Vozes da África: conheça os livros bons e belos da Editora Kapulana

Toda vez que vejo aquelas amizades invejáveis – tipo o pisciano David Foster Wallace e o leonino Jonathan Franzen – fico pensando que queria ser amiga dessas pessoas incríveis. Mas quando olho ao meu redor, percebo que tem tanta gente maravilhosa pelos 20 e poucos anos que ainda vai fazer história. Se for pra falar de conhecer gente foda, eu tenho muita, muita sorte – e uma leonina pro meu coração pisciano. A Amanda Azevedo, de quem já falei aqui e que foi a razão por trás da criação do meu canal no YouTube, é ilustradora e diretora de arte da Editora Kapulana.

“Literatura de qualidade”, ela me fala, de cara, quando eu comento que quero fazer uma matéria sobre a editora pro meu blog e pergunto a missão da editora. “Pra gente, a ideia de fazer parte de todos os estágios do leitor é muito motivacional”, completa, explicando a razão por trás da existência de livros bons desde o estágio de alfabetização, passando pela infância quando a criança já sabe ler, depois se inserindo na época universitária até a idade adulta. Afinal, o catálogo, que já é bem grande para uma editora tão nova, acompanha a formação de leitores desde pequenos.

“Começamos a editora com uma obra brasileira, infantil e inédita, seguindo essa nossa ideia inicial. Continuamos trazendo novos autores brasileiros e atualmente temos alguns projetos bem bacanas com eles. Uns já em andamento, ou outros mais secretos…” ela continua. A preocupação de lançar escritores e ilustradores no mercado é clara. “Mas a gente trabalha bastante com literatura africana também”, acrescenta, começando a entregar o ouro.

A fundadora e diretora da editora, Rosana Weg, morou em Moçambique e se apaixonou pela literatura local. Por isso, o contato com a produção de lá e de Angola é constante. “Vozes da África é um selo nosso onde a gente traz livros de contos e poesia, alguns com obras inéditas no mundo e outros que foram publicados, esgotados e nunca foram republicados aqui. A gente tenta dar visibilidade pra essa literatura de qualidade, que se mistura com uma literatura mais regional, que eu particularmente gosto bastante, e uma literatura mais universal. Mas o legal mesmo é esse intercâmbio cultural Brasil-África”, Amanda continua. E mantendo a essência de tocar os leitores ainda bem novos, existe um braço infantil também com publicação de autores africanos, muitas vezes resgatando e eternizando contos tradicionais da oralidade local. O meu favorito pessoal do catálogo é O regresso do morto, um livro de contos do Suleiman Cassamo.

“Pra se abrir uma editora no Brasil, assim na cara e na coragem, tem que ter um amor muito grande pelo mundo editorial”, ela fala. E explica: “Produzir e distribuir livros são processos caros por si só, mas além disso existem burocracias, existe um mercado que é vendido pra gente como um mercado não leitor, apesar dos números sempre dizerem o contrário. Esse ano mesmo durante a Feira do Livro de Londres eles apresentaram estatísticas que dizem que o Brasil é o país do mundo onde a venda de livros mais cresceu nos últimos anos. E mês passado saiu o resultado da pesquisa do Instituto Pró-Livro dizendo que o número de leitores no Brasil cresceu, mas todo mundo continua dizendo que brasileiro não gosta de ler”, contextualiza.

Para autores novos que queiram publicar pela editora, a dica é preencher o formulário no site. Todos os livros enviados passam por uma curadoria editorial: “Os membros do conselho fazem leitura individual da obra, que depois é discutida em grupo, e ali se decide se o título se adequa ou não ao nosso perfil editorial. Se o título for selecionado, ainda passa por uma segunda leitura mais crítica, essa já pensando no processo de edição”, Amanda explica.

“Apesar das dificuldades, tem poucas sensações mais incríveis do que entrar numa livraria (de shopping, de rua, de aeroporto, rodoviária, estação de trem…) e ver um livro que você ajudou trazer à vida, ali, exposto, no mundo, pronto pra ser lido. É um trabalho que acaba envolvendo todo mundo no processo, que acaba não sendo só de criação e execução, mas também emocional. Ainda mais num ambiente com uma equipe pequena como a nossa. A gente conhece o autor, a história dele, a história que ele criou, e é difícil não se apegar”, continua. Eu acredito.

Esse ano, ainda no segundo semestre, a editora será a responsável por trazer pro Brasil a antologia poética da moçambicana e revolucionária Noémia de Sousa. A minha dica é: fica esperto pra agarrar um exemplar assim que sair. Essa mulher é incrível.

 

Clique aqui pra ler o poema na íntegra
Clique aqui pra ler o poema na íntegra

Fãs do Egito e o novo livro do Christian Jacq

Eu sou daquele tipo de pessoas que tem fases quando se trata de gosto pessoal – e não bem fases normais, como uma pessoa saudável. Quando eu era pequena, passei uma época obcecada por felinos. Escrevi um caderno inteiro como resultado de pesquisas e curiosidades. Outra vez, teve o Titanic. E o Egito. Ah, o Egito. Já até apareceu no blog. E foi esse amor que me fez chorar e fiquei horas plantada na frente da Nefertiti em Berlin – tanto tempo que o guarda do museu até desconfiou e ficou me rondando, até finalmente me xingar.

Esse foi um amor herdado. Veio de papai, que até hoje persegue assiduamente narrativas e histórias que contemplem esse período histórico. É natural, então, que os livros do Christian Jacq vão parar em sua estante assim que chegam nas livrarias. E é claro que não foi diferente com o último, o primeiro volume da série “O Juiz do Egito”. Por isso, convidei papai para falar um pouco mais do que torna Jacq um escritor tão maravilhoso pra quem gosta de fazer essas viagens no tempo através da narrativa literária. Embarque comigo!

