Game of Thrones resumido em uma frase do Jaime Lannister (com spoilers)

Game of Thrones é uma das minhas séries favoritas, porque eu resolvi assistir lá em 2014 em um momento de depressão forte (ainda não tomava remedinhos na época, sabe como é). Aquela semana em que assisti às quatro temporadas disponíveis inundaram meu cérebro de serotonina e foram o abraço que eu tava precisando. E, bom, a gente sabe, né? Vínculos que se criam assim são impossíveis de se apagar. Eis que comprei os livros – li só o primeiro por enquanto – e continuei acompanhando a série, lógico. Nesse meio tempo, teve muita coisa pra me fazer pirar de amores (e refletir).

Essa é uma guerra de rainhas

Daenerys. Cersei. Sansa (não importa o que falem do Jon).

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Aliás, Sansa, ah, Sansa

Tenho certeza que muita gente odiava a Sansa – eu mesma já vi gente por aí chamando a personagem de “sonsa”. E, vamos combinar, isso não é a coisa mais surpreendente do mundo: é inegável que ela era uma personagem bastante alienada no começo da história. Só que a empatia necessária pra simpatizar e se apaixonar pela personagem vem justamente de entender a alienação: socializada como futura princesa do Norte, ela tem a trajetória de grande parte das mulheres que se tornam feministas. Foi a minha trajetória. De filhinha perfeita do patriarcado – uma perfeita lady – o caminho de Sansa foi marcado de misoginia. Assim como o nosso. E é de lá que Sansa ressurge, como fala Sylvia Plath em Lady Lazarus: “cuidado, das cinzas eu me reergo com meu cabelo vermelho e destruo homens como ar” (“beware, out of the ash I rise with my red hair and I eat men like air”).

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Não, a série não é machista

Sim, houve muita cena de mau gosto (alguém lembra aquela fala direcionada ao Tyrion de que não existe nada como comer uma mulher depois de matar alguém? E depois as pessoas vão se perguntar por que é que estupro é sobre poder, e não sexo, e fica todo mundo surpreso com estupro sendo usado como arma de guerra). Apesar disso, o tom que perpassa toda série no que diz respeito à violência contra mulher é de denúncia, não normatização. Sim, existem cenas que são gatilhos de trauma bastante fortes: mas a vida é um gatilho de trauma, e nossa anestesia perante essa realidade é uma das principais armas da manutenção dessa mesma realidade. Quer dizer, quem ainda se sente triste quando vê um mendigo na rua? Pois é. De repente o horror que as cenas suscitam servem pra nos acordar do transe a que somos condicionados pela sociedade capitalista e patriarcal em que vivemos. E mais: a nudez em Game of Thrones começou, sim, de maneira problemática, explorando mulheres nuas em cenas onde elas são facilmente sexualizadas. Mas não continuou assim. Buscamos o fim da sexualização dos nossos seios, que foram feitos, afinal, para amamentar, e não para deleite masculino. Cenas em que peitos são expostos e não são sexualizados – como acontece com frequência em Girls – são propositivas nesse sentido. Na última temporada, a série ainda fez um comentário bastante pertinente sobre isso: enquanto em cima de um palco de teatro uma atriz mostrava os seios de forma completamente gratuita, os bastidores nos trouxeram um close de um pênis de uma forma em que era impossível se preparar. Todo mundo precisou encarar aquele pênis por uns bons segundos na tela. E ficou bem claro o que eles quiseram dizer: no mundo do entretenimento, enquanto peitinho é tranquilo no palco, pênis explícito só é aceito nos bastidores.

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É tudo sobre amor

Lá no episódio inicial Jaime já dá a moral da história: “ah, as coisas que eu faço por amor”. O amor que ele tem por Cersei (alguém lembra que ele admitiu que ela é a única mulher com quem ele já se relacionou?), o que Cersei tem pelos filhos, o que Daenerys tem pelo seu passado, o que os Stark têm pela família. Enfim. Diferente do ódio psicopata de Ramsay, as grandes jogadas da história são todas movidas por amor. E no lugar desse ideal romântico do amor puro que tudo justifica, existem consequências sangrentas, cruéis e doentias, mesmo assim incapazes de macular a origem do sentimento. O próprio Jaime, um dos personagens mais amados, fala isso pela primeira vez quando se vê de certa forma obrigado a matar uma criança. Não consegue matar, mas faz com que fique paraplégica. E a ação ganha contexto na motivação de fazer tudo por Cersei. Game of Thrones, é, no fim, uma série sobre amor.

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A religião fode

Não, não é só do Alto Septo que eu to falando. A Melisandre fez um pai e uma mãe sacrificarem a própria filha. Não importa qual é o seu deus, aqui e em Westeros as consequências são claras: é a religião um dos únicos lugares em que a motivação vem exclusivamente do ódio. Que loucura (ou lucidez) maravilhosa do George R. R. Martin é essa, de colocar o amor na guerra e o ódio na religião?

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Crônicas da vida moderna: “O Amor na Era dos Smartphones”

Todos os dias era a mesma coisa, que nem aquela música do Chico Buarque, “Todo dia ela faz tudo sempre igual”.

– Desliga o celular – pediu, pela centésima vez, gemendo numa voz sonolenta enquanto as pálpebras fechadas eram golpeadas pela luz do dispositivo.

– Só mais um pouco – ele murmurava, vendo os resultados dos jogos da rodada.

No dia seguinte, ela acordou mal humorada porque estava mal dormida por causa do celular.

