The National em Barcelona ou “Como o mundo pode continuar o mesmo?”

The National em Barcelona ou “Como o mundo pode continuar o mesmo?”

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Toda vez que tenho uma experiência tão incrível quanto hoje fico pasma quando entro no Facebook e percebo que as vidas do resto das pessoas continuam as mesmas, sem nenhum impacto da catarse maravilhosa que eu tive. Talvez seja auto-centrismo, embora eu acredite que é mais deslumbre, mas me surpreende como um evento desse tamanho pra mim – e pra mais tanta gente – possa ser inexistente para o mundo todo. O show do The National – minha primeira experiência ao vivo com essa que é minha banda preferida – no Primavera Sound, em Barcelona – na minha primeira viagem internacional – representa exatamente isso. Como pode o resto do mundo continuar igual?

No dia anterior, decidimos que valia a pena perder Body/Head (o segundo show que eu mais queria ver no festival inteiro, porque sou muito fã da Kim Gordon) para tentar pegar a grade no National. Chegamos no festival lá pelas 19h e pouca, embaixo de uma chuva forte que levou todo mundo para os abrigos da área de alimentação. Assim que a chuva aliviou – e o dia nos presenteou com um arco-íris duplo – descemos até o palco onde aconteceria o show do National para esperar. Logo atrás da grade e do espaço protegido pelo metal inferior, onde poderíamos nos refugiar em cima, havia uma imensa poça de lama e água, onde os tênis facilmente afundavam. Contornamos o palco até chegarmos em segurança no melhor lugar que a gente poderia conseguir. Resta esperar.

00h20 está marcado para começar a apresentação. Antes de eles subiram ao palco, o telão acende, mostrando cenas dos bastidores. Matt, seu copo de vinho, os Dessner e os Devendorf conversam. Quando eles começam a sumir do vídeo, aparecem no palco. To com a câmera na mão. Me dou duas músicas – coisa de cinco minutos – para tirar algumas fotos que possam guardar algum registro físico do momento. Todas as melhores fotos e os melhores momentos que eu poderia ter registrado acabo perdendo: acontecem depois, é claro. Mas em nenhum momento me arrependo da escolha: a marca deixada na memória é poderosíssima.

Eles abrem com “Don’t Swallow The Cap” e em seguida engatam “I Should Live In Salt”, uma das minhas preferidas do último disco. Em “Mistaken for Strangers” o Primavera Sound inteiro pula – menos eu, em transe completo, imóvel de frente para o palco exposto de forma quase divina na minha frente. Na quarta canção, “Bloodbuzz Ohio”, o rímel começa a escorrer pelo meu rosto. Seria, claro, o show que mais chorei na vida.

Em algum momento por ali, Matt atira o copo que estava bebendo pra plateia e a bebida escorre em mim. Sinto um cheiro forte de álcool. É vinho, o João me fala, indicando a garrafa que em seguida o vocalista já pega no palco.

Aaron Dessner
Aaron Dessner (foto por Clarissa Wolff/Catárticos)

Do meu lado esquerdo, um moço falando em espanhol pulava e levantava os braços com uma energia impressionante. Atrás de mim, estava um alemão ansioso que havia me perguntado antes do show o quanto eu amava a banda e de onde eu vim para vê-los. “From Brazil? Just for Primavera Sound? Just for The National?” ele perguntou, surpreso. “I really really really love them”, repeti o que havia dito assim que ele feito a primeira pergunta.

No palco, Matt está, como sempre, completamente possuído. Canta inclinando o suporte do microfone e sai, levando o microfone e deixando o suporte balançando perigosamente atrás dele. Muitas vezes, atira o microfone no chão, com força: “That was not my fault”, ele declara pro controlador de som. Todo mundo ri.

Fica difícil sentar aqui e tentar colocar em palavras cada detalhe, cada sentimento. A forma carregada de decepção com que ele grita “FUCK” em “Demons”, todas as vezes que ele bate o microfone na cabeça, que fecha os olhos e canta quietinho, quase parado, no meio do palco. Ou às vezes que extrapola, chega na beiradinha, um pedaço do sapato já em contato com o ar, ameaçando cair lá de cima, cantando furiosamente. O palco parece um playground para ele, que escala as caixas de som, ergue e bate o suporte do microfone, pula, se atira, grita. Todo mundo grita junto.

