Notas sobre o hospício II – Os médicos e o pensamento manicomial

(a foto é um auto-retrato de 2015) // (parte um do post)

Eu queria acreditar que eu tinha sorte. Mas eu sabia que o que eu tinha era só um plano de saúde melhor. Mais caro.

Essa era a única diferença entre mim e todas as outras pacientes. Essa e o fato de que eu recebia visitas médicas diariamente, e elas passavam três, quatro dias ou mais sem ver o médico.

Minha mãe tinha sido contra a internação, desde o começo. Quando fui, acreditava que era porque ela não acreditava na minha dor. Quando saí de lá, vi que era porque ela faz parte da abordagem anti manicomial.

Eu imaginava que diariamente teríamos grupos de psicologia, consultas médicas, terapia, atividades. Eu acreditava que teríamos equipe suficiente para que víssemos o sol, fizéssemos caminhadas, buscássemos processos curativos variados.

Nos dez dias que passei lá, participei de um grupo de psicologia com um psicólogo bundão, que nos tratou como crianças de 7 anos, e foi lá pra ler um monte de regras. Ele não falou, mas é óbvio que a leitura aleatória das regras tinha um subterfúgio: alguma coisa tinha acontecido para que ele fosse até lá, falar pra todo mundo que um estupro e uma amor têm a mesma origem, o toque. Descobri depois que era a presença de pessoas bissexuais, como eu. Porque somos bichos, porque não podemos ver outra mulher, porque se abraçamos uma amiga precisa ser com segundas intenções.

De psicóloga, conversei duas vezes com uma. E dela, não posso reclamar: foram conversas úteis, fortes, que mexeram comigo, que me ajudaram a refletir sobre questões fortes. Ela fez o trabalho muito bem: me pegou pela mão e me conduziu aos pouquinhos pela escuridão do meus sentimentos, pra que eu fosse me acostumando com eles, aceitando, conseguindo quem sabe até superar. A ela, só tenho a agradecer.

A nutricionista tava doente quando cheguei. Demorou três dias pra que alguém falasse comigo sobre eu ser vegetariana, sobre ter uma dieta adaptada pra minha condição (síndrome de câncer). Nesses três dias, fui obrigada a comer carne pra não passar fome, entre outras coisas que me deixavam enjoada e com o estômago revirando.

Fui tão sedada no começo que mal conseguia pensar. Tinham que me dar comida na cama. E entre os remédios que eu tomei estavam anti psicóticos fortes pra um surto sem psicose, anti psicóticos que me deixaram pra sempre marcada do horror que é sentir aquele embotamento afetivo que nem a pior quimioterapia tinha me feito sentir. Essa apatia é inexplicável. Vem de um tédio tão profundo que qualquer possibilidade de reação é impossível. E você sabe, você tem certeza, naqueles momentos, que nunca mais vai sentir qualquer alegria.

A rotina da clínica, que foi tão bem referenciada em pesquisas pela internet, que se mostrou uma das melhores do sul do país, é uma cópia de manicômios. Me lembrou da leitura de Holocausto Brasileiro, da jornalista Daniela Arbex, sobre o Colônia, manicômio de horrores que existia em Barbacena, em Minas Gerais. Guardadas as devidas proporções. Mas serviu pra lembrar especialmente que esse tipo de visão médica ainda existe. Que o louco, pra equipe, quando fala, só serve pra validar a própria doença.

Eu sou muito honesta, até quando vou quebrar regras. Na clínica, celulares eram proibidos. Pedi pros meus pais levarem o meu celular em horário de visita, para que por uma hora eu tivesse contato com a internet, com o Facebook, com a vida normal. Pedi isso porque entendi que a saída da clínica pra realidade seria brusca demais. Que ficar dez dias enfurnada e protegida num lugar pra ser jogada aos lobos em seguida era menos inteligente do que experimentar coisas que me deixavam ansiosa quando ainda estava em um ambiente protegido. Falei isso pra minha médica. Sabia que era contra as regras, mas falei pra ela, porque queria honestidade no tratamento, porque queria ouvir dela sobre minha interpretação de ver as redes sociais ainda internada, que seria melhor pro meu tratamento.

Ela contou isso pros meus pais, que logicamente sabiam, mas contou isso sem conversar comigo sobre falar com eles. Sigilo médico-paciente vira uma piada num lugar em que você é louca com tendências suicidas. Ela contou, e contou para usar isso como motivo pra minha internação por mais tempo. Que seguir as regras é parte da cura. Que a desobediência é parte da doença. Que meu passado de adicção em drogas (!!!) mostrava que eu tinha impulsos descontrolados e que não estava conseguindo controlar nem ali dentro.

(Pra quem tá se perguntando, eu acabei decidindo por não usar o celular, porque não queria causar problemas – antes mesmo de a médica falar isso pros meus pais.  Continuo acreditando que teria sido melhor pra mim.)

As clínicas psiquiátricas são também uma ferramenta do nosso mundo capitalista e patriarcal, que vê a loucura – essa patologia tão expressiva e sintomática do descontentamento com a realidade injusta – como uma praga, e que busca transformar o louco em um ser obediente. A cura, ela me disse, é ligada à obediência.

As clínicas querem nos fazer abaixar a cabeça pro sistema.

Saímos de lá anestesiados, robôzinhos condicionados que sabem que com uma campainha é hora de comer, que abrem a boca pra mostrar que tomaram o remédio, que têm medo de ficar na rua depois das 18h, quando as portas fecham, porque eles podem anotar. Eles podem anotar tudo o que você faz de errado. Qualquer descontentamento que gere uma atitude desobediente. E tudo isso prejudica sua alta.

Minha alta foi a pedido da família, essa atitude que eles condenam como outra praga, como se os familiares fossem incapazes de pensamentos próprios e manipuláveis pelo paciente. Alta pedido ainda vem um presente: você sai de lá sem receitas e sem nota de alta. Você sai de lá como se fosse ainda louco. Sem saber que remédios tá usando, o que é um direito seu. Você sai de lá regredindo no tratamento, como uma punição por ousar ir contra os magnânimos médicos do lugar.

