David Bowie foi embora jovem demais

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Dois dias antes de ir embora, no dia do seu aniversário de 69 anos, David Bowie nos presenteou com um disco novo. “Ir embora” é um eufemismo um pouco condescendente (e muito cruel), uma tentativa ilusória de fazer de conta que ele só está um pouco mais longe do que esteve todos esses anos de nós, mortais. Eu não ouvi o último disco – e confesso, por heresia que talvez me condene mais tarde – que ele não era meu próprio deus do rock’n’roll.

Mas a dois dias de fazer, eu mesma, uma cirurgia de câncer, esse pequeno conjunto de células poderoso que tirou Bowie desse mundo, é estranho, pra mim, ler essa notícia. É estranho como o câncer nos rouba coisas: ídolos, familiares, partes do corpo. De mim, vai roubar a possibilidade de ser mãe.

De nós, a possibilidade de mais maravilhas desse gênio.

Bowie fugiu da epítome de ídolo perdido, perfeito e fodido de Kurt Cobain, Amy Winehouse, Jimi Hendrix. Bowie não foi desperdiçado e endeusado em pedestais inventados, em imaginários de paraísos com todos os ícones que perdemos e acreditamos conhecer.

Ele viveu, e viveu bem, e viveu muitas vidas. Bowie foi um alienígena glamuroso, um viciado que dividia a dieta entre cocaína e leite, um Pierrot depravado e deslocado, Ziggy Stardust, Aladdin Sane, The Thin White Duke, e todas as alcunhas de cada uma das vidas que ele viveu. Ele teve mais vida que um gato.

Em um mundo que não faz mais rockstars, em que a cultura da subversão já foi banalizada a ponto de se apagar em si mesma, a arte se esgota e se perde em uma miríade infinita de lançamentos. Mas ele subverteu mais do que a música. Até antes dessa distorção pós-moderna, ele trouxe a androginia e realmente subvertia nossa ideia de gênero.

Seu último disco se chama Blackstar, e o último videoclipe, Lazarus, traz ele morrendo. Ele, tão famoso por saber o que iria acontecer em seguida, sabia que ia morrer. E, de certa forma, até isso conseguiu controlar.

Mesmo na última hora, Bowie rejeitou o arquétipo do gênio torturado e suicida. Mas o desespero dessas mortes jovens são os talentos desperdiçados, toda a arte que fica pra trás quando alguém vai embora cedo demais. Desse ponto de vista, jamais seria tarde pra Bowie. Nunca estaríamos preparados.

Sejamos sinceros: se tratando de Bowie, com 100 anos ainda seria cedo demais.

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