Beyoncé, Superbowl e o mimimi

8036Shares

No fim do ano passado, com 24 horas de espaço, o Huffington Post publicou duas matérias sobre ídolos feministas. Em uma, Taylor Swift era elogiada e defendida por sua postura feminista no VMA. Na outra, Beyoncé era criticada por um feminismo desapontador em sua performance no festival Made in America. O fato de as duas publicações terem sido feitas quase ao mesmo tempo é mais que só uma coincidência: é uma analogia real às percepções de senso comum em relação ao papel dessas duas mulheres. A grande diferença entre elas? Vamos lá, você consegue adivinhar.

Se você falou que a Taylor Swift é branca, você acertou.

Não me levem a mal – eu amo a Taylor Swift, ouvi o 1989 umas mil novecentas e oitenta e nove vezes. Acredito que ela é uma cantora realmente muito boa que faz um pop de qualidade, tem um estilo impecável e parece ser gente boa com os fãs. Mas a gente não pode negar que ser branca e rica tem um impacto gigante no cenário inteiro.

Corta pra 2009. Ninguém lembra direito todos os prêmios do VMA daquele ano, mas a infame interrupção que Kanye West fez no discurso de Taylor Swift virou meme eterno – Taylor inclusive fez a mesma coisa em 2015, como uma brincadeira. Eu, e provavelmente você também, ri da situação, do constrangimento da Taylor, do complexo de deus de Kanye. O que eu – e provavelmente você também – não percebi é que o que ele estava fazendo ia muito além da música. De novo, Beyoncé tomava a pior em relação à Taylor Swift. O vídeo de Single Ladies, uma música icônica que quase todo mundo no mundo conhece, perdeu para You Belong With Me, que nem eu, que trabalho com música, me lembro direito de como é. A revolta de Kanye West ia muito além da música.

2016 recém começou e Beyoncé fez o lançamento espetacular de Formation, com um vídeo no mesmo nível. Colocando jovens de frente a policiais com cartazes dizendo “PAREM DE ATIRAR NA GENTE”, o vídeo se passa em New Orleans, e ela canta “My daddy Alabama, mama Louisiana, you mix that negro with that Creole make a Texas Bama”. Ela deu um tapa na cara de racistas, escancarando um orgulho por cada símbolo que eles rejeitam – do cabelo às narinas. Ela fala em sexualidade e empoderamento de uma forma que foge da bobagem falaciosa da falsa liberação sexual, faz a polícia se render para uma criança negra e afunda um carro da polícia com o peso do próprio corpo. Quer coisa mais poderosa que isso? Ela ainda traz a fofa Blue Ivy arrasando num afro poderoso, uma resposta bastante eloquente às críticas da mídia em relação à criança, especificamente citando o “cabelo desarrumado”. Se a gente adora Shake It Off de Taylor Swift por rir na cara dos haters, bom, precisamos fazer um culto para Formation. Isso sim é que rir na cara dos haters.

Como o The Guardian disse, a imagem de várias mulheres negras dançando ao som de “You know you that bitch when you cause all this conversation” é um grito das vozes de todas as mulheres negras que são ignoradas e marginalizadas. Quem dirigiu o vídeo foi uma mulher, que também não é branca (Melinda Matouskas é descendente de gregos, jamaicanos e cubanos), e que dirigiu 8 vídeos da diva e já ganhou o Grammy. A data de lançamento também não foi por acaso: Fevereiro é o Mês da História Negra nos Estados Unidos. Saindo um pouco da esfera política, a música apresenta camada atrás de camada de uma sonoridade rica e envolvente, e Beyoncé explora os vocais de formas maravilhosas. É uma baita música.

Por isso, foi escolhida para o show de intervalo do Superbowl – junto com outras coisas irrelevantes de Bruno Mars e Coldplay. Eis que acordo para descobrir que a apresentação está sendo criticada ferozmente, com homens brancos se sentindo ultrajados. Em um dos textos que li, o autor acusa Beyoncé e Jay Z por serem apoiadores do “violento” movimento Black Lives Matter, e por investirem dinheiro para tirar pessoas da prisão durante os protestos em Baltimore.

No show, Beyoncé e as dançarinas fizeram uma formação de X, uma referência ao pantera Malcolm X, o que também foi muito criticado: ele é lembrado basicamente como um assassino. A verdade que sociólogos, ativistas e estudiosos como Peter Gelderloos já reconhecem é que ele foi mais importante pro movimento negro do que Martin Luther King – com a diferença de que ele não fazia uma luta pacífica. Depois, com o mesmo uniforme das Panteras Negras, elas se uniram com o braço para cima, símbolo da luta do grupo. Após a performance, algumas delas ergueram um cartaz pedindo justiça para Mario Woods, um jovem negro de 26 anos que foi morto pela polícia de São Francisco. Ronnisha Johnson e Rheema Calloway, organizadoras do Black Lives Matter e do movimento Last 3 Percent – representando o tamanho da comunidade negra de São Francisco atualmente, que diminui cada vez mais por causa da gentrificação crescente – também se envolveram na apresentação, entregando cartazes para as dançarinas.

O quão imenso é que isso seja transmitido no evento de maior audiência da televisão dos EUA?

E é claro que tem muita gente (racista) incomodada com isso – e os resultados de busca no Google não me deixam mentir. Mas a Beyoncé tá incomodando porque o que ela tá fazendo é gigantesco. Enquanto Emma Watson pede ajuda pros homens pra mudar a cultura, a Beyoncé tá lá, efetivamente mudando. E mesmo assim, a gente fica aqui, questionando o que ela tá fazendo, enquanto endeusamos Emma e Taylor. Volto à primeira pergunta do texto: por que será?

Aproveito para dizer pra todo mundo aproveitar o Carnaval pra ver o documentário da Angela Davis. E voltando à música, não dá pra ignorar que o refrão repetido é: “I slay”. A gente é obrigado a concordar.

8036Shares