Tentaram me assustar falando isso, médicos, técnicos, enfermeiros. Eu ria na cara deles: “meus pais são médicos, eu tenho cinquenta receitas dessas na hora que quiser”. Mas e as pessoas que não são filhas de médicos? Que dependem dessas receitas pra se tratar? Eu cheguei louca, mas fiquei bem. Nos últimos dias, tava ficando louca de novo. Quantas pessoas prejudicam o próprio tratamento por causa de uma folha de papel que a clínica, cruel, burra, como um manicômio, nos priva? Até quando a opinião do paciente vai ser considerada uma besteira, um capricho de louco, perto da toda poderosa opinião médica? O que nos privam é dos nossos direitos, da nossa dignidade.

Meus pais me tiraram de lá. E foi simples: eu já tinha saído do surto. Eu tava lá só pra ajustar a dose de um remédio específico (lítio), processo que minha mãe faz ambulatorialmente com os pacientes dela. Meus pais são médicos, já articularam consultas com uma psiquiatra fora da clínica e minha terapia. Minha mãe inclusive tirou licença pra cuidar de mim.

Com tudo isso, a médica devia ter achado maravilhoso que eu tivesse um suporte como esse pra terminar o processo curativo em casa, com meus bichos de estimação, minha família, com tudo que me faz bem. A reação dela foi dizer que isso ia contra os procedimentos da clínica e eu só sairia antes de completar 15 dias com alta a pedido de familiar. Que mesmo com o respaldo da minha psiquiatra, eles não me liberariam antes desse tempo.

Eu pensei, tentando entender o que faz um médico tão facilmente descartar o bem estar do paciente em nome do procedimento. E então percebi: a clínica tem diárias, que meu plano – tão bom, tão caro – tá pagando.

No fim, a única coisa que eu ainda tenho é minha voz. Meu texto. E por isso que continuo escrevendo.

Esse é meu Lemonade – poemas

1.

what are we doing to each other?
why is the world so ugly?

that we have to fuck, kill and smother
every last damn good thing that lasts and lives
and loves and breathes and ends.

right now, it ends.

in that same moment when the Lexapro ends
you’re broken – i’m broken – this ends

we had chosen one another and then
fucked, killed and smothered.

closed every open (open?)
doors, eyes, ribcages

the moment i’ve stopped moaning
secrets piling up in the backstage

unfrozing.

you’re broken?
i’m broken.

right now, it ends.

the hoping, the omen, the smoking, the stolen
everything.

the atonement.
we’re broken.

2.

for all the girls my husband picked
(to break me in pieces)
and talk and lie and cease his
little male insecurities

i say:

i’m sorry that he used you
as vessels for a needy ego,
as a shoe, a pursue, an avenue
to a mental handjob

how could he be such a slob?
with my feelings? with whole human beings?
as you? and me?

is it the love of the screw?
or is it this maleness spree?

i am finally free.

3.

at this moment, i hate you less
and love you more

what did you expect?

don’t worry,
i’ll hate again in just a sec.

4.

how many wonderful women
being ripped apart by vile men?

infatuated with their own maleness
as well trained dogs, chasing their tail

for how long patriarchy will fuck up our lives?
and to which scale?

destroying women, girlfriends, wives,
their faces wet, sad, and pale?

and how many women have, like knives,
cut their sister’s throat in exchange

for the cheap ego boost that arrives?
when men are men and we cry?

and the concept of friendship, that survives
despite men, and then die

for how many women have left
their sisters alone in the night?

5.

how many hearts are breaking
at this very second?

and how many times have we asked
this single question?

have you ever written a book of lies
while staring deep into your lover’s eyes
as if they were round globes mades of skies
right from van gogh’s starry night?

are you mastering the art of deceit?
painting whole pictures with the blood i bleed?
is this your masterpiece? learning to cheat?
and hide? and then pressing repeat?

is this the spreadsheet of our love’s portrayal?
column A, the things you said
and column B, the betrayal?

have i made you up inside my head?

how dark, how bittersweet, how sad
is it when i think i want you back?

6.

56% of people cheat

you brought me here,
this page of a magazine,
shining.

a statistic I feared
becoming.

yet, here I am.

I am only 25
hundreds of lives
inside.

your honesty –
what’s left of it.
new promises –
I want to believe.

how can I
– or anyone –
believe in a man?

I should have asked
that first time
you took my hand.

7.

the murdered sex drive
the dry pussy
the blind longing that I’ve
given up, biting my juicy
roman in the land
of gods, nodding to bright
realizations as you touched
my hand last night
that it doesn’t take much
to kill a love, I am only 25
and already dead inside.

8.

You wrote a poem to me
I cried, so sweet,
pregnant with belief

You talked about honesty
it was so quick
3 minutes (it goes so fast)
the nurse said
(if you want an universe)

I want to leave
and go back, back, back
to you

Do what we always do
(Fuck, fight, and fall
in love too.
Everytime.)

9.

To forgive is to love is to live
is to forget is to remember
is to come back is to pretend
is to endure is to be sure
is to not know is to trust
is to lust is to want is to need
is to breathe is to cringe
is to kneel is to feel
is to bleed is to break
is to be is to ache.

10.

This is for the love that I lost
and for the pain that I gained.

This is for the feelings that frost
only to warm up again.

This is for the friends that you cost
me, and for the ones that remain.

This is for the crazy, the most
real thing in this train.

11.

Asking for advice for people in a mental institution,
is like writing letters for the dead.
As they tear apart our constitution,
the sadness of millions of brazilians fill my head.

Still
my depression is selfish
floating and glowing like jellyfish
at night
The ashes of a relationship
that died.

Asking for advice for people in a mental hospital,
is like drowning in butterflies.
Their wings caress you, you fall
still expecting to fly.

The lack of shoelaces.
This is a windowless city
You were greedy
and now I’m here.

Asking for advice for people in a psychiatric ward,
is like going to war with a flower.
It’s pointless, even silly, against power.

The ghost of your wedding bend
is everything on my finger at this hour.

12.

I imagine the gods,
merciless.
My womb, pregnant,
babyless.
Your voice, confessions,
hopeless.
Apologies, “I’m sorries”,
faceless.

