Entrevista: Ungulani Ba Ka Khosa – “A literatura quebra fronteiras”

Entrevista: Ungulani Ba Ka Khosa – “A literatura quebra fronteiras”

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(Publicado na CartaCapital)

O premiado escritor moçambicano Ungulani Ba Ka Khosa escreve livros que mais poderiam ser socos no estômago. Quando indico pra alguém, aviso: se prepara, porque vai doer. Ungulani faz 60 anos em 2017, escreveu quase dez livros e inclusive se aventurou pela literatura infantil. No fim do ano passado, ele esteve no Brasil para o lançamento de seu incrível Orgia dos loucos, lançado pela Editora Kapulana, e eu tive a chance de conversar com ele. Foi quase uma hora de troca de experiências e ensinamentos gigantes. Saí de lá com um livro autografado e a certeza de que tinha acabado de conhecer um grande homem.

Moçambique conquistou sua independência num passado bastante próximo – 1975 – e as artes, especialmente a literatura, foram importantíssimas para a revolução (Ungulani cita a maravilhosa Noémia de Sousa – melhor livro de 2016 pra mim). Ainda hoje é um país com grandíssimas discrepâncias entre o campo e a cidade, que ele explora em seu lançamento por nossas terras – embora Orgia dos loucos tenha sido publicada originalmente em 1990. Nele, o campo é quase um personagem, cenário árduo e sudorento dos contos doloridos, crueis, crus, e muito reais. “A literatura tem que estar ligada a uma realidade cultural forte”, ele declara.

É assim mesmo que ele nos fala sobre violência, morte, pobreza. Aliás, fala talvez não seja o verbo certo: ele mostra, com imagens fortes, linguagem em sincronia perfeita com o tema, personagens pungentes e descrições certeiras e arrebatadoras. O segundo conto do livro – e o meu favorito – explora com maestria a violência contra mulher, o que, saído de um escritor homem, é um tremendo elogio. O livro é curto, mas não é daqueles que devemos ler com rapidez: é pra se ler e se pensar. Ungulani fala que “o texto em si tem que se pensar por si próprio”, e é verdade. Mas nós temos que pensá-lo também.

Mesmo com escritores fortíssimos saídos de lá – Suleiman Cassamo e Aldino Muianga, por exemplo, ambos também publicados no Brasil pela Editora Kapulana – o povo do país ainda sofre do “complexo de vira-lata”. Ele conta que ouviu o termo pela primeira vez em São Paulo e que ele é perfeitamente adequado para aquela realidade também.

Quando fala de literatura infantil, a lição é uma só: não subestimar a inteligência das crianças. Voltando ao nosso país, ele disse apreciar literatura brasileira, mas conhece pouco. Em Moçambique, não existe acesso à literatura brasileira contemporânea, e os autores que chegam lá são os que já estão mortos. Para ele, isso é motivo de muita tristeza. Ele ainda faz uma provocação: percebe que mesmo no Brasil não existe muita comunicação entre as produções literárias regionais, que poucas vezes extrapolam os limites geográficos. Em geral, são autores do eixo Rio-São Paulo que conseguem atenção. Mas garante: “a literatura quebra fronteiras”.

A gente concorda. Assista às melhores partes da entrevista:

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