VINYL, a maravilhosa série sobre sexo, drogas, rock’n’roll e homens otários

Jessica Jones e suas metáforas sensíveis sobre relacionamentos abusivos. Master of None e um humor ácido tirando sarro de opressores. Relacionamentos mergulhados em sarcasmo e na indústria de séries para TV em Love. E a maravilha de Mr. Robot, que vai de discussões sobre justiça social a sofrimento mental em incríveis dez episódios. A gente não pode negar: as séries estão ficando cada vez melhores. Com Vinyl, em 2016, isso é ainda mais verdade.

A New Yorker não concorda. Na resenha após o piloto da série criada por Scorsese e Mick Jagger, a publicação diz que assistir ao episódio é como estar numa festa ao lado de um cara que fica gritando sem parar o quão chapado ele tá: Vinyl é uma masturbação, o próprio meio da música exaltando a si mesmo e promovendo valores sobre a essência do rock e a arte de não se vender.

É verdade: a série retrata, sim, esses princípios travestidos de nobres sobre o que seria o verdadeiro rock’n’roll. Essa ideia é perfeitamente personificada no protagonista Richie Finestra (Bobby Cannavale), fundador da American Century, uma gravadora que viveu os anos de glória e agora se vê definhando. Ele tem uma mulher linda em casa, Devon (Olivia Wilde), que precisou abandonar a própria carreira artística para exercer bem o papel de mulher-de-executivo. Ele tem uma série de ideias sobre a verdadeira música e detesta a realidade comercial que impõe dívidas e obriga que ele traga artistas sem qualidade. Ele tem muitos pêlos no corpo, grita sempre que pode, e adora provar o próprio poder. Ele é machão e doidão, engole álcool de montão e cheira cocaína o suficiente pra mostrar que é valentão.

Mas Richie, por mais que queira, não é nosso heroi vitorioso. E é essa a prova de que a série é muito mais incrível do que a New Yorker pôde imaginar. 

Richie Finestra, assim como esse ideal do estilo de vida do rock, é uma fantasia que não pode se sustentar. Do outro lado, Kip (James Jagger), o vocalista da nova descoberta musical Nasty Bits, veste a roupa do artista problema, com noções megalomaníacas do seus próprios direitos em nome da arte.

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O que acontece é que, episódio após episódio, Richie se afunda cada vez mais em uma espiral de destruição, que é muitas vezes auto-gerida, mas a maior parte fica fora do seu próprio controle. A sua visão de algo “novo” não é nem um pouco convincente, porque nem ele mesmo sabe como salvar algo que já está acabado. Para ele, a expressão máxima da masculinidade, expressa em sexo e violência, está intrinsecamente ligada à validade da música. “Você lembra a primeira vez que escutou uma música que arrepiou os pêlos da sua nuca?”, Richie pergunta. “Que fez você querer dançar, ou foder, ou sair e bater em alguém?” Pra todos os efeitos, isso é o que faz a boa música. O personagem é claramente um machista dos piores, com episódios de racismo explícito, como o bom típico homem branco. 

Isso é muito bem mostrado em uma sequência em que ele convida Devon para seduzir um artista a permanecer na gravadora. Ela tem plena consciência de que cabe a ela o papel de isca – linda e fascinante o suficiente para flertar com o artista até ele decidir ficar. Mas Richie não suporta perceber que ela se sente atraída pelo artista – e é nessa percepção chocante da humanidade dela que ele mostra o quão pequeno ele é. E mesmo assim, na própria fossa da auto-piedade, ele tem carisma e consegue até gerar um pouco de compaixão: coitado. Tão cego, tão louco, tão fora da realidade.

E a realidade é que são as mulheres da série que ocupam o espaço da lucidez contrária a toda essa histeria coletiva masculina. As decepções constantes de Devon com o marido fazem que ela volte ao círculo artístico coroado por Andy Warhol, de onde ela saiu. O amor pela fotografia reaparece. Jamie, uma assistente, é a única pessoa que ainda consegue trazer artistas com alma pra gravadora – os Nasty Bits foram descoberta dela – deixando todos os fodões efetivamente contratados para isso comendo poeira. Seu chefe, inclusive, acaba matando o som da banda ao tentar aprimorá-los. Andrea surge para mostrar pra todos os valentões da American Century tudo de errado que eles tão fazendo – e, acredite, é muita coisa.

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Esse não é o Mad Men da música, como a série foi promovida em alguns lugares. Não temos um Don Draper conquistador para quem dezenas de mulheres decorativas são criadas. Não temos personagens femininas reduzidas a dramas menores, sempre um pouco – ou muito – atrás. 

Os anos 70, o clima de arte, a música de resistência, tudo isso é de relevância na série, que nos traz Andy Warhol, Lou Reed, David Bowie, John Lennon, Nico – as aparições são tantas que a memória falha. O desespero e o medo também têm espaço – não só por causa das relações superficiais e da constante instabilidade do meio, em que todo mundo é dissimulado, corrupto e egoísta, mas também pelo assassinato que acontece logo no primeiro episódio e pelas atividades com a máfia. E todos os episódios são revestidos em uma embalagem de cores perfeitas, trilha sonora incrível, óbvio, e detalhes que te levam direto pra década em questão.

Vinyl é, sim, uma série que vai na contramão, que resiste, que é contracultura. E até um pouco mágica: começando pela ilusão de máquina do tempo.

A REDOMA DE LIVROS – Junot Díaz, Donna Tartt, Gillian Flynn & Melhores primeiras frases

Desde que voltei pra Porto Alegre, comecei a gravar uns vídeos no YouTube pra minha amiga Amandine, que continuou em São Paulo, como uma tentativa de matar a saudade. Achei divertidíssimo falar dos livros que to lendo e amando e daí resolvi mostrar pra todo mundo. Os primeiros são de uma produção zero (até de pijama eu to), mas no último já dá pra ver que aprendi um pouco a editar hahahaha. Se vocês curtem literatura, dêem uma olhada que eu juro que tá legal e tem gatinha (Karenina como sempre sendo estrela de tudo da minha vida).

O nome do canal ficou A Redoma de Livros por causa do meu amor pela Sylvia Plath e abaixo tem os primeiros vídeos: sobre Drown, do Junot Díaz, A História Secreta, da Donna Tartt, e os livros da Gillian Flynn, entre eles o super sucesso Garota Exemplar. Espero que vocês gostem!