I imagine the angels,
dancing.
I curl, twirl into you,
heart racing.
You count, one two,
chasing.
The rhythm and the blues,
embracing us.

I imagine the demons,
laughing.
They look at me,
cracking.
They smile at your
wrecking.
The lust, the trust,
lacking.

I imagine the souls,
crying.
My insides, yours,
trying.
You say, “my love’s not
dying”
You want me, you need me,
finding

That I
can be
please see
you nod
you say
a little god
in a small way.

13.

the end, with beyoncé

So, what are you gonna say at my funeral, now that you’ve killed me?
“Here lies the body of the love of my life
Whose heart I broke without a gun to my head
Here lies the mother of my children, both living and dead
Rest in peace, my true love, who I took for granted
Most bomb pussy, who because of me, sleep evaded
Her shroud is loneliness, her God was listening
Her Heaven would be a love without betrayal
Ashes to ashes, dust to sidechicks”

Notas sobre o hospício

Fui internada.

Os primeiros dias na ala mais fechada da clínica psiquiátrica foram passados na cama, numa sedação intensa, num embotamento afetivo inexplicável, causado pela mistura de anti depressivos, ansiolíticos, anti psicóticos, anti depressivos, estabilizadores de humor. A última vez que tinha tomado tantos remédios, eu tava com câncer.

Conheci pessoas incríveis, passei a maior parte do tempo conversando e colecionando histórias, sentimentos, ideias. Valeu a pena. Eu precisava. Mas trago notas:

# Na ala mais fechada, um quadro gigante mostra o nome das pacientes e o risco que elas representam. De queda, de fuga, de agressão, de uso de drogas. De suicídio. Meu nome era limpo, salvo pelo último. E a exposição pouco importa: pouca gente tá lúcida. E todo mundo ali é fodido. Não tem ninguém pra te julgar.

# As horas, que se arrastavam como se contivessem dias inteiros em cada uma delas, torturavam. A gente contava o tempo pelas refeições, e o período entre elas era de espera. O estado de lá é de espera. É curioso, pra alguém como eu, que quero fazer tanto ao mesmo tempo, me encontrar sem nada, nada, nada pra fazer. Sem nada que satisfaça uma necessidade básica de sentir prazer em algo. O prazer é um luxo.

# É curioso ser rotulado como louco, isolado de todo o contato para se esperar a recuperação. Qualquer impulso de injustiça, qualquer vulnerabilidade ou vontade é descartável embaixo desse rótulo. A nossa humanidade é limitada, destruída aos pouquinhos, a cada insatisfação. Existe um pacto de silêncio auto inflingido pelas pacientes, porque qualquer vocalização é palavra de gente que não tá sã.

# Os tênis são sem cadarço, e demorou um segundinho pra entender o motivo.

# Lápis e canetas eram proibidos na ala fechada. Explodindo de poemas, eu escrevia em letras gigantes com giz de cera meia dúzia de versos pra guardar na memória esses embriões de poesias.

# As ligações, pra quem pode receber, duram três minutos cronometrados. São no horário do almoço e da ceia, e geralmente encontram um ambiente barulhento que dificultam a troca breve de comprimentos. Se eu peço pra encostar a porta da enfermaria, ela me diz que não. E se assim eu não consigo ouvir nada, ela me diz que sente muito, e vira as costas.

# Existem muitas enfermeiras e técnicas maravilhosas. Encontrei anjos lá. De verdade. Mas existem muitas enfermeiras e técnicas que não se importam com a nossa dor e esquecem de buscar quando pedimos medicamentos, ou que moldam as regras ao seu favor sem se preocupar se nos prejudica, como adiar o horário da ceia e dar junto com a medicação para facilitar o trabalho, mesmo que todo mundo fique com fome, mesmo que o certo seja dar a medicação depois de comer, mesmo que muita gente fica grogue assim que o comprimido desce na garganta. É curioso como as regras e as normas são facilmente mudadas quando é pra interesse alheio.

# Tem dias em que não tem copo, e se você não encontra uma garrafinha de plástico de água pra chamar de sua, você fica sem beber água. Tem gente que busca no lixo, lava, e usa, porque também não podemos pedir pra ninguém levar.

# Os contatos, apertos de mão, e abraços são proibidos. A gente abraça mesmo assim.

 

 

Esse é o meu “Lemonade”

O cara viveu cinco anos contigo, te pediu em casamento, fez planos e promessas. Um dia você descobre que toda vez que ele ficava deprimido e sozinho, com depressão, enchia a cara escondido, abria o Facebook e via que minas estavam online pra ele poder dar em cima. De maneiras ridículas, tipo “se eu fosse solteiro, teria chances contigo?”. Desumanizando essas mulheres completamente, como uma masturbação pro ego.

Um dia, há uns sete ou oito anos, um cara fez isso comigo. Não tava bêbado, tava sóbrio, e passou meses dizendo que abriria mão da namorada de três anos por uma chance comigo. Ela me odiava, eu sentia pena dela. Hoje, eu sou ela.

Todo mundo sabia. Grandes pessoas que eu considerava amigas. Outras que não me conheciam direito. Muita gente não me falou porque ele era tão maravilhoso, tão amoroso, tão inteligente, as meninas que estavam inventando histórias. Ah, que ironia deliciosa do nosso mundo machista, né?

Descobri que esse homem transou com uma menina que anos depois veio a se tornar uma das minhas melhores amigas. Nenhum deles me falou. Mas foi fácil perdoar ela. Não sei explicar – é um tipo de amor muito diferente entre as mulheres. Se você ler isso, querida, tá tudo bem. To aqui pra ti.

Eu amo muito esse homem, ainda. A gente deu muito certo juntos, por muito tempo. E foi muito feliz. Eu não sei se vou terminar tudo ou se vou tentar de novo, com AA, terapia, remédio.

Mas é engraçado ter tanta gente me julgando, perguntando “que feminista essa que fica com macho assim”? (Menos as feministas radicais. Elas estão me acolhendo. E algumas mulheres incríveis que passaram por isso e com quem eu conversei. E as minhas melhores amigas. Obrigada.)

