Como se sente uma mulher II

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Na semana passada, o texto “Como se sente uma mulher”, de Claudia Regina, publicado no Papo de Homem, rodou a internet. Na minha timeline, rolaram as mais variadas reações: desde gente se emocionando e vibrando com o texto corajoso, desde gente condenando e vitimizando a autora do texto.

Foto por Volt Project.
Foto por Volt Project.

Na minha timeline, pelo menos, todo mundo que recriminou a autora foi mulher – salvo poucos homens que apenas replicaram o conteúdo escrito por elas. Com um posicionamento marcado pelo argumento de que só se ofende e se sente mal com as situações exemplificadas no texto quem quer, essas mulheres defenderam pontos como “eu não fico ofendida quando alguém mexe comigo na rua, pois não sou frágil”; “se alguém me fala algo mais ofensivo, não me encolho, respondo”; “não me preocupo com homens me olhando na rua porque a opinião deles não me importa”; “pare de culpar os homens e alimentar sua fraqueza, o mundo não tem que mudar, mas você, mulher, é quem tem que pensar diferente e fortalecer seu amor próprio e orgulho”.

Em um primeiro momento, mesmo que as respostas mostrem uma leitura superficial do texto (vamos rever isso mais adiante), senti felicidade vindo da empatia de ver uma mulher que não sente na pele as consequências do machismo que permeia nosso dia-a-dia. Mas em seguida, a verdade cai: essa não é uma postura de quem rompeu com a dominação que há anos nos subjuga. Essa é, no lugar, a postura de quem já internalizou essa dominação e, de “dentro da Matrix”, acredita em uma verdade pré-fabricada especialmente para ela. (Não vou me aprofundar especificamente sobre dominação do corpo feminino pois, tendo como gancho a polêmica da barriga negativa e da dieta paleolítica, já escrevi um pouco sobre o assunto aqui. Portanto sigamos.)

Vou começar tudo com uma reflexão sobre uma frase que terminava o texto de uma dessas meninas: “Tenha orgulho de quem você é, do seu corpo, de ser mulher! Se imponha! A culpa não é dos homens, afinal eles foram gerados e criados por mulheres.”

Vou escrever de novo: A culpa não é dos homens, afinal eles foram gerados e criados por mulheres.

Seguindo a linha de raciocínio da moça, toda a culpa de os homens agirem de forma errada é das mulheres. Essa frase é extremamente preconceituosa com os dois gêneros. Primeiramente, como provavelmente é mais óbvio, com as mulheres, pois retira toda a responsabilidade social, individual e de qualquer figura paterna ou masculina e coloca nas mulheres da vida do cara. Elas, só elas, e nunca eles mesmo, a sociedade, exemplos que tiveram, cultura que viveram, elas, só elas são as culpadas pelo que há de errado neles. Segundo, o que é um pouco mais difícil de se perceber de cara, com os homens, pois a frase denota claramente que os homens são incapazes de ensinar, impactar, ou dar exemplo a outros homens – afinal, os homens são criados pelas mulheres e o resultado é apenas responsabilidade delas – e também de pensar por si mesmos, já que, repito, o resultado é APENAS responsabilidade delas.

Mas, passado esse momento, vamos voltar ao texto que originou toda essa repercussão – sempre positiva, já que mesmo comentários superficiais ou ignorantes geram uma discussão que é muitíssimo necessária.

Posso estar pecando por arrogância ao querer falar pela autora agora, porém, a meu ver, acredito que Claudia não quis falar apenas por ela, e fez uma leitura superficial quem viu assim. Claudia falou por todas as mulheres do mundo, e numa voz de um feminino uníssono, ela falou sobre medos, inseguranças e violências compartilhadas por grande parte das mulheres. Se você não viveu pelo menos algo do que foi citado, você é sortuda, mas isso não significa que a violência não exista. A opressão passa por “verdades” tão invisíveis sendo produzidas pela nossa sociedade que não é tão óbvio, mas, falando de uma forma mais clara, a lógica é mais ou menos essa: você nunca sofreu um acidente de carro e não conhece alguém que sofreu, logo, esse tipo de acidente não existe, independente das notícias na televisão, dos estudos sobre o assunto e do quanto isso é debatido atualmente.

Mas vamos fazer uma pausa para endereçar outra questão que foi falada: “eu não fico ofendida quando um homem mexe comigo na rua pois não sou frágil”. Parabéns. Honestamente, acho que é uma vitória postural ouvir um “te chuparia todinha”, “deixa eu comer essa sua bocetinha apertadinha, vai” ou “quero enfiar meu pau todo em você” (todos exemplos que eu, pessoalmente, já ouvi) e não se sentir frágil. Há dias em que sinto raiva, outros me sinto um pedaço inútil de carne, outros fico com medo (porque, afinal, o medo de ser estuprada cada vez que saio sozinha à noite é real), mas raramente me sinto indiferente. Acho, de verdade, que ouvir esse tipo de coisa desde os 12 anos e os protótipos de peito marcando a roupa e não se sentir mal é uma vitória pessoal e todo mundo deveria se orgulhar disso. Porém isso não invalida todo mundo que se afeta e julgar o sofrimento das pessoas a partir de um mundo de privilégios é não só egoísta como também cruel.

