Cat Marnell tem 7 vidas: viaje por elas em “How To Murder Your Life”

Cat Marnell é a princesa e a bruxa má da própria história. Bem nascida – com isso quero dizer que a conta bancária do papai e da mamãe nunca foram um problema – ela passou por veículos como Vanity Fair, Teen Vogue, Glamour, Lucky, xoJane, VICE. Até abandonar tudo por um amor abusivo e não correspondido: a anfetamina.

A primeira vez que li um texto da Cat Marnell foi em 2012. Drogadinha, loira, insone e deprimida, não teve como não me identificar (eu sei, eu sei, minha vida não era das melhores no começo da década de 2010). Mas mais que isso, ela é é inteligentíssima, com um senso de humor afiado e capaz de falar sobre beleza e cosméticos como ninguém. E, no último dia do primeiro mês de 2017, ela lançou seu livro de memórias, em que mergulha fundo no mundo de viagens de primeira classe e festas VIPs com crack, heroína ou anfetamina na sua Lanvin de três mil dólares.

Cat Marnell descreve a própria história como uma guerra constante entre seu vício e sua ambição, em que, infelizmente, na maior parte das vezes o vício saiu ganhando. Em versão rapidinha pra vocês: começou com Ritalina na adolescência e escalou pra remédios mais fortes, como Adderal (medicamento à base de anfetamina que não é vendido no Brasil). Logo ela estava “fazendo compras em consultórios médicos”: consultando com vários psiquiatras, pedindo diversas receitas, e acumulando duas, três, quatro vezes a dose que deveria tomar. Aliás, acumular é a palavra errada: os comprimidos acabavam rapidinho. Cocaína era a cerejinha do bolo em dias de festas, e logo crack e heroína passaram a fazer parte da rotina social. PCP foi amor à primeira viagem. E depois, sozinha, insone, mergulhou em Ambien e benzodiazepínicos como Xanax pra poder dormir.

Com 34 anos, ela admite que é fácil olhar pra trás e perceber que era viciada em drogas – e, como tal, egoísta, injusta, mentirosa e manipuladora. Não dá pra fugir do estereótipo. Mas, uma década antes, no meio dos seus 20 e poucos, ela se via completamente perdida e sem nenhuma perspectiva do que estava acontecendo. Morreu e reviveu várias vezes, se reinventando depois de várias passadas por rehabs e internações psiquiátricas, sempre recaindo depois (porque, pra quem é viciado, o gosto horrível do remédio é melhor do que o de macarons Ladurée). Por isso é tão importante escrever: como a epígrafe deixa claro, o livro é pra todas as garotas que vivem a vida na pista de dança.

Mas aquele arco sempre presente em memórias sobre vício de recaída-recuperação não acontece aqui. Ela termina o livro com uma caixa de Adderal na mesa, longe do NA. Usando de forma controlada, por enquanto, sob o risco de tudo explodir de novo. Mas ela sabe muito bem disso.

Em tudo Cat Marnell é diferente. No tom sincero, cru, e cheio de piadas controversas (a minha favorita já virou bio no Facebook: “como a loira louquinha e drogada atravessou a floresta? Com suas psico-patas!”) que inundavam suas reportagens pros veículos em que trabalhou. Na forma de lidar com assuntos pesados: ela queria que o livro tivesse a voz de uma coluna de fofocas de celebridade. E na forma de lidar com as fraquezas: ela expõe, à flor da pele, tudo aquilo que tanta gente esconderia assustada. Ela sabe que o silêncio é poderoso, assim como sabe usar a sociedade do espetáculo a seu favor.

Do fim do livro até agora, ela já perdeu o cabelo (e pensar que quando ela falou que seria a Britney careca do mundo literário isso nem tinha acontecido…), prometeu um novo livro e escreveu mais algumas matérias no xoJane, em que, como sempre, no meio de dicas dos melhores produtos pra cabelo, ela reflete sobre a solidão, sobre os impulsos de morte e sobre… bom, sobre a melhor forma de ficar bronzeada o ano inteiro. Também é importante, né?

 

“O Sonho de Greta”: tudo que o Wes Anderson queria ser mas não é

É, eu não gosto de Wes Anderson. Esteticamente lindo, dolorosamente superficial. Assistir a um filme dele é como cair numa página de Tumblr de um adolescente que acredita ter as maiores dores do mundo porque a menina que ele gosta considera ele apenas um amigo.

Mas eu não sou crítica de cinema – essa é só a minha amadoríssima opinião.

O premiado “O Sonho de Greta”, estreia da australiana Rosemary Myers, é tudo que Wes Anderson queria ser: lindo, profundo, carregado de piadas internas e cheio de metáforas. O jornal The Guardian definiu o filme como uma história sensorial sobre o começo da adolescência que é o equivalente cinematográfico de cafeína misturada com LSD e confeitado em um bolo de aniversário.

Dos detalhes engraçadinhos – o cenário como indicativo de mudanças de tempo, a festa de aniversário da protagonista acontecendo no dia 31 de Fevereiro – até a estética retro e a quebra constante da quarta barreira: tudo contribui pra história e está lá com uma função. Nada é gratuito. A atuação é maravilhosa, a escolha das máscaras feitas à mão (no lugar de possíveis efeitos especiais) é genial e a mensagem do filme é clara: crescer não é fácil.

Bullying, a dificuldade de fazer amigos (é impressionante como isso parece caso de vida ou morte na infância e adolescência), a necessidade de ser aceito, os impulsos românticos, a confusão emocional, o se desfazer da criança e aceitar uma fase diferente da vida, a dinâmica familiar, e principalmente: o medo de crescer. Todos os dramas dessa época estão retratados com delicadeza e de forma certeira.

O filme é doce, engraçado e reconta um momento da vida de todo mundo de forma fresca e original – mesmo com as comparações com Wes Anderson, que são óbvias no cinema e, fora dele, encontradas em todas as resenhas. Mas o filme não é o que se espera se caímos nessa comparação: ele vai muito além, mergulhando em surrealismo, boas metáforas, diálogos inteligentes e uma hora e meia muito gostosas.

