Palavras de uma suicida: por que séries como 13 Reasons Why é uma das razões de eu estar viva
Palavras de uma suicida: por que séries como 13 Reasons Why é uma das razões de eu estar viva

Palavras de uma suicida: por que séries como 13 Reasons Why é uma das razões de eu estar viva

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Depois de Love, lá vai eu defender outra série incrível sendo criticada injustamente por avaliações (na minha opinião) superficiais. Contém spoilers.

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1) A lógica da denúncia versus normalização

Antes de se entrar especificamente na série, eu gostaria de esclarecer um ponto muito importante. Se fala muito sobre censura e sobre a importância de se mostrar a realidade na arte (a vida imita a arte ou a arte imita a vida, ambos são reais). Pessoalmente, considero essencial que a gente jogue fora nossa lente cor de rosa quando busca entretenimento ou arte em filmes, livros, séries etc e que a gente possa encarar a vida como ela realmente é, distante dos produtos plastificados especialmente para criar uma sociedade alienada e incapaz de perceber a própria realidade sócio-cultural.

Por isso, uso uma perspectiva de análise que funciona pra mim e surgiu da grande filósofa eu mesma (contém ironia). E consiste em refletir se o resultado da obra é denunciar ou normalizar o que é retratado. Por exemplo: é consenso que Two And a Half Men é uma série machista, porque consistentemente objetifica mulheres e, mesmo sem falar de estupro, contribui para a cultura de estupro. Do outro lado, temos, por exemplo, Jessica Jones, que retrata abuso emocional de forma muito clara – mas como denúncia: ou seja, as relações de poder que estabelecem o abuso são mostradas sem serem normalizadas. A gente entende que são situações normais, mas não deveriam ser. Podemos falar também de séries como The Get Down, que mostram pessoas negras como pobres, traficantes, usuárias de drogas. Poderia facilmente ser um estereótipo racista. Mas, nesse caso, é uma denúncia da realidade.

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2) A ideia de suicídio como vingança

Hannah Baker é uma adolescente que nunca teve nenhum tratamento psiquiátrico. Eu já culpei meus pais pela minha depressão. Já culpei meu emprego, já culpei meu corpo, já culpei um cara que não se apaixonou por mim. Ainda não conheci uma pessoa deprimida que desde o começo tenha tido a lucidez de compreender que a depressão não era culpa de outra pessoa.

Pessoas deprimidas são egoístas. Nós subimos em um trono, acreditamos que o mundo inteiro está contra nós, que somos a única e a principal vítima de todas as injustiças que existem. Não é fiasco: realmente nos sentimos assim. E, sabendo disso, é compreensível que Hannah tenha buscado identificar todas as pessoas que fizeram que ela sentisse essa dor insuportável.

Mas, mais que isso, julgar as fitas que ela faz como vingança é superficial. As fitas são a análise que ela nunca teve a chance de fazer com um profissional, e tenta, sozinha, desesperada, alcançar. É, mais que qualquer coisa, uma busca por auto-conhecimento. Inclusive, antes da última fita, ela conta ter se sentido muito melhor com aquele processo. Ora, ora. Não é que faz sentido?

Ao enviar as fitas, em vez de querer colocar todo mundo num tribunal para serem julgados – com exceção de Bryce, que deve ser julgado pelos estupros criminosos e imperdoáveis – ela convida todos a refletirem sobre o próprio papel em uma tragédia, sobre o caos que uma atitude pequena pode gerar na vida do outro. As fitas são a sinceridade que dão aos ouvintes a oportunidade de reconhecerem os próprios erros e melhorarem para nunca mais acontecer de novo.

É um convite para empatia.

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3) A importância de mostrar tudo

(É uma desgraça precisar fazer isso, mas pra garantir que ninguém venha com essas de que eu só sou fiasquenta, minha depressão é grave, desde a infância, tomo remédios há anos e já fui internada em clínicas psiquiátricas. Ok, sou deprimida real oficial. Vamos em frente?)

Talvez eu tenho sido a única depressiva do mundo a ser assim – embora eu duvide – mas, em crises depressivas, o que mais me ajudava era ler e pesquisar sobre suicídios. Coisas felizes, filmes bobos, tudo isso parecia longe demais da minha vida, uma realidade alternativa, um monte de baboseira inverossímil que parecia zombar da minha realidade. Esse tipo de entretenimento era, naquela época, lixo pra mim. Eu ia atrás de Requiem Por Um Sonho, Geração Prozac, As Horas, Garota, Interrompida, My Mad Fat Diary, Skins, e tantos outros filmes e séries pesadíssimos que, esses sim, me faziam pensar: eu não estou sozinha. Tem gente como eu. (Cheguei até a ver um filme terrível chamado Wristcutters – “cortadores de pulsos”, em tradução livre – esperando algo pesado pra espelhar minha alma mas encontrando um filme bem bostinha e superficial. Acontece.)

Na minha biblioteca, As Virgens Suicidas, As Vantagens de Ser Invisível, e muita Sylvia Plath. Nos fones de ouvido, não podia ser outra coisa: Leonard Cohen, que fez a revista Rolling Stone dizer, na sua primeira resenha sobre o artista, que navalhas deveriam ser entregues junto com o disco para que os ouvintes pudessem se matar assim que acabassem de ouvir.

