“O Sonho de Greta”: tudo que o Wes Anderson queria ser mas não é

É, eu não gosto de Wes Anderson. Esteticamente lindo, dolorosamente superficial. Assistir a um filme dele é como cair numa página de Tumblr de um adolescente que acredita ter as maiores dores do mundo porque a menina que ele gosta considera ele apenas um amigo.

Mas eu não sou crítica de cinema – essa é só a minha amadoríssima opinião.

O premiado “O Sonho de Greta”, estreia da australiana Rosemary Myers, é tudo que Wes Anderson queria ser: lindo, profundo, carregado de piadas internas e cheio de metáforas. O jornal The Guardian definiu o filme como uma história sensorial sobre o começo da adolescência que é o equivalente cinematográfico de cafeína misturada com LSD e confeitado em um bolo de aniversário.

Dos detalhes engraçadinhos – o cenário como indicativo de mudanças de tempo, a festa de aniversário da protagonista acontecendo no dia 31 de Fevereiro – até a estética retro e a quebra constante da quarta barreira: tudo contribui pra história e está lá com uma função. Nada é gratuito. A atuação é maravilhosa, a escolha das máscaras feitas à mão (no lugar de possíveis efeitos especiais) é genial e a mensagem do filme é clara: crescer não é fácil.

Bullying, a dificuldade de fazer amigos (é impressionante como isso parece caso de vida ou morte na infância e adolescência), a necessidade de ser aceito, os impulsos românticos, a confusão emocional, o se desfazer da criança e aceitar uma fase diferente da vida, a dinâmica familiar, e principalmente: o medo de crescer. Todos os dramas dessa época estão retratados com delicadeza e de forma certeira.

O filme é doce, engraçado e reconta um momento da vida de todo mundo de forma fresca e original – mesmo com as comparações com Wes Anderson, que são óbvias no cinema e, fora dele, encontradas em todas as resenhas. Mas o filme não é o que se espera se caímos nessa comparação: ele vai muito além, mergulhando em surrealismo, boas metáforas, diálogos inteligentes e uma hora e meia muito gostosas.

Palavras de uma suicida: por que séries como 13 Reasons Why é uma das razões de eu estar viva

Depois de Love, lá vai eu defender outra série incrível sendo criticada injustamente por avaliações (na minha opinião) superficiais. Contém spoilers.

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1) A lógica da denúncia versus normalização

Antes de se entrar especificamente na série, eu gostaria de esclarecer um ponto muito importante. Se fala muito sobre censura e sobre a importância de se mostrar a realidade na arte (a vida imita a arte ou a arte imita a vida, ambos são reais). Pessoalmente, considero essencial que a gente jogue fora nossa lente cor de rosa quando busca entretenimento ou arte em filmes, livros, séries etc e que a gente possa encarar a vida como ela realmente é, distante dos produtos plastificados especialmente para criar uma sociedade alienada e incapaz de perceber a própria realidade sócio-cultural.

Por isso, uso uma perspectiva de análise que funciona pra mim e surgiu da grande filósofa eu mesma (contém ironia). E consiste em refletir se o resultado da obra é denunciar ou normalizar o que é retratado. Por exemplo: é consenso que Two And a Half Men é uma série machista, porque consistentemente objetifica mulheres e, mesmo sem falar de estupro, contribui para a cultura de estupro. Do outro lado, temos, por exemplo, Jessica Jones, que retrata abuso emocional de forma muito clara – mas como denúncia: ou seja, as relações de poder que estabelecem o abuso são mostradas sem serem normalizadas. A gente entende que são situações normais, mas não deveriam ser. Podemos falar também de séries como The Get Down, que mostram pessoas negras como pobres, traficantes, usuárias de drogas. Poderia facilmente ser um estereótipo racista. Mas, nesse caso, é uma denúncia da realidade.

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2) A ideia de suicídio como vingança

Hannah Baker é uma adolescente que nunca teve nenhum tratamento psiquiátrico. Eu já culpei meus pais pela minha depressão. Já culpei meu emprego, já culpei meu corpo, já culpei um cara que não se apaixonou por mim. Ainda não conheci uma pessoa deprimida que desde o começo tenha tido a lucidez de compreender que a depressão não era culpa de outra pessoa.

Pessoas deprimidas são egoístas. Nós subimos em um trono, acreditamos que o mundo inteiro está contra nós, que somos a única e a principal vítima de todas as injustiças que existem. Não é fiasco: realmente nos sentimos assim. E, sabendo disso, é compreensível que Hannah tenha buscado identificar todas as pessoas que fizeram que ela sentisse essa dor insuportável.

Mas, mais que isso, julgar as fitas que ela faz como vingança é superficial. As fitas são a análise que ela nunca teve a chance de fazer com um profissional, e tenta, sozinha, desesperada, alcançar. É, mais que qualquer coisa, uma busca por auto-conhecimento. Inclusive, antes da última fita, ela conta ter se sentido muito melhor com aquele processo. Ora, ora. Não é que faz sentido?

Ao enviar as fitas, em vez de querer colocar todo mundo num tribunal para serem julgados – com exceção de Bryce, que deve ser julgado pelos estupros criminosos e imperdoáveis – ela convida todos a refletirem sobre o próprio papel em uma tragédia, sobre o caos que uma atitude pequena pode gerar na vida do outro. As fitas são a sinceridade que dão aos ouvintes a oportunidade de reconhecerem os próprios erros e melhorarem para nunca mais acontecer de novo.

É um convite para empatia.

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3) A importância de mostrar tudo

(É uma desgraça precisar fazer isso, mas pra garantir que ninguém venha com essas de que eu só sou fiasquenta, minha depressão é grave, desde a infância, tomo remédios há anos e já fui internada em clínicas psiquiátricas. Ok, sou deprimida real oficial. Vamos em frente?)

Talvez eu tenho sido a única depressiva do mundo a ser assim – embora eu duvide – mas, em crises depressivas, o que mais me ajudava era ler e pesquisar sobre suicídios. Coisas felizes, filmes bobos, tudo isso parecia longe demais da minha vida, uma realidade alternativa, um monte de baboseira inverossímil que parecia zombar da minha realidade. Esse tipo de entretenimento era, naquela época, lixo pra mim. Eu ia atrás de Requiem Por Um Sonho, Geração Prozac, As Horas, Garota, Interrompida, My Mad Fat Diary, Skins, e tantos outros filmes e séries pesadíssimos que, esses sim, me faziam pensar: eu não estou sozinha. Tem gente como eu. (Cheguei até a ver um filme terrível chamado Wristcutters – “cortadores de pulsos”, em tradução livre – esperando algo pesado pra espelhar minha alma mas encontrando um filme bem bostinha e superficial. Acontece.)

Na minha biblioteca, As Virgens Suicidas, As Vantagens de Ser Invisível, e muita Sylvia Plath. Nos fones de ouvido, não podia ser outra coisa: Leonard Cohen, que fez a revista Rolling Stone dizer, na sua primeira resenha sobre o artista, que navalhas deveriam ser entregues junto com o disco para que os ouvintes pudessem se matar assim que acabassem de ouvir.

Eu passava madrugadas pesquisando histórias de pessoas reais que se suicidaram e descobrindo fóruns de suicidas e deprimidos que trocavam experiências. Era só isso que me ajudava – porque era só isso que me ecoava.

