Diário de viagem, parte 2 – Primavera Sound em fotos (e alguns textinhos)

Diário de viagem, parte 2 – Primavera Sound em fotos (e alguns textinhos)

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Primavera Sound começou pra mim meses atrás, quando, na sala da Deezer, o João me mandou o vídeo com o line-up do festival. Fiquei 30 minutos me dividindo entre o filme/anúncio e o meu trabalho, contendo uma exclamação de euforia nos primeiros acordes de “Fake Empire”, com a janelinha do Facebook pirando enquanto eu e o João digitávamos THE NATIONAAAAALLLLL um pro outro.

Antes de começar os relatos cheios de fotos que eu tirei no festival, quero exibir o vídeo em que dá pra ver o Matt Berninger me dando um high five no fim do show do The National:

Chegar no festival foi uma maravilha. Entrar, nem tanto.

Como trabalho na Deezer, parceira dessa edição do festival, ganhei um desconto pro passe de três dias. Acontece que ninguém sabia o que eu deveria fazer com o voucher impresso que eu tinha. Cada pessoa me mandava para um lugar diferente – passei por três filas na entrada, pelo ônibus branco, e por duas filas da seção de convidados. “Sinto muito que a última pessoa mandou você vir aqui, mas na verdade você deve ir lá” se repetia em cada lugar que eu parava. Quando finalmente encontrei o lugar certo, percebi que esqueci meu passaporte com o João, que carregava tudo na mochila e já tinha entrado pela parte de imprensa. Liguei pra ele e pedi pra ele me entregar o passaporte. Quando deu tudo certo, perguntei pra moça se podia tirar a pulseira. Ela disse que não, que a pulseira era válida pros três dias de festival. “É a única coisa que eu preciso pra entrar, então?”. “Sim”, ela me disse, e entreguei todo o resto para o João colocar na mochila. Quando finalmente chego na porta do festival, o cara me fala “na verdade, a pulseira não basta… a moça não te entregou um cartão?”

Mas valeu a pena.

1. O que é a paisagem desse festival?

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2. Não, sério. Olha isso.

Paisagem maravilhosa do festival.

Depois de entrar, penso que não noto tantas diferenças desse festival pras nossas versões brasileiras, salvo a escalação de bandas e a paisagem absurda com o mar ao fundo. Aos poucos, começo a perceber que não é bem assim: não há filas para quase nada lá dentro, é possível encontrar banheiro e lixos em quase qualquer lugar e o uso de fichas é restrito apenas a alguns restaurantes da área de alimentação. Até umas 21h, ainda há papel higiênico nos banheiros químicos, mas a água para lavar as mãos já acabou e, mesmo com lixeiras imensas em curtos espaços, as pessoas ainda largam muito lixo no chão.

3. O primeiro dia começou com Real Estate, cujo hype justificava a plateia cheia mesmo às 18h, num tempo ensolarado

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4. Segue com o Midlake

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5. E seu show poderoso

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6. Para em seguida encontrar as meninas do Warpaint

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Que invadem o palco vestindo o que parece ser a primeira coisa que elas encontraram no armário e um cardigã da avó por cima. Adoro essa expressão. É impossível não pensar direto no show do Savages no Lollapalooza, que me impressionou fortemente, onde todas as integrantes vestiam preto e traziam uma intenção consciente com a aparência. A linda vocalista, Jehnny Beth, tinha o rosto adornado por rímel, blush e batom. A impressão que fica é que nunca é suficiente uma mulher ser talentosa e fazer (muito) boa música: as exigências – absurdas – falam que mulher precisa sempre estar bonita, arrumada, representar alguma coisa com a aparência.

7. Super felizes

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Por isso, gosto do descaso das meninas do Warpaint, completamente desarrumadas, raiz do cabelo por fazer, dançando e se divertindo no palco como se realmente não devessem nada a ninguém. E a música delas, com sobreposições vocais maravilhosas e melodias envolventes, bom, eu adoro.