O poder do erro – e sim, esse é um post meio auto-ajuda feito por causa de uma Ted Talk

Por muitos anos, minha terapia era sempre feita de madrugada e com a minha melhor amiga, Amanda. Víamos o sol nascer juntas – ela de Osasco, eu de Porto Alegre – depois de ficar discutindo todas as angústias que, como duas adolescentes deprimidas, nós compartilhávamos. Eu ainda lembro de uma vez em que ela me disse que precisava lembrar constantemente que não tinha problema errar. Aquilo mudou minha vida.

Eu, assim como ela, tinha o perfil bastante A. Melhor da turma na escola, monitora de matérias, presidente do Grêmio Estudantil. Com 15 anos já queria trabalhar e saber como era. Assim que entrei na faculdade, me inscrevia em pelo menos três cursos de extensão com duração de um semestre – e vivia na faculdade todas as manhãs e pelo menos três tardes por semana.

Eu cresci ouvindo que era um prodígio. Aprendei a falar cedo. Com cinco anos, lia e escrevia. Meu vocabulário sempre chamava atenção onde quer que meus pais me levassem, e até hoje escuto história em que protagonizo usando palavras surpreendentes pra uma criança. A vida toda, eu aprendi a vencer, a ser perfeita, a responder às expectativas dos adultos.

Em nenhum momento eu aprendi a errar.

Aceitar o erro foi algo que aprendi com a vida, com muito custo, choro e raiva. (E com a Amanda.)

Só que eu sempre pensei que isso fosse coisa de millennials. Bom, isso é porque cresci achando que era diferentona. Isso é porque fui primeira filha, neta, sobrinha, e todo mundo me amou demais. Isso é porque na escola todos os professores colocavam responsabilidades demais nos meus ombrinhos magricelas. Só hoje percebi que isso tudo pode ser um pouco verdade, mas a verdade maior é que isso é porque sou mulher.

Trago dois exemplos do vídeo: no primeiro, ela traz o dado de que homens costumam se candidatar a vagas em que completam 60% dos requisitos, enquanto mulheres apenas se candidatam caso preencham 100%. No segundo, ela conta que nas aulas de programação, quando há algum erro, homens falam “tem um problema com meu código”, enquanto mulheres dizem “tem um problema comigo”.

O livro Faça Acontecer, da Sheryl Sandberg, foi muito criticado no meio feminista. Sim, ele fala para uma parcela específica de mulheres brancas de classe média, e ele peca em não reconhecer as estruturas que o capitalismo ajuda a manter. Ele é, sim, um livro que não contesta o patriarcado, não contesta o capitalismo, e, no lugar, incentiva as leitoras a aprenderem a jogar usando as regras do jogo. Não é revolucionário. Isso não quer dizer que não tenha valor. Sheryl fala sobre a maternidade, a divisão de trabalho doméstico, a socialização feminina e o impacto na forma que, como mulheres, crescemos, trabalhamos e nos colocamos no mundo.

Os dados que o livro traz são impressionantes. Uma pesquisa de 2011 provou que homens são promovidos baseados em potencial, enquanto mulheres são promovidas por conquistas passadas. Muitos estudos em muitas indústrias (sério, demais pra ficar citando aqui, mas tá tudo na bibliografia de Faça Acontecer) provaram que mulheres costumam julgar o próprio trabalho muito pior do que é, enquanto homens julgam muito melhor. Ainda hoje, avaliações cegas de currículo – isso é, onde o sexo do candidato não aparecem – têm resultados absurdamente melhores para mulheres do que as avaliações em que o sexo aparece.

Esse texto não tem uma conclusão ou um conselho. Esse texto é só algumas coisas que, na última semana, povoaram minha cabeça. É tudo bem errar. Esse texto ainda não tá pronto.

Esse texto, como eu e você, não é e nem precisa ser perfeito.

A febre de “garota” em títulos de livros e o Oscar de Emma Stone

Se eu decidir escrever um texto provando que livros com a palavra “garota” no título estão na moda (e estão vendendo), eu vou ter gastado o meu tempo e o tempo de todo mundo que parar pra ler. Porque esse argumento é inútil: já é óbvio. Garota exemplar, A garota no trem, A garota do calendárioA garota que você deixou para trás (da Jojo Meyes, responsável por Como eu era antes de você): todos esses títulos foram tiradas de listas de mais vendidos da Publishnews, em 2016 e 2017.

O que me interessa é que, na maioria desses livros, as “garotas” já são mulheres (a exceção é The Girls, da Emma Cline, que realmente fala de garotas de 14 anos). Em uma coluna, Eva Wiseman, uma das minhas escritoras favoritas no The Guardian, trouxe essa discussão e me lembrou de quando uma Clarissa com 18 anos recém feitos conversou com o ex-namorado de uma veterana minha na faculdade de moda. Para explicar porque estava se apaixonando por outra pessoa, ele disse: “ela já uma mulher, e minha ex ainda é uma garota”.

Eu respondi: “Acho que nunca vou me referir a mim mesma como mulher”.

Já naquela época, pra mim, muito antes do feminismo, “mulher” era uma criatura mítica e poderosa – como minha mãe – que eu poderia apenas sonhar em um dia me tornar. Eu seria sempre uma garota – e implícito ali estavam os adjetivos boba, vulnerável, iludida.

Ontem, no Twitter, após Emma Stone levar o Oscar de melhor atriz, um homem – Kyle Buchanan, editor na New York Magazine – escreveu: “desde 2000, 7 vencedoras do prêmio de melhor atriz estavam com 20 e poucos anos, incluindo Emma Stone. Apenas um homem com 20 e poucos anos, Adrien Brody, levou o prêmio na história”, ao que uma mulher – Laura Turner, escritora – sarcasticamente rebateu: “é quase como se a gente valorizasse demais a juventude em mulheres…”

A febre dos títulos, os prêmios do Oscar, a nossa performance infantilizada como mulheres: é tudo a mesma coisa.

Felizmente, há alguns anos, me peguei pensando sobre mim como uma mulher, e foi uma surpresa. Boa.

