Férias sem viagem? Vá a museus

(eu tirei essa foto do post no Louvre, em Paris, durante uma aula de
história da arte para crianças dentro do museu)

Se a crise, o tempo, o trabalho ou o que seja não deixou você viajar pra outra cidade ou outro país esse ano, dá pra viajar muito – no tempo, na história, na beleza – em um só lugar: no museu. Eu adoro museus. Quando viajo, sempre coloco os museus como prioridade na minha lista de coisas legais pra fazer nessa cidade. Mas, curiosamente, em São Paulo, onde morei por mais de 3 anos, não conheci todos os museus. É aquela coisa de “mais pra frente dá tempo”, “amanhã eu vou”, “de repente semana que vem to menos lotada de coisa pra fazer”. Esse ano, de volta aqui, quero conhecer mais.

Em Porto Alegre, onde morei por mais de duas décadas, posso dizer que visitei o MARGS, o Santander Cultural e o Iberê Camargo vezes demais. Em alguns meses, em que ia ao centro com frequência, visitava o MARGS toda semana. Foi lá que vi meu primeiro Renoir ao vivo, gigante, e quase chorei, porque faço bastante essa coisa de chorar na frente de obras de arte. E olha que eu nem amo Renoir tanto assim.

Esse ano, a FEAMBRA (Federação de Amigos de Museus do Brasil) organizou uma lista com algumas dicas espalhadas pelo país inteiro pra aproveitar durante verão. Vamos juntos?

 

Museu de Arte Contemporânea da Universidade de São Paulo (MAC)

Atividades lúdicas motivadas pelas exposições em cartaz no museu. A obra Onça Pintada nº 1, de Leda Catunda, será o ponto de partida para conversas sobre estampas e padronagens industriais e artesanais.
25 de janeiro, quarta-feira, das 10h30 às 13h30.
Gratuito.
Avenida Pedro Álvares Cabral, 1301. Parque Ibirapuera. São Paulo – SP.
www.mac.usp.br

Museu Catavento

É um espaço educativo e interativo com diversas atrações e atividades para pessoas de todas as idades. Bebês com seus pais podem participar e se divertir na sala Engenho, o Borboletário e o jardim do local. Com acesso para carrinhos de bebês, também oferece bancos para descanso, trocadores para bebês nos banheiros masculinos e femininos e ambulatório para atendimento.
Funciona de terça a domingo, (fechado às segundas), das 9 às 17 horas (bilheteria fecha às 16 horas). Ingressos: R$ 6 (inteira) e R$3 (meia). Aos sábados a entrada é gratuita. Crianças até 3 anos não pagam. Palácio das Indústrias, Praça Cívica Ulisses Guimarães, s/no (Av. Mercúrio), Parque Dom Pedro II, Centro, São Paulo. Tel. (11) 3315-0051. Estacionamento pago. Acessibilidade no local. www.cataventocultural.org.br.

Casa das Rosas

Museu dedicado à poesia e à literatura, possui banheiro com trocador para bebês, cadeiras nas varandas, rampa de acesso e elevador. O carrinho de bebê pode ser guardado em uma sala reservada para esse fim.
Funciona de terça a sábado (fechado às segundas), das 10 às 22, domingos e feriados, das 10 às 18 horas. Ingresso: gratuito. Av. Paulista, 37, Bela Vista, São Paulo. Estação Brigadeiro do Metrô (850m), tels. (11) 3285-6986 e (11) 3288-9447. Estacionamento pago. Acessibilidade no local. www.casadasrosas.org.br.

Pinacoteca de São Paulo

Possui o projeto PinaFamília, realizado sempre no segundo domingo do mês. O objetivo é estimular a visita de famílias ao museu e a apreciação artística com atividades e visitas guiadas. A Pinacoteca conta com bancos distribuídos por todo o museu, trocadores para bebês nos banheiros masculinos e femininos, acesso para carrinho de bebê e elevadores. Funciona de quarta a segunda (fechado às terças), das 10 às 17h30 (com permanência até 18 horas). Ingressos: R$ 6 (inteira) e R$ 3 (meia). Aos sábados a entrada é gratuita. Crianças até 9 anos não pagam. Praça da Luz, 2, Luz, São Paulo, tel. (11) 3324-1000. Estacionamento gratuito no local. Acessibilidade no local. www.pinacoteca.org.br.

Museu da Casa Brasileira

Com bancos espalhados por todo jardim, onde é possível sentar para descansar e também amamentar, o Museu da Casa Brasileira oferece acesso para carrinho de bebê e uma programação de oficinas educativas voltadas para crianças e família, como o Encontros no Quintal, que acontece quinzenalmente no jardim do MCB para troca de ideias, experiências e realizações de atividades; a oficina de Casinha, que também acontece quinzenalmente, às quartas-feiras, onde os participantes são convidados a construir modelos de casa com materiais não estruturados, a partir de suas lembranças e memórias. O espaço também possui trocadores para bebês nos banheiros masculinos e femininos.
Funciona de terça a domingo (fechado às segundas), das 10 às 18 horas. Ingresso: R$ 7; gratuito aos sábados, domingos e feriados. Crianças até 10 anos não pagam. Av. Brigadeiro Faria Lima, 2.705, Jardim Paulistano, São Paulo. CPTM Cidade Jardim (850m), tel. (11) 3032-3727. Estacionamento pago no local. Acessibilidade no local. www.mcb.org.br.

Museu da Imagem e do Som (MIS-SP)

No último domingo do mês, realiza a Maratona Infantil, um dia de atividades voltadas para crianças e suas famílias. Os visitantes podem aproveitar oficinas, espetáculos, contação de histórias e shows. O espaço possui trocadores para bebês nos banheiros masculinos e femininos, elevador para acesso com carrinho de bebê e banco para descanso.
Funciona de terça a sexta (fechado às segundas), das 12 às 21 horas; sábados, domingos e feriados, das 11 às 20 horas. Ingressos: gratuito às terças-feiras; consulte valores nos outros dias, que variam de acordo com a exposição. Crianças até 5 anos não pagam. Av. Europa, 158, Jardim Europa, São Paulo, tel. (11) 2117-4777. Estacionamento pago no local. Acessibilidade no local. www.mis-sp.org.br.