– Ricardo, não dá pra continuar assim – ela insistia na mesa do café da manhã, enquanto ele conferia como estava o trânsito. – Eu vou todos os dias com enxaqueca pro trabalho porque você não me deixa dormir – e nem é por causa de sexo, completou em pensamento, como era no começo.

Ele engoliu a resposta com o café e falou que conversavam de noite. Saíram juntos, ele para o escritório de advocacia e ela para o estúdio de fotografia. Como podia um homem de quase cinquenta anos passar horas vendo mensagens de grupos dos amigos da faculdade no Whatsapp, comentando no status de quase todos os seus duzentos e poucos amigos no Facebook, até arriscando postar meia dúzia de frases sem sentido no Twitter – sim, porque “Um belo dia para dirigir!!!!!!”, com várias exclamações, nunca seria o considerado aceitável pela rede social.

No estúdio, mal estacionou o carro e sua secretária mandou uma mensagem, “temos um problema”. O problema era que precisariam fazer um editorial de última hora e a revista de moda fazia questão de que ela mesma fotografasse, isso sem falar na outra sessão embaixo d’água que tinha marcada para o dia. “Só se puder ser interna”, falou pra secretária, “e daí tem equipe extra”, completou. A luz do dia se esvairia enquanto estivesse fotografando embaixo da piscina e não tinha como começar uma sessão no fim da tarde se quisesse usar a luz do sol. Por outro lado, tudo bem trabalhar até tarde, então se todo mundo chegasse de acordo em relação à locação ela poderia dar conta.

O editorial de moda era de joalheria, e o diretor de arte resolveu tentar algo bastante ousado: em uma banheira de hotel, as modelos deitavam, de olhos fechados, quase como que mortas, cobertas de joias. Os corpos eram cobertos pelos metais, pedras e langeries bem escolhidas: elegantes, mas sem roubar a atenção. Foi fotografando que teve uma ideia: na ida pra casa, compraria uma lingerie nova – toda preta, de renda – vestiria no carro e entraria em casa só de casaco, calcinha e sutiã. Eram quase 11 horas e ela o encontraria na cama, ela sabia, porque obviamente já teria jantado.

Dito e feito – lá estava ele, estirado, os olhos vidrados na tela. Chamou seu nome. Ele não virou. Tentou algumas outras vezes antes de deixar o casaco cair no chão, e, felina, escalou na cama – faltou só miar. Ele ainda assim não olhou. Frustrada e irritada, deitou ao seu lado, virou as costas para ele e dormiu, o orgasmo não liberado acumulado entre suas pernas. No outro dia, o mau humor estava ainda maior.

– Amor, não sei porque você faz isso – ele reclamou, manhoso, no dia seguinte, se referindo ao fato de que ela não lhe respondia nenhuma das perguntas que lhe eram dirigidas.

Sabendo que tinha algo a compensar, comprou romãs, a fruta preferida da mulher, e champagne. Esperou que ela voltasse do trabalho naquela noite com um cenário romântico preparado e finalmente fizeram sexo. Ela deitou ao seu lado, o peito arfando de satisfação, e se inclinou sobre o criado-mudo para pegar um pouco mais de romã. Do outro lado da cama, ele fazia o mesmo, embora o alvo fosse o celular.

O gosto maravilhoso da fruta saturava suas papilas gustativas e foi no meio de um suspiro de deleite que ela se engasgou. Começou a tossir compulsivamente, tentando mexer os braços e chamar a atenção do marido. Puxava o ar com força, tentando recuperar a respiração, sem nenhum sucesso. Demorou alguns minutos até perder todo o ar e morrer.

No mesmo instante, o celular de Ricardo apitou. Era um daqueles vídeos de humor que faziam ele soltar urros de diversão.

– Regina, você não vai acreditar nisso! – e finalmente se virou para a mulher, encontrando apenas seu cadáver.

Racismo disfarçado de purismo literário: até quando, meudeus?

Eu amo Harry Potter mais do que quase tudo na vida, então escrevi e li fanfics (aliás leio até hoje, esse passado anterior é uma ilusão de que virei adulta e só leio literatura russa, mas é tudo mentira), era ativa no fandom e fui inclusive administradora e fundadora de um fórum. Eu participava de discussões intermináveis sobre quem seria o Príncipe Mestiço (eu acertei bem antes de o livro sair), se R.A.B. era mesmo Regulus Black, sobre o triângulo Snape-Lily-James.

Talvez você, que não participou desse mundo por anos enquanto crescia, pare para olhar e diga que isso é um absurdo: mas vi páginas e páginas de discussão sobre o vestido rosa que Emma Watson escolheu para o baile do Torneio Tribuxo. Caso você não saiba, era azul no livro. E o fandom não perdoou.

Fofinha <3
Fofinha <3

Curiosamente, a mesma fúria sumiu quando a atriz que atuava como Lilá Brown, negra, foi substituída por atriz, branca, quando o papel começou a ter mais participação. Mas essa fúria estava pronta para ressurgir em 2015 quando uma nova atriz foi escolhida para o papel de uma Hermione adulta. Todo mundo sabe que nos filmes ela é branca. E adivinha: agora, escolheram uma atriz negra.

Quando a própria J.K. Rowling vai ao Twitter para legitimar a participação da atriz dizendo que nunca foi especificado nos livros que a personagem era branca, a primeira pergunta que deveríamos nos fazer é como ficou tão enraizado na nossa cabeça que Hermione não é negra. E a resposta não é a atuação de Emma Watson.