 

 

Entrevista: Ungulani Ba Ka Khosa – “A literatura quebra fronteiras”

O premiado escritor moçambicano Ungulani Ba Ka Khosa escreve livros que mais poderiam ser socos no estômago. Quando indico pra alguém, aviso: se prepara, porque vai doer. Ungulani faz 60 anos em 2017, escreveu quase dez livros e inclusive se aventurou pela literatura infantil. No fim do ano passado, ele esteve no Brasil para o lançamento de seu incrível Orgia dos loucos, lançado pela Editora Kapulana, e eu tive a chance de conversar com ele. Foi quase uma hora de troca de experiências e ensinamentos gigantes. Saí de lá com um livro autografado e a certeza de que tinha acabado de conhecer um grande homem.

Moçambique conquistou sua independência num passado bastante próximo – 1975 – e as artes, especialmente a literatura, foram importantíssimas para a revolução (Ungulani cita a maravilhosa Noémia de Sousa – melhor livro de 2016 pra mim). Ainda hoje é um país com grandíssimas discrepâncias entre o campo e a cidade, que ele explora em seu lançamento por nossas terras – embora Orgia dos loucos tenha sido publicada originalmente em 1990. Nele, o campo é quase um personagem, cenário árduo e sudorento dos contos doloridos, crueis, crus, e muito reais. “A literatura tem que estar ligada a uma realidade cultural forte”, ele declara.

É assim mesmo que ele nos fala sobre violência, morte, pobreza. Aliás, fala talvez não seja o verbo certo: ele mostra, com imagens fortes, linguagem em sincronia perfeita com o tema, personagens pungentes e descrições certeiras e arrebatadoras. O segundo conto do livro – e o meu favorito – explora com maestria a violência contra mulher, o que, saído de um escritor homem, é um tremendo elogio. O livro é curto, mas não é daqueles que devemos ler com rapidez: é pra se ler e se pensar. Ungulani fala que “o texto em si tem que se pensar por si próprio”, e é verdade. Mas nós temos que pensá-lo também.

Mesmo com escritores fortíssimos saídos de lá – Suleiman Cassamo e Aldino Muianga, por exemplo, ambos também publicados no Brasil pela Editora Kapulana – o povo do país ainda sofre do “complexo de vira-lata”. Ele conta que ouviu o termo pela primeira vez em São Paulo e que ele é perfeitamente adequado para aquela realidade também.

Quando fala de literatura infantil, a lição é uma só: não subestimar a inteligência das crianças. Voltando ao nosso país, ele disse apreciar literatura brasileira, mas conhece pouco. Em Moçambique, não existe acesso à literatura brasileira contemporânea, e os autores que chegam lá são os que já estão mortos. Para ele, isso é motivo de muita tristeza. Ele ainda faz uma provocação: percebe que mesmo no Brasil não existe muita comunicação entre as produções literárias regionais, que poucas vezes extrapolam os limites geográficos. Em geral, são autores do eixo Rio-São Paulo que conseguem atenção. Mas garante: “a literatura quebra fronteiras”.

A gente concorda. Assista às melhores partes da entrevista:

Racismo, turbante, o estigma do câncer e a geração do like

Recentemente, apareceu na minha timeline várias discussões sobre uma jovem que contou ter sido xingada por usar turbante. A justificativa dela era estar com câncer.

Não vou entrar no mérito de apropriação cultural agora e nem explicar por que eu, branca, considero equivocado acreditar que “ter câncer” é desculpa pra ser racista. “Mas, Clarissa, tu não sabe o que é passar por isso, câncer é muito grave”. Antes que esses comentários comecem, saca só: eu tive câncer. Quatro vezes. E duas delas foram leucemias, a mesma doença da menina que estava de turbante – embora fosse de uma tipologia diferente, confesso.

Também não quero entrar em detalhes sobre as perguntas que quis fazer à menina – coisas que, pra mim, soaram tão incoerentes que me deixaram curiosa. Não em relação à apropriação cultural, mas em relação à forma de abordar a doença nas redes sociais. Mas, bom, cada pessoa é uma pessoa, e eu não posso julgar a coerência de outra através da minha ótica.

Vou repetir pra ficar claro: esse post não é sobre essa menina. Esse post não é pra questionar a veracidade ou não de inúmeros relatos que surgiram. E esse post não é sobre apropriação cultural.

Então sobre o que é?

Esse post é sobre estigma social.

Eu discuti sobre o fato com algumas pessoas e defendi que não é preciso usar turbante quando se têm câncer. Eu tive câncer quatro vezes, já disse. Meu cabelo todo caiu e esse foi um dos maiores traumas da minha vida. E nunca, nunca precisei – pasmem! – usar turbante.

O cabelo cair, pra uma mulher, é carregado de significados muito além da doença. Se sabemos que antigamente o cabelo solto sinalizava uma mulher solteira e o cabelo preso uma mulher casada, é óbvio a relação de cabelo com feminilidade e disponibilidade sexual é direta. O sexy – e a pornografia – abusam de cabelões soltos, armados, felinos, porque isso lembra sexo, beleza, atração. E numa sociedade em que a mulher existe unicamente pra ser objeto sexual, é inegável que a perda de cabelo seja um trauma gigante. Como mulher, a gente sabe como as amarras da feminilidade nos enfraquecem e nos aprisionam.

Eu fui ter cabelo curto depois dos 20 e poucos, quando minha confiança me liberou do calor de um cabelão até a cintura. E quando digo curto digo acima dos ombros: mais que isso, ainda não consigo. Tudo bem, todo mundo tem seu tempo.

Então repito: é compreensível que a perda de cabelo seja traumática, e que a gente, como pacientes com câncer, busque alternativas pra esconder que isso esteja acontecendo (olha só, até hoje me dá agonia usar a palavra careca pra me referir a isso. Que forte). Eu usava principalmente toucas, já que perucas em geral incomodam bastante. Mas usava em casa. O trauma era tanto que eu não saía de casa e só recebia visita de poucas pessoas, porque não aceitava ser vista daquele jeito. De homens, só minha família mais próxima e um melhor amigo (Lucas, um beijo!).

