Diário de viagem, parte 3 – Adéu, Barcelona. Bonjour, Paris!

Diário de viagem, parte 3 – Adéu, Barcelona. Bonjour, Paris!

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Barcelona, meu primeiro amor europeu

Não esperava me apaixonar por Barcelona.

Antes de chegar, tanta gente feliz com a minha viagem me falava dessa cidade com palavras carregadas de nostalgia e carinho. Mesmo assim, não pensava que um pedaço tão grande do meu coração fosse ficar aqui no momento em que eu fosse embora.

Acordar na cama imensa do apartamento na esquina da Carrer de Lull com a Marina e sair caminhando por aquela paisagem maravilhosa, cheia de prédios antigos com flores coloridas na sacada, sentir o vento gelado do mar e o sol quente que só se põe depois das oito. Barcelona é daquelas paixões arrebatadoras que deixam você completamente vulnerável, seduzida, conquistada. São duas horas da madrugada e eu espero meu vôo para Paris no aeroporto El Prat, já pensando em quando finalmente poderei voltar.

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Nossa rua em Barcelona

Isso porque me apaixonei por Barcelona por causa de detalhes bobos. O tempo consumido pelo Primavera Sound me impediu de visitar todos os lugares que queria: o Museu do Picasso e do Dalí, que fica a poucas horas daqui; a Sagrada Família do Gaudí e quantas mais obras do arquiteto fosse possível; o oceano. O oceano vi assim, de longe, de dentro do táxi, de frente para palcos de show, de cima de pontes, e preciso voltar para em fim mergulhar no Mar Mediterrâneo.

Das coisas que ainda valem falar sobre esses poucos e ocupadíssimos dias, o metrô é uma delas. Como em São Paulo – também paixão arrebatadora no instante em que pisei na Avenida Paulista – onde andei de metrô pela primeira vez e fiquei deslumbrada, em Barcelona o detalhe novo foi o que me encantou: aqui, você deve levantar uma manivela ou apertar um botão, dependendo do trem, para que a porta se abra. Eu sei, é um detalhe pequeno, sem graça provavelmente para a maior parte das pessoas, que em alguns meses morando aqui se perderia na criação do hábito. Mas nesses cinco dias e alguns trajetos, foi especial.

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O restaurante da paella maravilhosa

Pela manhã do último dia, voltamos à Plaça da Catalunya para experimentar a paella espanhola, comprar camisetas do Neymar para o meu irmão, e se perder novamente entre as bancas carregadas de souvenirs. Vesti o papel de turista mais uma vez e saí com um lenço carregado de “Barcelona” em diferentes tipografias amarrado no pescoço.

Agora já são três horas da manhã e a moça da mesa ao lado vem nos perguntar que horas são. Eu resolvo comentar que tem um relógio em um dos lados do aeroporto porque eu odeio ficar sem horas e assim ela poderia olhar a qualquer momento. Ela ri e agradece a dica. Emendamos uma conversa e descobrimos que são russas, mas ela mora em Toronto. Sua mãe não fala nada de inglês e por isso ela faz o meio campo e assim nós quatro seguimos conversando: João comenta que tem uma fascinação pela Rússia por causa de Dostoievski e a mãe dela arranha no inglês para falar “Brazil, wonderful country”. Antes de nos despedirmos, ela comenta que a mãe encontrou uma pessoa romena e que nenhuma falava inglês e mesmo assim as duas conseguiam se comunicar de uma forma confusa mas surpreendentemente eficiente. O encontro só aumenta minha vontade de ir pra Rússia e eu tenho certeza que, depois dessa viagem, nunca vou conseguir parar.

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Ir embora de Barcelona é muito dolorido. Não só porque são 5h da manhã e não dormimos nada após 3 intensos dias de festival, mas porque a cidade é realmente maravilhosa. Desde os primeiros minutos lá, a sensação de acolhimento e de pertencimento são incríveis. Não dá vontade de ir embora e eu quase desejo não vir a Paris para poder aproveitar mais a cidade.

