ENTREVISTA – Jehnny Beth, do Savages: “Você não pode ter paz sem fúria.”

ENTREVISTA – Jehnny Beth, do Savages: “Você não pode ter paz sem fúria.”

617Shares

“A música e as palavras têm o poder de acordar a consciência das pessoas”. A frase é de Jehnny Beth, vocalista do Savages, e não poderia ser mais verdadeira se tratando da banda: é com fúria e insistência que as quatro mulheres bombardeiam os ouvintes com explosões sobre emancipação. É impossível tirar os olhos do palco e qualquer pessoa na plateia pode sentir que algo realmente selvagem está acontecendo.

Em outro ambiente, parece difícil acreditar que essa força venha de quatro mulheres, especialmente a mignon Jehnny Beth. O rosto de traços finos, olhos pequenos e maçãs do rosto salientes transparece à primeira vista muito mais delicadeza do que ferocidade, e com frequência elas são jogadas ao estereótipo do que significa ser mulher e feminina. “Vocês parecem assustadoras”, é a reação carregada de ironia de Michael Gira, vocalista do Swans, uma das bandas mais sombrias da atualidade, quando as conhece pela primeira vez na Holanda. Uma semana depois, dessa vez na Polônia, a reação é outra: “a gente recebeu uma mensagem em que ele pediu desculpas pelo comentário estúpido. Ele disse que nos pesquisou online e que acha que somos impressionantes, que ele admira nossa sinceridade e a disciplina da nossa selvageria”, são as palavras de Jehnny.

“O nome Savages [Selvagem, em inglês] foi escolha da Gemma [Thompson, guitarrista]. A ideia era encontrar… bom, criar músicas pro palco. Esse era nosso objetivo principal, ser uma boa banda ao vivo, escrever músicas para apresentar para um público e, sabe, isso não mudou”. Sou jogada instantaneamente para o show no Lollapalooza Brasil no início desse ano. Sob um sol escaldante e um calor de torturar, as quatro chegaram vestindo preto da cabeça aos pés. Quer dizer, quase: a vocalista tomava o palco sobre scarpins rosa-choque. A impressão que tenho é que as roupas são partes essenciais das personas que cada integrante da banda cria para as performances, e que elas as vestem como armaduras. Jehnny concorda.

A imagem da banda é muito importante: Gemma Thompson tem a maior parte das ideias no que diz respeito às artes e Antoine Carlier, artista gráfico da gravadora Pop Noire, desenvolve esses conceitos. Foi ele também quem fez o vídeo para Strife. “Grandes diretores de videoclipes vieram atrás da gente, mas eles não tinham ideias que soavam interessantes, o que foi uma pena. Nós temos também uma boa relação com John Minton, que faz o visual do Portishead, fizemos o vídeo de Husbands com ele. E Gemma vai atrás de artistas novos e góticos, ela encontrou um e conversamos com ele, ele tinha recém saído da escola”, ela conta.

Além disso, Jehnny é sócia da Pop Noire, criada com o objetivo de lançar projetos e ideias de artistas que eles amam e em quem acreditam. “É um trabalho imenso. Não é fácil, com certeza não é o caminho fácil, sabe? Mas é interessante”, ela explica. Com as mudanças do mercado da música, ter um selo pode ser ainda mais desafiador. “Eu ainda compro discos e vinis, mas também uso serviços de streaming. Só que eu acho que o que eles pagam pro artista é uma piada. Essas taxas deveriam ser renegociadas pelas grandes gravadoras da indústria musical, porque são muito baixas, e os artistas não conseguem mais ganhar dinheiro. E claro que é muito difícil pra gravadoras independentes como a nossa. Nós só conseguimos sobreviver se o artista quiser trabalhar com a gente em vez de procurar só dinheiro”, ela continua.

De volta ao show, de cara a banda impõe presença, começando com um recado claro: a música de abertura é I Am Here, e não deixa dúvidas. “O barulho forte, o silêncio. A música como montanha-russa. Tudo isso é pras pessoas se perderem dentro”, explica. O processo de criação acontece em conjunto, já que cada um escuta muitas coisas diferentes. “As influências são muitas, mas no fim tudo se junta de uma forma curiosa. Acho que as diferenças tornam tudo mais interessante… tudo se junta, no fim. Você tem que fazer isso todos os dias e no fim funciona, sabe?”

