“A Garota na Teia de Aranha”: o novo livro da série Millennium sem Stieg Larsson

“A Garota na Teia de Aranha”: o novo livro da série Millennium sem Stieg Larsson

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Que a (ex) trilogia sueca Millennium, de Stieg Larsson, é incrível, bom, todo mundo sabe. O que pouca gente sabia ao terminar de ler o último livro é que o autor, que morreu em 2004, planejava muitos outros sobre Mikael Blomkvist e Lisbeth Salander. Por isso, parece fazer sentido que a editora tenha convidado um escritor – David Lagercrantz – para dar continuação à saga.

O novo livro, A Garota na Teia de Aranha (o título original em sueco significa algo como “o que não nos mata”, uma referência à frase de Nietzsche) chegou às livrarias no segundo semestre de 2015. Escrito com aprovação do irmão e do pai de Larsson, que controlam o espólio do autor, a obra recebeu uma crítica favorável. Apenas a viúva de Larsson ficou descontente: Eva Gabrielsson já expôs sua opinião negativa sobre o projeto, que aliás não conta com o manuscrito inacabado do quarto romance, ainda de autoria de Larsson. A escolha de Lagercrantz também foi colocada em cheque: Eva considera que ele seja uma “escolha completamente idiota” para dar continuidade à série.

Ler a opinião de Eva me deixou respirar com tranquilidade: já no começo do livro era claro que ele era muito inferior aos anteriores, e a conclusão ficou cada vez mais óbvia conforme o romance evoluía. Sem o mesmo gancho envolvente, o livro é tomado de cenas desnecessárias que parecem servir apenas para aumentar o número de páginas, personagens com pouca profundidade, e o pior pecado na minha opinião: distorções gritantes dos personagens criados por Larsson. Em determinados momentos, tinha que reler páginas inteiras para ter certeza absoluta de que determinada reflexão ou fala vinham mesmo de Blomkvist, tão fora do personagem ele estava. Ainda mais grave: Lisbeth, a anti-heroína favorita da literatura, por sua complexidade e força feminina, foi porcamente explorada, aparecendo em poucas cenas e com uma presença fraca e nem um pouco parecida com a personagem original.

Em uma interação com um personagem, Lisbeth demonstra um fingimento manipulatório com uma capacidade de sociabilização que não é só fora do espectro característico da personagem como é também distante de qualquer pessoa com Aspergers. E eu nem falei na parte que eles usam “understatement” em inglês em vez de “eufemismo”.

Além disso, em vários momentos do livro coisas improváveis acontecem até o ponto de o personagem ter uma intuição inexplicável que leva a situação para outro momento. Essa técnica é repetida à exaustão de tal forma que o livro perde ainda mais a verossimilhança.

As relações estruturais de poder, especificamente no que diz respeito à dicotomia homem-mulher, eram exploradas de forma maravilhosa nos livros escritos por Larsson. Desde “Os Homens Que Não Amavam as Mulheres”, que trata diretamente de questões ligadas a violência contra mulher, Lisbeth é uma figura central e poderosíssima, uma “salvadora” de formas bastante inusitadas e controversas – como a fatídica cena em que incendeia o próprio pai abusador.

Em uma das cenas mais fortes do primeiro livro (e filme, especialmente na versão de Fincher), Lisbeth é estuprada pelo seu tutor. Tempos depois, utilizando seus conhecimentos tecnológicos para criar um cenário que transformava ele na ponta mais fraca, ela se vinga, causando a ele os mesmos danos e tatuando em sua barriga: “eu sou um porco estuprador”. Essa cena é uma vitória pra literatura.

Lisbeth é a vingança de todas as mulheres.

E essa Lisbeth, tão maravilhosa, é esquecida por Lagercrantz. Uma pena. A narrativa pobre, carente de imagens fortes, com frases simplistas que pecam na capacidade de criar o suspense necessário e estragam surpresas, o livro é uma decepção.

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