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Cat Marnell tem 7 vidas: viaje por elas em “How To Murder Your Life”

Cat Marnell é a princesa e a bruxa má da própria história. Bem nascida – com isso quero dizer que a conta bancária do papai e da mamãe nunca foram um problema – ela passou por veículos como Vanity Fair, Teen Vogue, Glamour, Lucky, xoJane, VICE. Até abandonar tudo por um amor abusivo e não correspondido: a anfetamina.

A primeira vez que li um texto da Cat Marnell foi em 2012. Drogadinha, loira, insone e deprimida, não teve como não me identificar (eu sei, eu sei, minha vida não era das melhores no começo da década de 2010). Mas mais que isso, ela é é inteligentíssima, com um senso de humor afiado e capaz de falar sobre beleza e cosméticos como ninguém. E, no último dia do primeiro mês de 2017, ela lançou seu livro de memórias, em que mergulha fundo no mundo de viagens de primeira classe e festas VIPs com crack, heroína ou anfetamina na sua Lanvin de três mil dólares.

Cat Marnell descreve a própria história como uma guerra constante entre seu vício e sua ambição, em que, infelizmente, na maior parte das vezes o vício saiu ganhando. Em versão rapidinha pra vocês: começou com Ritalina na adolescência e escalou pra remédios mais fortes, como Adderal (medicamento à base de anfetamina que não é vendido no Brasil). Logo ela estava “fazendo compras em consultórios médicos”: consultando com vários psiquiatras, pedindo diversas receitas, e acumulando duas, três, quatro vezes a dose que deveria tomar. Aliás, acumular é a palavra errada: os comprimidos acabavam rapidinho. Cocaína era a cerejinha do bolo em dias de festas, e logo crack e heroína passaram a fazer parte da rotina social. PCP foi amor à primeira viagem. E depois, sozinha, insone, mergulhou em Ambien e benzodiazepínicos como Xanax pra poder dormir.

Com 34 anos, ela admite que é fácil olhar pra trás e perceber que era viciada em drogas – e, como tal, egoísta, injusta, mentirosa e manipuladora. Não dá pra fugir do estereótipo. Mas, uma década antes, no meio dos seus 20 e poucos, ela se via completamente perdida e sem nenhuma perspectiva do que estava acontecendo. Morreu e reviveu várias vezes, se reinventando depois de várias passadas por rehabs e internações psiquiátricas, sempre recaindo depois (porque, pra quem é viciado, o gosto horrível do remédio é melhor do que o de macarons Ladurée). Por isso é tão importante escrever: como a epígrafe deixa claro, o livro é pra todas as garotas que vivem a vida na pista de dança.

Mas aquele arco sempre presente em memórias sobre vício de recaída-recuperação não acontece aqui. Ela termina o livro com uma caixa de Adderal na mesa, longe do NA. Usando de forma controlada, por enquanto, sob o risco de tudo explodir de novo. Mas ela sabe muito bem disso.

Em tudo Cat Marnell é diferente. No tom sincero, cru, e cheio de piadas controversas (a minha favorita já virou bio no Facebook: “como a loira louquinha e drogada atravessou a floresta? Com suas psico-patas!”) que inundavam suas reportagens pros veículos em que trabalhou. Na forma de lidar com assuntos pesados: ela queria que o livro tivesse a voz de uma coluna de fofocas de celebridade. E na forma de lidar com as fraquezas: ela expõe, à flor da pele, tudo aquilo que tanta gente esconderia assustada. Ela sabe que o silêncio é poderoso, assim como sabe usar a sociedade do espetáculo a seu favor.

Do fim do livro até agora, ela já perdeu o cabelo (e pensar que quando ela falou que seria a Britney careca do mundo literário isso nem tinha acontecido…), prometeu um novo livro e escreveu mais algumas matérias no xoJane, em que, como sempre, no meio de dicas dos melhores produtos pra cabelo, ela reflete sobre a solidão, sobre os impulsos de morte e sobre… bom, sobre a melhor forma de ficar bronzeada o ano inteiro. Também é importante, né?