 

 

 

 

“A Garota na Teia de Aranha”: o novo livro da série Millennium sem Stieg Larsson

Que a (ex) trilogia sueca Millennium, de Stieg Larsson, é incrível, bom, todo mundo sabe. O que pouca gente sabia ao terminar de ler o último livro é que o autor, que morreu em 2004, planejava muitos outros sobre Mikael Blomkvist e Lisbeth Salander. Por isso, parece fazer sentido que a editora tenha convidado um escritor – David Lagercrantz – para dar continuação à saga.

O novo livro, A Garota na Teia de Aranha (o título original em sueco significa algo como “o que não nos mata”, uma referência à frase de Nietzsche) chegou às livrarias no segundo semestre de 2015. Escrito com aprovação do irmão e do pai de Larsson, que controlam o espólio do autor, a obra recebeu uma crítica favorável. Apenas a viúva de Larsson ficou descontente: Eva Gabrielsson já expôs sua opinião negativa sobre o projeto, que aliás não conta com o manuscrito inacabado do quarto romance, ainda de autoria de Larsson. A escolha de Lagercrantz também foi colocada em cheque: Eva considera que ele seja uma “escolha completamente idiota” para dar continuidade à série.

Ler a opinião de Eva me deixou respirar com tranquilidade: já no começo do livro era claro que ele era muito inferior aos anteriores, e a conclusão ficou cada vez mais óbvia conforme o romance evoluía. Sem o mesmo gancho envolvente, o livro é tomado de cenas desnecessárias que parecem servir apenas para aumentar o número de páginas, personagens com pouca profundidade, e o pior pecado na minha opinião: distorções gritantes dos personagens criados por Larsson. Em determinados momentos, tinha que reler páginas inteiras para ter certeza absoluta de que determinada reflexão ou fala vinham mesmo de Blomkvist, tão fora do personagem ele estava. Ainda mais grave: Lisbeth, a anti-heroína favorita da literatura, por sua complexidade e força feminina, foi porcamente explorada, aparecendo em poucas cenas e com uma presença fraca e nem um pouco parecida com a personagem original.

Em uma interação com um personagem, Lisbeth demonstra um fingimento manipulatório com uma capacidade de sociabilização que não é só fora do espectro característico da personagem como é também distante de qualquer pessoa com Aspergers. E eu nem falei na parte que eles usam “understatement” em inglês em vez de “eufemismo”.

Além disso, em vários momentos do livro coisas improváveis acontecem até o ponto de o personagem ter uma intuição inexplicável que leva a situação para outro momento. Essa técnica é repetida à exaustão de tal forma que o livro perde ainda mais a verossimilhança.

As relações estruturais de poder, especificamente no que diz respeito à dicotomia homem-mulher, eram exploradas de forma maravilhosa nos livros escritos por Larsson. Desde “Os Homens Que Não Amavam as Mulheres”, que trata diretamente de questões ligadas a violência contra mulher, Lisbeth é uma figura central e poderosíssima, uma “salvadora” de formas bastante inusitadas e controversas – como a fatídica cena em que incendeia o próprio pai abusador.

Em uma das cenas mais fortes do primeiro livro (e filme, especialmente na versão de Fincher), Lisbeth é estuprada pelo seu tutor. Tempos depois, utilizando seus conhecimentos tecnológicos para criar um cenário que transformava ele na ponta mais fraca, ela se vinga, causando a ele os mesmos danos e tatuando em sua barriga: “eu sou um porco estuprador”. Essa cena é uma vitória pra literatura.

Lisbeth é a vingança de todas as mulheres.

E essa Lisbeth, tão maravilhosa, é esquecida por Lagercrantz. Uma pena. A narrativa pobre, carente de imagens fortes, com frases simplistas que pecam na capacidade de criar o suspense necessário e estragam surpresas, o livro é uma decepção.

Beyoncé, Superbowl e o mimimi

No fim do ano passado, com 24 horas de espaço, o Huffington Post publicou duas matérias sobre ídolos feministas. Em uma, Taylor Swift era elogiada e defendida por sua postura feminista no VMA. Na outra, Beyoncé era criticada por um feminismo desapontador em sua performance no festival Made in America. O fato de as duas publicações terem sido feitas quase ao mesmo tempo é mais que só uma coincidência: é uma analogia real às percepções de senso comum em relação ao papel dessas duas mulheres. A grande diferença entre elas? Vamos lá, você consegue adivinhar.

Se você falou que a Taylor Swift é branca, você acertou.

Não me levem a mal – eu amo a Taylor Swift, ouvi o 1989 umas mil novecentas e oitenta e nove vezes. Acredito que ela é uma cantora realmente muito boa que faz um pop de qualidade, tem um estilo impecável e parece ser gente boa com os fãs. Mas a gente não pode negar que ser branca e rica tem um impacto gigante no cenário inteiro.

Corta pra 2009. Ninguém lembra direito todos os prêmios do VMA daquele ano, mas a infame interrupção que Kanye West fez no discurso de Taylor Swift virou meme eterno – Taylor inclusive fez a mesma coisa em 2015, como uma brincadeira. Eu, e provavelmente você também, ri da situação, do constrangimento da Taylor, do complexo de deus de Kanye. O que eu – e provavelmente você também – não percebi é que o que ele estava fazendo ia muito além da música. De novo, Beyoncé tomava a pior em relação à Taylor Swift. O vídeo de Single Ladies, uma música icônica que quase todo mundo no mundo conhece, perdeu para You Belong With Me, que nem eu, que trabalho com música, me lembro direito de como é. A revolta de Kanye West ia muito além da música.

2016 recém começou e Beyoncé fez o lançamento espetacular de Formation, com um vídeo no mesmo nível. Colocando jovens de frente a policiais com cartazes dizendo “PAREM DE ATIRAR NA GENTE”, o vídeo se passa em New Orleans, e ela canta “My daddy Alabama, mama Louisiana, you mix that negro with that Creole make a Texas Bama”. Ela deu um tapa na cara de racistas, escancarando um orgulho por cada símbolo que eles rejeitam – do cabelo às narinas. Ela fala em sexualidade e empoderamento de uma forma que foge da bobagem falaciosa da falsa liberação sexual, faz a polícia se render para uma criança negra e afunda um carro da polícia com o peso do próprio corpo. Quer coisa mais poderosa que isso? Ela ainda traz a fofa Blue Ivy arrasando num afro poderoso, uma resposta bastante eloquente às críticas da mídia em relação à criança, especificamente citando o “cabelo desarrumado”. Se a gente adora Shake It Off de Taylor Swift por rir na cara dos haters, bom, precisamos fazer um culto para Formation. Isso sim é que rir na cara dos haters.