 

Dica da #loucadodutyfree: o Duty Free do terminal 2 do El Prat não é tão incrível e fica bem mais perto do de Buenos Aires que o de Madrid. Mas a vendedora achou que eu fosse francesa, o que completamente valeu a passagem por lá.

 

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Paris, amor e ódio

Paris sempre foi o lugar do mundo que eu mais amei, mesmo de longe, e mais ansiei por conhecer. Por isso, foi chocante como, nos primeiros momentos na cidade, detestei tudo. Pode ser que a noite virada, o cansaço e as malas que estávamos carregando tenham sido os culpados, mas a cidade me pareceu hostil e agressiva nas primeiras horas. Quando chegamos em casa, para dormir umas 3 horas antes de ir passear, descobrimos que um cara, se identificando como guarda do metrô, havia nos roubado 50 euros e feito que a gente gastasse, desnecessariamente, mais 50. Fomos babacas, eu sei, mas é difícil pensar coerentemente nas circunstâncias que estávamos – e, além disso, confiar em uma índole má e dissimulada em alguém que supostamente parece querer ajudar é contra o que meu modo padrão manda. Essa ingenuidade me custou 300 reais.

Acordamos no início da tarde e vamos almoçar. No primeiro lugar que paramos, escolho um tartare de boeuf – maravilhoso – e somos muito bem atendidos. Na saída, comento que não é possível que os franceses sejam tão estúpidos, aquele primeiro encontro foi realmente gentil. “É porque você estava falando francês”, o João tenta justificar.

A verdade é que não era por isso. Pequenos gestos de gentileza invadiram esses primeiros dois dias em Paris. Teve a moça que sem querer encostou em mim ao entrar no metrô e me pediu desculpas, completamente diferente dos esbarrões e empurrões que são as regras do metrô paulistano. Também teve um menino que, ao perceber que eu e o João estávamos juntos, trocou de lugar do banco no metrô, só por gentileza, para que a gente pudesse sentar no mesmo banco. Ou quando, passando mal no show do Slint, uma francesa prontamente veio saber se eu estava bem e precisava de ajuda. E esses são só alguns detalhes pequenos: o texto ainda mostra calorosas recepções que tivemos e também como parisienses podem ser prestativos e genuinamente preocupados com turistas.

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Depois, vamos fazer compras na Rue de Rivoli. Quando volto da MAC para o café onde João está me esperando, descubro que ele puxou papo, em inglês, com um parisiense, que explicou com detalhes e de forma amigável como chegar até a Torre Eiffel, que foi nossa próxima parada. E preciso falar: EU ODIEI A TORRE EIFFEL.

Eu sei, sou apaixonada pelo símbolo, que aparece em acessórios, peças de roupa e quadros que eu tenho. Minha mãe uma vez inclusive começou a desenhar a torre na parede do meu quarto. Por isso, chegar lá e detestar tudo foi uma experiência de desilusão imensa. Ainda voltarei porque, naquele dia, muito impaciente, não quis subir na torre, mas acho que ainda vale a pena ter a panorâmica da cidade de lá de cima. Além disso, a torre como parte da paisagem de Paris ainda é magnífica para mim: das margens do Sena, observar o topo do monumento se impondo por cima dos prédios elegantes e antigos é de tirar o fôlego. De baixo da torre, porém, só causa desconforto.

Primeiramente, o lugar é composto por áreas de grama cercadas por arames velhos e retorcidos, criando um aspecto descuidado e bagaceiro, nada a ver com o resto da cidade que havia conhecido até então. Depois, o lugar é completamente infestado de turistas, lógico, e os únicos franceses presentes são vendedores ambulantes insuportáveis que ficam a cada 2 ou 3 minutos perguntando se você quer uma garrafa de champagne ou de vinho – isso porque absolutamente todo mundo no picnic está meio bêbado, consumindo sem parar os produtos inflacionados desses vendedores insistentes e nojentos. Lá pela décima vez, digo para o João que trocaria o “No, thank you” por “No, fuck you”.