Não existem fotos minhas daquela época. Nem com touca, nem sem touca.

Essa lembrança é inexistente, fantasiosa, apagada, quase como se nunca tivesse acontecido. E isso não é pelo estigma do câncer. É pelo estima da mulher careca, da mulher que não é capaz de performar a feminilidade dela esperada, da mulher que é feia.

Eu, que sempre fui bonita, jamais conseguiria suportar isso.

Esse estigma não vem do câncer, vem da opressão. Muito parecido com o tipo de estima que o racismo evoca: filho da opressão, impossível de fugir, muito mais enraizado na cultura do que a gente pode imaginar.

Corta pra falar de câncer, o ponto onde eu queria chegar: existe um estigma de paciente com câncer?

Existe. Claro que existe. E, sim, eu também não gosto. Ser tratada com pena, ser lembrada por ter tido câncer, ser rotulada por isso. “A minha amiga que teve câncer”, “aquela menina que eu te falei que teve câncer quatro vezes”, cansei de ser apresentada assim. Eu sou tantas, tantas coisas. Não sou o câncer. Não sou minha doença. O câncer acabou. A Clarissa continua.

Mas esse estigma é muito, muito diferente do estigma da opressão. Esse estigma não te bate, não te xinga, não te rejeita, não te marginaliza.

O estigma do paciente com câncer é o da vítima. E o que a gente faz com vítimas? A gente recompensa. Fala com mais carinho e cuidado. Dá o lugar no metrô (não que isso seja errado, tá gente? Lugar no metrô é importante sim, a gente em geral fica muito fraco! Mas to usando de exemplo porque né, ganhar lugar no metrô é muito bom). Mais que isso: a gente dá uma chuva de likes. Literalmente.

A diferença do estigma da opressão e da vítima é fácil de perceber: é só comparar os likes dos posts sobre apropriação cultural em relação ao caso acima (poucos) com os de um relato sobre câncer (muitos).

O meu único post no Facebook que teve mais de mil likes foi falando sobre eu ter finalmente superado o câncer 100% depois de todos os anos de follow up (ironicamente ainda tive um câncer depois. Na época não sabia que sou portadora de uma síndrome genética que faz minhas células ficarem mais loucas que minha cabeça).

O paciente com câncer, diferente da mulher, do negro, do pobre, é aquele que vai receber privilégios que compensem a condição de vítima. É o que vai receber likes, comentários atrás de comentários de “guerreira” (ugh, odeio, guerreira é a Xena, eu sou a Clarissa), admiração grátis de um milhão de pessoas que não te conhecem e não fazem ideia de quem tu é. Nessa hora, aquele cara que manda feministas radicais (oi, eu) serem estupradas tá lá prontinho pra comentar e dizer que me acha incrível. O cara que acha massa xingar PTista nas fotos do Instagram de repente aparece pra dizer que me acompanha e me admira.

Nenhuma dessas pessoas me conhece. Essas pessoas conhecem uma coisa: o sentimento generalizado que a gente deve ter por pacientes com câncer. E esse sentimento, que vem do estigma, nunca é marginalizar. É sempre elogiar, admirar, privilegiar.

E eu só queria dizer: sério, amigos, com todo o respeito, vão se foder, tomem no cu, vão embora do meu Facebook e de todo mundo que tá doente. Esse comportamento é o que faz tanta gente fingir que tem câncer na Internet (você não sabia? Dá um Google).

Esse comportamento é o que me dá vontade de ter um câncer novo e morrer, só pra não ter que ouvir um monte de bunda mole hipócrita comentando coisas vazias pra ficar com a consciência limpa.

E se lembrem disso antes de passar pano pra racismo. Vocês não são legais. Nem pra nós, que vencemos o câncer.

Querida São Paulo,

(esse texto foi escrito em outubro de 2015, quando voltava para Porto Alegre depois três anos aqui. Agora, de volta à verdadeira cidade maravilhosa, reencontrei essa carta entre outros rascunhos. No aniversário de São Paulo. Pareceu a hora certa de publicar. As fotos vieram daqui.)

Querida São Paulo,

Eu ainda lembro a primeira vez que te vi de verdade. Não foi no avião, ou em Congonhas, ou andando de carro até a casa da minha melhor amiga. Não – foi na primeira vez que botei os pés na Paulista, saída do metrô, em que nunca tinha andado, na minha primeira viagem de avião. Eu tinha 20 anos, uma depressão grave e a sensação permanente de que minha cidade, Porto Alegre, não era minha casa.

A primeira vez que vi a Paulista, fui tomada pela magnânima impressão de poder dos prédios altos e espelhados, das luzes, e do céu claro se desnudando. Foi a primeira vez, depois de muito tempo, que eu me senti realmente viva – o coração acelerado, a vontade de viver, a noção de que ainda existem coisas que valem a pena. Menos de dois anos depois, eu me mudei pra cá.

Eu nasci em um berço de ouro – não porque meus pais sejam ricos, porque não são. Eu nunca tive tudo o que quis, nunca tive grandes luxos na infância, e meus pais enfrentaram grandes dificuldades financeiras. Mas não tem nada que, olhando para trás, eu poderia pedir a mais. Eu tive suporte, carinho, muito amor. Eu tive, por isso, um berço de ouro. E quando saí, com uma estabilidade financeira familiar que eu nunca tinha vivido antes, abandonei um conforto que seria impossível de recuperar nos meus anos aqui.

São Paulo é uma cidade árdua, cheia de dor, cheia de lágrimas, carregada de desigualdades sociais. No dia em que te brinda com um pôr-do-sol glorioso, te traz um menino de rua esfomeado implorando por comida. São Paulo é a realidade, dura, sem maquiagem.