Como o The Guardian disse, a imagem de várias mulheres negras dançando ao som de “You know you that bitch when you cause all this conversation” é um grito das vozes de todas as mulheres negras que são ignoradas e marginalizadas. Quem dirigiu o vídeo foi uma mulher, que também não é branca (Melinda Matouskas é descendente de gregos, jamaicanos e cubanos), e que dirigiu 8 vídeos da diva e já ganhou o Grammy. A data de lançamento também não foi por acaso: Fevereiro é o Mês da História Negra nos Estados Unidos. Saindo um pouco da esfera política, a música apresenta camada atrás de camada de uma sonoridade rica e envolvente, e Beyoncé explora os vocais de formas maravilhosas. É uma baita música.

Por isso, foi escolhida para o show de intervalo do Superbowl – junto com outras coisas irrelevantes de Bruno Mars e Coldplay. Eis que acordo para descobrir que a apresentação está sendo criticada ferozmente, com homens brancos se sentindo ultrajados. Em um dos textos que li, o autor acusa Beyoncé e Jay Z por serem apoiadores do “violento” movimento Black Lives Matter, e por investirem dinheiro para tirar pessoas da prisão durante os protestos em Baltimore.

No show, Beyoncé e as dançarinas fizeram uma formação de X, uma referência ao pantera Malcolm X, o que também foi muito criticado: ele é lembrado basicamente como um assassino. A verdade que sociólogos, ativistas e estudiosos como Peter Gelderloos já reconhecem é que ele foi mais importante pro movimento negro do que Martin Luther King – com a diferença de que ele não fazia uma luta pacífica. Depois, com o mesmo uniforme das Panteras Negras, elas se uniram com o braço para cima, símbolo da luta do grupo. Após a performance, algumas delas ergueram um cartaz pedindo justiça para Mario Woods, um jovem negro de 26 anos que foi morto pela polícia de São Francisco. Ronnisha Johnson e Rheema Calloway, organizadoras do Black Lives Matter e do movimento Last 3 Percent – representando o tamanho da comunidade negra de São Francisco atualmente, que diminui cada vez mais por causa da gentrificação crescente – também se envolveram na apresentação, entregando cartazes para as dançarinas.

O quão imenso é que isso seja transmitido no evento de maior audiência da televisão dos EUA?

E é claro que tem muita gente (racista) incomodada com isso – e os resultados de busca no Google não me deixam mentir. Mas a Beyoncé tá incomodando porque o que ela tá fazendo é gigantesco. Enquanto Emma Watson pede ajuda pros homens pra mudar a cultura, a Beyoncé tá lá, efetivamente mudando. E mesmo assim, a gente fica aqui, questionando o que ela tá fazendo, enquanto endeusamos Emma e Taylor. Volto à primeira pergunta do texto: por que será?

Aproveito para dizer pra todo mundo aproveitar o Carnaval pra ver o documentário da Angela Davis. E voltando à música, não dá pra ignorar que o refrão repetido é: “I slay”. A gente é obrigado a concordar.

David Bowie foi embora jovem demais

Dois dias antes de ir embora, no dia do seu aniversário de 69 anos, David Bowie nos presenteou com um disco novo. “Ir embora” é um eufemismo um pouco condescendente (e muito cruel), uma tentativa ilusória de fazer de conta que ele só está um pouco mais longe do que esteve todos esses anos de nós, mortais. Eu não ouvi o último disco – e confesso, por heresia que talvez me condene mais tarde – que ele não era meu próprio deus do rock’n’roll.

Mas a dois dias de fazer, eu mesma, uma cirurgia de câncer, esse pequeno conjunto de células poderoso que tirou Bowie desse mundo, é estranho, pra mim, ler essa notícia. É estranho como o câncer nos rouba coisas: ídolos, familiares, partes do corpo. De mim, vai roubar a possibilidade de ser mãe.

De nós, a possibilidade de mais maravilhas desse gênio.

Bowie fugiu da epítome de ídolo perdido, perfeito e fodido de Kurt Cobain, Amy Winehouse, Jimi Hendrix. Bowie não foi desperdiçado e endeusado em pedestais inventados, em imaginários de paraísos com todos os ícones que perdemos e acreditamos conhecer.

Ele viveu, e viveu bem, e viveu muitas vidas. Bowie foi um alienígena glamuroso, um viciado que dividia a dieta entre cocaína e leite, um Pierrot depravado e deslocado, Ziggy Stardust, Aladdin Sane, The Thin White Duke, e todas as alcunhas de cada uma das vidas que ele viveu. Ele teve mais vida que um gato.

Em um mundo que não faz mais rockstars, em que a cultura da subversão já foi banalizada a ponto de se apagar em si mesma, a arte se esgota e se perde em uma miríade infinita de lançamentos. Mas ele subverteu mais do que a música. Até antes dessa distorção pós-moderna, ele trouxe a androginia e realmente subvertia nossa ideia de gênero.

Seu último disco se chama Blackstar, e o último videoclipe, Lazarus, traz ele morrendo. Ele, tão famoso por saber o que iria acontecer em seguida, sabia que ia morrer. E, de certa forma, até isso conseguiu controlar.

Mesmo na última hora, Bowie rejeitou o arquétipo do gênio torturado e suicida. Mas o desespero dessas mortes jovens são os talentos desperdiçados, toda a arte que fica pra trás quando alguém vai embora cedo demais. Desse ponto de vista, jamais seria tarde pra Bowie. Nunca estaríamos preparados.

Sejamos sinceros: se tratando de Bowie, com 100 anos ainda seria cedo demais.

Compre todos os seus presentes de Natal num só lugar: como dar livros de presente pra todo mundo

Se você não gosta de livros, a chance de ganhar um presente meu é realmente minúscula, porque minha criatividade é suficiente apenas pra descobrir qual livro dar pra qual pessoa. Todos os anos, em todas as datas comemorativas, eu presenteio todo mundo com livros. SEMPRE. E com o Natal chegando, resolvi fazer uma listinha pra vocês se inspirarem!

Mãe: “A Desumanização”, Valter Hugo Mãe

Não, não é por causa sobrenome que relacionei o autor à figura da mãe. Acontece que a sensibilidade incrível que ele traz na narrativa sinestésica é o tipo de coisa que eu vejo minha mãe adorando. Maternidade também é algo que explora, de um jeito único e super delicado, nesse livro que, mesmo curtinho, é uma porrada.