É engraçado que várias dessas meninas que corresponderam as investidas dele encheram meu inbox ao longo de meses, às vezes mais, com declarações de adoração, de como eu escrevo bem, como sou linda, como sou inteligente.

É engraçado que nenhuma das minhas amigas tenha me falado.

É engraçado que tenha menina falando mal de mim por aí.

É engraçado que eu queira ficar.

É engraçado que vai ter gente me julgando se eu ficar

De qualquer forma, meu curativo é sempre arte. Dizem que a tristeza ajuda a arte e eu penso: minha arte tava bem o suficiente sem essa merda. Mas enfim. Vou continuar escrevendo durante a semana algumas dúzias de poemas ruins em inglês, com erros mesmo, e foda-se. Esse é o meu Lemonade.

Vozes da África: conheça os livros bons e belos da Editora Kapulana

Toda vez que vejo aquelas amizades invejáveis – tipo o pisciano David Foster Wallace e o leonino Jonathan Franzen – fico pensando que queria ser amiga dessas pessoas incríveis. Mas quando olho ao meu redor, percebo que tem tanta gente maravilhosa pelos 20 e poucos anos que ainda vai fazer história. Se for pra falar de conhecer gente foda, eu tenho muita, muita sorte – e uma leonina pro meu coração pisciano. A Amanda Azevedo, de quem já falei aqui e que foi a razão por trás da criação do meu canal no YouTube, é ilustradora e diretora de arte da Editora Kapulana.

“Literatura de qualidade”, ela me fala, de cara, quando eu comento que quero fazer uma matéria sobre a editora pro meu blog e pergunto a missão da editora. “Pra gente, a ideia de fazer parte de todos os estágios do leitor é muito motivacional”, completa, explicando a razão por trás da existência de livros bons desde o estágio de alfabetização, passando pela infância quando a criança já sabe ler, depois se inserindo na época universitária até a idade adulta. Afinal, o catálogo, que já é bem grande para uma editora tão nova, acompanha a formação de leitores desde pequenos.

“Começamos a editora com uma obra brasileira, infantil e inédita, seguindo essa nossa ideia inicial. Continuamos trazendo novos autores brasileiros e atualmente temos alguns projetos bem bacanas com eles. Uns já em andamento, ou outros mais secretos…” ela continua. A preocupação de lançar escritores e ilustradores no mercado é clara. “Mas a gente trabalha bastante com literatura africana também”, acrescenta, começando a entregar o ouro.

A fundadora e diretora da editora, Rosana Weg, morou em Moçambique e se apaixonou pela literatura local. Por isso, o contato com a produção de lá e de Angola é constante. “Vozes da África é um selo nosso onde a gente traz livros de contos e poesia, alguns com obras inéditas no mundo e outros que foram publicados, esgotados e nunca foram republicados aqui. A gente tenta dar visibilidade pra essa literatura de qualidade, que se mistura com uma literatura mais regional, que eu particularmente gosto bastante, e uma literatura mais universal. Mas o legal mesmo é esse intercâmbio cultural Brasil-África”, Amanda continua. E mantendo a essência de tocar os leitores ainda bem novos, existe um braço infantil também com publicação de autores africanos, muitas vezes resgatando e eternizando contos tradicionais da oralidade local. O meu favorito pessoal do catálogo é O regresso do morto, um livro de contos do Suleiman Cassamo.

“Pra se abrir uma editora no Brasil, assim na cara e na coragem, tem que ter um amor muito grande pelo mundo editorial”, ela fala. E explica: “Produzir e distribuir livros são processos caros por si só, mas além disso existem burocracias, existe um mercado que é vendido pra gente como um mercado não leitor, apesar dos números sempre dizerem o contrário. Esse ano mesmo durante a Feira do Livro de Londres eles apresentaram estatísticas que dizem que o Brasil é o país do mundo onde a venda de livros mais cresceu nos últimos anos. E mês passado saiu o resultado da pesquisa do Instituto Pró-Livro dizendo que o número de leitores no Brasil cresceu, mas todo mundo continua dizendo que brasileiro não gosta de ler”, contextualiza.

Para autores novos que queiram publicar pela editora, a dica é preencher o formulário no site. Todos os livros enviados passam por uma curadoria editorial: “Os membros do conselho fazem leitura individual da obra, que depois é discutida em grupo, e ali se decide se o título se adequa ou não ao nosso perfil editorial. Se o título for selecionado, ainda passa por uma segunda leitura mais crítica, essa já pensando no processo de edição”, Amanda explica.

“Apesar das dificuldades, tem poucas sensações mais incríveis do que entrar numa livraria (de shopping, de rua, de aeroporto, rodoviária, estação de trem…) e ver um livro que você ajudou trazer à vida, ali, exposto, no mundo, pronto pra ser lido. É um trabalho que acaba envolvendo todo mundo no processo, que acaba não sendo só de criação e execução, mas também emocional. Ainda mais num ambiente com uma equipe pequena como a nossa. A gente conhece o autor, a história dele, a história que ele criou, e é difícil não se apegar”, continua. Eu acredito.

Esse ano, ainda no segundo semestre, a editora será a responsável por trazer pro Brasil a antologia poética da moçambicana e revolucionária Noémia de Sousa. A minha dica é: fica esperto pra agarrar um exemplar assim que sair. Essa mulher é incrível.

 

Clique aqui pra ler o poema na íntegra
Clique aqui pra ler o poema na íntegra

Fãs do Egito e o novo livro do Christian Jacq

Eu sou daquele tipo de pessoas que tem fases quando se trata de gosto pessoal – e não bem fases normais, como uma pessoa saudável. Quando eu era pequena, passei uma época obcecada por felinos. Escrevi um caderno inteiro como resultado de pesquisas e curiosidades. Outra vez, teve o Titanic. E o Egito. Ah, o Egito. Já até apareceu no blog. E foi esse amor que me fez chorar e fiquei horas plantada na frente da Nefertiti em Berlin – tanto tempo que o guarda do museu até desconfiou e ficou me rondando, até finalmente me xingar.