 

“O Juiz do Egito”, de Christian Jacq
por Ronald Wolff

A aventura, o gosto pela história e a paixão pelo Egito são marcas próprias e constantes na obra de Christian Jacq. Já houve jornalistas que lhe atribuíram o título de escriba da tumba, se houvesse vida na forma de reencarnações!

Em “O Juiz do Egito”, mais uma vez, coloca um herói jovem, honesto e incorruptível, o Juiz Paser. Ele, então, ao lado de um amigo inseparável, Suti, e contando com a ajuda, a cumplicidade e o amor apaixonado da médica Neferet, parte em uma busca desesperada pela descoberta do mistério envolvendo a morte de cinco guardiões da Esfinge. Nessa busca, encontram obstáculos terríveis na própria burocracia e na alta sociedade, pois é ali mesmo que pode estar escondida a verdadeira causa do mistério.

Favorecimentos, corrupção, traição ao Faraó, envolvimento de altos figurões, tudo isso deve ser enfrentado pelo jovem e fiel trio, se quiserem achar respostas que possibilitem desvendar a causa das mortes. Ou dos assassinatos.

O grande Ramsés II é o soberano, e, enquanto procura manter o Egito em seu caminho de desenvolvimento e bem estar da sociedade, pode não estar percebendo que alguns servidores não estão realizando sua missão de forma leal. Por isso, um Juiz dedicado, fiel à sua função, e determinado pode ser um grande entrave aos interesses dos traidores.

Nessa aventura, não irão faltar perigos, incertezas, conquistas e decepções, ao lado de ternura, amizade, companheirismo – inclusive do simpático e inteligente burro Vento do Norte. E, sobretudo, um grande amor…

Vale a pena debruçar sobre as deliciosas e provocantes páginas do primeiro livro que conta a saga do Juiz do Egito. No meu caso, na qualidade de médico, foi leitura para dois plantões, tamanho o envolvimento e ansiedade para ver o desfecho!

E com a mesma ansiedade aguardo o segundo…

#TeamKimye: Taylor, assim não dá pra te defender

Tem pouco tempo que eu escrevi aqui a minha trajetória de ódio-a-amor pela Taylor Swift. E depois de viciada, confesso que é difícil largar, cold turkey. Ela é linda, magra como eu queria ser, rica, famosa, tem amigas incríveis, gatas lindas, tem o mundo como playground. E tem as músicas, né. Que eu adoro.

Quando a treta entre o Kanye West e a Taylor Swift começou por causa da música Famous (que é impossível parar de ouvir também), as coisas começaram a ficar um pouquinho mais complicadas. Primeiro porque não dá pra gente comparar uma menina rica, filhinha de banqueiros, branca, que sempre teve tudo na vida, com um cara negro que veio da quebrada e é odiado por ousar dizer que é um gênio. Imagina, um negro falando que é Deus.

A prova oficial, pelo menos pra mim, foram os astros. A própria Susan Miller já explicou que a Taylor Swift nasceu com a bunda virada pra lua, o que em linguagem astrológica significa que todo mundo tem tendência a ficar do lado dela. Essa composição é o contrário do mapa da Kim Kardashian, que vai ter que se contentar em ser odiada. Mas o mais interessante é quantidade de planetas em Capricórnio no mapa de Taylor. Isso, Capricórnio, o signo mais cuzão de todos, mais sovina, mais metido, mais insuportável. Enquanto o Kanye, coitado, tem aquela Lua em Peixes que faz dele basicamente um moleque meio chorão, meio perturbado, meio desligado, e com um mundo próprio na cabeça.

Eu tinha certeza que, não interessa como a ligação tivesse acontecido, o Kanye tinha acreditado que ela tinha aprovado.

Mas aí a Taylor disse que não tinha nenhuma ligação. As coisas foram ficando estranhas. Aí ela disse que tinha, sim, uma ligação, mas que ele nunca tinha mencionado a parte da música em que fala que deixou ela famosa. Aí ela disse que na verdade o problema era “that bitch”. (Pra alguém do mundo da música e que diz amar muito hip hop, com vídeos cantando Future e Drake pra Apple Music, ela tá bem por fora da história do rap, né?)

E daí Kim Kardashian, maravilhosa, ativista do #BLACKLIVESMATTER, grande mente dos negócios, que não bebe, não usa drogas, e eu amo (o mais importante, lógico), vazou os vídeos da ligação entre Kanye e Taylor. Taylor não sabia dessa gravação, mas é que o Kanye, no meio da própria loucura, grava todo o processo de gravação dos álbuns que compõe pro caso de um futuro documentário. (Eu sei, eu sei. Isso é culpa do sol em Gêmeos mesmo.)

No vídeo, não só ele canta o trecho inteiro pra ela, como ela agradece, surpresa, feliz, maravilhada, pela gentileza dele. Ela fala como admira que ele tenha dito isso. Diz que ele pode usar o verso que quiser. Comenta que a parte da fama é muito mais provocativa que a parte do sexo, num bom sentido. Brinca que no Grammy todo mundo ia ficar “uau, ela deve estar chorando” e ela ia chegar e arrasar com todo mundo falando que sabia de tudo. E o Kanye? Ele é um doce. Fala que nunca gostaria machucar ela. Fala que não faz rap pra machucar as pessoas, que isso não faria sentido. Fala que relacionamentos com pessoas é mais importante que publicidade…

Daí vem a Taylor e posta uma nota no Instagram. Que, pelo que dá pra ver, ela deu uma busca nas notas do iPhone até encontrar a declaração. Há quanto tempo já tava ali, pronta, pra caso ela fosse desmascarada? Mesmo com a mensagem vazia e birrenta, não dá pra não deixar de pensar que ela podia ter cortado isso na hora de postar. Não ia ficar tão feio.