A escritora feminista Monique Wittig já fez uma discussão sobre o quanto o padrão é ser homem: “‘Homem’ é o coletivo de ‘seres humanos’. ‘Eles’ substitui ‘eles e elas’. Ser homem é ser normal. Ser mulher é ter um gênero”. Quando descrevemos, de forma genérica, a existência de um personagem, automaticamente imaginamos um homem branco. Não é uma particularidade nossa: são anos e anos de doutrinação da ideologia dominante para que o normal seja esse. E na dicotomia de brancos e negros, a regra permanece.

Duvida? Se você vê uma moça bonita na rua e vai descrever para alguém, você geralmente falaria: “Vi uma mulher bonita”. Não precisa de explicações. Todo mundo vai entender que ela é branca. Isso porque, se ela fosse negra, você deixaria especificado: “Vi uma mulher negra bonita”. O normal, o padrão, aquilo que o nosso subconsciente acessa no nível automatizado, sem precisar pensar, é isso: é ser homem, e é ser branco. Qualquer coisa fora precisa de descrição.

Vocês já viram a discussão que tá rolando sobre fazer um James Bond negro ou mulher? Pois é. Ninguém quer aceitar um James Bond que não seja homem branco.

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É fácil então entender como o apego a uma Hermione branca, quando mesmo a autora do livro nega que isso tenha sido descrito (e não foi!), é alto. Ele é fruto de um racismo enraizado e introjetado tão fundo que todo mundo 1) nega e 2) diz que não é racismo.

Surpresa: é, sim. E é o tipo de racismo mais poderoso do mundo: aquele que aparece no nosso nível mais anterior, antes mesmo do pensamento racional, e que é facilmente descartado como inofensivo.

Ainda mais evidente essa falsa simetria se torna quando analisamos outras situações em que o chamado “purismo literário” foi completamente ignorado e ninguém se importou: a Katniss, de Jogos Vorazes, é descrita como tendo “cabelos escuros, olhos cinza, e pele de oliva”. Mas quando Jennifer Lawrence, loira de olhos claros, branquela, com aquela cara de californiana pintou os cabelos e disse que estava pronta para se transformar na Katniss, ninguém interveio. Quando Game of Thrones decidiu escolher atores brancos para uma série de papeis que deveriam ser de pessoas negras e pardas, ninguém interveio.

A revolta só vale quando se muda a imagem branca, que já tem uma frequência gigante, gigantesca, imensa, em uma proporção vergonhosa. Quando a representatividade negra é roubada, ninguém se importa. Então onde está esse famoso purismo literário, que por si só já seria ridículo? E como existe gente que tem coragem de defender isso que é nada mais que supremacia branca?

A falácia é tão gigante que temos pessoas reais negras sendo personificadas no cinema por atores e atrizes brancas sem qualquer indignação: Angelina Jolie como a jornalista Mariane Pearl; todos os filmes de Egito Antigo com atores brancos como faraós (aliás, vocês sabiam que o Egito fica na África? A Cleópatra da Elizabeth Taylor é uma mentira gigantesca – mas nada é desculpa pra não saber esse fato básico da geografia e esconder o próprio racismo nessa ignorância, viu?); Max Minghella como o indiano Divya Narendra em A Rede Social. Batman, Bonequinha de Luxo, Príncipe da Persia, Scarface, Uma Mente Brilhante. Cadê a revolta por esses filmes?

Isso sem falar naquelas situações vergonhosas em que maquiam artificialmente atores brancos para que eles pareçam ter outra cor e roubem, assim, o papel que deveria pertencer a atores e atrizes não brancos. Menos de 20% da população mundial é branca. E eu aposto que ainda vai ter gente falando que falta ator não branco pra representar os papeis. Isso tem um nome: racismo.

Parece aquele quadro incrível em Master of None em que um produtor de uma série que tá aberta pra contratar pessoas de diferentes etnias diz que não pode ter “dois indianos na mesma série”. Ou seja: até os ambientes supostamente abertos para diversidade têm seus limites (racistas).

E se é pra brincar de “deveria ser de outra cor”, o próprio Jesus é representado como loiro de olhos azuis na maioria esmagadora de imagens. Se ele tivesse suscitado uma revolta como a que a Hermione negra causou…

Mas é só pra ser justo com os livros, né? Não tem naaaaaada a ver com racismo. Imagina.

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Rainha do mundo! <3

P.S.: Recadinho pessoal: amigos e amigas brancos, sério. Menos, tá? Tá na hora de reconhecer a dívida histórica que temos e começar a olhar pras merdas que a gente faz e ver se a gente consegue ser melhor. Por favor. Que vergonha.

“Cidade em Chamas”: uma viagem para a Nova York dos anos 70

Se Vinyl nos leva para a Nova York dos anos 70 principalmente com a paleta de cores e as referências visuais, Cidade em Chamas utiliza o cenário político, o surgimento do punk, as grandes conglomerações e o apagão de 77. O livro, de mais de 1000 páginas, acabou de chegar no Brasil e desde o ano passado vem recebendo resenhas elogiosas da crítica norte-americana: o autor recebeu um adiantamento de $2 milhões de dólares.