8. Com seus cabelos coloridos

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9. E lindas vozes

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10. E aqui vai uma foto mais conceitual pra compensar a falta de imagens boas do show (lindo) do Neutral Milk Hotel

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11. Os refletores aguardando o show do Arcade Fire

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Do outro lado do palco onde aguardávamos o show, o Queens of the Stone Age tocava, o que tornava a espera ainda mais desagradável. Josh Homme e tudo o que eu mais odeio na música. Para amenizar a situação, comecei a prestar atenção na conversa de algumas meninas britânicas perto de mim.

– Então, eu ganhei ingresso pra esse festival! Foi num concurso de air guitar na televisão, foi inacreditável – uma delas contava. – Uma hora a gente tava lá e chegou um cara muito bêbado falando que tinha se perdido e não sabia onde tava a barraca dele e eu disse “ta bom, vou te ajudar, como é tua barraca?” e ele disse “aaaahhhh eu não faço ideia!”. Aí, tipo, amigo, não tem nada que eu possa fazer por você.

A outra menina comenta algo quando a primeira volta a falar:

– Tem um festival agora em outubro na Islândia que eu queria muito ir. Eu consegui ingresso pra ir no Sigur Rós em fevereiro, não, março passado – a outra menina comenta algo. – Então, ele comprou pra mim, pro meu irmão e pra ele, mas a gente não conseguiu ir porque ele tava doente e no fim foi até bom porque uma semana depois ele morreu. Não me arrependo. Quer dizer, um pouco. Ah, algumas coisas são mais importantes que shows – ela conclui.

12. Que eu, finalmente, pude ver

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13. Mas não me apaixonei (me desculpem!)

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Quando Arcade Fire começa, estou esperando algo tão incrível quanto foi o Bruce Springsteen, porque foi o show preferido do João no Lollapalooza e eu não pude ver porque tava em casa passando mal. Talvez por isso tenha sido difícil amar a apresentação – minhas expectativas eram altíssimas, e não é uma banda que eu realmente ame. Gostei bastante, e inclusive chorei de soluçar do primeiro ao último acorde da minha música preferida deles, mas não conseguiu ser transcendente. Não para mim.

14. No segundo dia, teve Slowdive

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(Sem fotos porque tava chovendo, então fiquem com essa genérica mesmo.)

Eu nunca tinha visto um show em festival na grade. A emoção compartilhada ali pelos fãs que assistiam à volta da banda, muitos vestindo a camiseta com o elegante logo serifado do Slowdive, era contagiante de uma forma impressionante. Se o adjetivo “poderoso” foi o que eu escolhi pra descrever o show do Midlake, falta aqui um adjetivo à altura dessa experiência que, para cair nos maiores dos clichês de shows, foi realmente catártica. Costumo ter um acurado senso de tempo durante shows e saber quando está para acabar. Por isso, foi um absurdo quando o João vira pra mim e fala: “caralho, já foram 50 minutos de show!”. Não acredito. Não tem como, parecem que foram 20. To completamente apaixonada pelo carisma da Rachel, envolvida pelas sobreposições instrumentais e pela emoção geral de todo mundo que tá ali compartilhando esse sentimento. Pro fim do show, Rachel anuncia que terão de excluir uma das músicas do setlist porque estavam com o tempo apertado e o Pixies tocaria em seguida no palco oposto. Da platéia, alguém grita o que todo mundo tava pensando naquele momento: “FUCK THE PIXIES!”. Quando o show acaba e eles se despedem, um coro de “NOOOO” seguido por gritos chamando a banda de volta tomam conta do lugar. Eles não voltam, e logo, do outro lado, o Pixies começa seu show. Saio impressionada com essa apresentação que excluiu minha música favorita – “Dagger” – e a música que me apresentou ao grupo – “Alison” – e mesmo assim conseguiu ser tão marcante. “Show do festival até agora”, o João comenta, certeiro na condição temporal.

