Diário de viagem, parte 5 – Au revoir, Paris!

Diário de viagem, parte 5 – Au revoir, Paris!

60Shares

Domingo à noite é quando começa a bater a tristeza da despedida que chegará em breve. Nossa rua, a Boulevard Bonne Nouvelle, é toda composta de prédios antigos, brasseries com comidas gostosas e luzes vermelhas que acendem durante a noite, muitas árvores, o sinal velho e charmoso indicativo de estação do metrô, bancas de jornais, flores e vários pequenos detalhes que fazem você se apaixonar um pouco mais cada vez que acorda de manhã para comprar pão quentinho para comer em casa com o queijo delicioso (e fedorento) que só tem aqui.

Nós caminhamos mais uma vez pela nossa rua à noite, em fervorosa mesmo no domingo. As brasseries lotadas, pubs irlandeses transmitindo jogos, moças e moços bem vestidos caminhando sem pressa para o seu destino, táxis cruzando a rua e pintando o ar com luzes verdes e vermelhas. Nós paramos em uma brasserie perto de casa e peço o que já é meu prato favorito: tartare de boeuf com batatas fritas e coca zero (que ainda não me acostumei, por causa do gosto diferente). As mesas minúsculas e amontoadas na calçada, as pessoas felizes, taças de champagne, fumaça de cigarro e o francês bonito se dissolvendo no ar da noite em conversas.

Os talheres prateados são imensos, assim com os pratos brancos, e mal cabem na mesa pequena, de forma que precisamos alugar a mesa ao lado para colocar os acompanhamentos e refrigerantes. Enquanto comemos, uma moça compra um buquê de rosas brancas e vermelhas de um vendedor que passa na rua. O gosto é maravilhoso, o ar noturno é revigorante e a vontade é de ir embora nunca. Quero ficar aqui, quero morar aqui, quero ser parte dessa cidade deslumbrante e encantadora em cada pequeno detalhe que meus olhos cobertos por lentes fotográficas encontram a cada esquina.

Os barulhos de buzina anunciam o que vem pela frente e logo um carro todo adornado de renda, flores e branco passa exibindo um casamento que acontece. Da janela do automóvel preto, que anda devagar pelas ruas de Paris, dá pra vislumbrar a noiva, coroa brilhante na cabeça, sorriso radiante ainda mais luminoso no rosto. A buzina dos carros é a felicidade compartilhada por quem cruza seu caminho, que nos atinge também, meros observadores distantes.

É no caminho de volta para casa, completamente envolvida pelo charme desse lugar, que começo a chorar. Não quero dar “adeus”, mas já que é necessário, que seja no francês “au revoir”, que literalmente significa “até nos revermos”. Volto logo, Paris.

*

Arco do Triunfo fotografado na pressa, no meio da rua, com carros buzinando
Arco do Triunfo fotografado na pressa, no meio da rua, com carros buzinando

O último dia em Paris trouxe passeio pelo Champs-Elysées e pela Avenue Montaigne, por onde tenho vontade de passear há anos. Como ex aluna de Moda, era essencial encarar de perto, em Paris, as lojas dos designers que sempre admirei. Pensava que ver de perto as vitrines com as criações tão especiais me faria sentir o coração disparar como quando encarei as obras de arte no Louvre, mas a avenida só me trouxe sensações estranhas. Meninas de salto e sacolas da Dior desfilando pela calçada ao lado de carros de milhares de euros e eu só conseguia pensar que o que sustenta esse estilo de vida é a mesma desigualdade econômica que deixa miseráveis milhões de pessoas. Um pouco mais pra frente, a cena icônica: escorada na vitrine da Chanel, uma moradora de rua pedia moedas para comer.

DSC_0081---

A vida de glamour e moda a que eu tanto aspirava anteriormente parecia um sonho egoísta de anos-luz atrás e a tristeza de encarar essa realidade e essa mudança tão grande na minha história e nas minhas paixões foi muito forte. Saí de lá sentindo um peso imenso.