Foto por Clarissa Wolff/Catárticos
Foto por Clarissa Wolff/Catárticos

A música como montanha-russa. Tudo isso é pras pessoas se perderem dentro.

Jehnny Beth é o pseudônimo de Camille Berthomier, que nasceu numa cidadezinha francesa no fim de 84. Com 18 anos, foi a protagonista de À travers la forêt, dirigido por Jean-Paul Civeyrac, que, pela primeira vez na vida, criou um filme para uma atriz. “Eu tava tentando entrar em uma escola em Paris e o Jean-Paul era um dos jurados da competição. Ele me ligou uma semana depois dizendo que queria fazer um filme pra mim. No fim eu acabei não indo pra escola porque não passei no exame, mas fiz o filme, que foi incrível. Foi minha primeira experiência como atriz em um filme profissional e eu tava tomada pela ideia de trabalhar duro e me dedicar ao máximo, mas eu ainda acho que poderia ter feito melhor. Eu era muito jovem, sabe? E daí eu não continuei atuando porque… bom, basicamente não consegui mais trabalhos”, ela ri. Além do longa-metragem de 2005, sua filmografia inclui Sodium Babies, de 2009.

Com 20 anos, conheceu Johnny Hostile e, com ele, começou a banda John and Jehn. Logo ambos se mudaram para Londres e ela passou a se dedicar completamente à música. “O nome Jehn veio daí, todo mundo me chama assim no mundo da música, Jehn ou Jehnny”, conta. A entrada para o Savages não foi planejada: Gemma e Ayse Hassan, baixista, estavam juntas tentando criar uma banda e propuseram que Johnny fosse o vocalista. Como ele não aceitou, o convite veio para Jehnny: “Eu sempre quis liderar uma banda como cantora. Gemma quis tentar comigo, eu achei que seria muito interessante. Eu tava escrevendo muita na época, lendo muita poesia, então começamos a trabalhar”.

Silence Yourself, o primeiro disco da banda, foi lançado em maio de 2013 e conquistou fãs por vários lugares do mundo. Um ano depois, desembarcaram na América do Sul. “Fiquei muito surpresa com a recepção. Eu me lembro do dia em que me dei conta do amor que vinha do público. Foi em Portugal, todo mundo era tão legal, cantando tão alto, engajando tanto… eu congelei!”, Jehnny conta, rindo de novo. Geoff Barrow (Portishead), Johnny Marr (The Smiths), Yoko Ono e PJ Harvey estão entre os admiradores da banda. “PJ Harvey veio nos ver algumas vezes e ela se tornou alguém com quem eu posso conversar sobre música e ideias e a vida como um todo. Eu acho que ela é uma das melhores artistas de todos os tempos, e eu aprecio muito que ela esteja do meu lado. Eu acho que é muito importante encontrar pessoas que possam te inspirar e te guiar, mas também te respeitem e te dêem confiança. E ela sabe disso. Depois de ter uma carreira na estrada por tanto tempo, tão nova, ela teve pessoas ajudando como ela me ajuda hoje. Ela entende isso, e quer passar essa sabedoria, por isso fiquei muito grata por ela ter vindo até mim”, completa.

No mesmo ano, a banda foi o assunto de uma reportagem extensa no site de música alternativa Pitchfork, em que a baterista Fay Milton conta ter passado por experiências terríveis com técnicos de som: já chegaram a ter um áudio péssimo e ouvir, ao fim da apresentação, um pedido de desculpas. Tinha sido proposital. “Não sabia que vocês eram boas”, foi a justificava babaca que o técnico deu. Por isso, questiono sobre sofrer machismo na indústria. Jehnny Beth fica em silêncio por um bom tempo. “É uma pergunta difícil”, falo. “Sim! Sim!”, ela concorda, avidamente. Quando organiza os pensamentos, isso é o que relata: “Com certeza, às vezes fico em dúvida se é paranoia ou realidade, mas eu to tentando não pensar nisso porque não quero reconhecer que existe. Eu prefiro pensar sobre outra coisa do que pensar sobre mim como uma mulher na indústria musical, sabe? Só quero pensar em mim mesma como artista. E houve algumas vezes em que senti raiva porque parecia que alguém estava se comportando de forma machista. E eu costumo falar se sinto que é o caso e, na minha experiência, assim que eu falo, desaparece. Não ter medo de falar é uma solução. Mas… bom, essa não é a minha luta. Eu to aqui pela arte e pela música, não to lutando por isso.”

