The Vaccines em São Paulo: Peter Pan tinha razão

Foto por Clarissa Wolff/Indie da Deprê
Foto por Clarissa Wolff/Indie da Deprê

“Quando me perguntam pelo mundo todo qual meu lugar preferido para tocar, sempre digo Brasil”. Com essas palavras no bis, Justin Young, vocalista do The Vaccines, resumiu o sentimento da banda na noite do último sábado em show no centro de São Paulo, pouco mais de um ano depois de terem tocado a primeira vez por aqui. Sentimento que foi inteiramente compartilhado pelo público na cerca de hora e meia em que os ingleses se apresentaram.

Uma das gratas surpresas foi o local escolhido, o Grand Metrópole, espaço situado no bairro da República e de fácil acesso por meio de transporte público. O funcionamento 24h do metrô paulistano, em virtude da Virada Cultural, contribuiu para o retorno dos cidadãos às suas casas e espera-se que os produtores continuem possibilitando a utilização das estações no futuro, evitando espetáculos que terminem em um horário no qual não seja mais possível desfrutar de tamanho trunfo. Além da facilidade logística, a casa também se destacou pelos aspectos estruturais: bem organizada, com bares de fácil acesso, decoração de ótimo gosto e, principalmente, som impecável, alto e nítido. Tudo isso faz com que o lugar sirva como excelente opção pra abrigar shows dentro da capital paulista.

A abertura dos trabalhos ficou a cargo da Inky, prata da casa e de estilo bastante diferente da atração principal. As músicas, compostas em grande parte de longas passagem instrumentais guiadas por sintetizadores, contra todas as possibilidades não soavam maçantes. Os paulistanos foram outra boa surpresa e cumpriram bem seu papel, mesmo enfrentando uma plateia em grande parte dispersa. Foram os responsáveis por abrir os shows da última turnê do LCD Soundsystem em solo brasileiro e desde então têm lançado material interessante. Merecem atenção.

Contudo, os Vaccines eram as estrelas da noite. E todo o funcionamento deles gira em torno de uma palavra: juventude. É dessas ironias mais brilhantes que o sobrenome do líder do grupo seja Young (jovem). A boa plateia que preenchia confortavelmente o local era maciçamente composta por pessoas entre 18 e 25 anos, todos com o aspecto de que tinham acabado de sair das aulas de alguma faculdade cheia de outros indivíduos da mesma idade. Foi a energia deles que deu todo o tom do show. Quando a banda subiu ao palco e começaram os primeiros acordes de No Hope, o clichê máximo de resenhas, “público indo ao delírio”, fazia todo o sentido. Jovens cantavam a plenos pulmões a maioria das letras sem se abalar. Aquele momento era tudo pra eles.

Foto por Clarissa Wolff/Indie da Deprê
Foto por Clarissa Wolff/Indie da Deprê

Entrosados, os integrantes pareciam se divertir e davam tudo de si, destaque para o bateirista que chegou a fazer (bons) solos nos intervalos enrte as canções. Até a nova Melody Calling, com um violão pouco usual para os padrões da banda, foi bem recebida. As músicas do primeiro disco eram as que empolgavam mais e o destaque vai pra dobradinha Post Break-up Sex/All in White, seguida por Wolf Pack e A Lack of Understanding. Não houve quem resistisse a, no mínimo, cantarolar as letras, gritadas em coro pelos presentes.

A banda e presentes seguiram em bom ritmo e como se tivessem passado apenas 10 minutos do início, o Vaccines encerrou a primeira parte do show com a ainda mais acelerada If You Wanna, a qual foi sucedida por Family Friend. Os músicos deixaram o palco sob fortes aplausos.

Contudo, o público continuava sedento e eles logo voltaram para o bis com a bela Weirdo, seguida com pouca conversa para Teenage Icon, hit do segundo disco, Come of Age, do ano passado. Noutra música de levada veloz, tratam de bradar que não são ícones adolescentes, que não são heróis de ninguém, contradizendo exatamente o que se via ali: uma plateia entregue e que alçava uma banda tão nova ao status de ídolos, chegando ao ponto de brigarem por toalhas empapadas de suor que foram atiradas pelos integrantes. O final veio com Norgaard, música com-menos-de-dois-minutos-quase-punk de What Did You Expected from the Vaccines, disco de estreia, do ainda fresco 2011 e, que surpresa, cantada em uníssono.

No final, o saldo do show foi bastante positivo e o grupo mostrou que é ainda melhor ao vivo do que em disco. Banda e presentes tiveram o que esperavam e todos saíram satisfeitos com a apresentação. Como diz o refrão da canção que abriu o show e dá nome ao segundo disco dos britânicos “it’s hard to come of age” (é difícil virar adulto) e nos shows do Vaccines é melhor que seja assim. Vale a lógica de Peter Pan: crescer não ajuda em nada. As músicas do grupo provavelmente não vão mudar o mundo, mas isso algum dia foi importante pro rock?

Foto por Clarissa Wolff/Indie da Deprê
Foto por Clarissa Wolff/Indie da Deprê

Setlist:

1. No Hope
2. Wreckin’ Bar (Ra Ra Ra)
3. Ghost Town
4. I Always Knew
5. Wetsuit
6. Under Your Thumb
7. Tiger Blood
8. Melody Calling
9. All in Vain
10. Post Break-Up Sex
11. All in White
12. Wolf Pack
13. A Lack of Understanding
14. Aftershave Ocean
15. Blow It Up
16. Bad Mood
17. If You Wanna
18. Family Friend

Encore:
19. Weirdo
20. Teenage Icon
21. Nørgaard

 

MIXTAPE DEPREDANDO #2

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Sexta é dia de mixtape por aqui! Músicas estranhas, feitas por uma pessoa estranha para pessoas estranhas. Tem coisa nova do Queens of the Stone Age, bandas mais obscuras e coisas de outras décadas. Cat Power, Vaccines, Explosions in the Sky e Brendan Benson tocam no Brasil nessa semana e aparecem também por aqui. Então, é só dar play e se divertir, escutando grandes bandas e fazendo boas descobertas.

 

MIXTAPE DEPREDANDO #2 by João Vitor Medeiros on GroovesharkQuer sugerir uma música pra próxima mixtape? Mande no twitter pra @indiedadepre.