Nas vezes em que abre mão dos holofotes – poucas, como todo bom aquariano – o palco é dominado pelo carisma intenso dos irmãos Dessner, que se exibem em performances envolventes com suas guitarras. Bryce, à minha esquerda, ergue as mãos e pede que a gente bata palmas a quase todo momento. Aaron também, mas bem menos vezes. “O Bryce é muito exigente, meus braços tão doendo”, meio reclamo, sorrindo, pro João.

Bryce Dessner
Bryce Dessner (foto por Clarissa Wolff/Catárticos)

“I Need My Girl” transforma meu choro em soluços. Em “Slow Show”, especial por motivos pessoais, a banda convida Justin Vernon pro palco. Aquele riff conhecido de violão toma conta de tudo e não consigo parar de chorar e pensar como aquilo tudo é tudo o que eu tava esperando esse tempo todo. Nos últimos versos da canção, o Bon Iver substitui a voz original, cantando com seu falsete característico e eu penso comigo, “FUCK BON IVER”, sai daí, deixa o Matt, por favor!

“Graceless” começa com Matt fazendo uma dancinha estranhada, realmente nada graciosa, em cima do palco. Parece um catarse para ele também, que canta olhando pra cima, em uma conversa íntima com deus. “God loves everybody, don’t remind me”, ele grita, para alguns momentos depois sentenciar que “I figured out how to be faithless”. A performance é espetacular, e é tudo centrado naquilo que importa: a música. A emoção está ali, na bateria pulsando, na forma como o Bryce bate a guitarra no chão para conseguir a sonoridade que ele quer, na entonanção raivosa que Matt dá para “hate” em “you can’t imagine how I hate this”. Quando a música acaba, João olha pra mim e fala que vai tocar “About Today”. É incrível que, muito antes de começar, só com um olhar sobre a posição dos integrantes da banda e dos instrumentos, ele sempre sabe qual música vai tocar. Meu coração dispara. “About Today” é, até hoje, minha música preferida da banda e uma das preferidas da vida. Ainda hoje lembro da primeira vez que ouvi, em São Paulo, em um quarto de hotel, e chorei já naquela vez – e todas as vezes seguintes que ouvi, em ônibus, metrô, na rua. Ao vivo, a experiência se torna transcendental. Volto à pergunta do início: como o mundo pode continuar o mesmo?

O show já está para acabar, e eu e o João concordamos que o setlist não foi o melhor que poderia ter sido. As escolhas da banda para festivais costumam ser músicas mais agitadas, e o foco é, claro, para o último disco. Faltaram muitas músicas indispensáveis como “Runaway”, do “High Violet”. “Pink Rabbits”, nossa preferida do “Trouble Will Find Me”, também ficou de fora. “England” poderia ter sido facilmente trocada por “Green Gloves”, com uma poesia melódica muito superior, na minha opinião. “Daughters of The Soho Riot” é uma escolha muito melhor do “Alligator” que “Abel”. E adoraríamos ouvir “Brainy” e “Karen” ao vivo. Mesmo assim, mesmo assim, saí de lá maravilhada. Jamais vou poder escrever qualquer coisa que possa transmitir o que realmente senti nesses momentos.

Matt Berninger
Matt Berninger (foto por Clarissa Wolff/Catárticos)

A comparação com Arcade Fire, headliner do dia anterior, é inevitável. Não sou a maior fã da banda e não consigo me maravilhar por apresentações focadas em teatros e enfeites como foi essa. No National, as roupas são sóbrios ternos pretos, não há bonecos de espelhos que refletem a luz, não há pessoas fantasiadas subindo no palco. Em Arcade Fire, saio de lá pensando na produção, que o show deve ser caríssimo, que eles transformaram o setlist em uma performance quase circense. The National é só sobre a música, porque no fim, pra quem realmente ama esse tipo de arte, é só o que importa.

Quando “Mr. November” começa, sei que ele vai descer do palco. Ele sobe para na plateia quase na minha frente, ali, ao alcance da mão. Ele corre pela grade inteira, todo mundo perde a sanidade e tenta encostar nele, tocar, sentir um pouco daquela pessoa responsável por mudar nossas vidas com arte. Quando ele volta correndo, todo mundo estica os braços. Eu, boba, não sou acostumada a ficar na grade e tenhos os meus recolhidos, apenas observando. Quando ele passa na minha frente, ergo a mão para um high five. Ele olha diretamente pra mim e bate na minha mão antes de correr novamente pro palco. Dá pra ver tudo isso no vídeo abaixo.

O show termina com “Terrible Love”, responsável por musicar a sensação exata daquela experiência: it takes an ocean not to break.

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