Museu Afro Brasil

Com trocadores de fralda nos banheiros femininos e masculinos, o museu oferece, no último sábado do mês, a contação de histórias Aos Pés do Baobá, para crianças acompanhadas de seus pais conhecerem narrativas africanas ou afro-brasileiras, seguidas de bate-papo com os educadores do museu.
Funciona de terça a domingo (fechado às segundas), das 10 às 17 horas (bilheteria fecha às 18 horas). Ingressos: R$ 6 (inteira) e R$ 3 (meia). Aos sábados a entrada é gratuita. Crianças até 10 anos não pagam. Av. Pedro Álvares Cabral, s/nº, Pavilhão Manoel da Nóbrega, Parque do Ibirapuera, portão 10, São Paulo, tel. (11) 3320-8900. Estacionamento pelo portão 3 (Zona Azul). Acessibilidade no local. www.museuafrobrasil.org.br.

Museu do Futebol

Possui acessibilidade em todos os espaços. Com rampas de acesso, elevadores e escadas rolantes, é possível entrar com o carrinho de bebê nas salas do Museu. O espaço também possui trocadores de fraldas nos banheiros femininos e no banheiro unissex, permitindo um passeio mais confortável e divertido com o papai ou com a mamãe.
Funciona de terça a sexta-feira, das 9 às 17 horas (bilheteria até 16 horas); sábados, domingos e feriados das 10 às 18 horas (bilheteria até 17 horas). Ingresso: R$ 9 (inteira) e R$ 4,50 (meia), grátis aos sábados. Praça Charles Miller, s/nº, Pacaembu, São Paulo, tel. (11) 3664-3848. Estacionamento na Praça Charles Miller (Zona Azul). www.museudofutebol.org.br.

Museu de Ciências Naturais

Oficinas lúdicas de restaurador mirim para grupos de até dez integrantes, com ações educativas, jogos e atividades artísticas. O intuito é despertar no público a atenção, o potencial criativo e a conscientização da preservação de acervos.
Até o final de fevereiro. Gratuito.
Terças-feiras a domingos: 9h30 às 16h45.
Avenida das Nações Via L-4 Sul. Brasília – DF.
www.zoo.df.gov.br/

Museu de Artes Visuais Ruth Schneider

Exposições e oficinas: “Narrativas imagéticas das ocupações urbanas”, por Erviton Quartieri Jr; “A obra de Ruth Schneider e Artistas Passo-Fundenses”.
Até o final de fevereiro. Gratuito.
Terças a sextas-feiras: 8h30 às 17h30.
Sábados e domingos: 13h30 às 17h30.
Av. Brasil Oeste, 758. Passo Fundo – RS.
www.upf.br/mavrs

Museu Histórico Regional

Exposições e oficinas: “Cem anos do samba e outros carnavais” e “Centenário do Clube Visconde do Rio Branco”.
Até o final de fevereiro. Gratuito.
Terças a sextas-feiras: 8h30 às 17h30.
Sábados e domingos: 13h30 às 17h30.
Av. Brasil Oeste, 758. Passo Fundo – RS.
www.upf.br/mavrs

Museu Municipal de Arte – MuMa

Exposição “O Circo, O Brinquedo e A Brincadeira”, com participação da artista Cyntia Werner e apresentação do boletim digital da Casa Romário Martins “Senhoras e Senhores: o circo da cidade faz 40 anos!”, sobre a trajetória do circo da cidade.
Até 19 de março. Gratuito.
Terças-feiras a domingos: 10 às 19 horas.
Sala Célia Neves Lazzarotto – Portão Cultural
Av. República Argentina, 3430. Curitiba – PR.
www.fundacaoculturaldecuritiba.com.br

Museu Eugênio Teixeira Leal / Memorial do Banco Econômico

O programa “Museu Escola” promove palestra e visita mediada nas salas de exposições do museu, com o objetivo de realizar programações extracurriculares, possibilitando que o estudante amplie seus conhecimentos técnicos e práticos sobre a história do dinheiro e da Bahia.
Projeto “Inclusão sócio-digital” voltado aos serviços da internet que disponibilizam à população o acesso gratuito aos recursos da tecnologia digital.
Até dezembro. Gratuito.
Terças a sextas-feiras: 9 às 18 horas.
Rua do Açouguinho, 01. Pelourinho. Salvador – BA.
www.facebook.com/museueugeniotleal

Inhotim

Estação Educativa para Visitantes: plataforma de acolhimento e apoio ao visitante de todas as faixas etárias. Com objetos de mediação, como miniexposição de materiais educativos, uma coleção biológica (caixa didática de borboletas) e um jogo da memória com o tema “Arte contemporânea em Inhotim”.
Até o final de fevereiro. Gratuito.
Terças a sextas-feiras: 10 às 16 horas.
Sábados, Domingos e Feriados: 10 às 17 horas.
Rua B, 20. Centro. Brumadinho – MG.
www.inhotim.org.br

Museu da Casa Brasileira

Exposição “Pioneiros do Design Brasileiro”, com imagens de carros criados de forma quase artesanal para homenagear o designer brasileiro Anísio Campos, um dos grandes protagonistas da história do automóvel no Brasil.
Até março. R$7 inteira e R$3,50 meia.
É possível realizar piquenique no jardim do museu. O encontro deve ser informal, não podendo ser caracterizado como evento privado.
Todos os dias no horário de funcionamento do museu. R$7 inteira e R$3,50 meia.
Terças-feiras a domingos: das 10 às 18 horas.
Av. Brigadeiro Faria Lima, 2705. Pinheiros. São Paulo – SP.
www.mcb.org.br

Museu Histórico Folclórico e Pedagógico Monteiro Lobato

Teatro “As Emili´Annas”, Brincadeiras no Quintal, Oficinas Pedagógicas, Passeio do Visconde, aulas de Tai Chi Chuan e visitas guiadas.
Até o final de janeiro. Gratuito.
Terças-feiras a domingos: das 9 às 17 horas.
Av. Monteiro Lobato, s/nº – Chácara do Visconde. Taubaté – SP.
www.museumonteirolobato.com.br

Museu Casa de Portinari

Brincadeiras de interação que remetem à infância de Portinari e permearam sua obra plástica e poética, como pular corda, amarelinha, pintura, bola de meia, bugalha, peteca e pião.
Até o final de janeiro. Gratuito.
Terças-feiras a domingos: das 10 às 16 horas.
Praça Candido Portinari, nº 298. Brodowski – SP.
www.museucasadeportinari.org.br

