A banalização do empoderamento e o feminismo centrado no “eu”

A banalização do empoderamento e o feminismo centrado no “eu”

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AVISO IMPORTANTE: esse texto teve algumas repercussões que me fizeram pensar que alguns pontos não estavam explicados de forma objetiva, então vou explicar aqui pra que não haja mais desentendimentos. 1) Durante a pesquisa do meu texto, eu li muita coisa explicando como o feminismo negro se utiliza de empoderamento coletivo e formas de resistência na sua luta. Esse pra mim seria o significado original de empoderamento. 2) Meu texto se destina à distorção falaciosa do termo, ou seja, a feministas brancas que se apropriam da ideia de empoderamento e transformam uma parte importante da luta negra em “me sinto empoderada porque usei salto alto”. 3) Como branca, jamais me consideraria apta em criticar de forma alguma movimentos que trabalham vivências que eu não tive. Por isso, reafirmo: esse texto é uma crítica a feministas brancas, de classe média. Repetindo (e resumindo o texto): eu não tenho a vivência de mulheres que não são brancas. E as feministas brancas que acham que empoderamento é usar salto alto também não têm essa vivência e estão desrespeitando a luta dessas pessoas. De novo: com esse texto quero apontar erros do feminismo branco e como o feminismo branco desrespeita a luta negra na banalização falaciosa do termo empoderamento. Também acrescentei “empoderamento branco” no texto pra reafirmar que é a esse empoderamento que me direciono. Peço desculpas se meu texto não deixou isso claro e por um momento transpareceu a ideia de criticar uma luta da qual não faço parte e só posso admirar.

 

Empoderamento. Essa palavra nova no vocabulário brasileiro vem do inglês empowerment, que significa, a grosso modo, “dar poder”. Muito se fala nos ambientes feministas sobre o empoderamento feminino, o que, nos anos atuais, traz um significado bastante pessoal: cada mulher sabe o que faz com que ela se sinta empoderada, ou, em outras palavras, poderosa.

A ideia de empoderamento pessoal traz arraigada algumas concepções necessárias para que o conceito possa se estabelecer dessa forma: a primeira delas é que se trata de um fenômeno individual, em que uma mulher sozinha pode se sentir empoderada. A segunda é que, por ser individual, é diferente para cada mulher – o que me faz sentir empoderada não necessariamente faria você sentir o mesmo e, tal qual orientação sexual, o agente capaz desse efeito não deve ser considerado errado ou problemático. E, finalmente, é um processo efêmero, já que é algo que você sente, e não se torna.

Por isso, ao longo da minha militância feminista, ouvi diversos relatos de empoderamento: saltos altos, roupas coladas e pornografia são alguns dos exemplos que fazem com que muitas mulheres se sintam empoderadas. Esse tipo de liberação individual muitas vezes advém da recompensa fornecida pelo patriarcado ao cumprir as regras estabelecidas por ele, o que explicaria porque tantas mulheres se sentem detentoras de poder quando se sentem sexy. A ideia de liberação sexual é um dos cernes da ilusão de poder, e, como já falei aqui, não passa de uma estratégia para criar novas formas de dominação. A noção de empoderamento se intersecciona com a ilusão da existência de algum controle sobre a própria objetificação.

A ideia de individualidade é própria de uma ideologia liberal. A escritora Lierre Keith explica de forma bastante simples as diferenças entre o liberalismo e o radicalismo na constituição ideológica de qualquer tipo de luta: “liberais acreditam que a sociedade é feita de indivíduos e essa é a unidade social básica. Para a visão radical, a sociedade é feita de grupos ou classes de pessoas. Foi Karl Marx quem primeiro percebeu isso, são grupos de pessoas e alguns grupos exercem poder sobre outros”. Outra grande diferença que Keith aponta diz respeito à realidade social: enquanto liberais são idealistas e acreditam que a mudança acontece através de educação, radicais vêem a importância de educação mas concebem que não é suficiente, uma vez que, como materialistas, percebem que a realidade social não é um estado mental. Essas diferenciações já são o suficiente para escancarar o problema inicial do empoderamento do novo feminismo: por ser individual e pessoal, não é capaz de alterar as estruturas da sociedade. “Se você tira o poder da equação, a opressão parece invisível ou voluntária. Se você não enxerga que essas pessoas são formadas por essas condições sociais, como você vai explicar a subordinação?”, questiona Keith.