15. E daí…

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No segundo dia, resolvemos chegar cedo para pegar grade pro show do The National. Eram umas 20h. Nem eu nem o João tínhamos antes feito algo do tipo – chegar cedo e se esforçar para pegar grade em um show. Mas nos preparamos levando sanduíches, donuts e água. Chovia muito, e não levamos guarda-chuva porque, acostumados com os festivais brasileiros, acreditamos que a entrada com o acessório fosse proibida: não era. Lá dentro, todo mundo desfilava seu modelo diferente e mantinha o corpo razoavelmente seco, em vez de chegar ensopado na frente do palco (como foi o nosso caso). Às 20h30, começou a tocar Haïm do outro lado do espaço e pudemos ouvir o som ao longe. A mesma coisa aconteceria mais tarde com o Pixies, que já vimos ao vivo no Lollapalooza brasileiro.

16. THE NATIONAL, PORRA!

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The National nos esperava em seguida, e, como eu contei aqui, foi a coisa mais maravilhosa que já vivi na vida.

17. O Bryce ficava mandando a gente bater palmas toda hora

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18. E o Aaron bem mais tímido

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19. Show da vida <3

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20. No terceiro dia, tinha até criança por lá

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21. E Caetano cantando pra uma plateia imensa

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22. Nessa paisagem maravilhosa, eu já falei isso?

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Depois dos três dias, mais coisas sobre a estrutura me chamaram a atenção. Pra começar falando mal, achei péssima a seção de pista VIP: a frente do palco era dividida em duas e uma delas era exclusiva para VIPs nos principais shows. Mas o ponto negativo é compensado por outros muitos positivos, entre eles a comida do festival: com uma variedade imensa, a gente podia escolhar entre comida japonesa e mexicana, massas, sanduíches, várias tendas de hambúrguer, e havia até um espaço só com pratos vegetarianos. O preço também era surpreendente: hambúrguer a 5 euros, batata frita a 3. A massa, havia experimentado mais cedo no shopping que fica em frente ao festival. Custava 4,95 euros. Dentro do Primavera Sound, a inflação era de apenas 5 centavos, minúscula se comparado à forma que isso funciona no Brasil. Além disso, experimentei hambúrguer em 3 tendas diferentes e todos eles eram deliciosos, com carne de verdade, salada, queijo. Mesmo pensando na conversão da moeda, vale muito mais que aqueles hot pockets horríveis sendo vendidos por 15 reais no Lollapalooza. Ainda falando de comida, a organização não proíbe a levada de alimentos para o festival. Vi gente trazendo de casa baguetes e pacotes de jamón, salame e queijo, para montar na hora seu próprio sanduíche. Também era comum ver salgadinhos e chocolates saindo das mochilas dos presentes.

23. As tendências do Primavera Sound trouxeram menos coroas de flores e mais gente fantasiada (isso mesmo, de dragão, tigre, gatinho, você escolhe) e lantejoulas/glitter no rosto

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Que eu obviamente esqueci de fotografar, então fiquem com essa foto minha. Também vejo muitos britânicos e alemães, além de espanhóis, é claro, alguns brasileiros, mas apenas um grupo de franceses e de italianos.

24. Daí veio Godspeed You! Black Emperor com seu setlist super longo porém com apenas 5 músicas

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25. E um pouco de misoginia com o Kendrick e seu pênis maior que a Torre Eiffel

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26. Terminamos com Cloud Nothings

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27. E o crowd surfing muito frequente no show deles

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28. E foi assim

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29. Nesse lugar maravilhoso

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Ainda é importante ressaltar um fato sobre as distâncias: o último Lollapalooza é só o jardim de infância pra esse festival, com espaços realmente imensos entre os palcos.

30. O Primavera Sound 2014 <3

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O cansaço é imenso, mas a alegria é maior. Em 2015, se tudo der certo, voltaremos.

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