Museu Histórico e Pedagógico Índia Vanuíre

Oficina de adorno e artesanato indígena; confecção de brincos de pompom, presilhas, pipas, origami e kirigami e bolsas com dobradura de jornal; desenho às cegas; jogo da memória; brincadeiras indígenas; arte em sucata e Passeio Cultural.
Até o final de janeiro. Gratuito.
Terças-feiras a domingos: das 9 às 11 horas.
Rua Coroados, nº 521, Centro. Tupã – SP.
www.museuindiavanuire.org.br

Museu Felícia Leirner e Auditório Claudio Santoro

Contação de lendas da Mantiqueira; jogos cooperativos; atividades e interações com o meio ambiente; oficinas de confecção de instrumentos musicais, danças, esculturas e de tinta da terra; atividades circenses e práticas que irão explorar o lado criativo, sensível e visual de cada participante.
Até o final de janeiro. Gratuito.
Terças-feiras a domingos: das 9 às 16 horas.
Auditório Claudio Santoro
Av. Dr. Luis Arrobas Martins, nº 1.880. Campos do Jordão – SP.
www.museufelicialeirner.org.br/

Menos branquice no Netflix

No incrível “Swing Time”, primeira leitura de 2017 e com certeza pertencente à lista de melhores desse ano, a personagem principal é filha de mãe negra e pai branco. Tal qual a autora, Zadie Smith, a questão de não ser branca e nem negra marca a narrativa. Em determinado momento, ela, criança, mostra pra uma colega de classe e de dança um vídeo de uma apresentação em que todos os dançarinos são negros. A protagonista está deslumbrada. Pela dança, pela identificação. A amiga, branca, responde de forma incisiva: ela não consegue perceber como é ofensivo mostrar um vídeo assim? Em que todo mundo é negro? Na própria casa dela? Que era um absurdo, uma falta de respeito, uma falta de consideração?

Master of None, série original do Netflix, chegou dando um chega pra lá nessa coisa de só gente branquinha e perfeitinha sendo estrela. Mas em 2016, tivemos três séries espetaculares que deram uma resposta incrível pro white washing de Hollywood: não só os brancos são minorias, mas o racismo é denunciado, e as séries são muito, muito boas. Atuação, roteiro, história: dando uma lição pra outras séries amadas como Sense 8Stranger Things, Gilmore Girls (que eu amo, mas que revival bem mais ou menos, né gente?).

Junto com Mr. Robot, The Americans, Black Mirror, Game of Thrones e House of Cards, elas completam as minhas séries favoritas do ano (e percebam como mesmo assim a minha lista é dominada por brancos…). Vamos lá pro top 3:

chewing-gum-serie-netflix-beyonce-amem

3. CHEWING GUM

Tracey é uma menina de uma família muito religiosa que, como toda adolescente, está com os hormônios explodindo. Perder a virgindade é o drama central no começo da história, que se desenvolve pra falar de dramas muito mais profundos. Com um humor afiado, uma narrativa maravilhosa e uma atuação melhor ainda, a série trouxe alguns dos melhores diálogos que eu já assisti. É de chorar de rir: um retrato fiel e irônico do que é ser adolescente e dos conflitos entre religião e desejo.

thegetdown

2. THE GET DOWN

Eu tinha certeza que essa seria a melhor série do ano pra mim, de tão boa que é. O fio condutor da história – a música – já é uma das minhas paixões. O cenário, a Nova York explosiva dos anos 70, com um Bronx em chamas, o apagão de 77 (que, além de aparecer na série, é tema de um lançamento literário que se tornou best seller mundial, Cidade em Chamas), a crise política, a especulação imobiliária. Nesse ambiente caótico, os personagens fazem poesia, trazem o conflito entre arte e responsabilidade, e sentem como é ser jovem e apaixonado. Destaque pro Jaden Smith, meu personagem favorito. De novo: atuações incríveis, roteiro invejável e fotografia sensacional. Que série.

donald

1. ATLANTA

Donald Glover é tudo o que eu queria ser: músico de altíssima qualidade (o que é esse disco novo do Childish Gambino?), escritor muitíssimo bom, ótimo ator, lindo de morrer. Ele é também o criador, protagonista, roteirista e às vezes diretor de Atlanta, facilmente a melhor série do ano. Earn, o personagem principal, é um jovem adulto que precisa lidar com a responsabilidade de ter uma filha ao mesmo tempo que quer seguir o sonho de ser produtor musical, sua verdadeira vocação. A relação bem humorada com os amigos, o relacionamento complexo e muito bem desenvolvido com a esposa e a paixão pela música desenvolvem o drama existencial que cerca cada diálogo perfeito. A série é engraçada, irônica, super atual e afiadíssima, e ainda faz um uso muito criativo do Snapchat. Com episódios para mostrar a perspectiva da esposa, com conflitos carregados de subtexto e sequências maravilhosas, a série é o que toda série almeja ser: impecável. O destaque vai para o episódio 7, B.A.N., uma sátira de talkshows norte-americanos em que se discute corajosamente como o preconceito é um se você é branco e rico (como Bruce/Catilyn Jenner) e outro quando você é preto e pobre. Um muito bem dado tapa na cara de todo branco que assistir (na minha inclusive). Maravilhosa.

A inveja e a felicidade pelo fracasso de Rory Gilmore

Sim, tem spoilers.

Confesso: eu duvidei que o futuro da Rory fosse esse retratado pela criadora Amy Sherman-Palladino no revival que estreou mês passado na Netflix, A Year in the Life.

Faz mais sentido quando pensamos que as últimas quatro palavras – e a história – eram planejadas por Amy desde o começo da série, e que ela saiu da produção logo após a grande crise de Rory Gilmore (quem é que nunca roubou um iate, né?…). Ou seja: talvez esse momento de confusão, de desencaixe, de encarar a realidade, na verdade aconteceria com uma Rory recém formada, lá pelos 20 anos.

Faz mais sentido.

Encontrar a Rory com 32 anos profissionalmente mais perdida que eu com 25 foi desapontador. Perder uma referência, uma inspiração, alguém a frente de mim que me pudesse me dar gás e vontade de lutar, bom, nunca é legal. E ainda mais quando isso acontece com a Rory, a primeira personagem da televisão onde eu realmente me vi. De verdade. Inteligente, menina prodígio, bonitinha, leitora assídua, apaixonada por música, que preferia ficar lendo no intervalo do que socializando com colegas – e mimada, egoísta, insegura demais pelas expectativas dos outros.