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Fico triste, lógico, queria poder continuar gostando da Taylor Swift com a consciência limpa. Mas fico feliz de ver que um cara negro, alvo de ódio racista, desacreditado com frequência, conseguiu mostrar que no fim ele tava falando a verdade.

Ufa!

EDIT: mil detalhes no BuzzFeed.

FLIP 2016: “Escritores deveriam ser como cirurgiões”

Foi minha primeira vez em Paraty, minha primeira vez na FLIP, minha primeira vez viajando sozinha com minha melhor amiga, e como pisciana deslumbrada eu não tive escolha a não ser ficar… deslumbrada. Entre as várias críticas que li por aí – sobre a escolha da Ana Cristina César como homenageada, sobre o elitismo dessa edição, sobre como foi pior que outros anos pro comércio – me sinto sozinha, maravilhada, sem conseguir absorver essas exigências. Porque pra mim foi isso: maravilhoso.

Minha amiga trabalha em uma editora pequena e independente que é muito foda, a Kapulana. Eles têm um catálogo recheado de livros infantis de qualidade e de autores africanos, de Angola e Moçambique. Por causa disso, na sexta-feira estivemos na Flipinha acompanhando e filmando o autor Aurélio de Macedo, e também fizemos um vídeo sobre o impacto que os livros têm na vida das pessoas. Porque é isso que a Kapulana acredita: que livros mudam pessoas.

Mas um pouco disso tudo eu falei em vídeo. O que eu quero falar aqui é outra coisa.

 

 

Irvine Welsh e Bill Clegg

A primeira mesa que sentei pra ver com calma, sem a correria de pular de uma casa pra outra, foi a do Irvine Welsh com o Bill Clegg. E ouvindo eles falar percebi que deve ser mais fácil mesmo pedir pra um escritor falar: eles são especialistas em contar histórias.

Eu conheci o Bill Clegg já há um tempo, por causa dos livros auto-biográficos Retrato de um viciado quando jovem e Noventa dias. Quando ele parou para ler um trecho de seu livro novo, dessa vez de ficção, e brincou que era difícil seguir uma leitura de Welsh, percebi que o problema não era esse. O trecho parecia fraco não pela leitura anterior, mas porque, pelo menos naquele excerto, era lotado de clichês narrativos. A sensação que eu tive era que estava numa sala de oficina literária, de frente a um escritor iniciante. O trecho, todo no presente, talvez tivesse sido mal escolhido. Sempre há essa possibilidade.

Mas Clegg, que também é um agente literário, mostrou sensibilidade em suas colocações. Contou que costumava roubar dinheiro do seu chefe quando usava drogas e que muito mais tarde, recuperado, apareceu para devolver milhares de dólares que havia roubado. Ele tinha certeza de que o chefe sabia o que havia acontecido e tinha escolhido ficar quieto. O chefe não fazia ideia.

Welsh, por outro lado, com uma leitura interpretada com força e emoção, deve ter arrepiado grande parte da plateia. Me arrepiou. Com frases como “Em Miami, até as árvores têm raízes superficiais” e “Don’t be a pussy, eat one”, o trecho pareceu ter sido muitíssimo bem escolhido. Saí de lá com a certeza de que preciso ler A vida sexual das gêmeas siamesas.

Grande parte da conversa foi direcionada a Trainspotting, e não poderia ser diferente. Welsh comentou que esse livro foi um pouco auto-biográfico, que encontrar a voz da narrativa foi à base de tentativa e erro, e que humor é uma forma de dar espaço pros leitores lidarem com as partes mais pesadas. E foi aí que começou a falar de drogas, deixando claro que o livro não é sobre isso: é sobre uma mudança de um cenário social. Para ele, as drogas são sintomáticas de trauma, um indicador de problema no lugar do próprio problema.

No outro dia, na Casa Rocco, em um encontro bem mais próximo e intimista, ele conta que escrever Skagboys, que conta a história anterior dos personagens de Trainspotting e foi escrito quase 20 anos depois, foi como escavar um cadáver de alguém que você tivesse matado. Mais tarde, ele declara que não existe uma pessoa sequer no mundo que nunca escreveu um poema ou uma música. “Todo mundo acha que é brilhante”.

No fim da mesa, perguntei pra ele qual livro mudou sua vida. “Trainspotting“, ele responde, sem hesitar. “É sério”, continua, quando todo mundo ri. E segue para explicar que o único livro que realmente pode mudar sua vida é o que você escreve: é onde você exorciza seus demônios e coloca todas as suas obsessões. Fui levada direto para uma aula com Marcelino Freire que tive esse ano na Perestroika onde ele comenta que escrever é sobre obsessões.

Conceição Evaristo e linhagem “Clariceana”

Nos três dias, também pudemos nos emocionar em uma mesa com Conceição Evaristo, na Casa Itaú, que olhou nos olhos das pessoas brancas ali e disse que a nossa culpa não serve pra nada. Que ela quer ver nós, como brancas, não só falando mas também agindo para acabar o racismo. E leu o conto homônimo de Olhos d’Água. Aqui, posso dizer com certeza: todo mundo que tinha um coração batendo no peito se arrepiou.