Aqui, todo mundo busca alguma coisa com afinco, as pessoas facilmente passam por cima de você. Às vezes literalmente. A ganância é o sentimento que domina a região da Berrini, onde trabalhei por mais de dois anos, numa empresa maravilhosa. As ruas, porém, são lotadas de homens de ternos, energias agressivas, competição e olhares invasores. A amada Augusta à noite, um antro de liberdade de expressão, com frequência se torna o vórtex da auto-destruição. Depois de passar anos sóbria, os olhos vermelhos, os passos errantes, a fala confusa e as pessoas jogadas no chão não mais criam identificação. O metrô, uma das minhas coisas favoritas da cidade, é uma arena em que vence o mais forte: apertos imensos, acotovelamentos, empurrões. Não existe educação em uma cidade que não pára, em que você precisa cumprir prazos, em que não existe metrô suficiente para comportar a quantidade absurda de gente que se locomove. Pinheiros é uma visão do inferno – quantas vezes, lá no meio, cerceada por vidros, guardas e corrimões, a multidão parecia apenas gado em direção ao abate?

Mas São Paulo é a cidade em que eu me tornei eu mesma. Foi em Porto Alegre que nasci, mas foi aqui que eu me tornei eu. Se Porto Alegre representa minhas origens, São Paulo é minha formação. Ela é, apesar tudo, a minha cidade, a que eu escolhi pra amar, pra às vezes odiar, e, principalmente, pra viver. Porque isso é algo que eu havia deixado de fazer em Porto Alegre: viver. E agora, prestes a abandonar a cidade que eu escolhi pra mim, a nostalgia toma conta. É, eu sou uma pessoa muito nostálgica – passados se transformam em imagens fortes de cheiros, luzes, sensações e sentimentos. E caminhar pela Paulista, dobrando na Pamplona em direção à minha casa, em um caminho que já me fez querer desistir de tudo e já me deu a melhor sensação de gratidão do mundo, eu penso: como posso ir embora?

Novas coisas me esperam, cidades que amo muito mais que essa, vidas que vou amar mais também. Mas São Paulo é a primeira parte disso tudo. E dói, sim, me despedir. Porque aqui foi onde eu amei – a vida, o amor, e a cidade.

SEM FILTRO: CÉU DE SÃO PAULO AGORA #urban #sky #nofilter #pinksky #011 #igerssp #saopaulo #sp #landscape #sunset

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Férias sem viagem? Vá a museus

(eu tirei essa foto do post no Louvre, em Paris, durante uma aula de
história da arte para crianças dentro do museu)

Se a crise, o tempo, o trabalho ou o que seja não deixou você viajar pra outra cidade ou outro país esse ano, dá pra viajar muito – no tempo, na história, na beleza – em um só lugar: no museu. Eu adoro museus. Quando viajo, sempre coloco os museus como prioridade na minha lista de coisas legais pra fazer nessa cidade. Mas, curiosamente, em São Paulo, onde morei por mais de 3 anos, não conheci todos os museus. É aquela coisa de “mais pra frente dá tempo”, “amanhã eu vou”, “de repente semana que vem to menos lotada de coisa pra fazer”. Esse ano, de volta aqui, quero conhecer mais.

Em Porto Alegre, onde morei por mais de duas décadas, posso dizer que visitei o MARGS, o Santander Cultural e o Iberê Camargo vezes demais. Em alguns meses, em que ia ao centro com frequência, visitava o MARGS toda semana. Foi lá que vi meu primeiro Renoir ao vivo, gigante, e quase chorei, porque faço bastante essa coisa de chorar na frente de obras de arte. E olha que eu nem amo Renoir tanto assim.

Esse ano, a FEAMBRA (Federação de Amigos de Museus do Brasil) organizou uma lista com algumas dicas espalhadas pelo país inteiro pra aproveitar durante verão. Vamos juntos?

 

Museu de Arte Contemporânea da Universidade de São Paulo (MAC)

Atividades lúdicas motivadas pelas exposições em cartaz no museu. A obra Onça Pintada nº 1, de Leda Catunda, será o ponto de partida para conversas sobre estampas e padronagens industriais e artesanais.
25 de janeiro, quarta-feira, das 10h30 às 13h30.
Gratuito.
Avenida Pedro Álvares Cabral, 1301. Parque Ibirapuera. São Paulo – SP.
www.mac.usp.br

Museu Catavento

É um espaço educativo e interativo com diversas atrações e atividades para pessoas de todas as idades. Bebês com seus pais podem participar e se divertir na sala Engenho, o Borboletário e o jardim do local. Com acesso para carrinhos de bebês, também oferece bancos para descanso, trocadores para bebês nos banheiros masculinos e femininos e ambulatório para atendimento.
Funciona de terça a domingo, (fechado às segundas), das 9 às 17 horas (bilheteria fecha às 16 horas). Ingressos: R$ 6 (inteira) e R$3 (meia). Aos sábados a entrada é gratuita. Crianças até 3 anos não pagam. Palácio das Indústrias, Praça Cívica Ulisses Guimarães, s/no (Av. Mercúrio), Parque Dom Pedro II, Centro, São Paulo. Tel. (11) 3315-0051. Estacionamento pago. Acessibilidade no local. www.cataventocultural.org.br.

Casa das Rosas

Museu dedicado à poesia e à literatura, possui banheiro com trocador para bebês, cadeiras nas varandas, rampa de acesso e elevador. O carrinho de bebê pode ser guardado em uma sala reservada para esse fim.
Funciona de terça a sábado (fechado às segundas), das 10 às 22, domingos e feriados, das 10 às 18 horas. Ingresso: gratuito. Av. Paulista, 37, Bela Vista, São Paulo. Estação Brigadeiro do Metrô (850m), tels. (11) 3285-6986 e (11) 3288-9447. Estacionamento pago. Acessibilidade no local. www.casadasrosas.org.br.

Pinacoteca de São Paulo

Possui o projeto PinaFamília, realizado sempre no segundo domingo do mês. O objetivo é estimular a visita de famílias ao museu e a apreciação artística com atividades e visitas guiadas. A Pinacoteca conta com bancos distribuídos por todo o museu, trocadores para bebês nos banheiros masculinos e femininos, acesso para carrinho de bebê e elevadores. Funciona de quarta a segunda (fechado às terças), das 10 às 17h30 (com permanência até 18 horas). Ingressos: R$ 6 (inteira) e R$ 3 (meia). Aos sábados a entrada é gratuita. Crianças até 9 anos não pagam. Praça da Luz, 2, Luz, São Paulo, tel. (11) 3324-1000. Estacionamento gratuito no local. Acessibilidade no local. www.pinacoteca.org.br.

