Em defesa do amor: porque Love é a melhor série sobre relacionamento dos últimos tempos

Em defesa do amor: porque Love é a melhor série sobre relacionamento dos últimos tempos

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Eu tenho uma mania meio insuportável às vezes de achar que, quando eu acho algo incrível, é claro que todo mundo também acha. Me deparar com um monte de gente compartilhando um texto criticando Love, a série original do Netflix que recentemente estreou a segunda temporada, foi no mínimo desconcertante. E o texto, pra mim, não fez sentido. Por isso resolvi vir aqui, em defesa do amor (yes, pun intended), para dissecar porque essa série é tão maravilhosa.

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1) Os criadores

O primeiro erro é definir Love como uma criação de Judd Apatow, ignorando, pra mim, quem fez a série especial. Lesley Arfin é autora de um livro sobre vício em heroína, foi colunista da VICE por bastante tempo e hoje escreve para Girls. Ela é uma das melhores amigas de Lena Dunham, e, mais importante, uma voz narrativa espetacular. Mickey tem muito de Lesley, que é casada com outro criador da série, o também protagonista Paul Rust. Meu primeiro conselho a qualquer um que leu o texto seria: vai conhecer a Lesley, você vai se apaixonar. Ela é uma mulher, escritora e roteirista incrível, e ignorar a participação e a importância dela nessa série é um descuido gigante. Além disso, 13 dos 22 episódios foram escritos ou co-escritos por mulheres.

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2) A questão do vício

Me chamou a atenção que durante os quase 10 parágrafos, não foi citado a questão primordial, o fio condutor da série, na minha opinião: o vício de Mickey. Talvez isso não seja tão óbvio para alguém que não está em nenhum programa e não conhece tão de perto os mecanismos do vício. Mas narrativas sobre o vício existem de sobra – eu mesma vi Christiane F aos 13 anos. Sobre recuperação, nem tanto – e, mesmo as que conquistam o mundo explorando essa experiência, como aconteceu com a auto-biografia de James Frey, foi o fato de rejeitar os 12 passos que chamou a atenção. Noventa Dias, de Bill Clegg, talvez seja o melhor retrato atual do que é enfrentar os primeiros meses sóbrios, do que é entender o programa, o que os doze passos significam, o que um poder superior significa. E, mesmo assim, estamos no campo de memórias.

A ficção peca bastante em retratar o programa. Em Breaking Bad, em um encontro do NA, vemos depoimentos que mais seriam pequenos resumos do que levou cada um até ali. Os escritores parecem sofrer do egocentrismo do protagonista: como é a primeira vez do personagem ali, parece justo que todos que estão em volta sirvam apenas a ele e, por isso, se apresentem. Acontece que a vida real não é assim, e o programa também não.

A primeira vez que vi o programa bem representado na ficção foi em Love. Cada detalhe – os depoimentos nas reuniões, a pressão, os gatilhos, a conexão entre os membros, a importância do apoio entre os membros, a conversa depois da reunião, os conselhos, o apadrinhamento – estava adequado. É óbvio: Lesley é membro há anos, foi coordenadora do programa, e com certeza sabe retratar o que uma recuperação significa.

E isso não é apenas um elogio à forma como os encontros são retratados, mas também à evolução de Mickey. Ao contrário do que as críticas parecem fomentar, o desejo de Mickey de permanecer no relacionamento diz muito menos sobre Gus do que sobre o comprometimento dela com a recuperação. Longe de ser um medo patológico de perder um cara que ela conheceu ontem: a insistência em fazer dar certo representa um compromisso em vencer os próprios padrões viciados, os próprios comportamentos auto-destrutivos, e crescer como ela merece. Reduzir esse comportamento dela a qualquer tipo de dependência de Gus é não apenas superficial como desrespeitoso com a recuperação da personagem.

De novo: talvez seja necessário ter participado do programa ou vivido o que Mickey vive e viveu pra entender como cada esforço ali é crucial, real, e admirável. Ela navegar para Gus, mesmo brigando, mesmo com os problemas – que ela também cria – é impressionante pra qualquer pessoa que tem a bagagem que ela tem. E isso não devia nos causar sentimentos negativos: pelo contrário. Nesse arco, se explora a narrativa de uma mulher superando traumas e vícios de uma vida inteira, e realmente investida na própria recuperação, de forma corajosa, forte e, mesmo cheia de defeitos, exemplar.

E ainda melhor: tudo isso é contado explorando subtexto, sem precisar explicar para o expectador cada detalhe do que está acontecendo. Os escritores confiam que nós teremos a capacidade de perceber como o vício e a recuperação impactam em cada – de novo, em cada – decisão e atitude de Mickey. Está tudo lá, sem precisar ser panfletário ou pregador.