É óbvio que a realidade em algum momento ia bater na porta dela pra dizer ei, miga, saca só, as coisas não são tão simples na vida real, Nova York não é Stars Hollow, ninguém lá te conhece, ninguém lá te ama, ninguém lá tá torcendo por você. Mas assistir àquela personagem sensata e reflexiva perceber isso aos 30 é doloroso. (Talvez o câncer e a depressão tenham cuidado de começar a me ensinar isso cedo, então meu aprendizado constante não vai ter um começo súbito e desesperado aos 32.)

Mas, mais que doloroso, é difícil de acreditar.

Que ela estivesse desempregada, sem nada publicado, sem prêmios e sem reconhecimentos? Ok, isso acontece, a vida é uma merda. Mas que ela estivesse perdida, ainda afogada em uma postura adolescente, repetindo erros de uma década atrás? Ela não aprendeu nada nesses 10 anos? É uma espécie de adolescência tardia? Na próxima temporada ela vai experimentar maconha e ter o primeiro porre?

Amy fez suas escolhas. A gente é obrigada a aceitar. Agora, o que é difícil de aceitar é essa plateia de pessoas batendo palmas pro fracasso da Rory, felizes por ela encontrar uma realidade fria e cruel, o que finalmente me faz pensar: é isso que vocês pensam sobre suas amigas, conhecidas, chefes, colegas? Vocês torcem pro fracasso umas das outras?

“Mas, Clarissa, Gilmore Girls é uma série…”

Eu não vou entrar no mérito da arte e entretenimento como catarse e forma de viver outras experiências, nem sobre a função disso na criação da empatia. A verdade pode ser resumida de um jeito bem mais fácil: todo mundo que eu vi feliz por esse futuro da personagem falou a mesmíssima coisa.

Que era bom ver aquela menina inteligente, bonita, querida, focada, sendo fodida pela vida. Que ninguém é assim, ao mesmo tempo inteligente, bonita, querida, focada. Que é reconfortante ver que ela deu com a cara na parede.

E daí eu penso: vocês não conseguem acreditar em mulheres assim? Inteligentes, bonitas, queridas ao mesmo tempo? As personagens femininas precisam ser mentalmente estragadas pra compensar uma superforça como a Jessica Jones? Ou com uma moral bem complicada pra equilibrar o poder como a Claire Underwood? Ou terem cometido crimes pro karma fazer sentido como todo mundo em Orange Is The New Black?

Como feminista, é curioso observar que mulheres com grandes falhas são mais críveis que mulheres com grandes qualidades, e que personagens como a Rory são descartadas por serem “perfeitas demais”. É triste e revoltante que uma mulher com essas qualidades não faça sentido nem na ficção, e mais ainda que exista torcida para que ela se ferre.

É. Tá foda.

No mais, eu tenho o prazer de poder dizer que sou cercada por mulheres ainda melhores que a Rory. Inteligentes demais, lindas demais, admiradas, amadas, reconhecidas, artísticas, expressivas, tímidas, únicas. E, melhor ainda, reais.

Leonard Cohen e o pior ano de nossas vidas

Nessa trilha sonora pro fim do mundo, Leonard Cohen era o que me salvava.

Esse ano começou com meu quarto câncer, em que perdi o útero, os ovários, as trompas, todas as chances de ser mãe. Mais ou menos na mesma época que o Bowie morreu. E todo mundo chorou. Eu não, já disse. Ele não era meu deus do rock. A gente sente a perda – o mundo sente a perda. Da arte. Da força de unir tanta gente num sentimento. Em alguns versos. Em uma sequência de acordes.

Leonard Cohen não era um David Bowie. Não era estrela, não era performático, não era de outro mundo. Ele era daqui, do nosso mundo, do nosso chão. Só que sentia as palavras de um jeito diferente. E nos meus momentos de catástrofe interna, de temporais e furacões, era sempre ele que eu ouvia, não só com os ouvidos, ouvia com o corpo todo, com o estômago, com os pulmões, pra voltar a respirar.

E como a gente precisa respirar esse ano. Astrólogos falam que são os astros, os espíritas têm outras explicações. Mas a gente sente. O dinheiro faltando, os atentados acontecendo, essa gente sendo escolhida pra mandar no mundo. E parece que as pessoas iluminadas – aquela aura de luz, a capacidade de nos envolver dentro, e nos tirar um pouco do vórtex de destruição – tão indo embora. Uma por uma.

Faz quatro anos que o João e eu tentamos entrevistar o Leonard Cohen. Semana passada, recebemos um ok. Como falou o João, “quase fizemos a última entrevista da vida dele. Ou fizemos a última quase entrevista da vida dele”. Seria a última entrevista das nossas vidas – o que viria depois dele? O que a gente sente depois de encontrar deus?

A primeira música que conheci dele não é das mais famosas, “Waiting for the miracle”. Esse título, como disse a Amanda, nesse 2016 apocalíptico, nunca fez tanto sentido. E no meio do meu desprezo incontrolável por gente que chora a morte de pessoas famosas como se fossem amigas, to aqui, chorando também.

Meu deus desistiu do nosso mundo.

Mas Leonard Cohen continua sendo a trilha sonora perfeita pro fim do mundo.

Precisamos falar com os homens?

Eu sou daquele tipo de feminista que acredita que o feminismo é um movimento das mulheres, para mulheres. Mas eu acredito que homens podem trabalhar para a igualdade de gênero – vejam bem, eu não disse que homens podem participar ativamente do feminismo, disse que podem contribuir para a igualdade de gênero. Como? Revendo seus privilégios, aceitando os confrontos das minas, entrando num processo de desconstrução. Tenho muitos amigos que me pedem conselhos sobre isso e eu costumo falar: começa abrindo mão da pornografia, parando de assediar meninas, abandonando piadas machistas. Pára de falar pras mulheres e vai falar pros homens: briga com os amigos que mantêm comportamentos machistas.

O processo de desconstrução é longo e pode ser dolorido. Muitas vezes, é um processo pra vida toda. E podem me acusar por ser pisciana e ingênua demais, mas eu acredito que a gente possa construir um mundo melhor abrindo diálogos (até a revolução, pelo menos). Nós, mulheres, já estamos falando sobre isso. Tá na hora de os homens falarem também.