Saímos de lá assim que consigo convencer o João a irmos embora – “só mais cinco minutinhos, Clarissa” – e acho graça como eu, que sempre amei Paris, é quem detestou o ambiente. No caminho até o metrô, encontramos um restaurante árabe e entramos. O João é quem começa a falar, em inglês também, e somos muito bem atendidos. Lá pelas tantas, enquanto o garçom e João já estão amigos, ele pergunta de onde viemos. Quando respondemos que é do Brasil, ele declara que ama o país, tem família em Curitiba e arrisca algumas palavras em português: “obrigado”, “bonita”, “tudo bem”.

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Estação de metrô da Torre Eiffel

Já são dez horas da noite e ainda é dia em Paris.

Na manhã seguinte, saímos antes do meio dia para fazer um picnic no Sena. Por lá, acabamos nos distraindo e passeando pela Pont des Arts, onde encontro dois caras expondo alguns quadros com a paisagem parisiense. Me inclino para fotografar quando um deles começa a me xingar em francês. Fico nervosa, me enrolo na língua e apelo pro inglês: “não posso fotografar?” O outro deles, que fala inglês, responde: “depende, de onde você é?”. “Do Brasil.” “Do Brasil? Meu deus, então pode fotografar sim! Eu amo o Brasil! Estou indo num cruzeiro que passa por Santos, Rio de Janeiro e Salvador, pela terceira vez!”. A conversa segue, enquanto ele fala metade em inglês e metade em português, e o outro cara fala em francês, e sigo fazendo malabarismos pra me virar nas três línguas ao mesmo tempo. “Você deve conhecer Salvador!”, me garante o amante do Brasil assim que confesso que nunca fui. Quando falo que está na hora de ir embora, o que só fala francês me pergunta se o João é meu irmão ou meu marido. “Mon mari”, respondo. “Oh, merde!” é a reação dele.

Saímos rindo e vamos caminhar pela Île de la Cité. Porém, não encontramos nenhuma boulangerie para acompanhar o queijo e o jamón que trazemos na mochila. No meio da tarde, morrendo de sede, encontramos um café e pedimos duas Cocas que acabaram saindo as mais caras do mundo: 10 euros, 15 reais cada Coca de 300ml.

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Eu nas margens do Sena

Quando o garçom chega, ele olha pra mim e fala: “adorei sua camiseta, amo o Nirvana”. É a linda peça da Sound & Vision que me traz elogios todas as vezes que visto. Engatamos em um papo sobre o Nirvana e falo que nasci em 91, tinha 3 anos quando o Kurt morreu, e odeio que nunca vou poder vê-los ao vivo. Ele fala que nasceu em 80 e que quando era criança acabou em um show deles em Lille, uma cidadezinha do interior francês. Pergunto quantas pessoas estavam no show: “cinquenta, sessenta”, ele responde. Fico morrendo de inveja.

Antes de ir embora, ainda conversamos com a dona do lugar e perguntamos onde tem uma boulangerie ali perto. “Vocês têm um mapa ou internet?”, ela pergunta. Negamos. “Come on, guys!”, ela responde, rindo. Depois disso, pega um pedaço de papel, senta na mesa e começa a desenhar um mapa para gente. Quando o papel acaba, ela reclama “shit, I’m really bad at this” e pega outro, recomeçando. Depois, nos mostra o resultado e explica o que devemos fazer para chegar lá. Agradecemos e vamos caminhando segundo as instruções que ela passou.

Encontramos facilmente o lugar, mas estava fechado: nossa primeira tentativa de picnic na beira do Sena foi desastrosa. De onde estamos, dá pra ver as torres da Notre Dame e decidimos ir até lá para olhar a catedral. A fila da entrada é imensa, por isso escolhemos ficar de fora observando os detalhes da arquitetura gótica. Depois de tirar algumas fotos, seguimos nosso trajeto, dessa vez indo para a região do Les Halles em busca de uma loja de discos que indicaram pro João. Não encontramos. No lugar, encontramos uma venda de crepes com mais um parisiense muito gentil. Diz que ama o Brasil e, quando eu respondo que amo a França, ele fala que isso é ótimo e que quer que eu me sinta muito bem vinda. Até irmos embora, ele nos chama de “meus amigos” e inclusive solta um “oh, I love you, my friend!” pro João.