A história foca no ano de 76 a 77, mas não se limita a ele. Os saltos cronológicos para o passado e para o futuro são bem costurados na trama, seja na narrativa direta ou nos interlúdios, um dos tesouros do romance: espaços onde cartas, avaliações psiquiátricas, fanzines e reportagens a que os personagens têm acesso são disponibilizadas para o leitor também. Esses recursos funcionam como um convite para participar da história junto com os protagonistas – personagens que variam da pobreza à riqueza e da adolescência à velhice, se interligando de formas inusitadas na cidade gigantesca. O livro tem um ou outro problema, que falo um pouco nesse vídeo, mas é uma leitura que vale a pena. E o grande trunfo tá no fator viagem no tempo.

Nova York, nos anos 70, passava por um período conturbado: incêndios tomavam conta do Harlem e do Bronx e o movimento punk e a resistência ao status quo ganhavam cada vez mais força. O CGBG, o East Village, uma bandinha nova e underground, artes plásticas, literatura. Os bastidores do movimento punk e do mundo das galerias de arte também estão lá, deixando nós na posição quase de intrusos, descobrindo segredos antes enterrados de um momento histórico.

A arte é um fio condutor tanto quanto os esquemas econômicos, as corrupções e manipulações das grandes empresas. Mas é o assassinato de uma adolescente que liga todos os personagens e transforma o ritmo da história: é por causa dele que seguramos o ar enquanto passamos as páginas.

O autor não viveu aquela época, mas poderia ter vivido: é como se o livro fosse um vórtex que nos suga pra esse mundo com tanta força que a gente é capaz de sentir o cheiro que corria nas ruas naquela época. Os personagens que caminham nessas ruas são muitos: mas o protagonista do livro é, acima de tudo, a cidade.

VINYL, a maravilhosa série sobre sexo, drogas, rock’n’roll e homens otários

Jessica Jones e suas metáforas sensíveis sobre relacionamentos abusivos. Master of None e um humor ácido tirando sarro de opressores. Relacionamentos mergulhados em sarcasmo e na indústria de séries para TV em Love. E a maravilha de Mr. Robot, que vai de discussões sobre justiça social a sofrimento mental em incríveis dez episódios. A gente não pode negar: as séries estão ficando cada vez melhores. Com Vinyl, em 2016, isso é ainda mais verdade.

A New Yorker não concorda. Na resenha após o piloto da série criada por Scorsese e Mick Jagger, a publicação diz que assistir ao episódio é como estar numa festa ao lado de um cara que fica gritando sem parar o quão chapado ele tá: Vinyl é uma masturbação, o próprio meio da música exaltando a si mesmo e promovendo valores sobre a essência do rock e a arte de não se vender.

É verdade: a série retrata, sim, esses princípios travestidos de nobres sobre o que seria o verdadeiro rock’n’roll. Essa ideia é perfeitamente personificada no protagonista Richie Finestra (Bobby Cannavale), fundador da American Century, uma gravadora que viveu os anos de glória e agora se vê definhando. Ele tem uma mulher linda em casa, Devon (Olivia Wilde), que precisou abandonar a própria carreira artística para exercer bem o papel de mulher-de-executivo. Ele tem uma série de ideias sobre a verdadeira música e detesta a realidade comercial que impõe dívidas e obriga que ele traga artistas sem qualidade. Ele tem muitos pêlos no corpo, grita sempre que pode, e adora provar o próprio poder. Ele é machão e doidão, engole álcool de montão e cheira cocaína o suficiente pra mostrar que é valentão.

Mas Richie, por mais que queira, não é nosso heroi vitorioso. E é essa a prova de que a série é muito mais incrível do que a New Yorker pôde imaginar. 

Richie Finestra, assim como esse ideal do estilo de vida do rock, é uma fantasia que não pode se sustentar. Do outro lado, Kip (James Jagger), o vocalista da nova descoberta musical Nasty Bits, veste a roupa do artista problema, com noções megalomaníacas do seus próprios direitos em nome da arte.

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O que acontece é que, episódio após episódio, Richie se afunda cada vez mais em uma espiral de destruição, que é muitas vezes auto-gerida, mas a maior parte fica fora do seu próprio controle. A sua visão de algo “novo” não é nem um pouco convincente, porque nem ele mesmo sabe como salvar algo que já está acabado. Para ele, a expressão máxima da masculinidade, expressa em sexo e violência, está intrinsecamente ligada à validade da música. “Você lembra a primeira vez que escutou uma música que arrepiou os pêlos da sua nuca?”, Richie pergunta. “Que fez você querer dançar, ou foder, ou sair e bater em alguém?” Pra todos os efeitos, isso é o que faz a boa música. O personagem é claramente um machista dos piores, com episódios de racismo explícito, como o bom típico homem branco. 

Isso é muito bem mostrado em uma sequência em que ele convida Devon para seduzir um artista a permanecer na gravadora. Ela tem plena consciência de que cabe a ela o papel de isca – linda e fascinante o suficiente para flertar com o artista até ele decidir ficar. Mas Richie não suporta perceber que ela se sente atraída pelo artista – e é nessa percepção chocante da humanidade dela que ele mostra o quão pequeno ele é. E mesmo assim, na própria fossa da auto-piedade, ele tem carisma e consegue até gerar um pouco de compaixão: coitado. Tão cego, tão louco, tão fora da realidade.

E a realidade é que são as mulheres da série que ocupam o espaço da lucidez contrária a toda essa histeria coletiva masculina. As decepções constantes de Devon com o marido fazem que ela volte ao círculo artístico coroado por Andy Warhol, de onde ela saiu. O amor pela fotografia reaparece. Jamie, uma assistente, é a única pessoa que ainda consegue trazer artistas com alma pra gravadora – os Nasty Bits foram descoberta dela – deixando todos os fodões efetivamente contratados para isso comendo poeira. Seu chefe, inclusive, acaba matando o som da banda ao tentar aprimorá-los. Andrea surge para mostrar pra todos os valentões da American Century tudo de errado que eles tão fazendo – e, acredite, é muita coisa.