Fiquei sabendo essa semana do documentário “Precisamos falar com os homens?”, da ONU Mulheres aqui no Brasil, que foi feito a partir de uma pesquisa com 20.000 pessoas e têm a participação de minas fodas como a Clara Averbuck.

 

Assistir a iniciativas que envolvem homens e falam de igualdade de gênero é sempre uma experiência agridoce. A gente nunca sabe o que vai aparecer e que tipo de justificativa pra machismo a gente vai encontrar. Nesse trailer – e nos teasers – a sensação que eu tive foi outra: não se buscou, aqui, desculpar os homens pelo papel ativo no machismo que se propaga. O que eu vi foi uma responsabilização deles: senta aqui, você é agente disso tudo, tá na hora de você encarar o que você faz.

E essa lição é muito boa.

Por isso, convido todo mundo a assistir ao documentário, que estreia no dia 25/10 nesse canal do YouTube. E mandar pro amigo, pro namorado, pro vizinho, pro irmão, pro pai, pro tio. Por que sim: (infelizmente, talvez) nós precisamos falar com os homens.

 

Popload Festival 2016: a música é o que mais importa (mas o resto também é mara)

(por Clarissa Wolff e João Vítor Medeiros)

Esse texto vai ser daquele jeitinho, nada jornalista musical, tudo uma experiência.

No começo desse ano, escrevi sobre como foi terrível ir ao último Lollapalooza. O lineup do próximo é uma metralhadora atirando para todos os tipos de público. Eu sei como é complicado fazer um festival gigante se sustentar e crescer no Brasil, onde os cachês historicamente altos, a dificuldade do deslocamento e mais vários outros problemas enfrentados por produtores fazem o ingresso muitas vezes encostar no salário mínimo. O que devia ser um absurdo, mas com todos esses custos, não é. Mas o Lollapalooza parece ter esquecido que nasceu da e pra música, e, como o Coachella, tem cada vez mais se tornado uma produtora de dinheiro e de notas pra coluna social.

O Popload Festival, que nasceu modesto há alguns anos e chegou a essa edição levando 8 mil pessoas, parece um irmão pequeno e caçula do Primavera Sound Barcelona. Claro: muito menor. Mas dá pra sentir que cada escolha musical importa. Começando porque não são óbvias: Bixiga 70, que arrepiou fundo, a performática Ava Rocha, a viagem do Ratatat. Até colocar o Wilco antes do Libertines foi inteligente: uma parte do público foi embora depois do Wilco, deixando a pista mais confortável pra pular, dançar e voltar pros 17 anos com Libertines. Aliás, inusitada essa sequência: depois do show impecável e virtuoso do Wilco, os erros, as desafinações, as letras esquecidas e a confusão do Libertines. Funcionou demais.

E a estrutura também foi maravilhosa. Num calorão insuportável com sol forte, o palco fazia uma sombra gigante que não deixava ninguém desidratar. Lounges com lugares pra sentar estavam disponíveis. E os banheiros eram banheiros de verdade, que tinham papel higiênico até o último show. Os preços das bebidas não era muito diferente da balada, mas foram os preços das comidas que me impressionaram: hambúrgueres a 25 reais, mesma coisa que pagamos fora do festival, sem a inflação que costumamos ver. E hambúrgueres de verdade, gourmet, nada daquela porcaria industrializada que muitos festivais insistem em vender. Tinham opções veganas (R$15!!!!!) e vegetarianas também.

Fiquei saudosista do Terra do Playcenter. Mas, como uma imagem vale mais que mil palavras (e é isso que eu gosto de fazer em festival, porque nessas horas deixo de ser escritora)…

Bixiga 70

dsc_6835 dsc_6821 dsc_6781

 

Ava Rocha

dsc_6928 dsc_6966 dsc_0074

 

Wilco

dsc_0598 dsc_0503-2 dsc_0329

 

The Libertines

dsc_0128dsc_0882dsc_0956

 

O público

dsc_6954 dsc_6884 dsc_6865 dsc_6855 dsc_6848 dsc_0628 dsc_0618 dsc_0494 dsc_0177 dsc_0039 dsc_0031 dsc_0018

 

Que venha 2017!

dsc_0608

MAIS FOTOS AQUI.

Caráter é destino: traição, história e nossos relacionamentos de aplicativo

Desde que descobri que fui traída pelo amor da minha vida, fiz vários posts no Facebook – o que muita gente julgou ser superexposição, mas a maioria (graças a deus) entendeu meu propósito: usar a melhor coisa que eu tenho (minha escrita) pra ajudar quem estiver passado pela mesma coisa. Recebi muitas mensagens de meninas dizendo que se viram no post, que passaram pelo mesmo no passado, que estavam passando no presente. Recebi muitos agradecimentos pelas palavras.

E recebi também algo que eu não esperava: relatos e mais relatos de pessoas que traíam ou que eram a/o outra/o. Talvez por verem que eu estou tendendo a perdoar meu marido, essas pessoas apareceram com textos gigantescos falando que era muito bom encontrar alguém que tivesse empatia por quem traísse. E eu pensei: tá tão difícil de me entender, assim? Então deixo claro: eu nunca, nunca, nunca vou ter empatia por quem trai.

Nos seus diários, Sylvia Plath – motivo por trás do nome do meu canal no YouTube, A Redoma de Livros – comenta que “caráter é destino”. É reconfortante pensar que nosso caráter é o que vai construir nosso destino. E nessa mesma linha de pensamento, sabendo que 56% das pessoas traem atualmente, eu acrescento que os motivos citados – impulso, atração sexual, falta de carinho – são, na maior parte das vezes, mentira: a traição é falta de caráter. Especialmente quando vem do homem.

Salvo por motivos específicos – eu pessoalmente acredito que pessoas boas podem errar dentro de circunstâncias especiais – em geral a traição masculina é motivada por algo muito simples que é enfiado de maneira eficaz, pela cultura, na cabeça dos homens desde cedo: as mulheres são, assim como carros ou roupas, objetos de consumo. Se consome mulheres através da pornografia e da prostituição. O casamento não deixa de ser apenas mais um tipo de consumo, dessa vez a longo prazo, de um modelo escolhido com um pouco mais de exigência.