Museu da Casa Brasileira

Com bancos espalhados por todo jardim, onde é possível sentar para descansar e também amamentar, o Museu da Casa Brasileira oferece acesso para carrinho de bebê e uma programação de oficinas educativas voltadas para crianças e família, como o Encontros no Quintal, que acontece quinzenalmente no jardim do MCB para troca de ideias, experiências e realizações de atividades; a oficina de Casinha, que também acontece quinzenalmente, às quartas-feiras, onde os participantes são convidados a construir modelos de casa com materiais não estruturados, a partir de suas lembranças e memórias. O espaço também possui trocadores para bebês nos banheiros masculinos e femininos.
Funciona de terça a domingo (fechado às segundas), das 10 às 18 horas. Ingresso: R$ 7; gratuito aos sábados, domingos e feriados. Crianças até 10 anos não pagam. Av. Brigadeiro Faria Lima, 2.705, Jardim Paulistano, São Paulo. CPTM Cidade Jardim (850m), tel. (11) 3032-3727. Estacionamento pago no local. Acessibilidade no local. www.mcb.org.br.

Museu da Imagem e do Som (MIS-SP)

No último domingo do mês, realiza a Maratona Infantil, um dia de atividades voltadas para crianças e suas famílias. Os visitantes podem aproveitar oficinas, espetáculos, contação de histórias e shows. O espaço possui trocadores para bebês nos banheiros masculinos e femininos, elevador para acesso com carrinho de bebê e banco para descanso.
Funciona de terça a sexta (fechado às segundas), das 12 às 21 horas; sábados, domingos e feriados, das 11 às 20 horas. Ingressos: gratuito às terças-feiras; consulte valores nos outros dias, que variam de acordo com a exposição. Crianças até 5 anos não pagam. Av. Europa, 158, Jardim Europa, São Paulo, tel. (11) 2117-4777. Estacionamento pago no local. Acessibilidade no local. www.mis-sp.org.br.

Museu Afro Brasil

Com trocadores de fralda nos banheiros femininos e masculinos, o museu oferece, no último sábado do mês, a contação de histórias Aos Pés do Baobá, para crianças acompanhadas de seus pais conhecerem narrativas africanas ou afro-brasileiras, seguidas de bate-papo com os educadores do museu.
Funciona de terça a domingo (fechado às segundas), das 10 às 17 horas (bilheteria fecha às 18 horas). Ingressos: R$ 6 (inteira) e R$ 3 (meia). Aos sábados a entrada é gratuita. Crianças até 10 anos não pagam. Av. Pedro Álvares Cabral, s/nº, Pavilhão Manoel da Nóbrega, Parque do Ibirapuera, portão 10, São Paulo, tel. (11) 3320-8900. Estacionamento pelo portão 3 (Zona Azul). Acessibilidade no local. www.museuafrobrasil.org.br.

Museu do Futebol

Possui acessibilidade em todos os espaços. Com rampas de acesso, elevadores e escadas rolantes, é possível entrar com o carrinho de bebê nas salas do Museu. O espaço também possui trocadores de fraldas nos banheiros femininos e no banheiro unissex, permitindo um passeio mais confortável e divertido com o papai ou com a mamãe.
Funciona de terça a sexta-feira, das 9 às 17 horas (bilheteria até 16 horas); sábados, domingos e feriados das 10 às 18 horas (bilheteria até 17 horas). Ingresso: R$ 9 (inteira) e R$ 4,50 (meia), grátis aos sábados. Praça Charles Miller, s/nº, Pacaembu, São Paulo, tel. (11) 3664-3848. Estacionamento na Praça Charles Miller (Zona Azul). www.museudofutebol.org.br.

Museu de Ciências Naturais

Oficinas lúdicas de restaurador mirim para grupos de até dez integrantes, com ações educativas, jogos e atividades artísticas. O intuito é despertar no público a atenção, o potencial criativo e a conscientização da preservação de acervos.
Até o final de fevereiro. Gratuito.
Terças-feiras a domingos: 9h30 às 16h45.
Avenida das Nações Via L-4 Sul. Brasília – DF.
www.zoo.df.gov.br/

Museu de Artes Visuais Ruth Schneider

Exposições e oficinas: “Narrativas imagéticas das ocupações urbanas”, por Erviton Quartieri Jr; “A obra de Ruth Schneider e Artistas Passo-Fundenses”.
Até o final de fevereiro. Gratuito.
Terças a sextas-feiras: 8h30 às 17h30.
Sábados e domingos: 13h30 às 17h30.
Av. Brasil Oeste, 758. Passo Fundo – RS.
www.upf.br/mavrs

Museu Histórico Regional

Exposições e oficinas: “Cem anos do samba e outros carnavais” e “Centenário do Clube Visconde do Rio Branco”.
Até o final de fevereiro. Gratuito.
Terças a sextas-feiras: 8h30 às 17h30.
Sábados e domingos: 13h30 às 17h30.
Av. Brasil Oeste, 758. Passo Fundo – RS.
www.upf.br/mavrs

Museu Municipal de Arte – MuMa

Exposição “O Circo, O Brinquedo e A Brincadeira”, com participação da artista Cyntia Werner e apresentação do boletim digital da Casa Romário Martins “Senhoras e Senhores: o circo da cidade faz 40 anos!”, sobre a trajetória do circo da cidade.
Até 19 de março. Gratuito.
Terças-feiras a domingos: 10 às 19 horas.
Sala Célia Neves Lazzarotto – Portão Cultural
Av. República Argentina, 3430. Curitiba – PR.
www.fundacaoculturaldecuritiba.com.br