A outra mesa que quase me fez chorar aconteceu em uma das casas do SESC e trouxe três estudiosos de Ana Cristina César, Clarice Lispector e Caio Fernando Abreu para falar de seus objetos de estudo e daquilo que chamaram de linhagem Clariceana na literatura brasileira. É curioso como isso sim parece voyeurístico: a forma como falamos dos mortos. Janet Malcolm aborda isso muito bem no incrível A Mulher Calada, e é assim que nos sentimos lá. O que não me impede de me emocionar. Ao fim, levanto e vou conversar com Paula Dip, uma das musas de Caio, que foi tão importante pra mim. Descubro que o primeiro amor dele morreu de leucemia. E descubro a forma assustadora e trágica do suicídio de Ana C.

Svetlana rainha, o resto nadinha

O último dia foi o dia de Svetlana Alexievich, vencedora do Nobel de Literatura de 2015 e autora de Vozes de TchernóbilA guerra não tem rosto de mulher. O dia começou com a coletiva de imprensa e terminou com a mesa, me fazendo pensar que a coletiva foi muito mais legal: as perguntas dos jornalistas e muitas vezes fãs eram sempre mais interessantes.

Ela nos contou que está escrevendo um novo livro, sobre amor, e que as histórias femininas são sempre mais profundas. Logo de cara admite uma certa dificuldade em encontrar a voz masculina: “Ou será que os homens não têm a mesma sinceridade ao falar sobre amor, especialmente para uma mulher?”

Na terra dela, essas histórias de amor sempre têm fundos maiores: de guerra, de tragédias. Nunca são histórias do cotidiano. O título desse novo livro seria algo como “um novo alce para uma caçada eterna”, numa referência a um conto dos irmãos Grimm que fala sobre aquilo que buscamos durante a vida inteira e muitas vezes não conseguimos. E completa: “Escrever sobre amor é mais difícil que escrever sobre a guerra”.

Depois das três primeiras perguntas, todas feitas por homens, ela questiona: por que as mulheres estão quietas? E em toda a conversa demonstra uma sensibilidade superior.

É impossível esquecer a política. Quando questionada sobre o rótulo anti-comunista que ela recebeu, ela responde que todo pintor honesto deve pincelar contra o governo, e que aquele foi o governo que ela viveu. Ela fala que para ela o homem pós-soviético vive com muito medo – e quando Svetlana fala “o homem” ela não quer dizer coletivo de seres humanos. Ao falar do Brasil, ela fala que admira que a gente tenha – ou tenha tido – uma presidenta mulher. Que isso representa evolução. E completa: “Os líderes atuais são homens medianos”, citando Putin, Chirac, Sarkozy. “O mundo precisa começar a viver pelas razões das pessoas comuns”.

Ela também discute sobre como a humanidade não aprende com os próprios erros. Um general chegou a questioná-la como ela poderia ousar escrever sobre a guerra sem nunca ter matado alguém. A resposta, carregada de empatia, foi matadora: “Justamente por preservar esse lado humano é que eu posso. Ao pegar uma arma você muda”. E finaliza refletindo sobre como a vida hoje é mais complexa, porque cada dia é uma luta para se manter humano. “E isso não se refere apenas à guerra”, faz questão de frisar.

Quando fala sobre escrever, é possível perceber a vocação e os sacrifícios da arte. Escrever tem riscos psicológicos e físicos e ela perdeu já a capacidade de presenciar certos sofrimentos. Hoje em dia, não conseguiria mais ir a um campo de batalha e ver uma pessoa morta. Iria parar e chorar. É um caminho inverso à anestesia social. E reflete que cirurgiões, esses sim, são fortes. Obrigados a lidar com a morte o tempo inteiro. A ver um coração pulsando, um peito literalmente aberto na sua frente. A dar notícias ruins pra família. Finalmente, sentencia: “Escritores deveriam ser mais como cirurgiões”.

 

Game of Thrones resumido em uma frase do Jaime Lannister (com spoilers)

Game of Thrones é uma das minhas séries favoritas, porque eu resolvi assistir lá em 2014 em um momento de depressão forte (ainda não tomava remedinhos na época, sabe como é). Aquela semana em que assisti às quatro temporadas disponíveis inundaram meu cérebro de serotonina e foram o abraço que eu tava precisando. E, bom, a gente sabe, né? Vínculos que se criam assim são impossíveis de se apagar. Eis que comprei os livros – li só o primeiro por enquanto – e continuei acompanhando a série, lógico. Nesse meio tempo, teve muita coisa pra me fazer pirar de amores (e refletir).

Essa é uma guerra de rainhas

Daenerys. Cersei. Sansa (não importa o que falem do Jon).

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Aliás, Sansa, ah, Sansa

Tenho certeza que muita gente odiava a Sansa – eu mesma já vi gente por aí chamando a personagem de “sonsa”. E, vamos combinar, isso não é a coisa mais surpreendente do mundo: é inegável que ela era uma personagem bastante alienada no começo da história. Só que a empatia necessária pra simpatizar e se apaixonar pela personagem vem justamente de entender a alienação: socializada como futura princesa do Norte, ela tem a trajetória de grande parte das mulheres que se tornam feministas. Foi a minha trajetória. De filhinha perfeita do patriarcado – uma perfeita lady – o caminho de Sansa foi marcado de misoginia. Assim como o nosso. E é de lá que Sansa ressurge, como fala Sylvia Plath em Lady Lazarus: “cuidado, das cinzas eu me reergo com meu cabelo vermelho e destruo homens como ar” (“beware, out of the ash I rise with my red hair and I eat men like air”).

