A revolução não pode acabar aqui

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Somos todos iguais, braços dados ou não. Meus pais tocam violão e desde pequena ouvi essa música na voz deles. Ainda hoje estranho a versão original, porque meus ouvidos são acostumados a outras vozes. Na quinta-feira, acompanhando os protestos, quando uma amiga me lembrou da existência dessa música, os motivos pelos quais eu ouvia repetidamente em casa se tornaram óbvios. Meus pais estavam lá no Diretas Já e cresci ouvindo histórias sobre a sensação do gás lacrimogêneo, violência, sobre fazer corrente humana, sobre comícios e passeatas e vontade de lutar e mudar o mundo.

Foto por Rodolfo Yuzo.
Foto por Rodolfo Yuzo.

Por que lutamos? Por que, agora, fomos às ruas? Porque chega, porque não é só 20 centavos? A minha revolta pessoal começou ao assistir aos absurdos que se sucederam em uma sequência chocante desde quinta-feira em diversas cidades do país. Pelos relatos de abuso de autoridade, de falta de respeito, de desejo por destruição de patrimônio humano – que, vamos por favor estabelecer isso de forma clara, é muito mais valioso que qualquer ônibus, vidro, lixeira ou objeto que seja posto na rua. Mas isso sou eu. Por que você luta?

Por anos a gente ouviu que era a geração me, me, me. Que os millenials são egoístas, individualistas, revolucionários do sofá, do Facebook, sem ideologia e sem união. Agora, o que corre nas redes sociais é “saímos do Facebook”, “o Brasil acordou”, a nossa geração tem uma causa e quer lutar. Por respeito, por honestidade, por dignidade. Só que o Brasil não acordou. Os movimentos feministas, estudantis, LGBT e tantos outros já estão na rua há tempos em busca de um mundo com mais justiça e igualdade. Enquanto isso, movimentos como o Movimento Cansei e o Acorda Brasil querem trazer essa luta pra sua pauta elitista e moralista. Pagar quatrocentos reais pra vaiar a Dilma não é revolucionário. No Instagram, as blogueiras de moda nascidas em berço de ouro, que exibem suas Chanel de milhares de euros todos os dias, que postam fotos a favor da impunidade, da redução da maioridade penal e várias outras imagens disseminando machismo e preconceito de classe, estão “entrando nessa luta” – claro, não nessa luta, mas na distorção inacreditável que se fez de um movimento que busca igualdade. Querem aumentar a crueldade com o povo miserável e faminto que sustenta as Ferraris e as Hermès Birkin dessa mesma classe que pede a redução da maioridade penal, que, desculpa repetir tantas vezes, mas é um exemplo formidável desse egoísmo ganancioso e cego que quer transformar essa marcha numa marcha suja. Em Hell Paris 75016, escrito por uma socialite francesa milionária em forma de romance, denunciando os exageros e o estilo de vida superficial, auto-destrutivo e até caricatural dessa geração podre de rica, ela fala: “Mergulhada na loucura policefálica das tentações ostentatórias, sou a musa da deusa Aparência, em cujo altar imolo alegremente todo mês o equivalente ao que você recebe como salário. (…) A propriedade é a origem da desigualdade entre os homens. A gente não se queixa disso.” Esse tipo de apoio não deve nos dar orgulho, deve nos dar vergonha. E sem descentralização de renda, nossa luta tem limites bem claros.

Mas a gente – e peço licença pra me incluir timidamente aqui, já que ontem foi a primeira vez que saí de casa – vai conseguir, ou melhor, está conseguindo uma mudança. Dá pra sentir, não dá? Que disso tudo, alguma coisa grande vai acontecer. Já tá acontecendo. A gente sabe. O governo sabe. A grande mídia sabe – e já não tem o poder que tinha antes quando todo mundo é um pouco repórter, fotógrafo, jornalista, cinegrafista. Imagens, relatos, discussões, vídeos inundam a internet e não existe censura que possa calar essa voz. Mas será que nós, os protestantes, que estamos indo nas ruas para pedir mais respeito, estamos ouvindo essa mesma voz com atenção?

Nós somos muitos. Nós somos muito mais do que qualquer governo, e por isso nós podemos exigir mudança. Nós devemos sair na rua e lutar para que o governo coloque sempre seu cidadão, seu povo em primeiro lugar.

Mas nós somos muitos, e a responsabilidade de um Brasil melhor também é nossa, porque nós somos mesmo muito mais do que qualquer governo. Sair na rua e exigir respeito não é o ponto final desse processo. Ele continua, pra quem tá lá em cima mandando e aqui em baixo pra quem tá pedindo. Eu lembro que a minha mãe costumava assinar os e-mails dela com uma frase que dizia: “quando eu mudo, o mundo muda”.

Não adianta correr na rua e pedir “sem violência” e ser conivente com uma violência diária sofrida pelas camadas mais pobres, e querer lidar com isso inserindo mais violência através de medidas como redução da maioridade penal. Não adianta gritar que “não é sobre 20 centavos” mas justificar estupro com “ela tava pedindo”. Se a gente quer respeito e honestidade, nos devemos e devemos uns aos outros a mesma coisa. A gente tá na rua e exigindo do governo uma atitude que também devemos seguir, desde aquelas coisas pequenas que invadem nosso dia-a-dia como esperar o pessoal desembarcar antes de entrar no metrô e ser gentil com o garçom o ou a atendente da loja. A gente aprende que passar o outro pra trás, descobrir um jeito de furar fila, guardar o troco errado porque a moça do caixa se enganou e vários outros exemplos do “jeitinho brasileiro” nos faz esperto, mas isso é a nossa pequena corrupção diária. É nosso dever, nosso DEVER também mudar nossas atitudes para exigir nossos DIREITOS.

E enquanto a gente perde a cabeça por causa de uma violência impossível que assolou nossas ruas nesses últimos dias, isso é vida diária de grande parte da população e não tinha sido suficiente pra causar nenhuma manifestação. Querem dizer que o Brasil acordou? Então que bom, vamos nos comprometer a não fechar os olhos. Não é mesmo sobre 20 centavos. É sobre ter a coragem de mudar não só a posição do governo, mas a própria vida. É sobre abrir os olhos de verdade para vários outros problemas que estão aqui há muito tempo.

Que a Revolução do Vinagre não seja só um artigo na Wikipédia e uma lembrança pra contar os netos. Que quando eles nos perguntarem “e aí vovó, o que aconteceu?” a gente não precise se esconder atrás de um “nada”. Que a gente possa responder com orgulho.

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