Eu tive câncer três vezes, quase morri bem mais vezes do que isso por uma série de complicações, e eu levei isso com uma maturidade surpreendente (fonte: meus pais, amigos, familiares, médicos etc). Eu lembro que, na primeira vez, eu tive um companheiro de quarto que chorava, gritava, esperneava cada vez que precisava fazer um exame. Eu tinha doze anos, morria de enxaquecas porque havia recém tido uma convulsão e um derrame, e cada escândalo fazia eu me encolher de dor na cama. Fã de Harry Potter, fiz uma piada horrível comparando a situação às mandrágoras (quem gostava de Herbologia sabe do que eu estou falando). Mas no terceiro ou quarto dia seguido, eu não conseguia mais sentir raiva, porque percebi que a sortuda era eu. Eu conseguia entender que precisava facilitar aqueles exames caso quisesse viver, que a dor faz parte do processo e que, justo ou não, eu precisava ser propositiva. Vomitar que ele estava errado, que era inconveniente ou que estava me atrapalhando era de uma insensibilidade impensável e ignorava todo o sofrimento que ele estava vivendo nas mínimas coisas que eu, sortuda, havia já resolvido dentro de mim. Não que sirva pra história, mas uns dois meses depois ele morreu. Viver uma violência verbal e ficar indiferente é motivo de orgulho, mas nunca de desprezo por outras mulheres que se sentem diminuídas por isso. Superar uma dominação milenar não é algo que se faça do dia pra noite e nós devemos apoiar, e não condenar, quem ainda não conseguiu fazer a travessia. (E levanto o questionamento: alguém realmente já conseguiu?)

Eu entendo como, para homens, muitas vezes isso é ainda menos óbvio. Não porque homens são incapazes, burros ou algo do gênero, mas conseguir ver esse tipo de opressão invisível sem ter vivido nada disso é algo que exige um esforço real. Meu namorado muitas vezes me faz perguntas sobre o assunto que, pra mim, são óbvias, mas pra ele não. A meu ver, são muito pertinentes, pois são através delas que conseguimos desmembrar e tirar a força de um preconceito fortíssimo. Mas, na minha opinião, as mulheres, em geral, precisavam de um pouco mais de compaixão para com as outras: a gente sabe como é, a gente vive isso todos os dias. Culpar a outra é muito errado.

As lições do texto da Claudia são claras: as violências existem e assombram as mulheres do mundo inteiro, em maior ou menor intensidade, quer elas reconheçam, quer não reconheçam, e nós precisamos perceber isso para, aos poucos, rompermos esse processo. Não se trata apenas de se ofender com uma cantada barata e chula na rua, se trata do fato de que os homens se sentem no direito de nos gritarem frases obscenas, de que a sociedade se acha no direito de ditar como nosso corpo deve ser, se devemos ou não ser mãe, se devemos ou não fazer sexo, e muitas vezes se trata do fato de que muitos homens acreditam que uma roupa curta ou um nível alcóolico justificam a invasão do livre-arbítrio de uma mulher.

Independente de gênero, idade, cor, orientação sexual, profissão, preferências musicais, estado civil, enfim: NADA, NUNCA justifica a invasão do espaço do outro, nada justifica o roubo de seu livre-arbítrio.

Se um homem sair pelado pela cidade, ele vai precisar sentir medo da polícia. Se for uma mulher, ser presa vai ser a menor das preocupações, porque a gente vai temer ser estuprada, porque a gente já teme isso vestindo calça e sobretudo, porque as mulheres que usam burcas também são estupradas a porcentagens inaceitáveis e isso acontece em qualquer cultura, porque a violência contra mulher hoje em dia é via de regra quando devia ser exceção e porque quando mulheres pecam por superficializar uma discussão profunda e importantíssima pra nossa humanidade o preconceito se fortalece.

A forma mais fácil de se perpetuar um preconceito é fingir que ele não existe. A gente virou o milênio há mais de dez anos, tá na hora de acordar.

P.S.: no último texto, escrevi com mais calma e mais respaldo teórico. Dessa vez, foi um vazão emocional, por isso peço desculpas da falta de referências teóricas no texto. Entretanto, deixo alguns artigos, notícias e textos aqui pra reflexão, se alguém quiser se aprofundar no assunto. Só clicar em “leia mais”.

1) Corpo, poder e dominação: um diálogo com Michelle Perrot e Pierre Bourdieu.
2) Cultura do estupro.
3) Que 2013 seja um ano de mais revolta;
4) Um culto à masculinidade.
5) Casos de estupro quase triplicaram no Brasil em 5 anos.
6) Salário das mulheres permanece 28% inferior aos dos homens nos últimos três anos.
7) Pelo fim do machismo: marcha das viadias reúne milhares em Porto Alegre.

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5 Comments

  • […] Na minha timeline, pelo menos, todo mundo que recriminou a autora foi mulher – salvo poucos homens que apenas replicaram o conteúdo escrito por elas. Com um posicionamento marcado pelo argumento de que só se ofende e se sente mal com as situações exemplificadas no texto quem quer, essas mulheres defenderam pontos como “eu não fico ofendida quando alguém mexe comigo na rua, pois não sou frágil”; “se alguém me fala algo mais ofensivo, não me encolho, respondo”; “não me preocupo com homens me olhando na rua porque a opinião deles não me importa”; “pare de culpar os homens e alimentar sua fraqueza, o mundo não tem que mudar, mas você, mulher, é quem tem que pensar diferente e fortalecer seu amor próprio e orgulho”. LEIA MAIS. […]

  • Carolina
    7 years ago

    é sempre um prazer te ler, Clarissa, fiquei emocionada ;~
    vou aproveitar pra indicar mais um texto de arrepiar: http://www.nostatusquo.com/ACLU/dworkin/WarZoneChaptIIIE.html

  • Ana Paula Caetano
    7 years ago

    Aos meus 17 anos não há nada que eu goste mais de ler do que os texto que me levam a reflexão. O feminismo se fez presente, assim como a percepção de um machismo que nos cerca. Parabéns pelo texto.

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