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Esse não é o Mad Men da música, como a série foi promovida em alguns lugares. Não temos um Don Draper conquistador para quem dezenas de mulheres decorativas são criadas. Não temos personagens femininas reduzidas a dramas menores, sempre um pouco – ou muito – atrás. 

Os anos 70, o clima de arte, a música de resistência, tudo isso é de relevância na série, que nos traz Andy Warhol, Lou Reed, David Bowie, John Lennon, Nico – as aparições são tantas que a memória falha. O desespero e o medo também têm espaço – não só por causa das relações superficiais e da constante instabilidade do meio, em que todo mundo é dissimulado, corrupto e egoísta, mas também pelo assassinato que acontece logo no primeiro episódio e pelas atividades com a máfia. E todos os episódios são revestidos em uma embalagem de cores perfeitas, trilha sonora incrível, óbvio, e detalhes que te levam direto pra década em questão.

Vinyl é, sim, uma série que vai na contramão, que resiste, que é contracultura. E até um pouco mágica: começando pela ilusão de máquina do tempo.

A REDOMA DE LIVROS – Junot Díaz, Donna Tartt, Gillian Flynn & Melhores primeiras frases

Desde que voltei pra Porto Alegre, comecei a gravar uns vídeos no YouTube pra minha amiga Amandine, que continuou em São Paulo, como uma tentativa de matar a saudade. Achei divertidíssimo falar dos livros que to lendo e amando e daí resolvi mostrar pra todo mundo. Os primeiros são de uma produção zero (até de pijama eu to), mas no último já dá pra ver que aprendi um pouco a editar hahahaha. Se vocês curtem literatura, dêem uma olhada que eu juro que tá legal e tem gatinha (Karenina como sempre sendo estrela de tudo da minha vida).

O nome do canal ficou A Redoma de Livros por causa do meu amor pela Sylvia Plath e abaixo tem os primeiros vídeos: sobre Drown, do Junot Díaz, A História Secreta, da Donna Tartt, e os livros da Gillian Flynn, entre eles o super sucesso Garota Exemplar. Espero que vocês gostem!

 

 

 

 

“A Garota na Teia de Aranha”: o novo livro da série Millennium sem Stieg Larsson

Que a (ex) trilogia sueca Millennium, de Stieg Larsson, é incrível, bom, todo mundo sabe. O que pouca gente sabia ao terminar de ler o último livro é que o autor, que morreu em 2004, planejava muitos outros sobre Mikael Blomkvist e Lisbeth Salander. Por isso, parece fazer sentido que a editora tenha convidado um escritor – David Lagercrantz – para dar continuação à saga.

O novo livro, A Garota na Teia de Aranha (o título original em sueco significa algo como “o que não nos mata”, uma referência à frase de Nietzsche) chegou às livrarias no segundo semestre de 2015. Escrito com aprovação do irmão e do pai de Larsson, que controlam o espólio do autor, a obra recebeu uma crítica favorável. Apenas a viúva de Larsson ficou descontente: Eva Gabrielsson já expôs sua opinião negativa sobre o projeto, que aliás não conta com o manuscrito inacabado do quarto romance, ainda de autoria de Larsson. A escolha de Lagercrantz também foi colocada em cheque: Eva considera que ele seja uma “escolha completamente idiota” para dar continuidade à série.

Ler a opinião de Eva me deixou respirar com tranquilidade: já no começo do livro era claro que ele era muito inferior aos anteriores, e a conclusão ficou cada vez mais óbvia conforme o romance evoluía. Sem o mesmo gancho envolvente, o livro é tomado de cenas desnecessárias que parecem servir apenas para aumentar o número de páginas, personagens com pouca profundidade, e o pior pecado na minha opinião: distorções gritantes dos personagens criados por Larsson. Em determinados momentos, tinha que reler páginas inteiras para ter certeza absoluta de que determinada reflexão ou fala vinham mesmo de Blomkvist, tão fora do personagem ele estava. Ainda mais grave: Lisbeth, a anti-heroína favorita da literatura, por sua complexidade e força feminina, foi porcamente explorada, aparecendo em poucas cenas e com uma presença fraca e nem um pouco parecida com a personagem original.

Em uma interação com um personagem, Lisbeth demonstra um fingimento manipulatório com uma capacidade de sociabilização que não é só fora do espectro característico da personagem como é também distante de qualquer pessoa com Aspergers. E eu nem falei na parte que eles usam “understatement” em inglês em vez de “eufemismo”.

Além disso, em vários momentos do livro coisas improváveis acontecem até o ponto de o personagem ter uma intuição inexplicável que leva a situação para outro momento. Essa técnica é repetida à exaustão de tal forma que o livro perde ainda mais a verossimilhança.

As relações estruturais de poder, especificamente no que diz respeito à dicotomia homem-mulher, eram exploradas de forma maravilhosa nos livros escritos por Larsson. Desde “Os Homens Que Não Amavam as Mulheres”, que trata diretamente de questões ligadas a violência contra mulher, Lisbeth é uma figura central e poderosíssima, uma “salvadora” de formas bastante inusitadas e controversas – como a fatídica cena em que incendeia o próprio pai abusador.