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Não, a série não é machista

Sim, houve muita cena de mau gosto (alguém lembra aquela fala direcionada ao Tyrion de que não existe nada como comer uma mulher depois de matar alguém? E depois as pessoas vão se perguntar por que é que estupro é sobre poder, e não sexo, e fica todo mundo surpreso com estupro sendo usado como arma de guerra). Apesar disso, o tom que perpassa toda série no que diz respeito à violência contra mulher é de denúncia, não normatização. Sim, existem cenas que são gatilhos de trauma bastante fortes: mas a vida é um gatilho de trauma, e nossa anestesia perante essa realidade é uma das principais armas da manutenção dessa mesma realidade. Quer dizer, quem ainda se sente triste quando vê um mendigo na rua? Pois é. De repente o horror que as cenas suscitam servem pra nos acordar do transe a que somos condicionados pela sociedade capitalista e patriarcal em que vivemos. E mais: a nudez em Game of Thrones começou, sim, de maneira problemática, explorando mulheres nuas em cenas onde elas são facilmente sexualizadas. Mas não continuou assim. Buscamos o fim da sexualização dos nossos seios, que foram feitos, afinal, para amamentar, e não para deleite masculino. Cenas em que peitos são expostos e não são sexualizados – como acontece com frequência em Girls – são propositivas nesse sentido. Na última temporada, a série ainda fez um comentário bastante pertinente sobre isso: enquanto em cima de um palco de teatro uma atriz mostrava os seios de forma completamente gratuita, os bastidores nos trouxeram um close de um pênis de uma forma em que era impossível se preparar. Todo mundo precisou encarar aquele pênis por uns bons segundos na tela. E ficou bem claro o que eles quiseram dizer: no mundo do entretenimento, enquanto peitinho é tranquilo no palco, pênis explícito só é aceito nos bastidores.

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É tudo sobre amor

Lá no episódio inicial Jaime já dá a moral da história: “ah, as coisas que eu faço por amor”. O amor que ele tem por Cersei (alguém lembra que ele admitiu que ela é a única mulher com quem ele já se relacionou?), o que Cersei tem pelos filhos, o que Daenerys tem pelo seu passado, o que os Stark têm pela família. Enfim. Diferente do ódio psicopata de Ramsay, as grandes jogadas da história são todas movidas por amor. E no lugar desse ideal romântico do amor puro que tudo justifica, existem consequências sangrentas, cruéis e doentias, mesmo assim incapazes de macular a origem do sentimento. O próprio Jaime, um dos personagens mais amados, fala isso pela primeira vez quando se vê de certa forma obrigado a matar uma criança. Não consegue matar, mas faz com que fique paraplégica. E a ação ganha contexto na motivação de fazer tudo por Cersei. Game of Thrones, é, no fim, uma série sobre amor.

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A religião fode

Não, não é só do Alto Septo que eu to falando. A Melisandre fez um pai e uma mãe sacrificarem a própria filha. Não importa qual é o seu deus, aqui e em Westeros as consequências são claras: é a religião um dos únicos lugares em que a motivação vem exclusivamente do ódio. Que loucura (ou lucidez) maravilhosa do George R. R. Martin é essa, de colocar o amor na guerra e o ódio na religião?

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Crônicas da vida moderna: “O Amor na Era dos Smartphones”

Todos os dias era a mesma coisa, que nem aquela música do Chico Buarque, “Todo dia ela faz tudo sempre igual”.

– Desliga o celular – pediu, pela centésima vez, gemendo numa voz sonolenta enquanto as pálpebras fechadas eram golpeadas pela luz do dispositivo.

– Só mais um pouco – ele murmurava, vendo os resultados dos jogos da rodada.

No dia seguinte, ela acordou mal humorada porque estava mal dormida por causa do celular.

– Ricardo, não dá pra continuar assim – ela insistia na mesa do café da manhã, enquanto ele conferia como estava o trânsito. – Eu vou todos os dias com enxaqueca pro trabalho porque você não me deixa dormir – e nem é por causa de sexo, completou em pensamento, como era no começo.

Ele engoliu a resposta com o café e falou que conversavam de noite. Saíram juntos, ele para o escritório de advocacia e ela para o estúdio de fotografia. Como podia um homem de quase cinquenta anos passar horas vendo mensagens de grupos dos amigos da faculdade no Whatsapp, comentando no status de quase todos os seus duzentos e poucos amigos no Facebook, até arriscando postar meia dúzia de frases sem sentido no Twitter – sim, porque “Um belo dia para dirigir!!!!!!”, com várias exclamações, nunca seria o considerado aceitável pela rede social.

No estúdio, mal estacionou o carro e sua secretária mandou uma mensagem, “temos um problema”. O problema era que precisariam fazer um editorial de última hora e a revista de moda fazia questão de que ela mesma fotografasse, isso sem falar na outra sessão embaixo d’água que tinha marcada para o dia. “Só se puder ser interna”, falou pra secretária, “e daí tem equipe extra”, completou. A luz do dia se esvairia enquanto estivesse fotografando embaixo da piscina e não tinha como começar uma sessão no fim da tarde se quisesse usar a luz do sol. Por outro lado, tudo bem trabalhar até tarde, então se todo mundo chegasse de acordo em relação à locação ela poderia dar conta.

O editorial de moda era de joalheria, e o diretor de arte resolveu tentar algo bastante ousado: em uma banheira de hotel, as modelos deitavam, de olhos fechados, quase como que mortas, cobertas de joias. Os corpos eram cobertos pelos metais, pedras e langeries bem escolhidas: elegantes, mas sem roubar a atenção. Foi fotografando que teve uma ideia: na ida pra casa, compraria uma lingerie nova – toda preta, de renda – vestiria no carro e entraria em casa só de casaco, calcinha e sutiã. Eram quase 11 horas e ela o encontraria na cama, ela sabia, porque obviamente já teria jantado.