A ideia de individualidade, como promovida por pessoas como Margaret Thatcher, que disse “não existe o que chamamos de sociedade: o que existem são homens e mulheres individualmente”, destroi a noção de coletivo, de resistência e de subversão. Uma revolução individual é inofensiva para a classe dominante. Muito se fala por aí sobre um feminismo individual e sobre empoderamento pessoal sem perceber que, dessa forma, qualquer tipo de resistência é impossível e o resultado não oferece ameaça ao patriarcado.

Desse ponto de vista, o empoderamento é uma sensação de busca de satisfação pessoal, sem qualquer efeito no coletivo. É uma luta, um feminismo que se conclui em si mesmo, na própria sensação de libertação. Isso também justifica que ferramentas opressoras sejam usadas de forma impune para a criação de uma sensação de poder. Jehnny Beth, vocalista da banda de pós-punk Savages, disse em entrevista que a pornografia exerceu um papel importante na própria libertação sexual. Reprimida em sua criação, foi só com o acesso à pornografia que começou a se masturbar e explorar a própria sexualidade, por isso ela considera que a pornografia seja feminista e libertadora. Esse foco na libertação individual é um dos principais problemas desse novo feminismo, porque valida as opressões que outras mulheres sofrem com a desculpa de que aquilo é capaz de me libertar. A pornografia como indústria é inegavelmente exploradora, chegando aos horrores descritos nessa palestra em que crianças de três, quatro anos são estupradas continuamente em nome da pornografia e da prostituição. Como justificar o empoderamento de Beth através da pornografia dentro desse cenário?

Estabelecido que a individualidade do conceito já é problemática, precisamos analisar seu aspecto ilusório. Por isso, devemos refletir sobre o conceito de poder.

Se analisarmos a sociedade partindo da consciência da existência de classes, não podemos negar a contribuição de Marx, quem primeiramente percebeu essas estruturas. Para ele, os detentores dos meios de produção são também os produtores das ideias que regulam a sociedade, ou seja, da ideologia. Para Hannah Arendt, o fenômeno fundamental desse poder não consiste no investimento na vontade própria para os próprios fins, mas na formação de uma vontade comum.

Nesse sentido, a ideia de que é possível se empoderar individualmente se comprova uma falácia: o poder não pode se estabelecer de forma individual, não é algo que alguém possa possuir, e depende de relações para que exista, como explica Foucault. Uma mulher usando salto alto e sentindo a ilusão de poder não tem poder real perto de um homem que pode subjugá-la como entender – desde através da violência direta como através dos privilégios até mesmo financeiros que ele detém por pertencer à classe dominante.

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Foi nos anos 90, nos Estados Unidos, que surgiu o movimento radical de resistência chamado RIOT GRRRL, através da percepção que mesmo nos ambientes declaradamente de esquerda como os círculos punk, em que as feministas que originaram o movimento pertenciam, o machismo passava impune. Por isso, o movimento foi formado como forma de efetivamente dar poder às mulheres: se discutia estratégias e voluntariados para a reabilitação de mulheres que sofreram violência doméstica e sexual e se criava círculos culturais feministas em que mulheres artistas tivessem espaço para expor e vender seu trabalho, conquistando independência financeira e reconhecimento em ambientes dominados por homens. Buscando um exemplo bastante prático, as mulheres costumavam ser sistematicamente subordinadas em shows pelas rodinhas punk, carregadas de agressividade. Para subverter essa realidade, as meninas do Bikini Kill, banda que estava no vórtex do movimento, definiram que as mulheres teriam direito a dominar a parte da frente do palco, ficando seguras de qualquer tipo de violência e assédio e conquistando um espaço que antes era exclusivo dos homens. Foram elas que inicialmente cunharam o termo GIRL POWER, para nomear suas práticas efetivas.

Na mesma década o jargão foi distorcido e capitalizado com o surgimento das Spice Girls, que vendiam a mesma ideia de GIRL POWER – ou empoderamento – que se mercantiliza atualmente: individual, pessoal e sem dar a mínima para mulheres que precisam de poder real para sair de situações de violência. O movimento feminista e a ideia de poder feminino se transformou numa satisfação pessoal, em vez de significar uma luta sistemática pela libertação da classe de mulheres, especialmente as que sofrem as opressões mais graves (e físicas) dessa dominação. Como a ativista Riot Grrrl Andee Davis disse nos anos finais do movimento, “Nós cansamos de ficar organizando coisas pra essa comunidade que só quer se divertir, ficar amiga de bandas. Elas só querem a parte legal e fácil, ninguém quer a parte difícil.” Tobi Vail, da banda Bikini Kill, completa: “Riot Grrrl se tornou tudo sobre ‘girl’, sobre a identidade e individualidade feminina, e nada sobre ‘riot’, sobre revolução”.