Esperar que filmes “felizes” curem deprimidos é ingenuidade. Talvez funcione para alguns – não vou ser arrogante a ponto de achar que minha realidade é a única existente – mas sei que pra muita gente, como eu e muitos dos meus pares, isso é a maior balela já falada. Psicologia furada, falcatrua, charlatã. Se isso adiantasse, um DVD de comédia pastelão custa o quê, uns 14,90 na Americanas? Muito mais barato e rápido que Lexapro. Todos os meus problemas estariam resolvidos.

Como profissional ou como doente, buscar viver numa bolha é contraproducente, é alimentar a doença. A lógica de “gatilho de trauma” foi exacerbada a um ponto que se colocam pessoas doentes em uma bolha como aquelas que têm câncer: uma bolha longe e distante da realidade, onde o doente se isola cada vez mais e fica cada vez mais longe da vida que ele deveria lutar pra realmente viver. Eu sei, eu fiz isso também.

Já vi alegarem por aí que a cena do suicídio em 13 Reasons Why pode ser um tutorial. De novo: é preciso ser muito ingênuo para acreditar que esse é o tipo de coisa que nos ensina a nos matar. Existem fóruns, explicações detalhadas, dicas, tabelas que comparam a relação entre dor e eficiência, e qualquer pessoa com WiFi consegue um dossiê completo com as melhores receitas de suicídio. Esse mundo em que essa série do Netflix é a melhor fonte de dicas sobre como se matar é utópico e muito longe do nosso.

Mas tudo isso fica escondido, porque, paradoxalmente, nós vivemos em uma época que nega a morte e, ainda mais, o suicídio. Notícias de suicídio são importantes, e deveriam ser publicadas. Precisamos do choque, do horror, do desconforto (pra ser bastante eufemista) de ver que as pessoas não param de se suicidar. Colocar a câmera ali, mostrando ela rasgar os pulsos, tira toda poesia da cena. Não tem trilha sonora poética, filtro fotográfico e o confortável fora de quadro para transformar o ato em algo plástico e distante. O diretor nos obriga a encarar Hannah Baker, que aprendemos a amar durante os 12 episódios anteriores, rasgando os pulsos. Puta merda. É essa a reação que devemos ter.

A série ainda faz questão de mostrar o efeito devastador que as consequências do suicídio tem nas pessoas em volta da pessoa que morreu. Não tem nenhum espaço pra romantização.

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Houve, em uma época pré a experiência conectada que vivemos agora, o efeito que dizia que o suicídio de uma pessoa famosa gerava suicídios em massa. Em 1994, pós-Kurt Cobain, isso já começou a ser questionado: foi mostrado que, após a morte dele, os suicídios não aumentaram. Pelo contrário: a busca por ajuda foi massiva. Tudo isso está Here We Are Now, o livro que analisa o legado do Nirvana e foi escrito por Charles R. Cross, biógrafo do rockstar.

O fim de 13 Reasons Why não é feliz – nem de longe – e talvez isso seja o mais desconcertante. Estamos acostumados a narrativas de depressão que sempre acabam em recuperação. Um exemplo disso é o livro (que também virou filme) Uma História Meio Que Engraçada – mas a realidade destoa da ficção quando descobrimos que o autor se suicidou anos depois de publicar essa história. A Redoma de Vidro, da minha escritora favorita, Sylvia Plath, que está tatuada na minha pele, que é inspiração do título do meu canal literário no YouTube, também retrata uma recuperação. O livro foi publicado apenas um mês antes da autora se suicidar.

(E me surpreende o escândalo quando vimos por anos séries como Gossip Girl em que: o Chuck estupra e bate na Blair e troca ela por um hotel, e continua sendo considerado um romance épico; o Dan humilha a Serena publicamente e eles acabam casando; tem relacionamentos entre adultos e adolescentes… enfim, dá pra ficar horas explicando os problemas e relacionamentos abusivos que a série teve sem gerar uma reclamação.)

Se não existissem séries e filmes e livros como esse, eu provavelmente não estaria viva. Parece absurdo, mas eu duvido que eu seja a única. A identificação, o senso de comunidade, a ideia que isso existe e eu não sou a única, louca, perdida no universo, foi uma das principais coisas – e continua sendo – a me fazer continuar. Além disso, quem sofre de depressão dificilmente tem vontade de compartilhar os sofrimentos. Pelo contrário: costumamos nos fechar e nos isolar. Se a conversa e o fim do silêncio é uma das principais formas de ajudar um suicida, como isso é possível se nós sempre escolhemos nos calar? Através da arte: de filmes, livros e séries como 13 Reasons Why, que funcionam como a primeira etapa dessa conversa.

A verdade é que finais felizes muitas vezes não são reais. E é preciso falar sobre isso. E, se continua sendo gatilho de trauma, é porque a conversa é mais necessária ainda.

Leia mais: Por que não falamos de suicídio?Uma conversa sobre o suicídio, um convite à vida e Como ’13 Reasons Why’ nos alerta das metáforas do desespero adolescente, todos de Amanda Mont’Alvão.

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O poder do erro – e sim, esse é um post meio auto-ajuda feito por causa de uma Ted Talk

Por muitos anos, minha terapia era sempre feita de madrugada e com a minha melhor amiga, Amanda. Víamos o sol nascer juntas – ela de Osasco, eu de Porto Alegre – depois de ficar discutindo todas as angústias que, como duas adolescentes deprimidas, nós compartilhávamos. Eu ainda lembro de uma vez em que ela me disse que precisava lembrar constantemente que não tinha problema errar. Aquilo mudou minha vida.

Eu, assim como ela, tinha o perfil bastante A. Melhor da turma na escola, monitora de matérias, presidente do Grêmio Estudantil. Com 15 anos já queria trabalhar e saber como era. Assim que entrei na faculdade, me inscrevia em pelo menos três cursos de extensão com duração de um semestre – e vivia na faculdade todas as manhãs e pelo menos três tardes por semana.

Eu cresci ouvindo que era um prodígio. Aprendei a falar cedo. Com cinco anos, lia e escrevia. Meu vocabulário sempre chamava atenção onde quer que meus pais me levassem, e até hoje escuto história em que protagonizo usando palavras surpreendentes pra uma criança. A vida toda, eu aprendi a vencer, a ser perfeita, a responder às expectativas dos adultos.

Em nenhum momento eu aprendi a errar.

Aceitar o erro foi algo que aprendi com a vida, com muito custo, choro e raiva. (E com a Amanda.)

Só que eu sempre pensei que isso fosse coisa de millennials. Bom, isso é porque cresci achando que era diferentona. Isso é porque fui primeira filha, neta, sobrinha, e todo mundo me amou demais. Isso é porque na escola todos os professores colocavam responsabilidades demais nos meus ombrinhos magricelas. Só hoje percebi que isso tudo pode ser um pouco verdade, mas a verdade maior é que isso é porque sou mulher.

Trago dois exemplos do vídeo: no primeiro, ela traz o dado de que homens costumam se candidatar a vagas em que completam 60% dos requisitos, enquanto mulheres apenas se candidatam caso preencham 100%. No segundo, ela conta que nas aulas de programação, quando há algum erro, homens falam “tem um problema com meu código”, enquanto mulheres dizem “tem um problema comigo”.