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Paris Pottermaníaca

De lá, vamos caminhando em direção de onde aconteceria o show do Slint. No caminho, encontramos um sebo de discos e livros. Levei o “Madame Bovary” por 3 euros, o João encontrou o vinil duplo de “Blonde on Blonde”, do Dylan, por 6. Não acreditamos no preço baixo de tudo e, por isso, acabamos levando bastante coisa. Na hora de pagar, perguntamos como chegar ao local do show e o vendedor, prestativo, nos dá a explicação.

Chegamos e entramos sem problemas mas, antes mesmo de o show começar, começo a me sentir mal. Depois das primeiras músicas, não aguento mais. Quando estamos indo embora, na metade do show, um segurança nos encontra e começa a perguntar se estou passando mal e diz que vai me levar até a enfermaria. Ele só fala francês, e eu to me sentindo tão mal que não consigo participar do diálogo, então o João tenta explicar pra ele o que eu to sentindo. Depois de um tempo, consigo falar que me sinto muito fraca, que acho que vou desmaiar e que minha cabeça tá explodindo de dor.

O responsável pela enfermaria chega logo em seguida e, como ele fala inglês, a comunicação fica mais fácil. Ele mede minha pressão (bastante baixa) e meus batimentos cardíacos (um pouco altos), me traz água e diz que devo ficar deitada por alguns minutos. Logo ele e o João engatam uma conversa sobre a Copa do Mundo, ele fala que é de Camarões, que vamos nos enfrentar logo, que tem um parente que é professor na USP, que nunca foi ao Brasil mas quer muito ir.

Depois de alguns minutos, ele me pergunta se estou me sentindo um pouco melhor. “Um pouco”, respondo. Então, eles falam que, para que a gente não perca o show, eles nos levarão até a área do camarote, onde tem lugar para sentar. É impossível não lembrar da vez em que passei mal no show do Paul Banks, no Cine Joia: lá, cada vez que tentava sentar em algum lugar, inclusive o chão do espaço, um segurança me expulsava. Finalmente, saí da área principal e sentei na escada que leva ao fumódromo. Novamente um segurança me falou que isso era proibido, “regras da casa”, e que se eu tava passando mal que fosse embora, que se eu tava precisando sentar que saísse da casa e sentasse na calçada, que foi o que acabei fazendo.

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Voltando à Paris: o segurança que me levou à enfermaria me explicou que, se eu sentisse qualquer coisa ruim de novo, deveria apertar um botão que ele viria me ajudar. Depois, ele ainda voltou duas vezes para saber se eu estava melhor. Nesse meio tempo, descobri que havia perdido minha jaqueta de couro preferida (com meu celular dentro) durante a confusão. Ele prontamente fala que vai procurar e volta, alguns minutos depois, trazendo a peça de roupa. “Mon Dieu, je t’aime, merci beaucoup!” respondo na hora, e dá pra ver a surpresa misturada com desconforto pela reação que, no Brasil, seria tão comum.

Quando o show acaba, ele ainda faz questão de saber como estou e me fala que preciso repousar bastante pra ficar bem. Garanto que vou obedecer.

Hoje, já amo Paris, sem dúvida. E os parisienses que, até agora, foram todos muito lindos comigo, quebrando cada um dos estereótipos que ouvi até agora.

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1 Comment

  • Jane
    6 years ago

    Adorei tudo!!!!
    A Rua Nicolas Flamel mais ainda!
    Que bom que ja fizeste as pazes com Paris! E o João tambem está adorando pelo jeito!
    “juntos em Paris…”

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