Como ter barriga negativa? Como ter anorexia nervosa, você quer dizer.
Como ter barriga negativa? Como ter anorexia nervosa, você quer dizer.

Como ter barriga negativa? Como ter anorexia nervosa, você quer dizer.

473Shares

Há algumas semanas, li uma matéria no site da VOGUE falando sobre conseguir alcançar a inalcançável barriga negativa de Candice Swanepoel, modelo famosa por ser angel da Victoria’s Secret. Para uma ex aluna (e viciada) de moda, é quase ofensivo declarar o que vem em seguida: desculpa, VOGUE, mas aqui você errou. E muito. A frase que dá título à matéria foi a reação esclarecida de uma amiga a esse texto da VOGUE.

É engraçado como padrões de beleza geram rebuliço assim que são trazidos para a discussão e como, mesmo assim, eles se mantêm indiscutíveis – e nós, conscientes ou não, em maioria, continuamos vítimas.

Com 15 anos, eu apenas planejava estudar moda, e o fato de ter sido sondada por algumas agências de modelos do sul fez que eu quisesse fazer parte desse mundo. Mesmo sempre estando abaixo do peso por questões genéticas, busquei por bastante tempo um ponto em que considerava o ideal para responder aos convites. A primeira vez que percebi o quão sério era isso foi em 2006, quando, com meu próprio IMC forçadamente em torno dos 16, assisti à morte de Ana Carolina Reston, modelo brasileira, que morreu com o IMC inferior a 14. De lá para cá, perdi a conta da quantidade de notícias sobre o assunto que li. A modelo Isabelle Caro estampou uma campanha de conscientização sobre a doença em 2007: idealizada por Oliviero Toscani e trazendo fotos chocantes, pode ter ajudado várias meninas, só não ela própria, que morreu em 2010 – com 28 anos, 1,65m de altura e 25kg, o peso normal de uma criança de 7 anos.

barriganegativa2

Campanhas sobre o assunto sempre existiram – agora há pouco, à época da matéria na VOGUE, a agência brasileira Star Models criou uma ação para combater a anorexia chamada “You Are Not A Sketch”. Nas imagens, fotos de modelos foram manipuladas para as proporções dos croquis de moda, gerando resultados horrorizantes. Li mais de uma matéria criticando a iniciativa com o argumento de que ilustrações de moda são apenas isso: ilustrações, servindo apenas como guia de construção da roupa, nada tendo a ver com o corpo da figura.

Quando Sabrina Sato foi à televisão exigir que os homens se depilassem, a revolta masculina pela determinação ditatorial rendeu textos e textos na Internet. A repercussão negativa da publicidade e a indignação masculina foram lindas de se ver: o difícil é assistir a isso da primeira fila de um desfile de opressões a mulheres, desde a comentada na situação – a depilação – até a exigência de uma figura física.

A dominação social do corpo feminino em geral atravessa a história, desde a obrigação a ter filhos até nosso querido espartilho do século 19. Hoje, grande parte dessa opressão se dá através do número indicado pela balança. É lógico para qualquer pessoa o quão doentio o padrão estabelecido é; o que não é tão claro, entretanto, é o quão fundo ele é capaz de chegar. Foucault, em A Microfísica do Poder, quando fala sobre o saber-poder e sobre os jogos de verdade, explica que o poder disciplinar é um método que permite o controle minucioso das operações do corpo e que assegura a sujeição constante de suas forças, impondo uma relação de docilidade-utilidade. Esse poder disciplinar acontece através de efeitos de verdade produzidos a todo instante pela sociedade ocidental: são verdades invisíveis com efeitos de poder que nos atam, induzidas pelos mecanismos de poder e servindo-os de substrato.

Bourdieu, quando discute poder e dominação simbólica, percebe que os dominados contribuem para a reprodução da opressão pois incorporam suas regras: assim, nós, mulheres, também somos instrumentos da perpetuação desse padrão. “Para que a dominação simbólica funcione, é preciso que os dominados tenham incorporado as estruturas segundo as quais os dominantes percebem que a submissão não é um ato da consciência, suscetível de ser compreendido dentro de uma lógica das limitações ou dentro da lógica do consentimento, alternativa “cartesiana” que só existe quando a gente se situa dentro da lógica da consciência.”, Bourdieu fala em Novas reflexões sobre a dominação masculina, de 1996.