Pai: “A Segunda Guerra Mundial”, Antony Beevor

Todos os pais que eu conheço – o meu, os das minhas amigas, os da televisão – adoram história. Esse tijolão sobre a Segunda Guerra tem quase 1.000 páginas e é pontuado por mapas explicativos e fotografias ilustrativas. O escritor, que já publicou livros específicos sobre o dia D, a batalha de Stalingrado e Berlim pós-1945, ficou 5 anos no exército e é um estudioso consagrado sobre o tema. Com uma análise detalhada, ele convida os leitores a reavaliarem momentos chave da guerra a partir de um contexto bem construído. Entretanto, a Rússia pediu que seus livros fossem banidos, acusando o autor de simpatia com os nazistas. É um livro complexo e polêmico, sem dúvida feito para ler, pensar e, sempre, criticar.

Irmã/irmão mais novo: “O Sol É Para Todos”, Harper Lee

O livro ganhou o prêmio Pulitzer não por acaso: é uma história que discute racismo do ponto de vista de uma criança que vai perdendo a inocência em relação ao mundo. Não consigo imaginar uma história mais delicada e adequada pra presentear se você é, como eu, irmã mais velha.

Caso amoroso: “Os Velhos Também Querem Viver”, Gonçalo M. Tavares

O livro chegou na minha estante através da recomendação insistente de um vendedor da Livraria Cultura do Conjunto Nacional da Paulista (eu não sei o seu nome, mas muito obrigada, viu, moço). O autor angolano-português desenvolve um poema épico com linguagem moderna e minha senhora, que livro espetacular. Sério. Terminei de ler e já comecei a segunda, de tão maravilhoso. E o melhor é que o livro já serve também como filtro: se a pessoa que está contigo não gostar, é hora de dar tchau. Essa pessoa realmente não vale a pena.

Afilhada, priminha, qualquer moça pré-adolescente: “Becky Bloom em Hollywood”, Sophie Kinsella

Da minha pré-adolescência e até meus 17 anos, mais ou menos, devorei qualquer livro da Sophie Kinsella que estivesse ao alcance da minha mão, dando gargalhadas de madrugada tão altas que eram capazes de acordar minha mãe. Os livros, engraçados, leves e divertidos, fazem a perspectiva de ler 500 páginas um prazer inexplicável. É uma ótima porta de entrada pro mundo da literatura. E quem não é apaixonado pelas aventuras inusitadas da consumista um pouquinho mentirosa e bastante crédula Becky Bloom?

Chefe: “Olhe Para Mim”, Jennifer Egan

Jennifer Egan é uma das minhas autoras favoritas dos últimos tempos. Vencedora do Pulitzer com o espetacular “A Visita Cruel do Tempo”, a intimidade que ela tem com a linguagem cria narrativas maravilhosas, com personagens inesquecíveis. Egan também tem como marca a vontade de ousar na estrutura da história e nos temas que trabalha. “Olhe Para Mim”, escrito durante a década de 90 e publicado em 2001, é quase uma clarividência: ele sugere a forma como a exposição de si mesmo e a curiosidade sobre a vida do outro serão dominante nos anos seguintes, inserindo o conceito ainda no estado de espermatozóide de reality shows. O livro é realmente incrível e certeza que sua chefe/seu chefe vai ficar impressionado com você depois de terminar de ler.

Melhor amigo: “As Virgens Suicidas”, Jeffrey Eugenides

Não é que você não possa dar esse livro pra sua melhor amiga – claro que pode. Mas insisto em que ele seja dado para homens por um motivo simples: o livro é um testamento da arrogância e ignorância masculinas, um tapa na cara do leitor macho que também acredita saber muito sobre mulheres. A história, espetacularmente contada sobre o ponto de vista de um dos garotos obcecados pelas irmãs Lisbon, fala sobre como eles tentam descobrir o mistério da vida delas. Descritas como seres quase irreais pela beleza que elas têm e pela distância a que os garotos são mantidos, elas são endeusadas e incompreendidas até o momento do suicídio. Por quê? Essa é a pergunta que perpassa o livro inteiro, com os garotos sempre tentando entender não só o motivo de elas terem se matado como o motivo de tudo o que faziam. É claro que não entendem nada – e não é isso mesmo que homens fazem?

Melhor amiga: “Mrs. Dalloway”, Virginia Woolf

Ah, Virginia, Virginia, como pode ter existido uma mulher tão incrível como você? As pessoas se rasgam por Kerouac e Bukowski, quando Virginia, tão mais maravilhosa, ainda parece distante – taí algo que nunca vou entender. “Mrs. Dalloway” é um livro que realmente merece a ideia de sublime descrita por Kant. Tudo – a linguagem, a narrativa, os personagens, o subtexto, os temas discutidos, absolutamente tudo – é maravilhoso. É um livro pra se verdadeiramente degustado, refletido e admirado. O tipo de presente que sua melhor amiga certamente merece.

Amigo secreto: “Como Conversar Com Um Fascista”, Márcia Tiburi

Esse presente pode ser usado em qualquer amigo secreto – inclusive a ideia é comprar vários exemplares e usar em TODOS os amigos secretos de 2015. O da firma, o da família, o da faculdade: não importa o ambiente, sempre tem alguém que pode se beneficiar desse livro. Começando pelo tipo mais óbvio, que não vai entender os motivos de ter ganhado o livro, uma vez que ele mesmo é um fascista potencial (aquilo que Márcia define como aquelas pessoas naturalmente anti-democráticas, que não vão sair batendo de verdade nos outros mas que são racistas, machistas, homofóbicas e opressoras de forma menos óbvia): ironia de primeira, dar esse livro de presente pra essa pessoa é como um tapa na cara de luva de pelica. Se a pessoa ler, melhor: quem sabe até faz refletir. Se não, a expressão no rosto ao abrir o pacote valeu o esforço, pode confiar. Caso quem faz parte do seu círculo familiar e profissional não seja – ainda bem – desse tipo, o livro é ainda mais legal: com clareza linguística e argumentativa, discussões sobre a construção cultural do pensamento de ódio e cruzamento entre as opressões sociais, ela traz uma análise que é simples e direta ao mesmo tempo que complexa do cenário político e social do nosso país. Mais para o fim, ela ainda nos brinda com um capítulo espetacular que deveria ser discutido em qualquer faculdade de jornalismo: como escrever para idiotas. Ah, verdade! Vale dar o livro pra professores também.

Taylor Swift, medo de envelhecer e “Enfim, 30”: esses são os melhores anos da sua vida?

– Você tem 24 anos, já vendeu 30 milhões de discos, tem 7 Grammys… onde você imagina que vai estar daqui 24 anos? – a entrevistadora pergunta. – Você vai ter quase 50 – completa.