Essa nova vertente do feminismo que busca exclusivamente se sentir bem é egoísta, uma vez que 1) carece de coletividade e de luta por uma classe oprimida, 2) expulsa qualquer tipo de problematização que afeta a ideia pessoal de conforto, e 3) rejeita mudanças na concepção da realidade material. É claro que a luta pode resultar em aumento de auto-estima, por exemplo, mas esse deveria ser o efeito colateral e não o objetivo quando se tem consciência de que mulheres são traficadas, estupradas, violentadas e mortas toda hora em vários lugares do mundo.

Ainda buscando exemplo em movimentos passados, outra razão que resultou no fim do Riot Grrrl também é derivada desses sintomas: as participantes se recusavam a problematizar o que chamavam de “escolha” e seus próprios privilégios, reagindo com birra e “não tenho culpa se nasci branca”/”não tenho culpa se nasci rica” quando questões de raça e classe social eram trazidas pra discussão. Esse tipo de comportamento continua atualmente, porque proteger o próprio empoderamento pessoal é confortável, uma vez que é muito mais fácil e prazeroso defender a própria depilação com alegações que buscam a legitimidade da escolha do que efetivamente proteger mulheres que estão morrendo. O que essa vertente do feminismo faz de mais eficaz é fortalecer e contemplar o próprio patriarcado – se é que podemos chamar isso de feminismo. Feminismo não é (ou não devia ser) auto-identificação, e sim um fazer político.

Minha preocupação na disseminação desse conceito vazio e inofensivo de empoderamento é que se esquece facilmente de que existem mulheres que necessitam urgentemente de poder de verdade, que é sua única forma de emancipação. Quando se fala em emancipação, mais uma vez não estamos falando exclusivamente de depilação, padrão de beleza, liberação sexual ou de outras pautas de classe média que até podem representar importância ideológica, mas de uma necessidade urgente de livrar mulheres, principalmente as de classe baixa, de seus agressores e abusadores. Desse ponto de vista, a ideia de empoderamento per se – dar poder às mulheres, no coletivo – está inicialmente ligada ao capital: as mulheres precisam deter capital para poderem se livrar dos seus parceiros, muito antes de se sentir poderosa porque passou um batom vermelho.

Enquanto se discute empoderamento do ponto de vista liberal, pessoal e individualista, a verdadeira emancipação das mulheres que necessitam urgentemente é esquecida, e a luta feminista é reduzida a pequenas conquistas individuais que, por mais que nos façam sentir bem, não subvertem o patriarcado e não salvam mulheres dos seus ambientes de violência. A gente precisa entender bem por quê – e por quem – estamos lutando. E enquanto lutarmos apenas por nós mesmas, nada vai mudar.

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17 Comments

  • […] Empoderamento. Essa palavra nova no vocabulário brasileiro vem do inglêsempowerment, que significa, a grosso modo, “dar poder”. Muito se fala nos ambientes feministas sobre o empoderamento feminino, o que, nos anos atuais, traz um significado bastante pessoal: cada mulher sabe o que faz com que ela se sinta empoderada, ou, em outras palavras, poderosa. A ideia de empoderamento pessoal traz arraigada algumas concepções necessárias para que o conceito possa se estabelecer dessa forma: a primeira delas é que se trata de um fenômeno individual, em que uma mulher sozinha pode se sentir empoderada. A segunda é que, por ser individual, é diferente para cada mulher – o que me faz sentir empoderada não necessariamente faria você sentir o mesmo e, tal qual orientação sexual, o agente capaz desse efeito não deve ser considerado errado ou problemático. E, finalmente, é um processo efêmero, já que é algo que você sente, e não se torna. LEIA MAIS. […]

  • Estela Rocha
    4 years ago

    Clarissa, começou o texto errado. A definição de empowerment está errada.

    número 2: empowerment é usado em 2 ambientes sociais. Business e Sociológico.

    número 3: Quem definiu que é algo liberal e para poucos resultados?

    Ficaria enumerando minhas dúvidas quanto ao teu texto, mas acho que esta já basta.