O livro Faça Acontecer, da Sheryl Sandberg, foi muito criticado no meio feminista. Sim, ele fala para uma parcela específica de mulheres brancas de classe média, e ele peca em não reconhecer as estruturas que o capitalismo ajuda a manter. Ele é, sim, um livro que não contesta o patriarcado, não contesta o capitalismo, e, no lugar, incentiva as leitoras a aprenderem a jogar usando as regras do jogo. Não é revolucionário. Isso não quer dizer que não tenha valor. Sheryl fala sobre a maternidade, a divisão de trabalho doméstico, a socialização feminina e o impacto na forma que, como mulheres, crescemos, trabalhamos e nos colocamos no mundo.

Os dados que o livro traz são impressionantes. Uma pesquisa de 2011 provou que homens são promovidos baseados em potencial, enquanto mulheres são promovidas por conquistas passadas. Muitos estudos em muitas indústrias (sério, demais pra ficar citando aqui, mas tá tudo na bibliografia de Faça Acontecer) provaram que mulheres costumam julgar o próprio trabalho muito pior do que é, enquanto homens julgam muito melhor. Ainda hoje, avaliações cegas de currículo – isso é, onde o sexo do candidato não aparecem – têm resultados absurdamente melhores para mulheres do que as avaliações em que o sexo aparece.

Esse texto não tem uma conclusão ou um conselho. Esse texto é só algumas coisas que, na última semana, povoaram minha cabeça. É tudo bem errar. Esse texto ainda não tá pronto.

Esse texto, como eu e você, não é e nem precisa ser perfeito.

Em defesa do amor: porque Love é a melhor série sobre relacionamento dos últimos tempos

Eu tenho uma mania meio insuportável às vezes de achar que, quando eu acho algo incrível, é claro que todo mundo também acha. Me deparar com um monte de gente compartilhando um texto criticando Love, a série original do Netflix que recentemente estreou a segunda temporada, foi no mínimo desconcertante. E o texto, pra mim, não fez sentido. Por isso resolvi vir aqui, em defesa do amor (yes, pun intended), para dissecar porque essa série é tão maravilhosa.

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1) Os criadores

O primeiro erro é definir Love como uma criação de Judd Apatow, ignorando, pra mim, quem fez a série especial. Lesley Arfin é autora de um livro sobre vício em heroína, foi colunista da VICE por bastante tempo e hoje escreve para Girls. Ela é uma das melhores amigas de Lena Dunham, e, mais importante, uma voz narrativa espetacular. Mickey tem muito de Lesley, que é casada com outro criador da série, o também protagonista Paul Rust. Meu primeiro conselho a qualquer um que leu o texto seria: vai conhecer a Lesley, você vai se apaixonar. Ela é uma mulher, escritora e roteirista incrível, e ignorar a participação e a importância dela nessa série é um descuido gigante. Além disso, 13 dos 22 episódios foram escritos ou co-escritos por mulheres.

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2) A questão do vício

Me chamou a atenção que durante os quase 10 parágrafos, não foi citado a questão primordial, o fio condutor da série, na minha opinião: o vício de Mickey. Talvez isso não seja tão óbvio para alguém que não está em nenhum programa e não conhece tão de perto os mecanismos do vício. Mas narrativas sobre o vício existem de sobra – eu mesma vi Christiane F aos 13 anos. Sobre recuperação, nem tanto – e, mesmo as que conquistam o mundo explorando essa experiência, como aconteceu com a auto-biografia de James Frey, foi o fato de rejeitar os 12 passos que chamou a atenção. Noventa Dias, de Bill Clegg, talvez seja o melhor retrato atual do que é enfrentar os primeiros meses sóbrios, do que é entender o programa, o que os doze passos significam, o que um poder superior significa. E, mesmo assim, estamos no campo de memórias.

A ficção peca bastante em retratar o programa. Em Breaking Bad, em um encontro do NA, vemos depoimentos que mais seriam pequenos resumos do que levou cada um até ali. Os escritores parecem sofrer do egocentrismo do protagonista: como é a primeira vez do personagem ali, parece justo que todos que estão em volta sirvam apenas a ele e, por isso, se apresentem. Acontece que a vida real não é assim, e o programa também não.

A primeira vez que vi o programa bem representado na ficção foi em Love. Cada detalhe – os depoimentos nas reuniões, a pressão, os gatilhos, a conexão entre os membros, a importância do apoio entre os membros, a conversa depois da reunião, os conselhos, o apadrinhamento – estava adequado. É óbvio: Lesley é membro há anos, foi coordenadora do programa, e com certeza sabe retratar o que uma recuperação significa.

E isso não é apenas um elogio à forma como os encontros são retratados, mas também à evolução de Mickey. Ao contrário do que as críticas parecem fomentar, o desejo de Mickey de permanecer no relacionamento diz muito menos sobre Gus do que sobre o comprometimento dela com a recuperação. Longe de ser um medo patológico de perder um cara que ela conheceu ontem: a insistência em fazer dar certo representa um compromisso em vencer os próprios padrões viciados, os próprios comportamentos auto-destrutivos, e crescer como ela merece. Reduzir esse comportamento dela a qualquer tipo de dependência de Gus é não apenas superficial como desrespeitoso com a recuperação da personagem.

De novo: talvez seja necessário ter participado do programa ou vivido o que Mickey vive e viveu pra entender como cada esforço ali é crucial, real, e admirável. Ela navegar para Gus, mesmo brigando, mesmo com os problemas – que ela também cria – é impressionante pra qualquer pessoa que tem a bagagem que ela tem. E isso não devia nos causar sentimentos negativos: pelo contrário. Nesse arco, se explora a narrativa de uma mulher superando traumas e vícios de uma vida inteira, e realmente investida na própria recuperação, de forma corajosa, forte e, mesmo cheia de defeitos, exemplar.

E ainda melhor: tudo isso é contado explorando subtexto, sem precisar explicar para o expectador cada detalhe do que está acontecendo. Os escritores confiam que nós teremos a capacidade de perceber como o vício e a recuperação impactam em cada – de novo, em cada – decisão e atitude de Mickey. Está tudo lá, sem precisar ser panfletário ou pregador.

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3) Os erros de Gus e Mickey

Love explora o dia-a-dia de um relacionamento, acompanhando telefonemas enquanto fazemos o café da manhã, situações chatas da nossa rotina, necessidades fisiológicas, aqueles momentos sem nada para fazer em casa… na contramão das narrativas de romance que são baseadas em grandes atos, Love é quase sobre o tédio, sobre a parte menos interessante da nossa vida, sobre os momentos mais banais que todo mundo vive. Assim como outros poucos romances – como a trilogia Antes do Amanhecer, Antes do Pôr-do-Sol e Antes da Meia Noite – em Love o importante são os diálogos, as reações automáticas, a forma como as relações humanas são construídas nos nossos momentos mais desimportantes.

Em vez de começar a cena do encontro com os dois sentados na mesa conversando, Love nos leva para acompanhar Gus e Mickey na fila do pedido, na espera pelo café, na procura por um lugar vago. E essa cena serve de exemplo para toda a construção narrativa da série: são nesses momentos que os personagens se revelam e se mostram para nós.

Os erros deles também são assim. Humanos, banais, honestos. A reação de Gus, alguém que não entende de vício e de recuperação, é compreensível: ele acredita que está incentivando a melhora de Mickey com suas atitudes, acredita que ela precise de alguém que seja quase um líder de torcida para cada dia sóbria. É só ao ir em uma reunião do Al-Anon que ele começa a entender que isso funciona como gatilhos para alguém em recuperação.