De volta ao Lollapalooza, o setlist de 11 músicas termina com Fuckers. “Não deixe os filhos da puta te derrubarem”, Jehnny apresenta a música em um português hesitante. Entro em transe. Essa música só pode ter sido escrita por uma mulher, eu penso, enquanto ela declara ferozmente a ordem. “É sério? Você acha que Fuckers é uma música feminista? Uau! Isso é o máximo! Você é a primeira pessoa a me falar isso”, ela exclama, a voz carregada de surpresa. Eu não acredito. Ela ri: “Ela não foi escrita com essa intenção, mas se você acha que ela pode dar poder para as mulheres, eu acho ótimo! Essa música nasceu para trazer esperanças para mim e para todo mundo, de não ficar deprimido.”

É estranho pensar como pra uma banda de quatro mulheres, em que a emancipação seja um tema tão importante, o feminismo ou o fato de ser mulher não seja de certa forma central na formação. “Sabe… quando escrevo músicas eu nem sempre penso em mim como uma mulher. Às vezes sim. Outras não. E Fuckers foi escrita no aspecto humano de tudo, homens e mulheres, velhos e novos, pobres e ricos, todo mundo”, ela explica. “Mas é legal isso que você falou. Eu gosto.”

savages3

Você gostaria de romance sem sexo?

O mais novo projeto do Savages é o álbum colaborativo com Bo Ningen, lançado em 17 de novembro, com o nome Words to the Blind. Trata-se de uma faixa de 37 minutos com um poema sonoro: Johnny trouxe a ideia da parceria entre as duas bandas enquanto Gemma lia sobre o que acontecia no Cabaret Voltaire no início do século passado, o que inspirou o formato.

“Recentemente eu fui numa livraria em Londres a que nunca tinha ido antes”, Jehnny começa a falar das próprias experiências literárias. Sei que ela ganhou a biografia de Josephine Baker de presente de Natal de Gemma e adorou. “Fica em Whitechapel e se chama Freedom Press, é uma livraria anarquista. Eu não acho que poderia me definir como anarquista, mas não importa. Eu queria ver o tipo de literatura e poesia que eles têm. Comprei vários livros e comecei a ler. Me interessa porque eu acho que Fuckers é de certa forma uma canção anarquista, sabe, dar poder pras pessoas, dar uma voz… e, bom, foda-se o mundo. Então eu queria saber o que poderia encontrar lá, semânticas, ideias que fossem inspiradoras”, completa.

A leitura é uma das principais inspirações da vocalista na hora de escrever, assim como ver filmes e ouvir pessoas. Nas criações para o Savages, tudo se traduz na forma de raiva. Nos manifestos e relatos que ela escreve, porém, mesmo fortes, são despidos de agressividade: é serenidade que eles transparecem. “Eu amo me sentir raivosa no palco. Amo a adrenalina e a violência, amo demais. Mas falar dessa ambivalência… bom, é como falar, você gostaria de romance sem sexo?” Ela ri. “Isso jamais funcionaria. Você não pode ter paz sem fúria. Você precisa ter algo físico no que está fazendo, algo precisa acontecer com seu corpo assim como sua mente. E os dois vão muito bem juntos: esportes extremos geralmente são praticados por pessoas calmas, música extrema por pessoas doces. Sério, se você conhecer o pessoal que toca metal e hardcore você vai ver que eles costumam ser super gentis. Porque tem algo que eles estão botando pra fora, a escuridão está partindo”, reflete.

