Compre todos os seus presentes de Natal num só lugar: como dar livros de presente pra todo mundo

Compre todos os seus presentes de Natal num só lugar: como dar livros de presente pra todo mundo

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Se você não gosta de livros, a chance de ganhar um presente meu é realmente minúscula, porque minha criatividade é suficiente apenas pra descobrir qual livro dar pra qual pessoa. Todos os anos, em todas as datas comemorativas, eu presenteio todo mundo com livros. SEMPRE. E com o Natal chegando, resolvi fazer uma listinha pra vocês se inspirarem!

Mãe: “A Desumanização”, Valter Hugo Mãe

Não, não é por causa sobrenome que relacionei o autor à figura da mãe. Acontece que a sensibilidade incrível que ele traz na narrativa sinestésica é o tipo de coisa que eu vejo minha mãe adorando. Maternidade também é algo que explora, de um jeito único e super delicado, nesse livro que, mesmo curtinho, é uma porrada.

Pai: “A Segunda Guerra Mundial”, Antony Beevor

Todos os pais que eu conheço – o meu, os das minhas amigas, os da televisão – adoram história. Esse tijolão sobre a Segunda Guerra tem quase 1.000 páginas e é pontuado por mapas explicativos e fotografias ilustrativas. O escritor, que já publicou livros específicos sobre o dia D, a batalha de Stalingrado e Berlim pós-1945, ficou 5 anos no exército e é um estudioso consagrado sobre o tema. Com uma análise detalhada, ele convida os leitores a reavaliarem momentos chave da guerra a partir de um contexto bem construído. Entretanto, a Rússia pediu que seus livros fossem banidos, acusando o autor de simpatia com os nazistas. É um livro complexo e polêmico, sem dúvida feito para ler, pensar e, sempre, criticar.

Irmã/irmão mais novo: “O Sol É Para Todos”, Harper Lee

O livro ganhou o prêmio Pulitzer não por acaso: é uma história que discute racismo do ponto de vista de uma criança que vai perdendo a inocência em relação ao mundo. Não consigo imaginar uma história mais delicada e adequada pra presentear se você é, como eu, irmã mais velha.

Caso amoroso: “Os Velhos Também Querem Viver”, Gonçalo M. Tavares

O livro chegou na minha estante através da recomendação insistente de um vendedor da Livraria Cultura do Conjunto Nacional da Paulista (eu não sei o seu nome, mas muito obrigada, viu, moço). O autor angolano-português desenvolve um poema épico com linguagem moderna e minha senhora, que livro espetacular. Sério. Terminei de ler e já comecei a segunda, de tão maravilhoso. E o melhor é que o livro já serve também como filtro: se a pessoa que está contigo não gostar, é hora de dar tchau. Essa pessoa realmente não vale a pena.

Afilhada, priminha, qualquer moça pré-adolescente: “Becky Bloom em Hollywood”, Sophie Kinsella

Da minha pré-adolescência e até meus 17 anos, mais ou menos, devorei qualquer livro da Sophie Kinsella que estivesse ao alcance da minha mão, dando gargalhadas de madrugada tão altas que eram capazes de acordar minha mãe. Os livros, engraçados, leves e divertidos, fazem a perspectiva de ler 500 páginas um prazer inexplicável. É uma ótima porta de entrada pro mundo da literatura. E quem não é apaixonado pelas aventuras inusitadas da consumista um pouquinho mentirosa e bastante crédula Becky Bloom?

Chefe: “Olhe Para Mim”, Jennifer Egan

Jennifer Egan é uma das minhas autoras favoritas dos últimos tempos. Vencedora do Pulitzer com o espetacular “A Visita Cruel do Tempo”, a intimidade que ela tem com a linguagem cria narrativas maravilhosas, com personagens inesquecíveis. Egan também tem como marca a vontade de ousar na estrutura da história e nos temas que trabalha. “Olhe Para Mim”, escrito durante a década de 90 e publicado em 2001, é quase uma clarividência: ele sugere a forma como a exposição de si mesmo e a curiosidade sobre a vida do outro serão dominante nos anos seguintes, inserindo o conceito ainda no estado de espermatozóide de reality shows. O livro é realmente incrível e certeza que sua chefe/seu chefe vai ficar impressionado com você depois de terminar de ler.

Melhor amigo: “As Virgens Suicidas”, Jeffrey Eugenides

Não é que você não possa dar esse livro pra sua melhor amiga – claro que pode. Mas insisto em que ele seja dado para homens por um motivo simples: o livro é um testamento da arrogância e ignorância masculinas, um tapa na cara do leitor macho que também acredita saber muito sobre mulheres. A história, espetacularmente contada sobre o ponto de vista de um dos garotos obcecados pelas irmãs Lisbon, fala sobre como eles tentam descobrir o mistério da vida delas. Descritas como seres quase irreais pela beleza que elas têm e pela distância a que os garotos são mantidos, elas são endeusadas e incompreendidas até o momento do suicídio. Por quê? Essa é a pergunta que perpassa o livro inteiro, com os garotos sempre tentando entender não só o motivo de elas terem se matado como o motivo de tudo o que faziam. É claro que não entendem nada – e não é isso mesmo que homens fazem?

Melhor amiga: “Mrs. Dalloway”, Virginia Woolf

Ah, Virginia, Virginia, como pode ter existido uma mulher tão incrível como você? As pessoas se rasgam por Kerouac e Bukowski, quando Virginia, tão mais maravilhosa, ainda parece distante – taí algo que nunca vou entender. “Mrs. Dalloway” é um livro que realmente merece a ideia de sublime descrita por Kant. Tudo – a linguagem, a narrativa, os personagens, o subtexto, os temas discutidos, absolutamente tudo – é maravilhoso. É um livro pra se verdadeiramente degustado, refletido e admirado. O tipo de presente que sua melhor amiga certamente merece.

Amigo secreto: “Como Conversar Com Um Fascista”, Márcia Tiburi

Esse presente pode ser usado em qualquer amigo secreto – inclusive a ideia é comprar vários exemplares e usar em TODOS os amigos secretos de 2015. O da firma, o da família, o da faculdade: não importa o ambiente, sempre tem alguém que pode se beneficiar desse livro. Começando pelo tipo mais óbvio, que não vai entender os motivos de ter ganhado o livro, uma vez que ele mesmo é um fascista potencial (aquilo que Márcia define como aquelas pessoas naturalmente anti-democráticas, que não vão sair batendo de verdade nos outros mas que são racistas, machistas, homofóbicas e opressoras de forma menos óbvia): ironia de primeira, dar esse livro de presente pra essa pessoa é como um tapa na cara de luva de pelica. Se a pessoa ler, melhor: quem sabe até faz refletir. Se não, a expressão no rosto ao abrir o pacote valeu o esforço, pode confiar. Caso quem faz parte do seu círculo familiar e profissional não seja – ainda bem – desse tipo, o livro é ainda mais legal: com clareza linguística e argumentativa, discussões sobre a construção cultural do pensamento de ódio e cruzamento entre as opressões sociais, ela traz uma análise que é simples e direta ao mesmo tempo que complexa do cenário político e social do nosso país. Mais para o fim, ela ainda nos brinda com um capítulo espetacular que deveria ser discutido em qualquer faculdade de jornalismo: como escrever para idiotas. Ah, verdade! Vale dar o livro pra professores também.

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