Agora, deixa eu falar: não é fácil conviver com pessoas em recuperação. Eu sei porque eu sou uma, e eu convivo e sou casada com uma. Os gatilhos são gigantes, as recaídas tão ali na esquina, e toda aquela coisa de “só por hoje” é tão importante porque nós mesmos não conseguimos lidar nem com nossas próprias pressões e expectativas. Viver e se relacionar com alguém em recuperação é como andar em um campo minado: você nunca sabe quando pode explodir. E você anda cegamente, sem nenhum mapa, sem nenhuma ajuda, porque você não tem nenhum tipo de referencial do que isso significa. Os esforços de Gus são bonitos – mesmo que errados. E é essa a importância do Al-Anon, tão bem retratada, para esses relacionamentos.

É por isso que ele comprar uma passagem surpresa para Atlanta tenha sido algo lindo, do ponto de vista dele, e desesperador, do ponto de vista de Mickey. Mas representar esse tipo de briga em que superficialmente as pessoas podem questionar por que Mickey age assim (tão “avessa” a atitudes românticas) é mais uma forma da série de mostrar como o relacionamento com alguém em recuperação é complexo. Mickey não fica, em nenhum momento, como a “errada” da situação – e o próprio Gus entende os motivos dela após a reunião no Al-Anon. Mas pra mim o principal é fugir dessa dicotomia de certo/errado ou romântico/louco. O que Love quer é nos mostrar que ambos estão fazendo o que acham que é certo, para si mesmos e para o relacionamento, e isso é um comum criador de problemas na nossa vida real, material: no fundo, falta comunicação.

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4) A beleza dos protagonistas

Sim, é cansativo ver mulheres lindas e maravilhosas se apaixonando por homens medíocres. Agora, reduzir o relacionamento deles ao fato de ela ser bonita e ele não é uma redução gigantesca de todas as camadas que Lesley & companhia querem explorar na série. Sim, ela é linda. Sim, ele é mal diagramado. A gente pode superar isso?

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5) As denúncias veladas

Love é especialista em trazer denúncias sociais sem ser panfletário ou pregador (não que seja ruim, eu sou a primeira a adorar e indicar um documentário que mostre a importância do feminismo radical de forma direta e bastante pregadora). Mas na ficção, esse tipo de denúncia em forma de subtexto, também presente em Master of None, é algo que me faz pirar: é o tipo de inserção, que não deixa de ser política, que é absorvida quase sem esforço pelo expectador. O poder desse tipo de discurso é inegável.

Por isso, quando temos um personagem que, sob o efeito de drogas, manifesta uma violência típica masculina e declara sem nenhum constrangimento a vontade de matar a namorada, eu queria aplaudir. O quão corajosa a série foi para mostrar que um personagem – que até então vivia o estereótipo do bonzinho bobão – tem dentro de si esse tipo de violência ensinada pelo sistema patriarcal! “Nem todo homem” o caralho. Sim, todo homem pode ser violento e misógino assim que o superego tira uma folguinha.

A forma como isso foi retratado na série passa longe de piada. A reação de Bertie, namorada do personagem, e o degringolar do relacionamento de ambos, faz questão de deixar claro o quão grave e o quão divisor de águas aquela revelação foi.

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Love pode não ser a série mais simples de digerir, mas eu garanto: vale a pena.

A febre de “garota” em títulos de livros e o Oscar de Emma Stone

Se eu decidir escrever um texto provando que livros com a palavra “garota” no título estão na moda (e estão vendendo), eu vou ter gastado o meu tempo e o tempo de todo mundo que parar pra ler. Porque esse argumento é inútil: já é óbvio. Garota exemplar, A garota no trem, A garota do calendárioA garota que você deixou para trás (da Jojo Meyes, responsável por Como eu era antes de você): todos esses títulos foram tiradas de listas de mais vendidos da Publishnews, em 2016 e 2017.

O que me interessa é que, na maioria desses livros, as “garotas” já são mulheres (a exceção é The Girls, da Emma Cline, que realmente fala de garotas de 14 anos). Em uma coluna, Eva Wiseman, uma das minhas escritoras favoritas no The Guardian, trouxe essa discussão e me lembrou de quando uma Clarissa com 18 anos recém feitos conversou com o ex-namorado de uma veterana minha na faculdade de moda. Para explicar porque estava se apaixonando por outra pessoa, ele disse: “ela já uma mulher, e minha ex ainda é uma garota”.

Eu respondi: “Acho que nunca vou me referir a mim mesma como mulher”.

Já naquela época, pra mim, muito antes do feminismo, “mulher” era uma criatura mítica e poderosa – como minha mãe – que eu poderia apenas sonhar em um dia me tornar. Eu seria sempre uma garota – e implícito ali estavam os adjetivos boba, vulnerável, iludida.

Ontem, no Twitter, após Emma Stone levar o Oscar de melhor atriz, um homem – Kyle Buchanan, editor na New York Magazine – escreveu: “desde 2000, 7 vencedoras do prêmio de melhor atriz estavam com 20 e poucos anos, incluindo Emma Stone. Apenas um homem com 20 e poucos anos, Adrien Brody, levou o prêmio na história”, ao que uma mulher – Laura Turner, escritora – sarcasticamente rebateu: “é quase como se a gente valorizasse demais a juventude em mulheres…”

A febre dos títulos, os prêmios do Oscar, a nossa performance infantilizada como mulheres: é tudo a mesma coisa.

Felizmente, há alguns anos, me peguei pensando sobre mim como uma mulher, e foi uma surpresa. Boa.

 

 

Entrevista: Ungulani Ba Ka Khosa – “A literatura quebra fronteiras”

O premiado escritor moçambicano Ungulani Ba Ka Khosa escreve livros que mais poderiam ser socos no estômago. Quando indico pra alguém, aviso: se prepara, porque vai doer. Ungulani faz 60 anos em 2017, escreveu quase dez livros e inclusive se aventurou pela literatura infantil. No fim do ano passado, ele esteve no Brasil para o lançamento de seu incrível Orgia dos loucos, lançado pela Editora Kapulana, e eu tive a chance de conversar com ele. Foi quase uma hora de troca de experiências e ensinamentos gigantes. Saí de lá com um livro autografado e a certeza de que tinha acabado de conhecer um grande homem.

Moçambique conquistou sua independência num passado bastante próximo – 1975 – e as artes, especialmente a literatura, foram importantíssimas para a revolução (Ungulani cita a maravilhosa Noémia de Sousa – melhor livro de 2016 pra mim). Ainda hoje é um país com grandíssimas discrepâncias entre o campo e a cidade, que ele explora em seu lançamento por nossas terras – embora Orgia dos loucos tenha sido publicada originalmente em 1990. Nele, o campo é quase um personagem, cenário árduo e sudorento dos contos doloridos, crueis, crus, e muito reais. “A literatura tem que estar ligada a uma realidade cultural forte”, ele declara.

É assim mesmo que ele nos fala sobre violência, morte, pobreza. Aliás, fala talvez não seja o verbo certo: ele mostra, com imagens fortes, linguagem em sincronia perfeita com o tema, personagens pungentes e descrições certeiras e arrebatadoras. O segundo conto do livro – e o meu favorito – explora com maestria a violência contra mulher, o que, saído de um escritor homem, é um tremendo elogio. O livro é curto, mas não é daqueles que devemos ler com rapidez: é pra se ler e se pensar. Ungulani fala que “o texto em si tem que se pensar por si próprio”, e é verdade. Mas nós temos que pensá-lo também.