Esse certamente é um lado que ela conhece bem. O primeiro ano como líder do Savages trouxe uma coleção de desafios e levou Jehnny para a depressão e abuso de álcool, trajetória bastante comum no mundo da música. “Sabe…” ela fala, reflexiva. “A depressão pode chegar de surpresa, e eu provavelmente não sou a única artista que vai ter que lidar isso.” Aliás, embora a música tenha incontáveis nomes que se perderam entre a tristeza, a bebida e as drogas, pode-se argumentar que os artistas como um todo, de qualquer campo, são suscetíveis a esse sofrimento. A sensibilidade característica do ser artista também é a responsável pela forma como o mundo é absorvido e pelas dores sentidas ao extremo. “É um trabalho muito difícil. Tão auto-centrado”, ela acrescenta. “Você fica muito focada no seu projeto, no que você está fazendo, em se aperfeiçoar. Você se isola das pessoas à sua volta e se torna muito absorvida em si mesma. Então você acaba deprimida.”

“Houve muitas coisas que me deprimiram durante aquele tempo”, ela continua. “Tinha a bebida, mas também o cansaço, a gente não parava de fazer shows. Nós terminamos a turnê na América e fomos direto para uma turnê na Europa, nós tocávamos toda noite, eu bebia toda noite e de repente… eu perdi o controle. Eu perdi a mim mesma, na verdade. E fiquei muito abatida. Tivemos que cancelar alguns shows, e então eu fiquei me recuperando por meses”, ela conta, acrescentando que parou de beber álcool, café e de fumar cigarros.

Tudo parece bem, e de verdade está. “Estamos trabalhando em um álbum novo”, ela me conta. “Começamos a trabalhar nele nesse verão, estamos só escrevendo. Novas melodias e novas letras. E tirando férias também”, acrescenta. Mas logo se corrige: “Embora, bom, esse tempo de folga nunca acaba sendo folga de verdade!”

Quando não está compondo, mergulha na música de outras formas: “Passei por uma fase de descobrir todos os discos dos anos 90. Também to ouvindo uma banda francesa chamada Le Vasco, dubstep eletrônico, muito bom. E FKA Twigs, você conhece?” Claro, respondo. “Eu realmente gostei do disco.”

Nos despedimos. “Au revoir”, ela me fala. E depois que desliga, me lembro de um textos que ela escreveu. A frase dela fica ecoando na minha cabeça. “Me sinto orgulhosa da minha geração.”

617Shares

Related Stories

5 Comments

  • Renata Castro
    5 years ago

    Clarissa, parabéns pela entrevista. Sou fã da Jenny e do Savages, que foi um dos motivos por eu ter ido ao Lolla 2014. E o show delas foi um dos melhores que vi ano passado, inclusive citei no meu blog, caso queira conferir: ww.radarereflexo.blogspot.com.br. Super ansiosa pela segundo álbum delas!

  • […] Em outro ambiente, parece difícil acreditar que essa força venha de quatro mulheres, especialmente a mignon Jehnny Beth. O rosto de traços finos, olhos pequenos e maçãs do rosto salientes transparece à primeira vista muito mais delicadeza do que ferocidade, e com frequência elas são jogadas ao estereótipo do que significa ser mulher e feminina. “Vocês parecem assustadoras”, é a reação carregada de ironia de Michael Gira, vocalista do Swans, uma das bandas mais sombrias da atualidade, quando as conhece pela primeira vez na Holanda. Uma semana depois, dessa vez na Polônia, a reação é outra: “a gente recebeu uma mensagem em que ele pediu desculpas pelo comentário estúpido. Ele disse que nos pesquisou online e que acha que somos impressionantes, que ele admira nossa sinceridade e a disciplina da nossa selvageria”, são as palavras de Jehnny. LEIA MAIS. […]

  • […] ENTREVISTA – Jehnny Beth, do Savages: “Você não pode ter paz sem fúria.” […]

  • […] ENTREVISTA – Jehnny Beth, do Savages: “Você não pode ter paz sem fúria.” […]

  • […] em show solo. As melhores apostas foram, na minha opinião, a estranha e encantadora Lorde e a fúria das mulheres do Savages, que deixaram todo mundo da plateia (pequena) em um transe coletivo na apresentação ao vivo de […]

Leave a Comment

Leave A Comment Your email address will not be published