Museu Eugênio Teixeira Leal / Memorial do Banco Econômico

O programa “Museu Escola” promove palestra e visita mediada nas salas de exposições do museu, com o objetivo de realizar programações extracurriculares, possibilitando que o estudante amplie seus conhecimentos técnicos e práticos sobre a história do dinheiro e da Bahia.
Projeto “Inclusão sócio-digital” voltado aos serviços da internet que disponibilizam à população o acesso gratuito aos recursos da tecnologia digital.
Até dezembro. Gratuito.
Terças a sextas-feiras: 9 às 18 horas.
Rua do Açouguinho, 01. Pelourinho. Salvador – BA.
www.facebook.com/museueugeniotleal

Inhotim

Estação Educativa para Visitantes: plataforma de acolhimento e apoio ao visitante de todas as faixas etárias. Com objetos de mediação, como miniexposição de materiais educativos, uma coleção biológica (caixa didática de borboletas) e um jogo da memória com o tema “Arte contemporânea em Inhotim”.
Até o final de fevereiro. Gratuito.
Terças a sextas-feiras: 10 às 16 horas.
Sábados, Domingos e Feriados: 10 às 17 horas.
Rua B, 20. Centro. Brumadinho – MG.
www.inhotim.org.br

Museu da Casa Brasileira

Exposição “Pioneiros do Design Brasileiro”, com imagens de carros criados de forma quase artesanal para homenagear o designer brasileiro Anísio Campos, um dos grandes protagonistas da história do automóvel no Brasil.
Até março. R$7 inteira e R$3,50 meia.
É possível realizar piquenique no jardim do museu. O encontro deve ser informal, não podendo ser caracterizado como evento privado.
Todos os dias no horário de funcionamento do museu. R$7 inteira e R$3,50 meia.
Terças-feiras a domingos: das 10 às 18 horas.
Av. Brigadeiro Faria Lima, 2705. Pinheiros. São Paulo – SP.
www.mcb.org.br

Museu Histórico Folclórico e Pedagógico Monteiro Lobato

Teatro “As Emili´Annas”, Brincadeiras no Quintal, Oficinas Pedagógicas, Passeio do Visconde, aulas de Tai Chi Chuan e visitas guiadas.
Até o final de janeiro. Gratuito.
Terças-feiras a domingos: das 9 às 17 horas.
Av. Monteiro Lobato, s/nº – Chácara do Visconde. Taubaté – SP.
www.museumonteirolobato.com.br

Museu Casa de Portinari

Brincadeiras de interação que remetem à infância de Portinari e permearam sua obra plástica e poética, como pular corda, amarelinha, pintura, bola de meia, bugalha, peteca e pião.
Até o final de janeiro. Gratuito.
Terças-feiras a domingos: das 10 às 16 horas.
Praça Candido Portinari, nº 298. Brodowski – SP.
www.museucasadeportinari.org.br

Museu Histórico e Pedagógico Índia Vanuíre

Oficina de adorno e artesanato indígena; confecção de brincos de pompom, presilhas, pipas, origami e kirigami e bolsas com dobradura de jornal; desenho às cegas; jogo da memória; brincadeiras indígenas; arte em sucata e Passeio Cultural.
Até o final de janeiro. Gratuito.
Terças-feiras a domingos: das 9 às 11 horas.
Rua Coroados, nº 521, Centro. Tupã – SP.
www.museuindiavanuire.org.br

Museu Felícia Leirner e Auditório Claudio Santoro

Contação de lendas da Mantiqueira; jogos cooperativos; atividades e interações com o meio ambiente; oficinas de confecção de instrumentos musicais, danças, esculturas e de tinta da terra; atividades circenses e práticas que irão explorar o lado criativo, sensível e visual de cada participante.
Até o final de janeiro. Gratuito.
Terças-feiras a domingos: das 9 às 16 horas.
Auditório Claudio Santoro
Av. Dr. Luis Arrobas Martins, nº 1.880. Campos do Jordão – SP.
www.museufelicialeirner.org.br/

Menos branquice no Netflix

No incrível “Swing Time”, primeira leitura de 2017 e com certeza pertencente à lista de melhores desse ano, a personagem principal é filha de mãe negra e pai branco. Tal qual a autora, Zadie Smith, a questão de não ser branca e nem negra marca a narrativa. Em determinado momento, ela, criança, mostra pra uma colega de classe e de dança um vídeo de uma apresentação em que todos os dançarinos são negros. A protagonista está deslumbrada. Pela dança, pela identificação. A amiga, branca, responde de forma incisiva: ela não consegue perceber como é ofensivo mostrar um vídeo assim? Em que todo mundo é negro? Na própria casa dela? Que era um absurdo, uma falta de respeito, uma falta de consideração?

Master of None, série original do Netflix, chegou dando um chega pra lá nessa coisa de só gente branquinha e perfeitinha sendo estrela. Mas em 2016, tivemos três séries espetaculares que deram uma resposta incrível pro white washing de Hollywood: não só os brancos são minorias, mas o racismo é denunciado, e as séries são muito, muito boas. Atuação, roteiro, história: dando uma lição pra outras séries amadas como Sense 8Stranger Things, Gilmore Girls (que eu amo, mas que revival bem mais ou menos, né gente?).

Junto com Mr. Robot, The Americans, Black Mirror, Game of Thrones e House of Cards, elas completam as minhas séries favoritas do ano (e percebam como mesmo assim a minha lista é dominada por brancos…). Vamos lá pro top 3:

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3. CHEWING GUM

Tracey é uma menina de uma família muito religiosa que, como toda adolescente, está com os hormônios explodindo. Perder a virgindade é o drama central no começo da história, que se desenvolve pra falar de dramas muito mais profundos. Com um humor afiado, uma narrativa maravilhosa e uma atuação melhor ainda, a série trouxe alguns dos melhores diálogos que eu já assisti. É de chorar de rir: um retrato fiel e irônico do que é ser adolescente e dos conflitos entre religião e desejo.