Em uma das cenas mais fortes do primeiro livro (e filme, especialmente na versão de Fincher), Lisbeth é estuprada pelo seu tutor. Tempos depois, utilizando seus conhecimentos tecnológicos para criar um cenário que transformava ele na ponta mais fraca, ela se vinga, causando a ele os mesmos danos e tatuando em sua barriga: “eu sou um porco estuprador”. Essa cena é uma vitória pra literatura.

Lisbeth é a vingança de todas as mulheres.

E essa Lisbeth, tão maravilhosa, é esquecida por Lagercrantz. Uma pena. A narrativa pobre, carente de imagens fortes, com frases simplistas que pecam na capacidade de criar o suspense necessário e estragam surpresas, o livro é uma decepção.

Beyoncé, Superbowl e o mimimi

No fim do ano passado, com 24 horas de espaço, o Huffington Post publicou duas matérias sobre ídolos feministas. Em uma, Taylor Swift era elogiada e defendida por sua postura feminista no VMA. Na outra, Beyoncé era criticada por um feminismo desapontador em sua performance no festival Made in America. O fato de as duas publicações terem sido feitas quase ao mesmo tempo é mais que só uma coincidência: é uma analogia real às percepções de senso comum em relação ao papel dessas duas mulheres. A grande diferença entre elas? Vamos lá, você consegue adivinhar.

Se você falou que a Taylor Swift é branca, você acertou.

Não me levem a mal – eu amo a Taylor Swift, ouvi o 1989 umas mil novecentas e oitenta e nove vezes. Acredito que ela é uma cantora realmente muito boa que faz um pop de qualidade, tem um estilo impecável e parece ser gente boa com os fãs. Mas a gente não pode negar que ser branca e rica tem um impacto gigante no cenário inteiro.

Corta pra 2009. Ninguém lembra direito todos os prêmios do VMA daquele ano, mas a infame interrupção que Kanye West fez no discurso de Taylor Swift virou meme eterno – Taylor inclusive fez a mesma coisa em 2015, como uma brincadeira. Eu, e provavelmente você também, ri da situação, do constrangimento da Taylor, do complexo de deus de Kanye. O que eu – e provavelmente você também – não percebi é que o que ele estava fazendo ia muito além da música. De novo, Beyoncé tomava a pior em relação à Taylor Swift. O vídeo de Single Ladies, uma música icônica que quase todo mundo no mundo conhece, perdeu para You Belong With Me, que nem eu, que trabalho com música, me lembro direito de como é. A revolta de Kanye West ia muito além da música.

2016 recém começou e Beyoncé fez o lançamento espetacular de Formation, com um vídeo no mesmo nível. Colocando jovens de frente a policiais com cartazes dizendo “PAREM DE ATIRAR NA GENTE”, o vídeo se passa em New Orleans, e ela canta “My daddy Alabama, mama Louisiana, you mix that negro with that Creole make a Texas Bama”. Ela deu um tapa na cara de racistas, escancarando um orgulho por cada símbolo que eles rejeitam – do cabelo às narinas. Ela fala em sexualidade e empoderamento de uma forma que foge da bobagem falaciosa da falsa liberação sexual, faz a polícia se render para uma criança negra e afunda um carro da polícia com o peso do próprio corpo. Quer coisa mais poderosa que isso? Ela ainda traz a fofa Blue Ivy arrasando num afro poderoso, uma resposta bastante eloquente às críticas da mídia em relação à criança, especificamente citando o “cabelo desarrumado”. Se a gente adora Shake It Off de Taylor Swift por rir na cara dos haters, bom, precisamos fazer um culto para Formation. Isso sim é que rir na cara dos haters.

Como o The Guardian disse, a imagem de várias mulheres negras dançando ao som de “You know you that bitch when you cause all this conversation” é um grito das vozes de todas as mulheres negras que são ignoradas e marginalizadas. Quem dirigiu o vídeo foi uma mulher, que também não é branca (Melinda Matouskas é descendente de gregos, jamaicanos e cubanos), e que dirigiu 8 vídeos da diva e já ganhou o Grammy. A data de lançamento também não foi por acaso: Fevereiro é o Mês da História Negra nos Estados Unidos. Saindo um pouco da esfera política, a música apresenta camada atrás de camada de uma sonoridade rica e envolvente, e Beyoncé explora os vocais de formas maravilhosas. É uma baita música.

Por isso, foi escolhida para o show de intervalo do Superbowl – junto com outras coisas irrelevantes de Bruno Mars e Coldplay. Eis que acordo para descobrir que a apresentação está sendo criticada ferozmente, com homens brancos se sentindo ultrajados. Em um dos textos que li, o autor acusa Beyoncé e Jay Z por serem apoiadores do “violento” movimento Black Lives Matter, e por investirem dinheiro para tirar pessoas da prisão durante os protestos em Baltimore.

No show, Beyoncé e as dançarinas fizeram uma formação de X, uma referência ao pantera Malcolm X, o que também foi muito criticado: ele é lembrado basicamente como um assassino. A verdade que sociólogos, ativistas e estudiosos como Peter Gelderloos já reconhecem é que ele foi mais importante pro movimento negro do que Martin Luther King – com a diferença de que ele não fazia uma luta pacífica. Depois, com o mesmo uniforme das Panteras Negras, elas se uniram com o braço para cima, símbolo da luta do grupo. Após a performance, algumas delas ergueram um cartaz pedindo justiça para Mario Woods, um jovem negro de 26 anos que foi morto pela polícia de São Francisco. Ronnisha Johnson e Rheema Calloway, organizadoras do Black Lives Matter e do movimento Last 3 Percent – representando o tamanho da comunidade negra de São Francisco atualmente, que diminui cada vez mais por causa da gentrificação crescente – também se envolveram na apresentação, entregando cartazes para as dançarinas.