Esse foi um amor herdado. Veio de papai, que até hoje persegue assiduamente narrativas e histórias que contemplem esse período histórico. É natural, então, que os livros do Christian Jacq vão parar em sua estante assim que chegam nas livrarias. E é claro que não foi diferente com o último, o primeiro volume da série “O Juiz do Egito”. Por isso, convidei papai para falar um pouco mais do que torna Jacq um escritor tão maravilhoso pra quem gosta de fazer essas viagens no tempo através da narrativa literária. Embarque comigo!

 

“O Juiz do Egito”, de Christian Jacq
por Ronald Wolff

A aventura, o gosto pela história e a paixão pelo Egito são marcas próprias e constantes na obra de Christian Jacq. Já houve jornalistas que lhe atribuíram o título de escriba da tumba, se houvesse vida na forma de reencarnações!

Em “O Juiz do Egito”, mais uma vez, coloca um herói jovem, honesto e incorruptível, o Juiz Paser. Ele, então, ao lado de um amigo inseparável, Suti, e contando com a ajuda, a cumplicidade e o amor apaixonado da médica Neferet, parte em uma busca desesperada pela descoberta do mistério envolvendo a morte de cinco guardiões da Esfinge. Nessa busca, encontram obstáculos terríveis na própria burocracia e na alta sociedade, pois é ali mesmo que pode estar escondida a verdadeira causa do mistério.

Favorecimentos, corrupção, traição ao Faraó, envolvimento de altos figurões, tudo isso deve ser enfrentado pelo jovem e fiel trio, se quiserem achar respostas que possibilitem desvendar a causa das mortes. Ou dos assassinatos.

O grande Ramsés II é o soberano, e, enquanto procura manter o Egito em seu caminho de desenvolvimento e bem estar da sociedade, pode não estar percebendo que alguns servidores não estão realizando sua missão de forma leal. Por isso, um Juiz dedicado, fiel à sua função, e determinado pode ser um grande entrave aos interesses dos traidores.

Nessa aventura, não irão faltar perigos, incertezas, conquistas e decepções, ao lado de ternura, amizade, companheirismo – inclusive do simpático e inteligente burro Vento do Norte. E, sobretudo, um grande amor…

Vale a pena debruçar sobre as deliciosas e provocantes páginas do primeiro livro que conta a saga do Juiz do Egito. No meu caso, na qualidade de médico, foi leitura para dois plantões, tamanho o envolvimento e ansiedade para ver o desfecho!

E com a mesma ansiedade aguardo o segundo…

#TeamKimye: Taylor, assim não dá pra te defender

Tem pouco tempo que eu escrevi aqui a minha trajetória de ódio-a-amor pela Taylor Swift. E depois de viciada, confesso que é difícil largar, cold turkey. Ela é linda, magra como eu queria ser, rica, famosa, tem amigas incríveis, gatas lindas, tem o mundo como playground. E tem as músicas, né. Que eu adoro.

Quando a treta entre o Kanye West e a Taylor Swift começou por causa da música Famous (que é impossível parar de ouvir também), as coisas começaram a ficar um pouquinho mais complicadas. Primeiro porque não dá pra gente comparar uma menina rica, filhinha de banqueiros, branca, que sempre teve tudo na vida, com um cara negro que veio da quebrada e é odiado por ousar dizer que é um gênio. Imagina, um negro falando que é Deus.

A prova oficial, pelo menos pra mim, foram os astros. A própria Susan Miller já explicou que a Taylor Swift nasceu com a bunda virada pra lua, o que em linguagem astrológica significa que todo mundo tem tendência a ficar do lado dela. Essa composição é o contrário do mapa da Kim Kardashian, que vai ter que se contentar em ser odiada. Mas o mais interessante é quantidade de planetas em Capricórnio no mapa de Taylor. Isso, Capricórnio, o signo mais cuzão de todos, mais sovina, mais metido, mais insuportável. Enquanto o Kanye, coitado, tem aquela Lua em Peixes que faz dele basicamente um moleque meio chorão, meio perturbado, meio desligado, e com um mundo próprio na cabeça.

Eu tinha certeza que, não interessa como a ligação tivesse acontecido, o Kanye tinha acreditado que ela tinha aprovado.

Mas aí a Taylor disse que não tinha nenhuma ligação. As coisas foram ficando estranhas. Aí ela disse que tinha, sim, uma ligação, mas que ele nunca tinha mencionado a parte da música em que fala que deixou ela famosa. Aí ela disse que na verdade o problema era “that bitch”. (Pra alguém do mundo da música e que diz amar muito hip hop, com vídeos cantando Future e Drake pra Apple Music, ela tá bem por fora da história do rap, né?)

E daí Kim Kardashian, maravilhosa, ativista do #BLACKLIVESMATTER, grande mente dos negócios, que não bebe, não usa drogas, e eu amo (o mais importante, lógico), vazou os vídeos da ligação entre Kanye e Taylor. Taylor não sabia dessa gravação, mas é que o Kanye, no meio da própria loucura, grava todo o processo de gravação dos álbuns que compõe pro caso de um futuro documentário. (Eu sei, eu sei. Isso é culpa do sol em Gêmeos mesmo.)

No vídeo, não só ele canta o trecho inteiro pra ela, como ela agradece, surpresa, feliz, maravilhada, pela gentileza dele. Ela fala como admira que ele tenha dito isso. Diz que ele pode usar o verso que quiser. Comenta que a parte da fama é muito mais provocativa que a parte do sexo, num bom sentido. Brinca que no Grammy todo mundo ia ficar “uau, ela deve estar chorando” e ela ia chegar e arrasar com todo mundo falando que sabia de tudo. E o Kanye? Ele é um doce. Fala que nunca gostaria machucar ela. Fala que não faz rap pra machucar as pessoas, que isso não faria sentido. Fala que relacionamentos com pessoas é mais importante que publicidade…

Daí vem a Taylor e posta uma nota no Instagram. Que, pelo que dá pra ver, ela deu uma busca nas notas do iPhone até encontrar a declaração. Há quanto tempo já tava ali, pronta, pra caso ela fosse desmascarada? Mesmo com a mensagem vazia e birrenta, não dá pra não deixar de pensar que ela podia ter cortado isso na hora de postar. Não ia ficar tão feio.

