
This is the Last Time
All the Wine
Abel
Apartment Story
Pink Rabbits
England
Graceless
About Today
Fake Empire

Encore:
Runaway
Humiliation
Mr. November
Terrible Love
Vanderlyle Crybaby Geeks
(acoustic)

 

Mariana Di Pilla é jornalista e blogueira da Marie Claire, inventa e escreve sobre moda e ainda prometeu falar sobre o show do Atoms for Peace que vai acompanhar na Europa.

(Os melhores) Vídeos da semana – a partir de 10/06/2013

Musician McCartney performs during the "12-12-12" benefit concert for victims of Superstorm Sandy at Madison Square Garden in New York

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O duo Disclosure, que tem sido insistentemente apontado como a coisa mais promissora a surgir recentemente na música eletrônica, foi ao Jools Holland junto de Jessie Ware pra apresentar uma música do disco de estreia da banda, Settle.

Os Rolling Stones convidaram Win Butler, líder do Arcade Fire, pra subir ao palco e cantar This is Last Time em um show. Encontraço.

O The National continua na batalha pra divulgar seu novo disco, Trouble Will Find Me, e fez uma sessão acústica com 4 músicas no quartel general da NPR. Obrigtório.

O Black Sabbath voltou depois de décadas com disco novo, mas ainda não sabe se Deus está morto. Veja o clipe de God is Dead?

Paul McCartney será headliner do festival Bonaroo que acontecerá esses dias nos EUA e foi ao programa do Colbert pra tocar algumas músicas e dar entrevista. Abaixo, uma música dos Beatles que nunca tinha sido tocada ao vivo antes dessa turnê, In the Benefit of Mr. Kite.

Não é um vídeo oficial, mas circulou essa semana na internet versões do super hit do Daft Punk, Get Lucky, adaptadas a décadas, de 1920 a 2020. Vale a pena ver.

Mumford and Sons e Elvis Costello homenagearam Bruce Springsteen e Woody Guthrie. Só.

As meninas do Haim foram ao Letterman e mostraram todo o gingado pra divulgar o EP delas. Vejam.

(Os melhores) Vídeos da semana – a partir de 03/06/2013

atoms for peace unkle

Clipes perderam a importância que tinham antigamente? Tocar na TV ainda atrai novos públicos? São perguntas difíceis de responder. Mas ainda é produzida muita coisa interessante e que vale a pena. Se você não conhece algo, é a oportunidade. Então saca os (melhores) vídeos dessa semana:

O Atoms for Peace de Thom Yorke, Nigel Godrich e Flea está pronto pra começar uma turnê mundial que as más línguas dão conta de que pode passar pelo Brasil e divulgaram o vídeo de um ensaio onde Yorke canta ao piano “Rabbit in your headlights” do UNKLE.

Um banquinho, um violão: 20 bandas fazem versões acústicas

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Guitarra cheia de distorção, baixo lá no alto e porrada na bateria. Não tem como negar que música assim é demais. Mas às vezes, um violão ou um piano tem o poder de acrescentar uma atmosfera tão única em algumas músicas, que é impossível não adorar uma versão acústica. Poder ser uma produção profissional ou algo mais íntimo e casual, mas é sempre legal ter conhecimento. Pra dias mais calmos, pra ocasiões mais suaves, algumas boas opções abaixo:

Radiohead – How to Disappear Completely

Parcerias: 15 bandas recebem convidados muito especiais no palco

Damon-Albarn-Noel-Gallagher-Graham-Coxon

No último final de semana, no maravilhoso festival espanhol Primavera Sound, o show do Jesus & Mary Chain contou com uma agradável surpresa: Bilinda Butcher, a voz suave por trás de toda a distorção do My Bloody Valentine, subiu ao palco e cantou junto à banda o clássico Just Like Honey. Não incomum, bandas recebem outros músicos pra subir ao palco e fazer versões muito especiais de algumas músicas. Abaixo, 15 desses encontros:

1. Jesus & Mary Chain recebe Bilinda Butcher (My Bloody Valentine)

(Os melhores) Vídeos da semana – a partir de 20/05/2013

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Clipes perderam a importância que tinham antigamente? Tocar na TV ainda atrai novos públicos? São perguntas difíceis de responder. Mas ainda é produzida muita coisa interessante e que vale a pena. Se você não conhece algo, é a oportunidade. Então saca os (melhores) vídeos dessa semana:

O badalado Kanye west foi ao Saturday Night Live e apresentou pela primeira vez Black Skinhead, canção que deve estar no seu próimo disco, Yeezus.

Versões: 20 covers de bandas que você ama feitos por bandas que você ama

boa festa

Cada boa banda tem seu estilo próprio. Estilo que elas acabam imprimindo mesmo ao tocar canções de outro grupo. A seguir, 20 covers de bandas pra músicas de outros grupos  clássicos ou no mínimo bastante conhecidos. Aproveite e diga nos comentários os seus preferidos e indique outros que acha que deveriam entrar na lista,