O quão imenso é que isso seja transmitido no evento de maior audiência da televisão dos EUA?

E é claro que tem muita gente (racista) incomodada com isso – e os resultados de busca no Google não me deixam mentir. Mas a Beyoncé tá incomodando porque o que ela tá fazendo é gigantesco. Enquanto Emma Watson pede ajuda pros homens pra mudar a cultura, a Beyoncé tá lá, efetivamente mudando. E mesmo assim, a gente fica aqui, questionando o que ela tá fazendo, enquanto endeusamos Emma e Taylor. Volto à primeira pergunta do texto: por que será?

Aproveito para dizer pra todo mundo aproveitar o Carnaval pra ver o documentário da Angela Davis. E voltando à música, não dá pra ignorar que o refrão repetido é: “I slay”. A gente é obrigado a concordar.

David Bowie foi embora jovem demais

Dois dias antes de ir embora, no dia do seu aniversário de 69 anos, David Bowie nos presenteou com um disco novo. “Ir embora” é um eufemismo um pouco condescendente (e muito cruel), uma tentativa ilusória de fazer de conta que ele só está um pouco mais longe do que esteve todos esses anos de nós, mortais. Eu não ouvi o último disco – e confesso, por heresia que talvez me condene mais tarde – que ele não era meu próprio deus do rock’n’roll.

Mas a dois dias de fazer, eu mesma, uma cirurgia de câncer, esse pequeno conjunto de células poderoso que tirou Bowie desse mundo, é estranho, pra mim, ler essa notícia. É estranho como o câncer nos rouba coisas: ídolos, familiares, partes do corpo. De mim, vai roubar a possibilidade de ser mãe.

De nós, a possibilidade de mais maravilhas desse gênio.

Bowie fugiu da epítome de ídolo perdido, perfeito e fodido de Kurt Cobain, Amy Winehouse, Jimi Hendrix. Bowie não foi desperdiçado e endeusado em pedestais inventados, em imaginários de paraísos com todos os ícones que perdemos e acreditamos conhecer.

Ele viveu, e viveu bem, e viveu muitas vidas. Bowie foi um alienígena glamuroso, um viciado que dividia a dieta entre cocaína e leite, um Pierrot depravado e deslocado, Ziggy Stardust, Aladdin Sane, The Thin White Duke, e todas as alcunhas de cada uma das vidas que ele viveu. Ele teve mais vida que um gato.

Em um mundo que não faz mais rockstars, em que a cultura da subversão já foi banalizada a ponto de se apagar em si mesma, a arte se esgota e se perde em uma miríade infinita de lançamentos. Mas ele subverteu mais do que a música. Até antes dessa distorção pós-moderna, ele trouxe a androginia e realmente subvertia nossa ideia de gênero.

Seu último disco se chama Blackstar, e o último videoclipe, Lazarus, traz ele morrendo. Ele, tão famoso por saber o que iria acontecer em seguida, sabia que ia morrer. E, de certa forma, até isso conseguiu controlar.

Mesmo na última hora, Bowie rejeitou o arquétipo do gênio torturado e suicida. Mas o desespero dessas mortes jovens são os talentos desperdiçados, toda a arte que fica pra trás quando alguém vai embora cedo demais. Desse ponto de vista, jamais seria tarde pra Bowie. Nunca estaríamos preparados.

Sejamos sinceros: se tratando de Bowie, com 100 anos ainda seria cedo demais.

Compre todos os seus presentes de Natal num só lugar: como dar livros de presente pra todo mundo

Se você não gosta de livros, a chance de ganhar um presente meu é realmente minúscula, porque minha criatividade é suficiente apenas pra descobrir qual livro dar pra qual pessoa. Todos os anos, em todas as datas comemorativas, eu presenteio todo mundo com livros. SEMPRE. E com o Natal chegando, resolvi fazer uma listinha pra vocês se inspirarem!

Mãe: “A Desumanização”, Valter Hugo Mãe

Não, não é por causa sobrenome que relacionei o autor à figura da mãe. Acontece que a sensibilidade incrível que ele traz na narrativa sinestésica é o tipo de coisa que eu vejo minha mãe adorando. Maternidade também é algo que explora, de um jeito único e super delicado, nesse livro que, mesmo curtinho, é uma porrada.

Pai: “A Segunda Guerra Mundial”, Antony Beevor

Todos os pais que eu conheço – o meu, os das minhas amigas, os da televisão – adoram história. Esse tijolão sobre a Segunda Guerra tem quase 1.000 páginas e é pontuado por mapas explicativos e fotografias ilustrativas. O escritor, que já publicou livros específicos sobre o dia D, a batalha de Stalingrado e Berlim pós-1945, ficou 5 anos no exército e é um estudioso consagrado sobre o tema. Com uma análise detalhada, ele convida os leitores a reavaliarem momentos chave da guerra a partir de um contexto bem construído. Entretanto, a Rússia pediu que seus livros fossem banidos, acusando o autor de simpatia com os nazistas. É um livro complexo e polêmico, sem dúvida feito para ler, pensar e, sempre, criticar.

