Taylor Swift, medo de envelhecer e “Enfim, 30”: esses são os melhores anos da sua vida?

Taylor Swift, medo de envelhecer e “Enfim, 30”: esses são os melhores anos da sua vida?

1430Shares

– Você tem 24 anos, já vendeu 30 milhões de discos, tem 7 Grammys… onde você imagina que vai estar daqui 24 anos? – a entrevistadora pergunta. – Você vai ter quase 50 – completa.

– Eu… eu espero que eu consiga me permitir envelhecer com graça e serenidade – é a primeira coisa que Taylor Swift responde. – E eu espero poder envelhecer sem ter tanta ansiedade em relação a isso. Muita gente, principalmente pessoas públicas, costumam pensar que envelhecer diminui seu valor e sua relevância. E eu realmente espero que com o tempo eu ganhe mais sabedoria, use para o bem, e não permita que meu cérebro crie ansiedade em cima de algo que é natural, acontece com todo mundo.

Eu só percebi que tinha trancado a respiração porque expirei com força quando ela terminou de responder. Eu também tenho 24, e muitas ideias sobre os próximos 24 anos. Mas foi esse ano que eu percebi que eu não sou mais “tão nova assim”. Foi esse ano que eu senti meu corpo reclamar mais do que o normal pela falta de sono – e reclamar pela primeira vez do meu sedentarismo. Começar a ter uma conduta mais saudável diante da vida pareceu se tornar quase obrigação, uma mudança da perspectiva antiga de escolha.

Ter 20 e poucos anos é a melhor coisa do mundo – é só olhar pras personagens de séries e filmes da TV, pras modelos de propagandas, pros mil textos no Facebook que explicam com razões sensacionalistas que “estes são os melhores anos da sua vida”. Pra alguém com ansiedade crônica como eu, é compreensível prender a respiração pensando que minha felicidade tá acabando – que a conjunção estrelar que tornaria essa década maravilhosa já tá na metade. E tem só um ano que eu comecei a tomar anti-depressivo e senti pela primeira vez na vida o que é viver sem depressão!

Inspira, expira, Clarissa. Tá tudo bem. “Você nunca vai ser tão bonita como é agora”, alguém sopra no meu ouvido. “Vai ficar mais difícil emagrecer”. E essa nem é a pior parte: quando a paranoia chega, começo a pensar em como aos poucos minhas capacidades físicas vão se deteriorar. Minha visão sempre perfeita, minha destreza com as mãos, minha flexibilidade e resistência física. Até quando vou conseguir ler e escrever? E desenhar e pintar? E pensar? Meu deus, até quando vou conseguir pensar com a mesma agilidade que penso hoje?

Inspira, expira. Com 10 anos meu sonho era ser ginasta olímpica e me explicaram que era tarde demais pra começar.

A crise dos 30 chegou na minha vida cedo demais – mas tudo bem, eu sempre fui meio precoce. Lembro ainda a primeira vez que vi aquele episódio maravilhoso de Friends em que uma Mônica bêbada encara a nova década. Esse episódio é, talvez, a única coisa engraçada sobre isso. É com essa ideia na cabeça que o livro Enfim, 30, lançamento da duplinha que a gente adora Jana Rosa e Camila Fremder, chega em minhas mãos.

O livro tem aquele tom bem humorado e ocasionalmente auto depreciativo que a gente já conhece do sucesso anterior, Como ter uma vida normal sendo louca. Só que dessa vez o que entra em cena, mesmo de uma forma leve que faz a gente rir, é esse drama ainda maior pras mulheres: envelhecer. Mas a primeira coisa que o livro faz, de longe, é quebrar estereótipos.

Logo nas primeiras páginas o “pacote de cobranças” da juventude eterna começa a ser questionado, e vai evoluindo em capítulos sobre botox, em parágrafos sobre cirurgias plásticas (sabia que em 2013 foram feitas 1.49 milhão de plásticas só no Brasil? Valeu Jana e Camila pelo dado), e discussões sobre aquela coisa que enche o saco das mulheres desde que elas têm, sei lá, 10 anos: viver pra ser bonita. Que tal viver pra ser feliz?, elas perguntam.

A crise dos 30 em muito se deve ao famoso retorno de Saturno, o planeta regente de Capricórnio (o que já explica a chatice disso tudo, vamos combinar). O ciclo completo do planeta acontece a cada 30 anos e nesse primeiro ele vai ensinar a gente a amadurecer. “Saturno é o corte para a realidade, então é a gente conseguir lidar com ela, saber estabelecer limites. O grande sofrimento de Saturno é o confronto entre o ideal e a realidade”, o livro nos explicas. As angústias de enfrentar uma nova fase da vida são próprias pra cada um, e essa em especial encontrou ressonância em mim. (Tem um capítulo inteiro sobre isso com uma astróloga incrível, e fala também de crise dos 40, e é meio assustador mas muito maravilhoso, acho que é meu capítulo preferido aliás.)