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3) Os erros de Gus e Mickey

Love explora o dia-a-dia de um relacionamento, acompanhando telefonemas enquanto fazemos o café da manhã, situações chatas da nossa rotina, necessidades fisiológicas, aqueles momentos sem nada para fazer em casa… na contramão das narrativas de romance que são baseadas em grandes atos, Love é quase sobre o tédio, sobre a parte menos interessante da nossa vida, sobre os momentos mais banais que todo mundo vive. Assim como outros poucos romances – como a trilogia Antes do Amanhecer, Antes do Pôr-do-Sol e Antes da Meia Noite – em Love o importante são os diálogos, as reações automáticas, a forma como as relações humanas são construídas nos nossos momentos mais desimportantes.

Em vez de começar a cena do encontro com os dois sentados na mesa conversando, Love nos leva para acompanhar Gus e Mickey na fila do pedido, na espera pelo café, na procura por um lugar vago. E essa cena serve de exemplo para toda a construção narrativa da série: são nesses momentos que os personagens se revelam e se mostram para nós.

Os erros deles também são assim. Humanos, banais, honestos. A reação de Gus, alguém que não entende de vício e de recuperação, é compreensível: ele acredita que está incentivando a melhora de Mickey com suas atitudes, acredita que ela precise de alguém que seja quase um líder de torcida para cada dia sóbria. É só ao ir em uma reunião do Al-Anon que ele começa a entender que isso funciona como gatilhos para alguém em recuperação.

Agora, deixa eu falar: não é fácil conviver com pessoas em recuperação. Eu sei porque eu sou uma, e eu convivo e sou casada com uma. Os gatilhos são gigantes, as recaídas tão ali na esquina, e toda aquela coisa de “só por hoje” é tão importante porque nós mesmos não conseguimos lidar nem com nossas próprias pressões e expectativas. Viver e se relacionar com alguém em recuperação é como andar em um campo minado: você nunca sabe quando pode explodir. E você anda cegamente, sem nenhum mapa, sem nenhuma ajuda, porque você não tem nenhum tipo de referencial do que isso significa. Os esforços de Gus são bonitos – mesmo que errados. E é essa a importância do Al-Anon, tão bem retratada, para esses relacionamentos.

É por isso que ele comprar uma passagem surpresa para Atlanta tenha sido algo lindo, do ponto de vista dele, e desesperador, do ponto de vista de Mickey. Mas representar esse tipo de briga em que superficialmente as pessoas podem questionar por que Mickey age assim (tão “avessa” a atitudes românticas) é mais uma forma da série de mostrar como o relacionamento com alguém em recuperação é complexo. Mickey não fica, em nenhum momento, como a “errada” da situação – e o próprio Gus entende os motivos dela após a reunião no Al-Anon. Mas pra mim o principal é fugir dessa dicotomia de certo/errado ou romântico/louco. O que Love quer é nos mostrar que ambos estão fazendo o que acham que é certo, para si mesmos e para o relacionamento, e isso é um comum criador de problemas na nossa vida real, material: no fundo, falta comunicação.

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4) A beleza dos protagonistas

Sim, é cansativo ver mulheres lindas e maravilhosas se apaixonando por homens medíocres. Agora, reduzir o relacionamento deles ao fato de ela ser bonita e ele não é uma redução gigantesca de todas as camadas que Lesley & companhia querem explorar na série. Sim, ela é linda. Sim, ele é mal diagramado. A gente pode superar isso?

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5) As denúncias veladas

Love é especialista em trazer denúncias sociais sem ser panfletário ou pregador (não que seja ruim, eu sou a primeira a adorar e indicar um documentário que mostre a importância do feminismo radical de forma direta e bastante pregadora). Mas na ficção, esse tipo de denúncia em forma de subtexto, também presente em Master of None, é algo que me faz pirar: é o tipo de inserção, que não deixa de ser política, que é absorvida quase sem esforço pelo expectador. O poder desse tipo de discurso é inegável.

Por isso, quando temos um personagem que, sob o efeito de drogas, manifesta uma violência típica masculina e declara sem nenhum constrangimento a vontade de matar a namorada, eu queria aplaudir. O quão corajosa a série foi para mostrar que um personagem – que até então vivia o estereótipo do bonzinho bobão – tem dentro de si esse tipo de violência ensinada pelo sistema patriarcal! “Nem todo homem” o caralho. Sim, todo homem pode ser violento e misógino assim que o superego tira uma folguinha.

A forma como isso foi retratado na série passa longe de piada. A reação de Bertie, namorada do personagem, e o degringolar do relacionamento de ambos, faz questão de deixar claro o quão grave e o quão divisor de águas aquela revelação foi.

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Love pode não ser a série mais simples de digerir, mas eu garanto: vale a pena.

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