Por trás dos motivos dos homens (busca de aventura, impulso, sensação de controle etc) está, ele mesmo, o frágil ego masculino. Os motivos das mulheres (falta de carinho, sensação de serem negligenciadas etc) colocam o core do relacionamento – o afeto, ou melhor, a falta dele – como a motivação. Só essa diferença psicológica é o suficiente para colocar em evidência as discrepâncias entre a posição da mulher e do homem em uma relação monogâmica. E, embora ainda existam pessoas que usem a desculpa pseudo-evolutiva da mulher engravidar e por isso ser naturalmente mais fiel, desde Engels e “A origem da família” isso já é colocado em cheque.

A nossa cultura, muito mais do que nossa biologia, é responsável pelas nossas escolhas.

Até o começo do século XVI, quando Henrique VIII precisou legalizar o divórcio na Inglaterra por causa de seu desejo por Ana Bolena, as traições eram a única forma de se relacionar com alguma nova paixão pós-casamento. No século XVIII, Maria Antonieta foi enviada aos 14 anos para um casamento político e trair o marido (que demorou 7 anos após o casamento pra conseguir ter uma ereção) era sua única forma de ter um relacionamento como acreditava merecer. Mas no Ocidente no século XXI o divórcio já é legalizado e não vemos mais esse tipo de casamento imposto. E mesmo assim 56% das pessoas ainda traem.

Nessas semanas de solteira, aproveitei para instalar pela primeira vez aplicativos de relacionamentos como o Tinder e o Happn. E o que mais me impressionou foi como todos somos dispostos como catálogos pro julgamento dos outros – e somos, também, julgadores, que é a parte mais divertida. Essa facilidade em encontrar em consumir outras pessoas – assim como Deezer e Netflix fazem com música e séries ou filmes – é mais um sintoma de como entendemos a nossa existência: se um clique já é demais pra baixar um filme, uma pessoa não pode exigir muito mais. Se preferimos tele entrega de comida a sair pra jantar fora, as pessoas também têm que aparecer na nossa casa em 60 a 75 minutos.

Lipovetsky defende que em vez de uma era de pós-modernidade, estamos vivendo a hipermodernidade. As teorias dele com o tempo foram soando pouco aprofundadas – especialmente após ler Marx, que homem, que gênio – mas uma coisa que ele falava cai muito bem aqui: vivemos a era do hiperconsumo. E esse consumo vai desde as mercadorias que encontramos em shopping e têm um preço claro até uns aos outros.

Não é de se surpreender que em uma sociedade que já conseguiu o direito de terminar e ter um novo relacionamento, em que o divórcio perde o estigma, em que se tem o poder de escolha pra se ficar com quem quiser, ainda assim a traição esteja aumentando. Não é de se surpreender que, em países onde a corrupção é generalizada e quase aceita socialmente como um mal necessário, essa falta de caráter também entre como natural.

Até quando a gente vai escolher a mentira acima da honestidade?

 

Notas sobre o hospício II – Os médicos e o pensamento manicomial

(a foto é um auto-retrato de 2015) // (parte um do post)

Eu queria acreditar que eu tinha sorte. Mas eu sabia que o que eu tinha era só um plano de saúde melhor. Mais caro.

Essa era a única diferença entre mim e todas as outras pacientes. Essa e o fato de que eu recebia visitas médicas diariamente, e elas passavam três, quatro dias ou mais sem ver o médico.

Minha mãe tinha sido contra a internação, desde o começo. Quando fui, acreditava que era porque ela não acreditava na minha dor. Quando saí de lá, vi que era porque ela faz parte da abordagem anti manicomial.

Eu imaginava que diariamente teríamos grupos de psicologia, consultas médicas, terapia, atividades. Eu acreditava que teríamos equipe suficiente para que víssemos o sol, fizéssemos caminhadas, buscássemos processos curativos variados.

Nos dez dias que passei lá, participei de um grupo de psicologia com um psicólogo bundão, que nos tratou como crianças de 7 anos, e foi lá pra ler um monte de regras. Ele não falou, mas é óbvio que a leitura aleatória das regras tinha um subterfúgio: alguma coisa tinha acontecido para que ele fosse até lá, falar pra todo mundo que um estupro e uma amor têm a mesma origem, o toque. Descobri depois que era a presença de pessoas bissexuais, como eu. Porque somos bichos, porque não podemos ver outra mulher, porque se abraçamos uma amiga precisa ser com segundas intenções.

De psicóloga, conversei duas vezes com uma. E dela, não posso reclamar: foram conversas úteis, fortes, que mexeram comigo, que me ajudaram a refletir sobre questões fortes. Ela fez o trabalho muito bem: me pegou pela mão e me conduziu aos pouquinhos pela escuridão do meus sentimentos, pra que eu fosse me acostumando com eles, aceitando, conseguindo quem sabe até superar. A ela, só tenho a agradecer.

A nutricionista tava doente quando cheguei. Demorou três dias pra que alguém falasse comigo sobre eu ser vegetariana, sobre ter uma dieta adaptada pra minha condição (síndrome de câncer). Nesses três dias, fui obrigada a comer carne pra não passar fome, entre outras coisas que me deixavam enjoada e com o estômago revirando.

Fui tão sedada no começo que mal conseguia pensar. Tinham que me dar comida na cama. E entre os remédios que eu tomei estavam anti psicóticos fortes pra um surto sem psicose, anti psicóticos que me deixaram pra sempre marcada do horror que é sentir aquele embotamento afetivo que nem a pior quimioterapia tinha me feito sentir. Essa apatia é inexplicável. Vem de um tédio tão profundo que qualquer possibilidade de reação é impossível. E você sabe, você tem certeza, naqueles momentos, que nunca mais vai sentir qualquer alegria.

A rotina da clínica, que foi tão bem referenciada em pesquisas pela internet, que se mostrou uma das melhores do sul do país, é uma cópia de manicômios. Me lembrou da leitura de Holocausto Brasileiro, da jornalista Daniela Arbex, sobre o Colônia, manicômio de horrores que existia em Barbacena, em Minas Gerais. Guardadas as devidas proporções. Mas serviu pra lembrar especialmente que esse tipo de visão médica ainda existe. Que o louco, pra equipe, quando fala, só serve pra validar a própria doença.