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Fico triste, lógico, queria poder continuar gostando da Taylor Swift com a consciência limpa. Mas fico feliz de ver que um cara negro, alvo de ódio racista, desacreditado com frequência, conseguiu mostrar que no fim ele tava falando a verdade.

Ufa!

EDIT: mil detalhes no BuzzFeed.

FLIP 2016: “Escritores deveriam ser como cirurgiões”

Foi minha primeira vez em Paraty, minha primeira vez na FLIP, minha primeira vez viajando sozinha com minha melhor amiga, e como pisciana deslumbrada eu não tive escolha a não ser ficar… deslumbrada. Entre as várias críticas que li por aí – sobre a escolha da Ana Cristina César como homenageada, sobre o elitismo dessa edição, sobre como foi pior que outros anos pro comércio – me sinto sozinha, maravilhada, sem conseguir absorver essas exigências. Porque pra mim foi isso: maravilhoso.

Minha amiga trabalha em uma editora pequena e independente que é muito foda, a Kapulana. Eles têm um catálogo recheado de livros infantis de qualidade e de autores africanos, de Angola e Moçambique. Por causa disso, na sexta-feira estivemos na Flipinha acompanhando e filmando o autor Aurélio de Macedo, e também fizemos um vídeo sobre o impacto que os livros têm na vida das pessoas. Porque é isso que a Kapulana acredita: que livros mudam pessoas.

Mas um pouco disso tudo eu falei em vídeo. O que eu quero falar aqui é outra coisa.

 

 

Irvine Welsh e Bill Clegg

A primeira mesa que sentei pra ver com calma, sem a correria de pular de uma casa pra outra, foi a do Irvine Welsh com o Bill Clegg. E ouvindo eles falar percebi que deve ser mais fácil mesmo pedir pra um escritor falar: eles são especialistas em contar histórias.

Eu conheci o Bill Clegg já há um tempo, por causa dos livros auto-biográficos Retrato de um viciado quando jovem e Noventa dias. Quando ele parou para ler um trecho de seu livro novo, dessa vez de ficção, e brincou que era difícil seguir uma leitura de Welsh, percebi que o problema não era esse. O trecho parecia fraco não pela leitura anterior, mas porque, pelo menos naquele excerto, era lotado de clichês narrativos. A sensação que eu tive era que estava numa sala de oficina literária, de frente a um escritor iniciante. O trecho, todo no presente, talvez tivesse sido mal escolhido. Sempre há essa possibilidade.

Mas Clegg, que também é um agente literário, mostrou sensibilidade em suas colocações. Contou que costumava roubar dinheiro do seu chefe quando usava drogas e que muito mais tarde, recuperado, apareceu para devolver milhares de dólares que havia roubado. Ele tinha certeza de que o chefe sabia o que havia acontecido e tinha escolhido ficar quieto. O chefe não fazia ideia.

Welsh, por outro lado, com uma leitura interpretada com força e emoção, deve ter arrepiado grande parte da plateia. Me arrepiou. Com frases como “Em Miami, até as árvores têm raízes superficiais” e “Don’t be a pussy, eat one”, o trecho pareceu ter sido muitíssimo bem escolhido. Saí de lá com a certeza de que preciso ler A vida sexual das gêmeas siamesas.

Grande parte da conversa foi direcionada a Trainspotting, e não poderia ser diferente. Welsh comentou que esse livro foi um pouco auto-biográfico, que encontrar a voz da narrativa foi à base de tentativa e erro, e que humor é uma forma de dar espaço pros leitores lidarem com as partes mais pesadas. E foi aí que começou a falar de drogas, deixando claro que o livro não é sobre isso: é sobre uma mudança de um cenário social. Para ele, as drogas são sintomáticas de trauma, um indicador de problema no lugar do próprio problema.

No outro dia, na Casa Rocco, em um encontro bem mais próximo e intimista, ele conta que escrever Skagboys, que conta a história anterior dos personagens de Trainspotting e foi escrito quase 20 anos depois, foi como escavar um cadáver de alguém que você tivesse matado. Mais tarde, ele declara que não existe uma pessoa sequer no mundo que nunca escreveu um poema ou uma música. “Todo mundo acha que é brilhante”.

No fim da mesa, perguntei pra ele qual livro mudou sua vida. “Trainspotting“, ele responde, sem hesitar. “É sério”, continua, quando todo mundo ri. E segue para explicar que o único livro que realmente pode mudar sua vida é o que você escreve: é onde você exorciza seus demônios e coloca todas as suas obsessões. Fui levada direto para uma aula com Marcelino Freire que tive esse ano na Perestroika onde ele comenta que escrever é sobre obsessões.

Conceição Evaristo e linhagem “Clariceana”

Nos três dias, também pudemos nos emocionar em uma mesa com Conceição Evaristo, na Casa Itaú, que olhou nos olhos das pessoas brancas ali e disse que a nossa culpa não serve pra nada. Que ela quer ver nós, como brancas, não só falando mas também agindo para acabar o racismo. E leu o conto homônimo de Olhos d’Água. Aqui, posso dizer com certeza: todo mundo que tinha um coração batendo no peito se arrepiou.

A outra mesa que quase me fez chorar aconteceu em uma das casas do SESC e trouxe três estudiosos de Ana Cristina César, Clarice Lispector e Caio Fernando Abreu para falar de seus objetos de estudo e daquilo que chamaram de linhagem Clariceana na literatura brasileira. É curioso como isso sim parece voyeurístico: a forma como falamos dos mortos. Janet Malcolm aborda isso muito bem no incrível A Mulher Calada, e é assim que nos sentimos lá. O que não me impede de me emocionar. Ao fim, levanto e vou conversar com Paula Dip, uma das musas de Caio, que foi tão importante pra mim. Descubro que o primeiro amor dele morreu de leucemia. E descubro a forma assustadora e trágica do suicídio de Ana C.