Eu passava madrugadas pesquisando histórias de pessoas reais que se suicidaram e descobrindo fóruns de suicidas e deprimidos que trocavam experiências. Era só isso que me ajudava – porque era só isso que me ecoava.

Esperar que filmes “felizes” curem deprimidos é ingenuidade. Talvez funcione para alguns – não vou ser arrogante a ponto de achar que minha realidade é a única existente – mas sei que pra muita gente, como eu e muitos dos meus pares, isso é a maior balela já falada. Psicologia furada, falcatrua, charlatã. Se isso adiantasse, um DVD de comédia pastelão custa o quê, uns 14,90 na Americanas? Muito mais barato e rápido que Lexapro. Todos os meus problemas estariam resolvidos.

Como profissional ou como doente, buscar viver numa bolha é contraproducente, é alimentar a doença. A lógica de “gatilho de trauma” foi exacerbada a um ponto que se colocam pessoas doentes em uma bolha como aquelas que têm câncer: uma bolha longe e distante da realidade, onde o doente se isola cada vez mais e fica cada vez mais longe da vida que ele deveria lutar pra realmente viver. Eu sei, eu fiz isso também.

Já vi alegarem por aí que a cena do suicídio em 13 Reasons Why pode ser um tutorial. De novo: é preciso ser muito ingênuo para acreditar que esse é o tipo de coisa que nos ensina a nos matar. Existem fóruns, explicações detalhadas, dicas, tabelas que comparam a relação entre dor e eficiência, e qualquer pessoa com WiFi consegue um dossiê completo com as melhores receitas de suicídio. Esse mundo em que essa série do Netflix é a melhor fonte de dicas sobre como se matar é utópico e muito longe do nosso.

Mas tudo isso fica escondido, porque, paradoxalmente, nós vivemos em uma época que nega a morte e, ainda mais, o suicídio. Notícias de suicídio são importantes, e deveriam ser publicadas. Precisamos do choque, do horror, do desconforto (pra ser bastante eufemista) de ver que as pessoas não param de se suicidar. Colocar a câmera ali, mostrando ela rasgar os pulsos, tira toda poesia da cena. Não tem trilha sonora poética, filtro fotográfico e o confortável fora de quadro para transformar o ato em algo plástico e distante. O diretor nos obriga a encarar Hannah Baker, que aprendemos a amar durante os 12 episódios anteriores, rasgando os pulsos. Puta merda. É essa a reação que devemos ter.

A série ainda faz questão de mostrar o efeito devastador que as consequências do suicídio tem nas pessoas em volta da pessoa que morreu. Não tem nenhum espaço pra romantização.

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Houve, em uma época pré a experiência conectada que vivemos agora, o efeito que dizia que o suicídio de uma pessoa famosa gerava suicídios em massa. Em 1994, pós-Kurt Cobain, isso já começou a ser questionado: foi mostrado que, após a morte dele, os suicídios não aumentaram. Pelo contrário: a busca por ajuda foi massiva. Tudo isso está Here We Are Now, o livro que analisa o legado do Nirvana e foi escrito por Charles R. Cross, biógrafo do rockstar.

O fim de 13 Reasons Why não é feliz – nem de longe – e talvez isso seja o mais desconcertante. Estamos acostumados a narrativas de depressão que sempre acabam em recuperação. Um exemplo disso é o livro (que também virou filme) Uma História Meio Que Engraçada – mas a realidade destoa da ficção quando descobrimos que o autor se suicidou anos depois de publicar essa história. A Redoma de Vidro, da minha escritora favorita, Sylvia Plath, que está tatuada na minha pele, que é inspiração do título do meu canal literário no YouTube, também retrata uma recuperação. O livro foi publicado apenas um mês antes da autora se suicidar.

(E me surpreende o escândalo quando vimos por anos séries como Gossip Girl em que: o Chuck estupra e bate na Blair e troca ela por um hotel, e continua sendo considerado um romance épico; o Dan humilha a Serena publicamente e eles acabam casando; tem relacionamentos entre adultos e adolescentes… enfim, dá pra ficar horas explicando os problemas e relacionamentos abusivos que a série teve sem gerar uma reclamação.)

Se não existissem séries e filmes e livros como esse, eu provavelmente não estaria viva. Parece absurdo, mas eu duvido que eu seja a única. A identificação, o senso de comunidade, a ideia que isso existe e eu não sou a única, louca, perdida no universo, foi uma das principais coisas – e continua sendo – a me fazer continuar. Além disso, quem sofre de depressão dificilmente tem vontade de compartilhar os sofrimentos. Pelo contrário: costumamos nos fechar e nos isolar. Se a conversa e o fim do silêncio é uma das principais formas de ajudar um suicida, como isso é possível se nós sempre escolhemos nos calar? Através da arte: de filmes, livros e séries como 13 Reasons Why, que funcionam como a primeira etapa dessa conversa.

A verdade é que finais felizes muitas vezes não são reais. E é preciso falar sobre isso. E, se continua sendo gatilho de trauma, é porque a conversa é mais necessária ainda.

Leia mais: Por que não falamos de suicídio?Uma conversa sobre o suicídio, um convite à vida e Como ’13 Reasons Why’ nos alerta das metáforas do desespero adolescente, todos de Amanda Mont’Alvão.

*** CVV: contatos online // telefone: 141 ***

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