Eu sou muito honesta, até quando vou quebrar regras. Na clínica, celulares eram proibidos. Pedi pros meus pais levarem o meu celular em horário de visita, para que por uma hora eu tivesse contato com a internet, com o Facebook, com a vida normal. Pedi isso porque entendi que a saída da clínica pra realidade seria brusca demais. Que ficar dez dias enfurnada e protegida num lugar pra ser jogada aos lobos em seguida era menos inteligente do que experimentar coisas que me deixavam ansiosa quando ainda estava em um ambiente protegido. Falei isso pra minha médica. Sabia que era contra as regras, mas falei pra ela, porque queria honestidade no tratamento, porque queria ouvir dela sobre minha interpretação de ver as redes sociais ainda internada, que seria melhor pro meu tratamento.

Ela contou isso pros meus pais, que logicamente sabiam, mas contou isso sem conversar comigo sobre falar com eles. Sigilo médico-paciente vira uma piada num lugar em que você é louca com tendências suicidas. Ela contou, e contou para usar isso como motivo pra minha internação por mais tempo. Que seguir as regras é parte da cura. Que a desobediência é parte da doença. Que meu passado de adicção em drogas (!!!) mostrava que eu tinha impulsos descontrolados e que não estava conseguindo controlar nem ali dentro.

(Pra quem tá se perguntando, eu acabei decidindo por não usar o celular, porque não queria causar problemas – antes mesmo de a médica falar isso pros meus pais.  Continuo acreditando que teria sido melhor pra mim.)

As clínicas psiquiátricas são também uma ferramenta do nosso mundo capitalista e patriarcal, que vê a loucura – essa patologia tão expressiva e sintomática do descontentamento com a realidade injusta – como uma praga, e que busca transformar o louco em um ser obediente. A cura, ela me disse, é ligada à obediência.

As clínicas querem nos fazer abaixar a cabeça pro sistema.

Saímos de lá anestesiados, robôzinhos condicionados que sabem que com uma campainha é hora de comer, que abrem a boca pra mostrar que tomaram o remédio, que têm medo de ficar na rua depois das 18h, quando as portas fecham, porque eles podem anotar. Eles podem anotar tudo o que você faz de errado. Qualquer descontentamento que gere uma atitude desobediente. E tudo isso prejudica sua alta.

Minha alta foi a pedido da família, essa atitude que eles condenam como outra praga, como se os familiares fossem incapazes de pensamentos próprios e manipuláveis pelo paciente. Alta pedido ainda vem um presente: você sai de lá sem receitas e sem nota de alta. Você sai de lá como se fosse ainda louco. Sem saber que remédios tá usando, o que é um direito seu. Você sai de lá regredindo no tratamento, como uma punição por ousar ir contra os magnânimos médicos do lugar.

Tentaram me assustar falando isso, médicos, técnicos, enfermeiros. Eu ria na cara deles: “meus pais são médicos, eu tenho cinquenta receitas dessas na hora que quiser”. Mas e as pessoas que não são filhas de médicos? Que dependem dessas receitas pra se tratar? Eu cheguei louca, mas fiquei bem. Nos últimos dias, tava ficando louca de novo. Quantas pessoas prejudicam o próprio tratamento por causa de uma folha de papel que a clínica, cruel, burra, como um manicômio, nos priva? Até quando a opinião do paciente vai ser considerada uma besteira, um capricho de louco, perto da toda poderosa opinião médica? O que nos privam é dos nossos direitos, da nossa dignidade.

Meus pais me tiraram de lá. E foi simples: eu já tinha saído do surto. Eu tava lá só pra ajustar a dose de um remédio específico (lítio), processo que minha mãe faz ambulatorialmente com os pacientes dela. Meus pais são médicos, já articularam consultas com uma psiquiatra fora da clínica e minha terapia. Minha mãe inclusive tirou licença pra cuidar de mim.

Com tudo isso, a médica devia ter achado maravilhoso que eu tivesse um suporte como esse pra terminar o processo curativo em casa, com meus bichos de estimação, minha família, com tudo que me faz bem. A reação dela foi dizer que isso ia contra os procedimentos da clínica e eu só sairia antes de completar 15 dias com alta a pedido de familiar. Que mesmo com o respaldo da minha psiquiatra, eles não me liberariam antes desse tempo.

Eu pensei, tentando entender o que faz um médico tão facilmente descartar o bem estar do paciente em nome do procedimento. E então percebi: a clínica tem diárias, que meu plano – tão bom, tão caro – tá pagando.

No fim, a única coisa que eu ainda tenho é minha voz. Meu texto. E por isso que continuo escrevendo.

Esse é meu Lemonade – poemas

1.

what are we doing to each other?
why is the world so ugly?

that we have to fuck, kill and smother
every last damn good thing that lasts and lives
and loves and breathes and ends.

right now, it ends.

in that same moment when the Lexapro ends
you’re broken – i’m broken – this ends

we had chosen one another and then
fucked, killed and smothered.

closed every open (open?)
doors, eyes, ribcages

the moment i’ve stopped moaning
secrets piling up in the backstage

unfrozing.

you’re broken?
i’m broken.

right now, it ends.

the hoping, the omen, the smoking, the stolen
everything.

the atonement.
we’re broken.

2.

for all the girls my husband picked
(to break me in pieces)
and talk and lie and cease his
little male insecurities

i say:

i’m sorry that he used you
as vessels for a needy ego,
as a shoe, a pursue, an avenue
to a mental handjob

how could he be such a slob?
with my feelings? with whole human beings?
as you? and me?

is it the love of the screw?
or is it this maleness spree?

i am finally free.

3.

at this moment, i hate you less
and love you more

what did you expect?

don’t worry,
i’ll hate again in just a sec.

4.

how many wonderful women
being ripped apart by vile men?

infatuated with their own maleness
as well trained dogs, chasing their tail

for how long patriarchy will fuck up our lives?
and to which scale?

destroying women, girlfriends, wives,
their faces wet, sad, and pale?

and how many women have, like knives,
cut their sister’s throat in exchange

for the cheap ego boost that arrives?
when men are men and we cry?

and the concept of friendship, that survives
despite men, and then die

for how many women have left
their sisters alone in the night?

5.

how many hearts are breaking
at this very second?

and how many times have we asked
this single question?

have you ever written a book of lies
while staring deep into your lover’s eyes
as if they were round globes mades of skies
right from van gogh’s starry night?

are you mastering the art of deceit?
painting whole pictures with the blood i bleed?
is this your masterpiece? learning to cheat?
and hide? and then pressing repeat?

is this the spreadsheet of our love’s portrayal?
column A, the things you said
and column B, the betrayal?

have i made you up inside my head?

how dark, how bittersweet, how sad
is it when i think i want you back?

6.