Os padrões de beleza são indiscutíveis há décadas porque quebrá-los, começando por nós mesmos, é de uma dificuldade imensa. A cegueira ocasional quanto à opressão feminina da atualidade ocorre porque muitas vezes essa dominação se dá através de verdades invisíveis e de poder simbólico: é preciso entender o processo e as formas de sujeição para que se pense em estratégias de resistência possíveis. Porém, somos nossos próprios carrascos treinados para a punição do que transcende a lei invisível em vigor e, caso tenhamos o esclarecimento e a coragem suficiente de quebrar essa prisão, a represália é, muitas vezes, mais forte do que poderíamos aguentar.

barriganegativa3

Na minha época, a VOGUE costumava ser a Bíblia das estudantes de moda – e, tal qual uma religião pregando dogmas, continua vomitando regras de como devemos usar nosso próprio corpo. Para mim, é inaceitável que uma publicação desse calibre e com tanto poder simbólico (oi, Bourdieu, de novo) não apenas sugestione suas leitoras a esse tipo de comportamento como ofereça dicas práticas que envolvem jejum de 24h (capa da última edição) e outras insanidades que vão muito contra a saúde física e mental.

Sempre tive de vontade de trabalhar na VOGUE, porque amo moda, arte, beleza. Adoro esse universo inteiro e acredito que a moda é uma ferramenta de expressão pessoal e empoderamento feminino. É com essa VOGUE, com essa moda que eu me identifico.

Se a revolução pela independência dessa dominação deve começar de dentro, também precisa ser apoiada pelos meios em que nossas mulheres encontram expressão. A moda é um espaço de arte e, assim, de libertação, mais potente do que a gente imagina, porque costumamos pensar moda como tendência e consumismo. Porém, quando essa forma de expressão cai na armadilha de servir como coleira e não como arte, ela perde sua nobreza. Em relação à moda, especificamente, o paradoxo é claro: servindo como processo artístico libertário, a indústria abre mão da imposições de padrões aspiracionais que rodam bilhões de dólares o ano inteiro.

Na minha opinião, não são os croquis os culpados pelo padrão que nos oprime, mas tampouco era a eles a crítica que a campanha citada nos primeiros parágrafos fazia: croquis são os símbolos da criação, que deve ser arte, e não processo maquiavélico de geração de lucros a um custo humano altíssimo, que toca até mesmo quem nós, meros mortais, olhamos com admiração. As próprias atrizes de Hollywood e modelos, inclusive da Victoria’s Secret, competem com um fantasma que as assombra: sua própria versão retocada pelo Photoshop. Não é difícil perceber o erro em um mundo em que a mulher ideal só existe via edição de imagem no computador, e não é feita de carne e osso, mas sim de pixels.

 

473Shares

Related Stories

32 Comments

  • […] Há algumas semanas, li uma matéria no site da VOGUE falando sobre conseguir alcançar a inalcançável barriga negativa de Candice Swanepoel, modelo famosa por ser angel da Victoria’s Secret. Para uma ex aluna (e viciada) de moda, é quase ofensivo declarar o que vem em seguida: desculpa, VOGUE, mas aqui você errou. E muito. A frase que dá título à matéria foi a reação esclarecida de uma amiga a esse texto da VOGUE. É engraçado como padrões de beleza geram rebuliço assim que são trazidos para a discussão e como, mesmo assim, eles se mantêm indiscutíveis – e nós, conscientes ou não, em maioria, continuamos vítimas. LEIA MAIS. […]

  • Rachel
    6 years ago

    Ótimo artigo, muito bem escrito e fundamentado! Parabéns! Sucesso!

  • Mariana Sampaio Flor
    6 years ago

    Nossa!!!demais o seu texto,adorei a forma inteligente mas sem ser cabeçuda que você usou para tratar do assunto…e cara não acredito que alguém realmente consiga ficar 24 horas sem comer!!!parabéns pelo texto e blog…e boa sorte,tchau.

  • Carolina
    6 years ago

    Sempre uma delícia ver alguém escrevendo(lindamente, por sinal)uma nova história. Te acompanhando de longe(e cada vez mais orgulhosa.)

  • Carol
    6 years ago

    É muito difícil lutar contra a imposição de um padrão de beleza quando se está completamente fora dele. Sou gordinha, sempre fui, assim como também sempre fui saudável, apesar de estar acima do “peso ideal” (ideal pra quem?). Eu gosto muito de me vestir bem, de usar maquiagem, enfim, de me arrumar, mas nem leio revistas de moda pra não ficar muito brava e muito frustrada. É difícil se sentir bonita quando não há ninguém considerado bonito com quem tu possa te identificar. Qualquer atriz gordinha (normalmente mais magras do que eu) que aparece por aí é primeiro recebida com elogios do tipo “ela se aceita”, mas logo começa a ser criticada e diminuída ferozmente pela mídia e pelo público pelos seus quilos a mais, por se achar bonita, por usar biquíni, por mostrar as pernas etc… E logo aparece magérrima na capa de alguma revista contando como emagreceu e agora está muito mais feliz. São raros os exemplo que continuam como são apesar das ~força externas~. Sou feminista e luto muito pela aceitação do corpo feminino, pra que as mulheres se aceitem como são (sendo saudáveis, claro), mas a verdade é que isso é quase impossível dentro do nosso contexto social. Não vejo mulheres gordas ou “cheinhas” como feias, muito pelo contrário, mas quando se trata de mim a história é outra, porque eu sinto na pele a discriminação e o desprezo que vêm junto com esses quilos a mais que eu carrego sem prejuízo à minha saúde, só à minha estética (segundo os padrões vigentes). Eu tenho que conscientemente lembrar a mim mesma que eu não sou indesejável ou feia ou sei lá o que só porque não peso 50kg. Enfim, gostei muito do teu texto, achei super pertinente a discussão. Acho que toda mulher deveria pensar nessas questões e se libertar das amarras desse padrão carrasco, por mais difícil que isso seja.