– Eu… eu espero que eu consiga me permitir envelhecer com graça e serenidade – é a primeira coisa que Taylor Swift responde. – E eu espero poder envelhecer sem ter tanta ansiedade em relação a isso. Muita gente, principalmente pessoas públicas, costumam pensar que envelhecer diminui seu valor e sua relevância. E eu realmente espero que com o tempo eu ganhe mais sabedoria, use para o bem, e não permita que meu cérebro crie ansiedade em cima de algo que é natural, acontece com todo mundo.

Eu só percebi que tinha trancado a respiração porque expirei com força quando ela terminou de responder. Eu também tenho 24, e muitas ideias sobre os próximos 24 anos. Mas foi esse ano que eu percebi que eu não sou mais “tão nova assim”. Foi esse ano que eu senti meu corpo reclamar mais do que o normal pela falta de sono – e reclamar pela primeira vez do meu sedentarismo. Começar a ter uma conduta mais saudável diante da vida pareceu se tornar quase obrigação, uma mudança da perspectiva antiga de escolha.

Ter 20 e poucos anos é a melhor coisa do mundo – é só olhar pras personagens de séries e filmes da TV, pras modelos de propagandas, pros mil textos no Facebook que explicam com razões sensacionalistas que “estes são os melhores anos da sua vida”. Pra alguém com ansiedade crônica como eu, é compreensível prender a respiração pensando que minha felicidade tá acabando – que a conjunção estrelar que tornaria essa década maravilhosa já tá na metade. E tem só um ano que eu comecei a tomar anti-depressivo e senti pela primeira vez na vida o que é viver sem depressão!

Inspira, expira, Clarissa. Tá tudo bem. “Você nunca vai ser tão bonita como é agora”, alguém sopra no meu ouvido. “Vai ficar mais difícil emagrecer”. E essa nem é a pior parte: quando a paranoia chega, começo a pensar em como aos poucos minhas capacidades físicas vão se deteriorar. Minha visão sempre perfeita, minha destreza com as mãos, minha flexibilidade e resistência física. Até quando vou conseguir ler e escrever? E desenhar e pintar? E pensar? Meu deus, até quando vou conseguir pensar com a mesma agilidade que penso hoje?

Inspira, expira. Com 10 anos meu sonho era ser ginasta olímpica e me explicaram que era tarde demais pra começar.

A crise dos 30 chegou na minha vida cedo demais – mas tudo bem, eu sempre fui meio precoce. Lembro ainda a primeira vez que vi aquele episódio maravilhoso de Friends em que uma Mônica bêbada encara a nova década. Esse episódio é, talvez, a única coisa engraçada sobre isso. É com essa ideia na cabeça que o livro Enfim, 30, lançamento da duplinha que a gente adora Jana Rosa e Camila Fremder, chega em minhas mãos.

O livro tem aquele tom bem humorado e ocasionalmente auto depreciativo que a gente já conhece do sucesso anterior, Como ter uma vida normal sendo louca. Só que dessa vez o que entra em cena, mesmo de uma forma leve que faz a gente rir, é esse drama ainda maior pras mulheres: envelhecer. Mas a primeira coisa que o livro faz, de longe, é quebrar estereótipos.

Logo nas primeiras páginas o “pacote de cobranças” da juventude eterna começa a ser questionado, e vai evoluindo em capítulos sobre botox, em parágrafos sobre cirurgias plásticas (sabia que em 2013 foram feitas 1.49 milhão de plásticas só no Brasil? Valeu Jana e Camila pelo dado), e discussões sobre aquela coisa que enche o saco das mulheres desde que elas têm, sei lá, 10 anos: viver pra ser bonita. Que tal viver pra ser feliz?, elas perguntam.

A crise dos 30 em muito se deve ao famoso retorno de Saturno, o planeta regente de Capricórnio (o que já explica a chatice disso tudo, vamos combinar). O ciclo completo do planeta acontece a cada 30 anos e nesse primeiro ele vai ensinar a gente a amadurecer. “Saturno é o corte para a realidade, então é a gente conseguir lidar com ela, saber estabelecer limites. O grande sofrimento de Saturno é o confronto entre o ideal e a realidade”, o livro nos explicas. As angústias de enfrentar uma nova fase da vida são próprias pra cada um, e essa em especial encontrou ressonância em mim. (Tem um capítulo inteiro sobre isso com uma astróloga incrível, e fala também de crise dos 40, e é meio assustador mas muito maravilhoso, acho que é meu capítulo preferido aliás.)

“Não acredite na Gisele Bündchen e no Mark Zuckerberg”, elas mandam em forma de título de capítulo. Com anedotas que todos conhecemos de uma forma ou de outra, elas traduzem de onde vem a pressão para que, antes mesmos dos 30, já sejamos completamente resolvidas profissionalmente. E ricas. E muito lindas. E famosas. E namorando um galã do cinema. Em casa, eu costumo fazer comentários como: “Você sabia que com 20 anos a Jennifer Lawrence já tinha sido indicada ao Oscar? E agora ela já recebeu tantos prêmios que tem um artigo na Wikipédia exclusivo pra isso?” Meu namorado me olha com pena e fala, “Mas Clarissa, você tá se comparando com as exceções!”

É claro que nos comparamos com as exceções. Queremos ser as exceções.

Por outro lado, Meryl Streep, que já foi indicada tantas vezes ao Oscar que virou piada, ganhou o seu primeiro só aos 30, como atriz coadjuvante. A quantidade de histórias de pessoas não tão jovens assim que são bem sucedidas é imensa, só que elas não são interessantes – quanto mais jovens, mais desesperados ficamos, e mais gastamos em fórmulas mágicas pra rejuvenescer. Essa e várias outras histórias, todas um combustível na nossa auto-estima, são contadas num dos últimos capítulos, pra gente acabar o livro com um sorriso no rosto.

Mas a questão mais importante que elas trazem, e que eu já falei aqui, talvez seja: que tal ser feliz? Destruindo as noções do que é “ser bem sucedido”, aos 30 ou em qualquer idade, elas questionam maternidade compulsória, heteronormatividade, machismo e uma série de regras que supostamente devemos seguir pra atingir a almejada felicidade, e nos ajudam a descobrir o que nos faz feliz, sem se importar com o resto do mundo. (E o mais impressionante: elas falam de todas essas questões sérias e profundas com bom humor e uma linguagem que parece que a gente tá lendo uma comédia romântica leve, e não mergulhando em medos, colocando em cheque cobranças sociais e revolucionando a forma de ver nosso próprio crescimento.)