Irmã/irmão mais novo: “O Sol É Para Todos”, Harper Lee

O livro ganhou o prêmio Pulitzer não por acaso: é uma história que discute racismo do ponto de vista de uma criança que vai perdendo a inocência em relação ao mundo. Não consigo imaginar uma história mais delicada e adequada pra presentear se você é, como eu, irmã mais velha.

Caso amoroso: “Os Velhos Também Querem Viver”, Gonçalo M. Tavares

O livro chegou na minha estante através da recomendação insistente de um vendedor da Livraria Cultura do Conjunto Nacional da Paulista (eu não sei o seu nome, mas muito obrigada, viu, moço). O autor angolano-português desenvolve um poema épico com linguagem moderna e minha senhora, que livro espetacular. Sério. Terminei de ler e já comecei a segunda, de tão maravilhoso. E o melhor é que o livro já serve também como filtro: se a pessoa que está contigo não gostar, é hora de dar tchau. Essa pessoa realmente não vale a pena.

Afilhada, priminha, qualquer moça pré-adolescente: “Becky Bloom em Hollywood”, Sophie Kinsella

Da minha pré-adolescência e até meus 17 anos, mais ou menos, devorei qualquer livro da Sophie Kinsella que estivesse ao alcance da minha mão, dando gargalhadas de madrugada tão altas que eram capazes de acordar minha mãe. Os livros, engraçados, leves e divertidos, fazem a perspectiva de ler 500 páginas um prazer inexplicável. É uma ótima porta de entrada pro mundo da literatura. E quem não é apaixonado pelas aventuras inusitadas da consumista um pouquinho mentirosa e bastante crédula Becky Bloom?

Chefe: “Olhe Para Mim”, Jennifer Egan

Jennifer Egan é uma das minhas autoras favoritas dos últimos tempos. Vencedora do Pulitzer com o espetacular “A Visita Cruel do Tempo”, a intimidade que ela tem com a linguagem cria narrativas maravilhosas, com personagens inesquecíveis. Egan também tem como marca a vontade de ousar na estrutura da história e nos temas que trabalha. “Olhe Para Mim”, escrito durante a década de 90 e publicado em 2001, é quase uma clarividência: ele sugere a forma como a exposição de si mesmo e a curiosidade sobre a vida do outro serão dominante nos anos seguintes, inserindo o conceito ainda no estado de espermatozóide de reality shows. O livro é realmente incrível e certeza que sua chefe/seu chefe vai ficar impressionado com você depois de terminar de ler.

Melhor amigo: “As Virgens Suicidas”, Jeffrey Eugenides

Não é que você não possa dar esse livro pra sua melhor amiga – claro que pode. Mas insisto em que ele seja dado para homens por um motivo simples: o livro é um testamento da arrogância e ignorância masculinas, um tapa na cara do leitor macho que também acredita saber muito sobre mulheres. A história, espetacularmente contada sobre o ponto de vista de um dos garotos obcecados pelas irmãs Lisbon, fala sobre como eles tentam descobrir o mistério da vida delas. Descritas como seres quase irreais pela beleza que elas têm e pela distância a que os garotos são mantidos, elas são endeusadas e incompreendidas até o momento do suicídio. Por quê? Essa é a pergunta que perpassa o livro inteiro, com os garotos sempre tentando entender não só o motivo de elas terem se matado como o motivo de tudo o que faziam. É claro que não entendem nada – e não é isso mesmo que homens fazem?

Melhor amiga: “Mrs. Dalloway”, Virginia Woolf

Ah, Virginia, Virginia, como pode ter existido uma mulher tão incrível como você? As pessoas se rasgam por Kerouac e Bukowski, quando Virginia, tão mais maravilhosa, ainda parece distante – taí algo que nunca vou entender. “Mrs. Dalloway” é um livro que realmente merece a ideia de sublime descrita por Kant. Tudo – a linguagem, a narrativa, os personagens, o subtexto, os temas discutidos, absolutamente tudo – é maravilhoso. É um livro pra se verdadeiramente degustado, refletido e admirado. O tipo de presente que sua melhor amiga certamente merece.

Amigo secreto: “Como Conversar Com Um Fascista”, Márcia Tiburi

Esse presente pode ser usado em qualquer amigo secreto – inclusive a ideia é comprar vários exemplares e usar em TODOS os amigos secretos de 2015. O da firma, o da família, o da faculdade: não importa o ambiente, sempre tem alguém que pode se beneficiar desse livro. Começando pelo tipo mais óbvio, que não vai entender os motivos de ter ganhado o livro, uma vez que ele mesmo é um fascista potencial (aquilo que Márcia define como aquelas pessoas naturalmente anti-democráticas, que não vão sair batendo de verdade nos outros mas que são racistas, machistas, homofóbicas e opressoras de forma menos óbvia): ironia de primeira, dar esse livro de presente pra essa pessoa é como um tapa na cara de luva de pelica. Se a pessoa ler, melhor: quem sabe até faz refletir. Se não, a expressão no rosto ao abrir o pacote valeu o esforço, pode confiar. Caso quem faz parte do seu círculo familiar e profissional não seja – ainda bem – desse tipo, o livro é ainda mais legal: com clareza linguística e argumentativa, discussões sobre a construção cultural do pensamento de ódio e cruzamento entre as opressões sociais, ela traz uma análise que é simples e direta ao mesmo tempo que complexa do cenário político e social do nosso país. Mais para o fim, ela ainda nos brinda com um capítulo espetacular que deveria ser discutido em qualquer faculdade de jornalismo: como escrever para idiotas. Ah, verdade! Vale dar o livro pra professores também.