“1989” – como a Taylor Swift me conquistou (e o mundo inteiro)

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Desde o meu Ensino Médio até uns dois anos atrás, eu vivi numa bolha bem longe do mundo pop, e descobria de forma acidental o que tava rolando. Foi numa dessas que o videoclipe de You Belong With Me apareceu e me fez revirar os olhos. Era fim dos anos 2000, eu acho, e eu não aguentava esse pop insípido de boa menina, carregado de falsa timidez e loirinhas perfeitinhas. E, bom, depois tinha a voz. Como alguém podia gostar da voz estridente da Taylor Swift? Mas isso foi há meia década atrás e de lá pra cá eu descobri uma série de relíquias que estava perdendo, como Man Down, da Rihanna, quase um hino feminista, e a delicada e linda Skyscraper, da Demi Lovato.

Mas foi só depois de mergulhar nesse universo que encontrei a música Red, a primeira que me fez prestar atenção em Taylor. Uma mudança estava acontecendo, da boazinha do country pop pra alguém que cantava feliz que We Are Never Ever Ever Getting Back Together. O senso de humor na canção quase conseguiu superar o timbre que me irritava e a melodia chiclete, e era o suficiente pra ficar instigada. Taylor não parecia desenrolar na direção apelativa que Britney foi quando quis quebrar os vínculos de estrela da Disney, ou na língua de fora e provocações da Miley Cyrus.

Em algum momento aí, descobri que ela mandava mensagens pros fãs no Instagram e me apaixonei. Que coisa mais… bom, doce. (Acho que o título do blog dá um pouco de ideia do quanto eu valorizo essa qualidade.)

E daí veio o videoclipe de 22, muita tirada de onda da nossa geração sob filtros de Instagram, e eu fiquei fascinada. Que coisa mais audaciosa começar um single com “It feels like a perfect night to dress up like hipsters” (e completar com “and make fun of our exes”, claro, porque senão não seria ela). Ela ainda segue falando de lugares lotados de gente cool e como estamos todos muito felizes livres confusos solitários tristes e mágicos ao mesmo tempo. Tamanha obra-prima de auto-zuação só poderia ser superada com Shake It Off, primeiro single de 1989.

Taylor se coloca no meio de dançarinos profissionais, demonstrando a própria falta de habilidade, e canta sobre como as pessoas falam que ela não tem cérebro, sai com caras demais e é incapaz de prendê-los. E ela ri, no refrão, falando que corações vão quebrar, gente falsa vai fingir, e que “haters gonna hate”, mas ela vai tacar o foda-se e se divertir, porque a vida é curta demais (e ela é famosa mundialmente, cheia de fãs, ganha dinheiro fazendo música, que é o que ela ama, enfim… o que são algumas críticas mesquinhas?).

Eis que 1989 surge incrível, e todo mundo parece concordar: o álbum teve 1.287 milhão de cópias vendidas na primeira semana, segundo o fã-clube Taylor Swift Brasil, sendo o maior número desde 2002. Isso também significa que Taylor quase bateu o recorde de vendas de uma artista feminina, que pertence à Britney Spears por Oops… I Did It Again, de 2000, quando a indústria fonográfica vivia tempos muito mais confortáveis que hoje. Taylor conseguir esse número no cenário atual, infestado por pirataria, e onde os serviços de streaming como Deezer e Spotify são o maior produto musical, é realmente impressionante.

Mas o disco é bom mesmo, um pouco Lorde, bem mais comercial e acessível, pronto pra ser tocado nas pistas de dança, um pouco Sky Ferreira, só menos datado nos anos 80 – apesar do título, claro – e muito Taylor. A identidade dela tá lá, em cada indireta pra ex-namorado, em cada verso tiração de sarro e no amadurecimento claro e autêntico que ela construiu nesses cinco álbuns. Esse amadurecimento se percebe na vida pessoal também: a artista fala como se arrepende de ter falado mal de outras cantoras e quer aprender mais sobre feminismo, e que todo mundo deveria ser feminista. O bom humor também é parte desse crescimento: Taylor não tinha chance de fugir do centro das fofocas, então ela transformou as fofocas em música. Ela dá indiretas, dedica publicamente músicas a ex-namorados, absorve o que falam dela e de uma forma inteligente, delicada e muito cheia de classe destroi quem usa esse tipo de meio para tentar colocá-la pra baixo. Taylor abre mão de uma vida privada, e o convite oi, tudo bem, pode entrar é sensacional pra desarmar todo mundo.

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Voltando às músicas, a versão deluxe do disco traz ainda faixas em que a artista mostra três formas diferentes que ela usa para escrever canções. Uma delas fala de I Know Places, que se constroi na versão oficial sobre piano, sintetizadores e bateria. A forma como Taylor sobrepõe a voz para funcionar como instrumento melódico, a entonação que ela dá para a sílaba final dos versos das estrofes, e momentos como “they are the hunters, we are the foxes… and we run” mostram porque essa é uma das grandes canções do disco. A letra é aberta a significados, a melodia é puro coração acelerado e o ritmo envolve seu corpo antes mesmo que o cérebro perceba.

Mas o posto de melhor música do disco, na minha opinião, completando as minhas três favoritas, fica com Blank Space. Essa música é talvez a personificação do convite que ela faz a todo mundo, falando que tem um espaço em branco pro próximo cara que aparecer em sua vida, que não importa se vai durar pra sempre ou ser fogo de palha, e que o carinha pode contar depois se valeu a pena toda essa dor. A letra se mostra afiada em versos como “rumors fly and I know you heard about me”, “wait, the worst is yet to come”, e, claro, “‘Oh my God, who is she?’, I get drunk on jealousy”. A melodia minimalista também é conduzida por sintetizadores, com batidas completamente deliciosas. E a melhor parte do disco inteiro?

“Got a long list of ex-lovers, they’ll tell you I’m insane”

O timbre de Taylor no verso é suave, quase sussurrando, flertando com Lana Del Rey, e é melodicamente também irresistível. E, como eu já li por aí, dá quase pra sentir Taylor revirando os olhos nessa frase, que, de um jeito ou de outro, referencia todos os caras que diminuem as mulheres do passado chamando de loucas.

Ela poderia tentar manter a dignidade de forma séria, com os looks de glamour Hollywoodiano e muita pose. Mas nah, isso é tudo chato. O que ela quer de verdade é se divertir. E você deveria também.

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2 Comments

  • […] Fire (ouça na Deezer) (observação importante: ela não é irmã da Ashley e Mary-Kate). 6. Taylor Swift – 1989: meu coração para Blank Space, em que ela personifica a personagem que a mídia faz dela, e I […]

  • 5 years ago

    Não conseguia definir se eu gostava ou não de Taylor Swift, com tendências a detestá-la. Mas depois de 1989, tudo isso mudou. Gostei de cada música do álbum que ouvi, não foram todas ainda, e também tenho como favorita Blank Space. Parece que as palavras dela na canção saíram da minha mente, me identifiquei pra caramba. Gosto dessa fase “sou o que eu quiser dela”, acho que antes ela tentava agradar demais.

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