Mesmo com escritores fortíssimos saídos de lá – Suleiman Cassamo e Aldino Muianga, por exemplo, ambos também publicados no Brasil pela Editora Kapulana – o povo do país ainda sofre do “complexo de vira-lata”. Ele conta que ouviu o termo pela primeira vez em São Paulo e que ele é perfeitamente adequado para aquela realidade também.

Quando fala de literatura infantil, a lição é uma só: não subestimar a inteligência das crianças. Voltando ao nosso país, ele disse apreciar literatura brasileira, mas conhece pouco. Em Moçambique, não existe acesso à literatura brasileira contemporânea, e os autores que chegam lá são os que já estão mortos. Para ele, isso é motivo de muita tristeza. Ele ainda faz uma provocação: percebe que mesmo no Brasil não existe muita comunicação entre as produções literárias regionais, que poucas vezes extrapolam os limites geográficos. Em geral, são autores do eixo Rio-São Paulo que conseguem atenção. Mas garante: “a literatura quebra fronteiras”.

A gente concorda. Assista às melhores partes da entrevista:

Racismo, turbante, o estigma do câncer e a geração do like

Recentemente, apareceu na minha timeline várias discussões sobre uma jovem que contou ter sido xingada por usar turbante. A justificativa dela era estar com câncer.

Não vou entrar no mérito de apropriação cultural agora e nem explicar por que eu, branca, considero equivocado acreditar que “ter câncer” é desculpa pra ser racista. “Mas, Clarissa, tu não sabe o que é passar por isso, câncer é muito grave”. Antes que esses comentários comecem, saca só: eu tive câncer. Quatro vezes. E duas delas foram leucemias, a mesma doença da menina que estava de turbante – embora fosse de uma tipologia diferente, confesso.

Também não quero entrar em detalhes sobre as perguntas que quis fazer à menina – coisas que, pra mim, soaram tão incoerentes que me deixaram curiosa. Não em relação à apropriação cultural, mas em relação à forma de abordar a doença nas redes sociais. Mas, bom, cada pessoa é uma pessoa, e eu não posso julgar a coerência de outra através da minha ótica.

Vou repetir pra ficar claro: esse post não é sobre essa menina. Esse post não é pra questionar a veracidade ou não de inúmeros relatos que surgiram. E esse post não é sobre apropriação cultural.

Então sobre o que é?

Esse post é sobre estigma social.

Eu discuti sobre o fato com algumas pessoas e defendi que não é preciso usar turbante quando se têm câncer. Eu tive câncer quatro vezes, já disse. Meu cabelo todo caiu e esse foi um dos maiores traumas da minha vida. E nunca, nunca precisei – pasmem! – usar turbante.

O cabelo cair, pra uma mulher, é carregado de significados muito além da doença. Se sabemos que antigamente o cabelo solto sinalizava uma mulher solteira e o cabelo preso uma mulher casada, é óbvio a relação de cabelo com feminilidade e disponibilidade sexual é direta. O sexy – e a pornografia – abusam de cabelões soltos, armados, felinos, porque isso lembra sexo, beleza, atração. E numa sociedade em que a mulher existe unicamente pra ser objeto sexual, é inegável que a perda de cabelo seja um trauma gigante. Como mulher, a gente sabe como as amarras da feminilidade nos enfraquecem e nos aprisionam.

Eu fui ter cabelo curto depois dos 20 e poucos, quando minha confiança me liberou do calor de um cabelão até a cintura. E quando digo curto digo acima dos ombros: mais que isso, ainda não consigo. Tudo bem, todo mundo tem seu tempo.

Então repito: é compreensível que a perda de cabelo seja traumática, e que a gente, como pacientes com câncer, busque alternativas pra esconder que isso esteja acontecendo (olha só, até hoje me dá agonia usar a palavra careca pra me referir a isso. Que forte). Eu usava principalmente toucas, já que perucas em geral incomodam bastante. Mas usava em casa. O trauma era tanto que eu não saía de casa e só recebia visita de poucas pessoas, porque não aceitava ser vista daquele jeito. De homens, só minha família mais próxima e um melhor amigo (Lucas, um beijo!).

Não existem fotos minhas daquela época. Nem com touca, nem sem touca.

Essa lembrança é inexistente, fantasiosa, apagada, quase como se nunca tivesse acontecido. E isso não é pelo estigma do câncer. É pelo estima da mulher careca, da mulher que não é capaz de performar a feminilidade dela esperada, da mulher que é feia.

Eu, que sempre fui bonita, jamais conseguiria suportar isso.

Esse estigma não vem do câncer, vem da opressão. Muito parecido com o tipo de estima que o racismo evoca: filho da opressão, impossível de fugir, muito mais enraizado na cultura do que a gente pode imaginar.

Corta pra falar de câncer, o ponto onde eu queria chegar: existe um estigma de paciente com câncer?

Existe. Claro que existe. E, sim, eu também não gosto. Ser tratada com pena, ser lembrada por ter tido câncer, ser rotulada por isso. “A minha amiga que teve câncer”, “aquela menina que eu te falei que teve câncer quatro vezes”, cansei de ser apresentada assim. Eu sou tantas, tantas coisas. Não sou o câncer. Não sou minha doença. O câncer acabou. A Clarissa continua.

Mas esse estigma é muito, muito diferente do estigma da opressão. Esse estigma não te bate, não te xinga, não te rejeita, não te marginaliza.

O estigma do paciente com câncer é o da vítima. E o que a gente faz com vítimas? A gente recompensa. Fala com mais carinho e cuidado. Dá o lugar no metrô (não que isso seja errado, tá gente? Lugar no metrô é importante sim, a gente em geral fica muito fraco! Mas to usando de exemplo porque né, ganhar lugar no metrô é muito bom). Mais que isso: a gente dá uma chuva de likes. Literalmente.

A diferença do estigma da opressão e da vítima é fácil de perceber: é só comparar os likes dos posts sobre apropriação cultural em relação ao caso acima (poucos) com os de um relato sobre câncer (muitos).

O meu único post no Facebook que teve mais de mil likes foi falando sobre eu ter finalmente superado o câncer 100% depois de todos os anos de follow up (ironicamente ainda tive um câncer depois. Na época não sabia que sou portadora de uma síndrome genética que faz minhas células ficarem mais loucas que minha cabeça).

O paciente com câncer, diferente da mulher, do negro, do pobre, é aquele que vai receber privilégios que compensem a condição de vítima. É o que vai receber likes, comentários atrás de comentários de “guerreira” (ugh, odeio, guerreira é a Xena, eu sou a Clarissa), admiração grátis de um milhão de pessoas que não te conhecem e não fazem ideia de quem tu é. Nessa hora, aquele cara que manda feministas radicais (oi, eu) serem estupradas tá lá prontinho pra comentar e dizer que me acha incrível. O cara que acha massa xingar PTista nas fotos do Instagram de repente aparece pra dizer que me acompanha e me admira.

Nenhuma dessas pessoas me conhece. Essas pessoas conhecem uma coisa: o sentimento generalizado que a gente deve ter por pacientes com câncer. E esse sentimento, que vem do estigma, nunca é marginalizar. É sempre elogiar, admirar, privilegiar.

E eu só queria dizer: sério, amigos, com todo o respeito, vão se foder, tomem no cu, vão embora do meu Facebook e de todo mundo que tá doente. Esse comportamento é o que faz tanta gente fingir que tem câncer na Internet (você não sabia? Dá um Google).

Esse comportamento é o que me dá vontade de ter um câncer novo e morrer, só pra não ter que ouvir um monte de bunda mole hipócrita comentando coisas vazias pra ficar com a consciência limpa.