    • 4 years ago

      E você acha que em business (que também vem do inglês, e significa negócios) e em sociologia a palavra veio da onde, do latim? Não, veio do inglês, e no dicionário significa isso. Depois, é só ler o que significa ideologia e política liberal pra entender 😉

  • Ana
    4 years ago

    Clarissa,
    Texto perfeito e que aparece em um otimo momento.
    Feminismo nao eh (ou ao menos nao deveria ser) sobre libertaçao individual. Enquanto todas as mulheres nao forem livres, eh impossivel se dizer livre (ou empoderada). Empoderar-se nao eh se sentir bonita pra ganhar biscoito do patriarcado, empoderamento tem a ver com a nao dependencia de homens, e isso passa, obrigatoriamente, por aquisiçao de renda, atingindo mulheres vitimas de violencia, mulheres de periferia, maes. Mas parece que ninguem quer falar delas no feminismo de hoje. Obrigada mais uma vez por ser tao didatica! Parabens!

  • Estela Rocha
    4 years ago

    Clarissa, sou formada em línguas e – inclusive – estudei latim. Eu sei de onde vem a raiz de algumas palavras… não precisas me indicar. Obrigada.

    E eu acho, como criadora de 2 projetos focados em empoderamento de meninas e mulheres, que tu poderia te aprofundar mais nos projetos com este foco para abrir um pouco mais teu campo de visão. Na caminhada para ajudar outrém, precisamos, acima de tudo, de humildade para aprender. No feminismo ainda mais, por ser uma experiência de aprendizado compartilhada e que ainda está amadurecendo.

    By the way, te convido para conhecer o espaço de empoderamento quando quiseres.

    • 4 years ago

      Estela, como o texto deixa claro, o “empoderamento” verdadeiro seria o que foi feito pelo movimento riot grrrl nos anos 90, ou ações de emancipação financeira como as que eram feitas pela SPM no RS – como falei aqui http://www.catarticos.com.br/doce/o-fim-da-secretaria-de-politicas-para-mulheres-no-rio-grande-do-sul-e-o-retrocesso-que-isso-representa/.

      De novo, interpretação de texto é suficiente pra perceber que a crítica se vale da distorção do tema em um uso individual e ilusório (como inclusive fiz questão de diferenciar citando a origem do termo GIRL POWER dentro do movimento feminista e o que o ele significava naquela época). Enfim, fico com a impressão de que você não leu o texto porque, se tivesse lido, veria que tá claro que iniciativas de emancipação financeira, por exemplo, é o tipo de coisa que efetivamente tem resultado social – ao contrário de botar um batom vermelho e se sentir “empoderada”.

  • 4 years ago

    Clarissa,

    Sempre te achei ponderada e sensata nos teus textos. Este, porém, me surpreendeu de uma maneira super positiva. Acho importante fazermos os apontamentos na teoria e, como tu humildemente sempre faz, sem dar carteirada academicista.

    No que concerne a realidade social, a ideologia liberal é idealista. A realidade social é, então, feita de atitudes, de ideias, é um fenômeno mental. O que tu diz como “empoderamento” no texto, pra mim, é isso: um fenômeno mental.

    Obrigada por colocar em palavras o que a gente vem sentindo na militância há tempos.

  • Yohanan Barros
    4 years ago

    Oi, Clarissa!
    É possível perceber o esforço que você faz em seu texto no sentido de trazer à tona o pensamento de feministas marxistas, ou seja, de um feminismo com recorte de classe. Contudo, a forma como você desenvolve o pensamento ao longo do texto, soa como um ataque direto à outras mulheres, que acreditam na importância do empoderamento principalmente das que, diferentemente das brancas e magras, não são socializadas como passíveis de serem amadas/aceitas. Precisamos ser mais cuidadosas e menos românticas em nossas análises. Afinal, o feminismo possui dimensões diversas, está longe de ser algo uno, ele abarca questões conflituosas e contraditórias (e nisso consiste o seu caráter dialético, creio eu). Como você mesma diz no texto “Feminismo não é (ou não devia ser) auto-identificação (ou pessoalismo), e sim um fazer político”. Eu concordo com isto e por isso mesmo achei pertinente trazer a crítica a você.
    Abraços, Yohanan

    • 4 years ago

      Oi, Yohanan, só agora consegui responder – tive reuniões o dia inteiro, mas enfim, como não ficou claro até vou colocar um adendo no texto, mas o texto era direcionado a feministas brancas que distorcem a ideia de empoderamento como forma de luta que é algo principalmente forte no feminismo negro (ou pelo menos foi o que a minha pesquisa pra esse texto me informou). A ideia era justamente criticar as meninas que se apropriam da emancipação pertinente a outros grupos 🙂 obrigada pelo comentário.

  • Nanda Tomé
    4 years ago

    Parabéns pela iniciativa de criticar essa concepção cristalizada de feminismo pautada pelas mulheres da pequena burguesia!
    Empowerment, sororidade e necessidade de ser amada/aceita não estão na ordem do dia das mulheres proletárias!

