Achei por acaso e me apaixonei: “The Americans” e “Switched at Birth”

Achei por acaso e me apaixonei: “The Americans” e “Switched at Birth”

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Quem vê mais séries do que deveria sabe: depois de se esgotar todas as séries que são sucesso no momento e todos os clássicos, a vida se torna em grande parte uma busca no arquivo do Netflix. Quando a nova série é encontrada, alguns momentos de paz chegam – geralmente curtos, porque viciados em séries têm a incrível capacidade de assistir episódio atrás de episódio por horas a fio (o meu recorde pessoal foi 15 horas). Mas todo mundo que já passou por isso sabe como a empreitada é difícil: uma sequência de pilotos ruins e séries chatas abandonadas pelo caminho até encontrar aquela pérola, que geralmente chega no formato de alguma indicação confiável – seja por um amigo ou algum blog.

O Netflix devagar se torna um pouco esse amigo, indicando com as cinco estrelinhas vermelhas que você vai realmente amar aquela série. Ele nem sempre acerta – e geralmente vou confiar só após alguma insistência, algumas semanas vendo aquela mesma série na minha página inicial. Foi assim que me deparei com essas duas maravilhas. Ficam aqui minhas duas indicações da vez.

The Americans

Nos anos 80, em plena Guerra Fria, dois espiões russos vivem nos Estados Unidos. É essa a premissa da série que se revelou uma das melhores que eu já vi. Com uma abordagem que passa longe de ser panfletária norte-americana e que joga no lixo clichês machistas, cada episódio é uma dose a mais de entusiasmo. Os espiões são um casal: um cara normalzão e uma mulher linda, maravilhosa, por quem me apaixonei completamente. Em uma cena em que um deles precisa distrair oponentes, seria fácil demais colocar a mulher em roupas curtas e decotes enquanto o cara faz a parte difícil. É isso que eles fazem? Claro que não: é ela quem comanda a cena enquanto o cara funciona como bibelô. Esse e outros momentos confirmam que além de ser possível é maravilhoso ir contra estereótipos de opressão.

Além disso, a série nos brinda com diálogos inteligentes, relações complexas e personagens muitíssimo bem construídos: Elizabeth, a protagonista que roubou meu coração, tem uma das construções mais incríveis da televisão. Vale a pena. Demais.

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Switched at Birth

Essa poderia ser só mais uma série adolescente, não fosse o fato de metade do elenco ser surdo. Sim, é isso mesmo: as discussões sobre viver com alguma necessidade especial é central na série. A forma como o mundo é hostil a essas pessoas, não só no nível social mas também no nível físico que diz respeito ao acesso básico às coisas, é exposta de forma que deveria deixar todos nós envergonhados.

Racismo também é um dos temas centrais, especialmente quando uma das protagonistas, Daphne, filha biológica de brancos ruivos que cresceu em um bairro latino, se inscreve uma bolsa para pessoas latinas. “Você poderia falar sobre situações sociais em que você foi oprimida pela cor da sua pele?”, a entrevistadora pergunta. E ela percebe que, por mais que tenha sido criada em uma cultura latina, a sociedade inteira a vê como branca. Machismo, quando abordado, varia de assuntos que deveriam ser simples até os mais complexos: Bay, a outra protagonista, é estuprada em uma situação bastante confusa pelo ex-namorado e amigo. Ele não tinha consciência que estava estuprando. E ela demorou a perceber que aquela sensação de que tinha algo errado era porque se sentiu violada. Quando ela decide ir em frente, ele avisa que ela vai destruir a vida dele, e implora pra que ela não faça nada. Afinal, “ele é um cara bom, não foi de propósito”.

Poucas coisas na série são simplificadas, e, apesar do drama novelesco, ela abre espaço pra discussões profundas. Arte de rua é outra delas: “Eles precisam nos enxergar”, diz uma das personagens. Revolução também: quando querem fechar a escola para alunos surdos, é isso que eles fazem. É claro que a série não é perfeita, e existem pontos discutíveis. Mas é raro que tantos pontos trabalhados sejam tão interessantes quanto aqui – e que incentivem mudança e inclusão (eu mesma resolvi aprendi linguagens de sinais depois de ver). É diversão sem esforço, mas com significado.

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