Crônicas da vida moderna: “O Amor na Era dos Smartphones”

Crônicas da vida moderna: “O Amor na Era dos Smartphones”

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Todos os dias era a mesma coisa, que nem aquela música do Chico Buarque, “Todo dia ela faz tudo sempre igual”.

– Desliga o celular – pediu, pela centésima vez, gemendo numa voz sonolenta enquanto as pálpebras fechadas eram golpeadas pela luz do dispositivo.

– Só mais um pouco – ele murmurava, vendo os resultados dos jogos da rodada.

No dia seguinte, ela acordou mal humorada porque estava mal dormida por causa do celular.

– Ricardo, não dá pra continuar assim – ela insistia na mesa do café da manhã, enquanto ele conferia como estava o trânsito. – Eu vou todos os dias com enxaqueca pro trabalho porque você não me deixa dormir – e nem é por causa de sexo, completou em pensamento, como era no começo.

Ele engoliu a resposta com o café e falou que conversavam de noite. Saíram juntos, ele para o escritório de advocacia e ela para o estúdio de fotografia. Como podia um homem de quase cinquenta anos passar horas vendo mensagens de grupos dos amigos da faculdade no Whatsapp, comentando no status de quase todos os seus duzentos e poucos amigos no Facebook, até arriscando postar meia dúzia de frases sem sentido no Twitter – sim, porque “Um belo dia para dirigir!!!!!!”, com várias exclamações, nunca seria o considerado aceitável pela rede social.

No estúdio, mal estacionou o carro e sua secretária mandou uma mensagem, “temos um problema”. O problema era que precisariam fazer um editorial de última hora e a revista de moda fazia questão de que ela mesma fotografasse, isso sem falar na outra sessão embaixo d’água que tinha marcada para o dia. “Só se puder ser interna”, falou pra secretária, “e daí tem equipe extra”, completou. A luz do dia se esvairia enquanto estivesse fotografando embaixo da piscina e não tinha como começar uma sessão no fim da tarde se quisesse usar a luz do sol. Por outro lado, tudo bem trabalhar até tarde, então se todo mundo chegasse de acordo em relação à locação ela poderia dar conta.

O editorial de moda era de joalheria, e o diretor de arte resolveu tentar algo bastante ousado: em uma banheira de hotel, as modelos deitavam, de olhos fechados, quase como que mortas, cobertas de joias. Os corpos eram cobertos pelos metais, pedras e langeries bem escolhidas: elegantes, mas sem roubar a atenção. Foi fotografando que teve uma ideia: na ida pra casa, compraria uma lingerie nova – toda preta, de renda – vestiria no carro e entraria em casa só de casaco, calcinha e sutiã. Eram quase 11 horas e ela o encontraria na cama, ela sabia, porque obviamente já teria jantado.

Dito e feito – lá estava ele, estirado, os olhos vidrados na tela. Chamou seu nome. Ele não virou. Tentou algumas outras vezes antes de deixar o casaco cair no chão, e, felina, escalou na cama – faltou só miar. Ele ainda assim não olhou. Frustrada e irritada, deitou ao seu lado, virou as costas para ele e dormiu, o orgasmo não liberado acumulado entre suas pernas. No outro dia, o mau humor estava ainda maior.

– Amor, não sei porque você faz isso – ele reclamou, manhoso, no dia seguinte, se referindo ao fato de que ela não lhe respondia nenhuma das perguntas que lhe eram dirigidas.

Sabendo que tinha algo a compensar, comprou romãs, a fruta preferida da mulher, e champagne. Esperou que ela voltasse do trabalho naquela noite com um cenário romântico preparado e finalmente fizeram sexo. Ela deitou ao seu lado, o peito arfando de satisfação, e se inclinou sobre o criado-mudo para pegar um pouco mais de romã. Do outro lado da cama, ele fazia o mesmo, embora o alvo fosse o celular.

O gosto maravilhoso da fruta saturava suas papilas gustativas e foi no meio de um suspiro de deleite que ela se engasgou. Começou a tossir compulsivamente, tentando mexer os braços e chamar a atenção do marido. Puxava o ar com força, tentando recuperar a respiração, sem nenhum sucesso. Demorou alguns minutos até perder todo o ar e morrer.

No mesmo instante, o celular de Ricardo apitou. Era um daqueles vídeos de humor que faziam ele soltar urros de diversão.

– Regina, você não vai acreditar nisso! – e finalmente se virou para a mulher, encontrando apenas seu cadáver.

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