  • Natália
    4 years ago

    Oi Clarissa, esse é o primeiro texto que leio do blog e gostei muito dele, mas trago uma questão e uma dúvida: empoderamento, também não se trata, no final das contas, de elevação da auto-estima? Não de um jeito superficial, em termos de aparência, mas de mulheres se sentindo capazes para tomar as rédeas da própria vida e tentar se livrar da dominação do patriarcado? Isso também é auto-estima, não? Sentir-se capaz.
    E outra coisa, você diz (com razão) que apenas passar um batom ou não se depilar não vai trazer a libertação das mulheres, principalmente das que vivem em situações extremas – então o que podemos fazer em relação a esses casos?
    Obrigada pela reflexão 🙂 Bjs

    • 4 years ago

      Oi, Natália, sim, mas o que eu quis dizer é que se livrar das rédeas do patriarcado é um bem individual, não é político porque não faz pelos outros, saca? 🙂

  • Stephanie Ribeiro
    4 years ago

    Chimamanda Ngozi Adichie fala de poder no TED dela, é vídeo, nem precisa ler, mas não está rolando de algumas brancas por ai, conhecimento sobre feminismo negro, muitos menos empatia.”É impossível falar sobre única história sem falar sobre poder. Há uma palavra, uma palavra da tribo Igbo, que eu lembro sempre que penso sobre as estruturas de poder do mundo, e a palavra é “nkali”. É um substantivo que livremente se traduz: “ser maior do que o outro.” Como nossos mundos econômico e político, histórias também são definidas pelo princípio do “nkali”. Como são contadas, quem as conta, quando e quantas histórias são contadas, tudo realmente depende do poder. Poder é a habilidade de não só contar a história de uma outra pessoa, mas de fazê-la a história definitiva daquela pessoa. O poeta palestino Mourid Barghouti escreve que se você quer destituir uma pessoa, o jeito mais simples é contar sua história, e começar com “em segundo lugar”. Comece uma história com as flechas dos nativos americanos, e não com a chegada dos britânicos, e você tem uma história totalmente diferente. Comece a história com o fracasso do estado africano e não com a criação colonial do estado africano e você tem uma história totalmente diferente.”

    • 4 years ago

      Oi, Stephanie, concordo com tudo que você disse 🙂 o texto era pra criticar justamente as feministas brancas que se apropriam dessa ideia que é importantíssima pro feminismo que não é branco – nos textos que li pra pesquisa a maioria usava o feminismo negro como exemplo – e parar de achar que empoderamento é usar salto alto 🙂

  • Renata
    4 years ago

    Excelente texto!

    O feminismo centrado no eu tem entravado discussões importantes por não aceitar o contraditório, sequestrando o debate pro âmbito pessoal.

  • Val
    4 years ago

    Clarissa, gosto dos seus textos pois sempre são bastante didáticos. Pra mim ficou bem elucidado que sua crítica é dirigida as feministas brancas, as feministas de classe média que acreditam que feminismo é ir no salão fazer as unhas, ver porno, usar lingerie como você mesma coloca, entendendo tudo como “escolha”. Acho que a reflexão que o texto faz é muito necessária. Obrigada por ter escrito!

  • 4 years ago

    Não é porque uma mulher aprende a se amar que ela tá cagando pra luta de mulheres. Tudo é um estado de espírito. O sentimento de fracasso por ser mulher, ou poderosa por ser mulher. Feminismo é luta. Feminismo também é celebração. Não é porque uma mulher se sente empoderada usando batom vermelho que ela é uma porta conformada com biscoito do patriarcado. Acho isso tão “perdoa pai, eles não sabem o que fazem”. É verdade, o batom vermelho não salva todas as mulheres do mundo da violência. Um zine anarquista tampouco.Cada mulher sabe quantas companheiras em situação de vulnerabilidade acolheu. Não vou vilanizar nenhum setor feminista. Quem disse que porque eu considero a Beyoncé feminista eu acho que a luta feminista chegou ao fim? Que coisa viu. O ~verdadeiro~ empoderamento é Bikini Kill e nunca Spice Girls. Falou então. Sabe que eu acho muito massa de verdade Bikini Kill e a crítica à pornografia? Sabe que eu acho mesmo massa de verdade Britney Spears e Valesca Popozuda?
    Feministas femininas, fofas, fãs de Kate Perry, monogâmicas e que se emocionam com comédia romântica não são bocós. Tudo pode e deve ser colocado em análise, porém, supor que algumas mulheres são mais libertas que outras porque consomem underground, daí não, miga.

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