E se lembrem disso antes de passar pano pra racismo. Vocês não são legais. Nem pra nós, que vencemos o câncer.

Querida São Paulo,

(esse texto foi escrito em outubro de 2015, quando voltava para Porto Alegre depois três anos aqui. Agora, de volta à verdadeira cidade maravilhosa, reencontrei essa carta entre outros rascunhos. No aniversário de São Paulo. Pareceu a hora certa de publicar. As fotos vieram daqui.)

Querida São Paulo,

Eu ainda lembro a primeira vez que te vi de verdade. Não foi no avião, ou em Congonhas, ou andando de carro até a casa da minha melhor amiga. Não – foi na primeira vez que botei os pés na Paulista, saída do metrô, em que nunca tinha andado, na minha primeira viagem de avião. Eu tinha 20 anos, uma depressão grave e a sensação permanente de que minha cidade, Porto Alegre, não era minha casa.

A primeira vez que vi a Paulista, fui tomada pela magnânima impressão de poder dos prédios altos e espelhados, das luzes, e do céu claro se desnudando. Foi a primeira vez, depois de muito tempo, que eu me senti realmente viva – o coração acelerado, a vontade de viver, a noção de que ainda existem coisas que valem a pena. Menos de dois anos depois, eu me mudei pra cá.

Eu nasci em um berço de ouro – não porque meus pais sejam ricos, porque não são. Eu nunca tive tudo o que quis, nunca tive grandes luxos na infância, e meus pais enfrentaram grandes dificuldades financeiras. Mas não tem nada que, olhando para trás, eu poderia pedir a mais. Eu tive suporte, carinho, muito amor. Eu tive, por isso, um berço de ouro. E quando saí, com uma estabilidade financeira familiar que eu nunca tinha vivido antes, abandonei um conforto que seria impossível de recuperar nos meus anos aqui.

São Paulo é uma cidade árdua, cheia de dor, cheia de lágrimas, carregada de desigualdades sociais. No dia em que te brinda com um pôr-do-sol glorioso, te traz um menino de rua esfomeado implorando por comida. São Paulo é a realidade, dura, sem maquiagem.

Aqui, todo mundo busca alguma coisa com afinco, as pessoas facilmente passam por cima de você. Às vezes literalmente. A ganância é o sentimento que domina a região da Berrini, onde trabalhei por mais de dois anos, numa empresa maravilhosa. As ruas, porém, são lotadas de homens de ternos, energias agressivas, competição e olhares invasores. A amada Augusta à noite, um antro de liberdade de expressão, com frequência se torna o vórtex da auto-destruição. Depois de passar anos sóbria, os olhos vermelhos, os passos errantes, a fala confusa e as pessoas jogadas no chão não mais criam identificação. O metrô, uma das minhas coisas favoritas da cidade, é uma arena em que vence o mais forte: apertos imensos, acotovelamentos, empurrões. Não existe educação em uma cidade que não pára, em que você precisa cumprir prazos, em que não existe metrô suficiente para comportar a quantidade absurda de gente que se locomove. Pinheiros é uma visão do inferno – quantas vezes, lá no meio, cerceada por vidros, guardas e corrimões, a multidão parecia apenas gado em direção ao abate?

Mas São Paulo é a cidade em que eu me tornei eu mesma. Foi em Porto Alegre que nasci, mas foi aqui que eu me tornei eu. Se Porto Alegre representa minhas origens, São Paulo é minha formação. Ela é, apesar tudo, a minha cidade, a que eu escolhi pra amar, pra às vezes odiar, e, principalmente, pra viver. Porque isso é algo que eu havia deixado de fazer em Porto Alegre: viver. E agora, prestes a abandonar a cidade que eu escolhi pra mim, a nostalgia toma conta. É, eu sou uma pessoa muito nostálgica – passados se transformam em imagens fortes de cheiros, luzes, sensações e sentimentos. E caminhar pela Paulista, dobrando na Pamplona em direção à minha casa, em um caminho que já me fez querer desistir de tudo e já me deu a melhor sensação de gratidão do mundo, eu penso: como posso ir embora?

Novas coisas me esperam, cidades que amo muito mais que essa, vidas que vou amar mais também. Mas São Paulo é a primeira parte disso tudo. E dói, sim, me despedir. Porque aqui foi onde eu amei – a vida, o amor, e a cidade.

SEM FILTRO: CÉU DE SÃO PAULO AGORA #urban #sky #nofilter #pinksky #011 #igerssp #saopaulo #sp #landscape #sunset

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Férias sem viagem? Vá a museus

(eu tirei essa foto do post no Louvre, em Paris, durante uma aula de
história da arte para crianças dentro do museu)

Se a crise, o tempo, o trabalho ou o que seja não deixou você viajar pra outra cidade ou outro país esse ano, dá pra viajar muito – no tempo, na história, na beleza – em um só lugar: no museu. Eu adoro museus. Quando viajo, sempre coloco os museus como prioridade na minha lista de coisas legais pra fazer nessa cidade. Mas, curiosamente, em São Paulo, onde morei por mais de 3 anos, não conheci todos os museus. É aquela coisa de “mais pra frente dá tempo”, “amanhã eu vou”, “de repente semana que vem to menos lotada de coisa pra fazer”. Esse ano, de volta aqui, quero conhecer mais.

Em Porto Alegre, onde morei por mais de duas décadas, posso dizer que visitei o MARGS, o Santander Cultural e o Iberê Camargo vezes demais. Em alguns meses, em que ia ao centro com frequência, visitava o MARGS toda semana. Foi lá que vi meu primeiro Renoir ao vivo, gigante, e quase chorei, porque faço bastante essa coisa de chorar na frente de obras de arte. E olha que eu nem amo Renoir tanto assim.

Esse ano, a FEAMBRA (Federação de Amigos de Museus do Brasil) organizou uma lista com algumas dicas espalhadas pelo país inteiro pra aproveitar durante verão. Vamos juntos?

 

Museu de Arte Contemporânea da Universidade de São Paulo (MAC)

Atividades lúdicas motivadas pelas exposições em cartaz no museu. A obra Onça Pintada nº 1, de Leda Catunda, será o ponto de partida para conversas sobre estampas e padronagens industriais e artesanais.
25 de janeiro, quarta-feira, das 10h30 às 13h30.
Gratuito.
Avenida Pedro Álvares Cabral, 1301. Parque Ibirapuera. São Paulo – SP.
www.mac.usp.br

Museu Catavento

É um espaço educativo e interativo com diversas atrações e atividades para pessoas de todas as idades. Bebês com seus pais podem participar e se divertir na sala Engenho, o Borboletário e o jardim do local. Com acesso para carrinhos de bebês, também oferece bancos para descanso, trocadores para bebês nos banheiros masculinos e femininos e ambulatório para atendimento.
Funciona de terça a domingo, (fechado às segundas), das 9 às 17 horas (bilheteria fecha às 16 horas). Ingressos: R$ 6 (inteira) e R$3 (meia). Aos sábados a entrada é gratuita. Crianças até 3 anos não pagam. Palácio das Indústrias, Praça Cívica Ulisses Guimarães, s/no (Av. Mercúrio), Parque Dom Pedro II, Centro, São Paulo. Tel. (11) 3315-0051. Estacionamento pago. Acessibilidade no local. www.cataventocultural.org.br.