E principalmente: elas destroem a ideia de que os melhores anos da sua vida são agora, aos 20 e poucos. “Essa ideia está diretamente relacionados a ter dinheiro, homens altos (no caso sou hétero então é uma experiência minha) e festas muito loucas em várias cidades incríveis do mundo”, Jana reflete em entrevista para o blog. Camila completa: “Tive vários anos maravilhosos, hoje tenho 34 e posso dizer que amei os 15, os 18, os 25, os 28… Espero aos 90 dizer o mesmo de várias idades”.

Ler esse livro agora me deu uma tranquilidade em relação aos 30, e me fez esperar que elas tenham edições sobre os 40, 50, 60 e assim por diante pra me ajudar a ultrapassar todas essas mudanças, porque é tipo uma terapia intensiva que, ainda melhor, dá pra voltar e reviver a hora que quiser.

Escrever o livro também teve esse efeito terapêutico, elas contam no Petit Comitê. Mas envelhecer ainda é um desafio: “Ainda não pensei [nos próximos 30 anos] e me dá muito medo, tenho muito medo do futuro em geral, porque sou ansiosa e quero saber tudo o que vai acontecer e se vai dar certo o que planejei, então só de pensar em ter 31 já sofro, sofro por tudo, sou canceriana, sofrer é meu freela fixo”, Jana confessa, e me sinto um pouco menos sozinha (e esperançosa, porque motivos pros próximos livros tão aqui, viu, gente).

E se Taylor soube traduzir o que eu quero também, Camila dá a lição final: “Acho que vou adorar os 60, ninguém vai reclamar da minha falta de animação para festas”.

Opa, não era essa. É essa aqui: “Nada que eu imaginava que iria acontecer aos 30 quando eu era uma adolescente aconteceu, não arrisco imaginar mais do que isso.” Então que tal viver pra ser feliz? Pra terminar em clima de sabedorias, agora é a vez da Jana: “Acredito em melhores dias da sua vida espalhados em todos os anos”.

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Já comprou o livro? O quê? Ainda não? Então vem logo. É o investimento terapêutico mais barato da sua vida.

Literatura e “literatura feminina”: que bobagem é essa?

Monique Wittig, em um de seus textos feministas, defende a teoria de que existe um só gênero: o feminino, já que ser homem é o padrão. As frases dos livros de história sempre falam de conquistas dos homens, as teorias sobre a condição humana elaboram sobre as motivações dos homens. “Homem” é o coletivo de “seres humanos”, “eles” substitui “eles e elas”. Ser homem é ser normal. Ser mulher é ter um gênero.

Da mesma forma, a literatura per se é a literatura feita por homens e sobre homens. Quando existe alguma diferença em qualquer um dos fatores – se o personagem principal é do sexo feminino, se quem escreve é uma autora – automaticamente o livro leva a alcunha de “literatura feminina”, porque afinal apenas mulheres se interessariam pelas questões próprias de outras mulheres.

Escrever sobre a condição humana é legitimado na pele de homens. As angústias humanas são traduzidas e validadas quando na pele de personagens do sexo masculino. Porque, no nosso inconsciente coletivo, é dos homens o direito de sentir as coisas profundamente e de refletir sobre elas.

O Apanhador no Campo de Centeio, de J.D. Salinger (que era um abusador, aliás, mas isso é história pra outro post), traz o protagonista Holden Caulfield refletindo sobre a vida, sua solidão, seu futuro. Se trata de um romance psicológico que discute em grande parte sobre a existência humana. Do outro lado, temos um romance que é considerado alma gêmea de Salinger por alguns estudiosos de literatura, A Redoma de Vidro, de Sylvia Plath. O livro aprofunda e traduz em imagens fortíssimas a realidade da depressão. Também se trata de um romance psicológico que discute a existência humana.

Salinger é considerado um grande escritor de romances psicológicos, e a literatura que produziu é incontestável. Plath, que nasceu apenas 13 anos depois, é considerada escritora de literatura confessional e sua importância literária é altamente contestada – mesmo ela tendo um Pulitzer Prize e ele, nenhum.

A falsa simetria no mundo artístico entre homens e mulheres não é novidade. Esse ano mesmo a Pitchfork publicou um artigo excelente que analisava essa discrepância no mundo da música: “Homens que trabalham questões sobre arte e se tornam famosos são canonizados quando morrem; mulheres são contestadas, diminuídas. É provável que essa parcialidade ao tratar o assunto seja ligada à noção puritana da ‘mulher artista’, em que a capacidade de ter um bebê indica que ela não deveria e nem poderia mergulhar tão fundo na arte quanto homens. Uma vez, uma pessoa especializada em história da arte me disse lamentar o fato de que Yoko Ono jamais seria tão respeitada quanto seus conterrâneos homens por ser mãe: ‘Mulheres que vivem da arte e colocam seu trabalho em primeiro lugar são vistas como egoístas e negligentes com a família. Homens que fazem a mesma coisa são chamados de gênios consumidos pelo trabalho.’”

Uma vez, entrevistando uma das moças do Warpaint, ela me disse só ler coisas de homens por acreditar que a literatura das mulheres não era tão capaz. Bukowski, um babaca que escreve mal sobre as mesmas coisas sempre, é endeusado em círculos literários. Jack Kerouac é a voz de uma geração. E enquanto isso uma quantidade de mulheres divinas como Virginia Woolf, Sylvia Plath, Harper Lee, Emily Dickinson, Donna Tartt, Emily Brontë (inclusive considerada por Bataille a escritora de um dos melhores livros do mundo, “sendo certamente a mais bela e profundamente violenta história de amor que existe”, nas suas palavras) e mais recentemente Jennifer Egan, ganhadora do prêmio Pulitzer em 2011, entre várias outras, são quase invisíveis. Egan escreve histórias em que discute o tempo e o futuro com frequência, intercalando narrativas, personagens, pontos de vista e angústias de forma espetacular.

Nós temos dezenas de filmes e documentários dedicados a escritores homens, como o maravilhoso recém lançado The End of The Tour, sobre o ainda mais maravilhoso David Foster Wallace. Sobre mulheres, a lista é realmente mais curta: dos mais recentes, temos de um lado o glorioso As Horas e do outro o superficial e mesquinho Sylvia, que reduziu uma escritora genial a uma mocinha ciumenta e imatura.

A própria J.K. Rowling, primeira pessoa do mundo a se tornar bilionária escrevendo livros, após as críticas de seu primeiro romance pós-Harry Potter, se viu obrigada a se esconder atrás do nome de um homem para ser bem recebida. Pensando que Mortes Súbitas é um drama familiar que trabalha política e relações pessoais de uma forma incrível que poderia, talvez, lembrar Tolstoi, torna tudo ainda mais absurdo. Aliás, ela escondeu seu próprio nome em siglas em Harry Potter por instruções de seu agente: com nome de mulher, as chances de sucesso seriam pequenas.