Dito e feito – lá estava ele, estirado, os olhos vidrados na tela. Chamou seu nome. Ele não virou. Tentou algumas outras vezes antes de deixar o casaco cair no chão, e, felina, escalou na cama – faltou só miar. Ele ainda assim não olhou. Frustrada e irritada, deitou ao seu lado, virou as costas para ele e dormiu, o orgasmo não liberado acumulado entre suas pernas. No outro dia, o mau humor estava ainda maior.

– Amor, não sei porque você faz isso – ele reclamou, manhoso, no dia seguinte, se referindo ao fato de que ela não lhe respondia nenhuma das perguntas que lhe eram dirigidas.

Sabendo que tinha algo a compensar, comprou romãs, a fruta preferida da mulher, e champagne. Esperou que ela voltasse do trabalho naquela noite com um cenário romântico preparado e finalmente fizeram sexo. Ela deitou ao seu lado, o peito arfando de satisfação, e se inclinou sobre o criado-mudo para pegar um pouco mais de romã. Do outro lado da cama, ele fazia o mesmo, embora o alvo fosse o celular.

O gosto maravilhoso da fruta saturava suas papilas gustativas e foi no meio de um suspiro de deleite que ela se engasgou. Começou a tossir compulsivamente, tentando mexer os braços e chamar a atenção do marido. Puxava o ar com força, tentando recuperar a respiração, sem nenhum sucesso. Demorou alguns minutos até perder todo o ar e morrer.

No mesmo instante, o celular de Ricardo apitou. Era um daqueles vídeos de humor que faziam ele soltar urros de diversão.

– Regina, você não vai acreditar nisso! – e finalmente se virou para a mulher, encontrando apenas seu cadáver.

Racismo disfarçado de purismo literário: até quando, meudeus?

Eu amo Harry Potter mais do que quase tudo na vida, então escrevi e li fanfics (aliás leio até hoje, esse passado anterior é uma ilusão de que virei adulta e só leio literatura russa, mas é tudo mentira), era ativa no fandom e fui inclusive administradora e fundadora de um fórum. Eu participava de discussões intermináveis sobre quem seria o Príncipe Mestiço (eu acertei bem antes de o livro sair), se R.A.B. era mesmo Regulus Black, sobre o triângulo Snape-Lily-James.

Talvez você, que não participou desse mundo por anos enquanto crescia, pare para olhar e diga que isso é um absurdo: mas vi páginas e páginas de discussão sobre o vestido rosa que Emma Watson escolheu para o baile do Torneio Tribuxo. Caso você não saiba, era azul no livro. E o fandom não perdoou.

Fofinha <3
Fofinha <3

Curiosamente, a mesma fúria sumiu quando a atriz que atuava como Lilá Brown, negra, foi substituída por atriz, branca, quando o papel começou a ter mais participação. Mas essa fúria estava pronta para ressurgir em 2015 quando uma nova atriz foi escolhida para o papel de uma Hermione adulta. Todo mundo sabe que nos filmes ela é branca. E adivinha: agora, escolheram uma atriz negra.

Quando a própria J.K. Rowling vai ao Twitter para legitimar a participação da atriz dizendo que nunca foi especificado nos livros que a personagem era branca, a primeira pergunta que deveríamos nos fazer é como ficou tão enraizado na nossa cabeça que Hermione não é negra. E a resposta não é a atuação de Emma Watson.

A escritora feminista Monique Wittig já fez uma discussão sobre o quanto o padrão é ser homem: “‘Homem’ é o coletivo de ‘seres humanos’. ‘Eles’ substitui ‘eles e elas’. Ser homem é ser normal. Ser mulher é ter um gênero”. Quando descrevemos, de forma genérica, a existência de um personagem, automaticamente imaginamos um homem branco. Não é uma particularidade nossa: são anos e anos de doutrinação da ideologia dominante para que o normal seja esse. E na dicotomia de brancos e negros, a regra permanece.

Duvida? Se você vê uma moça bonita na rua e vai descrever para alguém, você geralmente falaria: “Vi uma mulher bonita”. Não precisa de explicações. Todo mundo vai entender que ela é branca. Isso porque, se ela fosse negra, você deixaria especificado: “Vi uma mulher negra bonita”. O normal, o padrão, aquilo que o nosso subconsciente acessa no nível automatizado, sem precisar pensar, é isso: é ser homem, e é ser branco. Qualquer coisa fora precisa de descrição.

Vocês já viram a discussão que tá rolando sobre fazer um James Bond negro ou mulher? Pois é. Ninguém quer aceitar um James Bond que não seja homem branco.

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É fácil então entender como o apego a uma Hermione branca, quando mesmo a autora do livro nega que isso tenha sido descrito (e não foi!), é alto. Ele é fruto de um racismo enraizado e introjetado tão fundo que todo mundo 1) nega e 2) diz que não é racismo.

Surpresa: é, sim. E é o tipo de racismo mais poderoso do mundo: aquele que aparece no nosso nível mais anterior, antes mesmo do pensamento racional, e que é facilmente descartado como inofensivo.

Ainda mais evidente essa falsa simetria se torna quando analisamos outras situações em que o chamado “purismo literário” foi completamente ignorado e ninguém se importou: a Katniss, de Jogos Vorazes, é descrita como tendo “cabelos escuros, olhos cinza, e pele de oliva”. Mas quando Jennifer Lawrence, loira de olhos claros, branquela, com aquela cara de californiana pintou os cabelos e disse que estava pronta para se transformar na Katniss, ninguém interveio. Quando Game of Thrones decidiu escolher atores brancos para uma série de papeis que deveriam ser de pessoas negras e pardas, ninguém interveio.