Casa das Rosas

Museu dedicado à poesia e à literatura, possui banheiro com trocador para bebês, cadeiras nas varandas, rampa de acesso e elevador. O carrinho de bebê pode ser guardado em uma sala reservada para esse fim.
Funciona de terça a sábado (fechado às segundas), das 10 às 22, domingos e feriados, das 10 às 18 horas. Ingresso: gratuito. Av. Paulista, 37, Bela Vista, São Paulo. Estação Brigadeiro do Metrô (850m), tels. (11) 3285-6986 e (11) 3288-9447. Estacionamento pago. Acessibilidade no local. www.casadasrosas.org.br.

Pinacoteca de São Paulo

Possui o projeto PinaFamília, realizado sempre no segundo domingo do mês. O objetivo é estimular a visita de famílias ao museu e a apreciação artística com atividades e visitas guiadas. A Pinacoteca conta com bancos distribuídos por todo o museu, trocadores para bebês nos banheiros masculinos e femininos, acesso para carrinho de bebê e elevadores. Funciona de quarta a segunda (fechado às terças), das 10 às 17h30 (com permanência até 18 horas). Ingressos: R$ 6 (inteira) e R$ 3 (meia). Aos sábados a entrada é gratuita. Crianças até 9 anos não pagam. Praça da Luz, 2, Luz, São Paulo, tel. (11) 3324-1000. Estacionamento gratuito no local. Acessibilidade no local. www.pinacoteca.org.br.

Museu da Casa Brasileira

Com bancos espalhados por todo jardim, onde é possível sentar para descansar e também amamentar, o Museu da Casa Brasileira oferece acesso para carrinho de bebê e uma programação de oficinas educativas voltadas para crianças e família, como o Encontros no Quintal, que acontece quinzenalmente no jardim do MCB para troca de ideias, experiências e realizações de atividades; a oficina de Casinha, que também acontece quinzenalmente, às quartas-feiras, onde os participantes são convidados a construir modelos de casa com materiais não estruturados, a partir de suas lembranças e memórias. O espaço também possui trocadores para bebês nos banheiros masculinos e femininos.
Funciona de terça a domingo (fechado às segundas), das 10 às 18 horas. Ingresso: R$ 7; gratuito aos sábados, domingos e feriados. Crianças até 10 anos não pagam. Av. Brigadeiro Faria Lima, 2.705, Jardim Paulistano, São Paulo. CPTM Cidade Jardim (850m), tel. (11) 3032-3727. Estacionamento pago no local. Acessibilidade no local. www.mcb.org.br.

Museu da Imagem e do Som (MIS-SP)

No último domingo do mês, realiza a Maratona Infantil, um dia de atividades voltadas para crianças e suas famílias. Os visitantes podem aproveitar oficinas, espetáculos, contação de histórias e shows. O espaço possui trocadores para bebês nos banheiros masculinos e femininos, elevador para acesso com carrinho de bebê e banco para descanso.
Funciona de terça a sexta (fechado às segundas), das 12 às 21 horas; sábados, domingos e feriados, das 11 às 20 horas. Ingressos: gratuito às terças-feiras; consulte valores nos outros dias, que variam de acordo com a exposição. Crianças até 5 anos não pagam. Av. Europa, 158, Jardim Europa, São Paulo, tel. (11) 2117-4777. Estacionamento pago no local. Acessibilidade no local. www.mis-sp.org.br.

Museu Afro Brasil

Com trocadores de fralda nos banheiros femininos e masculinos, o museu oferece, no último sábado do mês, a contação de histórias Aos Pés do Baobá, para crianças acompanhadas de seus pais conhecerem narrativas africanas ou afro-brasileiras, seguidas de bate-papo com os educadores do museu.
Funciona de terça a domingo (fechado às segundas), das 10 às 17 horas (bilheteria fecha às 18 horas). Ingressos: R$ 6 (inteira) e R$ 3 (meia). Aos sábados a entrada é gratuita. Crianças até 10 anos não pagam. Av. Pedro Álvares Cabral, s/nº, Pavilhão Manoel da Nóbrega, Parque do Ibirapuera, portão 10, São Paulo, tel. (11) 3320-8900. Estacionamento pelo portão 3 (Zona Azul). Acessibilidade no local. www.museuafrobrasil.org.br.

Museu do Futebol

Possui acessibilidade em todos os espaços. Com rampas de acesso, elevadores e escadas rolantes, é possível entrar com o carrinho de bebê nas salas do Museu. O espaço também possui trocadores de fraldas nos banheiros femininos e no banheiro unissex, permitindo um passeio mais confortável e divertido com o papai ou com a mamãe.
Funciona de terça a sexta-feira, das 9 às 17 horas (bilheteria até 16 horas); sábados, domingos e feriados das 10 às 18 horas (bilheteria até 17 horas). Ingresso: R$ 9 (inteira) e R$ 4,50 (meia), grátis aos sábados. Praça Charles Miller, s/nº, Pacaembu, São Paulo, tel. (11) 3664-3848. Estacionamento na Praça Charles Miller (Zona Azul). www.museudofutebol.org.br.

Museu de Ciências Naturais

Oficinas lúdicas de restaurador mirim para grupos de até dez integrantes, com ações educativas, jogos e atividades artísticas. O intuito é despertar no público a atenção, o potencial criativo e a conscientização da preservação de acervos.
Até o final de fevereiro. Gratuito.
Terças-feiras a domingos: 9h30 às 16h45.
Avenida das Nações Via L-4 Sul. Brasília – DF.
www.zoo.df.gov.br/

Museu de Artes Visuais Ruth Schneider

Exposições e oficinas: “Narrativas imagéticas das ocupações urbanas”, por Erviton Quartieri Jr; “A obra de Ruth Schneider e Artistas Passo-Fundenses”.
Até o final de fevereiro. Gratuito.
Terças a sextas-feiras: 8h30 às 17h30.
Sábados e domingos: 13h30 às 17h30.
Av. Brasil Oeste, 758. Passo Fundo – RS.
www.upf.br/mavrs

Museu Histórico Regional

Exposições e oficinas: “Cem anos do samba e outros carnavais” e “Centenário do Clube Visconde do Rio Branco”.
Até o final de fevereiro. Gratuito.
Terças a sextas-feiras: 8h30 às 17h30.
Sábados e domingos: 13h30 às 17h30.
Av. Brasil Oeste, 758. Passo Fundo – RS.
www.upf.br/mavrs

Museu Municipal de Arte – MuMa

Exposição “O Circo, O Brinquedo e A Brincadeira”, com participação da artista Cyntia Werner e apresentação do boletim digital da Casa Romário Martins “Senhoras e Senhores: o circo da cidade faz 40 anos!”, sobre a trajetória do circo da cidade.
Até 19 de março. Gratuito.
Terças-feiras a domingos: 10 às 19 horas.
Sala Célia Neves Lazzarotto – Portão Cultural
Av. República Argentina, 3430. Curitiba – PR.
www.fundacaoculturaldecuritiba.com.br

Museu Eugênio Teixeira Leal / Memorial do Banco Econômico

O programa “Museu Escola” promove palestra e visita mediada nas salas de exposições do museu, com o objetivo de realizar programações extracurriculares, possibilitando que o estudante amplie seus conhecimentos técnicos e práticos sobre a história do dinheiro e da Bahia.
Projeto “Inclusão sócio-digital” voltado aos serviços da internet que disponibilizam à população o acesso gratuito aos recursos da tecnologia digital.
Até dezembro. Gratuito.
Terças a sextas-feiras: 9 às 18 horas.
Rua do Açouguinho, 01. Pelourinho. Salvador – BA.
www.facebook.com/museueugeniotleal

