Camille&Rodin

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Às vezes pode soar pretensão pura querer escrever sobre algo que é tão explicitamente exposto em uma única imagem. Porém, a descrição do Catárticos diz que mil palavras valem mais do que uma imagem. O desafio, aqui, é tentar ser mais eloquente do que esta:

camille

A escultura, feita por Rodin, é chamada Camille Claudel, uma homenagem à sua aprendiz e namorada. A poesia de representá-la em uma caixa fechada, presa, de olhos para baixo, revela de cara muito da relação obsessiva entre os dois, grandes escultores do fim do século 19.

Um pouco de contexto:

Rodin é considerado impressionista por muitos historiadores da arte. Suas esculturas não são nada parecidas com o Davi de Michelangelo, completamente estático, idealizado, imóvel. Parece besteira falar isso, porque é óbvio que uma escultura será imóvel; porém, as obras de Rodin, na contramão das esculturas clássicas, parecem quase vivas, prontas para o primeiro movimento, pulsando sob a pedra.

Essa característica foi responsável pela sua primeira negação no Salão de Paris. À época, vários colegas impressionistas já haviam sido negados com a justificativa de criarem obras mal feitas, manchadas e mal acabadas. A herança de uma tradução visual mimética e naturalista, inaugurada pelos renascentistas, era questionada por esses artistas que, assistindo ao surgimento da fotografia, não viam utilidade em pintar apenas a cópia. Ao contrário, buscavam o sentimento, as impressões de luz e a sensação da cor – esse último aspecto sendo algo de que os fotógrafos eram privados pela tecnologia da época.

Para Rodin, criador de obras clássicas como O Pensador, era a expressão humana na escultura que definia seu trabalho, expressão essa que superava as faciais: a escultura fala com o corpo todo.

Não era fácil ser mulher e artista naquela época. Além de lidar com o preconceito aterrador, havia restrições de gênero em treinamento artístico e prevalência masculina nos júris de salões e no ministério das Belas Artes. Camille, porém, conseguiu nadar na contramão da corrente que a empurrava para longe de onde ela pertencia.

É inegável a influência que Rodin exerceu sob Camille, mas o contrário também é verdadeiro. Rodin não apenas reconheceu seu talento artístico como também se apaixonou pela pupila. O caso, tumultuado, intenso e complicado, inspirou o trabalho dos dois artistas que muitas vezes ecoavam declarações ou críticas, embora isso seja mais visível no trabalho dele do que no dela. Porém, Camille não aceitou a recusa de Rodin em deixar a esposa, Rose Beuret, mesmo jurando fidelidade à Camille dentro de sua vida adúltera. Aos poucos, ele começou a evitá-la, até finalmente se separarem.

As obras dela são muitas vezes interpretadas de forma exageradamente autobiográfica, mas é impossível não admitir influências do que ela passava em nível pessoal no resultado de seus trabalhos. L’âge mur (1893-1900) é interpretado como representando o fim do relacionamento entre os dois e mostra Rodin sendo levado pela esposa e deixando Camille para trás. A obra também é um divisor de águas na sua carreira, quando ela percebe todo o seu potencial e se dá conta de que jamais vai atingir o sucesso que mereceria. Mesmo reconhecida como uma artista importante, a sombra de Rodin permanece: no início dos anos 90, uma das críticas que recebeu dizia que “nada bate originalidade, senhorita”. Depois do fim do relacionamento, passou a levar uma vida reclusa em seu estúdio e destruiu várias de suas obras. Diagnosticada com esquizofrenia, foi internada primeiro em um asilo e depois em um hospital psiquiátrico, onde ficou pelos últimos 30 anos de sua vida.

Na peça Camille&Rodin, que surpreendeu positivamente pela narrativa não-linear, pela trilha sonora incrível e pelo jogo de luz, a cena que mais me chamou atenção mostra a dualidade crucial entre o relacionamento dos dois: “Camille inspira minha alma”, Rodin fala, ao que ela, personificada por uma atriz linda que me deixou deslumbrada pela sua expressividade corporal, ecoa “Rodin aprisiona minha alma”. A meu ver, a ânsia de Camille pelo seu reconhecimento como artista e como mulher era levada por Rodin como capricho de adolescente e ele, incapaz de compreender a alma da pupila, escolheu como solução o afastamento. Ele saiu impune, pois foi ela quem pagou o preço.

Para quem se interessa pela história, as dicas são o excelente filme Camille Claudel, de 1988, estrelando a belíssima Isabelle Adjani no papel de Camille, e a peça citada acima, que tem seu último fim de semana de exibição. Escrita por Franz Keppler, traz Melissa Vettore e Leopoldo Pacheco no papel dos protagonistas e fica em cartaz até o dia 26/05, no auditório do MASP. Não dá pra perder.

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