56% of people cheat

you brought me here,
this page of a magazine,
shining.

a statistic I feared
becoming.

yet, here I am.

I am only 25
hundreds of lives
inside.

your honesty –
what’s left of it.
new promises –
I want to believe.

how can I
– or anyone –
believe in a man?

I should have asked
that first time
you took my hand.

7.

the murdered sex drive
the dry pussy
the blind longing that I’ve
given up, biting my juicy
roman in the land
of gods, nodding to bright
realizations as you touched
my hand last night
that it doesn’t take much
to kill a love, I am only 25
and already dead inside.

8.

You wrote a poem to me
I cried, so sweet,
pregnant with belief

You talked about honesty
it was so quick
3 minutes (it goes so fast)
the nurse said
(if you want an universe)

I want to leave
and go back, back, back
to you

Do what we always do
(Fuck, fight, and fall
in love too.
Everytime.)

9.

To forgive is to love is to live
is to forget is to remember
is to come back is to pretend
is to endure is to be sure
is to not know is to trust
is to lust is to want is to need
is to breathe is to cringe
is to kneel is to feel
is to bleed is to break
is to be is to ache.

10.

This is for the love that I lost
and for the pain that I gained.

This is for the feelings that frost
only to warm up again.

This is for the friends that you cost
me, and for the ones that remain.

This is for the crazy, the most
real thing in this train.

11.

Asking for advice for people in a mental institution,
is like writing letters for the dead.
As they tear apart our constitution,
the sadness of millions of brazilians fill my head.

Still
my depression is selfish
floating and glowing like jellyfish
at night
The ashes of a relationship
that died.

Asking for advice for people in a mental hospital,
is like drowning in butterflies.
Their wings caress you, you fall
still expecting to fly.

The lack of shoelaces.
This is a windowless city
You were greedy
and now I’m here.

Asking for advice for people in a psychiatric ward,
is like going to war with a flower.
It’s pointless, even silly, against power.

The ghost of your wedding bend
is everything on my finger at this hour.

12.

I imagine the gods,
merciless.
My womb, pregnant,
babyless.
Your voice, confessions,
hopeless.
Apologies, “I’m sorries”,
faceless.

I imagine the angels,
dancing.
I curl, twirl into you,
heart racing.
You count, one two,
chasing.
The rhythm and the blues,
embracing us.

I imagine the demons,
laughing.
They look at me,
cracking.
They smile at your
wrecking.
The lust, the trust,
lacking.

I imagine the souls,
crying.
My insides, yours,
trying.
You say, “my love’s not
dying”
You want me, you need me,
finding

That I
can be
please see
you nod
you say
a little god
in a small way.

13.

the end, with beyoncé

So, what are you gonna say at my funeral, now that you’ve killed me?
“Here lies the body of the love of my life
Whose heart I broke without a gun to my head
Here lies the mother of my children, both living and dead
Rest in peace, my true love, who I took for granted
Most bomb pussy, who because of me, sleep evaded
Her shroud is loneliness, her God was listening
Her Heaven would be a love without betrayal
Ashes to ashes, dust to sidechicks”

Notas sobre o hospício

Fui internada.

Os primeiros dias na ala mais fechada da clínica psiquiátrica foram passados na cama, numa sedação intensa, num embotamento afetivo inexplicável, causado pela mistura de anti depressivos, ansiolíticos, anti psicóticos, anti depressivos, estabilizadores de humor. A última vez que tinha tomado tantos remédios, eu tava com câncer.

Conheci pessoas incríveis, passei a maior parte do tempo conversando e colecionando histórias, sentimentos, ideias. Valeu a pena. Eu precisava. Mas trago notas:

# Na ala mais fechada, um quadro gigante mostra o nome das pacientes e o risco que elas representam. De queda, de fuga, de agressão, de uso de drogas. De suicídio. Meu nome era limpo, salvo pelo último. E a exposição pouco importa: pouca gente tá lúcida. E todo mundo ali é fodido. Não tem ninguém pra te julgar.

# As horas, que se arrastavam como se contivessem dias inteiros em cada uma delas, torturavam. A gente contava o tempo pelas refeições, e o período entre elas era de espera. O estado de lá é de espera. É curioso, pra alguém como eu, que quero fazer tanto ao mesmo tempo, me encontrar sem nada, nada, nada pra fazer. Sem nada que satisfaça uma necessidade básica de sentir prazer em algo. O prazer é um luxo.

# É curioso ser rotulado como louco, isolado de todo o contato para se esperar a recuperação. Qualquer impulso de injustiça, qualquer vulnerabilidade ou vontade é descartável embaixo desse rótulo. A nossa humanidade é limitada, destruída aos pouquinhos, a cada insatisfação. Existe um pacto de silêncio auto inflingido pelas pacientes, porque qualquer vocalização é palavra de gente que não tá sã.

# Os tênis são sem cadarço, e demorou um segundinho pra entender o motivo.

# Lápis e canetas eram proibidos na ala fechada. Explodindo de poemas, eu escrevia em letras gigantes com giz de cera meia dúzia de versos pra guardar na memória esses embriões de poesias.

# As ligações, pra quem pode receber, duram três minutos cronometrados. São no horário do almoço e da ceia, e geralmente encontram um ambiente barulhento que dificultam a troca breve de comprimentos. Se eu peço pra encostar a porta da enfermaria, ela me diz que não. E se assim eu não consigo ouvir nada, ela me diz que sente muito, e vira as costas.

# Existem muitas enfermeiras e técnicas maravilhosas. Encontrei anjos lá. De verdade. Mas existem muitas enfermeiras e técnicas que não se importam com a nossa dor e esquecem de buscar quando pedimos medicamentos, ou que moldam as regras ao seu favor sem se preocupar se nos prejudica, como adiar o horário da ceia e dar junto com a medicação para facilitar o trabalho, mesmo que todo mundo fique com fome, mesmo que o certo seja dar a medicação depois de comer, mesmo que muita gente fica grogue assim que o comprimido desce na garganta. É curioso como as regras e as normas são facilmente mudadas quando é pra interesse alheio.

# Tem dias em que não tem copo, e se você não encontra uma garrafinha de plástico de água pra chamar de sua, você fica sem beber água. Tem gente que busca no lixo, lava, e usa, porque também não podemos pedir pra ninguém levar.

# Os contatos, apertos de mão, e abraços são proibidos. A gente abraça mesmo assim.