    (sou conhecida de longa data da Marina Teixeira e cheguei no teu site através dela. Gostei muito, parabéns!)

    • 6 years ago

      Cara, eu li o teu comentário e só fiquei ainda mais puta com tudo isso. Eu admiro muito a Kate Winslet, que foi criticada muito por estar “acima do peso” (e bitch please, a mulher tá incrível, não acho aquilo acima do peso em nenhum lugar), e ela rebate falando que ela é saudável e linda e o problema é de quem não gosta. Ela foi capa de uma revista que usou Photoshop nela e ela fez uma declaração avisando que tinham usado o programa contra a vontade dela e que ela não era aquela Barbie. A gente precisa de mais mulheres assim, mas é difícil… eu sinto isso na pele. Eu sou abaixo do meu peso (meu IMC nunca passou de 18,5 na vida), por questões genéticas, mas mesmo assim eu li a matéria da VOGUE sobre o jejum e fiquei pensando se deveria fazer. E não é hipocrisia, é que a dominação é tão funda que gera um auto-desprezo e uma auto-exigência impossíveis, irreais, e destinadas à infelicidade. Enfim. To contigo, vamos ser fortes! Hahahaha.

      (awnnnnn <3 Marina é LINDA!)

  • Gabriela Trezzi
    6 years ago

    Ótimo artigo, Clarissa! Muito bom ver os caminhos que tu tá tomando aí em SP, o site tá maravilhoso 🙂

    • 6 years ago

      Awn, linda! Eu ia te mandar o texto por pvt porque lembro de posts teus com uma reação bem parecida. Fico feliz que você gostou 🙂

  • Beatriz
    6 years ago

    Você viu o texto da Vogue sobre jejum? Horrível como uma revista que é referência para tanta gentevomitar informações sem nenhuma preocupação com a saúde dos leitores. Excelente texto

    • 6 years ago

      Vi sim! Eu só citei ela no texto porque não tinha lido, mas depois li e fiquei com muito nojo. Eu, pelo menos, acho inaceitável que uma publicação que seja admirada por ser séria e de qualidade faça esse tipo de coisa. Fiquei muito decepcionada, porque gosto muito da revista 🙁

  • Ana Martins
    6 years ago

    Quando eu estava na UFRGS me caiu nas mãos uma tese de mestrado sobre a ditadura da beleza nas telenovelas. Críticas do tipo: as mulheres das telenovelas não acordam escabeladas, tampouco com remelas nos olhos, e sua maquiagem não borra nem quando choram. Bourdieu e Foucault sabiam muito bem do que falavam, e o que mais assusta é que mulheres e homens consomem vorazmente o que a mídia vende sem ao menos se dar conta. O preço a ser pago é muito alto. A ditadura da beleza é um fantasma aterrador e nós mulheres vivemos sob este peso. Já conheci caras (muito otários por sinal) que falavam sem respeito algum: só namoro mulher top. E conheço mulheres que não conseguem ver sua beleza, que não tem nada a ver com o dito padrão ditador da mídia. Ótimo seu texto, discussão muito pertinente! 🙂

  • 6 years ago

    Adorei o texto! Muito bem escrito. Fora que concordo com ele do começo ao fim. Mencionei ele lá no meu blog, com todos os créditos. =)

    http://crisedosvinteetantos.blogspot.com.br/2013/05/vogue-e-barriga-negativa.html

    • 6 years ago

      Oi, Claudia! Muito obrigada 🙂 Fico muito feliz quando vejo que essa discussão sobre padrões de beleza é levada a sério! 🙂

  • […] de assunto, comentei com ela sobre a capa da VOGUE, sobre a qual escrevi aqui, e perguntei sua opinião. “Por essas e outras que digo que gosto muito de roupa mas não […]

  • […] Como ter barriga negativa? Como ter anorexia nervosa, você quer dizer. […]

  • […] Você viu a história da barriga negativa e a VOGUE com a dieta paleolítica? Acho muito complicado porque a VOGUE tem um poder simbólico […]

  • […] cada vez que eu era violentada verbalmente deram lugar para uma raiva crescente e poderosíssima. Quando escrevi meu texto sobre padrões de beleza, que foi publicado no Brasil Post também, vi gente – homens, claro – compartilhando e […]

  • Lucas
    5 years ago

    Li seu artigo e reparei que você é uma dessas pessoas gordinhas, preguiçosas e desocupadas. Pare de afogar as magoas nos doces e comece a chorar sobre os livros. Obs: ninguém vai te comer, nem o tal estuprador imaginário que vcs acreditam que existe.