Inhotim

Estação Educativa para Visitantes: plataforma de acolhimento e apoio ao visitante de todas as faixas etárias. Com objetos de mediação, como miniexposição de materiais educativos, uma coleção biológica (caixa didática de borboletas) e um jogo da memória com o tema “Arte contemporânea em Inhotim”.
Até o final de fevereiro. Gratuito.
Terças a sextas-feiras: 10 às 16 horas.
Sábados, Domingos e Feriados: 10 às 17 horas.
Rua B, 20. Centro. Brumadinho – MG.
www.inhotim.org.br

Museu da Casa Brasileira

Exposição “Pioneiros do Design Brasileiro”, com imagens de carros criados de forma quase artesanal para homenagear o designer brasileiro Anísio Campos, um dos grandes protagonistas da história do automóvel no Brasil.
Até março. R$7 inteira e R$3,50 meia.
É possível realizar piquenique no jardim do museu. O encontro deve ser informal, não podendo ser caracterizado como evento privado.
Todos os dias no horário de funcionamento do museu. R$7 inteira e R$3,50 meia.
Terças-feiras a domingos: das 10 às 18 horas.
Av. Brigadeiro Faria Lima, 2705. Pinheiros. São Paulo – SP.
www.mcb.org.br

Museu Histórico Folclórico e Pedagógico Monteiro Lobato

Teatro “As Emili´Annas”, Brincadeiras no Quintal, Oficinas Pedagógicas, Passeio do Visconde, aulas de Tai Chi Chuan e visitas guiadas.
Até o final de janeiro. Gratuito.
Terças-feiras a domingos: das 9 às 17 horas.
Av. Monteiro Lobato, s/nº – Chácara do Visconde. Taubaté – SP.
www.museumonteirolobato.com.br

Museu Casa de Portinari

Brincadeiras de interação que remetem à infância de Portinari e permearam sua obra plástica e poética, como pular corda, amarelinha, pintura, bola de meia, bugalha, peteca e pião.
Até o final de janeiro. Gratuito.
Terças-feiras a domingos: das 10 às 16 horas.
Praça Candido Portinari, nº 298. Brodowski – SP.
www.museucasadeportinari.org.br

Museu Histórico e Pedagógico Índia Vanuíre

Oficina de adorno e artesanato indígena; confecção de brincos de pompom, presilhas, pipas, origami e kirigami e bolsas com dobradura de jornal; desenho às cegas; jogo da memória; brincadeiras indígenas; arte em sucata e Passeio Cultural.
Até o final de janeiro. Gratuito.
Terças-feiras a domingos: das 9 às 11 horas.
Rua Coroados, nº 521, Centro. Tupã – SP.
www.museuindiavanuire.org.br

Museu Felícia Leirner e Auditório Claudio Santoro

Contação de lendas da Mantiqueira; jogos cooperativos; atividades e interações com o meio ambiente; oficinas de confecção de instrumentos musicais, danças, esculturas e de tinta da terra; atividades circenses e práticas que irão explorar o lado criativo, sensível e visual de cada participante.
Até o final de janeiro. Gratuito.
Terças-feiras a domingos: das 9 às 16 horas.
Auditório Claudio Santoro
Av. Dr. Luis Arrobas Martins, nº 1.880. Campos do Jordão – SP.
www.museufelicialeirner.org.br/

Menos branquice no Netflix

No incrível “Swing Time”, primeira leitura de 2017 e com certeza pertencente à lista de melhores desse ano, a personagem principal é filha de mãe negra e pai branco. Tal qual a autora, Zadie Smith, a questão de não ser branca e nem negra marca a narrativa. Em determinado momento, ela, criança, mostra pra uma colega de classe e de dança um vídeo de uma apresentação em que todos os dançarinos são negros. A protagonista está deslumbrada. Pela dança, pela identificação. A amiga, branca, responde de forma incisiva: ela não consegue perceber como é ofensivo mostrar um vídeo assim? Em que todo mundo é negro? Na própria casa dela? Que era um absurdo, uma falta de respeito, uma falta de consideração?

Master of None, série original do Netflix, chegou dando um chega pra lá nessa coisa de só gente branquinha e perfeitinha sendo estrela. Mas em 2016, tivemos três séries espetaculares que deram uma resposta incrível pro white washing de Hollywood: não só os brancos são minorias, mas o racismo é denunciado, e as séries são muito, muito boas. Atuação, roteiro, história: dando uma lição pra outras séries amadas como Sense 8Stranger Things, Gilmore Girls (que eu amo, mas que revival bem mais ou menos, né gente?).

Junto com Mr. Robot, The Americans, Black Mirror, Game of Thrones e House of Cards, elas completam as minhas séries favoritas do ano (e percebam como mesmo assim a minha lista é dominada por brancos…). Vamos lá pro top 3:

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3. CHEWING GUM

Tracey é uma menina de uma família muito religiosa que, como toda adolescente, está com os hormônios explodindo. Perder a virgindade é o drama central no começo da história, que se desenvolve pra falar de dramas muito mais profundos. Com um humor afiado, uma narrativa maravilhosa e uma atuação melhor ainda, a série trouxe alguns dos melhores diálogos que eu já assisti. É de chorar de rir: um retrato fiel e irônico do que é ser adolescente e dos conflitos entre religião e desejo.

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2. THE GET DOWN

Eu tinha certeza que essa seria a melhor série do ano pra mim, de tão boa que é. O fio condutor da história – a música – já é uma das minhas paixões. O cenário, a Nova York explosiva dos anos 70, com um Bronx em chamas, o apagão de 77 (que, além de aparecer na série, é tema de um lançamento literário que se tornou best seller mundial, Cidade em Chamas), a crise política, a especulação imobiliária. Nesse ambiente caótico, os personagens fazem poesia, trazem o conflito entre arte e responsabilidade, e sentem como é ser jovem e apaixonado. Destaque pro Jaden Smith, meu personagem favorito. De novo: atuações incríveis, roteiro invejável e fotografia sensacional. Que série.

donald

1. ATLANTA

Donald Glover é tudo o que eu queria ser: músico de altíssima qualidade (o que é esse disco novo do Childish Gambino?), escritor muitíssimo bom, ótimo ator, lindo de morrer. Ele é também o criador, protagonista, roteirista e às vezes diretor de Atlanta, facilmente a melhor série do ano. Earn, o personagem principal, é um jovem adulto que precisa lidar com a responsabilidade de ter uma filha ao mesmo tempo que quer seguir o sonho de ser produtor musical, sua verdadeira vocação. A relação bem humorada com os amigos, o relacionamento complexo e muito bem desenvolvido com a esposa e a paixão pela música desenvolvem o drama existencial que cerca cada diálogo perfeito. A série é engraçada, irônica, super atual e afiadíssima, e ainda faz um uso muito criativo do Snapchat. Com episódios para mostrar a perspectiva da esposa, com conflitos carregados de subtexto e sequências maravilhosas, a série é o que toda série almeja ser: impecável. O destaque vai para o episódio 7, B.A.N., uma sátira de talkshows norte-americanos em que se discute corajosamente como o preconceito é um se você é branco e rico (como Bruce/Catilyn Jenner) e outro quando você é preto e pobre. Um muito bem dado tapa na cara de todo branco que assistir (na minha inclusive). Maravilhosa.