Svetlana rainha, o resto nadinha

O último dia foi o dia de Svetlana Alexievich, vencedora do Nobel de Literatura de 2015 e autora de Vozes de TchernóbilA guerra não tem rosto de mulher. O dia começou com a coletiva de imprensa e terminou com a mesa, me fazendo pensar que a coletiva foi muito mais legal: as perguntas dos jornalistas e muitas vezes fãs eram sempre mais interessantes.

Ela nos contou que está escrevendo um novo livro, sobre amor, e que as histórias femininas são sempre mais profundas. Logo de cara admite uma certa dificuldade em encontrar a voz masculina: “Ou será que os homens não têm a mesma sinceridade ao falar sobre amor, especialmente para uma mulher?”

Na terra dela, essas histórias de amor sempre têm fundos maiores: de guerra, de tragédias. Nunca são histórias do cotidiano. O título desse novo livro seria algo como “um novo alce para uma caçada eterna”, numa referência a um conto dos irmãos Grimm que fala sobre aquilo que buscamos durante a vida inteira e muitas vezes não conseguimos. E completa: “Escrever sobre amor é mais difícil que escrever sobre a guerra”.

Depois das três primeiras perguntas, todas feitas por homens, ela questiona: por que as mulheres estão quietas? E em toda a conversa demonstra uma sensibilidade superior.

É impossível esquecer a política. Quando questionada sobre o rótulo anti-comunista que ela recebeu, ela responde que todo pintor honesto deve pincelar contra o governo, e que aquele foi o governo que ela viveu. Ela fala que para ela o homem pós-soviético vive com muito medo – e quando Svetlana fala “o homem” ela não quer dizer coletivo de seres humanos. Ao falar do Brasil, ela fala que admira que a gente tenha – ou tenha tido – uma presidenta mulher. Que isso representa evolução. E completa: “Os líderes atuais são homens medianos”, citando Putin, Chirac, Sarkozy. “O mundo precisa começar a viver pelas razões das pessoas comuns”.

Ela também discute sobre como a humanidade não aprende com os próprios erros. Um general chegou a questioná-la como ela poderia ousar escrever sobre a guerra sem nunca ter matado alguém. A resposta, carregada de empatia, foi matadora: “Justamente por preservar esse lado humano é que eu posso. Ao pegar uma arma você muda”. E finaliza refletindo sobre como a vida hoje é mais complexa, porque cada dia é uma luta para se manter humano. “E isso não se refere apenas à guerra”, faz questão de frisar.

Quando fala sobre escrever, é possível perceber a vocação e os sacrifícios da arte. Escrever tem riscos psicológicos e físicos e ela perdeu já a capacidade de presenciar certos sofrimentos. Hoje em dia, não conseguiria mais ir a um campo de batalha e ver uma pessoa morta. Iria parar e chorar. É um caminho inverso à anestesia social. E reflete que cirurgiões, esses sim, são fortes. Obrigados a lidar com a morte o tempo inteiro. A ver um coração pulsando, um peito literalmente aberto na sua frente. A dar notícias ruins pra família. Finalmente, sentencia: “Escritores deveriam ser mais como cirurgiões”.

 

Game of Thrones resumido em uma frase do Jaime Lannister (com spoilers)

Game of Thrones é uma das minhas séries favoritas, porque eu resolvi assistir lá em 2014 em um momento de depressão forte (ainda não tomava remedinhos na época, sabe como é). Aquela semana em que assisti às quatro temporadas disponíveis inundaram meu cérebro de serotonina e foram o abraço que eu tava precisando. E, bom, a gente sabe, né? Vínculos que se criam assim são impossíveis de se apagar. Eis que comprei os livros – li só o primeiro por enquanto – e continuei acompanhando a série, lógico. Nesse meio tempo, teve muita coisa pra me fazer pirar de amores (e refletir).

Essa é uma guerra de rainhas

Daenerys. Cersei. Sansa (não importa o que falem do Jon).

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Aliás, Sansa, ah, Sansa

Tenho certeza que muita gente odiava a Sansa – eu mesma já vi gente por aí chamando a personagem de “sonsa”. E, vamos combinar, isso não é a coisa mais surpreendente do mundo: é inegável que ela era uma personagem bastante alienada no começo da história. Só que a empatia necessária pra simpatizar e se apaixonar pela personagem vem justamente de entender a alienação: socializada como futura princesa do Norte, ela tem a trajetória de grande parte das mulheres que se tornam feministas. Foi a minha trajetória. De filhinha perfeita do patriarcado – uma perfeita lady – o caminho de Sansa foi marcado de misoginia. Assim como o nosso. E é de lá que Sansa ressurge, como fala Sylvia Plath em Lady Lazarus: “cuidado, das cinzas eu me reergo com meu cabelo vermelho e destruo homens como ar” (“beware, out of the ash I rise with my red hair and I eat men like air”).

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Não, a série não é machista

Sim, houve muita cena de mau gosto (alguém lembra aquela fala direcionada ao Tyrion de que não existe nada como comer uma mulher depois de matar alguém? E depois as pessoas vão se perguntar por que é que estupro é sobre poder, e não sexo, e fica todo mundo surpreso com estupro sendo usado como arma de guerra). Apesar disso, o tom que perpassa toda série no que diz respeito à violência contra mulher é de denúncia, não normatização. Sim, existem cenas que são gatilhos de trauma bastante fortes: mas a vida é um gatilho de trauma, e nossa anestesia perante essa realidade é uma das principais armas da manutenção dessa mesma realidade. Quer dizer, quem ainda se sente triste quando vê um mendigo na rua? Pois é. De repente o horror que as cenas suscitam servem pra nos acordar do transe a que somos condicionados pela sociedade capitalista e patriarcal em que vivemos. E mais: a nudez em Game of Thrones começou, sim, de maneira problemática, explorando mulheres nuas em cenas onde elas são facilmente sexualizadas. Mas não continuou assim. Buscamos o fim da sexualização dos nossos seios, que foram feitos, afinal, para amamentar, e não para deleite masculino. Cenas em que peitos são expostos e não são sexualizados – como acontece com frequência em Girls – são propositivas nesse sentido. Na última temporada, a série ainda fez um comentário bastante pertinente sobre isso: enquanto em cima de um palco de teatro uma atriz mostrava os seios de forma completamente gratuita, os bastidores nos trouxeram um close de um pênis de uma forma em que era impossível se preparar. Todo mundo precisou encarar aquele pênis por uns bons segundos na tela. E ficou bem claro o que eles quiseram dizer: no mundo do entretenimento, enquanto peitinho é tranquilo no palco, pênis explícito só é aceito nos bastidores.