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2. THE GET DOWN

Eu tinha certeza que essa seria a melhor série do ano pra mim, de tão boa que é. O fio condutor da história – a música – já é uma das minhas paixões. O cenário, a Nova York explosiva dos anos 70, com um Bronx em chamas, o apagão de 77 (que, além de aparecer na série, é tema de um lançamento literário que se tornou best seller mundial, Cidade em Chamas), a crise política, a especulação imobiliária. Nesse ambiente caótico, os personagens fazem poesia, trazem o conflito entre arte e responsabilidade, e sentem como é ser jovem e apaixonado. Destaque pro Jaden Smith, meu personagem favorito. De novo: atuações incríveis, roteiro invejável e fotografia sensacional. Que série.

donald

1. ATLANTA

Donald Glover é tudo o que eu queria ser: músico de altíssima qualidade (o que é esse disco novo do Childish Gambino?), escritor muitíssimo bom, ótimo ator, lindo de morrer. Ele é também o criador, protagonista, roteirista e às vezes diretor de Atlanta, facilmente a melhor série do ano. Earn, o personagem principal, é um jovem adulto que precisa lidar com a responsabilidade de ter uma filha ao mesmo tempo que quer seguir o sonho de ser produtor musical, sua verdadeira vocação. A relação bem humorada com os amigos, o relacionamento complexo e muito bem desenvolvido com a esposa e a paixão pela música desenvolvem o drama existencial que cerca cada diálogo perfeito. A série é engraçada, irônica, super atual e afiadíssima, e ainda faz um uso muito criativo do Snapchat. Com episódios para mostrar a perspectiva da esposa, com conflitos carregados de subtexto e sequências maravilhosas, a série é o que toda série almeja ser: impecável. O destaque vai para o episódio 7, B.A.N., uma sátira de talkshows norte-americanos em que se discute corajosamente como o preconceito é um se você é branco e rico (como Bruce/Catilyn Jenner) e outro quando você é preto e pobre. Um muito bem dado tapa na cara de todo branco que assistir (na minha inclusive). Maravilhosa.

A inveja e a felicidade pelo fracasso de Rory Gilmore

Sim, tem spoilers.

Confesso: eu duvidei que o futuro da Rory fosse esse retratado pela criadora Amy Sherman-Palladino no revival que estreou mês passado na Netflix, A Year in the Life.

Faz mais sentido quando pensamos que as últimas quatro palavras – e a história – eram planejadas por Amy desde o começo da série, e que ela saiu da produção logo após a grande crise de Rory Gilmore (quem é que nunca roubou um iate, né?…). Ou seja: talvez esse momento de confusão, de desencaixe, de encarar a realidade, na verdade aconteceria com uma Rory recém formada, lá pelos 20 anos.

Faz mais sentido.

Encontrar a Rory com 32 anos profissionalmente mais perdida que eu com 25 foi desapontador. Perder uma referência, uma inspiração, alguém a frente de mim que me pudesse me dar gás e vontade de lutar, bom, nunca é legal. E ainda mais quando isso acontece com a Rory, a primeira personagem da televisão onde eu realmente me vi. De verdade. Inteligente, menina prodígio, bonitinha, leitora assídua, apaixonada por música, que preferia ficar lendo no intervalo do que socializando com colegas – e mimada, egoísta, insegura demais pelas expectativas dos outros.

É óbvio que a realidade em algum momento ia bater na porta dela pra dizer ei, miga, saca só, as coisas não são tão simples na vida real, Nova York não é Stars Hollow, ninguém lá te conhece, ninguém lá te ama, ninguém lá tá torcendo por você. Mas assistir àquela personagem sensata e reflexiva perceber isso aos 30 é doloroso. (Talvez o câncer e a depressão tenham cuidado de começar a me ensinar isso cedo, então meu aprendizado constante não vai ter um começo súbito e desesperado aos 32.)

Mas, mais que doloroso, é difícil de acreditar.

Que ela estivesse desempregada, sem nada publicado, sem prêmios e sem reconhecimentos? Ok, isso acontece, a vida é uma merda. Mas que ela estivesse perdida, ainda afogada em uma postura adolescente, repetindo erros de uma década atrás? Ela não aprendeu nada nesses 10 anos? É uma espécie de adolescência tardia? Na próxima temporada ela vai experimentar maconha e ter o primeiro porre?

Amy fez suas escolhas. A gente é obrigada a aceitar. Agora, o que é difícil de aceitar é essa plateia de pessoas batendo palmas pro fracasso da Rory, felizes por ela encontrar uma realidade fria e cruel, o que finalmente me faz pensar: é isso que vocês pensam sobre suas amigas, conhecidas, chefes, colegas? Vocês torcem pro fracasso umas das outras?

“Mas, Clarissa, Gilmore Girls é uma série…”

Eu não vou entrar no mérito da arte e entretenimento como catarse e forma de viver outras experiências, nem sobre a função disso na criação da empatia. A verdade pode ser resumida de um jeito bem mais fácil: todo mundo que eu vi feliz por esse futuro da personagem falou a mesmíssima coisa.

Que era bom ver aquela menina inteligente, bonita, querida, focada, sendo fodida pela vida. Que ninguém é assim, ao mesmo tempo inteligente, bonita, querida, focada. Que é reconfortante ver que ela deu com a cara na parede.

E daí eu penso: vocês não conseguem acreditar em mulheres assim? Inteligentes, bonitas, queridas ao mesmo tempo? As personagens femininas precisam ser mentalmente estragadas pra compensar uma superforça como a Jessica Jones? Ou com uma moral bem complicada pra equilibrar o poder como a Claire Underwood? Ou terem cometido crimes pro karma fazer sentido como todo mundo em Orange Is The New Black?

Como feminista, é curioso observar que mulheres com grandes falhas são mais críveis que mulheres com grandes qualidades, e que personagens como a Rory são descartadas por serem “perfeitas demais”. É triste e revoltante que uma mulher com essas qualidades não faça sentido nem na ficção, e mais ainda que exista torcida para que ela se ferre.

É. Tá foda.

No mais, eu tenho o prazer de poder dizer que sou cercada por mulheres ainda melhores que a Rory. Inteligentes demais, lindas demais, admiradas, amadas, reconhecidas, artísticas, expressivas, tímidas, únicas. E, melhor ainda, reais.