Gillian Flynn, autora do best-seller Garota Exemplar, é também desmerecida com frequência pela estrutura de thriller dos seus livros. O filme homônimo, na minha opinião horrível, não ajudou a autora: mas não foi ele, nem de longe, o responsável pelos comentários preconceituosos que dirigem a ela. Em seu primeiro romance, Objetos Cortantes, ela escolhe falar sobre níveis de loucura, em uma trama familiar com camadas e mais camadas de segredos e emoções conflitantes, que é impossível não encarar o teto por horas depois de cada soco que o livro nos dá. A escritora é especialista em trabalhar um tema que é muito ignorado na arte: a raiva e a violência feminina. Esses sentimentos, geralmente relegados a mulheres histéricas e ciumentas, retornam aqui com motivos de psicopatia e crueldade intencional, em personagens muito bem construídas que não deixam dúvidas da complexidade de ser mulher.

Eu deveria poder falar “de ser humano”, mas curiosamente esse ponto só é aceito em relação a homens. Uma pesquisa feita no Brasil em 2013 analisando mais de 250 romances brasileiros a partir da década de 90 revelou que 93.9% dos escritores são brancos e 72.7% são homens. Em relação aos personagens, o cenário é o mesmo: 62.1% são homens; 25.1% das personagens mulheres são donas de casa; apenas 7.9% dos personagens são negros, sendo que só 5.8% são protagonistas e 2.7% narradores.

É fácil olhar para o passado e eleger algumas mulheres para admirar: Harper Lee e Virgínia Woolf são quase inquestionáveis. O Sol É Para Todos definiu uma geração, e o livro até aparece em séries atuais como a razão de muita gente ter escolhido Direito. Mrs. Dalloway é um dos melhores livros de todos os tempos, e veículos como The Guardian e a TIME concordam.

Mesmo assim a maior parte das escritoras continua sendo julgada como inferior. Quando falamos de escritoras modernas, o fato se intensifica. Deixam às mulheres o papel de escrever livros comerciais e lixos literários como 50 Tons de Cinza enquanto aos homens servem os prêmios e a glória. É claro que homens também escrevem livros ruins, com personagens mal desenvolvidos e apenas ambições comerciais, como por exemplo Sidney Sheldon, Dan Brown e o nosso clichê brasileiro Paulo Coelho, mas até mesmo nessa categoria eles recebem mais respeito. Porém, independente de quantos forem, são as mulheres as conhecidas por produzir esse tipo de literatura.

Recentemente, recebi o livro O Segredo do Meu Marido da mesma amiga que me trouxe Gillian Flynn. A história explora a vida de três mulheres de realidades muito diferentes, dramas diferentes e personalidades diferentes, que se cruzam ao decorrer da história. Discutindo gênero e história na trama, Liane Moriarty nos brinda também com estereótipos quebrados, reflexões sobre distúrbios de ansiedade e uma narração irônica em que as próprias personagens são vistas de forma completamente diferente dependendo do ponto de vista que lemos. A capa, porém, com tipografia arredondada, uma flor e bastante rosa, jamais transpareceria tudo isso.

Por que concluímos que apenas mulheres devem ter interesse por assuntos de mulheres? E mais: por que as editoras reduzem drasticamente o número de possíveis leitores de um livro sério que trata de assassinato, luto e culpa com cores leves e uma letra bonitinha?

É óbvio que esse fenômeno não é uma reação dos leitores – embora é lógico que a realidade social patriarcal crie leitores mais propensos a livros de e sobre homens – mas desde a escolha de livros a serem publicados até a embalagem em que eles vêm interferem nesse processo. Das editoras aos críticos, existe um processo sistemático de diminuição do valor de livros de mulheres.

É importante reconhecer essa diferença se temos alguma vontade de que ela mude – e temos, é claro. Pra começar, podemos começar com algo bem simples: que tal ler mais mulheres?

Minha buceta é o poder!

Eu trabalho no meio da música e muita gente que se diz culta estremece ao ouvir as músicas da Valesca, especialmente as que vieram antes de “Beijinho no Ombro”. Essas músicas anteriores são acusadas de bagaceiras (mas rappers e rockeirinhos metidos a macho enchendo as músicas de palavrão é cultura, ahãm, tá bom, pode crer). Mulher falando da própria anatomia é sempre ofensivo.

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O primeiro resultado no Google de uma busca “pênis + cheiro” é sobre sintomas de doenças e atenção à saúde. Quando buscamos “vagina + cheiro”, o resultado mais relevante ensina a disfarçar os odores naturais. “Cheiro de homem” é uma expressão que remete à virilidade e supremacia masculina. “Cheiro de mulher”…. bom, esse tem que ser encoberto. Em uma busca rápida em sites de farmácias, encontrei hidratante, ducha higiênica, desodorante, sabonete, lenços e até perfume dedicados exclusivamente a disfarçar o cheiro da vagina. Existem receitas com iogurte natural, óleo da árvore de chá, vinagre de maçã (tudo diretamente na vulva) e até indicações de mudanças alimentares.

Na Idade Média, segundo minha professora de História da Arte, a Igreja tinha um manual que detalhava inclusive os tipos de pensamentos que poderíamos ter na hora do banho e de usar o banheiro. O banho, aliás, era feito de roupa: o contato com o próprio corpo era eliminado ao máximo, e o controle do que pensávamos em momentos em que o nosso corpo se encontrava conectado com nossas funções fisiológicas fazia parte dessa desumanização. Nós, mulheres, ainda nos depilamos, usamos perfumes, nos maquiamos, fazemos as unhas, alisamos os cabelos, e principalmente eliminamos todo o nosso cheiro natural – a intenção de uma plastificação da mulher, de deixá-la cada vez mais distante das funções corporais é a manutenção da nossa desumanização.

Nós nos distanciamos do nosso ser pessoa e nos aproximamos do ser boneca, elemento decorativo social. Destruindo nossa conexão com nosso corpo, se quer destruir nossa percepção da nossa humanidade.

Quando o absorvente foi inventado, em 1920, o criador não conseguia encontrar lugar para publicar seus anúncios: nenhum veículo queria falar publicamente sobre menstruação. Ainda hoje matérias sobre isso substituem vagina por “naquele lugar”, alegam que sem o cheiro natural da vagina é mais fácil receber sexo oral, falam que o odor natural é motivo de vergonha. Ou seja: tudo relacionado ao nosso órgão reprodutor é sujo.