A revolta só vale quando se muda a imagem branca, que já tem uma frequência gigante, gigantesca, imensa, em uma proporção vergonhosa. Quando a representatividade negra é roubada, ninguém se importa. Então onde está esse famoso purismo literário, que por si só já seria ridículo? E como existe gente que tem coragem de defender isso que é nada mais que supremacia branca?

A falácia é tão gigante que temos pessoas reais negras sendo personificadas no cinema por atores e atrizes brancas sem qualquer indignação: Angelina Jolie como a jornalista Mariane Pearl; todos os filmes de Egito Antigo com atores brancos como faraós (aliás, vocês sabiam que o Egito fica na África? A Cleópatra da Elizabeth Taylor é uma mentira gigantesca – mas nada é desculpa pra não saber esse fato básico da geografia e esconder o próprio racismo nessa ignorância, viu?); Max Minghella como o indiano Divya Narendra em A Rede Social. Batman, Bonequinha de Luxo, Príncipe da Persia, Scarface, Uma Mente Brilhante. Cadê a revolta por esses filmes?

Isso sem falar naquelas situações vergonhosas em que maquiam artificialmente atores brancos para que eles pareçam ter outra cor e roubem, assim, o papel que deveria pertencer a atores e atrizes não brancos. Menos de 20% da população mundial é branca. E eu aposto que ainda vai ter gente falando que falta ator não branco pra representar os papeis. Isso tem um nome: racismo.

Parece aquele quadro incrível em Master of None em que um produtor de uma série que tá aberta pra contratar pessoas de diferentes etnias diz que não pode ter “dois indianos na mesma série”. Ou seja: até os ambientes supostamente abertos para diversidade têm seus limites (racistas).

E se é pra brincar de “deveria ser de outra cor”, o próprio Jesus é representado como loiro de olhos azuis na maioria esmagadora de imagens. Se ele tivesse suscitado uma revolta como a que a Hermione negra causou…

Mas é só pra ser justo com os livros, né? Não tem naaaaaada a ver com racismo. Imagina.

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Rainha do mundo! <3

P.S.: Recadinho pessoal: amigos e amigas brancos, sério. Menos, tá? Tá na hora de reconhecer a dívida histórica que temos e começar a olhar pras merdas que a gente faz e ver se a gente consegue ser melhor. Por favor. Que vergonha.

“Cidade em Chamas”: uma viagem para a Nova York dos anos 70

Se Vinyl nos leva para a Nova York dos anos 70 principalmente com a paleta de cores e as referências visuais, Cidade em Chamas utiliza o cenário político, o surgimento do punk, as grandes conglomerações e o apagão de 77. O livro, de mais de 1000 páginas, acabou de chegar no Brasil e desde o ano passado vem recebendo resenhas elogiosas da crítica norte-americana: o autor recebeu um adiantamento de $2 milhões de dólares.

A história foca no ano de 76 a 77, mas não se limita a ele. Os saltos cronológicos para o passado e para o futuro são bem costurados na trama, seja na narrativa direta ou nos interlúdios, um dos tesouros do romance: espaços onde cartas, avaliações psiquiátricas, fanzines e reportagens a que os personagens têm acesso são disponibilizadas para o leitor também. Esses recursos funcionam como um convite para participar da história junto com os protagonistas – personagens que variam da pobreza à riqueza e da adolescência à velhice, se interligando de formas inusitadas na cidade gigantesca. O livro tem um ou outro problema, que falo um pouco nesse vídeo, mas é uma leitura que vale a pena. E o grande trunfo tá no fator viagem no tempo.

Nova York, nos anos 70, passava por um período conturbado: incêndios tomavam conta do Harlem e do Bronx e o movimento punk e a resistência ao status quo ganhavam cada vez mais força. O CGBG, o East Village, uma bandinha nova e underground, artes plásticas, literatura. Os bastidores do movimento punk e do mundo das galerias de arte também estão lá, deixando nós na posição quase de intrusos, descobrindo segredos antes enterrados de um momento histórico.

A arte é um fio condutor tanto quanto os esquemas econômicos, as corrupções e manipulações das grandes empresas. Mas é o assassinato de uma adolescente que liga todos os personagens e transforma o ritmo da história: é por causa dele que seguramos o ar enquanto passamos as páginas.

O autor não viveu aquela época, mas poderia ter vivido: é como se o livro fosse um vórtex que nos suga pra esse mundo com tanta força que a gente é capaz de sentir o cheiro que corria nas ruas naquela época. Os personagens que caminham nessas ruas são muitos: mas o protagonista do livro é, acima de tudo, a cidade.

VINYL, a maravilhosa série sobre sexo, drogas, rock’n’roll e homens otários

Jessica Jones e suas metáforas sensíveis sobre relacionamentos abusivos. Master of None e um humor ácido tirando sarro de opressores. Relacionamentos mergulhados em sarcasmo e na indústria de séries para TV em Love. E a maravilha de Mr. Robot, que vai de discussões sobre justiça social a sofrimento mental em incríveis dez episódios. A gente não pode negar: as séries estão ficando cada vez melhores. Com Vinyl, em 2016, isso é ainda mais verdade.

A New Yorker não concorda. Na resenha após o piloto da série criada por Scorsese e Mick Jagger, a publicação diz que assistir ao episódio é como estar numa festa ao lado de um cara que fica gritando sem parar o quão chapado ele tá: Vinyl é uma masturbação, o próprio meio da música exaltando a si mesmo e promovendo valores sobre a essência do rock e a arte de não se vender.