O dia ainda trouxe outra experiência parecida: a Boulevard de Clichy, onde fica o Moulin Rouge. Lembro que vi o musical, de 2001, escondida da minha mãe, na casa de uma amiga. Impressionável como sou desde pequena, mamãe sabia que a história envolvia drama demais, tristeza, morte, prostituição, desespero e cores intensas e que eu seria sugada para dentro daquele mundo no momento em que assistisse ao filme. Foi o que aconteceu, é claro, porque mãe sempre sabe, por isso o Moulin Rouge precisava estar no meu roteiro. Caminhei pela rua observando a quantidade exorbitante de sex shops espalhadas pela calçada, de vitrines lotadas de filmes pornográficos, mulheres infláveis, lingeries provocantes e mais uma quantidade imensa de símbolos opressores. Quando as luzes neon não vinham dos sex shops, vinham de clubes de strip-tease, com contornos de bundas e seios ou silhuetas inteiras iluminadas como mercadoria. Dessa vez, foi o feminismo, outro espectro da minha consciência social, que destruiu esse pedaço do meu passado.

Saí dessa rua suja, com um cheiro horrível, dessa vez me sentindo leve. Essa é uma paixão que com certeza dá orgulho de abandonar.

DSC_0041---

DSC_0058---

DSC_0130---
Mais noivas em Paris

DSC_0203---

*

No dia seguinte, nossa peregrinação nos levou a Versailles. Nos perdemos em um trem que foi ao interior da França e acabamos chegando apenas às 13h no Palácio, pro meu pânico completo que tinha certeza que cinco horas era muito pouco para aproveitar o espaço. Era, com certeza, mas aproveitamos de forma plena o tempo que tivemos.

E que experiência.

A fila imensa para entrar no palácio me fez virar para os jardins primeiro e seguir para o domínio de Marie Antoinette, outra grande fascinação que sempre tive. Meu ingresso era o passaporte que liberava o acesso a toda parte, por isso sabia que tinha muito para ver. E não tem palavras para explicar a sensação de caminhar, mesmo na chuva, mesmo encharcada, por aquela paisagem maravilhosa. O jardim, o verde, as esculturas naturais e as de pedra, tudo me transportava para uma dimensão alternativa em que só existia esse deslumbre maravilhado de saber que você está vivendo algo extraordinário. E realmente estávamos.

Enquanto seguíamos para o Petit Trianon, sem podermos nos dar o luxo de perder tempo nos embrenhando pelos labirintos e caminhos por dentro das florestas laterais que cercam o espaço aberto do jardim, pensei em todas as pessoas que caminharam por lá antes. No Petit Trianon, me dei horas para explorar cada ambiente, pintura, detalhe, lustre, padrão de estampa, sala, parede, porta. Cada vislumbre é de encher os olhos, uma pequena obra de arte da história exposta, naquele momento, exclusivamente para o nosso deleite. Que foi imenso.

Quando voltamos caminhando, já eram 16h30 e o sol, tímido, começava a mudar o tom do jardim. A fila do palácio já havia acabado e entramos sem problemas, quase 17h, limite para a entrada de visitantes. A última hora passamos conhecendo em excursão, visto que o castelo estava lotadíssimo e era impossível circular em liberdade, os espaços dos antigos reis da França. O Palácio de Versailles é sem dúvidas muito mais luxuoso e exagerado que o pequeno castelo de Marie Antoinette, lotado de estamparias ricas, dourados, veludos, esculturas, pinturas, lustres. A reação do meu namorado ao entrar na sala dos espelhos explica um pouco a sensação: “é com certeza a coisa mais linda que já vi na vida”. Mesmo assim, a quantidade de pessoas e o passeio truncado por causa disso tornam a experiência muito menos poderosa do que poderia ser.

Só que nada seria, para mim, mais sublime que os recantos de Marie Antoinette. Por isso, a hora de ir embora foi leve. O sentimento de que precisamos voltar estava lá, mas a certeza de ter aproveitado da melhor forma também. Voltamos a Paris, prontos pro adeus.

DSC_0435---
Sala dos Espelhos, Palácio de Versailles
DSC_0443---
Sala dos Espelhos, Palácio de Versailles

DSC_0304---

DSC_0280---

DSC_0486---

DSC_0457---

DSC_0344---
Eu no Templo do Amor, o dia nublado e o Petit Trianon ao fundo
DSC_0385---
Eu no jardim de Versailles, com o palácio ao fundo, chorando porque tenho que ir embora
DSC_0297---
+ fotos no espelho
60Shares

Related Stories

1 Comment

Leave a Comment

Leave A Comment Your email address will not be published