Caráter é destino: traição, história e nossos relacionamentos de aplicativo

Caráter é destino: traição, história e nossos relacionamentos de aplicativo

183Shares

Desde que descobri que fui traída pelo amor da minha vida, fiz vários posts no Facebook – o que muita gente julgou ser superexposição, mas a maioria (graças a deus) entendeu meu propósito: usar a melhor coisa que eu tenho (minha escrita) pra ajudar quem estiver passado pela mesma coisa. Recebi muitas mensagens de meninas dizendo que se viram no post, que passaram pelo mesmo no passado, que estavam passando no presente. Recebi muitos agradecimentos pelas palavras.

E recebi também algo que eu não esperava: relatos e mais relatos de pessoas que traíam ou que eram a/o outra/o. Talvez por verem que eu estou tendendo a perdoar meu marido, essas pessoas apareceram com textos gigantescos falando que era muito bom encontrar alguém que tivesse empatia por quem traísse. E eu pensei: tá tão difícil de me entender, assim? Então deixo claro: eu nunca, nunca, nunca vou ter empatia por quem trai.

Nos seus diários, Sylvia Plath – motivo por trás do nome do meu canal no YouTube, A Redoma de Livros – comenta que “caráter é destino”. É reconfortante pensar que nosso caráter é o que vai construir nosso destino. E nessa mesma linha de pensamento, sabendo que 56% das pessoas traem atualmente, eu acrescento que os motivos citados – impulso, atração sexual, falta de carinho – são, na maior parte das vezes, mentira: a traição é falta de caráter. Especialmente quando vem do homem.

Salvo por motivos específicos – eu pessoalmente acredito que pessoas boas podem errar dentro de circunstâncias especiais – em geral a traição masculina é motivada por algo muito simples que é enfiado de maneira eficaz, pela cultura, na cabeça dos homens desde cedo: as mulheres são, assim como carros ou roupas, objetos de consumo. Se consome mulheres através da pornografia e da prostituição. O casamento não deixa de ser apenas mais um tipo de consumo, dessa vez a longo prazo, de um modelo escolhido com um pouco mais de exigência.

Por trás dos motivos dos homens (busca de aventura, impulso, sensação de controle etc) está, ele mesmo, o frágil ego masculino. Os motivos das mulheres (falta de carinho, sensação de serem negligenciadas etc) colocam o core do relacionamento – o afeto, ou melhor, a falta dele – como a motivação. Só essa diferença psicológica é o suficiente para colocar em evidência as discrepâncias entre a posição da mulher e do homem em uma relação monogâmica. E, embora ainda existam pessoas que usem a desculpa pseudo-evolutiva da mulher engravidar e por isso ser naturalmente mais fiel, desde Engels e “A origem da família” isso já é colocado em cheque.

A nossa cultura, muito mais do que nossa biologia, é responsável pelas nossas escolhas.

Até o começo do século XVI, quando Henrique VIII precisou legalizar o divórcio na Inglaterra por causa de seu desejo por Ana Bolena, as traições eram a única forma de se relacionar com alguma nova paixão pós-casamento. No século XVIII, Maria Antonieta foi enviada aos 14 anos para um casamento político e trair o marido (que demorou 7 anos após o casamento pra conseguir ter uma ereção) era sua única forma de ter um relacionamento como acreditava merecer. Mas no Ocidente no século XXI o divórcio já é legalizado e não vemos mais esse tipo de casamento imposto. E mesmo assim 56% das pessoas ainda traem.

Nessas semanas de solteira, aproveitei para instalar pela primeira vez aplicativos de relacionamentos como o Tinder e o Happn. E o que mais me impressionou foi como todos somos dispostos como catálogos pro julgamento dos outros – e somos, também, julgadores, que é a parte mais divertida. Essa facilidade em encontrar em consumir outras pessoas – assim como Deezer e Netflix fazem com música e séries ou filmes – é mais um sintoma de como entendemos a nossa existência: se um clique já é demais pra baixar um filme, uma pessoa não pode exigir muito mais. Se preferimos tele entrega de comida a sair pra jantar fora, as pessoas também têm que aparecer na nossa casa em 60 a 75 minutos.

Lipovetsky defende que em vez de uma era de pós-modernidade, estamos vivendo a hipermodernidade. As teorias dele com o tempo foram soando pouco aprofundadas – especialmente após ler Marx, que homem, que gênio – mas uma coisa que ele falava cai muito bem aqui: vivemos a era do hiperconsumo. E esse consumo vai desde as mercadorias que encontramos em shopping e têm um preço claro até uns aos outros.

Não é de se surpreender que em uma sociedade que já conseguiu o direito de terminar e ter um novo relacionamento, em que o divórcio perde o estigma, em que se tem o poder de escolha pra se ficar com quem quiser, ainda assim a traição esteja aumentando. Não é de se surpreender que, em países onde a corrupção é generalizada e quase aceita socialmente como um mal necessário, essa falta de caráter também entre como natural.

Até quando a gente vai escolher a mentira acima da honestidade?

 

183Shares