“Não acredite na Gisele Bündchen e no Mark Zuckerberg”, elas mandam em forma de título de capítulo. Com anedotas que todos conhecemos de uma forma ou de outra, elas traduzem de onde vem a pressão para que, antes mesmos dos 30, já sejamos completamente resolvidas profissionalmente. E ricas. E muito lindas. E famosas. E namorando um galã do cinema. Em casa, eu costumo fazer comentários como: “Você sabia que com 20 anos a Jennifer Lawrence já tinha sido indicada ao Oscar? E agora ela já recebeu tantos prêmios que tem um artigo na Wikipédia exclusivo pra isso?” Meu namorado me olha com pena e fala, “Mas Clarissa, você tá se comparando com as exceções!”

É claro que nos comparamos com as exceções. Queremos ser as exceções.

Por outro lado, Meryl Streep, que já foi indicada tantas vezes ao Oscar que virou piada, ganhou o seu primeiro só aos 30, como atriz coadjuvante. A quantidade de histórias de pessoas não tão jovens assim que são bem sucedidas é imensa, só que elas não são interessantes – quanto mais jovens, mais desesperados ficamos, e mais gastamos em fórmulas mágicas pra rejuvenescer. Essa e várias outras histórias, todas um combustível na nossa auto-estima, são contadas num dos últimos capítulos, pra gente acabar o livro com um sorriso no rosto.

Mas a questão mais importante que elas trazem, e que eu já falei aqui, talvez seja: que tal ser feliz? Destruindo as noções do que é “ser bem sucedido”, aos 30 ou em qualquer idade, elas questionam maternidade compulsória, heteronormatividade, machismo e uma série de regras que supostamente devemos seguir pra atingir a almejada felicidade, e nos ajudam a descobrir o que nos faz feliz, sem se importar com o resto do mundo. (E o mais impressionante: elas falam de todas essas questões sérias e profundas com bom humor e uma linguagem que parece que a gente tá lendo uma comédia romântica leve, e não mergulhando em medos, colocando em cheque cobranças sociais e revolucionando a forma de ver nosso próprio crescimento.)

E principalmente: elas destroem a ideia de que os melhores anos da sua vida são agora, aos 20 e poucos. “Essa ideia está diretamente relacionados a ter dinheiro, homens altos (no caso sou hétero então é uma experiência minha) e festas muito loucas em várias cidades incríveis do mundo”, Jana reflete em entrevista para o blog. Camila completa: “Tive vários anos maravilhosos, hoje tenho 34 e posso dizer que amei os 15, os 18, os 25, os 28… Espero aos 90 dizer o mesmo de várias idades”.

Ler esse livro agora me deu uma tranquilidade em relação aos 30, e me fez esperar que elas tenham edições sobre os 40, 50, 60 e assim por diante pra me ajudar a ultrapassar todas essas mudanças, porque é tipo uma terapia intensiva que, ainda melhor, dá pra voltar e reviver a hora que quiser.

Escrever o livro também teve esse efeito terapêutico, elas contam no Petit Comitê. Mas envelhecer ainda é um desafio: “Ainda não pensei [nos próximos 30 anos] e me dá muito medo, tenho muito medo do futuro em geral, porque sou ansiosa e quero saber tudo o que vai acontecer e se vai dar certo o que planejei, então só de pensar em ter 31 já sofro, sofro por tudo, sou canceriana, sofrer é meu freela fixo”, Jana confessa, e me sinto um pouco menos sozinha (e esperançosa, porque motivos pros próximos livros tão aqui, viu, gente).

E se Taylor soube traduzir o que eu quero também, Camila dá a lição final: “Acho que vou adorar os 60, ninguém vai reclamar da minha falta de animação para festas”.

Opa, não era essa. É essa aqui: “Nada que eu imaginava que iria acontecer aos 30 quando eu era uma adolescente aconteceu, não arrisco imaginar mais do que isso.” Então que tal viver pra ser feliz? Pra terminar em clima de sabedorias, agora é a vez da Jana: “Acredito em melhores dias da sua vida espalhados em todos os anos”.

f8e65430-154f-0132-70cb-0add9426c766

Já comprou o livro? O quê? Ainda não? Então vem logo. É o investimento terapêutico mais barato da sua vida.

1430Shares

Related Stories

1 Comment

Leave a Comment

Leave A Comment Your email address will not be published