É verdade: a série retrata, sim, esses princípios travestidos de nobres sobre o que seria o verdadeiro rock’n’roll. Essa ideia é perfeitamente personificada no protagonista Richie Finestra (Bobby Cannavale), fundador da American Century, uma gravadora que viveu os anos de glória e agora se vê definhando. Ele tem uma mulher linda em casa, Devon (Olivia Wilde), que precisou abandonar a própria carreira artística para exercer bem o papel de mulher-de-executivo. Ele tem uma série de ideias sobre a verdadeira música e detesta a realidade comercial que impõe dívidas e obriga que ele traga artistas sem qualidade. Ele tem muitos pêlos no corpo, grita sempre que pode, e adora provar o próprio poder. Ele é machão e doidão, engole álcool de montão e cheira cocaína o suficiente pra mostrar que é valentão.

Mas Richie, por mais que queira, não é nosso heroi vitorioso. E é essa a prova de que a série é muito mais incrível do que a New Yorker pôde imaginar. 

Richie Finestra, assim como esse ideal do estilo de vida do rock, é uma fantasia que não pode se sustentar. Do outro lado, Kip (James Jagger), o vocalista da nova descoberta musical Nasty Bits, veste a roupa do artista problema, com noções megalomaníacas do seus próprios direitos em nome da arte.

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O que acontece é que, episódio após episódio, Richie se afunda cada vez mais em uma espiral de destruição, que é muitas vezes auto-gerida, mas a maior parte fica fora do seu próprio controle. A sua visão de algo “novo” não é nem um pouco convincente, porque nem ele mesmo sabe como salvar algo que já está acabado. Para ele, a expressão máxima da masculinidade, expressa em sexo e violência, está intrinsecamente ligada à validade da música. “Você lembra a primeira vez que escutou uma música que arrepiou os pêlos da sua nuca?”, Richie pergunta. “Que fez você querer dançar, ou foder, ou sair e bater em alguém?” Pra todos os efeitos, isso é o que faz a boa música. O personagem é claramente um machista dos piores, com episódios de racismo explícito, como o bom típico homem branco. 

Isso é muito bem mostrado em uma sequência em que ele convida Devon para seduzir um artista a permanecer na gravadora. Ela tem plena consciência de que cabe a ela o papel de isca – linda e fascinante o suficiente para flertar com o artista até ele decidir ficar. Mas Richie não suporta perceber que ela se sente atraída pelo artista – e é nessa percepção chocante da humanidade dela que ele mostra o quão pequeno ele é. E mesmo assim, na própria fossa da auto-piedade, ele tem carisma e consegue até gerar um pouco de compaixão: coitado. Tão cego, tão louco, tão fora da realidade.

E a realidade é que são as mulheres da série que ocupam o espaço da lucidez contrária a toda essa histeria coletiva masculina. As decepções constantes de Devon com o marido fazem que ela volte ao círculo artístico coroado por Andy Warhol, de onde ela saiu. O amor pela fotografia reaparece. Jamie, uma assistente, é a única pessoa que ainda consegue trazer artistas com alma pra gravadora – os Nasty Bits foram descoberta dela – deixando todos os fodões efetivamente contratados para isso comendo poeira. Seu chefe, inclusive, acaba matando o som da banda ao tentar aprimorá-los. Andrea surge para mostrar pra todos os valentões da American Century tudo de errado que eles tão fazendo – e, acredite, é muita coisa.

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Esse não é o Mad Men da música, como a série foi promovida em alguns lugares. Não temos um Don Draper conquistador para quem dezenas de mulheres decorativas são criadas. Não temos personagens femininas reduzidas a dramas menores, sempre um pouco – ou muito – atrás. 

Os anos 70, o clima de arte, a música de resistência, tudo isso é de relevância na série, que nos traz Andy Warhol, Lou Reed, David Bowie, John Lennon, Nico – as aparições são tantas que a memória falha. O desespero e o medo também têm espaço – não só por causa das relações superficiais e da constante instabilidade do meio, em que todo mundo é dissimulado, corrupto e egoísta, mas também pelo assassinato que acontece logo no primeiro episódio e pelas atividades com a máfia. E todos os episódios são revestidos em uma embalagem de cores perfeitas, trilha sonora incrível, óbvio, e detalhes que te levam direto pra década em questão.

Vinyl é, sim, uma série que vai na contramão, que resiste, que é contracultura. E até um pouco mágica: começando pela ilusão de máquina do tempo.

A REDOMA DE LIVROS – Junot Díaz, Donna Tartt, Gillian Flynn & Melhores primeiras frases

Desde que voltei pra Porto Alegre, comecei a gravar uns vídeos no YouTube pra minha amiga Amandine, que continuou em São Paulo, como uma tentativa de matar a saudade. Achei divertidíssimo falar dos livros que to lendo e amando e daí resolvi mostrar pra todo mundo. Os primeiros são de uma produção zero (até de pijama eu to), mas no último já dá pra ver que aprendi um pouco a editar hahahaha. Se vocês curtem literatura, dêem uma olhada que eu juro que tá legal e tem gatinha (Karenina como sempre sendo estrela de tudo da minha vida).

O nome do canal ficou A Redoma de Livros por causa do meu amor pela Sylvia Plath e abaixo tem os primeiros vídeos: sobre Drown, do Junot Díaz, A História Secreta, da Donna Tartt, e os livros da Gillian Flynn, entre eles o super sucesso Garota Exemplar. Espero que vocês gostem!