  • PItágoras
    5 years ago

    Estou encantado com seus textos. Escreve mto bem e com ótimos fundamentos. Conheci hj seus trabalhos e não consigo parar de ler. Agradeço à Pitty por ter me “apresentado” a vc. Abraço.

  • Juliana
    5 years ago

    Excelente texto! Parabéns! Sinto pelos comentários absurdos de alguns ignorantes. Isso só prova que o mundo tem muito o que caminhar em termos de “ganho de consciência” e educação!

  • Lisbela
    5 years ago

    Adorei o teu texto e acho, aliás, que ele ancora toda a desconfiança dos grupos feministas mais radicais quanto às manifestações como a Marchas da Vadias e movimentos do estilo do Femen como parte da sustentação de um discurso do desejo masculino que se disfarça de feminismo e modernidade.
    Enfim, fiquei curiosa para conhecer a sua figura, já li alguns textos do seu site e achei o seu perfil no Facebook e aí me deparei com algumas coisas que me incomodaram um pouco: 1. Eu achei estranho que uma feminista radical apoie músicos como a Lana Del Rey, visto que a Lana é um grande exemplo de objetificação. Quando ela era mais gordinha, não era todo o padrão midiático que se exige das meninas, ela não era nada no mundo em que vivemos. O segundo ponto tem a ver com isso, nos vestirmos tal qual a moda nos exige, tingirmos o nosso cabelo tal qual está na grade de tendências e consumir produtos que reforçam o ideário da objetificação e da submissão não seria de certa forma agir como pilar para o sustento desta merda toda?

    • 5 years ago

      Oi, Lisbela, adorei seu comentário 🙂

      Então, sobre a Lana: é um pouco complexo, admito. Eu amo demais as músicas dela porque elas têm a ver com muitos demônios pessoais. Pra mim, a Lana serve como redenção, me ajuda a me perdoar por erros passados que eu tenho muita dificuldade de lidar hoje em dia. Os demônios dela são parecidos com os meus e ela expurga eles e fala dos sentimentos nas músicas de um jeito que é quase divino pra mim. Me ajuda no caminho de auto aceitação, mas não por questões sociais ou relacionadas ao feminismo, e sim por questões extremamente pessoais. Quando eu canto – eu estudei canto por alguns anos – na maior parte das vezes sempre escolho repertório dela porque é terapêutico pra mim, extremamente catártico. Mas você pode falar pra mim: o pessoal é político, ele interfere no político. E eu concordo. Esse ano comecei a refletir sobre muitas coisas em relação a ela, não só em relação a feminismo, mas pra mim, quando ela lidava com drogas, era um pedido de perdão. E percebi que talvez eu lesse desse jeito pela minha história, que talvez quem estivesse pedindo perdão fosse eu… enfim, divaguei um pouco sobre minha relação com ela nesse post: http://www.catarticos.com.br/doce/eu-eu-mesma-e-lana-del-rey/

      Mas assim, eu não enxergo nenhuma cantora que seja musa feminista, que seja realmente a personificação dos valores que eu acredito. A Kim Gordon acho que é o mais próximo disso. Mas faz sentido, porque a indústria não ia considerar o feminismo radical um negócio muito lucrativo hahaha. Mas eu acho que com consciência e lucidez dá pra gente tirar coisas boas das pessoas. Uma coisa que eu AMO na Lana é que ela não é magérrima e ela não usa retoques nas fotos. Uma das fotos promocionais de Tropico é essa: http://38.media.tumblr.com/5fdb997f1835ae3b869e8428f1024f7d/tumblr_mxr8xxkSI21rdpjfqo1_500.png – olha que coisa maravilhosa. As marcas da pele, a barriguinha aparecendo. Eu acho que por um lado a Lana é um sopro de ar fresco… hahaha enfim, muitas coisas.

      Mas me adiciona no Facebook se quiser e a gente pode conversar mais!

  • Eduardo
    4 years ago

    Oi, muito boa a matéria! Só ressaltando que jejum de até 24h não é insanidade e algumas pesquisas mostram grandes benefícios do jejum intermitente. (http://authoritynutrition.com/how-many-meals-per-day/ e referências ai encontradas)

    =)

Leave a Comment

Leave A Comment Your email address will not be published