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É tudo sobre amor

Lá no episódio inicial Jaime já dá a moral da história: “ah, as coisas que eu faço por amor”. O amor que ele tem por Cersei (alguém lembra que ele admitiu que ela é a única mulher com quem ele já se relacionou?), o que Cersei tem pelos filhos, o que Daenerys tem pelo seu passado, o que os Stark têm pela família. Enfim. Diferente do ódio psicopata de Ramsay, as grandes jogadas da história são todas movidas por amor. E no lugar desse ideal romântico do amor puro que tudo justifica, existem consequências sangrentas, cruéis e doentias, mesmo assim incapazes de macular a origem do sentimento. O próprio Jaime, um dos personagens mais amados, fala isso pela primeira vez quando se vê de certa forma obrigado a matar uma criança. Não consegue matar, mas faz com que fique paraplégica. E a ação ganha contexto na motivação de fazer tudo por Cersei. Game of Thrones, é, no fim, uma série sobre amor.

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A religião fode

Não, não é só do Alto Septo que eu to falando. A Melisandre fez um pai e uma mãe sacrificarem a própria filha. Não importa qual é o seu deus, aqui e em Westeros as consequências são claras: é a religião um dos únicos lugares em que a motivação vem exclusivamente do ódio. Que loucura (ou lucidez) maravilhosa do George R. R. Martin é essa, de colocar o amor na guerra e o ódio na religião?

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Crônicas da vida moderna: “O Amor na Era dos Smartphones”

Todos os dias era a mesma coisa, que nem aquela música do Chico Buarque, “Todo dia ela faz tudo sempre igual”.

– Desliga o celular – pediu, pela centésima vez, gemendo numa voz sonolenta enquanto as pálpebras fechadas eram golpeadas pela luz do dispositivo.

– Só mais um pouco – ele murmurava, vendo os resultados dos jogos da rodada.

No dia seguinte, ela acordou mal humorada porque estava mal dormida por causa do celular.

– Ricardo, não dá pra continuar assim – ela insistia na mesa do café da manhã, enquanto ele conferia como estava o trânsito. – Eu vou todos os dias com enxaqueca pro trabalho porque você não me deixa dormir – e nem é por causa de sexo, completou em pensamento, como era no começo.

Ele engoliu a resposta com o café e falou que conversavam de noite. Saíram juntos, ele para o escritório de advocacia e ela para o estúdio de fotografia. Como podia um homem de quase cinquenta anos passar horas vendo mensagens de grupos dos amigos da faculdade no Whatsapp, comentando no status de quase todos os seus duzentos e poucos amigos no Facebook, até arriscando postar meia dúzia de frases sem sentido no Twitter – sim, porque “Um belo dia para dirigir!!!!!!”, com várias exclamações, nunca seria o considerado aceitável pela rede social.

No estúdio, mal estacionou o carro e sua secretária mandou uma mensagem, “temos um problema”. O problema era que precisariam fazer um editorial de última hora e a revista de moda fazia questão de que ela mesma fotografasse, isso sem falar na outra sessão embaixo d’água que tinha marcada para o dia. “Só se puder ser interna”, falou pra secretária, “e daí tem equipe extra”, completou. A luz do dia se esvairia enquanto estivesse fotografando embaixo da piscina e não tinha como começar uma sessão no fim da tarde se quisesse usar a luz do sol. Por outro lado, tudo bem trabalhar até tarde, então se todo mundo chegasse de acordo em relação à locação ela poderia dar conta.

O editorial de moda era de joalheria, e o diretor de arte resolveu tentar algo bastante ousado: em uma banheira de hotel, as modelos deitavam, de olhos fechados, quase como que mortas, cobertas de joias. Os corpos eram cobertos pelos metais, pedras e langeries bem escolhidas: elegantes, mas sem roubar a atenção. Foi fotografando que teve uma ideia: na ida pra casa, compraria uma lingerie nova – toda preta, de renda – vestiria no carro e entraria em casa só de casaco, calcinha e sutiã. Eram quase 11 horas e ela o encontraria na cama, ela sabia, porque obviamente já teria jantado.

Dito e feito – lá estava ele, estirado, os olhos vidrados na tela. Chamou seu nome. Ele não virou. Tentou algumas outras vezes antes de deixar o casaco cair no chão, e, felina, escalou na cama – faltou só miar. Ele ainda assim não olhou. Frustrada e irritada, deitou ao seu lado, virou as costas para ele e dormiu, o orgasmo não liberado acumulado entre suas pernas. No outro dia, o mau humor estava ainda maior.

– Amor, não sei porque você faz isso – ele reclamou, manhoso, no dia seguinte, se referindo ao fato de que ela não lhe respondia nenhuma das perguntas que lhe eram dirigidas.

Sabendo que tinha algo a compensar, comprou romãs, a fruta preferida da mulher, e champagne. Esperou que ela voltasse do trabalho naquela noite com um cenário romântico preparado e finalmente fizeram sexo. Ela deitou ao seu lado, o peito arfando de satisfação, e se inclinou sobre o criado-mudo para pegar um pouco mais de romã. Do outro lado da cama, ele fazia o mesmo, embora o alvo fosse o celular.

O gosto maravilhoso da fruta saturava suas papilas gustativas e foi no meio de um suspiro de deleite que ela se engasgou. Começou a tossir compulsivamente, tentando mexer os braços e chamar a atenção do marido. Puxava o ar com força, tentando recuperar a respiração, sem nenhum sucesso. Demorou alguns minutos até perder todo o ar e morrer.

No mesmo instante, o celular de Ricardo apitou. Era um daqueles vídeos de humor que faziam ele soltar urros de diversão.

– Regina, você não vai acreditar nisso! – e finalmente se virou para a mulher, encontrando apenas seu cadáver.