 

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Enquanto isso temos campanhas de saúde “lave o pinto”
porque anualmente mil homens perdem o órgão sexual
por câncer de pênis causado por falta de higiene.

 

Até mesmo em grupos feministas discutir a nossa anatomia virou tabu. Falar em útero, gestação, menstruação? Não pode. As mulheres grávidas e mães são esquecidas, abandonadas. As mulheres com dúvidas em relação à própria saúde podem contar só com o Google, já que são rechaçadas inclusive em espaços onde deveriam ser acolhidas.

Não bastasse isso, existem cirurgias plásticas vaginais destinadas exclusivamente a deixarem a vagina “mais bonita”. Existem cirurgiões especializados em vaginoplastia e rejuvenescimento vaginal. As cirurgias não têm como objetivo algum problema fisiológico, e nem mesmo aumentar o prazer sexual. Elas têm como único objetivo fazer vaginas mais atraentes – tipo aquelas que apareciam na Playboy. A Society of Gynecologic Surgeons já alertou que esse tipo de cirurgia pode causar cicatrizes dolorosas e até danos nos nervos responsáveis pelo prazer, impedindo a função sexual, tornando a vulva extremamente dolorida ou completamente anestesiada de forma permanente.

Mesmo nesse cenário assustador, a procura para esse tipo de procedimento só aumenta. Os anúncios em jornais locais dos EUA, especialmente em Los Angeles, também. Estatísticas mostram que, nos últimos 5 anos, essa tendência só cresceu – e de forma exponencial. Os anúncios ainda explicam que se trata de uma correção para vaginas com aparências mais assimétricas, com lábios externos e superfície irregular. Afinal, a própria existência do nosso órgão como foi feito naturalmente é um erro: o termo usado pelos cirurgiões é exatamente esse, correção. Os tentáculos dos padrões de beleza atingem até as partes mais íntimas do nosso corpo (aliás, pra que serve a depilação…?) e mulheres com bucetas que não são lisinhas, clarinhas e delicadas precisam ir pra faca.

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Tá na hora de parar com essa palhaçada.

Nossa buceta é linda, cheirosa e gostosa ao natural. Isso sem falar que a gente tem um órgão inteiro só destinado ao prazer, um botãozinho da facilidade. Vamos virar as costas pra essa indústria que lucra em cima da nossa infelicidade? Pra esse machismo capitalista e explorador? Vamos nos amar?

E se a nossa buceta não fosse tão maravilhosa, a natureza não ia ficar imitando, né?

Achei por acaso e me apaixonei: “The Americans” e “Switched at Birth”

Quem vê mais séries do que deveria sabe: depois de se esgotar todas as séries que são sucesso no momento e todos os clássicos, a vida se torna em grande parte uma busca no arquivo do Netflix. Quando a nova série é encontrada, alguns momentos de paz chegam – geralmente curtos, porque viciados em séries têm a incrível capacidade de assistir episódio atrás de episódio por horas a fio (o meu recorde pessoal foi 15 horas). Mas todo mundo que já passou por isso sabe como a empreitada é difícil: uma sequência de pilotos ruins e séries chatas abandonadas pelo caminho até encontrar aquela pérola, que geralmente chega no formato de alguma indicação confiável – seja por um amigo ou algum blog.

O Netflix devagar se torna um pouco esse amigo, indicando com as cinco estrelinhas vermelhas que você vai realmente amar aquela série. Ele nem sempre acerta – e geralmente vou confiar só após alguma insistência, algumas semanas vendo aquela mesma série na minha página inicial. Foi assim que me deparei com essas duas maravilhas. Ficam aqui minhas duas indicações da vez.

The Americans

Nos anos 80, em plena Guerra Fria, dois espiões russos vivem nos Estados Unidos. É essa a premissa da série que se revelou uma das melhores que eu já vi. Com uma abordagem que passa longe de ser panfletária norte-americana e que joga no lixo clichês machistas, cada episódio é uma dose a mais de entusiasmo. Os espiões são um casal: um cara normalzão e uma mulher linda, maravilhosa, por quem me apaixonei completamente. Em uma cena em que um deles precisa distrair oponentes, seria fácil demais colocar a mulher em roupas curtas e decotes enquanto o cara faz a parte difícil. É isso que eles fazem? Claro que não: é ela quem comanda a cena enquanto o cara funciona como bibelô. Esse e outros momentos confirmam que além de ser possível é maravilhoso ir contra estereótipos de opressão.

Além disso, a série nos brinda com diálogos inteligentes, relações complexas e personagens muitíssimo bem construídos: Elizabeth, a protagonista que roubou meu coração, tem uma das construções mais incríveis da televisão. Vale a pena. Demais.

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Switched at Birth

Essa poderia ser só mais uma série adolescente, não fosse o fato de metade do elenco ser surdo. Sim, é isso mesmo: as discussões sobre viver com alguma necessidade especial é central na série. A forma como o mundo é hostil a essas pessoas, não só no nível social mas também no nível físico que diz respeito ao acesso básico às coisas, é exposta de forma que deveria deixar todos nós envergonhados.

Racismo também é um dos temas centrais, especialmente quando uma das protagonistas, Daphne, filha biológica de brancos ruivos que cresceu em um bairro latino, se inscreve uma bolsa para pessoas latinas. “Você poderia falar sobre situações sociais em que você foi oprimida pela cor da sua pele?”, a entrevistadora pergunta. E ela percebe que, por mais que tenha sido criada em uma cultura latina, a sociedade inteira a vê como branca. Machismo, quando abordado, varia de assuntos que deveriam ser simples até os mais complexos: Bay, a outra protagonista, é estuprada em uma situação bastante confusa pelo ex-namorado e amigo. Ele não tinha consciência que estava estuprando. E ela demorou a perceber que aquela sensação de que tinha algo errado era porque se sentiu violada. Quando ela decide ir em frente, ele avisa que ela vai destruir a vida dele, e implora pra que ela não faça nada. Afinal, “ele é um cara bom, não foi de propósito”.

Poucas coisas na série são simplificadas, e, apesar do drama novelesco, ela abre espaço pra discussões profundas. Arte de rua é outra delas: “Eles precisam nos enxergar”, diz uma das personagens. Revolução também: quando querem fechar a escola para alunos surdos, é isso que eles fazem. É claro que a série não é perfeita, e existem pontos discutíveis. Mas é raro que tantos pontos trabalhados sejam tão interessantes quanto aqui – e que incentivem mudança e inclusão (eu mesma resolvi aprendi linguagens de sinais depois de ver). É diversão sem esforço, mas com significado.